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domingo, 11 de dezembro de 2011

FAUST – Met Live em HD, Fundação Gulbenkian, Dezembro de 2011

(Review in English below)

 

 Faust de Charles Gounod é uma ópera lírica em cinco actos com libretto de Jules Barbier e Michel Carré. O enredo pode ler-se aqui


A encenação no Met foi do canadiano Des McAnuff. A acção foi transportada para o início do século XX, no período entre as duas guerras mundiais. O filósofo Faust é aqui um velho físico nuclear que trabalha num laboratório onde se desenvolve a bomba atómica.

(Fotografias / Photographs de Ken Howard / Met Opera)

 Pensa suicidar-se ingerindo veneno mas, depois de invocar o diabo e lhe vender a alma aparece, do meio do fumo, jovem e impecavelmente vestido e assim continuará até à cena final. Mefistófeles está vestido de forma idêntica a Faust, mas usa um laço, uma gravata ou uma flor escarlate na lapela.


 O cenário é em metal, relativamente vazio, ladeado por duas escadas de caracol, com três voltas, constantemente utilizadas nos movimentos cénicos, semelhante à encenação que Jean-Louis Martinoty concebeu para o Faust de Paris, como se pode ver aqui. Esta estrutura serve de base a toda a encenação que beneficia de frequentes projecções vídeo.
No 4º acto, a chegada dos militares da guerra e o reencontro com as famílias é um dos momentos mais bem conseguidos.
No final, Marguerite sobe ao céu numa escada que surge no centro (posterior) do palco e Faust, novamente velho, reaparece no seu laboratório e suicida-se por ingestão do veneno.

Confesso que de início não gostei mas, com o desenrolar do espectáculo, fui achando que acabou por funcionar, apesar de não ter trazido nada de muito inovador.
A direcção musical foi do jovem maestro canadiano Yannick Nézet-Séguin. Foi uma direcção superior, fez justiça à partitura de Gounod e apoiou muito os cantores com algumas alterações nos tempos sem perturbar a narrativa vocal, permitindo que fossem sempre ouvidos.
A Orquestra e o Coro do Met estiveram, como sempre, ao mais alto nível.

Jonas Kaufmann, tenor alemão, foi um Faust extraordinário. A sua voz é de tenor lírico spinto mas consegue descer ao registo baritonal ou subir às notas mais agudas sem qualquer perda de qualidade. E fá-lo aparentemente sem esforço, sempre audível e sem estridência. A interpretação esteve repleta de frases de um lirismo invulgar, alguns pianíssimos de cortar a respiração, mezza voce ou voz forte e encorpada sempre que as passagens o exigiam. Foi também excelente a sua interpretação cénica, expressando curiosidade, desejo, arrependimento e desespero. As cenas com Marguerite foram marcantes e, no início, revelando algum cinismo também. É um artista completo e mais uma vez o demonstrou. A ária Salut! demeure chaste et pure no 3º Acto foi muito aplaudida mas as intervenções nos dois últimos actos foram arrebatadoras.


 O soprano russo Marina Poplavskaya foi Marguerite. A cantora não está no grupo das minhas favoritas mas esta foi a sua melhor interpretação que assisti. Tem uma voz forte, dura e, por vezes, estridente para algumas das personagens que tem interpretado e, no presente caso, também assim penso. Começou mal mas conseguiu transmitir a inocência desejável à personagem. Também achei que melhorou vocalmente ao longo da récita. Artisticamente esteve muito bem, de frágil e pura a destroçada e enlouquecida no final. O pormenor do cabelo, longo e belo no início e curto e descuidado no fim foi muito bem conseguido.
Na ária Ah! Je ris de me voir, a célebre ária das jóias (que inspirou “As Jóias da Castafiore” de Tintin / Hergé), revelou algumas limitações técnicas. Contudo, esteve bem melhor no dueto amoroso do final do 3º acto e também muito bem no 5º acto.


 René Pape, baixo alemão, foi um Méphistophélès assinalável. A voz é potente, cheia e grave, com alterações cromáticas ajustadas ao que canta. A figura e a encenação ajudam mas, apesar da sua presença dominadora, não foi tão maléfico e assustador como o vi anteriormente. Na ária Le véu d’or foi irrepreensível e teve várias outras intervenções de grande qualidade.


