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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

CARMEN, Royal Opera House, Julho / July 2019


(review in English below)

Música fantástica e cantores excelentes numa encenação grotesca, a pior que alguma vez vi na Royal Opera House. E pensava eu que era impossível arruinar a Carmen de Bizet … Estava enganado!



Já comentei aqui esta encenação que vi no início da temporada. O palco está ocupado, do início ao fim, por uma enorme escadaria de madeira que todos os participantes sobem e descem ruidosamente ao longo do espectáculo. Nada mais acontece. Não há acção, não há história (esta vai sendo contada por uma narradora), quase não há adereços, nada para ver. Não houve paixão, energia, cor ou vivacidade. A actuação em palco foi desastrosa, inexistente. 



O ruído constante na subida e descida da escadaria perturba totalmente a audição. A Carmen aparece inicialmente vestida de toureiro e depois de gorila! O que tem o gorila a ver com ela e com Sevilha? E a cena final é inenarrável, amorfa, estática, sem qualquer paixão ou emoção e termina de forma totalmente ridícula, com a Carmen a ressuscitar depois de esfaqueada e a encolher os ombros.
A coreografia é também deplorável, apesar da elevada qualidade dos bailarinos.



Não é habitual ver este tipo de lixo na Royal Opera, mas desta vez uma das melhores catedrais da ópera mundiais permitiu a um encenador australiano, Barrie Kosky, trazer um dos bons exemplos do que habitualmente se designa de Eurotrash! Coitados dos cantores.

Esquecendo a encenação (o que não é possível num espectáculo de ópera), a música foi óptima e o coro e os cantores excepcionais.

A maestrina Julia Jones teve uma direcção de orquestra correcta e respeitou os cantores.



A Carmen foi cantada por uma mezzo francesa que desconhecia, Anaïk Morel. Foi óptima, voz magnífica, sempre afinada, bem audível tanto na frente do palco como no cimo das escadarias e uma figura excelente.




O Don Jose do Bryan Hymel foi muito bem cantado. Para mim este é o melhor tenor norte-americano da actualidade e, como sempre, esteve em grande. Cantou a ária La fleur que tu m’avais jetée de forma superior, apesar de ter lutado com o agudo final.




 Ailyn Pérez foi uma Micaela marcante, de voz muito poderosa e afinada, embora resvalando por vezes para a estridência.



O Escamillo de Luca Pisaroni começou contido, depois melhorou mas, sendo muito bom, não atingiu a qualidade de topo dos restantes.



Nos papéis secundários Stuart Patterson (Remendado) foi muito bom e as restantes interpretações foram fantásticas: Jacquelyn Stucker (Frasquita) e Hongni Wu (Mercédes), ambas jovens do programa Jette Parker da ROH foram deslumbrantes, assim como também o foram mais três jovens deste programa,  Germán Alcántara (Moralés), Michael Mofidian (Zuniga) e Dominic Sedgwick (Dancaïro), o que atesta a excelente qualidade da formação na ROH.






Enfim, cantores excelentes num espectáculo para ver de olhos bem fechados!
A ROH deveria repor a produção anterior de Francesca Zambello, essa sim, digna desta obra prima da ópera.







***** (cantores)
0 (produção / encenação)



CARMEN, Royal Opera House, July 2019

Fantastic music and excellent singers in a grotesque staging, the worst I've ever seen at the Royal Opera House. And I thought it was impossible to ruin Bizet's Carmen ... I was wrong!

I already commented here this production that I saw at the beginning of the season. The stage is occupied, from beginning to end, by a huge wooden staircase that all participants climb and descend noisily throughout the performance. Nothing else happens. There is no action, no story (this is being told by a female narrator), there are almost no props, nothing to see. There was no passion, energy, color or liveliness. The performance on stage was disastrous, nonexistent. The constant noise in the ascent and descent of the staircase totally disturbs the hearing. Carmen appears initially dressed as a bullfighter and then as a gorilla! What does the gorilla have to do with Seville? And the final scene is unmentionable, amorphous, static, without any passion or emotion and ends in a totally ridiculous way, with Carmen resurrecting after being stabbed and shrugging.
The choreography is also deplorable, despite the high quality of the dancers.

