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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

L’ENFANT ET LES SORTILÈGES, Teatro de São Carlos, Lisboa, Dezembro de 2017


A ópera de M Ravel L’Enfant et les Sortilèges está em cena no Teatro Nacional de São Carlos, numa encenação de James Bonas com desenho de luz de Rui Monteiro e movimentos coreográficos de Cydney Uffindell-Philips.


É uma fábula em que uma criança rebelde e que não quer estudar é deixada sozinha de castigo no quarto pela mãe. Destrói e maltrata os objetos que a rodeiam, incluindo o relógio de pé alto, a chávena chinesa, a cadeira Luís XV, o bule, o cadeirão e vários animais. Estes adquirem vida e reagem contra a criança que é transportada para o jardim, onde percebe que o amor existe entre todos. Quando um esquilo é ferido, trata-o e fica exausta no chão. Os animais comovem-se com a atitude da criança e levam-na de regresso a casa. A ópera termina com a criança a chamar pela mãe.

(Fotografia / Photo: Jorge Carmona, Antena 2)

Dirigiu com classe a Orquestra Sinfónica Portuguesa a maestrina Joana Carneiro.

(Fotografia / Photo: Jorge Carmona, Antena 2)

Li que houve dificuldades de “ultima hora” na encenação e que não foi possível apresentar a animação que o encenador concebeu no ano anterior para a produção da ópera em Lyon. A orquestra estava colocada sobre o palco, o que me deixou apreensivo logo à partida porque recordei a abordagem idêntica na ópera Turandot no Coliseu (que abriu a temporada) o que só prejudicou o espetáculo.

(Fotografia / Photo: Jorge Carmona, Antena 2)

Felizmente, desta vez foi melhor porque a música é muito diversificada e agradável e ver a orquestra (e a direcção de Joana Carneiro) foi uma mais valia. Também porque os cantores foram aparecendo em vários locais do teatro, muito próximos do público, numa abordagem cénica interessante. A participação do Coro Juvenil de Lisboa foi boa e o Coro do Teatro de São Carlos também cumpriu sem destoar.

(Fotografia / Photo: Jorge Carmona, Antena 2)

O melhor foram os cantores solistas. Todos jovens portugueses, com vozes e interpretações de bom nível. É pena que não apareçam mais vezes em São Carlos noutras produções operáticas. Podemos apreciar a mezzo Raquel Luís, as sopranos Bárbara Barradas, Carolina Figueiredo, Sónia Alcobaça, Carla Caramujo e Ana Franco, o tenor João Pedro Cabral e os barítonos Tiago Matos e Ricardo Panela, a maioria deles encarnando várias personagens.

(Fotografia / Photo: Jorge Carmona, Antena 2)

Não vou fazer uma apreciação de cada um, mas não posso deixar de salientar a excelente interpretação de Ricardo Panela que tem uma voz de grande beleza tímbrica, para mim o melhor da récita e que mereceria ser mais vezes trazido ao nosso teatro de ópera, noutros papéis mais relevantes.

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L'ENFANT ET LES SORTILÈGES, Teatro de São Carlos, Lisbon, December 2017

M Ravel's opera L'Enfant et les Sortilèges is on stage at the Teatro Nacional de São Carlos, Lisbon, in a staging by James Bonas with Rui Monteiro's light drawing and choreographic movements by Cydney Uffindell-Philips.

It is a fable in which a rebellious child who does not want to study is punished left alone in his room by the mother. He destroys and mistreats the objects around him, including the high-top watch, the Chinese cup, the Louis XV chair, the teapot, the high chair and various animals. These acquire life and react against the child who is transported to the garden, where he realizes that love exists among all. When a squirrel is injured, he treats it and gets exhausted on the ground. The animals are moved by the attitude of the child and take him back home. The opera ends with the child calling for his mother.

Joana Carneiro conducted with class the Portuguese Symphony Orchestra.

I read that there were difficulties of "last minute" in the staging and that it was not possible to present the animation that the director conceived the previous year for the production of this opera in Lyon. The orchestra was placed on the stage, which made me apprehensive at the beginning because I remembered the identical approach in the opera Turandot at the Coliseum (which opened the season in Lisbon) which only harmed the performance.
Luckily, this time was better because the music is very diverse and enjoyable and seeing the orchestra (and the direction of Joana Carneiro) was an added value. Also because the singers were appearing in several places of the theater, very close to the public, in an interesting scenic approach. The participation of the Lisbon Youth Choir was good and the São Carlos Theater Choir was also OK.

The best were the soloist singers. All young Portuguese, with good voices and performances. It is unfortunate that they do not appear more often in São Carlos Theater in other operatic productions.
We could appreciate mezzo Raquel Luís, sopranos Bárbara Barradas, Carolina Figueiredo, Sónia Alcobaça, Carla Caramujo and Ana Franco, tenor João Pedro Cabral and baritones Tiago Matos and Ricardo Panela, most of them interpreting several characters.

