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sábado, 21 de outubro de 2017

TURANDOT, Coliseu dos Recreios, Lisboa, Outubro 2017



A magnífica ópera Turandot de Puccini foi levada à cena no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Há décadas que era hábito haver algumas récitas das óperas em cartaz no Teatro de São Carlos e récitas populares das mesmas óperas no Coliseu. Esse hábito perdeu-se e não se recuperou na abertura da presente temporada, ao contrário do que foi dito, porque a primeira ópera a ser apresentada teve apenas uma récita no Coliseu e nenhuma em São Carlos.

Foi uma experiência globalmente negativa para mim, com vários pontos que gostaria de partilhar.

Começou com algum atraso. A acústica não é boa e houve ao longo da primeira parte grande perturbação com a abertura frequente das portas dos camarotes que, não sendo ruidosa, permitia a entrada de luz na sala, o que perturbava muito.

A Orquestra Sinfónica Portuguesa ocupava a quase totalidade do palco e os cantores tinham apenas um pequeno espaço na parte mais avançada para se movimentarem. (Os coros estavam nas cadeiras laterais nos dois lados do palco).

A encenação de Annabel Arden e Joanna Parker, foi trazida da Opera North. Depois do que vi, fui procurar comentários a esta encenação e o que encontrei foi altamente elogioso. A minha opinião está no extremo oposto! Detestei, acho que esta ópera espectacular de Puccini, que já vi em produções fabulosas (como há poucos meses em Londres como referi aqui) foi assassinada nesta produção!

No palco havia apenas, a meio e sobre a orquestra, uma grande cadeira parcialmente coberta por um pano, e pouco mais. Passámos da China antiga para um local de zombies. Trajos cinzentos ou negros a condizer e nem faltou um esqueleto humano. Os cantores entravam e saíam praticamente sem movimentos cénicos (nem tinham espaço para os fazerem). O príncipe persa que é decapitado no primeiro acto é um membro do coro que despe a camisa e faz gestos a pedir clemência.



Enfim, um espectáculo para ver de olhos bem fechados! Teria sido melhor se apresentado em versão concerto.

A direcção musical, a cargo do maestro Domenico Longo, foi aceitável mas faltou-lhe alguma da energia que esta obra exige.

Felizmente que os cantores salvaram a récita. O Coro do Teatro Nacional de São Carlos esteve bem, melhor esteve o Coro Juvenil de Lisboa. Elisabete Matos, uma cantora que muito respeito, foi uma Turandot respeitável e sempre bem audível sobre a orquestra e coros. O tenor Rafael Rojas tem um timbre bonito e cantou o Calaf com qualidade. Dora Rodrigues interpretou bem a Liù mas nem sempre com a suavidade e doçura que a personagem requer. O Timur do baixo Stephen Richardson foi notável. Diogo Oliveira (excelente!) e Sérgio Sousa Martins impuseram-se como Ping e Pang e, num patamar imediatamente abaixo, esteve João Pedro Cabral como Pong. Carlos Guilherme e Manuel Rebelo cumpriram como Altum e mandarim.



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domingo, 12 de março de 2017

TRISTAN UND ISOLDE – Centro Cultural de Belém, 09-01-2017


Assisti, no dia 9, à primeira das duas récitas do “Tristan und Isolde”, inseridas na temporada lírica de 2016/2017 do Teatro Nacional de São Carlos.
A récita teve lugar no Centro Cultural de Belém e repete no dia 12, pelas 15 horas.
As expectativas eram elevadas, por um conjunto de factores, que enuncio sem preocupação de hierarquização.
Em primeiro lugar, por se tratar de uma das mais importantes óperas de todos os tempos, cuja novidade musical e conceptual constituiu um verdadeiro marco que serve de fronteira delimitadora do que veio antes e do que veio depois.
Em segundo lugar, porquanto já não era ouvida no TNSC, em versão encenada, desde Janeiro de 1985 (em 2003 foi apresentada em versão de concerto, sob a batuta de Zoltán Peskó, segundo informação constante do programa de sala), o que é um lapso temporal anormalmente longo para uma obra seminal na história da arte lírica.
Em terceiro lugar, porque contava com a Isolde de Elisabete Matos, estrela maior do panorama lírico português e internacional.
Em quarto lugar, porque é uma das óperas do meu top 5.
Embora com menor grau de importância, também tinha alguma curiosidade em perceber como funcionaria uma ópera no CCB.



