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terça-feira, 20 de março de 2018

IDOMENEO de W. A. MOZART — Teatro Nacional de São Carlos, 16.03.2108


A ópera em 3 actos Idomeneo, K. 366, foi estreada em Munique no ano de 1781 sob a direcção do próprio compositor: o jovem de 24 anos Wolfgang Amadeus Mozart. O libreto foi da responsabilidade de Giambattista Varesco a partir do texto de Antoine Danchet.

A acção decorre em Creta depois da Guerra de Tróia e trata do amor e do ciúme, da ambivalência entre as promessas divinas e os deveres de amor filial.

É uma ópera séria em italiano cujo drama é apresentado numa sequência de quadros dramáticos sublime e com uma música complexa, rica, ritmada, opulenta e harmoniosa típica de Mozart. É, por tudo isso, uma ópera muito bonita e agradável de seguir.

O Teatro Nacional de São Carlos apresentou uma nova produção de Yaron Lifschitz que, globalmente, permitiu o desenrolar da acção sem percalços ou perplexidades. A acção decorre em torno de uma cratera central à volta da qual as personagens se deslocam sem grande sentido. Depois, as diferentes árias vão sendo apresentadas, por regra, à boca de palco, por vezes com o pano fechado, o que nos transporta para o interior da personagem. No final, Idomeneo comunica ao povo a sua decisão sentado numa cadeira em frente a um microfone, sendo a sua imagem projectada numa tela que ocupa todo o palco, como se de uma transmissão televisiva se tratasse, no mais vistoso efeito de uma encenação cinzenta.

O pior elemento da récita foi, infelizmente, a Orquestra Sinfónica Portuguesa sob a direcção de Christian Curnyn que se viu “grega” para soar Mozart. Foi sofrível em todos os naipes e valeu-nos a capacidade de imaginar que era Mozart.

O Coro do Teatro Nacional de São Carlos também não esteve particularmente bem, sobressaindo algumas estridências que se disfarçavam em tutti e o falhanço total dos elementos masculinos no primeiro acto.


As vozes solistas, por regra, salvaram a récita.

Com grande destaque esteve a Illia de Ana Quintans. A voz é muito bonita, com o tamanho certo para estes papéis, sempre bem projectada a que associa um fraseado lindíssimo, muito elegante, e uma dicção perfeita. À óptima interpretação vocal juntou uma capacidade expressiva intensa que nos transportou para o mundo da personagem de forma exemplar, nomeadamente em Zeffiretti lusinghieri.

O Idamante de Caitlin Hulcup foi muito consistente, com uma voz agradável, sempre bem audível e com uma expressividade adequada ao papel. A caracterização e figura tornaram Idamante muito credível.

Sophie Gordeladze foi Elettra. A voz é bonita e tem uns agudos cristalinos e seguros que se sobrepuseram a uma interpretação algo apática, nomeadamente em D’Oreste, d’Ajace.

O Idomeneo de Richard Croft também esteve muito bem do ponto de vista cénico e a sua interpretação vocal foi globalmente agradável com um timbre e fraseado adequados a Mozart.

Marco Alves do Santos foi um Arbace regular. A voz é grande e bonita, mas denota algumas dificuldades neste registo mozartiano, tendo estado francamente abaixo das suas muito boas interpretações em Britten e Strauss.

O sumo-sacerdote de Bruno Almeida esteve bem no seu pequeno papel e a voz de Netuno de Rui Baeta destacou-se por ter sido um falhanço total.

A récita foi, pois, agradável porque a música de Mozart é sublime e porque a Ana Quintans esteve em São Carlos. 

Nota: É uma pena que a direcção do Teatro se preocupe tanto em impedir que se tirem fotografias durante os aplausos… Dever-se-iam preocupar mais em garantir o conforto dos espectadores melhorando as cadeiras da sala e diminuindo a temperatura digna de uma sauna…

terça-feira, 11 de outubro de 2016

CARMEN de George Bizet — Teatro Nacional de São Carlos, 8.10.2016

(Review in English below)

Carmen, a obra maestra de Bizet, dispensa apresentações. A sua popularidade entre todos os públicos é reflexo da qualidade do drama baseado na novela de Proper Merimée

Carmen é das óperas mais representadas em todo o mundo e é-o pela música soberba, a vivacidade e sequência cénica, o realismo da história… a personalidade de Carmen. Mas elogiar a obra torna-se irrelevante. E nem vale a pena contar a história, pois toda a gente sabe que a cigana perversamente sedutora é morta passionalmente pelo seu amante cego de ciúme, Don José.


