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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O AMOR CLAUSTROFÓBICO DE KÁTIA KABANOVÁ




Cena de Katia Kabanová, foto internet

Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera & Ballet
   
Uma das características marcantes dos últimos anos do Theatro São Pedro é a apresentação de títulos de ópera raros e poucas vezes vistos pelo público paulistano. Kátia Kabanová é um desses nomes que você nunca espera ver ao vivo em sua cidade. Segundo o teatro essa ópera é inédita no Brasil. A obra prima de Leos Janácek teve estreia no dia 17 de Agosto em São Paulo. 
   
O compositor tcheco compôs parte expressiva de sua obra nas duas últimas décadas de vida. Um amor fulminante por uma jovem, de então 25 anos de idade, fez a inspiração do compositor tcheco aflorar de maneira arrebatadora. Bons tempos que o amor ainda provocava grandes inspirações melódicas.
   
A ópera em três atos Kátia Kabanová é, ao lado de Jenufa, a obra prima do compositor. Inspiração elevada ao limite, que representa a dor apaixonada do ser humano.  Música extremamente pessoal, composta com frases curtas e repetitivas que não se adaptam a nenhum gênero. Óperas de Janácek não têm grandes árias e sim recitativos com personagens simples, humildes e ao mesmo tempo complexos. 
   


Gabriela Pacce, arrebatadora como Kátia Kabanová   

O importante é a música, que mostra o caráter dos personagens. A orquestra narra a ação e nela expressa profundas emoções. As falas são coadjuvantes. Janácek constrói linhas melódicas adequadas a cada personagem, música que reflete o sentimento e o caráter. De beleza única e um lirismo que faz chorar o mais frio dos machões.

A Orquestra do Theatro São Pedro nas mãos de Ira Levin capta a alma da música. Entregou sonoridade forte e enfrentou uma partitura complexa com destreza. A leitura correta do regente realça a música, o lirismo e a expressão minimalista das frases. Levin ao reger Kátia Kabanová prova que conhece ópera e suas peculiaridades. Cada período operístico tem suas características musicas e nuances. 

A concepção de André Heller-Lopes apresenta elementos do conservadorismo da sociedade de época. Personagens vivem em um mundo fechado e de poucas mudanças, consegue juntamente com  belos cenários, figurinos adequados e uma luz poderosa efeito visual impactante. O resultado é uma encenação moderna e adequada ao pequeno palco do teatro.

  A escalação acertada do elenco contou com os melhores solistas brasileiros da atualidade, a maioria no auge vocal e cênico. Um timaço liderado por Gabriela Pacce espetacular como Kátia Kabanová, Eric Herrero sempre competente como Borius, Luiza Francesconi e seu timbre divino encantou como Varvara. 

A volta de Claudia Riccitelli aos palcos brasileiros mostra que o soprano continua em grande forma vocal. Vinícius Atique poderoso como Kuligin, Sávio Sperandio interpretou Savjol e mostrou mais uma vez que é um excelente baixo e Tati Helene arrebatadora como Glasa. Destoa de todos o tenor Juremir Vieira, falhou no início, embora tenha melhorado ao longo da récita. 

Ali Hassan Ayache

quarta-feira, 27 de junho de 2018

ALCINA, Theatro São Pedro / SP, Junho 2018



"ALCINA" E O BRANCO TOTAL RADIANTE NO THEATRO SÃO PEDRO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

Posso afirmar que o ser humano mudou drasticamente nos últimos vinte anos, o que dizer então de 283 anos quando estreou a ópera "Alcina" de Händel. O desafio de montar uma ópera concebida há tanto tempo é hercúleo. Ópera barroca tem tudo para desagradar ao público: a ação é lenta, as árias são longas, a duração é enorme para os tempos de celulares conectados 24 horas, as orquestras não tem experiência nesse estilo e é um desafio no Brasil conseguir solistas capacitados. 

Não é por acaso que o título ficou no arquivo morto por mais de duzentos anos. Foi relembrado por algum maluco no início do século XX. Devido ao grande soprano Joan Sutherland conseguiu voltar ao repertório de alguns teatros na segunda metade do século XX. "Alcina" está para Sutherland como "Medea" está para Maria Callas. Ambas desenterraram óperas esquecidas.

Händel era chegado a destacar os solistas em detrimento da ação. Queria impressionar o público da época com árias estonteantes para chamar a atenção. Devido a isso imperam os curtos recitativos e árias longas, uma atrás de outra, do começo ao fim. A mulherada gostava de uma fofoca e era permitido conversar à vontade. Quando digo público me refiro à aristocracia, que nos salões dos ricaços consumia esse tipo de arte. A plebe nem imaginava e mesmo que quisesse não teria acesso.

Claro que fiquei surpreso quando vi "Alcina" na temporada desse ano do Theatro São Pedro/SP. Ópera barroca é uma raridade por essas terras. A chance de acontecer uma lambança monumental era enorme, fazendo esse título a direção da casa sai da zona de conforto ao partir para empreitadas que rumam ao desconhecido.