A encenação
Nesta produção, a encenação e cenografia estiveram a cargo de Charles Edwards, com figurinos de Susan Willmington e desenho de luz de Giuseppe Di Iorio.
Trata-se de uma nova produção do TNCS, em parceria com o CCB, como informa o programa de sala.
Embora toda a cenografia e figurinos tendam para uma dimensão abstracta, a encenação é bastante fiel à narrativa, não pretendendo apresentar uma visão alternativa e muito menos subversiva do significado primário do drama. Ao invés, toda ela assenta na oposição permanente entre a luz e a escuridão, entre o dia e a noite, que constitui um dos elementos centrais do discurso dos amantes, aqui corporizada em cenários onde as zonas brancas e as zonas pretas se encontravam estritamente delimitadas, embora confinantes.
Contraste que se prolongou nas indumentárias de Isolde e Tristan: ela sempre de negro e ele essencialmente de branco (excepto quando enverga o casaco da marinha). A quebrar essa dicotomia, apenas um lenço verde de Isolde, suponho que numa alusão às suas origens irlandesas.
No 1º acto vemos o interior do barco, num corte longitudinal. Isolde e Brangäne no lado esquerdo, numa zona toda ela branca, pontuada pela presença de inúmeras cadeiras encostadas às paredes e dispersas pelo espaço (o que me fez lembrar o cenário do Café Müller, de Pina Bausch). Na parede, uma escotilha permitindo ver o mar. No centro do espaço, um esquife em madeira tosca, transmitindo, penso, a ideia de um barco que conduz Isolde em direcção à sua morte. Separado por uma parede transversal com uma porta, o lado direito do barco, todo em preto, o escritório de Tristan, onde este, em mangas de camisa branca e numa postura algo titubeante, aguarda sentado à frente de uma secretária coberta de papéis soltos, simbolizando talvez a confusão e desordem em que os seus sentimentos se encontram.
Em cima da linha divisória entre as zonas branca e preta, o baú contendo os filtros, designadamente a poção da morte e a do amor. Poção esta que irá desencadear a tensão entre esses dois mundos e que permitirá o seu franqueamento pelos amantes.

No 2º acto, mantém-se a estrita demarcação entre as zonas branca e preta, embora agora sem a parede divisória. Aparentemente, os amantes já ultrapassaram uma das barreiras que os separavam, embora ainda subsista uma zona de fronteira, a da não consumação do amor, representada por uma faixa de luz branca e pura, engenhosamente desenhada pelo jogo de luzes.
Pela abertura redonda, que antes serviu de escotilha do barco, vemos agora o negrume da noite. Durante o dueto de amor, por passam Melot e o Rei Marke, ilustrando os avisos de Brangäne.
Aspecto que me pareceu menos bem conseguido foi a harpa irlandesa que Tristan indolentemente dedilha enquanto Brangäne adverte os amantes, que me pareceu não trazer nada de novo e não desempenhar qualquer função útil.
Um outro aspecto me suscitou, durante a récita, alguma perplexidade: o traçar de uma cruz na parede por Isolde, debaixo da qual os amantes se juntam durante a parte final do dueto. A evidente referência cristã pareceu-me algo deslocada na altura. Todavia, depois de ter reflectido um pouco sobre o assunto e na sequência da leitura do interessantíssimo texto de Yvette Centeno, constante do programa de sala, creio ter aí percebido a subtil referência às feridas de Tristan (a primeira, desferida por Morold, a segunda por Melot), que marcaram o primeiro encontro dos amantes e, a final, a morte deste e a sua separação em vida, e a ferida de Cristo na cruz, produzida pela lança de Longinus.