Valentin, irmão de Marguerite foi interpretado pelo barítono canadiano Russell Braun. A voz, bem audível, é igual a tantas outras. Artisticamente, na cena da morte após ter sido ferido por Faust, esteve muito bem.


 Michèle Loisier, mezzo canadiano de voz bem timbrada, foi um Siebel de qualidade.


 Este foi o quarto Faust que vi na presente temporada (e a este assunto voltarei brevemente).
Esta tarde foi mais um bom espectáculo na Gulbenkian.


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FAUST - Met Live in HD,  Gulbenkian Foundation, December 2011

Charles Gounod's Faust is a lyric opera in five acts with libretto by Jules Barbier and Michel Carré. The plot can be read here.

The staging at the Met was by Canadian director Des McAnuff. The action was set at the early twentieth century, the period between the two world wars. The philosopher Faust is here an old nuclear physicist who works in a lab where the atomic bomb is developed. He wants to commit suicide by drinking poison, but after invoking the devil he appears and he sells his soul to him. Then he comes from the middle of smoking, young, impeccably dressed and so will he continue until the final scene. Mephistopheles is dressed identically to Faust, but always wears a tie or a scarlet flower in his lapel.
The scenario is metalic, relatively empty, flanked by two spiral staircases with three loops that are continuously used in scenic movements. This approach is similar to the scenario that Jean-Louis Martinoty designed recently to Faust in Paris, as can be seen here.
This structure provides the basis for all the opera that benefits from frequent video projections.
In the 4th act, the arrival of the soldiers from the war and the meeting with their families was one of the most well done parts.
In the end, Marguerite ascends to heaven on a stairway that appears on back center stage and Faust, old again, reappears in his lab and commits suicide by swallowing poison.
I confess that at first I did not like the staging but, with the course of the show, I realized that it finally worked, although without anything very innovative.

The musical direction was of the young Canadian conductor Yannick Nézet-Séguin. It was a superior direction, he has done justice to the score of Gounod and supported the singers with a few changes in tempi without disrupting the vocal narrative and allowing the singers to be always heard.
The Met Orchestra and Choir were, as always, at the highest level.

Jonas Kaufmann, German tenor, was an extraordinary Faust. His lyric spinto tenor voice is capable to descend to the baritonal register or to climb to top nnotes without any loss of quality. And he does it so seemingly effortless, always audible and without stridency. His singing was full of uncommon beautiful lyric parts, some breathtaking pianissimi, and either mezza voce or strong and full-bodied passages whenever adequate. Artistically he was also excellent, expressing curiosity, desire, regret and despair. The scenes with Marguerite were remarkable, also revealing some cynicism at the beginning. Kaufmann is a complete artist, and he confirmed that once again. The aria Salut! Demeure chaste et pure in the 3rd Act was very good but his singing in the last two acts was breathtaking.

Russian soprano Marina Poplavskaya was Marguerite. I confess that she is not one of my favourite singers but this was her best performance I attended. She has a strong hard voice, and sometimes strident for some of the characters that she interprets. She did not have a good start but she managed to convey the desirable character's innocence. I also think that she improved vocally over the performance. Artistically she was fine, fragile and pure at first, mad and shattered at the end. The detail of her hair, long and beautiful at the beginning, and short and careless at the end was very good.
In the aria Ah! Je ris de me voir, the famous aria of the jewels (which inspired "The Castafiore Jewels" of Tintin / Hergé) she revealed some technical problems. However, she was much better in the love duet at the end of the 3rd act and she was also very well in the 5th act.

René Pape, German bass, was a remarkable Méphistophélès. The voice is powerful and with a beautiful low register, with colour changes adjusted to singing. The figure and the staging helped but, despite his constant commanding presence, he was not so evil and scary as I have seen him previously. In the aria Le veil d'or he was blameless and he had several other high-quality interventions.

Valentin, Marguerite's brother was interpreted by Canadian baritone Russell Braun. The voice, strong and with a nice timbre, is like many others. Artistically, at the death scene after being wounded by Faust, he was excellent.

Michèle Loisier, Canadian mezzo with a beautiful voice was a very good Siebel.

This was the fourth Faust I've seen this season (and I will come to this issue soon).
This afternoon was another good performance seen at the Gulbenkian Foundation.

