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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

CRÍTICO FELIZ É AQUELE QUE ESCREVE SOBRE ÓPERA. O BARBEIRO DE SEVILHA NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO



Foto, cena de O barbeiro de  Sevilha, foto Internet.

Estreou a primeira ópera da temporada no Theatro Municipal de São Paulo. O problema é que ninguém sabe quando será a próxima, ou se existirá próxima. Críticos de ópera felizes são aqueles que se concentram e escrevem sobre os espetáculos em si. Nós no Brasil somos poucos e temos que nos preocupar em reclamar das lambanças administrativas pelo Brasil afora. Ultimamente críticas de óperas estão ficando raras e em segundo plano devido à falta delas nos teatros nacionais.
   A questão que faço é quem escalou o elenco da ópera O Barbeiro de Sevilha de Rossini? Sabemos que o Teatro Municipal de São Paulo não tem um diretor artístico, então fica a pergunta, quem é o responsável pela escalação dos solistas? Alguém da Secretaria Municipal de Cultura, da Fundação Theatro Municipal ou do Instituto Odeon. Digo isso porque os solistas mostraram desigualdades vocais únicas, alguns feras e outros imaturos.
   O Figaro de Michel de Souza apresentou voz correta, bem postada com boa atuação cênica. Luisa Francesconi oscilou vocalmente, já a vimos estupenda em outros tempos. Não encontrou no dia 14 de Fevereiro a melhor voz para a personagem Rosina. 
   Jack Swanson é jovem e despreparado para interpretar o Conde de Almaviva, sua voz pequena, sem brilho e de pouca projeção é inapta a um solista. Sávio Sperandio e Carlos Eduardo Marcos são cantores experientes e entregaram excelentes Doutor Bartolo e Don Basilio. 
   Desse vez não teve "Nabuccada"! Cleber Papa opta por uma direção clássica e segura. Tudo fica envolvente, agradável e impactante. A movimentação dinâmica dos envolvidos faz o enredo fluir arrancando gargalhadas do público. Os cenários e figurinos de José de Anchieta transportam a ação para a época do libreto, típicos da Commedia Dell'Arte. Os cenários simples e figurinos coloridos dão o tom cômico correto. Acertaram em todos o quesitos.
   A Orquestra Sinfônica Municipal regida pelo sempre competente Roberto Minczuk apresentou sonoridade  e volume compatível com a ópera. Alguns desencontros com os solistas se fizeram presentes. A ideia de colocar a abertura da ópera com a orquestra suspensa no fosso não ajuda e não atrapalha. O Coro Lírico esteve mais uma vez em grande nível sempre recheado de solistas. Muito bem ensaiado por Mário Zaccaro.
  Acabo de ser informado que teremos a ópera Rigoletto de Verdi no Theatro Municipal de São Paulo. Temos que depender de fontes para sabermos o que será apresentado, por que a direção não se manifesta e informa a temporada de 2019?

Texto de Ali Hassan Ayache

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O AMOR CLAUSTROFÓBICO DE KÁTIA KABANOVÁ




Cena de Katia Kabanová, foto internet

Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera & Ballet
   
Uma das características marcantes dos últimos anos do Theatro São Pedro é a apresentação de títulos de ópera raros e poucas vezes vistos pelo público paulistano. Kátia Kabanová é um desses nomes que você nunca espera ver ao vivo em sua cidade. Segundo o teatro essa ópera é inédita no Brasil. A obra prima de Leos Janácek teve estreia no dia 17 de Agosto em São Paulo. 
   
O compositor tcheco compôs parte expressiva de sua obra nas duas últimas décadas de vida. Um amor fulminante por uma jovem, de então 25 anos de idade, fez a inspiração do compositor tcheco aflorar de maneira arrebatadora. Bons tempos que o amor ainda provocava grandes inspirações melódicas.
   
A ópera em três atos Kátia Kabanová é, ao lado de Jenufa, a obra prima do compositor. Inspiração elevada ao limite, que representa a dor apaixonada do ser humano.  Música extremamente pessoal, composta com frases curtas e repetitivas que não se adaptam a nenhum gênero. Óperas de Janácek não têm grandes árias e sim recitativos com personagens simples, humildes e ao mesmo tempo complexos. 
   