No terceiro acto, o cenário manteve a tónica da oposição entre o branco e o preto. Tristan, deitado no sofá onde os amantes haviam cantado o dueto de amor do acto precedente, agoniza envolto no manto verde de Isolde, manchado de sangue. Sofá que se encontra colocado em cima de uma superfície branca, como que a simbolizar a luz do dia que continua a cercar o herói ferido e caído. O restante palco é todo negro, pontuado apenas por uma cadeira ao fundo onde o pastor irá ficar sentado, vigiando o mar. À direita, um compartimento, em cuja parede negra se podem ler, traçadas a vermelho, como que com sangue, diversas palavras que ecoam ao longo de toda a ópera: liebe, licht, weise, ewig, tod, wahn, sehnen, Isolde, pein, Vater+Mutter. No seu interior, a porta que lhe dá acesso caída no chão, por cima de uma estátua de uma santa (Maria?), cujo significado me pareceu ambíguo. Representaria a transcendência e a pureza do amor? a consumação isenta de pecado? Ou, ao invés, a apologia de um amor integral, através da negação da mulher enquanto simples objecto de adoração, aqui representado por uma estátua caída e quebrada? Confesso que não consegui chegar a nenhuma conclusão.
No final, o encenador opta por um Liebestod que, mais do que a morte de Isolde, é o momento do encontro extra-terreno dos amantes, após a sua morte.

Em suma: uma encenação que, não sendo original nem pretendendo contribuir interpretativamente para uma nova visão da obra, serviu fielmente a música e a acção dramática, sem prescindir de alguns elementos interessantes a suscitar a reflexão do público.



A direcção musical
A Orquestra Sinfónica Portuguesa foi dirigida por Graeme Jenkins.
Num tempo bastante lento, a orquestra começou um pouco titubeante e com os naipes orquestrais algo desgarrados. Com o avançar da obra, porém, o desempenho orquestral foi subindo de nível, sendo de destacar a notável intervenção do corne inglês no início do 3º acto, que esteve perfeito.
Não posso dizer que tenha ficado muito impressionado com a prestação do maestro, que me pareceu rotineira e pouco inspirada. Para além de ter permitido alguns excessos dinâmicos nos metais, a submergir completamente as vozes dos cantores, o principal “pecado” que senti foi o pouco envolvimento emocional da orquestra, a pouca incandescência, a frequente quebra de tensão dramática.



Os cantores
Elisabete Matos é a grande cabeça-de-cartaz desta nova produção e creio que justificadamente. Creio que esta foi a melhor prestação que lhe ouvi, com envolvimento dramático muito bem conseguido, espelhando perfeitamente todo leque de emoções que atravessam a personagem. Não senti, da mesma forma que em ocasiões anteriores, problemas de vibrato demasiado largo. A voz esteve sempre focada, segura no registo mais grave e com assinalável facilidade no registo agudo, embora ocasionalmente com alguma estridência e dureza nos picos.



Embora cenicamente não tenha gostado muito da opção do liebestod (não da ideia, mas da concretização, em especial por estarem ambos sentados no sofá), Elisabete Matos esteve bastante bem, com controlo emocional forte e acentuando mais a componente de êxtase e de transfiguração do que a dimensão orgástica desse momento culminante de toda a ópera.



Não conhecia o tenor norte-americano Erin Caves, que foi uma excelente descoberta. O papel de Tristan é quase sobre-humano e exige não só uma excelente técnica vocal, como uma inteligente gestão do esforço e da voz. Exibiu um timbre sonoro, claro, límpido, com boa projecção vocal e assinalável potência. Não se poupou excessivamente no dueto de amor (notando-se até uma pequena falha da emissão na sua parte final), o que me causou alguma apreensão sobre como iria decorrer o 3º acto. Todavia, levou de vencida essa dura prova em bom nível, apenas se notando já um cansaço evidente da voz a partir do O diese Sonne!



