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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

THOMAS HAMPSON na Fundação Gulbenkian, 30.09.2016

(Review in English bellow) 

O barítono americano Thomas Hampson visitou uma vez mais a Fundação Gulbenkian.

Apresentou um programa baseado n’ A Trompa Maravilhosa do Rapaz (Das Knaben Wunderhorn), colectânea de poemas germânicos que serviram de ponto de partida para Gustav Mahler escrever um dos seus mais belos e sensíveis conjunto de Lied.

Thomas Hampson © Kristin Hoebermann

Hampson apresentou-se como cantor e maestro de uma Orquestra Gulbenkian que se mostrou entrosada com o cantor, desempenhado brilhantemente a música do compositor natural da Boémia. De nota, além de Mahler, as interpretações de obras de Richard Strauss: Serenata para Sopros em Mi bemol maior, op. 7 e Prelúdio da ópera Capriccio, op. 85.

Thomas Hampson é um cantor que tem explorado de forma intensa o Lied alemão, já tendo uma gravação de excelência desta obra. Propunha o concerto numa sequência sugerida pelo próprio Gustav Mahler. E não poderia ter corrido melhor. A sua voz é conhecidamente magnífica, de um lirismo tocante, boa dicção e projecção. Acrescenta a isto uma capacidade interpretativa assinalável, o que fez com que o concerto se tornasse também um encontro intimista entre o público e o cantor e orquestra.


A destacar algumas interpretações diria: Der Tambourg’sell, Wo die schonen Trompeten blasen, Das irdische Leben (talvez dos poemas mais negros e marcantes), Das himmlische Leben e Urlicht


É sempre um enorme prazer poder desfrutar da sua voz na Gulbenkian. Felizmente, este ano ainda volta com Luca Pisaroni.

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(Review in English)

The American baritone Thomas Hampson visited once again the Gulbenkian Foundation.

He presented a program based on Gustav Mahler’s Das Kanben Wunderhorn, collection of German poems that served as the starting point for Mahler to write one of his most beautiful and sensitive set of Lied.

Hampson presented himself as a singer and conductor of the Gulbenkian Orchestra which proved to be meshed with the singer, played brilliantly the music of the Bohemian born composer. Of note, in addition to Mahler, the interpretations of works by Richard Strauss: Serenade for Winds in E-flat major, op. 7 and Prelude to Capriccio opera, op. 85.

Thomas Hampson is a singer who has explored intensively the German Lied, already having a record of excellence of this work. It proposed the concert in a sequence suggested by Gustav Mahler himself. And it could not have gone better. His voice is known to be magnificent, of a touching lyricism, good diction and projection. Add to this a remarkable interpretative capacity, which made the concert an intimate encounter between the public and the singer and orchestra.

The highlight some interpretations say: Der Tambourg’sell, Wo die schonen Trompeten blasen, Das Leben irdische (perhaps one of the darkest and striking poems), Das Leben himmlische and Urlicht.


It's always a huge pleasure to enjoy his voice in the Gulbenkian. Fortunately, this year also back with Luca Pisaroni.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

MAHLER - Casa da Música, Porto, 14.12.2014

Assisti no passado domingo, dia 14, a um concerto na Casa da Música, integrado no ciclo “Música para o Natal”.



O programa foi integralmente preenchido com a Sinfonia n.º 4 de Gustav Mahler e contou com a interpretação do maestro Christoph König à frente da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e da soprano cipriota Zoe Nicolaidou.

Composta entre Julho de 1899 e Agosto de 1800 em Maiernigg-am-Wörthersee, na Caríntia, onde Mahler havia mandado construir uma casa de Verão, a 4ª Sinfonia foi estreada a 25 de Novembro de 1901, em Munique, sob a regência do compositor, tendo alcançado pouco sucesso.

A 4ª Sinfonia marca uma ruptura com a evolução no sentido no gigantismo sinfónico que Mahler vinha trilhando. Em contraste com a anterior, a 4ª Sinfonia regressa à duração da Titã, aos quatro andamentos e a uma orquestração menos complexa, com supressão dos trombones, da tuba e do próprio coro, mantendo apenas a voz solista no 4º andamento.

