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sábado, 12 de setembro de 2015

OS PESCADORES DE PÉROLAS DO THEATRO DA PAZ NA VISÃO DE FERNANDO MEIRELLES



Crítica de Ali Hassan Ayache no blog de ópera e ballet

Escalar o diretor Fernando Meirelles (Cidade de Deus e o Jardineiro Fiel entre outras tantas) para a direção cênica da ópera Os Pescadores de Pérolas de Bizet trás à XIV edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz de Belém do Pará grande relevância nacional. O diretor não se fez de rogado, criou um monte de polêmicas antes da estreia. Especialista na sétima arte postou um vídeo de divulgação nas redes sociais onde tenor e barítono cantam no chuveiro, anunciou em entrevistas que como diretor de ópera se sentia um amador e estagiário.

Diretores de cinema ou teatro comandando espetáculos operísticos nem sempre é um casamento perfeito, existem casos de sucesso e lambanças imperdoáveis. No Brasil Ugo Giorgetti fez uma "Norma" razoável no Theatro São Pedro e Gabriel Vilela fez o pior "Don Carlo" de Verdi de todos os tempos no Municipal de São Paulo. As falas de Meirelles indicavam que tudo podia dar errado, felizmente não foi bem assim.

O nobre diretor fez na ópera o que mais entende, filmes. Usou o recurso em diversos momentos tornando a ópera didática, facilitando a compreensão das cenas. Sua leitura é correta e muitas vezes criativa. A primeira cena, onde a projeção mostra o mar e ao fundo descem do teto pescadores de pérolas é de uma beleza atroz. Seguem-se filmagens e mais filmagens, exagera-se na dose em diversos momentos.


Quem não comete exageros é sua equipe, os cenários de Cassio Amarante, todo em madeira é funcional. Os figurinos de Veronica Julian estiveram compatíveis com o Ceilão e a luz de Joyce Drummond conversa com as cenas dando um realce extra. A coreografia de Marília Araújo leva coro e solistas a cenas impactantes. A impressão que fica é : Fernando Meirelles ficou mais atento aos vídeos e sua equipe se dedicou às cenas de palco e a produção foi pensada para o cinema onde será exibida no próximo dia 15 em diversas salas do país. 

O resultado é visualmente impactante com uma leitura simplista da obra. Quando diretores dizem que não leem críticas e Meirelles é mais um deles, podem acreditar amigos que o contrário é a verdade. As minhas todos leem embora nunca admitam em público.

Miguel Campos Neto é regente da nova geração que começa a ganhar destaque no cenário nacional. Regeu a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz com precisão, o volume e a intensidade musical é operístico destacando todas as melodias de Bizet. Uma boa interpretação da partitura com toda sua intensidade melódica. Derrapadas acontecem em todas as récitas, seus metais se perderam em duas passagens no primeiro ato. 

Vanildo Monteiro consegue com o Coral Lírico sonoridade digna dos melhores coros profissionais do Sudeste. Lembrando que seus coristas são amadores, cantam com intensidade e doação. O equilíbrio entre os naipes e a harmonia vocal foram a constante na apresentação, além de cantarem executaram a coreografia de maneira digna. A galera do Coral Lírico canta com empolgação, como se fosse a última récita de sua vida. 

A ousadia é sempre bem vinda e permeia a direção do festival, ano passado o diretor Mauro Wrona arriscou e inovou ao escalar a novata Gabriela Rossi para o papel de Desdemona da ópera "Otelo" de Verdi. Esse ano não foi diferente chamou a jovem Camila Titinger para o papel de Leila. A moda nos espetáculos operísticos é que o cantor tenha semelhança física do personagem e Camila Titinger é a encarnação viva da personagem Leila. A bela jovem não se intimidou em cantar ao lado de dois veteranos, soltou a voz em agudos brilhantes e líricos. Sua voz tem uma beleza que contrasta com expressividade marcante. Sofreu ao encarar as complexas coloraturas, a jovialidade do timbre e a marcante presença cênica compensaram essa falha.

Fernando Portari é veterano e tarimbado tenor do cenário nacional e internacional, tirou de letra o personagem Nadir em uma voz que explode em agudos potentes.