It is not usual to see this type of garbage at the Royal Opera, but this time one of the best opera cathedrals in the world has allowed an Australian director, Barrie Kosky, to bring one of the good examples of what is usually called Eurotrash! I feel sorrow for the singers.

Forgetting the staging (which is impossible in an opera), the music was great and the singers exceptional.

Julia Jones was a correct orchestra director and respected the singers.

Carmen was sung by an unknown (to me) French mezzo, Anaïk Morel. She was great, magnificent voice, always tuned, very audible both in front of the stage and at the top of the stairs, and an excellent figure.

Bryan Hymel's Don Jose was very well sung. For me, he is the best American tenor of our days and, as always, he was great. He sang the aria La fleur que tu m'avais jetée very impressively, although he struggled with the top note at the end.

 Ailyn Peréz was a remarkable Micaela, of very powerful and tuned voice, although sometimes sliding towards stridency.

Escamillo by Luca Pisaroni started contained, then improved but, being very good, did not reach the superior quality of the other soloists.

In the supporting roles Stuart Patterson (Remendado) was very good and the remaining interpretations were fantastic: Jacquelyn Stucker (Frasquita) and Hongni Wu (Mercédes), both young singers from the Jette Parker program of the ROH were stunning, as were three other youngsters of this program, Germán Alcántara (Morales), Michael Mofidian (Zuniga) and Dominic Sedgwick (Dancaïro), which testifies to the excellent quality of training at the Royal Opera.

Anyway, excellent singers in an opera to see with eyes closed!
The Royal Opera should restore the previous production of Francesca Zambello that yes, is worthy of this masterpiece of the opera.

***** (singers)
0 (production / staging)

domingo, 9 de dezembro de 2018

CARMEN, Royal Opera House, Novembro / November 2018



(review in English below)

Assisti ao assassinato da Carmen na Royal Opera House logo desde o primeiro acto. A encenação de Barrie Kosky procura e consegue ser muito inventiva e original, mas nada tem a ver com a Carmen de Bizet.
O cenário, do início ao fim, limita-se a uma longa escadaria que ocupa todo o palco. Poucos mais adereços aparecem, para além de uma corda, pétalas de uma flor e de cartas. Os solistas e os membros do coro sobem e descem as escalas ao longo de toda a récita, fazendo grande barulho com os sapatos, o que perturba ainda mais a audição musical, já que não há nada de interessante para ver.


A ópera abre com a Carmen vestida coloridamente de toureiro no cimo das escadas, desce-as e desaparece. Na sua próxima aparição, vem mascarada de gorila! Todo o guarda-roupa (de Katrin Lea Tag) é preto, branco ou em tons de cinzento, excepto os trajos de toureiro, os únicos com cor. As partes faladas são substituídas por uma narradora.
Há um corpo de bailarinos (excelentes!) que estão quase sempre em cena mas as suas intervenções são maioritariamente ridículas. Procuram ser cómicas mas não têm graça nenhuma.


Não há qualquer imagem alusiva a Espanha, o desfile das personagens e elementos dos coros quase parece um espectáculo rasca da Broadway. E não há expressões dramáticas em palco. Os solistas estão estáticos e muito afastados uns dos outros. No dueto final não há qualquer clima trágico e, após morrer, a Carmen ressuscita e encolhe os ombros.




Finalmente a música não é a que habitualmente se ouve, tem partes para mim desconhecidas porque, segundo o programa de sala, foram usados também trechos que haviam sido descartados por Bizet.
Diria que o eurotrash (mesmo com encenador australiano) chegou em força à Royal Opera House, o que não tem sido habitual. Mais teria valido uma Carmen em versão concerto, ouvir-se-ia melhor porque seria menos ruidosa.

A maestrina Keri-Lynn Wilson deu-nos uma versão aceitável da música, embora sem a vivacidade que vários momentos exigem. No início teve um percalço, fugiu-lhe a batuta da mão que deu várias voltas pelo ar até cair ao lado de um dos violinistas. Foi a parte mais engraçada de todo o espectáculo.



