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sábado, 7 de março de 2020

EVGENI ONEGIN de Tchaikovsky — Fundação Calouste Gulbenkian, 6.03.2020

(Review in English below)

Foto ©FCG

A ópera Evgeni Onegin foi composta pelo expoente máximo do romantismo russo na música — Piotr Ilitch Tckaikovsky. O romance em verso homónimo de Pushkin — marco da literatura russa —  foi a base para o libreto escrito pelo próprio compositor e por Konstantin Shilovsky. Já escrevi neste blogue que sou um grande admirador desta ópera pelo arrebatamento que tudo me causa.

A FCG apresentou-nos uma ópera com uma encenação de Kristiina Helin. A dificuldade em fazê-lo no edifício é evidente, mas o resultado é interessante, recorrendo a algumas soluções engenhosas.

O primeiro ato começa com Tatiana, Olga, Larina e Filipnieva sentadas na boca do palco em bancos e com os pés apoiados em livros. As personagens ficam de costas ou de frente de acordo com a secções das cenas. Por trás, num pano semitranslúcido, projetam-se naturezas mortas, não impedindo de ver a orquestra espalhada pelo palco e o coro nas suas laterais. Já a cena da carta passa-se num palanque ao fundo do palco, o que dificulta a tarefa aos cantores e não transmite intimidade do quarto ou o bucólico do jardim, uma vez que é aí que se dá o sermão.
Foto ©FCG

O 2.º ato começa com os cantores na boca do palco novamente, com umas danças simples e monótonas que se alastraram ao confronto amorfo entre Onegin e Lensky. A personagem Triquet é apresentada com o figurino de Joker, em modo fanfarão e dinâmico, empunhando um taco de golfe, o que me pareceu discutível, assim como toda a utilização deste figurino como testemunha de Onegin e na cena final. A cena do duelo volta ao palanque no fundo do palco onde se abre uma cortina que expõe o Jardim da Gulbenkian onde se produz fumo, transmitindo a frieza do local. O 3.º ato começa com a casa de Gremin. Este está com Onegin no palanque, enquanto Tatiana entra pela porta lateral do anfiteatro e se projetam luzes em bolas de discoteca, o que cria um efeito de luz interessante na sala. A cena final é trazida de novo à boca do palco, o que se agradece, porque permitiu aproximar o público do drama. No final, Joker cobre a face de Onegin com uma máscara branca. Creio que a ideia era dizer que Onegin é tão psicopata como Joker, coisa de que discordo totalmente e é uma associação infeliz.

Orquestra Gulkenkian esteve globalmente muito bem dirigida pelo maestro Lorenzo Viotti. Este tem feito a orquestra crescer em diversos reportórios (fala-se que estará para breve o anúncio de que partirá para outras paragens, o que será uma péssima notícia) e conseguiu transmitir as emoções e coloridos da partitura, respeitando os cantores (com algumas excepções como, por exemplo, no final). Mas continuo a achar que falta calor para Tchaikovksy no naipe da cordas, o que é um problema antigo.

Coro Gulbenkian, ainda que não seja um coro com sonoridade operática, teve um excelente desempenho em todas as intervenções e mostrou toda a sua qualidade e versatilidade.

A Tatiana da soprano Marjukka Tepponen foi excelente. A voz, bonita e poderosa, sempre bem projetada e audível (mesmo do fundo do palco) e com uma sustentação impecável das notas em toda a tessitura, transmitiu as emoções de uma Tatiana jovem, atormentada pela paixão e pelo dever. E foi secundada por uma interpretação cénica muito convincente e capaz.

Foto ©FCG

Tepponem formou com Andrè Schuen, o barítono que fez Onegin, um duo de grande qualidade. Schuen surpreendeu-me pela beleza do timbre, volume, projeção e legato. Foi quente, indeciso e atormentado, e raramente fanfarão. Gostei particularmente do sermão no primeiro ato.

O Gremin de Dmitry Ulyanov também esteve muito bem. Tem um poderio vocal como poucos: graves profundos e agudos estratosféricos. E fez um Gremin poderoso, com uma grande energia vital. Um estrondo.

