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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

FALSTAFF – Staatsoper unter den Linden, Berlim, Abril 2018 / Berlin, April 2018




(review in English below)

Falstaff de G. Verdi esteve em cena na Staatsoper unter den Linden de Berlim, numa encenação de Mario Martone.



A ópera foi brutalíssima!!! Uma encenação que lhe chamaria mais “adaptada aos tempos modernos” do que propriamente “moderna”. Falstaff é um habitante de bairro social, calça de ganga e t-shirt e a taberna é transformada na rua do bairro social, com paredes cheias de graffitis, aspecto velho dos prédios... o contraste da casa de Alice é uma mansão da qual só chegamos a ver o jardim com uma piscina e relvado. A cena final é no meio de uma espécie de centro comercial abandonado com duas escadas rolantes em cada lateral.

Após combinar as coisas com Ford, e a passagem deste É sogno? O realtà? Falstaff vem vestido com uma camisa magenta brilhante, blazer azul e chapéu fazendo parecer um bocado aciganado. A Mrs. Quickly quando lhe vai dar a informação de que Alice o espera entre as 2 e as 3, sai do cenário numa mota a sério :)

Os pormenores cénicos são fantásticos e os cantores simplesmente magníficos não só nas vozes mas também como actores altamente credíveis. Tudo pareceu natural e eficaz, fluente sem excessos ou ausências. Que trabalho espectacular! Só visto! A concepção da ópera é simplesmente genial. Não é a ária “x” ou a ária “y” mas sim “o Falstaff” no seu todo. É versão Cavaleiro da Rosa verdiana :) mas com muito mais piada. Acredito que não deve ter havido nos últimos tempos encenação tão bem feita para esta ópera.

Dirigiu a Orquestra Staatskapelle Berlin o maestro Daniel Baremboim.




Os solistas foram Michael Volle (Sir John Falstaff),







Simone Piazzola (Ford),



Francesco Demuro (Fenton),



Barbara Frittoli (Mrs. Alice Ford),




Nadine Sierra (Nannetta) e




Daniela Barcellona (Mrs. Quickly).

Todos descomunais e a Orquestra belíssima, com uma celestilialidade nas passagens em que só temos as cordas, absolutamente arrepiante. A direcção do Barenboim excelente, pace ideal, intensidade e precisão irrepreensíveis.





Texto de wagner_fanatic.



FALSTAFF - Staatsoper unter den Linden, Berlin, April 2018

G. Verdi's Falstaff was on stage at Berlin's Staatsoper unter den Linden, staged by Mario Martone.

The opera was brutal!!! A staging that I would call it more "adapted to modern times" than properly "modern". Falstaff is an inhabitant of a social neighborhood, on jeans and t-shirt, and the tavern is transformed into the street of the social district, with walls full of graffiti, the old look of the buildings ... in contrast, Alice's house is a mansion of which we only got to see the garden with a swimming pool and lawn. The final scene is in the middle of a kind of abandoned shopping center with two escalators on each side.

After combining things with Ford, and the passage of this É sogno? O realtà? Falstaff comes dressed in a bright magenta shirt, blue blazer and hat making him look a bit gypsy. Mrs. Quickly when gives him the information that Alice is waiting for him between 2 and 3 o’clock, she gets out of the stage on a real motorcycle :)

The scenic details are fantastic and the singers simply magnificent not only in voices but also as highly credible actors. Everything seemed natural and effective, fluent without excesses or absences. What a spectacular job! Just seen! The design of the opera is simply brilliant. It is not the aria "x" or the aria "y" but "the Falstaff" as a whole. It is Verdi's version of the Rosencavalier :) but much more fun. I believe that there should not have been in recent times such well-done staging for this opera.

The Staatskapelle Berlin Orchestra was directed by Daniel Baremboim. The soloists included Michael Volle (Sir John Falstaff), Simone Piazzola (Ford), Francesco Demuro (Fenton), Maria Agresta (Mrs. Alice Ford), Nadine Sierra (Nannetta) and Daniela Barcellona (Mrs. Quickly).

All of them huge and the Orchestra was beautiful, with a heavenly touch in the parts where we only have the strings, absolutely chilling. Barenboim's excellent direction, ideal pace, intensity and precision were impeccable.