Gabriela Pacce, arrebatadora como Kátia Kabanová   

O importante é a música, que mostra o caráter dos personagens. A orquestra narra a ação e nela expressa profundas emoções. As falas são coadjuvantes. Janácek constrói linhas melódicas adequadas a cada personagem, música que reflete o sentimento e o caráter. De beleza única e um lirismo que faz chorar o mais frio dos machões.

A Orquestra do Theatro São Pedro nas mãos de Ira Levin capta a alma da música. Entregou sonoridade forte e enfrentou uma partitura complexa com destreza. A leitura correta do regente realça a música, o lirismo e a expressão minimalista das frases. Levin ao reger Kátia Kabanová prova que conhece ópera e suas peculiaridades. Cada período operístico tem suas características musicas e nuances. 

A concepção de André Heller-Lopes apresenta elementos do conservadorismo da sociedade de época. Personagens vivem em um mundo fechado e de poucas mudanças, consegue juntamente com  belos cenários, figurinos adequados e uma luz poderosa efeito visual impactante. O resultado é uma encenação moderna e adequada ao pequeno palco do teatro.

  A escalação acertada do elenco contou com os melhores solistas brasileiros da atualidade, a maioria no auge vocal e cênico. Um timaço liderado por Gabriela Pacce espetacular como Kátia Kabanová, Eric Herrero sempre competente como Borius, Luiza Francesconi e seu timbre divino encantou como Varvara. 

A volta de Claudia Riccitelli aos palcos brasileiros mostra que o soprano continua em grande forma vocal. Vinícius Atique poderoso como Kuligin, Sávio Sperandio interpretou Savjol e mostrou mais uma vez que é um excelente baixo e Tati Helene arrebatadora como Glasa. Destoa de todos o tenor Juremir Vieira, falhou no início, embora tenha melhorado ao longo da récita. 

Ali Hassan Ayache

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

TURANDOT NO THEATRO DA PAZ - MONTAGEM DIGNA DE UM GRANDE TEATRO




Crítica de Ali Hassan Ayache no blog de ÓPERA & BALLET.

Turandot é a principal atração do XV Festival de Ópera do Theatro da Paz, toda a genialidade melódica de Puccini está presente nessa obra, não por acaso ela é sucesso desde a estreia. Turandot é uma ópera repleta de curiosidades: Puccini não a terminou, faleceu antes de completar o gran finale, esta tarefa ficou a cargo de Franco Alfano. A regência da estreia coube a Toscanini, dizem as más línguas que o famoso maestro não gostou do final composto por Alfano e parou a récita informando ao público "senhoras e senhores, aqui parou Giacomo Puccini", interrompeu a recita por alguns minutos e depois retornou. Turandot é a protagonista, mas está longe de ser a heroína querida deste petardo de Puccini, a moça odeia um casamento e corta a cabeça do nobre que não decifrar os três enigmas por ela propostos, pensa que assim nunca vai se casar, isso não cria empatia. Liu é a personagem queridinha do público, canta árias belíssimas e se mata em nome do amor que nutre pelo protagonista, nada mais emocionante que isso. Dito isso ao respeitável leitor vamos a Turandot apresentada no Theatro da Paz no dia 23 de Setembro.

A direção de Caetano Vilela representa o respeito à obra de Puccini, ultimamente diversos compositores tem em diretores de cena como sócios que adoram modificar e muitas vezes profanar a obra. Felizmente não é o caso de Vilela, a falta de cabelos e o calor paraense não queimou seus neurônios, ambientou a ópera na china imperial conforme está no libreto. Sua direção cênica prima pelos detalhes exemplo disso é o posicionamento dos solistas e a movimentação das massas corais, sempre correto e de acordo com o enredo. As cabeças penduradas, mais de 70 feitas de Meriti são a lembrança do que acontece com quem se atreve a desafiar os enigmas de Turandot e são uma inteligente contextualização. Coloca o rei, este munido de um figurino amarelo imperial, no alto dando-lhe majestade. O contraste das cores dos figurinos deixa o espaço cênico com beleza inconfundível. Sua heroína é fria, gelada e densa na emoção, seu vestido branco é símbolo da pureza e da frieza. O painel do terceiro ato destoa dos dois primeiros, a perca de padrão é compensada com cores que se alternam conforme o andar da cenas. O final é uma apoteose, Turandot simbolicamente perde a pureza, nela é colocado um manto vermelho, deixa assim de ser a pura e gélida heroína para se tornar uma mulher apaixonada. Some o painel e o vermelho toma conta da cena, lado a lado Turandot e Calaf sobem as escadas e celebram a eternidade do amor. Uma leitura tradicional e ao mesmo tempo moderna da obra, com sacadas inteligentes e soluções criativas.  