Em relação aos cantores principais, a melhor foi a mezzo francesa Gaëlle Arquez (uma substituição de ultima hora) na Carmen. É jovem, tem uma bela figura e a voz é bonita, bem colocada e sempre audível, mesmo quando está no cimo da escadaria, no fundo do palco.



A Michaéla da soprano Eleanora Buratto também foi agradável, a cantora tem uma voz poderosa mas com tendência para a estridência nas notas altas. Cenicamente foi totalmente desinteressante, mas não por culpa sua.



O tenor Brian Jagde fez um Don Josè amorfo, apenas preocupado com o canto. A voz é aceitável mas nada mais que isso e perde qualidade no registo agudo.




O baixo Alexander Vinogradov é um cantor habitual no papel de Escamillo. Cumpriu sem deslumbrar.



Os cantores secundários foram globalmente bons, Jean Teitgen (Zuniga), Aigul Akhmetshina (Mercédes), Gérman Alcántara (Dancaïro) e François Piolino (Remendado) embora dois deles, Domminic Sedgwick (Morales) e Haegee Lee (Frasquita) tenham tido interpretações fracas.







Como um mal nunca vem só, ao meu lado estava uma mulher chinesa que ora bebia água (?) de um recipiente com tampa de rosca, ora se assoava ruidosamente. Também por ali havia alguém que se peidava silenciosamente mas com grande periodicidade, tudo contribuindo para uma noite de ópera para esquecer!

**


CARMEN, Royal Opera House, November 2018

I watched Carmen's assassination at the Royal Opera House from the very first act. Barrie Kosky's production seeks and manages to be very inventive and original, but has nothing to do with Bizet's Carmen.
The stage, from start to finish, is limited to a long staircase that occupies the whole stage. Few more props appear, in addition to a rope, petals of a flower and letters. The soloists and members of the choir go up and down the ladders throughout the performance, making great noise with the shoes, which disturbs the musical hearing even more, since there is nothing interesting to see.
The opera opens with Carmen dressed colorfully as a bullfighter at the top of the stairs, descends them and disappears. On her next appearance, she comes as a gorilla! All dresses (from Katrin Lea Tag) are black, white or in gray patterns except for bullfighter's suits, the only ones with color. The spoken parts are replaced by a narrator.
There is a body of (excellent!) Dancers that are almost always on stage but their interventions are mostly ridiculous. They try to be comic but they are not funny at all.
There is no part allusive to Spain, the parade of characters and elements of the choir almost looks like a scratchy Broadway show. And there are no dramatic expressions on stage. The soloists are static and very far from each other. In the final duet there is no tragic emotions and, after dying, Carmen resurrects and shrugs.
Finally the music is not what one usually hears, there are parts unknown to me because, according to the program, parts were also used that had been discarded by Bizet.
I would say that eurotrash (even by an Australian director) came in force to the Royal Opera House, which has not been usual. More would have been worth a Carmen in concert version, would be heard better because it would be less noisy.

Musical director Keri-Lynn Wilson gave us an acceptable version of the music, though without the liveliness that several moments require. At first she had a mishap, fled the baton of her hand that went several times through the air until it fell next to one of the violinists. It was the funniest part of the whole show.

Concerningto the main singers, the best was French mezzo Gaëlle Arquez (a last minute replacement) in Carmen. She is young, has a beautiful figure and the voice is pleasant, well projected and always audible, even when she is at the top of the staircase. But she lacked dramatic emotion.

Michaela from soprano Eleanora Buratto was also interesting, the singer has a powerful voice but with a tendency to strident high notes. On stage she was totally uninteresting, but it was not her fault.

Tenor Brian Jagde was an amorphous Don Josè, only concerned with the singing. The voice is pleasant but loses quality in the high register.

Bass Alexander Vinogradov is a frequent singer of Escamillo. He was ok without dazzling.

