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domingo, 12 de junho de 2016

NABUCCO, Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2016 / June 2016

(review in English below)

No Teatro Nacional de São Carlos assistiu-se à representação da ópera Nabucco, de G. Verdi, numa encenação brasileira agradável e intemporal, de André Heller-Lopes, juntando elementos actuais, nomeadamente no vestuário (de Marcelo Marques) com símbolos assírios. Os cenários (de Renato Theobaldo) eram vistosos, dominados por painéis feitos de tubos, pondo em relevo figuras assírias. O momento mais conseguido acontece quando o coro dos escravos hebreus cantam o Va pensiero durante o qual, alguns dos seus elementos, à medida que a música aumenta de intensidade, sobem por uma grade que ocupa a maioria do palco e os aprisiona (a imagem usada para a divulgação da ópera pelo TNSC).


A direcção musical foi de Antonio Pirolli. Por várias vezes houve desencontros na Orquestra Sinfónica Portuguesa e entre esta e os cantores. 


O Coro do Teatro Nacional de São Carlos sob a direcção de Giovanni Andreoli teve uma prestação muito boa, com relevo para o pianíssimo final do famoso Va pensiero.


Passando aos cantores solistas, foi uma tarde gratificante. O barítono espanhol Àngel Òdena foi um Nabucco arrasador, tanto na prestação cénica como vocal. Tem uma voz enorme, muito bonita e expressiva, sempre sobre a orquestra. Foi, de longe, o melhor da tarde e ao nível dos melhores barítonos que se podem ouvir na actualidade. Fantástico!


O grande nome em cartaz foi o soprano Elisabete Matos no papel de Abigaille. Todos esperamos o melhor da nossa compatriota e, mais uma vez, ela fez tudo o que está ao seu alcance para cumprir o que dela se espera. A voz é potente e bem timbrada, embora nem sempre tenha respondido em pleno. Em palco, como habitualmente, ofereceu-nos uma interpretação muito credível.


O baixo Simon Lim foi um Zaccaria de voz grave e agradável, com um bom desempenho cénico. Apenas no registo mais grave perdia alguma qualidade mas, ainda assim, esteve bem.


Maria Luísa de Freitas foi uma Fenena convincente, de voz potente, sempre sobre a orquestra. No registo mais agudo, as notas por vezes saíam mais gritadas que cantadas.


O jovem tenor Carlos Cardoso foi excelente. A interpretação vocal foi muito convincente, voz de timbre bonito e sempre bem audível, sem gritar. Cenicamente esteve também ao mais alto nível, muito ajudado pela sua juventude e boa figura. Foi um dos melhores tenores que se ouviu em São Carlos nos últimos tempos. Esperemos que volte rapidamente.


Nos papéis secundários ouvimos outras boas interpretações. André Henriques foi um Grande Sacerdote com presença, Carla Simões foi excelente (voz muito bonita) como Anna e Pedro Rodrigues foi um Abdallo muito digno e com presença cénica marcante.


Um espectáculo muito bom a encerrar a temporada de ópera do Teatro de São Carlos







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NABUCCO, Teatro São Carlos, Lisbon, June 2016

In Teatro Nacional de São Carlos one could see the opera Nabucco by G. Verdi, in a pleasant and timeless Brazilian staging by André Heller-Lopes, joining contemporary elements, in particular clothing (by Marcelo Marques) with Assyrian symbols. Scenarios (by Renato Theobaldo) were showy, dominated by panels made of tubes, emphasizing Assyrian figures. The most accomplished moment happened when the chorus of the Hebrew slaves sang Va pensiero during which some of its elements, as the music increases in intensity, go up by a grid that occupies most of the stage and imprisons them (the image used for the announcement of the opera by TNSC).

The musical direction was by Antonio Pirolli. Several times there were dissonances in the Portuguese Symphony Orchestra and, above all, between the orchestra and the singers. The Choir of the Teatro Nacional de São Carlos under the direction of Giovanni Andreoli had a very good performance, with emphasis on the final pianissimo of the famous Va pensiero.

Turning to soloist singers, it was a rewarding afternoon. Spanish baritone Àngel Òdena was an amazing Nabucco, both scenic and vocal. He has a huge voice, very beautiful and expressive, always over the orchestra. He was by far the best of the afternoon and he is at the level of the best baritones that can be heard today. Fantastic!