Leonardo Neiva foi vocalmente explosivo, uniu graves volumosos com médios precisos. Os duetos foram o melhor de sua participação, com Nadir em "Au fond du temple saint" e com Leila "Je fremis, je chancelle" mostrou bela musicalidade em uma atuação cênica louvável. O baixo paraense Andrey Mira fez um Nourabad com voz volumosa e escura, graves explosivos saiam como dinamite dignos de uma divindade. Pena a voz ter perdido esses atributos no terceiro ato.    


A XIV edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz prova a consolidação do mesmo no Estado do Pará e agora como o único e mais importante festival do Norte do país. O que se vê é um teatro sempre lotado e um público ávido e interessado por ópera. Soubemos que a edição do ano que vem homenageará Carlos Gomes, que venham suas melhores óperas. Ganhará o público paraense e o Estado do Pará.


Ali Hassan Ayache viajou à Belém do Pará a convite da direção do XIV Festival de Ópera do Theatro da Paz. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

CAETANO VILELA SALVA UM HOMEM SÓ E AINDAMAR NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO



Crítica de Ali Hassan Ayache do blog Ópera & Ballet

O Theatro Municipal de São Paulo apresentará em 2015 uma temporada repleta de óperas conhecidas do grande público, sendo assim é possível incluir na programação uma ou outra raridade exótica. A direção escolheu duas óperas curtas para sair do lugar comum. Um Homem Só de Camargo Guarnieri e a inédita por essas terras Ainadamar de Osvaldo Golijov. Duas óperas completamente diferentes e que tem em comum a opressão do indivíduo como tema central. De um lado um brasileiro simplório e do outro Frederico Garcia Lorca, homossexual e crítico do fascismo.
   
A composição musical de Um Homem Só de Camargo Guarnieri é banal, não sai do lugar comum, sem impacto e carece de inspiração. Passeia entre trechos românticos do século XIX e tenta ser moderna como no século XX. Não consegue nem uma coisa nem outra. O libreto de Gianfrancesco Guarnieri tem qualidades, mostra as dores e mazelas do Homem Só, embora as cenas não saiam da banalidade. Ainadamar lembra um musical americano melhorado, música de inspiração espanhola, quente e emotiva. O compositor Osvaldo Golijov consegue cores e contrastes dramáticos nas partes agitadas e também em cenas densas. O problema da ópera é a longa duração, um final que parece não terminar. Morre o personagem central e música e libreto continuam com quase meia hora de choro contínuo.
   
Um Homem Só e Ainadamar são excelentes devido a uma pessoa, Caetano Vilela assina a concepção, encenação e iluminação. Trabalha com diversos elementos modernos do teatro, mostrando agilidade e esbanjando criatividade. Em Um Homem Só distorce o cenário fazendo desfilar nele todo tipo de ambiente. A movimentação ágil dos cantores e uma luz que dialoga com as cenas só enriquecem a apresentação. Neurótico e repleto de dramas pessoais, assim é retratado José, um brasileiro simples que vive perdido entre seus dramas pessoais. 



Ainadamar tem menos elementos, um tablado e dez portas são o cenário e mais uma vez a luz é comovente e faz parte das cenas. A leitura de Vilela é repleta de representações, onde o subjetivo toma conta das cenas e provoca a analise do espectador. Um relógio enorme, a lua e papéis que caem e o homem que anda e não vai a lugar algum são cenas que cada indivíduo pode fazer uma leitura pessoal e dizem muito. Vilela é um grande diretor, antenado com o mais moderno teatro em uma leitura que provoca sem perder a essência do texto.
   
As vozes foram no geral eficientes, na ópera Um Homem Só, Rodrigo Esteves mais uma vez arrasou, desfilou qualidades vocais e cênicas para compor o personagem José. O barítono sempre acerta em fazer tipos transtornados, vide seu Iago da ópera Otelo excelentemente composto em Belém e em São Paulo. Luciana Bueno é uma excelente mezzo-soprano, perdi a conta das inúmeras vezes que a vi cantando em alto nível. Como Mariana/Rita e Velha não mostrou o melhor. Sua voz esteve fria e sem o brilho e volume que lhe é característico. Saulo Javan e Miguel Geraldi mantiveram o alto padrão vocal e cênico que lhes é característico nos seis personagens que interpretaram.
   