A encenação que nos foi proposta é a muito aclamada de Calixto Bieito. O primeiro acto começa com um cigano com aspecto muito “manhoso” a dizer em espanhol que o amor é mais perigoso do que a morte. Ao centro, um mastro para içar a bandeira espanhola. Ao canto, uma cabine telefónica suja, cheia de anúncios de prostituição. Surge depois o coro dos militares vestidos de forma contemporânea. Um, de cuecas, corre em círculos até cair desfalecido, tal a dureza do provável castigo. Michaela é assediada por militares ameaçadores e atléticos. As cigarreiras aparecem de bata enquanto assediam os militares. Carmen está na cabine telefónica vestida com camisa de noite preta debaixo de uma bata aberta. Provoca os militares, nomeadamente Zuniga (aqui um cantor morbidamente obeso) que, sendo sempre agressivo, é também muito destratado. No segundo acto, a taberna é transformada num espaço onde entra um conjunto de Mercedes-Benz dos anos 70. A acção decorre de modo convencional. O terceiro acto passa-se no topo de uma montanha onde está um omnipresente e gigante outdoor que representa o touro espanhol típico que está espalhado em todo o território de Espanha. As cartas são lançadas no capot de um dos 5 carros em palco. No último acto, a acção desenrola-se numa praça despida em que Carmen, visivelmente amedrontada com os ciúmes e ameaças de um descontrolado Don José, morre violentamente degolada.

Trata-se de uma encenação modernizada que segue de forma eficaz o texto e permite o desenrolar da acção de modo fluente e visualmente interessante. Não direi que enche o olho, mas é agradável.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa foi dirigida de forma vívida e colorida pelo maestro escocês Rory MacDonald. Mostrou um excelente entrosamento com os músicos, privilegiou o canto e soube criar um ambiente simultaneamente festivo e dramático.

O Coro do Teatro Nacional de São Carlos teve uma boa prestação vocal e cénica, assim como o Coro Juvenil de Lisboa que se apresentou com qualidade e muita energia.


Entre os cantores, o destaque vai indubitavelmente para a excelente Carmen do jovem mezzo-soprano dramático da Lituânia, Justina Gringyte. O mezzo-soprano já ganhou o Young Singer Prize da edição de 2015 do International Opera Awards. Tem uma voz com um timbre muito bonito e uma boa projecção em toda a amplitude da voz, ao que aliou uma sensibilidade interpretativa assinalável, conseguindo colorir com diferentes matizes as densidades do drama. Cenicamente, tem uma óptima figura e uma presença forte, tendo sido sensual e intrigante, mas também decidida e corajosa, apesar da situação limite em que se encontrava. Destacaria a sua Habanera no primeiro acto e a cena final, onde foi muito convincente.


O tenor sul-africano Lukhanyo Moyake foi um Don José aceitável. O jovem tenor foi um Don José dividido entre o dever e a paixão que se foi transformando eficazmente num perigoso homem ciumento, ainda que a sua presença cénica forte tenha sido, aqui e ali, prejudicada pela sua atenção primordial ao canto. A voz é forte e bem audível, mas o timbre é algo áspero e não foi especialmente lírico no fraseado (o sotaque também não ajuda), o que comprometeu a sua intensidade dramática e qualidade global.


Escamilo foi o barítono americano Nicholas Brownlee, recentemente vencedor do prémio  para Zarzuela da edição de 2016 da Operalia. A sua boa expressividade vocal, voz segura e potente associada uma boa presença cénica fez dele um Escamilo de qualidade.