Text by wagner_fanatic.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

FALSTAFF de Giuseppe Verdi no FESTTAGE da Staatsoper Unter den Linden, Berlim, 1.04.2018



(review in English below)

A última ópera de Verdi foi composta em grande secretismo: Verdi tinha receio de que as agruras da sua idade avançada não lhe permitissem terminar o projecto. Foi congeminada juntamente com Arrigo Boito, o seu libretista de Otello, homem que desafiara Verdi para um último esforço e que tão bem lhe escreveu um texto em torno da personagem shakespeariana Sir John Falstaff, presente nas As Alegres Comadres de Windsor e nas partes I e II de Henrique IV.

A história gira em torno do enorme Falstaff, aristocrata decaído, muito obeso e que vivia dos prazeres da comida e das mulheres. Ele tenta seduzir as damas finas de Windsor e fia-se no seu charme e sebenta posição. Estas, muito alegres e sabidas, aproveitam para o ridicularizar.

A ópera, nem sempre devidamente apreciada por ser um Verdi diferente daquele a que habituara o seu público, é de uma enorme genialidade musical, impactando pelo seu todo. Lá está: o todo não é igual à soma das partes.

Foto: Matthias Baus

A encenação do realizador de cinema italiano Mario Martone é muito interessante. Passa-se num bairro degradado cheio de graffitis onde Falstaff está sentado nuns bancos num pátio à entrada de um estabelecimento de divertimento noturno — «Panorama Bar» — onde umas profissionais do sexo se exibem à janela. Ao fundo, um portão ao meio do pátio parece revelar uma rua. É neste ambiente escuro e sombrio, que decorre toda a primeira cena. Falstaff está vestido de calças de ganga e t-shirt preta e, a bem da verdade, falta-lhe a gordura imensa. Pistola e Bardolfo vestem-se de forma andrajosa e têm bastante mau aspecto. Aqui há, ao fundo, uns figurantes que com latas de tinta de spray desenham as frases «Welcome refugees» e «No War» em panos brancos colocados no chão: duvido que da plateia fossem legíveis e nunca chegam a ser exibidos, pelo que não se compreende o propósito.

Foto: Matthias Baus

A segunda cena passa-se num elegante jardim com piscina e casa de apoio. Aí, as alegres comadres, vestidas de modo mais requintado, ou apenas de fato de banho ou biquíni e enroladas num robe, congeminam toda a trama contra Falstaff. Fenton namora Nannetta que se exibe em biquíni e o provoca, atirando-o para a piscina.

Na terceira cena, voltamos ao primeiro cenário. Mrs. Quickly aparece de vermelho e de moto retro. Ao despedir-se, sai de moto, ouvindo-se o roncar do motor da moto que é verdadeira.

A quarta cena, retoma o segundo cenário. E os pormenores estão lá todos. Falstaff, vestido de camisa rosa brilhante e de motivos florais e umas botas de cowboy, tenta seduzir Alice, chegando a mostrar-lhe uma tatuagem de muito mau gosto estampado no peito largo que descobrea. Acaba por ser atirado para trás do muro do jardim, ouvindo-se um enorme splash.

Foto: Matthias Baus

A quinta cena decorre no primeiro cenário, com um Falstaff muito andrajoso e a pedir vinho a um pouco amigável dono do bar. Logo de seguida, passa-se para a última cena: parece um edifício abandonado com escadas nas laterais e um torre no centro com varandas. Muitos figurantes surgem, naquele que é um pormenor distrator e pouco contextualizável no todo da encenação, vestidos de negro e com máscara, simulando atos sexuais, enquanto as personagens expõem ao ridículo Falstaff. 

A encenação modernizada foi um dos pontos fortes da récita: é muito dinâmica, facilita a comédia, acompanha muito bem a música e a acção, e é ainda visualmente interessante.


A Staatskapellle Berlin foi muito bem dirigida por Daniel Barenboim.

Os solistas apresentaram uma qualidade global muito homogénea.


Michael Volle foi um Sir John Falstaff imponente na desenvoltura cénica e pela enorme voz que tem. Faltou-lhe a interpretação burlesca que a personagem necessita para ser verdadeiramente cómica, ou o fraseado típico italiano que teriam dado outro colorido a uma, ainda assim, excelente prestação. Destaco a interpretação de Mondo ladro, mondo rubaldo do terceiro acto.