I will not make an appreciation of each one, but I have to emphasize the excellent performance of Ricardo Panela, whose voice has a beautiful timbre, for me the best of the performance, and that deserves to be more often brought to our opera house, in other most relevant roles.


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terça-feira, 6 de junho de 2017

PETER GRIMES – Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2017



De José António Miranda, mais um texto rigoroso e lúcido, como nos habituou: 

PETER GRIMES   (Benjamin Britten)

Ópera em três Actos, um Prólogo e um Epílogo   (Londres, Sadler’s Wells, 1945)

Libreto de Montagu Slater segundo o poema The Burrough, de George Crabbs

    Direcção musical: Graeme Jenkins
    Encenação: David Alden
    Cenografia: Paul Steinberg
    Roupas: Brigitte Reiffenstuel
    Luz: Adam Silverman
    Coreografia: Maxine Braham
    Responsável pela reposição: Ian Rutherford
    Peter Grimes: John Graham-Hall
    Ellen Orford: Emily Newton
    Balstrode : Jonathan Summers
    Auntie: Rebecca de Pont Davies
    Primeira Sobrinha: Bárbara Barradas
    Segunda Sobrinha: Mariana Castello-Branco
    Bob Boles: James Kryshak
    Swallow: Graeme Danby
    Mrs. Sedley: Maria Luísa de Freitas
    Reverendo Horace Adams: Carlos Guilherme
    Ned Keene: João Merino
    Hobson: Nuno Dias
    Orquestra Sinfónica Portuguesa
    Coro do Teatro Nacional de São Carlos   Dir: Giovanni Andreoli
    Produção: English National Opera ENO (Londres 2013)
    Co-produção: Vlaamse Opera (Gand/Antuérpia); Ópera de Oviedo; Deutsche Oper (Berlim).


A história de Peter Grimes é um exorcismo da opressão: mistura de ode ao carácter opressivo da insularidade britânica cruzado com a natureza também opressiva das pequenas comunidades em relação a tudo o que é diferente. O mar e o álcool são portanto os ingredientes maiores desta tragédia em que tudo se desenrola num contexto de marcada nostalgia cuja poesia intrínseca a música de Britten tão generosamente expõe.

A esta realidade factual David Alden sobrepõe inteligentemente um segundo nível de leitura, supostamente mais profundo. Nesse segundo nível as motivações do inconsciente e os mecanismos ocultos dos personagens e seus contextos são cruamente expostos no quadro conceptual de uma psicanálise de pacotilha.

Mas para o sucesso de uma proposta intelectualmente tão aliciante, aliás atributo frequente do trabalho deste encenador, seria necessário que o trabalho dramatúrgico se traduzisse na criação de um verdadeiro espaço teatral único, que é muito mais do que o simples efeito da manutenção de uma cenografia homogénea e coerente ao longo da obra.

E se é claro que aquela criação poderá ter sido a intenção do encenador, a evidência que nos foi dada é que esta solução cenográfica, que deveria servir para o aprofundamento da vivência dos conflitos e problemas que nos são apresentados no libreto, não resulta sob tal perspectiva.

É certo que estivemos a ver uma produção que nos chega pela mão de Ian Rutherford, e na qual portanto a participação directa do encenador não terá existido. Mas se esta circunstância pode ajudar a justificar alguns problemas menores, ela não chega para explicar o sucedido.


De facto, para a criação de um espaço teatral único seria necessário que tivesse sido conseguida a fusão dos dois níveis de leitura, o realista suportado nas palavras e nas notas da obra escrita, e o fantástico idealmente decorrente da análise desses elementos, pelas opções dramatúrgicas e plásticas da encenação.

Tal não sucedeu porém aqui, e o resultado deste exclusivo trabalho a nível da cenografia fez aparecer no final o conjunto como uma proposta esquizofrénica, em que alguns momentos de intenso realismo, como a cena terminal, contrastam violentamente com outros de perfeito delírio surrealista, sem que seja possível estabelecer entre ambos um nexo de associação ou de causalidade que de algum modo os unifique e lhes confira alguma coerência.

Sinais desta duplicidade são por exemplo os momentos histriónicos do coro, globalmente muito bem trabalhado na excelente coreografia de Maxine Braham, mas deixado a nível individual ao bom critério dos coralistas, disso resultando momentos contraditórios e mesmo ridículos, ou ainda a géstica marionetista das duas sobrinhas nas cenas de realismo, resquícios do seu comportamento nos momentos de desmando surreal.

Como acontece com frequência uma ideia brilhante acaba aqui por ser desbaratada na sua operacionalização devido à ausência de uma unidade conceptual estilística. Trata-se portanto de um problema que é intrínseco a esta proposta global de David Alden, sendo aliás recorrente no percurso profissional deste encenador.