Ainadamar teve vozes microfonadas, fato esse que torna difícil uma avaliação vocal. Posso afirmar que o volume esteve excessivamente alto para quem sentou nas poltronas próximas ao placo, Marisú Pavon tem uma bela voz, Camila Titinger continua em ascensão vocal e cênica e Carla Cottini esbanja a beleza de sempre. As cenas dançantes mostram coreografias adaptadas à obra com figurinos exagerados. A Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo regida Rodolfo Fischer defendeu a partitura com musicalidade adequada a linguagem da ópera.  

Ali Hassan Ayache
Fotos: Cenas de Ainadamar e Um Homem Só, foto Internet.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

CORTINAS LÍRICAS INOVA EM ESTREIA COM LA CLEMENZA DI TITO NO THEATRO SÃO PEDRO. Crítica de Ali Hassan Ayache no blog de Ópera e Ballet


O mais dinâmico e inovador Teatro de São Paulo, assim se define o Theatro São Pedro. Com um orçamento magrinho sua direção consegue fazer pequenos milagres em um temporada repleta de boas surpresas. A última novidade foi a séria Cortinas Líricas, que apresenta "trechos de grandes óperas, interpretadas por solistas e orquestra sem a participação de coros ou qualquer tipo de movimentação cênica". A definição foi alterada, ao invés do chato senta e levanta dos solistas existe sim uma movimentação cênica, dirigidos por Malú Rangel os solistas se movimentam e expressam sentimentos dos personagens.

O título escolhido para a estreia foi La Clemeza di Tito, composta por Mozart em seu último ano de vida simultaneamente com a ópera A Flauta Mágica e o Réquiem, período pra lá de conturbado na vida do compositor com dívidas e credores batendo na porta e a saúde frágil. Encomendada para a coroação do rei Leopoldo II é um dos últimos resquícios da opera seria. Suas árias ainda expressam um único sentimento do personagem e sua música oscila entre a grande inspiração e a monotonia.

A Orquestra do Theatro São Pedro regida por Marcelo de Jesus conseguiu sonoridade em volume ideal para a sala e andamentos compatíveis com com as árias. O mezzo soprano Andreia Souza cantou Vitellia, sua voz esbanjou potência e volume em um agradável timbre. Pecou em distorcer e forçar os agudos que saem gritados diversas vezes.

Bruno de Sá se intitula sopranista, o papel de Sesto é reservado a um contralto ou mezzo soprano e mais recentemente a um contratenor. Não importa a nomenclatura, o que posso afirmar é que o rapaz canta com técnica elevada em um timbre que consegue coloridos especiais. Sua atuação vocal peca no exagero dos floreios e das coloraturas, quer cantar para arrancar aplausos e mostrar virtuose excessiva. Corre riscos e comete falhas tornando o personagem exagerado vocalmente. Só faltou torcida uniformizada para aplaudi-lo.

Camila Titinger mostra evolução a cada apresentação, aluna da Acadêmia de Ópera do Theatro São Pedro, a jovem e bela moça interpretou Servilia e fez bonito. Voz de soprano lírico com agudos sedutores e consistência em toda a extensão. Gilberto Chaves não se entendeu com o personagem Tito Vespasiano, sua voz esteve em um timbre que não lhe pertence, forçou na cor buscando um timbre escuro e não conseguiu com o material que possuí.

O ano está só começando e o Theatro São Pedro está a pleno vapor, além da temporada de óperas, concertos e a Série Grandes Vozes teremos mais dois títulos da série Cortinas Líricas: a rara Gillaume Tell de Rossini e a exuberante Os Contos de Hoffmann de Offenbach. Cantores brasileiros, alunos da academia e a orquestra em atividade são sinais que todos estão ganhando experiência. Infelizmente na Praça Ramos a legião estrangeira tomou conta e nossos cantores são marginalizados. Ainda bem que temos o Theatro São Pedro. 


Ali Hassan Ayache