A razão da escolha desta sinfonia para um programa de Natal foi desvendada por Mário Azevedo, a quem coube o comentário musical com que começou o concerto. Como referiu, a ideia desta sinfonia prende-se com a infância e a descoberta progressiva do mundo, com a entrada num Paraíso que é apenas entrevisto nos três primeiros andamentos e que é cantado no quarto pelo mais miraculoso instrumento musical: a voz humana.

No 4º andamento a soprano canta o poema “Das himmlische Leben” (A  vida celestial), extraído dos Knaben Wunderhorn, em que os prazeres bucólicos e gastronómicos dos Céus são descritos de forma entusiástica, tendo Mahler recomendado que fossem cantados com uma expressão alegre e infantil, completamente desprovida de paródia.


O maestro Christoph König concebeu uma interpretação bastante sóbria, sem excessos expressivos, embora salientando bem as variações dinâmicas e os diferentes ambientes sonoros criados por Mahler. As vozes interiores foram evidenciadas, mas sem se sobreporem ou criarem desequilíbrios. No 2º andamento faltou talvez um pouco de verve, mas o 3º andamento, para mim um dos mais belos de Mahler, foi muito bem conseguido. A sonoridade das cordas foi belíssima e a construção do crescendo até ao conflito central foi bastante eficaz.


A orquestra esteve sempre bastante bem, sem falhas que eu tenha notado e mantendo elevados padrões de acerto entre os diversos naipes. Destacaria a concertina, tocando os solos de violino desafinado com vigor, bem como o quarteto de trompas, em grande destaque. Penso que os naipes de cordas ganhariam se tivessem um maior número de instrumentistas, em especial nos graves, para ganhar alguma espessura.


Devido ao lugar onde estava sentado, no coro, a minha percepção da actuação da soprano ficou muito prejudicada, pois a voz era praticamente inaudível. Ficou apenas a sensação de um timbre claro e jovial e de uma boa integração no tecido orquestral.

Duas notas mais sobre outros aspectos do concerto.
Tratou-se de um concerto pelas 12:00, com um público bastante heterogéneo e com a presença de bastantes crianças e jovens, o que é de registar com bastante agrado. Naturalmente que tal implicou um nível acrescido de ruído e movimentações na sala, mas nada que tivesse perturbado a fruição da música. Todavia, verifiquei muitos adultos a entrar e sair da sala durante o concerto, o que já me pareceu pouco admissível.

Outra nota para o atraso no início do concerto, que foi de cerca de um quarto de hora. Parece-me pouco admissível, mesmo para um concerto com as características apontadas. A circunstância de só ser dado um sinal sonoro a chamar o público a menos de 5 minutos da hora marcada para o início do concerto, embora não justifique o atraso do público a tomar os seus lugares, também não ajuda.

Em suma, foi um excelente concerto de Natal e uma oportunidade para ouvir a belíssima 4ª Sinfonia de Mahler, numa sala de concertos de excepção.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

GUSTAV MAHLER e USUNK CHIN no CCB com a Orquestra FCG, 30.01.2014


(Review in English below)

A Orquestra da FCG apresentou-nos hoje um concerto com peças de Gustav Mahler e Unsuk Chin, tendo sido dirigida pela nova maestrina convidada principal da FCG, a finlandesa Susanna Malkki.


A primeira parte começou com a interpretação de Blumine de Gustav Mahler, peça inicialmente composta como 2.º andamento da Sinfonia n.º 1. A peça foi estreada em 1889, perdeu-se e foi recuperada em 1966, tendo a sua re-estreia ocorrido no ano seguinte pela batuta de Benjamin Britten. A orquestra apresentou-a com um bom nível.


Seguiu-se Shu, Concerto para cheng e orquestra, da compositora contemporânea sul-coreana Unsuk Chin, cuja música é marcada por influências ligetianas. O concerto teve a sua estreia mundial em Tóquio no ano 2009.