O soprano Sarah-Jane Brandon, vencedora do prémio Kathleen Ferrier de 2009, foi uma Micaela não tão doce ou ingénua como é caracterizada em muitas encenações. A interpretação cénica de Brandon foi eficaz: foi uma Micaela algo sedutora e muito decidida a levar consigo o prometido noivo. A voz é muito bonita, o agudo é fácil e bem projectado, mas acho que lhe faltou alguma doçura. 

Os restantes cantores cumpriram bem nos seus papéis, quer vocal, quer cenicamente. Destacaria a voz potente e imponente e pesada figura do baixo Kneel Watson que nos deu um Zuniga com quem dificilmente se empatiza. 

Foi, pois, uma récita agradável, numa Carmen que apostou em promessas do canto lírico e numa encenação eficaz e globalmente bem aceite na cena internacional.

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(Review in English)

Carmen, Bizet's masterpiece, needs no introduction. Its popularity among all type of public is the reflex of the quality of the drama based on the novel by Proper Merimée.

Carmen is one of the most worldwidle represented operas because of it’s superb music, vivacity and scenic sequences, the realism of the story… and, of course, Carmen's personality. But praise the masterpiece becomes irrelevant. It’s algo not worth telling the plot, because everyone knows that the wickedly seductive gypsy is passionately murdered by his blinded by jealousy lover, Don José.

The staging that has been proposed is the Calixto Bieito’s much acclaimed mise en scene. The first act begins with a gypsy with very "sly" aspect saying in Spanish that love is more dangerous than death. At the center, a mast to hoist the Spanish flag. At the corner, a dirty phone booth, full of prostitution ads. The chorus is dressed on contemporary military clothes. One among them is continuously running in circles (un)dressed in panties. He runs until falling faint by the hardness of the most likely punishment. Michaela is harassed by threatening and athletic military. The cigarette women appear on white smock frock while besieging the military. Carmen is in the phone booth dressed in black nightshirt under an open smock frock. She is constantly provoking the military, including Zuniga (here a morbidly obese singer) who is always aggressive with everybody, while also very mistreated. In the second act, the tavern is transformed into a space where it enters a set of '70s Mercedes-Benz. The action takes place in a conventional manner. The third act is set in the top of a mountain where a omnipresent giant billboard represents a typical Spanish bull commonly spread across the whole of Spain territory. The cards are laid on the capot of one of the 5 cars on stage. In the last act, the action takes place in a naked square. Carmen, visibly frightened by a jealous and uncontrolled Don José, dies with her throat cut.

It is a modernized staging that follows effectively the libreto and allows the action flowing in visually and dramatically interesting way.

The Portuguese Symphony Orchestra was vividly directed by the Scottish conductor Rory Macdonald. He showed an excellent rapport with the musicians and manage the score in order to create both a festive and dramatic environment.

The São Carlos National Theatre Choir had a good vocal and scenic performance, as well as the Youth Choir of Lisbon who presented with quality and a lot of energy.

Among the singers, the highlight will undoubtedly to the Carmen by the young dramatic mezzo-soprano from Lithuania, Justina Gringyte. The mezzo-soprano has won the Young Singer Prize of the 2015 edition of the International Opera Awards. She has a beautiful voice and good projection for the full range of her potent voice. That qualities are allied with a remarkable interpretative sensitivity, colouring the drama density spectrum with different nuances. Scenically, she has a gorgeous and a strong presence being as sensual as intriguing, but also determined and courageous, despite the extreme situation she was in. I should highlight her Habanera in the first act and the final scene, which was very convincing.

The South African tenor Lukhanyo Moyake was an acceptable Don José. The young tenor was a Don José torn between duty and passion that was effectively transformed into a dangerous jealous man, though his strong stage presence has been, here and there, hindered by his primary attention to the singing technique. The voice is strong and always audible, but the tone is something harsh and was not particularly lyrical in phrasing (the french accent is not the best, too), which committed her dramatic intensity and overall quality.

Escamilo was the American baritone Nicholas Brownlee, recently winner of the Operalia 2016 edition prize for Zarzuela. His good vocal expressiveness, secure and powerful voice associated with a good stage presence made him a great Escamilo.