Ford foi o barítono Alfredo Daza que, tendo uma voz bonita e sempre audível, compôs uma personagem credível e cantou bem o seu È sogno o realtà?

Fenton foi o tenor Francesco Demuro que tem uma voz bonita, mas a que me pareceu faltarem os agudos fáceis que se pedem no seu curto papel. Cenicamente foi muito convincente.

O Dr Cajus de Jurgen Sacher, Bardolfo de Stephan Rugamer e Pistola de Jan Martiník estiveram em bom plano, destacando a prestação vocal de Martiník. 

Alice Ford foi Barbara Fritolli que compôs uma personagem credível e cenicamente irrepreensível. Vocalmente apresentou-se em bom nível, mas já não tem os agudos cristalinos de outros tempos.

Nadine Sierra como Nannetta foi a melhor das senhoras. A voz é muito bonita e tem os agudos cristalinos que tornam os seus Anzi rinnova come fa la luna perfeitos e elegantes. A sua jovialidade em palco e bonita figura ajudaram a torná-la uma Nannetta perfeita.

Daniella Barcellona, com a sua voz cheia e escura, foi uma excelente Mrs. Quickly, tendo-lhe faltado alguma comicidade para catapultar a sua interpretação para a excelência.

A Meg Page de Katharina Kammerloher esteve em bom nível no seu curto papel.


Assim, globalmente assistimos a uma excelente récita, com destaque para uma encenação de muita qualidade e com nota muito positiva para um conjunto de cantores de qualidade elevada a quem ficou apenas a faltar um pouco mais de capacidade para a comédia.

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(Review in English)

Verdi's last opera was composed in great secrecy: Verdi was afraid that the hardships of his old age would not allow him to finish the project. He worked with Arrigo Boito, his librettist of Otello, a man who had challenged Verdi for one last effort, and who so well wrote a text to him about the Shakespearean character Sir John Falstaff, present in the Merry Wives of Windsor and parts I and II of Henry IV.

The story revolves around the huge Falstaff, a fallen aristocrat, very obese and living off the pleasures of food and women. He tries to seduce high-rank ladies of Windsor being confident that with his beauty and social position will grant him success. The joyful and wise ladies will expose him to ridiculousness.

The opera, not always properly appreciated for being not a typical Verdi opera, is of a great musical genius, impacting for his beauty and when heard as a whole. There it is: the whole is not equal to the sum of the parts.

The staging of the Italian film director Mario Martone is very interesting. The action is set in a dilapidated neighbourhood full of graffitied walls where Falstaff sits on benches in a courtyard at the entrance to a nightlife establishment - Panorama Bar - where sex workers hang out at the window. In the background, a gate in the middle of the courtyard seems to reveal a street. It is in this dark and gloomy environment that the entire first scene takes place. Falstaff is dressed in jeans and black t-shirt and, to be honest, he lacks immense fat. Pistol and Bardolfo dress in a ragged form and look quite bad guys. Here, in the background, there are figurines with cans of spray paint drawing the phrases "Welcome refugees" and "No War" in white cloths placed on the floor: I doubt that the audience would be able to read the statements or even see them, so that I think that it is not understandable.

The second scene takes place in an elegant garden with a swimming pool and house. There, the merry wives, dressed in a fashionable way, or just in bikini and wrapped in a robe, plot against Falstaff. Fenton dates Nannetta who shows up in a bikini and provokes him by throwing him into the pool.

In the third scene, we return to the first scenario. Mrs. Quickly appears in red and retro motorcycle. When they say goodbye, she leaves in her motorcycle, and we listened to the snoring of the real motorcycle she is in.

The fourth scene, resumes the second scenario. And the details are all there. Falstaff, dressed in bright pink shirt with floral motifs and cowboy boots, tries to seduce Alice, even showing him a bad taste tattoo stamped on the wide chest he reveals. At the end, he is thrown behind the garden wall as we listen to a huge splash.

The fifth scene takes place on the first scenario, with a very tattered Falstaff who is asking for wine to a somewhat not so friendly bar owner. Soon afterwards, we are transported to the last scene: it looks like an abandoned building with stairs on the sides and a tower with balconies in the centre. Many characters appear, in a distracting detail of the staging, dressed in black and masked, simulating sexual acts, while the characters expose Falstaff to ridiculous.

