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quinta-feira, 21 de junho de 2018

O CAVALEIRO DA ROSA, Theatro Municipal de São Paulo, Junho 2018


A CAFONICE DECADENTE DO CAVALEIRO DA ROSA NO THEATRO MUNICIPAL DE SP. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

 
Foto, cena da ópera "O Cavaleiro da Rosa", fonte facebbok. Foto de Fabiana Stig

Richard Strauss já tinha composto "Salome" e "Elektra quando em 1911 lança uma ópera de estilo completamente diferente, para não dizer antagônico ao que vinha compondo. Dois sucessos recheados de drama e tensão com histórias chocantes, marcantes e personagens vorazes, é substituído pela ópera "O Cavaleiro da Rosa" onde aparecem nobres assediadores querendo dotes polpudos. Valsas vienenses desfilam com carinho nos ouvidos (estas nem existiam na época que a história é ambientada) e inspiração mozartiana são características inerentes da ópera. 

   Raras vezes é montada no Brasil, tive a chance de ouvi-la em forma de concerto pela OSESP em 2009. Alguns musicólogos veem similaridades entre a opereta "O Morcego" de Johann Strauss e "O Cavaleiro da Rosa" de Richard Strauss. O sobrenome pode ser igual, o parentesco é nenhum. Similaridades entre as duas estão no fato de serem cômicas e vienenses. A música de Richard é de uma riqueza absurda, contrastes entre o dramático, o cômico e melancólico aparecem a todo instante. Enquanto a opereta de Johann tem melodias que grudam na memória e nada mais. 

    A segunda produção do ano no Theatro Municipal de São Paulo teve vozes que compensaram às quatro horas na casa. Luisa Francesconi como sempre soberba como Octavian. A Marechala de Carla Filipcic Holm tem voz poderosa e compatível com o canto de Strauss, o baixo Dirk Aleschus não atinge as notas mais graves, apresentação caracterizada pela atuação cênica eficaz como Barão Ochs. Grande destaque é a voz de Elena Gorshunova, soprano de grandes qualidades vocais. 

   Pablo Maritano opta pelo caricato, pelo toque de humor a costumes de uma sociedade que se imagina nobre e esta em fase final de existência. Acerta ao narrar com clareza os diversos encontros e desencontros e aproximar o título a uma opereta. A transposição de época não afeta o resultado, o século XVIII vira início do século XX na montagem. O cenário de Italo Grassi vai do simples no primeiro ato a cafonice decadente do segundo e terceiro. 

   O exagero do dourado simboliza perfeitamente essa característica. Uma verdadeira crítica as elites tupiniquins. Os cavaleiros na "Apresentação da Rosa" mais parecem os Dragões da Independência. Os figurinos de Fabio Namatame acompanharam a ideia e a luz de Caetano Vilela fica torta, sombras por todos os lados e algumas penumbras que transmitem a ideia de decadência social.

   A Orquestra Sinfônica Municipal regida por Roberto Minczuk manteve bom nível do início ao fim da récita. Quem imagina que o regente só é chegado a concertos começa a ver um Minczuk conhecedor da linguagem operística. Segurou a orquestra nos três atos em excelente nível técnico, valsas de sonoridade leve e clara em uma orquestra enorme exigida pela partitura.

Ali Hassan Ayache 
Extra-campo: 
-Preço do programa R$ 35,00, um absurdo de caro. 
-A galera adora tirar fotos e fazer filmagens quando isso é permitido durante um pequeno trecho da ópera, boa sacada iniciada na gestão Cleber Papa.
-O público foi diminuindo conforme os intervalos iam chegando. Ópera longa é para poucos nos tempos onde o mais importante é o celular e as redes sociais.
- É o fim dos tempos um colega crítico de ópera ficar mendigando um programa para a produção.



terça-feira, 20 de junho de 2017

O CAVALEIRO DA ROSA / DER ROSENKAVALIER, METropolitan Opera, Abril / April 2017



(review in English below) 

O Cavaleiro da Rosa de Richard Strauss, com libretto de Hugo von Hofmannsthal, esteve em cena na Metropolitan Opera House de Nova Iorque. Oficialmente é a despedida da Renée Fleming da opera. Veremos…


A encenação é de Robert Carsen. A acção foi colocada no início do século passado, parodiando uma aristocracia decadente. O primeiro acto passa-se num salão cheio de retratos de nobres e com uma enorme cama num dos lados. Muita da acção passa-se sobre a cama. Há um corredor com passagem para várias outras salas, das quais só se vê o acesso e as enormes portas.

