A nova produção da ópera Don Giovanni para o Teatro alla Scala do canadiano Robert Carsen foi, juntamente com um elenco de excepção, motivo para a abertura da temporada 2011/12 do teatro milanês, marcada, igualmente, pela estreia de Daniel Barenboim como seu director artístico.
Tivemos oportunidade de assistir, ao vivo, à segunda récita. Ainda que em lugares com visibilidade reduzida, ficam algumas notas sobre o que foi visto e ouvido.
“Notas do encenador”...
Pensamos ser, de salientar, ab initio, algumas das considerações do encenador presentes no programa da ópera editado pelo Teatro.
“Nesta produção quero criar um Don Giovanni com pensamento rápido, que domina todos, que precede e está sempre à frente dos demais. Tudo, em suma, gira em torno dele. Esta é a ideia base da encenação e que condiciona tudo o resto”, afirma Carsen.
Para Carsen, Don Giovanni é um homem que ninguém conhece, ao contrário dos demais que representam sempre tipos sociais/individuais conhecidos e conhecíveis, o que se sustenta nas primeiras palavras de Don Giovanni “chi son io tu non saprai”. É um homem que sabe e faz exactamente aquilo que quer e, de facto, o verbo volere é o que mais vezes surge no libretto. Que é corajoso e não tem medo da morte. No fim do primeiro acto diz “ma non manca in me coraggio, ... se cadesse ancora il mondo, nulla mai temer mi fa” e, no fim do segundo, “ho fero il cor nel petto, non ho timor, verrò”. Em suma, para Carsen, Don Giovanni é um homem profundamente livre, anárquico, sem medo da morte, sem constrições socais, que faz o que quer, que não acredita num céu ou num inferno que o possam julgar, por perceber que é um homem que vive num mundo absurdo e sem significado. E que não é um violador, um assassino ou um criminoso. Diz Carsen "não há culpa na morte do Comendador. Por duas vezes recusa bater-se em duelo e só o aceita porque é obrigado. (…) ele age em legítima defesa, tal como sucede quando agride Masetto“, pois todos estavam mais armados do que ele.
É um homem com uma enorme energia vital que electrifica todos os que se relacionam com ele: mulheres e homens.
Donna Ana está como que hiponotizada. Para Carsen, Donna Ana não é violada. Aliás, a dúvida sobre a cena inicial, está sublinhada em todo o libretto, bem patente na explicação que dá a Don Ottavio que é, indubitavelmente, pouco credível, e pela confusão que faz ao confundir, depois do desmaio, Don Ottavio com Don Giovanni “Fuggi, crudelle, fuggi! Lascia che mora, anch’io”, palavras que o primeiro não merecia, decerto. Sofre, antes, de uma dupla perda: por um lado, a perda da virgindade, sucumbindo aos seus desejos e pulsões, e de uma moral superior; por outro, a perda do pai, símbolo do que fora e de austeridade.
Don Ottavio é a antítese de Don Giovanni, mas também este deixa transparecer uma admiração por Don Giovanni ao longo do libreto. O próprio Don Ottavio, parece não acreditar na culpa de Don Giovanni em relação a Donna Ana, dizendo “disinganarla voglio” e, só depois, corrigindo, “o vendicarla”.
Donna Elvira é louca por Don Giovanni: fala muito dos excessos deste, mas os excessos são, também e não menos, dela.
Não deixa de ser muito curioso, a ausência total da personagem Leporello nestas notas do encenador, o que fica bem patente no modo como acaba por secundarizar totalmente o seu papel.
“A encenação”
O ponto que mais curiosidade nos suscitava era a encenação de Carsen, conhecido pelas suas modernizações interpretativas e por cenários minimalistas.
A encenação introduziu alguns elementos. Logo na abertura, um enorme espelho projectava todo o teatro, distorcendo-o, e provocando um efeito que, ao vivo, era marcante e que, no fundo, transportava para o palco o espectador, desmascarando-o como que dizendo “não se escondam ou alheiem, porque o que vamos tratar aqui também faz parte das vossas vidas”; Leporello transforma as folhas do catálogo em painéis onde regista as conquistas do patrão; depois da morte do Commendatore, Donna Anna surge com Don Ottavio no funeral do seu pai, algo não habitual; no final do primeiro acto, Don Giovanni “derrota” os seus opositores, que empunham armas, fazendo cair o pano; Don Giovanni conduz os seus pares como se fosse um encenador, dividindo-se o palco em dois planos a alturas distintas, sendo mais um elemento indicativo de que este é uma personagem que vive intensamente e domina todo o teatro da vida; há diversas cenas passadas entre a plateia e o palco, o que, para o público, é um pormenor que agrada, pela proximidade estabelecida com os artistas e que remete, novamente, para a participação activa do espectador; o Commendatore chama Don Giovanni a partir da tribuna presidencial do teatro, algo que não é inovador (por exemplo, no Oneguin que esteve no TNSC , canta-se aí a ária do Príncipe Gremin); no final, todas as personagens acabam por ir para o inferno, surgindo Don Giovanni sorridente, vitorioso e fumando, displicente, o seu cigarro. De notar, a omnipresença do teatro infinitamente projectado em painéis no palco.