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Celebração dos 40 anos de Plácido Domingo na Royal Opera House – 30 Outubro 2011




(review in english below)

Para celebrar os 40 anos passados sobre a estreia de Plácido Domingo na Royal Opera House, esta casa de ópera levou a palco, nos dias 27 e 30 de Outubro, dois concertos, onde o mítico tenor (agora “baritenor”), acompanhado de outros nomes célebres, nos trouxe os últimos actos encenados do Otello, do Rigoletto e do Simão Boccanegra, todas, como sabem, de Giuseppe Verdi.

Foi a primeira vez e, por certo, a última oportunidade que tive de ver Domingo como Otello. Tenho pena de não ter visto ao vivo a sua interpretação deste papel há vários anos atrás, quando era considerado um dos melhores Otello de sempre. Embora com uma pose e caracterização exímia, Domingo claramente esticou a corda demasiado num papel que já não se adapta à sua voz de momento. Contudo, e como sempre, não quebrou, embora alguns dos agudos tenham sido em defesa com diminuição da projecção de som. Esteve com o apoio maioritário de Marina Poplavskaya que não esteve, na minha opinião, à altura do evento. Desafinou muito durante a canção do salgueiro e o Ave Maria, principalmente nos agudos mantidos, o que, embora procurasse disfarçar com um canto em choro, não me convenceu minimamente que tal se devia a opções de dramatismo vocal. A Orquestra também entrou mal, com pelo menos dois momento de descoordenação com Pappano e algumas notas ao lado.



Como Rigoletto, Domingo apresentou-se claramente mais confortável mas confesso que, se como Boccanegra a sua presença, postura e voz se enquadram bem com a personagem, em Rigoletto não o sinto assim. Depois de o ver na produção em directo para televisão de 2010, acho que numa casa de ópera e ao vivo não funciona, embora a sua qualidade vocal e interpretativa não estejam em causa e permaneçam de elevado nível. Talvez por isso, e do modo sensato que o caracteriza, ainda não tenha prosseguido para uma produção como cabeça de cartaz desta ópera. Francesco Meli foi arrasador como o Duque, com a sua voz jovial, cristalina, segura e expressiva. Ailyn Pérez como Gilda esteve bem, a prometer vir a tornar-se uma soprano de relevo mas, pelo menos para já, sem estrelinha de genialidade. Paata Burchuladze cumpriu bem como Sparafucile bem como Justina Gringyte no papel de Madalena.





Como Simão Boccanegra, Domingo domina com uma classe impressionante. Utilizando uma produção da que assistimos em 2010 e que se encontra disponível em DVD, a sua interpretação mantém-se estratosférica, sem me ferir o facto da sua voz não ser a de um verdadeiro barítono. O modo como, no último acto, chama os guardas quando ouve a voz de Fiesco sem ainda saber que é este que lhe fala é feito de um modo só ao alcance de quem compreende o papel e sabe tornar estas personagens operáticas como reais. Continua também a cair de morto de forma atleticamente surpreendente, sem quebrar um único osso. Paata Burchuladze foi um Fiesco com qualidade embora me pareça uma voz já cansada e sem brilho interpretativo. Mais uma vez, e embora em modesta passagem como Adorno, Francesco Meli este excelente, acompanhado por uma Marina Poplavskaya em melhor forma do que no Otello (também, numa passagem vocal menos exigente…). Jonathan Summers foi Paolo e esteve irrepreensível nos momentos que antecedem a sua execução.





Foi uma tarde interessante mas o facto de, embora se conheçam as óperas apresentadas, só se assistir aos últimos actos, acabou por obrigatoriamente faltar alguma emoção e alma, mesmo com encenação. Acho que a Orquestra e Pappano entraram menos bem mas compuseram com o desenrolar da matiné. Fica a impressão de que se quer homenagear um grande cantor mas que não se constrói um espectáculo à altura estrelar que se desejaria.















Placido Domingo Celebration (40 years at the Royal Opera House) - 30 October 2011




To celebrate the 40 years after the debut of Plácido Domingo at the Royal Opera House, the Opera House took the stage, on the 27th and 30th October, two concerts, where the legendary tenor (now "baritenor"), accompanied by other famous names, brought us the staged final acts of Otello, Rigoletto and Simon Boccanegra all, as you know, by Giuseppe Verdi.

