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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Castelo do Barba-Azul - Fundação Calouste Gulbenkian - 24 Outubro 2011

(review in english below)

A ópera o Castelo do Barba-Azul de Béla Bartók subiu ao palco da Fundação Calouste Gulbenkian no passado dia 24 de Outubro.





Esta ópera em um acto, composta em 1911 e estreada em 1918, com libreto de Béla Balázs, inspirado num conto popular, pode ser encarada como uma viagem ao interior do Duque Barba-Azul. Numa sequência de abertura de portas do seu Castelo pela sua 4ª mulher Judith, onde conhecemos o seu jardim, o seu reino, o seu tesouro… chegamos à 7ª e última porta onde se encontram as suas 3 ex-mulheres, ainda vivas, à qual se junta Judith, terminando assim a ópera.

A música de Bartók é marcadamente envolvente, criando um misto de ambiente sinistro e acolhedor, muito longe de ser incomodativa a ouvidos menos preparados, como outras composições da mesma altura temporal.

O palco da Gulbenkian foi transformado numa produção multimédia que podia facilmente ser um cenário clássico para apresentação numa Casa de Ópera. O Castelo é personificado por estrutura simétrica em forma de pilares, onde são projectadasimagens que refletem o que por detrás de cada porta se vai desvendando. No centro, uma estrutura hexagonal, suspensa por cabo, abre-se em 2 pirâmides quando Judith abre a última porta. Por detrás são projectadas imagens das mulheres de Barba-Azul e é lá que Judith termina a ópera olhando para o palco, pouco antes de tudo escurecer.

Sir John Tomlinson foi o Barba-Azul. Com a sua pose característica e aparência tradicional com cabelo branco penteado para trás e barba acertada, encarna na perfeição o papel, para o qual contribuiu a capa e colete de cabedal negros. A voz mantém a mesma qualidade que já por várias vezes descrevi neste blog. O timbre é característico e os agudos parecem frequentemente em esforço mas saem sem quebrar. Talvez seja pelo timbre vocal e não pela idade da mesma.



Michele DeYoung foi Judith. Excelente qualidade vocal aliada a uma expressão corporal sentida e natural.



Esa-Pekka Salonen dirigiu a Philharmonia Orchestra de forma tão intensa e cativante que chegou a rasgar o casaco na região axilar direita…



Natália Luiza fez prólogo narrado que introduziu, em bom português, o ambiente da ópera.

A anteceder a ópera, podemos escutar a sinfonietta de Leos Janacek. Uma escolha ajustada e coerente.

Mais uma grande noite na Gulbenkian!








The Bluebeard's Castle - Calouste Gulbenkian Foundation - 24 October 2011




The opera Bluebeard's Castle by Béla Bartók was brought to the stage of the Calouste Gulbenkian Foundation on the 24th October.





This one-act opera, composed in 1911 and premiered in 1918, with libretto by Béla Balázs, inspired by a folk tale, can be seen as a voyage into the Duke Bluebeard soul. In a sequence of opening doors of his castle by his 4th wife Judith, where we can meet his garden, his kingdom, his treasure ... we come to the 7th and last door where his three ex-wives, still alive, to which joins Judith, thus ending the opera.

Bartók's music is remarkably engaging, creating a mix of sinister and friendly environment, far from distracting the less prepared ears, like other compositions of the same period of time. The stage of the Gulbenkian was transformed into a multimedia production that could easily be a classic setting for presentation at an Opera House. The castle is personified by the symmetrical structure in the form of pillars, in which are projected images that reflect what is behind each unlocked door. In the center, a hexagonal structure, suspended by cables, opens in two pyramids when Judith opens the last door. Behind are projected images of Bluebeard’s wifes and it is there that Judith ends looking at the stage, just before the opera ends and everything goes dark.

Sir John Tomlinson was the Bluebeard. With his characteristic pose and traditional look with white hair slicked back and a beard, perfectly embodies the role, to which contributed the hood and black leather vest. The voice has the same quality that has repeatedly described in this blog. The sound is distinctive and often appears stressed in the high notes but without breaking out. Maybe it is due to his vocal timbre and not just due to his voice age.



Michelle DeYoung was Judith. Excellent voice quality combined with a true felt natural body language.



Esa-Pekka Salonen led the Philharmonia Orchestra in a so intense and captivating way that he even teared his coat just below his right arm pit…



Natalia Luiza did the narrated prologue in portuguese, which introduced the environment of the opera.

Prior to the opera, we could hear the Sinfonietta by Leos Janacek. A smart and consistent choice.