The modernized staging was one of the highlights of the recital: it is very dynamic, easily  following the music and the action. And it is visually interesting.

The Staatskapellle Berlin was very well directed by Daniel Barenboim.

The soloists singers presented a very homogeneous overall quality.

Michael Volle was an imposing Sir John Falstaff, either scenically an vocally. He failed only on the  burlesque aspect of his interpretation to be truly comical, and the typical Italian phrasing. If he managed it better he would have given us a more rich and coloured performance. I emphasize the interpretation of Mondo ladro, mondo rubaldo of the third act.

Ford was the baritone Alfredo Daza who, having a beautiful and always audible voice, composed a credible character and sang well his È sogno o realtà?

Fenton was the tenor Francesco Demuro who has a beautiful voice, but which seemed to lack the easy treble that are asked in his short paper. Cenically he was very convincing.

Jurgen Sacher’s Dr Cajus, Stephan Rugamer’s Bardolfo and Jan Martiník’s Pistol were all in good plan, highlighting the vocal performance of Martiník.

Alice Ford was Barbara Fritolli who composed a credible and radically irreproachable character. Vocally she has presented herself in good level, but she no longer has the crystalline highs of other times.

Nadine Sierra as Nannetta was the best of the ladies. Her voice is very beautiful and has the crystalline trebles that make hers Anzi rinnova come fa la luna perfect and elegant. Her playfulness on stage and beautiful figure helped make her a perfect Nannetta.

Daniella Barcellona, ​​in her full, dark voice, was an excellent Mrs. Quickly, having lacked some comedy abilities to catapult her interpretation into excellence.

Despite her short role, Katharina Kammerloher performed well as Meg Page.


Thus, globally we have seen an excellent performance, with emphasis on a very high quality Martone’s staging and with a very positive note for a group of singers of high quality who just lacked a little more capacity to do comedy.

domingo, 2 de dezembro de 2012

LA CLEMENZA DI TITO – METLive – 1 de Dezembro 2012

(review in english below)


Uma semana depois de podermos ouvir a excelente récita de A Flauta Mágica de Mozart no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, directamente do MET, pudemos assistir ontem à ópera La Clemenza di Tito apresentando-se assim, em curto espaço de tempo, as duas últimas óperas de Mozart, escritas em 1791, ano da sua morte.

A encenação de Jean-Pierre Ponelle data de 1984 e, ao bom estilo do MET, privilegia o ambiente clássico e terreno da ópera, com cenários imperiais e guarda-roupa de bom gosto estético.


A récita foi de grande nível, lamentando-se talvez apenas o facto de se estar em Lisboa a assistir através de sistema vídeo, e não se estar realmente em Nova Iorque.

Giuseppe Filianoti fez um Tito interessante, tendo surpreendido essencialmente no segundo acto. Na ária “Del piu sublime soglio” notou-se alguma descoordenação como o tempo de Bicket em duas passagens e vacilou nos extremos da tessitura em 2 ou 3 ocasiões no curso total da ópera mas no global revelou segurança vocal, expressividade e um timbre idealmente doce para Mozart. Depois dos horríveis agudos do seu Rigoletto que eu e o FanaticoUm tivemos a oportunidade de ouvir ao vivo no MET em 2011, a par com excelentes representações em que já o ouvi ao vivo noutros papéis, acho que Filianoti é um excelente cantor embora com margem de manobra vocal em situação de stress limitada tornando-o presentemente sempre uma dúvida de prestação.

O quarteto de vozes femininas esteve estratosférico!!!


Elina Garanca está absolutamente sublime, sem mácula, com um timbre vocal cada vez mais meloso e bonito, e ao mesmo tempo forte e encorpado, envolto numa capacidade técnica impressionante. A maternidade é, sem dúvida, um tónico para a voz.

Kate Lindsey, fazendo parelha nos papéis masculinos com Garanca, apaixonou pela sua entrega, beleza de timbre, segurança e ligeireza física.

Barbara Frittoli está igualmente brutal do ponto de vista vocal. Uma senhora em palco.