Os acertos da produção do aconchegante teatro paulistano começam na escalação do elenco. Vozes de excelente nível. Marília Vargas esteve soberba, soprano com voz potente que enche a sala com volume encorpado e técnica de excelente nível. Uma Alcina inesquecível. Thayana Roverso já foi eleita por esse Blog revelação lírica do ano de 2012, os anos passaram e a voz amadureceu. Estonteante, agudos brilhantes unidos a um timbre de rara beleza como Morgana. Inebriante, o soprano mostrou beleza vocal unida a excelência cênica. Espero que os diretores que escalam elencos a chamem para outros papéis.


Marília Vargas como Alcina, foto Internet.

O contratenor David Feldman fez um Riggiero modesto, sua voz destoou dos colegas, agudos fracos em uma voz pequena. Carolina Faria foi uma surpresa, mostrou uma voz que exala um calor denso, quente e escura. Mezzo-soprano especializada em música brasileira colonial acertou em cheio como Bradamante.

A concepção é um soco no estômago: moderna, inovadora e antenada com o melhor do teatro mundial. William Pereira transporta a ação para um futuro distante sem tirar a essência da obra. Torna-os personagens frios, secos e sem vivacidade. Tenta dar dinâmica a um libreto lento, faz movimentações e explora todo o palco. Difere seres humanos pelo figurino: habitantes da ilha brancos e os forasteiros de escuro. O próprio diretor assina os cenários onde predomina o branco total radiante, a intensidade da luz faz o futuro aparecer na mente. O mundo futurista de William Pereira é a pureza do branco onde os habitantes são assépticos e desprovidos de males e doenças. Os forasteiros chegam para contaminar a imaculada ilha de Alcina e a ação começa. 

Algumas passagens lembram o filme "Guerra nas Estrelas", guerreiros com armas de luzes nas mão me fizeram imaginar que o Darth Vader apareceria para tirar satisfações com Luke Skywalker. William Pereira consegue modernizar um título composto há mais de duzentos anos dando uma dinâmica possível as cenas. O cenário sempre branco vai cansando no decorrer dos três atos, embora saibamos que os recursos financeiros escassos o obriguem a isso. 

Os figurinos de Fabio Namatame seguem a linha futurista dos habitantes da ilha e destoam dos forasteiros. Parecem ser de épocas diferentes com enorme discrepância entre ambos. A luz de Mirella Brande transporta a tempos futuros, acompanha a narrativa e mantém a unidade do início ao fim da apresentação. Utiliza cores em alguns pequenos trechos e espaços quebrando a sequencia branca.

A Orquestra do Theatro São Pedro regida por Luis Otavio Santos encarou com vigor a partitura, conseguiu bons acompanhamentos dos solistas. Em diversas passagens tocou sem a pegada barroca, parecia uma orquestra moderna tocando música antiga.

Ali Hassan Ayache

sábado, 12 de maio de 2018

O MATRIMÔNIO SECRETO – Theatro São Pedro/SP, São Paulo, Maio de 2018



De Ali HassanAyache, do blogue Opera & Ballet recebemos mais este texto para divulgação. O Fanáticos da Ópera agradece ao autor.

POUCAS RISADAS, CORES EM EXCESSO E ALFRED HITCHCOCK NO "MATRIMÔNIO SECRETO". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

 O Theatro São Pedro/SP abre a temporada 2018 com a ópera "O Matrimônio Secreto" de Domenico Cimarosa. O prolífico compositor italiano tem mais de 70 títulos e somente esse permanece no repertório. "O Matrimônio Secreto" tem todos os elementos da ópera bufa: confusões generalizadas, personagens querendo levar vantagem, segredos revelados no fim, casamentos arranjados, nobres falidos querendo manter sua pose e ricos comerciantes tentando ser nobres.  
   Musicalmente a ópera é uniforme, escrita para agradar o público da época com árias simples e de fácil assimilação. O libreto manjado facilita a diversão do público. "O Matrimônio Secreto" foi um tremendo sucesso na época de sua estreia. Para a geração celular e zapzap é excessivamente longa, muitas vezes repetitiva e cansativa. Soube que a versão apresentada sofreu alguns cortes, a tesourada poderia ter sido maior.
   
   O cenário de Duda Arruk é inspirado no filme "Janela Indiscreta" de Alfred Hitchcock, com ambientes sobrepostos onde o espectador vê as cenas no lugar do personagem principal. Os figurinos de Fause Haten são exagerados, misturam épocas e criam confusão no colorido excessivo embora sejam compatíveis com o gênero da ópera bufa. A direção de Caetano Vilela acerta na dinâmica das cenas, mostra as facetas dos personagens com simplicidade. A funcionalidade unida a criatividade prevalece no todo fazendo o espetáculo ter qualidade, embora tenha faltado uma pegada cômica, poucas vezes o público sorriu com vontade.
  