Entre todos estes elementos perpassa a questão: o que é que se acrescentou à leitura da obra? No nosso entender, o que difere das anteriores encenações, é o facto de o espectador ser chamado à ópera como mais um elemento participante, sendo este o ponto de realce na interpretação de Carsen. Em tudo o mais, os elementos surgidos pouco acrescentam à interpretação do libretto, pelo que não é uma encenação particularmente criativa.
Sob o ponto de vista da condução cénica, Don Giovanni é um homem frio, distante e snob; Leporello uma personagem esquecida, sem brio, sem graça, nunca surgindo como o elemento buffo da ópera. Ninguém destaca. Há como que um amorfismo generalizado.
De facto, tendo em conta as expectativas, e muito embora, no cômputo geral, acabasse por ser um dos melhores elementos da récita, esperávamos melhor. Se o objectivo era realizar uma encenação actualizada, condizente com os tempos que correm, não atingiu o objectivo. Uma interpretação clássica explora mais eficazmente a profundidade temática da obra. Para encenação moderna, recomendamos vivamente que se veja a de Claus Guth para o festival de Salzburgo de 2008 que, no nosso entender, é de uma genialidade ímpar (disponível em DVD/Blu-ray), mas deixo-vos a curiosidade para perceber porquê.
“Os artistas”
Peter Mattei (baixo) foi um Don Giovanni com um timbre muito adequado ao papel e que transpareceu, até pela sua compleição física, um Don Giovanni pertencente à alta sociedade, confiante nas suas escolhas e superior aos demais. Mas nunca conseguiu entusiasmar ou seduzir, parecendo sempre demasiado distante ou desinteressado, senão mesmo enjoado de tanto repetir o galanteio. Não sendo brilhante, a sua actuação foi pautada pela regularidade, considerando-o muito provavelmente limitado pela encenação e longe dos melhores no papel.
Kwangchul Youn (baixo) como Commendatore foi tudo o que lhe era exigível. Com uma voz bonita e enorme potência, preencheu todos os cantos da sala com enorme harmonia, transparecendo o negro autoritário exigido à voz de uma personagem que representa a austeridade e constância dos valores morais superiores. Esteve entre os melhores.
Anna Netrebko (soprano) estreava-se com este Don Giovanni no Teatro de Milão. E foi uma excelente Donna Anna. Com a sua voz brilhante e viva, aliada a uma excelente presença em palco, foi, sem dúvida, o elemento em maior destaque de todo o elenco, confirmando-se, uma vez mais, como um dos sopranos mais cintilantes do actual firmamento operático. Esteve perfeita na ária “No mi dir, bell’idol mio”.
Guiseppe Filianoti (tenor) foi um Don Ottavio regular. Tem uma voz com um timbre bonito, mas não muito potente. Interpretativamente pouco expressivo, não destacou.
Barbara Frittoli (soprano) como Donna Elvira apresentou-se com uma voz bem colocada, madura e expressiva e tecnicamente em muito bom plano. Mas nunca conseguiu transmitir o doentio da sua personagem.
Bryn Terfel (barítono) foi um Leporello vocalmente em bom plano. É sabido ser, além de um extraordinário cantor lírico, um bom actor, sendo, por isso, de lamentar a interpretação que em nada (ou quase) nos fez rir, o que foi de encontro à secundarização carseniana da sua personagem e ao ambiente amorfo geral da récita.
Stefan Kocán (baixo) foi um Masetto eficaz quer vocal, quer cenicamente, cumprindo bem com os requisitos exigidos à personagem que interpretou.
Anna Prohaska (soprano) como Zerlina foi, no nosso entender, a desilusão da noite. Pouco expressiva, como uma voz que nada parece trazer de novo, esteve por diversas vezes no limite da afinação e, a título de exemplo, na ária de beleza ímpar “Vedrai, carino, se sei buonino” prejudicou mais do que excessivamente a interpretação vocal em detrimento da cénica, não suscitando o aplauso natural do público. Uma pena!
Daniel Baremboim conduziu a Orquestra do Scala aqui e ali um pouco lento, tendo sido, ainda assim, uma interpretação harmoniosa e limpa e que conseguiu transmitir os sentimentos da ópera de Mozart, sem que, todavia, tenha atingido o difícil compromisso entre o sério e o buffo que esta obra impõe.
Em suma, tendo em conta os pergaminhos do Teatro e as elevadas expectativas em torno de uma produção com um elenco estrelar, um encenador da alta roda, a estreia de Baremboim como director artístico e o início da temporada, podemos dizer que ficou bem aquém das expectativas. Esperava-se melhor...