It was the first time and probably the last opportunity I had to see Domingo as Otello. I regret not having seen him live on this role several years ago when hr was one of the greatest Otello ever. Although with an excelent pose and characterization, Domingo too clearly “stretched the rope” in a role that no longer fits his voice. However, as always, he did not crack, although some of the high notes were sung in a defensive way with a decrease in sound projection. He was mainly supported by Marina Poplavskaya who was not, in my opinion, on the expected level of the event. Frequently of tune a lot during the Willow song and the Ave Maria, especially in the acute notes, I find hard to accept that they came out that way only in a overdramatic sense she wanted to give to Desdemona. The Orchestra had a bad start, with at least two moments of clumsiness and some notes on the side.



As Rigoletto, Domingo presented clearly more comfortable but I confess that, as Boccanegra his presence, posture and voice fit well with the character. This I do not feel in Rigoletto. After watching the live television production in 2010, I believe that live in an opera house it does not work, although his vocal quality and interpretation are not in question and remain a high level. Maybe so, and in a so prudent way that characterizes him, he has never accepted a production on live stage with his name as Rigoletto.. Francesco Meli was superb as the Duke, with his cheerful, clear, safe and expressive voice. Ailyn Pérez was good as Gilda, and she promises to become a very good soprano but, at least for now, we don’t see a perfect star of genius. Paata Burchuladze was ok as Sparafucile just like Justina Gringyte as Magdalene.





As Simon Boccanegra, Domingo rules with an awesome class. Using a production different from the one we saw in 2010 and is available on DVD, his interpretation remains stratospheric, without hurting me that his voice is not that of a true baritone. How, in the last act, he calls the guards when he hears the voice of Fiesco without even knowing who is talking to him is done in a way only possible to those who understand the role and know how to make these operatic characters look real. He also continues to drop dead in an athletically amazing way, without breaking a single bone. Paata Burchuladze was a good quality Fiesco though I sensed a tired voice and dull interpretation. Again, although in the modest passage as Adorno, Francesco Meli was excellent, accompanied by a Marina Poplavskaya in better shape than in the Otello act (also, in less demanding vocal passage...). Jonathan Summers was a magnificent Paolo in the moments before his execution.





It was an interesting afternoon but the fact that only the final acts were presented it lead to a must have feeling of lack of emotion and soul, despite knowing the operas content and previous actions and despite the staging. I think Pappano and the Orchestra started not so well but they went better in the course of the concert. The overall impression is that the purpose is to honor a great singer but the result does not end to be as memorable as it should be.
















quarta-feira, 28 de julho de 2010

Plácido Domingo como Simon Boccanegra - Royal Opera House (29 Junho e 5 de Julho) - BBC PROMS 2010 (18 de Julho) - Teatro Real de Madrid (25 de Julho)