O baixo islandês Kristinn Sigmundsson esteve excelente. A sua voz é profunda, cheia e ressonante, de sonoridade nobre; a sua figura gigantesca e imponente adequa-se perfeitamente ao papel do Rei Marke. No longo monólogo do 2º acto, em que surgiu como uma figura fragilizada, em robe de chambre e de pantufas, a sua voz soou marcada pelo azedume, pelo ressentimento, com inflexões irónicas. Não foi o Rei Marke magoado mas nobre e contido que por vezes se ouve noutras interpretações; essa vertente surgiu, sim, na sua intervenção do final do 3º acto, onde a dor se fez sentir, mas sem perda de gravidade.



O papel de Brangäne foi interpretado pela meio-soprano australiana Catherine Carby. A sua voz soou quente e texturada, fazendo um interessante contraste com Elisabete Matos. Sempre envolvida dramaticamente, cantando com dinamismo, teve o seu momento mais alto, na minha opinião, na primeira intervenção admonitória durante o dueto de amor (Einsam wachend in der Nacht), que soou etérea.



Luís Rodrigues foi um Kurwenal generoso e caloroso. Para mim, Luís Rodrigues é um cantor extremamente sólido e polivalente, sendo sempre garantia de alta qualidade artística. E mais uma vez o demonstrou. No 1º acto foi adequadamente “provocador” sem ser chocarreiro; no 3º acto foi lírico e desesperado, culminando no seu suicídio com a espada de Tristan. A voz foi sempre muito bem projectada e audível e a prestação cénica impecável.



Marco Alves dos Santos cantou adequadamente o antipático papel de Melot, o mesmo se podendo dizer das intervenções de João Terleira como pastor e João Oliveira como timoneiro.



Uma nota negativa para o grande auditório do CCB: estando eu no 1º balcão, senti de forma anormalmente alta um ruído de fundo permanente e intrusivo, suponho que do ar condicionado ou de sistema de arrefecimento dos projectores. Creio que é injustificável um tal nível de ruído.
Também me pareceu uma má opção a realização de um intervalo de uma hora entre o 2º e o 3º acto, por ser excessivamente longo, quebrando a unidade da obra e atirando o seu final para muito tarde, em especial num dia de semana.



Em suma, na minha opinião foi uma récita de qualidade artística bastante elevada e que valorizou a presente temporada do Teatro Nacional de São Carlos.

domingo, 12 de junho de 2016

NABUCCO, Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2016 / June 2016

(review in English below)

No Teatro Nacional de São Carlos assistiu-se à representação da ópera Nabucco, de G. Verdi, numa encenação brasileira agradável e intemporal, de André Heller-Lopes, juntando elementos actuais, nomeadamente no vestuário (de Marcelo Marques) com símbolos assírios. Os cenários (de Renato Theobaldo) eram vistosos, dominados por painéis feitos de tubos, pondo em relevo figuras assírias. O momento mais conseguido acontece quando o coro dos escravos hebreus cantam o Va pensiero durante o qual, alguns dos seus elementos, à medida que a música aumenta de intensidade, sobem por uma grade que ocupa a maioria do palco e os aprisiona (a imagem usada para a divulgação da ópera pelo TNSC).


A direcção musical foi de Antonio Pirolli. Por várias vezes houve desencontros na Orquestra Sinfónica Portuguesa e entre esta e os cantores. 


O Coro do Teatro Nacional de São Carlos sob a direcção de Giovanni Andreoli teve uma prestação muito boa, com relevo para o pianíssimo final do famoso Va pensiero.


Passando aos cantores solistas, foi uma tarde gratificante. O barítono espanhol Àngel Òdena foi um Nabucco arrasador, tanto na prestação cénica como vocal. Tem uma voz enorme, muito bonita e expressiva, sempre sobre a orquestra. Foi, de longe, o melhor da tarde e ao nível dos melhores barítonos que se podem ouvir na actualidade. Fantástico!


O grande nome em cartaz foi o soprano Elisabete Matos no papel de Abigaille. Todos esperamos o melhor da nossa compatriota e, mais uma vez, ela fez tudo o que está ao seu alcance para cumprir o que dela se espera. A voz é potente e bem timbrada, embora nem sempre tenha respondido em pleno. Em palco, como habitualmente, ofereceu-nos uma interpretação muito credível.