Lucy Crowe foi uma excelente surpresa, numa angelical interpretação de Servillia que me tocou pela ternura no dueto com Annio e pela expressividade na célebre ária “S’altro che lagrime”.


Oren Gradus fez um Publio eficaz.

A Orquestra do MET sob a direcção de Harry Bicket esteve, mais uma vez, fantástica, transmitindo toda a serenidade e magia da música de Mozart.


Quem quiser ouvir alguns excertos de algumas das melhores árias desta ópera pode visitar http://www.fanaticosdaopera.blogspot.pt/2012/04/la-clemenza-di-tito-teatro-real-de.html na nossa crítica à produção da Temporada 2011-2012 do Teatro Real de Madrid.



LA CLEMENZA DI TITO - METLive - December 1, 2012


A week after we could hear the excellent The Magic Flute by Mozart at the Main Auditorium of the Calouste Gulbenkian, directly from the MET, we could watch La Clemenza di Tito showing up well, in a short period of time, the last two Mozart operas, written in 1791, the year of his death.

The staging of Jean-Pierre Ponelle dates from 1984 and in the good style of the MET, favors the classic environment of the opera, with imperial sets and a tasteful wardrobe.


Giuseppe Filianoti made an interesting Tito, surprising mainly in the second act. In the aria "Del piu sublime soglio" some incoordination with the pace of Bicket was noted in two passages and at the extremes of his tessitura he faltered on 2 or 3 occasions in the whole course of the opera but revealed, globally, vocal security and expressiveness. After the horrible high notes of his Rigoletto that FanaticoUm and I had the opportunity to hear live at the MET in 2011, along with excellent representations already heard live in other roles, I think Filianoti is an excellent singer but with some vocal leeway in situations of stress making, these days, a constant doubt on the expected quality of his performances.


The quartet of female voices was stratospheric!!


Elina Garanca is absolutely sublime, unblemished, with a vocal timbre increasingly mellow and beautiful, and at the same time strong and stocky, wrapped in a stunning technical ability. Motherhood is undoubtedly a tonic for the voice.


Kate Lindsey, doing the other male role, was superb by her passion for delivery, beauty of tone, physical safety and lightness.

Barbara Frittoli was equally brutal from the vocal standpoint – a Dame on stage.


Lucy Crowe was a great surprise with an angelic interpretation of Servillia who touched me tenderly in the duet with Annio and with the expressiveness in the famous aria "S'altro che lagrime".


Oren Gradus made an effective Publio.

The MET Orchestra under the baton of Harry Bicket was, again, fantastic, conveying all the serenity and magic of Mozart's music.


If you would like to hear some excerpts from some of the best arias of this opera you can visit http://www.fanaticosdaopera.blogspot.pt/2012/04/la-clemenza-di-tito-teatro-real-de.html, where you can find our review on the production from the Teatro Real de Madrid, season 2011-2012.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Don Giovanni, Teatro alla Scala, Milão, Dezembro de 2011


A nova produção da ópera Don Giovanni para o Teatro alla Scala do canadiano Robert Carsen foi, juntamente com um elenco de excepção, motivo para a abertura da temporada 2011/12 do teatro milanês, marcada, igualmente, pela estreia de Daniel Barenboim como seu director artístico.





Tivemos oportunidade de assistir, ao vivo, à segunda récita. Ainda que em lugares com visibilidade reduzida, ficam algumas notas sobre o que foi visto e ouvido.