The soprano Sarah-Jane Brandon, winner of the 2009 Kathleen Ferrier award, was a Micaela not as sweet or naive as she is featured in many stagings. The scenic interpretation of Brandon was effective: she was a Micaela somehow seductive and resolved to rescue her promised fiancé. Her voice terrifically beautiful, easily managed, but I think that lacked some sweetness in her interpretation.

The remaining singers did well their roles, whether vocal or scenically. Highlight to the powerful and imposing voice and heavy figure of Kneel Watson that gave us a Zuniga with whom we hardly empathise.


It was therefore a pleasant opera afternoon, a Carmen who bet in promising opera singers and in an effective and globally well acclaimed stage.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

WERTHER de Jules Massenet — Teatro Nacional de São Carlos, 1.11.2014

(Review in English below)

Werther é uma ópera em quatro actos composta por Jules Massenet (1842-1912) em 1887. O libreto é de Édouard Blau, Paul Milliet e Georges Hartmann a partir do romance Werther, expoente do romantismo alemão, de J. W. Goethe.


Também esta ópera é um dos expoentes do romantismo francês da grand ópera. A música é genial, a acompanhar inspiradamente um texto de enorme qualidade que tornou poesia a sua versão epistolar original. Trata de amor, do dever, do confronto entre dois bens ou quereres, do desespero romântico, da culpa e do suicídio.


Poderão ler uma sinopse a partir de uma entrada anterior do Werther do Metropolitan.

A encenação de Graham Vick é uma reposição de 2004. Trata-se de uma encenação que coloca a acção nos anos 50 anos, mostrando, ao levantar do pano, como que uma fotografia em que as personagens estáticas e 3 pequenas casas atrás de um relvado onde as pessoas brincam, namoram, ou fazem avançar lentamente o tempo da sua vida.


O primeiro acto está bem conseguido e apresenta uma direcção de actores adequada. O segundo acto, surge num relvado em frente ao cemitério onde se instala a tenda onde se comemoram as bodas de ouro do pastor. O terceiro acto traz a acção para o interior da casa de Charlotte e Albert. Charlotte lê as cartas e surge Werther algo dessperado. Surge aqui uma certa incoerência entre o texto e a acção, pois Charlotte, ao mesmo tempo que pede piedade e que não a deixem cair em tentação, entrega-se abertamente nos braços de Werther, tirando, inclusive, o robe. A outra é na entrega das armas. Albert manda e Charlotte cenicamente obedece sem pestanejar... Até aqui tudo convencional.


Mas é no quarto acto que surge a novidade: o encenador faz avançar o tempo e surge-nos uma casa com parabólica e uma Charlotte grisalha, com ligeira corcunda, uma bengala e um tremor parkinsónico. Sai de casa em delirium como se visse o jovem Werther de cujo amor recusara, ostentando a marca de sangue do tiro que deu no osso frontal sobre o olho esquerdo. Faz-se assim um diálogo entre um Werther morto que lhe surge em sonho. A novidade é a perspectiva: não só põe em evidência o impacto das escolhas que invariavelmente tomamos ao longo da vida e que se tornam pontos sem retorno, como nos confronta com as suas consequências. Esta encenação deixa também patente a forma como o suicida marca indelevelmente a vida daqueles que lhe são mais próximos e a forma como essa marca é transportada como culpa por aqueles que, castigados por uma acção de responsabilidade individual, a assumem como sua. O próprio Werther reforça esta forma de suicídio como castigo: podendo suicidar-se em reclusão, opta por, de forma passivo-agressiva, castigar Charlotte. Escreve a Albert a pedir as armas e este, não menos sádico, obriga-a a ser ela a entregar as armas fatais ao mensageiro. Trata-se, pois, de uma interpretação válida e que, gostando-se ou não, acaba por resultar muito bem e acrescentar uma linha interpretativa às encenações convencionais que colocam em confronto uma Charlotte desesperada e um Werther agonizante.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa sob direcção de Cristóbal Soler apresentou-se com um nível bom, acertada no tempo e oferecendo uma interpretação que, sem ser brilhante e cristalina, funcionou bem. Também o Coro Juvenil de Lisboa se apresentou em muito bom nível, inclusive do ponto de vista cénico.