Com o Simão Boccanegra, os Fanáticos inauguram um novo ditado: "Não há três sem quatro!" ou melhor: "Não há quatro sem cinco!".
Assisti ao Simão Boccanegra na Royal Opera House, Covent Garden, Londres a 29 de Junho (estreia) e a 5 de Julho (noite da gravação para a BBC e posteriormente para edição em DVD pela EMI); nos BBC PROMS 2010 a 18 de Julho (mesma produção da Royal Opera mas em versão semi-encenada) e, por último (e infelizmente por ter de esperar talvez até Setembro de 2011 para o ver novamente, em Viena...) no Teatro Real de Madrid a 25 de Julho (mais uma vez Domingo a apadrinhar a minha primeira ida a um teatro novo). A este quarteto de récitas pode-se adicionar a de 2 de Julho também na Royal Opera, à qual assistiu o FanáticoUm, que sei que irá vividamente comentar esta minha exposição até porque temos algumas opiniões divergentes em relação a alguns cantores... :)
Esta grande aventura iniciou-se a 29 de Junho, altura da estreia, como já referi. Cheguei cerca de uma hora antes à Stage Door para receber Domingo. Ansiava desde há 5 anos por aquilo que, invariavelmente face à quantidade de gente sempre em sua roda após as récitas, ainda não tinha em condições: uma foto com o Maestro. Para ser franco já tinha uma datada de 2006 (aquando das 2 récitas do Cyrano que vi na Royal Opera) mas estou com cara de parvo e a máquina demorou tanto tempo a disparar face à focagem automática, que Domingo (na altura muito magro de cara e com óculos de massa pouco favoráveis) está a olhar para o meu programa e a assinar e não para a câmara. Consegui ainda dar-lhe algumas lembranças de récitas prévias, incluíndo uma foto, a meu ver muito boa, que tinha tirado nas Ramblas em Barcelona em Maio de 2008, quando o vi pela última vez como Siegmund em versão concerto com elenco fantástico que já referi num comentário deste blog. Não vim, claro está, sem ele me assinar uma igual que guardo como o tesouro que é, aguardando algum tempo disponível para a emoldurar. Tudo perfeito!
Lá dentro esperava-me agora o regresso de Domingo à Royal Opera (depois de Siegmund em 2007 nos ciclos do Anel e depois de um falhado regresso, fazendo de Tamerlano, por doença em Março) e num papel classicamente de barítono.
Vi Domingo como Boccanegra pela primeira vez em Berlim a 7 de Novembro de 2009, na produção de estreia no papel. Não o pude ver em Nova York ($$$) e depois do infortúnio em Milão (ver comentário prévio no blog), estava ansioso para ver o quanto havia crescido no papel.
Para tentar não vos maçar muito com repetidos comentários de introdução diária no blog, achei por bem reunir toda a informação e fazer como que um modo descritivo-comparativo de todas as récitas, aproveitando para contrapor 2 encenações diferentes. Assim o vou tentar fazer, após esta introdução londrina.
A encenação do Simão Boccanegra da Royal Opera é extremamente clássica mas muito bem conseguida. Colunas cilíndricas do lado esquerdo do palco mantêm-se ao longo de toda a récita e é o fundo e o lado direito do palco que se vão alterando entre prólogo e actos: no prólogo, à direita estão as portas que dão para o palácio de Fiesco, no 1º acto é a casa de Amelia Grimaldi; o fundo é parede com escritos no prólogo, é neutro no 1º e último actos. Os trajes, como se poderá ver pelas fotos que adiciono, são igualmente clássicos e discretos, sem exageros. Talvez o mais exuberante seja o traje de Boccanegra na cena do Concílio - de amarelo a dourado com motivos em bordeaux mas com classe (ao contrário da de Berlim em que o amarelo fazia Domingo sair de um teatro chinês, sem ofensa).
A destacar na encenação tenho alguns pontos:
1) A imagem em sombra de luz quando Boccanegra entra no Palácio e encontra Maria morta (vemos Domingo a abraçar silhueta feminino na altura em que grita "Maria!") - excelente momento digno de Holywood.
2) Amélia casa-se de negro - será prenúncio da morte do Pai minutos depois?
3) A idade parece que não passa por Fiesco entre o prólogo e os actos que, como sabem, se passam 25 anos depois.