Os cenários são grandiosos e perfeitamente adaptados ao palco do Theatro da Paz, Roni Hirsch o recheia com referências chinesas, o jogo Tangram e o ano do Tigre são algumas delas. Peças montadas e desmontadas no palco incrementam o enredo. Os figurinos de Adán Martinez lembram a China imperial e estão de acordo com o proposto pela direção. A montagem é digna de um grande teatro, tem nível para ser apresentada nos grandes palcos do mundo. 

Destaque de Turandot é o Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz, a preparação de Vanildo Monteiro é primorosa, lembro aos leitores que seus componentes são amadores. Com preparação exaustiva o regente consegue uma sonoridade digna dos coros profissionais, o equilíbrio nos naipes e a correta sonoridade é resultado de toda a dedicação. A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz regida por Miguel Campos Neto mostrou sonoridade correta com andamentos compatíveis com a ópera. 

Como disse acima a personagem Liu tem árias de grande beleza, isso não quer dizer que sejam moleza para o soprano. Luciana Tavares tem um timbre que navega entre o lírico e o potente, só não consegue uma Liu irretocável devido à carência técnica. Quem não tem falta de técnica e sabe como emocionar o público com seu vozeirão é o tenor  Richard Bauer. Apresentação irretocável com grandes agudos, potentes firmes e seguros aliados a uma interpretação cênica correta fazem de seu Calaf uma apresentação memorável.

Esperava mais do soprano Eliane Coelho, não adianta falar que já cantou aqui ou acolá nos melhores teatros do mundo. Sua Turandot foi mediana no segundo ato, voz sem brilho e um timbre inconsistente. Melhorou no terceiro com volume e potência exibindo um lirismo peculiar, mas nada empolgante. Sua apresentação cênica esteve correta, fria como o branco de seu vestido. Quando penso em Turandot imagino uma voz explosiva e quente de soprano dramático com um timbre escuro, agudos potentes e não gritados, dicção e fraseado impecáveis e uma superlativa capacidade de penetrar profundo na alma apenas com o poder vocal. Infelizmente esses atributos passaram longe de Belém.

É com imensa alegria que vejo bons cantores se dedicando e explorando possibilidades em papéis menores. A começar pelo vozeirão de Homero Velho (Ping), um barítono detentor de graves volumoso, a correção vocal e sensibilidade interpretativa de Mauro Wrona (Altoum), a excelente atuação cênica de Sávio Sperândio (Timur) e pelos agudos sempre afinados de Giovanni Tristacci (Pong). Idaías Souto (Mandarim) tem que evoluir como cantor, conseguiu falhar, quebrando notas em sua curta apresentação 

O XV Festival de Ópera do Theatro da Paz está na maturidade, à formação do público é uma realidade constatada pelos ingressos sempre esgotados para todas as récitas e pelos comentários ouvidos do público dizendo que sempre assiste aos eventos. Fiquei comovido ao ouvir um relato de uma senhora, diz ela que chegou no primeiro dia de vendas de ingressos as sete da manhã e viu a fila dar volta no teatro. Não se deu por vencida, saiu as onze com os bilhetes desejados na mão. Isso faz que acreditemos na ópera como arte que atrai interesse . O Festival de Ópera do Theatro da Paz é o maior do Norte do país e o público responde com sua presença. Que continue por muitos anos!


Ali Hassan Ayache viajou à Belém do Pará a convite da direção do XV Festival de Ópera do Theatro da Paz.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A VALQUÍRIA /Die Walküre, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Julho 2013

Luis Fernando Neumann, de Niteroi, teve a gentileza de nos enviar há poucos dias uma apreciação da Valquíria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Muito obrigado pelo texto que, agora, fica acessível a todos os leitores deste espaço. Aqui o publicamos na íntegra:


 Todas imagens obtidas na página do facebook do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Estive na Valquíria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro no último 17 de julho. Casa cheia mas não lotada em contradição com a faixa “lotação esgotada” pregada no cartaz à frente do Municipal... Ao que parece, os cambistas também gostam de ópera!
Essa foi minha segunda Valquíria, mesma montagem mas músicos e orquestra diferentes da primeira, A Valquíria do Municipal de São Paulo, dois anos atrás.
As impressões de agora, são mais críticas e menos moldadas pela emoção do primeiro Wagner ao vivo.
De antemão, posso dizer que gosto dessa proposta desse “Anel Brasileiro” entretanto parece faltar um fio condutor que realmente una Valquíria e Crepúsculo dos Deuses. A conferir no próximo Ouro do Reno.