“Notas do encenador”...
Pensamos ser, de salientar, ab initio, algumas das considerações do encenador presentes no programa da ópera editado pelo Teatro.
“Nesta produção quero criar um Don Giovanni com pensamento rápido, que domina todos, que precede e está sempre à frente dos demais. Tudo, em suma, gira em torno dele. Esta é a ideia base da encenação e que condiciona tudo o resto”, afirma Carsen.
Para Carsen, Don Giovanni é um homem que ninguém conhece, ao contrário dos demais que representam sempre tipos sociais/individuais conhecidos e conhecíveis, o que se sustenta nas primeiras palavras de Don Giovanni “chi son io tu non saprai”. É um homem que sabe e faz exactamente aquilo que quer e, de facto, o verbo volere é o que mais vezes surge no libretto. Que é corajoso e não tem medo da morte. No fim do primeiro acto diz “ma non manca in me coraggio, ... se cadesse ancora il mondo, nulla mai temer mi fa” e, no fim do segundo, “ho fero il cor nel petto, non ho timor, verrò”. Em suma, para Carsen, Don Giovanni é um homem profundamente livre, anárquico, sem medo da morte, sem constrições socais, que faz o que quer, que não acredita num céu ou num inferno que o possam julgar, por perceber que é um homem que vive num mundo absurdo e sem significado. E que não é um violador, um assassino ou um criminoso. Diz Carsen "não há culpa na morte do Comendador. Por duas vezes recusa bater-se em duelo e só o aceita porque é obrigado. (…) ele age em legítima defesa, tal como sucede quando agride Masetto“, pois todos estavam mais armados do que ele.
É um homem com uma enorme energia vital que electrifica todos os que se relacionam com ele: mulheres e homens.
Donna Ana está como que hiponotizada. Para Carsen, Donna Ana não é violada. Aliás, a dúvida sobre a cena inicial, está sublinhada em todo o libretto, bem patente na explicação que dá a Don Ottavio que é, indubitavelmente, pouco credível, e pela confusão que faz ao confundir, depois do desmaio, Don Ottavio com Don Giovanni “Fuggi, crudelle, fuggi! Lascia che mora, anch’io”, palavras que o primeiro não merecia, decerto. Sofre, antes, de uma dupla perda: por um lado, a perda da virgindade, sucumbindo aos seus desejos e pulsões, e de uma moral superior; por outro, a perda do pai, símbolo do que fora e de austeridade. 
Don Ottavio é a antítese de Don Giovanni, mas também este deixa transparecer uma admiração por Don Giovanni ao longo do libreto. O próprio Don Ottavio, parece não acreditar na culpa de Don Giovanni em relação a Donna Ana, dizendo “disinganarla voglio” e, só depois, corrigindo, “o vendicarla”.
Donna Elvira é louca por Don Giovanni: fala muito dos excessos deste, mas os excessos são, também e não menos, dela.

Não deixa de ser muito curioso, a ausência total da personagem Leporello nestas notas do encenador, o que fica bem patente no modo como acaba por secundarizar totalmente o seu papel.


“A encenação”
O ponto que mais curiosidade nos suscitava era a encenação de Carsen, conhecido pelas suas modernizações interpretativas e por cenários minimalistas.

A encenação introduziu alguns elementos. Logo na abertura, um enorme espelho projectava todo o teatro, distorcendo-o, e provocando um efeito que, ao vivo, era marcante e que, no fundo, transportava para o palco o espectador,  desmascarando-o como que dizendo “não se escondam ou alheiem, porque o que vamos tratar aqui também faz parte das vossas vidas”; Leporello transforma as folhas do catálogo em painéis onde regista as conquistas do patrão; depois da morte do Commendatore, Donna Anna surge com Don Ottavio no funeral do seu pai, algo não habitual; no final do primeiro acto, Don Giovanni “derrota” os seus opositores, que empunham armas, fazendo cair o pano; Don Giovanni conduz os seus pares como se fosse um encenador, dividindo-se o palco em dois planos a alturas distintas, sendo mais um elemento indicativo de que este é uma personagem que vive intensamente e domina todo o teatro da vida; há diversas cenas passadas entre a plateia e o palco, o que, para o público, é um pormenor que agrada, pela proximidade estabelecida com os artistas e que remete, novamente, para a participação activa do espectador; o Commendatore chama Don Giovanni a partir da tribuna presidencial do teatro, algo que não é inovador (por exemplo, no Oneguin que esteve no TNSC , canta-se aí a ária do Príncipe Gremin); no final, todas as personagens acabam por ir para o inferno, surgindo Don Giovanni sorridente, vitorioso e fumando, displicente, o seu cigarro. De notar, a omnipresença do teatro infinitamente projectado em painéis no palco.


Entre todos estes elementos perpassa a questão: o que é que se acrescentou à leitura da obra? No nosso entender, o que difere das anteriores encenações, é o facto de o espectador ser chamado à ópera como mais um elemento participante, sendo este o ponto de realce na interpretação de Carsen. Em tudo o mais, os elementos surgidos pouco acrescentam à interpretação do libretto, pelo que não é uma encenação particularmente criativa.