O baixo Simon Lim foi um Zaccaria de voz grave e agradável, com um bom desempenho cénico. Apenas no registo mais grave perdia alguma qualidade mas, ainda assim, esteve bem.


Maria Luísa de Freitas foi uma Fenena convincente, de voz potente, sempre sobre a orquestra. No registo mais agudo, as notas por vezes saíam mais gritadas que cantadas.


O jovem tenor Carlos Cardoso foi excelente. A interpretação vocal foi muito convincente, voz de timbre bonito e sempre bem audível, sem gritar. Cenicamente esteve também ao mais alto nível, muito ajudado pela sua juventude e boa figura. Foi um dos melhores tenores que se ouviu em São Carlos nos últimos tempos. Esperemos que volte rapidamente.


Nos papéis secundários ouvimos outras boas interpretações. André Henriques foi um Grande Sacerdote com presença, Carla Simões foi excelente (voz muito bonita) como Anna e Pedro Rodrigues foi um Abdallo muito digno e com presença cénica marcante.


Um espectáculo muito bom a encerrar a temporada de ópera do Teatro de São Carlos







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NABUCCO, Teatro São Carlos, Lisbon, June 2016

In Teatro Nacional de São Carlos one could see the opera Nabucco by G. Verdi, in a pleasant and timeless Brazilian staging by André Heller-Lopes, joining contemporary elements, in particular clothing (by Marcelo Marques) with Assyrian symbols. Scenarios (by Renato Theobaldo) were showy, dominated by panels made of tubes, emphasizing Assyrian figures. The most accomplished moment happened when the chorus of the Hebrew slaves sang Va pensiero during which some of its elements, as the music increases in intensity, go up by a grid that occupies most of the stage and imprisons them (the image used for the announcement of the opera by TNSC).

The musical direction was by Antonio Pirolli. Several times there were dissonances in the Portuguese Symphony Orchestra and, above all, between the orchestra and the singers. The Choir of the Teatro Nacional de São Carlos under the direction of Giovanni Andreoli had a very good performance, with emphasis on the final pianissimo of the famous Va pensiero.

Turning to soloist singers, it was a rewarding afternoon. Spanish baritone Àngel Òdena was an amazing Nabucco, both scenic and vocal. He has a huge voice, very beautiful and expressive, always over the orchestra. He was by far the best of the afternoon and he is at the level of the best baritones that can be heard today. Fantastic!

The big name on display was soprano Elisabete Matos in the role of Abigaille. We all hope the best of our compatriot and, again, she did everything in her power to fulfill what is expected from her. The voice is powerful although not always answering in full. On stage, as usually, she offered us a very credible interpretation.

Bass Simon Lim was a Zaccaria with a pleasant well audible voice, with a good stage performance. Only in the low register he lost some quality but still did well.

Maria Luisa de Freitas was a convincing Fenena, in a strong voice, always over the orchestra. In the top register, the notes sometimes were more shouted than sung.

The young tenor Carlos Cardoso was excellent. The voice was very convincing, beautiful timbre and always well audible without screaming. Scenically he was also at the highest level, greatly helped by his youth and good figure. he was one of the best tenors that sung in São Carlos Theater in recent times. We hope he will come back soon.

In supporting roles there were other good performances. André Henriques was a high priest with presence, Carla Simões was excellent (beautiful voice) as Anna and Pedro Rodrigues was a very worthy and remarkable Abdallo.