The big name on display was soprano Elisabete Matos in the role of Abigaille. We all hope the best of our compatriot and, again, she did everything in her power to fulfill what is expected from her. The voice is powerful although not always answering in full. On stage, as usually, she offered us a very credible interpretation.

Bass Simon Lim was a Zaccaria with a pleasant well audible voice, with a good stage performance. Only in the low register he lost some quality but still did well.

Maria Luisa de Freitas was a convincing Fenena, in a strong voice, always over the orchestra. In the top register, the notes sometimes were more shouted than sung.

The young tenor Carlos Cardoso was excellent. The voice was very convincing, beautiful timbre and always well audible without screaming. Scenically he was also at the highest level, greatly helped by his youth and good figure. he was one of the best tenors that sung in São Carlos Theater in recent times. We hope he will come back soon.

In supporting roles there were other good performances. André Henriques was a high priest with presence, Carla Simões was excellent (beautiful voice) as Anna and Pedro Rodrigues was a very worthy and remarkable Abdallo.

A very good performance to close the opera season of the Teatro de São Carlos


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segunda-feira, 13 de maio de 2013

ROMÉO ET JULIETTE de Hector Berlioz — FCG, 9.05.2013


A Sinfonia dramática Roméo et Juliette, op. 17, H.79 de Hector Berlioz (1803-1869) foi apresentada, pela primeira vez, em Novembro de 1839 em Paris sob direcção do próprio compositor. O libreto de Émile Deschamps é baseado no drama homónimo de William Shakespeare.


Trata-se de um dos mais originais e brilhantes trabalhos do compositor que ficou extasiado após assistir a uma versão teatral de Romeu e Julieta em Paris em 1827. A sua composição foi patrocinada com 20.000 francos por Niccoló Paganini, a quem Berlioz dedicaria a obra. Para grande pesar de Berlioz, Paganini viria a falecer em Nice antes de ler a partitura final daquela que, para o francês, era “se me perguntarem qual a minha obra preferida, a minha resposta será a de que partilho a visão da maioria dos artistas: eu prefiro o Adagio (cena de morte) no Roméo et Juliette”. De facto, este Adagio é de uma extrema beleza e altamente imagético: pode ler-se um guião no diálogo entre o clarinete (Julieta) e os violoncelos (Romeu) na cena da morte. A obra serviu, aliás, de inspiração a Richard Wagner para o seu Tristan und Isolde que assistiu à primeira representação, sendo que o próprio Wagner enviou a Berlioz uma cópia da sua ópera com a inscrição “Para o meu caro e grande autor de Roméo et Juliette, do grato autor de Tristão e Isolda”.


A Orquestra Gulbenkian e Coro Gulbenkian apresentaram-se em muito bom nível e notoriamente bem preparados para a interpretação desta longa e difícil obra, muito bem dirigida pelo maestro titular cessante Lawrence Foster. Berlioz disse “que esta obra é extremamente difícil de executar” e acrescentava que só com longos ensaios e artistas de primeira qualidade e com a dedicação que merece uma ópera se atingiria uma boa récita. Creio, pois, ter-se atingido esse nível.


O mezzo-soprano francês Marianne Crebassa foi Juliette. O seu timbre não é especialmente belo ou escuro, mas a sua potência e capacidade de projecção são assinaláveis, e é bastante expressiva. Teve uma prestação de muito bom nível.

O tenor português Carlos Cardoso foi Roméo. A sua voz tem um timbre bonito, mas faltou-lhe alguma potência para se fazer ouvir sobre a orquestra, revelando algumas dificuldades na projecção. Ainda assim, a sua prestação foi de qualidade.

O papel mais interessante e longo da obra é para Frei Laurêncio que foi interpretado pelo baixo-barítono polaco Daniel Kotlinski. O texto que lhe cabe é extenso e de enorme qualidade com uma mensagem forte e exige uma boa capacidade interpretativa. Kotlinski conseguiu-o muito bem com uma voz bem projectada, apesar de algumas dificuldades menores nos graves, mas com agudos fáceis e que se conseguiam ouvir por cima de uma orquestra e coro de grandes dimensões. A interpretação foi, pois, de muito boa qualidade, tendo sido o solista em destaque da noite.


Assistiu-se, assim e uma vez mais, a um excelente espectáculo na FCG, com uma obra pouco interpretada. Uma vez mais o Coro Gulbenkian mostrou a sua qualidade internacional e a Gulbenkian, com a sala com o fundo aberto para o jardim, exibiu um dos mais belos locais para se ouvir música a nível mundial.