No segundo, as paredes estão revestidas de pinturas gregas e no início há 2 enormes canhões no palco. Herr von Faninal o pai de Sophie é comerciante de armas. O pessoal está todo armado com espingardas e pistolas. A valsa vienense final é caricaturada por "militares" que a dançam sem par.
O terceiro acto passa-se num bordel, propriedade de um homem que aparece como travesti, com as paredes revestidas de quadros de mulheres despidas. Há um interessante efeito visual quando por detrás destes aparecem dançarinas exóticas em determinados momentos. Apesar do ambiente burlesco, a cena final é de belo efeito.



O maestro Sebastian Weigle ofereceu-nos uma interpretação muito correcta, a fazer justiça à partitura e à música de Strauss. A Orquestra esteve ao mais alto nível.



O Octavian da mezzo Elina Garanca foi insuperável. A voz é excepcional e o desempenho cénico irrepreensível, apesar de no 3º acto aparecer vestida como um travesti que torna excessivamente ridícula a situação, apesar de se passar num bordel. Mas nas duas vezes que aparece disfarçada de Mariandel é cenicamente brilhante e sempre muito cómica. Em contraste total, no segundo acto, quando apresenta a rosa prateada a Sophie, tem um desempenho vocal de grande emotividade e beleza, tal como no terceto final.

 


A Marechala (Princesa Marie Therèse von Werdenberg) da soprano Renée Fleming apareceu sempre magnífica em palco, a voz mantém grande qualidade, é um soprano cremoso e ágil, mas a personagem merecia um pouco de mais introspecção que não existiu. A confrontação com o inevitável envelhecer e a natural evolução da vida não tiveram grande expressividade. Apenas no terceto final foi mais emotiva.




O Barão Oches do baixo Günther Groissböck foi outro intérprete excepcional. O cantor tem uma voz bonita, sempre bem colocada e audível ao longo de toda a sua longa interpretação. Cenicamente foi muito cómico, a encenação também ajuda, mas a idade nem tanto. É muito novo para o papel (tem 40 anos), o que não lhe tirou qualidade interpretativa mas obrigou-o a preparar cada pormenor da sua interpretação para que não perdesse a comicidade desejável. E conseguiu-o.



O cantor italiano foi o tenor Matthew Polenzani que cantou afinado mas o timbre estava estranho.



O Barítono Markus Brück fez Herr von Faninal muito credível, sempre bem audível e com boa presença em palco.



A soprano Kathleen Kim esteve também fantástica como Sophie. Soprano de grande qualidade esteve sempre bem no registo mais agudo, em perfeito contraponto com a Garanca.










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DER ROSENKAVALIER, METropolitan Opera, April 2017


Richard Strauss's Der Rosenkavalier, with libretto by Hugo von Hofmannsthal, was on stage at the Metropolitan Opera House in New York. Officially it was Renée Fleming's farewell to the opera. We'll see…

The staging was by Robert Carsen. The action was set at the beginning of the last century, parodying a decadent aristocracy. The first act takes place in a hall full of portraits of nobles and with a huge bed on one side. Much of the action is spent on or around the bed. There is a corridor with passage to several other rooms, from which you can only see the access and the huge doors.
In the second act, the walls are lined with Greek paintings and at the beginning there are 2 huge cannons on the stage. Herr von Faninal, Sophie's father is a gun dealer. The people are all armed with rifles and pistols.
The third act takes place in a brothel owned by a man who appears as a transvesti, with the walls covered with pictures of naked women. There is an interesting visual effect when behind them exotic dancers appear at certain times. Despite the burlesque atmosphere, the final scene is of beautiful effect.