Nos PROMS, a récita foi semi-encenada. Os trajes da produção da Royal Opera acompanharam os cantores, bem como os adereços importantes como as espadas, o punhal, o jarro, o copo e o banco de madeira que serviu na Royal Opera e também aqui, de apoio para a primeira intervenção de Amelia com a ária "Come in quest'ora bruna", a benção de união de Fiesco a Adorno, a cena de reencontro de Pai e filha (todos no 1º acto). Se a encenação na Royal Opera cumpriu os seus desígnios, nos PROMS foi mágica. Isto porque, no lugar do fundo de palco estava a grandiosa Orquestra da Royal Opera, o seu Coro magnífico e António Pappano de batuta na mão e com os seus movimentos de boca tipo peixe que faz enquanto dirige. Foi diferente, sublime, mágico (no geral, talvez possamos extrair os tais movimentos de Pappano...). A casa de Fiesco foi no topo das escadas de acesso ao palco e os primeiros lugares do 1º anel à direita e Domingo tão bem estendeu a mão em direcção à mesma quando foi arrastado por Paolo e Pietro no final do prólogo... Segue como Doge mas no sofre por Maria falecida, e aquela mão no ar em sua direcção... Excelente momento dramático! O beijo de Simão à filha após o dueto do reencontro de ambos foi cenicamente irrepreensível na estreia e nos PROMS mas menos sentido no dia 5 de Julho. Do mesmo modo, o "Insensato" de Amélia, protegendo com o seu corpo o corpo de Simão contra o punhal de Adorno foi sincronizado na estreia e nos PROMS mas não a 5 de Julho. Por estes motivos acho que a BBC gravou a récita menos conseguida das que tive o prazer de assistir e será essa que vamos ter em DVD. Embora no dia 5 de Julho tenha assistido talvez à melhor cena da morte de Simão, os metais que acompanham a entrada do do Doge no 1º acto desafinaram e, por exemplo, o "Figlia" no final do dueto Simão-Amélia não foi tão bom como o dos PROMS ou de Madrid. Na estreia, a expressão do Doge quando reencontra Fiesco é de tão grande felicidade (pode agora dar-lhe a neta e este perdoá-lo) que arrepia, mas nas outras récitas foi menos exuberante.
Em Madrid, a encenação foi mais austera. Em palco reina o mármore, e por isso, o branco. São de mármore as colunas paralelepipédicas do palácio, as portas da casa de Fiesco que se situam no fundo do palco, a estátua que centrada se impõem no prólogo, o trono do Doge na cena do Concílio (onde Domingo canta até ao "Plebe, Patrici, Popolo"), a mesa do acto seguinte. Contrastando temos os trajes em bordeaux de Domingo, Paolo e Pietro (com diferenças estéticas,, claro), o verde de Amélia, e o preto de Fiesco e Adorno. A cena do Concílio dá-nos um Domingo vestido com uma écharpe volumosa, presa à frente com um pregador de brilhantes em forma de OO, fazendo lembrar algo que a saudosa Amélia Rey Colaço vestiria num episódio da série "Gente fina é outra coisa"... No último acto, Simão aparece cambaleando em palco, fruto da fraqueza pelo veneno. Na encenação de Londres Domingo aparece com duas bengalas e vai deambulando pelo palco como se o peso da idade, da vida, de tudo caísse sobre as suas pernas. De referir ainda que o fundo no 1º acto é composto por uma projecção cinéfila de um mar com ondas calmas, que se torna em agitado no 2º acto, acompanhando a trama.
Em qualquer uma das récitas, a queda final de Domingo, morto, deixa sempre a dúvida no ar de quando é que ele vai fracturar a cabeça do fémur (dado a sua idade e já algum hipotético grau de porosidade óssea...). Mas, pelo menos até 25 de Julho nada aconteceu. Até para isso é preciso ter mestria... e ele tem-la. O final da récita dos PROMS foi fantástico: Domingo permaneceu tempo demais no chão, morto. Tanto que até Calleja e Pappano se acercam do mesmo com algum grau de preocupação, se algo teria acontecido. Quando Pappano se inclina, Domingo levanta a cabeça sorrindo e Pappano leva as mãos ao peito como que aliviado de que nada havia acontecido. Momento de alguma tensão mas de riso final. Que Figura!... Espelha aquilo em que acredito: amor ao que se faz torna-nos capaz de fazer quase tudo e se o fizermos com humor, tudo será ainda melhor (para nós e para os outros). Tenho um video com este episódio, tirado com a máquina fotográfica mas ficou com MB superiores ao que o blog aceita. Se alguém souber como o colocar visível agradeço que o diga, para que possamos partilhar este momento.
Se ainda não estão a dormir com a minha crónica, possivelmente não será agora que vão começar a dormitar porque vou passar aos cantores:
Plácido Domingo foi Simão Boccanegra. O homem é um senhor, um Deus da Ópera!!! Não me interessa se é tenor, se é barítono... é Domingo!!! Vai ficar para sempre na História da Ópera e muitos hão-de recorrer sempre às suas gravações para o conhecer e para conhecerem as próprias óperas porque muitas das gravações são e continuarão a ser de referência. A impressão que tive desde Novembro até agora é que, em Berlim, Domingo esteve muito bem mas notava-se alguma apreensão do mesmo em relação ao que o público poderia pensar do facto de ele tomar esta aventura de cantar um papel de barítono com a sua voz de tenor. Era patente a sua inabitual inibição (se assim se pode chamar) nas chamadas ao palco. Também em Berlim senti a sua tentativa de tornar a sua voz mais grave, mais escura, o que tornou, comparativamente a Londres e Madrid, um "Plebe, Patrizi, Popolo" menos conseguido. Em Londres e Madrid a confiança estava lá e era clara a sua evolução no papel. Aqui viveu totalmente Simão, talvez também ajudado pelas encenações. A voz? Fantástica! A capacidade interpretativa? A de um grande actor! Tudo o que possa dizer é repetitivo...
O que foi melhor aqui e ali? Gostei muito da estreia em Londres: o dueto com a filha foi muito bom, levando a parestesias faciais no momento alto da identificação de ambos mas o seu "Figlia" final foi melhor nos Proms e em Madrid - estabilidade na linha melódica e o final grave com duração perfeita. Em Madrid, quando ambos juntam a medalha ao peito e vêm que são pai e filha não foram parestesias que senti mas parecia que alguém me estava a puxar o couro cabeludo para cima e para trás. Fantástico!!! (Talvez a ser diferente por estar na 1ª fila da plateia... na Royal Opera foi no anfiteatro e nos PROMS ligeiramente lateral...). O "Plebe..." foi muito bom mas ainda melhor nos PROMS embora aqui com um "feroce" que não saiu claramente do ponto de vista de dicção (uma das ocasionais faltas de memória de Domingo mas habilmente disfarçadas). Há também alguma dificuldade em Domingo articular o "Pace"... raramento acentua o "ce" e parece por vezes estar a dizer "Patre". Em Madrid muito, muito bem nesta passagem. A duração da última sílaba do "Plebe..." foi de maior duração em Madrid. Tinha ideia que Pappano o fazia mais rápido para disfarçar alguma dificuldade no grave de Domingo mas não, este correspondeu esplendidamente em Madrid a esta maior duração (aliás como a mim me soa melhor). No dia da gravação para DVD esteve bem mas acho que tentou florear/baritonar a passagem o que acho que fez perder alguma grandiosidade (mas terei de rever no DVD). Quando diz a Paolo para repetir a maldição a quem raptou Amélia penso que todos os que estavam no teatro estremeceram. O punho cerrado sob o queixo de Paolo... Que momento!!! Em Madrid esteve tudo lá nesta passagem mas cenicamente foi, por milésimos de segundo, importunada por um olhar para baixo para Domingo descer um degrau.
Temos de esperar talvez até Setembro de 2011 em Viena para poder ouvir de novo Domingo ser Boccanegra mas até lá novas surpresas poderão surgir. Já é conhecido o Rigoletto de Setembro - gravação para a RAI - e não foi a última vez que Domingo cantou na Royal Opera... A ver vamos o que reserva o futuro. Para mim vou querer revê-lo em Janeiro, em Madrid...
Ferruccio Furlanetto (Fiesco) é um daqueles cantores que se podem comparar com Netrebko no que aos Fanáticos diz respeito: cada récita sai sempre bem. E foi o que se viu nestas quatro. Dotado de uma voz de baixo à baixo, com graves fantasticos e estáveis, mas agudos igualmente seguros, capacidade interpretativa vocal e cénica espectacular, tem um timbre característico que o identifica seja onde for, mesmo sem o vermos. O "Ch'ami Amelia" foi dado com tanto calor na voz em Madrid que me deliciou ao máximo. A cena da benção da união de Adorno e Amélia foi fantástica embora nas récitas de Londres tenha tido um Calleja e não um Giordano... (já lá vamos...). Os duetos de Domingo e Furlanetto no acto final foram absolutamente soberbos em qualquer das récitas! Dois gigantes colossais da Ópera em interpretações sublimes!!