O Werther de Fernando Portari foi, igualmente, de qualidade. O tenor brasileiro tem uma voz bonita e potência de sobra, tendo oferecido uma interpretação vibrante e convincente. Pena que o seu francês não seja o melhor e que apresente umas pequenas falhas na técnica que o impedem de ser mais perfeito. A opção de, sobretudo no primeiro acto, cantar de mão no bolso é infeliz, mas pode ser um pormenor da direcção de actores. De qualquer modo, foi uma prestação de qualidade muito acima da média do que têm  sido os tenores a apresentar-se no TNSC.

Charlotte foi, desta vez, Wendy Dawn Thompson. Possui uma voz de timbre escuro muito bonito que usou com eficácia e segurança, a que aliou uma presença em palco de muita qualidade. A sua interpretação foi em crescendo até ao 4.º acto onde foi particularmente convincente vocalmente.


O Albert de Luís Rodrigues foi, igualmente, mais uma interpretação de qualidade com uma voz bonita e técnica segura. Pena que tenha adoptado uma postura cénica que, no meu ver, foi a roçar o cómico, o que não achei adequado para o drama em questão.

O Bailio de Pierre-Yves Pruvot foi muito bom. Tem uma voz muito bonita e uma projecção sem mácula.
Cristiana Oliveira foi uma Sophie de muita qualidade: a sua voz é muito agradável, sustentou bem as notas e foi melodiosa, oferecendo-nos uma interpretação jovial e decidida.

João Merino foi um Johann de muita qualidade, com muito boa projecção vocal e a beleza de timbre a que já nos habitou. Já o Schmidt de Mário João Alves esteve longe da perfeição, mas cumpriu bem cenicamente.


Foi, pois, uma récita de qualidade a provar que é possível fazer bem no TNSC. Cantores em evidência e uma encenação que acrescenta valor à obra. Para quem não viu, fica a recomendação de não deixar de ir ouvir uma das óperas mais marcantes do reportório francês.

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(Review in English)

Werther is an opera in four acts by Jules Massenet (1842-1912) composed in 1887. The libretto is by Édouard Blau, Paul Milliet and Georges Hartmann from the Goethe’s novel Werther, an exponent of German romanticism.

This opera is also one of the exponents of French grand opera. The music is great accompanying a text of great quality that transforms inspiringly in poetry an original epistolary version. It is about love, duty, the confrontation between two goods or wants, romantic despair, guilty and suicide.

You can read a synopsis from a previous post about Metropolitan’s Werther.

The staging by Graham Vick is a replacement from the one of 2004. It places the action in the 50s showing a scenario, when the cloth is lifted, that is pretty much like a photograph where the static characters and three small houses behind a graveyard are playing, dating, or are slowly expecting their life time to move forward. The first act is well done and provides a suitable direction of actors. The second act comes at a lawn in front of the graveyard where settles the tent where they celebrate the golden anniversary of the pastor. The third act brings the action into the home of Charlotte and Albert. Charlotte reads the letters and Werther appears in despair. Here arises a disconnection between the text and action, as Charlotte while asking for mercy and do not let her fall into temptation, lay openly in the arms of Werther, even taking the robe. The other is the surrender of weapons. Albert orders Charlotte and she scenically obeys without blinking... So far, so conventional. But it is the fourth act that arises novelty: the director makes time move forward and comes to us with a home with a satellite dish and a graying Charlotte, with slight hunchback, a cane and parkinsonian tremor. She leaves home in delirium as if she saw the young Werther whose love she refused, bearing the marks of blood shot that he gave in his frontal bone over the left eye. Thus makes a dialogue between a dead Werther that comes to her in dreams. The novelty is the outlook: not only highlights the impact of the choices we invariably take in our lifes, but also confronts us with its consequences. This scenario also makes clear how the suicidal indelibly mark the lives of those closest to him and the way this brand is carried as guilt by those who, punished for an act of individual responsibility, tend to assume it as his own responsibility. The Werther himself reinforces this form of suicide as punishment: being able to kill himself in seclusion opts, passive-aggressively, to punish Charlotte. Writes to Albert asking for weapons and this, no less sadistic, forces her to deliver the fatal weapons to the messenger. It is, therefore, a valid interpretation and, liking it or not, results very well and add an interpretive approach to conventional scenarios posing in a desperate clash Charlotte and Werther agonizing.