Assisti essa etapa do Anel no anel superior do Municipal com visão simultânea do palco e do fosso da orquestra. Entendi a razão de Wagner “esconder” a orquestra em Bayreuth. As luzes que iluminam os estandes das partituras dos músicos são como cantos de sereia e atraem o olhar e competem com o palco. Ponto ruim. Existe, claro, outro lado. É sempre gratificante acompanhar determinada passagem orquestral olhando para a orquestra, ver que o tema está nos cellos e contrabaixos...

A abertura da peça continua impactante. As oscilações dos cellos e baixos são acompanhadas por chamas oscilantes daqueles que caçam Siegmund.
Siegmund entra com a cara pintada como um palhaço de circo, uma sugestão,  demasiadamente direta talvez, dele ser um joguete dos deuses. Com a evolução do ato e o crescimento do seu personagem, a maquiagem é removida aos poucos. Entretanto, tal recurso cênico contaminou o cantante. Em momento algum, por expressão facial e/ou gestual corporal, Zvetan Michailov transformou-se no herói. Permaneceu um palhaço ou ainda um caixeiro viajante (roupa e barriguinha...) que bateu na casa errada nesse ato, foi escorraçado e quase mija nas calças no segundo ato. Um contraste imenso com a imensa presença cênica de Sávio Sperandio que vocal, gestual e facialmente foi um esplêndido Hunding. Eiko Senda proporcionou uma muito satisfatória Sieglinde. O gestual e voz transmitiram perfeitamente as oscilações de humor da personagem.

O primeiro ato é o menos brasileiro desse “Anel Brasileiro”. Digo isso por ignorância, desconhecimento de algum elemento cultural brasileiro que se compare com a simbologia nórdica que está no palco. No centro do palco está Yggdrasil (quase YggBrasil...) a árvore (ou o freixo ou ainda o teixo) do mundo. Aqui, parece ter havido uma correção em relação à encenação do Municipal de São Paulo, onde a ação do primeiro ato se passava em frente às raízes de Yggdrasil. Suas raízes (o reino dos Nibelungos) e topo (Asgard e/ou Valhall, reino dos deuses) não pouco visíveis, uma mera sugestão. Vê-se apenas o centro da árvore (Midgard, lugar dos homens, nosso lugar). Em algum lugar desse tronco central, está cravada uma espada, infelizmente pouco visível mesmo quando o drama exige que a espada passe a ser o ponto focal da ação. À esquerda, o elemento brasileiro, uma mesa com tampo de vidro, como a que tenho em minha casa...

Na imagem, Sávio Sperandio e Zvetan Michailov.


Na imagem, Eiko Senda e Zvetan Michailov.
 
 O segundo ato sim, é inspiradoramente brasileiro. Uma sala de ex-votos onde são depositados os pagamentos das promessas feitas a Nossa Senhora, ao menino Jesus ou a algum santo. Retratos, braço, pernas e rosto de plásticos espalhados. Começa com Wotan e 8 das suas filhas unidas por laços de fita. Entretanto, ao invés de enrolar as fitas no mastro (ou em Wotan) são as Valquírias que se enrolam nas fitas, em um agradável e muito funcional alegoria do comando que Wotan tem sobre suas filhas menos Brünnhilde, o que pode ser signo da sua relativa independência. Wotan aqui está caracterizado como o próprio Wagner, uma homenagem ou cópia do Wotan de Chéreau. Lício Bruno caracterizou muito bem Wotan. Aliás, é chover no molhado elogiar a presença cênica de Lício Bruno. Os dois momentos centrais da Tetralogia foram bem resolvidos. Quando Denise de Freitas entrou como Fricka, eu pensei: Lá vem Dona Hermínia (e isso é outra história, talvez o Anel de Niterói...). Ela entra armada para brigar e dobrar Wotan. O faz com galhardia. Wotan é desmascarado. Segue o seu grande monólogo e, para mim, razão que levou cenicamente à sala dos ex-votos.