A novidade maior é o cheng — um dos mais antigos instrumentos de sopro (tem mais de 3000 anos!) — que foi tocado pelo virtuoso chinês Wu Wei, músico que inspirou a compositora nesta obra.


O instrumento é interessantíssimo, fazendo lembrar uma espécie de órgão de boca. O concerto de Chin explora imensas sonoridades com uma instrumentação complexa de onde se destaca a percussão, uma noção de unidade muito bem conseguida e tira partido de um intérprete a todos os níveis excepcional. Wu Wei é um grande artista e ofereceu-nos uma interpretação sublime: o instrumento é dificílimo e exige uma técnica assinalável. Wei tocou, ainda, um encore onde mostrou não só as inúmeras sonoridades do cheng, como as suas amplas capacidades técnicas e domínio absoluto do instrumento. Espantoso!

Poderão uma transmissão da BBC de 2011 com a London Sinfonietta sob direcção de Ivan Volkov e Wu Wei como solista.


A segunda parte foi integralmente dedicada à majestosa Sinfonia n.º 1, em Ré maior, de Gustav Mahler.


Foi estreada em 1889 e sofreu várias revisões. Apresenta 4 andamentos, começando com as cordas a dar um mote frio, sombrio e misterioso que se vai adensando. O 3.º andamento é uma marcha fúnebre de rara beleza. Termina com um 4.º andamento apoteótico com os metais e sopros a ganhar preponderância fulcral e a transmitir uma força telúrica destruidora. Mahler no seu melhor!

Susanna Malkki conduziu bem a Orquestra Gulbenkian, crescendo, sobretudo, a partir do 2.º andamento e terminando muito bem. Foi uma interpretação de qualidade de uma orquestra que, como é sabido, tem qualidade para ser uma excelente orquestra sinfónica.
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(Review in English)

The FCG Orchestra showed us today a concert with pieces by Gustav Mahler and Unsuk Chin, having been led by new chief guest conductor of the FCG, the Finnish Susanna Malkki.

The first half began with Blumine of Gustav Mahler, originally composed as Symphony no. 1 second movement. It was premiered in 1889, was lost and rediscovered in 1966, taking its re-debut occurred the following year with Benjamin Britten conducting. The orchestra presented it with a good level.


Followed the Shu, Concert for cheng and orchestra, by South Korean contemporary composer Unsuk Chin, whose music is marked by ligetian influences. This piece had its world premiere in Tokyo in 2009. The most remarkable for me was the cheng - one of the oldest wind instruments (has more than 3000 years!) - who has been played by Chinese virtuoso Wu Wei, who had inspired Chin composing this work.


The instrument is very interesting, resembling a kind of mouth organ. The Chin concert explores sonorities with a huge complex instrumentation, where percussion highlight, a highly accomplished sense of unity, taking advantage of an interpreter at all levels outstanding. Wu Wei is a great artist and offered us a sublime interpretation: the instrument is very difficult and requires a remarkable technique. Wei also played an encore that showed not only the numerous sonorities of cheng as his extensive technical capabilities and absolute mastery of the instrument. Stunning!

You can hear a BBC broadcast in 2011 with the London Sinfonietta under the direction of Ivan Volkov and Wu Wei as cheng soloist.

The second half was entirely devoted to the majestic Symphony no. 1 in D major, of Gustav Mahler. It was premiered in 1889 and has undergone several revisions. The symphony has 4 movements, starting with the strings giving a cold, dark and mysterious ambience. The 3rd movement is a funeral march of rare beauty. It ends with a 4th movement of apotheotic progress with metals and blows gaining a dominant core and transmitting to the audience a massive destructive telluric force. Mahler at his best!

Susanna Malkki conducted well the Gulbenkian Orchestra, growing mainly from the 2nd movement, finishing the symphony very well. It was a quality interpretation of an orchestra that, as is known, has the quality to be a great symphony orchestra.