Maestro Sebastian Weigle gave us a very correct interpretation, according to the score and the music of Strauss. The Orchestra was at the highest level.

Octavian by mezzo Elina Garanca was unsurpassed. Her voice is exceptional and the stage performance impeccable, although in the 3rd act she appears dressed like a transvesti that makes the situation excessively ridiculous, although it happens in a brothel. But the two times that she appears disguised as Mariandel she is brilliant and always very comical. In total contrast, in the second act, when presenting the silver rose to Sophie, she has a vocal performance of great emotion and beauty, as in the final trio.

The Marschallin of soprano Renée Fleming appeared always magnificent on stage, the voice maintains great quality, is a creamy and agile soprano, but the personage deserved a little more introspection that did not exist. The confrontation with the inevitable aging and the natural evolution of life did not have great expressiveness. Only in the final trio she was more emotional.

Baron Ochs of bass Günther Groissböck was another outstanding performer. The singer has a beautiful voice, always in tune and well audible throughout his long performance. On stage he was very humorous, the staging also helped, but his age not so much. He is very young for the role (he is 40 years old), which did not jeopardize his interpretive quality but forced him to prepare every detail of his interpretation so that he did not lose the desirable comedy. And he got it.

The Italian singer was tenor Matthew Polenzani who sang in tune but his timbre was strange.

Baritone Markus Brück made a very credible Herr von Faninal, always well audible and with good stage presence.

Soprano Kathleen Kim was also fantastic as Sophie. She was always well on her high soprano, in perfect counterpoint with Garanca.


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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O CAVALEIRO DA ROSA / DER ROSENKAVALIER, Royal Opera House, Londres / London, Janeiro / January 2017

(text in English below)

 O Wagner_fanatic assistiu recentemente a uma récita da ópera O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss, na Royal Opera House de Londres. Aqui ficam os seus comentários:

Voltei ontem a Londres, 37 meses depois, para o adeus da Renée Fleming a Covent Garden. Por isso a noite foi de relevância grande para o mundo da Ópera.

Fiquei em choque quando cheguei e apanhei aquelas alterações todas no átrio. Confesso que me senti triste porque parecia que aquela já não era a minha Royal Opera... Mas o importante é que tudo o resto se mantém relativamente igual, principalmente a mantida certeza de que sempre que lá se vê Ópera, se vê do melhor que se pode ver.

E que noite excelente! A nova produção do Carsen está um pouco deslocada para a frente no Tempo mas é clássica, com um guarda roupa fenomenal e de grande estilo. Acho que o terceiro acto funcionou muito melhor do que o que habitualmente se vê em outras encenações (incluindo as clássicas) - a estalagem onde o Barão Ochs janta (e planeia o resto que sabemos) com um Octavian disfarçado de criada da Maria Teresa é uma casa de prostituição e em vez de termos esqueletos ou fantasmas a causar-lhe pseudo-alucinações de medo, aqui as escolhas cénicas são mais leves, interessantes e cómicas.


Do ponto de vista da Orquestra, o Andris Nelsons (que está cada vez mais gordo) foi simplesmente brutal. Só lamento que o meu lugar tenha sido na 2ª fila do Stalls Circle, não pela visão que é excelente mas porque alguns pormenores orquestrais perdem a homogeneidade sonora de "todo" ao sobressaírem mais.


A Renée Fleming esteve deslumbrante. Além da sua superlativa interpretação musical e emotiva, a presença em palco, com os vestidos que a produção oferece, realçam a sua ainda beleza da maturidade dos 56 anos. A sua saída de cena no final do primeiro acto em linha recta do centro do palco para o fundo, passando pelas diversas portas do palácio e com a simplesmente perfeita contribuição orquestral para o momento (sem falhas nas entradas ou na dinâmica), foi um momento de arrepiar.






A Alice Coote entrou um pouco contida na voz mas abriu para uma interpretação também fenomenal. A sua acção cénica no 3º acto foi magnífica.