   Valentina Peleggi surpreendeu regendo ópera, tirou da Orquestra do Theatro São Pedro boa sonoridade operística unida a musicalidade de uma grande orquestra de concerto. Delicada quando necessário e potente nas partes instrumentais. Nunca encobre os solistas, ao contrário, é amigona deles, marcando todas as entradas. Entendendo o tamanho do teatro faz o volume compatível com o mesmo. Alguns músicos entregaram solos sofríveis, o naipe das madeiras foi um deles.
   

   Caroline de Comi cantou com  belo timbre, seus agudos brilhantes e a beleza da voz compensaram algumas falhas. Sua atuação cênica deu vida a uma Carolina viva e esperta. Pepes do Valle mostrou excelência como Geronimo, baixo que une atuação e canto com nível elevado de talento. Ana Lúcia Benedetti esteve soberba, voz prodigiosa e afinada. Jean William mantém o timbre áspero de sempre, sua entrada foi calamitosa, completamente perdido. Melhorou nos números seguintes, mas nada que empolgasse. Michel de Souza mostra que não foi por acaso eleito revelação lírica masculino por este Blog. Mostrou domínio vocal, técnica segura e excelente atuação como Conde Robinson.
   
   Ópera bufa tem que divertir, fazer rir, levar o público ao delírio. Pena que nesta ópera raras foram as vezes que isso aconteceu. 

Ali Hassan Ayache

sábado, 27 de agosto de 2016

WILLIAM PEREIRA TRANSFORMA "O ANÃO" EM OBRA PRIMA



Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera e Ballet

Beleza física nunca foi um dos atributos do compositor Alexander Von Zemlinsky e consequentemente a mulherada não o via como um galã ou símbolo sexual. A rejeição o atraiu para compor "O Anão", baseado no conto de Oscar Wilde (este rejeitado em sua época por ser homossexual) "O Aniversário da Infanta". O texto é pra lá de maluco, fala de uma infanta que ganha de presente um anão com problemas físicos e que nunca se olhou no espelho. O catatau se julga boa pinta e tem a ousadia de se apaixonar pela infanta. Quando declara seu amor a ela e se olha no espelho a ficha cai e todos os dramas do mundo desabam sobre suas costas.
   
Rejeição, indiferença e intolerância são características inerentes do ser humano desde sua existência e estão marcadas no libreto. As dores e traumas do personagem central foram explorados de forma única pela competente direção de Willam Pereira na apresentação do Theatro São Pedro/SP. Sua visão favorece o psicológico, atua na mente e no imaginário onde os personagens falam através de gestos e expressões. Cada um a sua maneira está inserido em um contexto social e se mostra de forma linear.
   
O cenário de Renata Pati e Karina Machado não tem grandes palácios ou salões nobres, os figurinos  de Olintho Malaquias mostram o temperamento de cada personagem e a luz de Fabio Retti leva a um casamento das cenas. O branco total do cenário remete a pureza e a inocência sentimental do Anão, os cubos interagem movimentando-se e formando cenas imaginárias e o teto é um requinte de cores em fios que descem como uma chuva de pétalas. Willam Pereira faz um teatro moderno, antenado com o enredo que através da imaginação leva o espectador à reflexão. Foge dos clichês atuais onde todos tem que defender as causas dos excluídos, devem amar os animais de estimação e a natureza. 
   
O problema é que o diabo mora nos detalhes e esses que se mostram corretos e defensores das grandes causas sempre tem uma atitude não tão correta ou um pensamento nem sempre "adequado". Pereira mostra o drama humano e nada é mais importante que isso. Simplesmente perfeito na sua concepção. Você pode não gostar dos críticos William, às vezes os críticos gostam de você.
   
A Orquestra do Theatro São Pedro comandada por André dos Santos apresentou sonoridade volumosa e densa, realçando a força da música de Zemlinsky em prol da delicadeza das notas. O Coro sempre afinado e recheado de solistas da casa cantou com sonoridade esplendida. Os solistas mostraram competência para encarar as difíceis passagens: Gustavo Lassen evolui a cada apresentação, voz de baixo com excelentes graves. Mar Oliveira faz um Anão denso e dramático cenicamente conciliando um timbre que não é dos mais agradáveis embora combine com as dores do personagem. A Infanta interpretada por Maria Sole Gallevi cantou com um timbre delicado e técnica correta, atuação cênica correta e linear. 
  
 Mais uma vez o teatro da Barra Funda traz títulos raros em montagens com roupagem moderna, que privilegia os cantores da casa e solistas brasileiros de extrema qualidade. Enquanto isso na Praça Ramos o clima é de poucos amigos, com o titular depondo em CPIs da Prefeitura Municipal e tendo a quebra de sigilo eletrônico decretada pela justiça. Quanta diferença! 


Ali Hassan Ayache