O Lensky de Alexey Neklyudov foi o mais aplaudido da récita, mas, apesar de ter sido elegante e lírico, não atingiu a qualidade elevada do par Tepponen/Schuen. Tem uma voz mais pequena, com maior dificuldade na projeção, ainda que bonita, e foi mais amorfo cenicamente.

Nos papéis secundários, Marco Alves dos Santos foi um Triquet mascarado de Joker muito dinâmico, dinâmica que manteve como Guillot, ainda que ambas as personagens sejam apresentadas sem distinção, o que serviu o propósito muito discutível da encenadora. O desempenho vocal contrastou com o cénico, uma vez que se apresentou com um vibrato exagerado. Cátia Moreso teve um bom desempenho, sobretudo no primeiro ato, tendo sido bem acompanhada pela Larina de Carolina Figueiredo. A Filipievna de Stefania Toczyska esteve muito bem cenicamente, embora irregular na qualidade da emissão vocal. O Capitão de André Henriques, bem como o Zaretski de André Baleiro, estiveram bem nos seus curtos papéis.


Foi uma récita de boa qualidade que valeu pelo desempenho do quarteto Viotti, Tepponen, Schuen e Ulyanov. Esperemos que a FCG continue a apresentar estas óperas semi-encenadas nas próximas temporadas.

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(Review in English)

The opera Evgeni Onegin was composed by the greatest exponent of Russian romanticism in music - Piotr Ilitch Tckaikovsky. Pushkin's eponymous verse novel - a landmark of Russian literature - was the basis for the libretto written by the composer himself and by Konstantin Shilovsky. I have already written in this blog that I am a great admirer of this opera for the rapture that everything causes me.

FCG presented us an opera with a staging by Kristiina Helin. The difficulty in doing so in the building is evident, but the result is interesting, using some ingenious solutions.

The first act begins with Tatiana, Olga, Larina and Filipnieva sitting on benches with their feet resting on books at the front of the stage. The characters are on their backs or front according to the sections of the scenes. From behind, on a semi-translucent cloth, still lifes are projected, not preventing you from seeing the orchestra spread across the stage and the choir on its sides. The scene of the letter, on the other hand, takes place on a platform at the back of the stage, which makes it difficult for singers and does not convey the intimacy of the room or the bucolic of the garden, since that is where the sermon is given. The 2nd act begins with the singers again at the front of the stage, with simple and monotonous dances, monotony that spreads to an amorphous confrontation between Onegin and Lensky. The character Triquet is presented with Joker’s costume, in a swashbuckling and dynamic way, wielding a golf club, which seemed debatable, as well as all the use of this costume for Guilot, the witness to Onegin, as well in a unknow character in the final scene. The scene of the duel occurs at the back of the stage again where the curtain opens to expose the Gulbenkian Garden where smoke is produced, conveying the coldness of the duel’s place. Act 3 begins at Gremin's home. Gremin is with Onegin at the back, while Tatiana enters through the side door of the amphitheater and lights are projected on disco balls, which creates an interesting light effect in the hall. The final scene is brought back to the front, which was grateful because it allowed the audience to be closer to the drama. In the end, Joker covers Onegin's face with a white mask. I think the idea was to say that Onegin is as psychopathic as Joker, which I totally disagree with and is an unfortunate association.

The Gulkenkian Orchestra was globally very well conducted by conductor Lorenzo Viotti. He has made the orchestra grow in several repertoires (it is said that the announcement that he will leave at the season end, which will be very bad news) and managed to transmit the emotions and colors of the score, respecting the singers (with some exceptions as, for example, at the end). I still think that this orchestra strings lacks warm and drama for Tchaikovsky, but this is an old issue.

The Gulbenkian Choir, although not a choir with an operatic sound, had an excellent performance in all interventions and showed all its quality and versatility.

Soprano Tatiana Marjukka Tepponen was excellent. The voice, beautiful and powerful, always well projected and audible (even from the back of the stage) and with an impeccable support of the notes throughout tessitura, conveyed the emotions of a young Tatiana, tormented by passion and duty. And it was supported by a very convincing and capable performance as an actress.