The Portuguese Symphony Orchestra under the direction of Cristóbal Soler presented a good level, right on time and offering an interpretation, without being bright and clear, that worked well. Also the Youth Choir of Lisbon presented in very good level, including the scenic viewpoint.

The Werther of Fernando Portari was also of good quality. The Brazilian tenor has a beautiful voice and power to spare, having offered a vibrant and compelling interpretation. Pity that his French is not the best and to make some small flaws in technique that prevents him from being more perfect. The option, especially in the first act, of sing with a hand in pocket is unfortunate, but it could be a detail of the direction of actors. Anyway, his interpretation was of a quality far above the average of what have been the one of the tenors appearing recently in TNSC.

Charlotte was, this time, Wendy Dawn Thompson. Her voice has a beautiful dark timbre she used effectively and safely, to what she allied a presence on the scene of excellent quality. Her interpretation was growing up till the 4th act which was particularly convincing vocally.

The Albert of Luís Rodrigues was also another interpretation of quality with his beautiful voice and safe technique. Nevertheless, he has taken a scenic posture that, in my view, was to skim the comic, which I do not found suitable for the drama in question.

The Baili of Pierre-Yves Pruvot was very good. He has a very beautiful voice and a projection unblemished. Cristiana Oliveira was a Sophie of great quality: her voice has a beautiful timbre and she managed very well the technically difficult and melodious notes of her role, giving us a youthful and convincing interpretation. João Merino was a Johann of quality, with very good vocal projection and the beauty of timbre that he accustomed us. Mário João Alves was a Schimdt far from perfect, but served well theatrically.


It was therefore a quality performance to prove that it is possible to do it well at TNSC. The singers were in evidence and the staging adds value to Massenet’s masterpiece. For those who have not seen Werther yet, I do recommend to go listen to one of the most memorable operas of the French repertoire.

domingo, 14 de abril de 2013

IL TROVATORE de Giuseppe Verdi no Teatro Nacional de São Carlos, 14.04.2013


(Review in English below)


A ópera Il Trovatore de Giuseppe Verdi foi estreada a 19 de Janeiro de 1853 no Teatro Apollo em Roma. O libretista foi o italiano Salvador Cammarano que se baseou na peça El trovador do espanhol Antonio García Gutiérez. É uma das mais famosas óperas de Verdi e foi a 21.ª ópera mais representada entre 2007 e 2012.


A encenação ficou a cargo de Francesco Esposito. Decidiu modernizar a ópera que se passa no século XV. O problema maior é que o texto está cheio de referências a situações e coisas não transponíveis para os tempos de hoje: guerras de condes, espadas, cercos a castelos, etc. Utilizou estruturas metálicas com painéis para fazer edifícios de betão. Transformou os homens do Conde em guerreiros com metralhadoras. O castelo numa camarata militar com beliches. Azucena é uma cigana com medalhas militares alcoólica temida pelos militares. Em suma, pode dizer-se que, apesar de a história se seguir, a encenação estava totalmente desadequada ao século XV e não houve esforço de uma real adaptação aos tempos de hoje.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa não estiveram em grande plano. Martin André teve uma interpretação muito irregular no tempo, com desencontros frequentes com os solistas, muito pouco clara no som e com alguns naipes a falhar (os sopros no famoso coro que abre o 2.º acto) e a apostar em finais demasiado... apoteóticos...


Os solistas também não foram brilhantes.
O soprano italiano Rachele Stanisci foi Leonora. A voz tem um timbre ligeiramente sujo e não é especialmente belo. Teve uma interpretação cénica aceitável, embora a direcção de actores a tenha feito ser histérica: sempre a apontar-se uma arma à cabeça. Mas a interpretação vocal esteve longe de ser magnífica com muitas estridências nos agudos.

O mezzo-soprano italiano Agostina Smimmero foi Azucena. Cenicamente esteve em bom plano, conseguindo transmitir os sentimentos trágicos da ópera, nomeadamente quando conta a Manrico a morte da mãe e do seu filho. Vocalmente, apesar de não ter a voz potente e timbre escuro em toda a amplitude vocal típica dos mezzo verdianos, foi regular e teve a interpretação mais conseguida da récita.