Support singers have been globally fine, Jean Teitgen (Zuniga), Aigul Akhmetshina (Mercédes), Gérman Alcántara (Dancaïro) and François Piolino (Mended) although two of them, Domminic Sedgwick (Morales) and Haegee Lee (Frasquita) have had weak interpretations.

As “an evil never comes alone”, beside me was a Chinese woman who frequently drank water (?) from a screw-capped container, and frequently blowing loudly. Also there was someone who farted silently but periodically, all contributing to an opera night to forget!

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domingo, 16 de outubro de 2016

CARMEN, Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, 12/10/2016


CARMEN      (Georges Bizet)

Ópera em três Actos  (1875)

Libreto de Ludovic Halévy e Henri Meilhac, baseado na novela homónima de Prosper Mérimée.

Direcção musical: Rory Macdonald
Encenação:  Calixto Bieito

Responsável pela reposição: Joan Anton Rechi
Cenografía: Alfons Flores
Luzes: Bruno Poet
Roupas: Mercè Paloma

Carmen: Justina Gringyte
Micaela: Sarah-Jane Brandon
Don José: Lukhanyo Moyake
Frasquita: Joana Seara
Mercédès: Carla Simões
Escamillo: Nicholas Brownlee
Le Dancaïre: Tiago Matos
El Remendado: Carlos Guilherme
Zúñiga: Keel Watson
Morales: Diogo Oliveira

Orquestra Sinfónica Portuguesa
Coro do Teatro Nacional de São Carlos   Dir: Giovanni Andreoli
Coro Juvenil de Lisboa   Dir: Nuno Margarido Lopes

Produção: Versão inicial Festival Castell de Peralada (1999). Liceu (Barcelona 2010), English National Opera (Londres 2012), Teatro Regio (Torino 2012), Den Norske Opera & Ballett (Oslo 2014)

Calixto Bieito é um vulgar agitador, e se dúvidas houvesse a esse respeito o espectáculo agora apresentado no São Carlos expõe à evidência a natureza vulgar e provocatória da sua intervenção cénica.

Para nossa desgraça maior o encenador não esteve certamente presente nos trabalhos de preparação desta reposição. Esses trabalhos foram assim entregues a Joan Anton Rechi.

Esta circunstância impede-nos portanto de apurar com segurança quem é o principal responsável pela tonalidade geral que impregna todo o espectáculo. Expliquemo-nos.

A Carmen de Mérimée é uma provocadora, e os libretistas de Bizet não quiseram felizmente retirar à personagem da ópera essa característica nuclear. Ela é aliás uma das razões para o sucesso global da personagem, na ópera ou nos múltiplos outros suportes de difusão que se conhecem.

Sendo assim, o aparecimento de uma proposta cénica operática em que, por uma vez, esperamos ver uma Carmen não convencional, vivendo a sua natureza provocatória em contextos não convencionais, estranhos à pacata moralidade burguesa que nas propostas mais comuns informa a generalidade da acção, seria um motivo de benévola expectativa.

Um encenador conhecido pela sua apetência pela provocação e pela originalidade das suas propostas pareceria portanto uma boa escolha para este espectáculo.

Porém uma provocação por si só não tem qualquer valor intrínseco. Ela apenas se transforma numa mais-valia quando a transgressão se fundamenta numa análise inteligente da realidade sobre a qual opera.

Nessa circunstância a transgressão funciona como revelador violento de algo sobre essa realidade, sendo então a violência da revelação o fundamento da provocação. As consequências deste tipo de intervenção são em geral devastadoras, e o provocador sabe disso e está preparado para as sofrer.

Voltemos agora ao palco do teatro.

Na ópera, tal como na novela de Mérimée, a provocadora Carmen morre. Porém a provocação multiforme proposta por este encenador não conduzirá nunca à sua morte, mesmo figurada: de facto não decorre do espectáculo qualquer risco real para ele, porque não existe por detrás do que nos mostra qualquer vestígio de proposta inteligente perceptível.

Pelo contrário. A suposta provocação transforma-se aqui numa exibição gratuita de quadros aparentemente em conflito com o imaginário mais comum, quadros susceptíveis de acolher pela sua forma propósitos de transgressão, mas infelizmente desprovidos de qualquer conteúdo susceptível de ser percebido com fundamento na história.