Na imagem Eliane Coelho e Licio Bruno

 No seu lamento a Brünnhilde (Eliane Coelho), Wotan conta como tentou moldar seu herói e representação cênica deixa bem claro como falhou. Ele pega pernas e braços e uma cabeça pendurados e os coloca no chão. São disformes. O deus não tem o poder, e não pode moldar um herói que não fique contaminado pelo deus. Surge outro elemento cênico que pode ter sido inspirado pelo Anel de Chéreau. Lá a mortalha que envolve Siegmund, aqui um véu branco que passa de Sieglinde para Brünnhilde. O véu envolve (cega? protege?) Sieglinde no seu desesperado lamento antes da morte de Siegmund. O ato termina dramaticamente bem. Hunding morre enforcado pelo laço de Wotan, ou outro que foi enredado pelos planos dentro de planos do deus. O Geh’ hin, knecht – vai escravo funcionou muito bem.

O terceiro ato começa como uma cavalgada, uma folia de reis, ecos do nosso passado ibérico, mouros e cristãos. A mais brasileira da cavalgada das valquírias. Belas valquírias, belas vozes, talvez faltasse um pouco de força para a orquestra, metais principalmente. As valquírias sobraram. Verushka Mainhard, Daniela Carvalho, Magda Belotti, Carolina Faria, Maira Lautert, Flávia Fernandes, Marina Considera e Daniela Mesquita, belas vozes, bela presença de palco, bela presença feminina. Eu esperava mais do Leb wohl du kühnes herrliches Kind. A orquestra abafou Licio Bruno que já mostrava cansaço. E, certamente, excesso de expectativa, culpa das facilidades atuais de you tube (George London) e/ou DVD, Donald McIntyre... Entretanto, no anúncio do herói mais livre que o deus, o papel se inverteu. Licio Bruno soberbo na passagem e falta de pegada heroica da orquestra no tema de Siegfried.
Quanto à orquestra do municipal, conduzida por Luiz Fernando Malheiros foi bem. Eu não tenho ouvido e tampouco experiência para julgar criteriosamente mas até o final do segundo ato, eu julgava ter ouvido uma ou outra escorregada da orquestra. No intervalo, uma senhora ao meu lado que, de tempos em tempos, regia a orquestra em algumas passagens, falou-me, desalentada, dos metais: “falta ensaio, falta ensaio... Ah esses metais, desafinaram”. De minha parte, sem ter como criticar de ouvido, critico de sentimento. Faltou pegada heroica em alguns momentos.
Todas as vozes femininas surraram as vozes masculinas, impiedosamente. Suas vozes encheram o Municipal, não foram abafadas pela orquestra e transmitiram corretamente as indicações mentais dos personagens.

Das vozes masculinas, salvou-se Sávio Sperandio, soberbo como Hunding. Impostação, volume e adequação ao momento que o papel exigia. Corretíssimo.
Lício Bruno, mesmo baixinho para Wotan (com o perdão da linha do politicamente correto) compensou cenicamente a inadequação da sua voz (volume, timbre) para o papel de Wotan.
Já o tenor... Ah, o tenor Zvetan Michailov . Foi um pecado terem escalado um tenor ligeiro (minha descrição) para um papel que exige um heldentenor. Não posso falar de desafinação dele. Não tenho ouvido ou formação para tanto. Todavia, repito o que disse acima. Em momento algum se viu em cena um heroi. Viu-se um Verkäufertenor, um tenor caixeiro viajante. Faltou postura tanto facial como corporal para nos momentos onde Siegfried mostra-se o herói que fora e ainda poderia ser.

Tudo somado, continuo maravilhado com Wagner e com esse Anel Brasileiro.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Nabuco - Theatro Municipal do Rio de Janeiro - 27/07/2011


Aqui está o primeiro texto neste blogue sobre uma ópera no Brasil. É mais uma excelente contribuição de Eduardo Vieira ( Visite o seu blogue: http://pitacosdoeduardo.blogspot.com/). Espero que, em particular, os muitos leitores brasileiros do blogue se sintam tão orgulhosos com ele quanto nós.
Muito obrigado, Eduardo, em nome dos Fanáticos da Ópera / Opera Fanatics.

Já tinha escrito a maior parte da crítica sobre esta montagem quando soube que esse seria o primeiro texto do blog sobre uma montagem brasileira.