Sophie Bevan foi uma Sophie de arrasar, na minha opinião. A cena da apresentação da Rosa foi, mais uma vez, de arrepiar. Aqueles agudos que caracterizam a sua intervenção nesta passagem foram de uma precisão irrepreensível, com estabilidade ao longo da frase e confesso que me emocionei porque são raras as vezes que alguém consegue este feito (mesmo em gravações). Senti aquela emoção de início rápido que é um misto de consciencialização de que estamos mesmo ali, a ouvir algo que achamos perfeito e onde culmina tudo o que se fez para chegar ali (levantar cedo, o voo a partir às 6h30, a vigilidade forte para vencer o sono de uma semana de trabalho e pouco descanso, a sensação de estarmos vivos!).


Matthew Rose foi um Ochs divinal. Quando entrou parece que marcou o início de uma récita memorável. Até então, e como disse em relação à Coote, achei que se estavam a retrair um pouco em termos de potência de voz. A entrada de Rose, marcou a viragem em intensidade vocal. Acho que vai ser um dos melhores neste papel por muito anos. Tem o porte, tem a classe da voz e a facilidade cénica.


Outros pontos altos: O papel de tenor (Giorgio Berrugi) foi por um cantor que não conheço mas... que voz!!! 



E sempre que houve canto em dueto ou terceto, conseguia-se ouvir cada uma das vozes, sem supremacia de uma ou de outra, em perfeita harmonia de intensidade com a orquestra. O que, no fundo, é o que define a qualidade nestas passagens.







Straussamazing!



DER ROSENKAVALIER, Royal Opera House, London, January 2017

I returned to London yesterday, 37 months later, for Renée Fleming's farewell to Covent Garden. So the night was of great relevance to the world of Opera.

I was shocked when I arrived and picked up all those changes in the lobby. I confess that I felt sad because it seemed that it was no longer my Royal Opera ... But the important thing is that everything else remains relatively the same, especially the certainty that whenever Opera is seen there, one sees the best that can be seen.

And what an excellent night! Carsen's new production is a little off the beaten track in time but it's classic, with a phenomenal and stylish dresses. I think the third act worked much better than what is usually seen in other stagings (including the classic ones) - the inn where Baron Ochs dines (and plans the rest we know) with an Octavian disguised as Maria Teresa's maid is a house of prostitution and instead of having skeletons or ghosts causing pseudo-hallucinations of fear, here the scenic choices are lighter, interesting and comical.

From the Orchestra's point of view, Andris Nelsons (who is getting fatter) was simply brutal. I only regret that my place was in the 2nd row of Stalls Circle, not because of the view that was great but because some orchestral details lose the homogeneity of "everything" when they excel more.

Renée Fleming was stunning. In addition to her superlative musical and emotional interpretation, the presence on stage, with the dresses that the production offers, highlight her still beauty of the maturity of 56 years old. Her exit from the scene at the end of the first act in a straight line from the center of the stage to the background, through the various doors of the palace and with the simply perfect orchestral contribution for the moment (without failures in the entrances or the dynamics), was a chilling moment.

Alice Coote started a little contained in the voice but opened for a terrific interpretation too. Her stage performance in the 3rd act was magnificent.

Sophie Bevan was a Sophie of bashing, in my opinion. The scene of the presentation of the rose was once again shivering. Those top notes that characterize her intervention in this passage were of an impeccable precision, with stability throughout and I confess that I was moved because it is rare that somebody gets this achieved (even in recordings). I felt that quick-onset emotion that is a mixture of awareness that we are right there, hearing something that we think is perfect and that everything that was done to get there compensates (getting up early, the flight at 6:30 am, strong vigilance for win the sleep of a week of work and little rest, the feeling of being alive!).

Matthew Rose was a divine Ochs. When he came in it looks like he marked the beginning of a memorable recital. So far, and as I said about Coote, I thought they were shrinking a bit in terms of voice power. Rose's entry marked the turn in vocal intensity. I think he's going to be one of the best in this role for many years. He has postage, has voice class and scenic facility.


Other highlights: The role of tenor (Giorgio Berrugi) was by a singer I did not know ... what a voice !!! And whenever there was singing in a duet or a trio, one could hear each one of the voices, without supremacy of one or the other, in perfect harmony of intensity with the orchestra. What, in the end, is what defines quality in these passages.


Straussamazing!