O tenor sérvio Ivan Momirov foi Manrico. Apesar de após o intervalo do 2.º acto ter sido anunciado que o tenor estava indisposto e que, ainda assim, iria continuar, teve uma interpretação vocal sofrível. É verdade que tem potência vocal e que foi sempre audível, mas o timbre da voz não é agradável, esteve sempre em esforço para atingir as notas agudas e tem um tom lamurioso.

O barítono letão Valdis Jansons foi Il Conte di Luna. Cenicamente teve uma postura um pouco estática e, vocalmente foi regular, apesar de alguma dificuldade na projecção ao início.

O baixo italiano Giovanni Furlanetto foi Ferrando. Teve uma interpretação cénica eficaz e vocalmente, embora regular, não encantou.

Os restantes elementos têm papéis demasiado menores para se fazer uma avaliação.


Assim, pode afirmar-se que se assistiu a uma récita homogénea, mas pautada pela diminuta qualidade vocal e orquestral com uma encenação pouco adequada ao texto. Tendo em conta a escassez de recursos, continua a não ser compreensível o porquê de se apostar em cantores estrangeiros e não nos portugueses que nem oportunidade para se mostrar têm, o mesmo se aplicando aos encenadores. Porque não ir buscar aos caixotes do TNSC uma encenação das antigas?

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(Review in English)

The opera Il Trovatore of Guiseppe Verdi had its premiere in January 19, 1853 at the Teatro Apollo in Rome. The Italian Salvador Cammarano wrote the libretto that was based on the Spanish play El trobador by Antonio García Gutierez. It is one of the most famous operas of Verdi and was 21st most represented opera between 2007 and 2012.

Francesco Esposito did the staging decided to modernize the opera that takes place in the fifteenth century. The bigger problem is that the text is full of references to situations and things do not translated to modern times: wars between counts, swords, castles sieges, etc. Metal structures were used to make concrete buildings. Cout’s men were turned men into warriors with lot of guns. The castle was transformed in a military dormitory with bunk beds. Gypsy Azucena is an alcoholic with military medals feared by the military. In short, it can be said that although the storyline is followed, the scenario was totally inadequate to the fifteenth century and there was no real effort to adapt it to modern times.

The Portuguese Symphony Orchestra was not in good plan. Martin André had an interpretation very irregular in tempo, with frequent clashes with the soloists and bet on apotheotic finales…

The soloists were not brilliant.
The Italian soprano Rachele Stanisci was Leonora. The voice has a timbre slightly dirty and not especially beautiful. She had an acceptable scenic interpretation, although the direction of the actors has done her to be hysterical: always pointing a gun up to her head. But the vocal interpretation was far from the shrillness, shouting pitch notes a lot.
The Italian mezzo-soprano Agostina Smimmero was Azucena. Scenically she was in good plan, managing to convey the feelings of the tragic opera, particularly when tells Manrico her mother and son deaths. Vocally, despite not having a powerful voice and dark tone throughout the vocal range of typical Verdian mezzo, she was regular.
The tenor Manrico was Serbian Ivan Momirov. Although after the 2nd intermission has been announced that the tenor was unwell and that he still will continue, he had an insufficient vocal interpretation. He has vocal power and was always audible, but his timbre is not pleasant, he was always in effort to reach the high notes and has a plaintive tone.
The Latvian baritone Valdis Jansons was Il Conte di Luna. Scenically he was slightly static and vocally was regular, although with some difficulties in vocal projection at the beginning.
The Italian bass Giovanni Furlanetto was Ferrando. Scenically he had an effective interpretation and vocally, although regular, he did not charmed.
The remaining elements have roles too minor to make an assessment.

Thus, it can be said that there has been a regular performance uniform, but guided by faulty quality at orchestral and vocal levels with a staging not adapted to text. Given the scarcity of resources, it is still not understandable why to invest in foreign singers and not the Portuguese who neither have the opportunity to show them. The same applies to directors. Why not pick up on TNSC’s archives an old good stage?