Sendo assim, decidi incluir um preâmbulo sobre o nosso mais tradicional Teatro Lírico, suas origens e sua recente restauração (que terminou ano passado).

Na segunda metade do século XIX, havia na cidade, que era a capital do Império Brasileiro, intensa atividade lírica. O Imperador Pedro II era um verdadeiro fanático por ópera. Para se ter uma ideia, ele esteve presente a inauguração de Bayreuth, alem de ter convidado Wagner para produzir uma ópera no Brasil (pelo que li, o compositor chegou a ficar tentado pela vasta soma, mas amarelou de encarar a "selva").

Existiam diversos teatros onde se levavam óperas e saraus, sendo os dois principais o Theatro Lírico e o São Pedro, mas todos eram muito criticados seja pelas instalações, seja pela qualidade das companhias que se apresentavam.

De 1894 até 1909 (quando foi inaugurado), houveram muitas polêmicas em torno da construção de um Teatro Lírico nos moldes da Comédie Francaise. O projeto acabou sendo a junção de dois finalistas de um concurso. De sua construção participaram diversos artistas famosos da época, como Eliseu Visconti.


 Possuindo 4 andares (platéia, balcão nobre, balcão simples e galeria), o Theatro acomoda hoje 2361 lugares.


 O TMRJ teve grandes momentos na segunda metade do século XX, quando chegou a ter uma montagem de La Traviata onde Calas e Tebaldi se revezaram no papel principal.

Pessoalmente, é difícil avalia-lo. É onde assisti minha primeira ópera (Rigoletto, em 1989, na última cadeira da galeria!!). Tenho uma ligação emocional com o lugar. Fico muito chateado com a pouca quantidade de récitas que temos anualmente, mas é o meu teatro preferido. Não tem pontos cegos, tem excelente acústica e é lindo (espero que as fotos ajudem). Já passou por diversas reformas, sendo a mais importante a que começou em 2008 e terminou em 2010, da qual apresento o video comemorativo a vocês. (eu assisti dentro do Theatro, na sua reinauguração, quando foi levada uma montagem de Il Trovatore. A montagem foi razoável mas o vídeo foi o ponto alto da noite. Vale a pena ver!

http://www.youtube.com/watch?v=gU7gq8v7bFc

Dito isso, vamos a ópera:

Nabuco é a terceira ópera de Verdi e é o seu primeiro sucesso estrondoso. Eu conhecia a história, já tinha ouvido o coral (quem não ouviu?), mas alem disso, pouco conhecia sobre a mesma. Acreditava até ser um trabalho menor, que teria tido mais sucesso pelo seu oportunismo do que pelos seus méritos musicais em si.

Junte-se a isso o fato de que as últimas produções do TMRJ deixaram a desejar e de termos apenas cantores brasileiros, não esperava muita coisa.



Me enganei redondamente. Nabuco é uma grande ópera. E, na minha opinião, foi levada de forma bastante digna aqui no Theatro Municipal, a despeito de críticas que li (principalmente a do senhor Vicente Depércia, de quem nunca tinha ouvido falar até procurar material para escrever esse texto (http://blogdepercia.blogspot.com/2011/07/opera-nabuco-de-verdi-um-fracasso.html)) e que vou discutir ao final.

Eu gostei da concepção de André Heller de dar um caráter atemporal a história, misturando trajes modernos a símbulos assírios. O próprio texto da ópera é atemporal (se referencia a "filhos de David" e a Moisés quando os eventos dessa ópera aconteceram antes disso). A ópera foi escrita ANTES do holocausto, e até hoje existe preconceito. Para mim faz todo sentido.


Se no conceito as coisas estavam certas, não quer dizer que a execução tenha sido sem mácula. Os figurinos, assinados por Marcelo Marques, só funcionaram onde eram óbvios (judeus de terno, judias de véu, branco predominando na hora da morte). Onde eram mais elaborados, realmente ficaram confusos e eu diria até mal-feitos (máscara de papelão nos soldados assírios? Quem teve essa idéia foi pago para isso?).

Do cenário, assinado por Renato Theobaldo, eu gostei. Diversos painéis feitos com tubos geravam a cada cena efeitos diversos, a decoração assíria e ajudaram a narrativa. A iluminação (Fábio Retti), a meu ver, foi funcional, sem grandes pirotecnias. O efeito especial principal (o cair na cabeça de Nabuco) não funcionou.