Tepponem formed with Andrè Schuen, the baritone who made Onegin, a duo of great quality. Schuen surprised me by the beauty of the timbre, volume, projection and legato. He was warm, indecisive and tormented, and rarely a boaster. I particularly liked the sermon in the first act.

Dmitry Ulyanov's Gremin was also very good. He has vocal power like few others: deep bass and stratospheric treble. And he made a powerful Gremin, with great vital energy. Thunderous.

Alexey Neklyudov's Lensky was the most applauded of the performance, but, despite being elegant and lyrical, he did not achieve the high quality of the pair Tepponen/ Schuen. He has a smaller voice, with greater difficulty in the projection, although beautiful, and was more amorphous in scenery.

In the secondary roles, Marco Alves dos Santos was a very dynamic Joker-masked Triquet, a dynamic he maintained as Guillot, although both characters are presented without distinction, which served the director's very debatable purpose. The vocal performance contrasted with the scenic, since he had an exaggerated vibrato. Cátia Moreso had a good performance, especially in the first act, having been well accompanied by Carolina Figueiredo’s Larina. Stefania Toczyska's Filipievna was very well done, albeit irregular in the quality of the vocal emission. André Henriques' Captain, as well as André Baleiro's Zaretski, did well in their short roles.

It was a good quality opera performance where the quartet Viotti, Tepponen, Schuen and Ulyanov excelled. We hope that FCG will continue to present these semi-staged operas in the coming seasons.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

LA FORZA DEL DESTINO, Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, Outubro 2019





(review in English below)

O Teatro de São Carlos abriu a temporada com a opera de Verdi La Forza del Destino, numa encenação de David Pountney. Há projecções numa tela translúcida à frente do palco. Abre com a palavra Paz, vê-se uma borboleta e uma roda (da sorte?) e a pistola a disparar uma bala aparece várias vezes ao longo do espectáculo. No início da segunda parte é a palavra Guerra que surge. No palco há dois grandes painéis móveis que permitem criar os diversos cenários, um deles com uma cortina e os figurantes trazem e levam frequentemente mesas. No primeiro acto dominam imagens de cruzes de grandes dimensões e pouco mais, com um efeito cénico interessante no início mas depois muito repetitivo. Há situações bem conseguidas mas a encenação, para além de escura como a história da ópera, é estranha em várias partes. Há padres com enormes mitras trajados de branco mas todos ensanguentados (final do 2º acto), a morte aparece frequentemente retratada nos elementos do coro e há um “Piccolo Teatro di Guerra” no 3º acto de efeito algo bizarro.

O maestro Antonio Pirolli fez um óptimo trabalho, a Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve bem e o Coro também muito bem.



O baixo barítono Miklós Sebestyén foi o Marquês de Calatrava e o Padre Guardiano. Esteve bem, algo discreto, mas com um timbre agradável e boa presença em palco.

Leonora foi a soprano Julianna Di Giacomo que tem uma voz potente, com vibrato acentuado e, no registo mais agudo, perde qualidade e sai mais gritado que cantado. Contudo, teve partes muito boas, nomeadamente  Madre, pietosa Vergine” no 2º acto e o “Pace pace mio Dio...” no último.

O barítono Damiano Salerno foi um Don Carlo de qualidade superior. Voz poderosa, timbre muito agradável e sempre afinado. Para mim o melhor cantor da récita.

No extremo oposto esteve o tenor Rafael Alvarez como Don Alvaro. Voz agreste, desafinou frequentemente e com enormes dificuldades nos agudos. Em cena também não foi interessante.

De entre os cantores portugueses, Cátia Moreso foi uma Preziosilla muito vistosa mas a voz resvala frequentemente para a estridência, Luís Rodrigues foi um Melitone excelente, tanto na interpretação vocal como cénica, João Merino um Alcaide e um Cirurgião digno e Carlos Guilherme um Trabuco algo apagado.