Sob o ponto de vista da condução cénica, Don Giovanni é um homem frio, distante e snob; Leporello uma personagem esquecida, sem brio, sem graça, nunca surgindo como o elemento buffo da ópera. Ninguém destaca. Há como que um amorfismo generalizado.

De facto, tendo em conta as expectativas, e muito embora, no cômputo geral, acabasse por ser um dos melhores elementos da récita, esperávamos melhor. Se o objectivo era realizar uma encenação actualizada, condizente com os tempos que correm, não atingiu o objectivo. Uma interpretação clássica explora mais eficazmente a profundidade temática da obra. Para encenação moderna, recomendamos vivamente que se veja a de Claus Guth para o festival de Salzburgo de 2008 que, no nosso entender, é de uma genialidade ímpar (disponível em DVD/Blu-ray), mas deixo-vos a curiosidade para perceber porquê.

“Os artistas”


Peter Mattei (baixo) foi um Don Giovanni com um timbre muito adequado ao papel e que transpareceu, até pela sua compleição física, um Don Giovanni pertencente à alta sociedade, confiante nas suas escolhas e superior aos demais. Mas nunca conseguiu entusiasmar ou seduzir, parecendo sempre demasiado distante ou desinteressado, senão mesmo enjoado de tanto repetir o galanteio. Não sendo brilhante, a sua actuação foi pautada pela regularidade, considerando-o muito provavelmente limitado pela encenação e longe dos melhores no papel.

Kwangchul Youn (baixo) como Commendatore foi tudo o que lhe era exigível. Com uma voz bonita e enorme potência, preencheu todos os cantos da sala com enorme harmonia, transparecendo o negro autoritário exigido à voz de uma personagem que representa a austeridade e constância dos valores morais superiores. Esteve entre os melhores.

Anna Netrebko (soprano) estreava-se com este Don Giovanni no Teatro de Milão. E foi uma excelente Donna Anna. Com a sua voz brilhante e viva, aliada a uma excelente presença em palco, foi, sem dúvida, o elemento em maior destaque de todo o elenco, confirmando-se, uma vez mais, como um dos sopranos mais cintilantes do actual firmamento operático. Esteve perfeita na ária “No mi dir, bell’idol mio”.

Guiseppe Filianoti (tenor) foi um Don Ottavio regular. Tem uma voz com um timbre bonito, mas não muito potente. Interpretativamente pouco expressivo, não destacou.

Barbara Frittoli (soprano) como Donna Elvira apresentou-se com uma voz bem colocada, madura e expressiva e tecnicamente em muito bom plano. Mas nunca conseguiu transmitir o doentio da sua personagem.

Bryn Terfel (barítono) foi um Leporello vocalmente em bom plano. É sabido ser, além de um extraordinário cantor lírico, um bom actor, sendo, por isso, de lamentar a interpretação que em nada (ou quase) nos fez rir, o que foi de encontro à secundarização carseniana da sua personagem e ao ambiente amorfo geral da récita.

Stefan Kocán (baixo) foi um Masetto eficaz quer vocal, quer cenicamente, cumprindo bem com os requisitos exigidos à personagem que interpretou.

Anna Prohaska (soprano) como Zerlina foi, no nosso entender, a desilusão da noite. Pouco expressiva, como uma voz que nada parece trazer de novo, esteve por diversas vezes no limite da afinação e, a título de exemplo, na ária de beleza ímpar “Vedrai, carino, se sei buonino” prejudicou mais do que excessivamente a interpretação vocal em detrimento da cénica, não suscitando o aplauso natural do público. Uma pena!





Daniel Baremboim conduziu a Orquestra do Scala aqui e ali um pouco lento, tendo sido, ainda assim, uma interpretação harmoniosa e limpa e que conseguiu transmitir os sentimentos da ópera de Mozart, sem que, todavia, tenha atingido o difícil compromisso entre o sério e o buffo que esta obra impõe.  


Em suma, tendo em conta os pergaminhos do Teatro e as elevadas expectativas em torno de uma produção com um elenco estrelar, um encenador da alta roda, a estreia de Baremboim como director artístico e o início da temporada, podemos dizer que ficou bem aquém das expectativas. Esperava-se melhor...