E portanto os personagens são bonecos vazios que debitam de forma mais ou menos competente as suas partes, encontrando-se os espectadores reduzidos pelo encenador à condição de frágeis consciências prontas a ser passivamente submetidas à exibição daqueles quadros.

De tal exibição resultará forçosamente algum escândalo, elemento importante para o sucesso comercial do evento, mas nada de mais grave. Para o encenador o reforço da sua aura de provocador e algum proveito mais, para algum público um motivo de consolidação e reforço das suas convicções mais arreigadas, afinal e de forma paradoxal o oposto ao resultado esperado de uma real provocação.

Mas a Carmen é também, não esqueçamos, um exotismo. Ela é um florão requintado de algumas características meridionais que ainda hoje continuam a ser um motivo de admiração beata para alguma intelectualidade artística de além Pirenéus.

Ora esse efeito de deslocalização, que é o substrato do exotismo, encontra-se neste caso grandemente atenuado pela transposição da acção para um período da actualidade recente. Não é seguro se estamos no período final do franquismo ou no reinício da monarquia espanhola (ao contrário da utilizada no São Carlos, a bandeira usada na versão original é a do primeiro destes períodos), em todo o caso estamos certamente na segunda metade do século XX, portanto num ambiente que nos é ainda bastante familiar.

Neste contexto para obter o mesmo efeito torna-se necessário compensar tal familiaridade pela utilização de um registo dramático menos comum. Terá sido essa a razão para a escolha de um ambiente geral retirado do imaginário sado-masoquista no desenho dos personagens?

É que, sem motivo aparente dedutível da história original, tudo na opção dramatúrgica escolhida aponta nesse sentido, desde o pingalim usado na cena inicial para o “tratamento” de Micaela por Morales até à violenta cuspidela de Micaela sobre uma Carmen prostrada no chão na patética cena final do seu reencontro com Don José.

E todos os estereótipos de tal imaginário percorrem regularmente o espectáculo, onde as correias de couro, os sapatos de tacão alto pontiagudo, as poses agressivas, os gestos codificados impregnam todas as interacções entre os personagens, numa fúria expositiva que por momentos quase roça o obsceno quando introduz em cena sugestões de pedofilia ou de exibicionismo e voyeurismo.

Não nos é possível saber se esta opção dramatúrgica totalmente gratuita é propósito da encenação original ou se resulta de uma perspectiva específica desta reposição. Certo é que ela evidencia a natureza vulgar da provocação tornando-a portanto demasiado evidente e… inócua.

Como sempre acontece nestes casos, muitos fumos e alguma nudez, cambalhotas acrobáticas e luzes violentas nos olhos do espectador, múltiplos adereços e artefactos de vária natureza e bastas incoerências ou incongruências lógicas são alguns dos recursos utilizados pelo encenador para iludir a realidade: um espectáculo plasticamente feio e conceptualmente vazio. A verdadeira Carmen não passou por aqui.

O comentário sobre a forma como foi operacionalizado este vazio será portanto necessariamente breve.

A direcção musical foi paupérrima, evidenciando total incapacidade para controlar executantes e cantores, com muitos momentos de total desacerto sobretudo no que respeita às prestações da protagonista titular.

A orquestra soou em geral como uma banda filarmónica acompanhando uma procissão de rua, sem cordas, sem outra dinâmica para além da regular marcação do passo ao som de tambores e sopros, estes frequentemente infelizes.

Quanto aos cantores principais, para além de uma geral inexistência dramática, deve realçar-se a frequente desafinação de Escamillo, ultrapassando o suportável num teatro profissional.

Os frequentes e violentos ruídos criados por imposição da encenação em longas sobreposições à belíssima música de Bizet, com o seu auge na cena da desmontagem do emblemático touro no início do terceiro acto, se por um lado ajudam a esquecer e disfarçam a pobreza da execução musical apresentada, constituem por outro lado um verdadeiro retrato e a síntese do espectáculo: para esquecer.


José António Miranda    13/10/2016