Quem vence o duelo Joseph Calleja e Marcello Giordani como Gabriele Adorno? Sem dúvida Giordano!! Aqui começam as minhas divergências de opinião com FanáticoUm... Para mim Calleja tem tudo o que é preciso para ser o que ele é: um tenor fantastico (a mesma ideia Netrebko e Furlanetto aqui se aplica). A voz é potente, afinada, tem entoação de acordo com o que está a cantar, e aguenta-se na mesma qualidade até ao final da récita. Qual é então o problema? A qualidade do seu vibrato. Sempre que canta, e principalmente quando as frases acabam em sílabas em "a" e "e" parece que está a balir. Horrível!!! É um timbre episódico feio, que embora tenha me feito progressivamente menos confusão nas 3 récitas, não posso dizer que o tolero. Giordano sim! Características gerais semelhantes mas sem o balir... É como um Adorno deve ser e faz lembrar Carreras na célebre gravação de Abbado - La Scala da Deutschegrammophon. Esteve perfeito em Madrid, não só na voz mas também cenicamente! Foi talvez um pouco exagerado quando sabe que Simão é pai de Amélia, ficando muito pasmado, de boca aberta como que em espasmo. Mas o deixar cair do punhal entre o "Tu" e "Suo padre"... lindo!
Em relação aos Paolo. Em Londres, a melhor interpretação de Jonathan Summers foi na estreia. Voz maléfica com uns "Orrore" sentidos e vindos das trevas. Sem nada a referir de negativo na voz e interpretação à excepção do dia da gravação em DVD em que o achei rouco, os "Orrore" menos conseguidos e no geral mais fraco. Em Madrid, Ángel Ódena foi um Paolo mais irado que maléfico. Voz fantástica, (mais uma vez) uns "Orrore" soberbos e caracterização sublime. Bravo!
Para terminar as vozes, e contra o que são as normas da boa educação, passemos às senhoras:
Mais uma vez contrastam as minhas opiniões com o FanáticoUm. Marina Poplavskaya foi uma Amélia bastante credível e notei evolução ao lono das récitas. Começou muito rude na estreia mas tornou-se progressivamente mais melodiosa e penso que fez da sua interpretação nos PROMS um marco na sua ainda não longa carreira. Duetos com Calleja bastante credíveis, sincronia em intensidade de agudos e nos finais de frase. Cenicamente também muito bem. Inva Mula é claramente melhor mas a experiência pessoal também é maior e diferente. Mais lírica mas também com mais maneirismos físicos foi um Amélia fantástica em Madrid. Afinação, agudos estáveis, sem gritos, e sentimento na voz e no físico. Mas também falhou... entrada em falso sobrepondo-se ao "Degg'io salvarlo" de Boccanegra mas disfarçado bem.
Antonio Pappano, a Orquestra e o Coro da Royal Opera são fantásticos! Mas existe sempre uma ou outra falha que mancham ligeiramente o todo. E aqui são os metais, como já é hábito em Wagner... Pontualmente nos Proms mas mais marcado no dia da gravação em DVD, a entrada do Doge é feita em perfeita desafinação... Não sei se os engenheiros de som conseguem minorar isto mas teremos de ver no DVD.
Em Madrid, a Orquestra esteve sublime (pelo menos não detectei nenhum erro), dirigida por Jesús López Cobos. Também devem ter sentido a resposabilidade da presença da Rainha de Espanha no camarote real...
Em resumo, acho que a BBC e a EMI deviam ter gravado todas as récitas e escolher as melhores cenas de cada acto para fazerem um DVD memorável; devia ter sido gravada em video a récita dos PROMS como fizeram com os Mestres Cantores (acho que o Simão merecia mais...). Felizmente teremos o audio para sempre. O mesmo digo para Madrid mas aqui não sei se não gravaram porque a récita foi transmitida para a Praça do Oriente onde várias pessoas poderam assistir. Talvez o som que será retransmitido pela UER (daqui a algum tempo, por certo, na nossa Antena2) venha acompanhado também com um DVDzito...
Quero deixar que o final da récita de Madrid teve algumas particularidades. Depois de 20 a 30 minutos de aplausos e chamadas ao palco, o elenco saiu à varando do Teatro, com a Rainha de Espanha e cumprimentaram todos os que estiveram a assistir na rua à récita. Domingo cantou canção madrilena e ainda um "Campeones" em alusão à vitória de Espanha no Campeonato Mundial. Consegui gravar um pouco deste "Campeones" mas não a canção madrilena, na minha máquina com memória em fase terminal face à quantidade de fotos e videos que fiz na chamada ao palco dos cantores...
Este mês de Julho, esticado a 29 de Junho, foi um mês muito especial para mim operaticamente falando. Tive a oportunidade de assistir a récitas marcantes da História de Ópera e fi-lo com as pessoas que mais amo na vida (cronologicamente: Esposa na Royal Opera, Mãe nos PROMS e Pai no Teatro Real de Madrid). Espero que a idade e a doença não me levem estas recordações porque vou querer levá-las na minha mala quando Deus me chamar a fazer a última viagem, ao Seu encontro.