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LA FORZA DEL DESTINO, Teatro Nacional de São Carlos, Lisbon, October 2019

The Teatro Nacional de São Carlos opened the season with the opera by Verdi La Forza del Destino, produced by David Pountney. There are projections on a translucent screen in front of the stage. It opens with the word Peace, you see a butterfly and a wheel (lucky?) and the pistol firing a bullet is appearing several times throughout the show. At the beginning of the second part is the word War that appears. On the stage there are two large moving panels that create the various scenarios, one with a curtain and the extras often bring and carry tables. In the first act dominate large crosses and little more, with an interesting scenic effect at first but later very repetitive and unimaginative. There are interesting scenic situations but the staging, as dark as the history of the opera, is strange in many parts. There are priests with huge white-clothed miter but all bloody (end of 2nd act), death often appears in the choir elements and there is a “Piccolo Teatro di Guerra” in the 3rd act of somewhat bizarre effect.

Conductor Antonio Pirolli did a good job, the Portuguese Symphony Orchestra was well and the Choir was very good.

Bass baritone Miklós Sebestyén was Marquis of Calatrava and Padre Guardiano He was fine, somehow discreet, but a nice timbre and good presence on stage.

Leonora was soprano Julianna Di Giacomo who has a powerful voice, but with strong vibrato and, in the top register, loses quality and the voice is more shouted than sung. However, she had very good parts, namely Madre, pietosa Verginein the second act and "Pace pace mio Dio..." in the last.

Baritone Damiano Salerno was a top quality Don Carlo. Powerful voice, very pleasant tone and always tuned. For me the best singer of the night.

At the opposite extreme of the interpretation was tenor Rafael Alvarez as Don Alvaro. Wild voice, often detuned and with great difficulties in the top register. On stage he was not interesting either.

Among Portuguese singers, Cátia Moreso was a very showy Preziosilla but her voice often slips to stridency, Luís Rodrigues was an excellent Melitone, both in vocal and scenic interpretation, João Merino was a correct Mayor and Surgeon and Carlos Guilherme made a  weak Trabuco.

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quarta-feira, 15 de maio de 2019

LA GAZZA LADRA, Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, Maio 2019



(review in English below)

O Teatro de São Carlos apresentou a ópera La Gazza Ladra de Rossini. Infelizmente foi em versão concerto, pelo que apenas pudemos ouvir. Foi um bom espectáculo que se deveu, sobretudo, à escolha dos intérpretes principais. Foram trazidos vários cantores estrangeiros jovens, de bom nível, que contracenaram com cantores portugueses, estes na maioria em papéis menos exigentes.

Rossini não é para todos, instrumentistas ou cantores e, com esta tolerância em mente, assistimos a um bom espectáculo. O maestro foi o jovem italiano Sesto Quatrini que esteve bem, com resposta à altura quer da Orquestra Sinfónica Portuguesa, quer do Coro do Teatro de São Carlos.


A qualidade dos cantores solistas foi bastante homogénea e acima do que habitualmente nos é oferecido, mas alguns destacaram-se pela sua superior qualidade. A Ninetta foi cantada pela soprano georgiana Sofia Mchedlishvili. De entre as senhoras foi, de longe, a melhor. Tem uma voz de timbre agudo mas agradável, afinada e sempre bem audível sobre a orquestra. Safou-se na coloratura.



O Gianetto foi o tenor italiano Michele Angelini, uma voz adequada à interpretação rossiniana, boa projecção e bem timbrada. Foi muito bom. O baixo italiano Mirco Palazzi interpretou de forma surpreendente o Magistrado. Tem uma voz grave sempre bem colocada, muito expressiva e foi, para mim, o melhor da noite.



Num patamar um pouco mais abaixo estiveram o baixo italiano Ugo Guagliardo como Fernando, pai de Ninetta, e a mezzo também italiana Paola Gardina, de voz escura mas por vezes pouco audível, no papel masculino de Pippo.



Os solistas portugueses foram a mezzo Cátia Moreso que esteve bem como Lucia embora, por vezes, tenha roçado a estridência, o excelente baixo André Henriques como Ernesto e Pretor, o melhor dos nacionais apesar do papel pequeno, e o tenor Marco Alves dos Santos como Isacco e Antonio, sempre bem como nos habituou. Mais discretos estiveram os barítonos Luís Rodrigues como Fabrizio e João Merino como Giorgio. Ana Serro teve uma pequena mas simpática presença como a pega.