A very good performance to close the opera season of the Teatro de São Carlos


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terça-feira, 10 de março de 2015

MACBETH no Teatro Nacional de São Carlos — 27 de Fevereiro e 1 de Março de 2015

(imagens da internet)

Assisti à penúltima e última récitas da ópera Macbeth de Giuseppe Verdi. Trata-se de um ópera estreada em 1847, num dos períodos mais produtivos do compositor, mas, sobretudo, num período de maturação estilística de Verdi, havendo já muito daquele Verdi da trilogia popular (Il Trovatore, Rigoletto e La Traviata). Esta ópera foi, aquando da estreia em Paris em 1865, globalmente revista, sendo essa versão, claramente superior à original, aquela que hoje em dia se representa. Trata-se da primeira obra de Verdi que tem por base um peça do dramaturgo inglês William Shakespeare que foi adaptada pelo seu libretista Francesco Maria Piave. Para o meu gosto pessoal, trata-se de uma das óperas mais entusiasmantes de Verdi, com todo um conjunto de árias de dificuldade muito elevada e com um ritmo alucinante entre cenas.


O texto de Shakespeare é uma trama de crime guiado pela sede de poder e, também, da culpa geradora de uma tremenda angústia que conduz à loucura. Trata-se de uma peça muito rica que foi adaptada com qualidade por Piave, muito embora sem a genialidade do libretista de Otelo e Falstaff — Arrigo Boito. Poderão ler uma sinopse e conjunto de textos interessantes, além do libreto com excelente tradução para português, no programa de sala do TNSC de 2007.


A encenação de Elena Barbalich já era conhecida de parte do público, uma vez que se trata de uma reposição da encenação de Macbeth de 2007. É uma encenação interessante e que permite, de forma extremamente eficaz, o desenrolar da acção atendendo aos pormenores do libreto.


Destaca-se uma circunferência em forma de íris e com 8 partes espelhadas que, ao longo da acção, toma diversos papéis: serve como uma espécie de olho que permite as revelações das bruxas; de mesa aquando do banquete; de caldeirão nas revelações do III acto; torna-se escura e opaca quando os 8 reis empunham, cada um, um espelho; de ligação permanente entre a realidade, a revelação, a loucura e uma metáfora de observação que, no fundo, olha também para nós, elementos do público.


O jogo de luzes entre o vermelho e o branco é interessante, nomeadamente quando Duncano é assassinado: o fundo branco torna-se vermelho e, mais tarde, quando Duncano surge coberto do seu sangue vermelho-vivo, o fundo torna-se branco em contraste. Também são interessantes os flashes de luz branca aquando das revelações, ou o jogo de projecções baças e mal definidas das alucinações.


O vestuário é de época e rico em detalhes. Peca pela direcção de actores no que diz respeito aos solistas. É demasiado estática e não promove o dramatismo.


É, pois, uma encenação bem interessante e agradável de acompanhar e que enriquece a ópera, não tentando ser pretensiosa ao atribuir novos significados à acção. Aliás, comparativamente à nova produção do MET de que aqui se deu conta, creio que esta encenação é muito mais interessante. Não posso concordar com quem ache que se trata de uma encenação destituída de interesse ou qualidade, ou, muito menos!, que se trate de uma encenação obsoleta, indigente ou carente de outros demais adjectivos negativos. Antes pelo contrário!

A Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por Domenico Longo apresentou um nível bom. Foi intensa a espaços e conseguiu criar momentos de dramatismo elevado, com um tempo interessante e, globalmente, favorável aos cantores. Foi, sem atingir o brilhantismo, uma interpretação de qualidade.

A ópera tem, como personagens principais, Macbeth — homem ambicioso e manipulável, com pouco recursos para lidar com a ambivalência que lhe geram os seus desejos e os seu actos —, Lady Macbeth — mulher implacável, perturbada, sem escrúpulos e com uma sede de poder que deixaria Maquiavél envergonhado —, e as Bruxas — elemento central do desenrolar da acção e  que lhe introduz sentido mágico.


Macbeth foi interpretado pelo barítono Àngel Òdena. Dotado de uma voz bem timbrada e agradável e dono de bons recursos dramáticos, foi um Macbeth convincente. Terminou em plano muito elevado na sua ária Pietà, rispetto, amore. É verdade que, cenicamente, não foi extraordinário, mas creio que esteve algo diminuído pela direcção de actores que, inclusive, o obrigou a um exercício acrobático e algo perigoso, ao fazê-lo subir uma cadeira muito alta envolto no seu manto comprido. Foi, apesar disso e no meu entender, o melhor da noite e um Macbeth de elevado nível vocal.