Vamos aos cantores: a soprano Eliane Coelho fez bom papel com Abigaille. Não tenho como comparar com outras performances, pois não as conheço, mas mesmo que não esteja no auge de sua forma e que esse não seja o seu papel ideal, funcionou muito bem.

A mezzo Denise Freitas tem uma voz muito bonita, um tom mais escuro, que eu gostei muito e achei adequado para a essa ópera, fazendo um bom contraste com a soprano. É interessante ver a "mocinha" sendo a mezzo, enquanto a "vilã" é a soprano. O papel não dá as mesmas chances que tem Abigaille, mas entendo que foi bem defendido.

O baixo Sávio Esperândio, no papel de Zaccaria, foi o melhor da noite. Seu timbre é excelente e sua postura no palco é altamente convincente. Parecia realmente um profeta fanático pregando, com os olhos arregalados, uma coisa!

O tenor Marcos Paulo, no papel de Ismaele, foi a performance mais fraca entre os principais (embora supere, em muito, o tenor que vi fazendo Tosca em Paris). Entrou frio e não chegou em algumas notas no início. Depois melhorou e não comprometeu.

O barítono Rodrigo Esteves, como Nabuco, tambem aparece discreto no início, mas cresce no fim do segundo ato e canta muito bem a sua ária de arrependimento no 4o. ato.

Os papéis menores não me chamaram atenção.

Quanto ao Coro do Theatro Municipal, acho que teve uma excelente participação, numa ópera onde eles são praticamente um personagem e que possuem o principal momento da noite, que teve que ser bisado dados os efusivos aplausos.

Aliás, todas as eventuais falhas de concepção dessa montagem são perdoadas por esse momento sublime onde vemos, os presos, a espera da morte, se regozijarem com a única coisa que nunca nos podem tirar, nossos pensamentos e nossas lembranças. Se você sabe italiano ou lê as legendas, é impossível não ficar embargado. E a montagem cênica ajuda, com alguns coristas subindo nas grades na hora que a musica cresce, como se a música os levasse junto. Vocês podem me dizer que é piegas, que é obvio, o que for, mas funciona. E muito bem.



Retomo a eterna dúvida da condessa de Capriccio (as palavras ou a música?). Nenhum dos dois, a ópera tem que ser, sempre, as duas coisas juntas. Aquele libreto, declamado, seria bonito, mas não seria o que é. A música, sem o contexto, como aparece na abertura, é bonita, mas não traz nenhum efeito maior. Na peça, no contexto, com o coro cantando é algo totalmente diferente. E o pianíssimo do final é a chave de ouro.

Vejo nessa ópera algumas coisas que o Verdi retomaria em outras obras. O final do primeiro ato me lembrou bastante o fim segundo ato de Aída. E o final da ópera é muito bem feito, com a morte da Abigaille e a profecia de Zaccaria.

Enfim, o que dizer das críticas altamente negativas que li (tirando essa que citei, o principal jornal da cidade (O Globo), viu a parte cênica mais ou menos da mesma forma que eu, mas foi crítico em relação aos cantores)? Não sei. Ambos escreveram sobre a estreia, eu já assisti a terceira récita, o que pode fazer alguma diferença. Eu provavelmente sou um melômano menos exigente e não tão erudito. Mas, na verdade, o que eu enxergo nessas críticas é muita soberba.

A opera foi bastante aplaudida, não há como classifica-la como um "um fracasso anunciado" como o senhor Depércia fez. Se ela não atende aos altos requisitos desse senhor, eu vos digo, a maior parte das apresentações comuns (não estou falando das de gala, com cantores do primeiríssimo time) da Ópera de Paris também não. E o ingresso lá é cinco vezes mais caro!

O nosso Theatro precisa é de mais produções, não de menos. Críticas destrutivas só levam as autoridades a cada vez colocar menos dinheiro na ópera. Isso não quer dizer que tenhamos que aplaudir qualquer porcaria que nos entreguem, mas é preciso ser construtivo. Essa montagem agradou ao público que estava lá, e que pagaria para ver novos espetáculos como o de ontem. O que vai nos levar a perfeição é a prática. Mais montagens nos levarão aos poucos a melhores montagens. Mas aparentemente as pessoas preferem ficar em casa assistindo aos seus DVDs.

Texto de Eduardo Vieira