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LA GAZZA LADRA, Teatro Nacional de São Carlos, Lisbon, May 2019

The Teatro de São Carlos presented the opera La Gazza Ladra by Rossini. Unfortunately it was in concert version, so we could only hear it. It was a good show that was mainly due to the choice of the main performers. A number of good young foreign singers were brought along with Portuguese singers, mostly in less demanding roles.

Rossini is not for everyone, instrumentalists or singers and, with this tolerance in mind, we witnessed a good performance. The maestro was young Italian Sesto Quatrini who was well, with a good response from both the Portuguese Symphony Orchestra and the São Carlos Theater Choir.

The quality of the soloist singers was quite homogeneous and above what is usually offered to us, but some stood out for their superior quality. Ninetta was sung by Georgian soprano Sofia Mchedlishvili. Among the ladies she was by far the best. Shee has a high-pitched but pleasant voice, tuned and always well audible over the orchestra. She got away in th coloratura.

Gianetto was the Italian tenor Michele Angelini, a voice adequate to the rossinian interpretation, good projection and nice timbre. He was very good. Italian bass Mirco Palazzi interpreted superiorly the Magistrate. He has a bass voice always well tuned, very expressive and was, for me, the best of the night.

On a little lower quality level were Italian bass Ugo Guagliardo as Fernando, father of Ninetta, and Italian mezzo Paola Gardina, dark voice but sometimes not very audible, in the trousers role of Pippo.

The Portuguese soloists were mezzo Cátia Moreso who was as well as Lucia although at times she has touched the stridency, the excellent bass André Henriques as Ernesto and Pretor, the best of the nationals despite the small role, and the tenor Marco Alves dos Santos as Isacco and Antonio, always well as we are used to. More discreet were the baritones Luís Rodrigues as Fabrizio and João Merino as Giorgio. Ana Serro had a small but nice presence as the bird.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

OEDIPUS REX, Teatro de São Carlos, Lisboa, Novembro de 2016





A opera - oratória de Igor Stravinski com libretto de Jean Cocteau / Abade Jean Daniélou esteve em cena no Teatro de São Carlos numa encenação de Ricardo Pais, com Cenografia e Figurinos de António Lagarto e Desenho de Luz de Rui Pedro Simão.

Transcrevo o texto introdutório publicado pelo Teatro de São Carlos:
Stravinski compôs a ópera-oratória Oedipus Rex para celebrar os 20 anos de atividade artística de Diaghilev. O texto, escreveu-o Jean Cocteau, confiando-o posteriormente ao seu amigo e abade Jean Daniélou, que o reverteu para latim. Estreada em 1927 no Teatro Sarah Bernhardt, e não sendo uma das obras mais conhecidas de Stravinski, contudo uma das mais importantes, Oedipus Rex alicerça-se numa simplicidade sonora onde os intervenientes da tragédia de Sófocles se movem quase hipnoticamente, dando a impressão de estátuas vivas tal como pretendido pelo compositor. A natureza ritualística do drama é enunciada pelo speaker, assumindo-se o coro como um dos atores que comenta segundo os cânones da tragédia grega as contrariedades do jovem Édipo que, ao desvendar o enigma da temível esfinge às portas de Tebas, viria a transformar-se no mais humano e pungente dos mitos”.

Confesso que não conhecia a obra e não fiz o “trabalho de casa”, pelo que fui confrontado com o espectáculo sem me ter preparado previamente. E foi uma agradável surpresa. A produção apresentada no São Carlos é visualmente muito interessante. A simplicidade reinou e o resultado final foi bom.

A direcção musical de Leo Hussain teve alguns desacertos, sobretudo no início. Os solistas estiveram muito bem, ao nível do que seria desejável ouvir-se sempre no nosso teatro nacional de ópera.

 O Oedipus foi o tenor Nikolai Schukoff que nos ofereceu uma excelente interpretação, cénica e vocal. O pastor de Marco Alves dos Santos foi outra boa interpretação, como também esteve bem Davone Tines como Créon/Tirésias. A única senhora solista foi Cátia Moreso que foi uma Jocaste correcta mas algo dura. Finalmente o mensageiro/Narrador foi João Merino que quase não cantou, mas teve sempre uma boa presença.





Um bom espectáculo em São Carlos.




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