Another great night at Gulbenkian!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Da Casa Dos Mortos, Leoš Janáček – Fundação Calouste Gulbenkian – 6 de Janeiro 2011



Da Casa Dos Mortos é a última ópera de Leoš Janáček. O libretto procura condensar a obra “Casa Morta” de Dostoievski. Esta, por sua vez, traduz a vivência do autor no seu exílio na Sibéria, cumprindo pena sob acusação de conspiração contra o Estado Russo.

A produção semi-encenada, e com recurso multimédia, apresentada hoje e amanhã, pela Fundação Calouste Gulbenkian, é bem conseguida. Contudo é de difícil assimilação para quem não se sente acusticamente familiar com o estilo de Janáček.

A música de Janáček é perturbante no primeiro acto, evoluindo em ideias melódicas altamente contrastantes, apresentadas com orquestração rude e agressiva. O 2º acto evolui de modo mais lírico e é, sem dúvida o mais envolvente dos três, culminando num acto final em que se fundem ambos os ambientes. O libreto é um relato de diversas histórias pelos prisioneiros, de interesse duvidoso e pouco cativante.

Esa-Pekka Salonen pareceu-me muito seguro no podium, dirigindo uma Orquestra Gulbenkian coesa e, como habitualmente, de qualidade exímia. É evidente o elevado conhecimento deste Maestro sobre a obra, em parte tutorado por Pierre Boulez, tendo já dirigido no Met de Nova York e no Teatro alla Scala em Milão.


Os solistas demonstraram excelente qualidade vocal e interpretativa, destacando-se no seu todo. Muitos deles já tendo participado com Salonen em produções prévias da obra.

A apresentação semi-encenada, em que aparecem de calça e colete pretos, com camisa branca descontraída e alguns adereços particulares, como as cadeiras de palco, resultou muito bem.

A projecção multimédia, da responsabilidade de Kristiina Helin, utiliza projecções do filme documentário Blatnoi mir (realizado por Jouni Hiltunen), bem como de outros (Nosferatu, eine Symphonie dês Grauens de Friedrich Wilhelm Murnau como fundo à peça Kedril e Don Juan; e Lot in Sodom de James Sibley Watson). Cria um enquadramento propositado às passagens cantadas e complementa a qualidade do efeito cénico global.

Não posso dizer que esta minha estreia em Janáček tenha sido excelente mas também não foi completamente desconcertante. Não consegui entrar totalmente na ideia filosófica da obra. Talvez uma visualização da versão encenada de Patrice Chéreau me ajude proximamente a viver de modo diferente esta ópera.

Peço perdão, Sr. Janáček, se não compreendi (para já) a sua visão.




From The House Of The Dead, Leoš Janáček - Calouste Gulbenkian Foundation - January 6th, 2011






From the House Of The Dead is Leoš Janáček the last opera. The libretto attempts to condense the book "Dead House" by Dostoievsky. This, in turn, reflects the experience of the author in his exile in Siberia, serving time due to the charges of conspiracy to the Russian regime.

The semi-staged and multimedia supported production presented today and tomorrow, by the Calouste Gulbenkian Foundation, is well achieved. Yet it is difficult to assimilate for those who do not feel acoustically familiar with the style of Janáček.

Janáček's music is annoying in the first act and evolved into highly contrasting melodic ideas, presented with rude and aggressive orchestration. The 2nd act is more lyrical and is undoubtedly the most engaging of the three, culminating in a final act that fuses both environments. The libretto is an account of several stories by prisoners, of dubious value and little catchy.

Esa-Pekka Salonen seemed very safe on the podium, addressing a cohesive and superb quality Gulbenkian Orchestra. It is evident the Maestro’s high knowledge of the work, in part mentored by Pierre Boulez. He has conducted it previously at the New York Met and at the Teatro alla Scala, Milan.


The soloists revealed excellent vocal and interpretative quality as a whole. Many of them have participated in previous productions of the work also with Salonen.

The semi-staged presented them in black pants and vest, a “relaxed” white shirt and some proper acessoires, like the wooden chairs of the stage.

The Kristiina Helin’s multimedia projection uses excerpts from the documentary film Blatnoi mir (directed by Jouni Hiltunen), as well as others (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens Friedrich Wilhelm Murnau as a background to the piece and Kedril Don Juan, and Lot in Sodom by James Sibley Watson). It creates a purposeful framework for the sung passages and complements the overall quality of the scenic effect.

I can not say that my debut in Janáček was excellent but it was not too much confusing. I felt unable to enter the philosophical idea of the work. Perhaps I should have a look at the staged production by Patrice Chéreau and try to embrace this work...

Excuse me, Mr. Janáček, if I could not understand your vision... for now.