Lady Macbeth foi Elisabete Matos. Dotada de uma voz poderosa, metálica e de ampla tessitura, esperava-se uma Lady Macbeth de nível muito elevado. Cenicamente apenas cumpriu, não conseguindo passar a imagem de mulher perturbadamente sedenta de poder a qualquer custo, talvez pela sua postura demasiado estática. Vocalmente, cumpriu sem deslumbrar, o que muito se deveu à forma estranha como finalizava as notas mais agudas, a tendência para a estridência e à dificuldade em imprimir lirismo ao seu fraseado. Assim, quer em Vieni! t’affretta e La luce langue esteve longe de brilhar e perto de desiludir. Na famosa ária da loucura Una macchia è qui tuttora estava em melhor plano (foi mesmo, globalmente, a sua melhor ária) até que falhou, por completo, o pianissimo final ao dizer Andiam, o que, infelizmente, foi a imagem que ficou. Disseram-me que estava doente, pelo que, se assim for, se desculpa e se agradece o esforço.

O Coro do TNSC esteve, nas suas várias intervenções, num plano razoável, tendo, sobretudo no coro inicial, apresentado alguns elementos desencontrados dos restantes e com recurso frequente à estridência.

O Banquo de Giacomo Prestia deslumbrou com a sua voz potente e bem colocada que, dada a curta extensão do papel, não o permitiu brilhar mais. Esteve muito bem na sua ária Studia il passo, o mio figlio!

Macduff foi o tenor Enzo Peroni que, com uma voz relativamente pequena, baça e sem brilho vivo, cumpriu sem encanto o seu curto papel, nomeadamente na ária O figli, o figli miei!

Destaco a interpretação de Bárbara Barradas que, apesar do curto papel, conseguiu brilhar nas suas intervenções, tendo estado particularmente bem nos coros finais do 1.º acto (nomeadamente no quarteto que canta a morte de Duncano) e 2.º acto com uns agudos que sobressaiam sobre a orquestra, bem como no 4.º acto. Concordo com a opinião de J.A. Miranda quando afirma que esta — e do que vi sobretudo na récita de 27 (na última esteve mais comedida) — parecia estar numa competição para demonstrar  estar preparada para ser, ela própria, a diva. Ainda assim, dada a qualidade que evidenciou, fiquei muito agradado. Aliás, Bárbara Barradas, pelas suas recentes excelentes interpretações no Il Viaggio a Reims e como Barbarina no Le Nozze di Figaro da FCG, está há muito a pedir papéis de maior relevo e destaque!

Os restantes elementos foram competentes e eficazes, nomeadamente o Malcolm de Marco Alves dos Santos.


Foram, no cômputo geral, duas récitas homogéneas e agradáveis no TNSC. Nesta temporada, apesar do baixo orçamento, o São Carlos tem revelado vontade de retomar alguma da qualidade de outros tempos. Não posso, pois, concordar com opiniões tendentes a que o TNSC tenha apresentado um espectáculo medíocre. Posso concordar, isso sim e infelizmente, que parece haver uma nuvem negra sobre o futuro deste teatro. Entra director, sai director. Não anuncia o substituto. Logo não anuncia temporada. Antes se prenuncia a falta dela. Mas, entretanto, só há vazio e a incerteza. E fica seguramente o descrédito das entidades ligadas à cultura (ou falta dela) que a gerem. Fica a inépcia do Secretaria de Estado da Cultura. A cultura — a maior riqueza de um povo e aquilo que o faz perdurar e unir-se — reduzida a uma secretaria de estado sem expressão é, desde logo, sintomático da avareza intelectual dos nossos "dirigentes"... Assim, lentamente e, como diria Eça, "num galopezinho muito a direito e muito seguro", assiste-se ao cortejo fúnebre e lento do TNSC, não sem que se vislumbrem raros laivos de vida, aliás como acontece nos estertores da morte... E isso é lamentável!