Curiosamente a orquestra demonstrou idêntico comportamento esquizofrénico, desta vez não por culpa da direcção de Graeme Jenkins, muitíssimo empenhada, mas sim como claro resultado da sua impreparação para a tarefa expressiva, consequência da sua inexistência virtual enquanto agrupamento sinfónico.

Não há milagres, e todos sabemos que um conjunto de instrumentistas, mesmo recheado de óptimos executantes, não é sinónimo de uma orquestra. A música de Britten surgiu assim como um puzzle mal montado, em que as várias peças foram justapostas mas sem o cuidado necessário para que as junções se tornem invisíveis ao primeiro olhar: a ondulação do mar, omnipresente no tecido sonoro, esteve ausente.

Se este desempenho não foi problemático na sucessão da diversidade estilística da ópera, e se os momentos de tempestade ou furor puderam soar apesar de tudo aceitáveis, foi deplorável ver como os esforços do director nos momentos de mais intenso lirismo não conseguiram qualquer tradução a nível do som.

Em aparente contraste com este problema, o desempenho global no que respeita às vozes foi um dos pontos positivos do espectáculo.

O coro, quiçá como resultado colateral do trabalho coreográfico que lhe foi exigido, emergiu da rotina funcionária em que tem estado mergulhado e ofereceu-nos alguns momentos de grande qualidade. Quanto aos cantores, deve realçar-se a grande segurança e à vontade de Bárbara Barradas, muito melhor tecnicamente do que em prestações anteriores, e em vias de se tornar uma das principais intérpretes líricas nacionais.

Já no respeitante ao desempenho dramático não poderá dizer-se o mesmo: os gestos estiveram todos lá, mas tudo soou dramaticamente como um postiço, sem profundidade, revelando um trabalho de actores inexistente ou insuficiente.



Em todo o caso porém, e sobretudo por servir para nos revelar de uma forma menos convencional uma obra pouco conhecida entre nós, o espectáculo pode considerar-se como uma pedra positiva no percurso final do desolador jardim da temporada que agora termina.


JAM    06/06/2017

terça-feira, 10 de março de 2015

MACBETH no Teatro Nacional de São Carlos — 27 de Fevereiro e 1 de Março de 2015

(imagens da internet)

Assisti à penúltima e última récitas da ópera Macbeth de Giuseppe Verdi. Trata-se de um ópera estreada em 1847, num dos períodos mais produtivos do compositor, mas, sobretudo, num período de maturação estilística de Verdi, havendo já muito daquele Verdi da trilogia popular (Il Trovatore, Rigoletto e La Traviata). Esta ópera foi, aquando da estreia em Paris em 1865, globalmente revista, sendo essa versão, claramente superior à original, aquela que hoje em dia se representa. Trata-se da primeira obra de Verdi que tem por base um peça do dramaturgo inglês William Shakespeare que foi adaptada pelo seu libretista Francesco Maria Piave. Para o meu gosto pessoal, trata-se de uma das óperas mais entusiasmantes de Verdi, com todo um conjunto de árias de dificuldade muito elevada e com um ritmo alucinante entre cenas.


O texto de Shakespeare é uma trama de crime guiado pela sede de poder e, também, da culpa geradora de uma tremenda angústia que conduz à loucura. Trata-se de uma peça muito rica que foi adaptada com qualidade por Piave, muito embora sem a genialidade do libretista de Otelo e Falstaff — Arrigo Boito. Poderão ler uma sinopse e conjunto de textos interessantes, além do libreto com excelente tradução para português, no programa de sala do TNSC de 2007.


A encenação de Elena Barbalich já era conhecida de parte do público, uma vez que se trata de uma reposição da encenação de Macbeth de 2007. É uma encenação interessante e que permite, de forma extremamente eficaz, o desenrolar da acção atendendo aos pormenores do libreto.


Destaca-se uma circunferência em forma de íris e com 8 partes espelhadas que, ao longo da acção, toma diversos papéis: serve como uma espécie de olho que permite as revelações das bruxas; de mesa aquando do banquete; de caldeirão nas revelações do III acto; torna-se escura e opaca quando os 8 reis empunham, cada um, um espelho; de ligação permanente entre a realidade, a revelação, a loucura e uma metáfora de observação que, no fundo, olha também para nós, elementos do público.


O jogo de luzes entre o vermelho e o branco é interessante, nomeadamente quando Duncano é assassinado: o fundo branco torna-se vermelho e, mais tarde, quando Duncano surge coberto do seu sangue vermelho-vivo, o fundo torna-se branco em contraste. Também são interessantes os flashes de luz branca aquando das revelações, ou o jogo de projecções baças e mal definidas das alucinações.


O vestuário é de época e rico em detalhes. Peca pela direcção de actores no que diz respeito aos solistas. É demasiado estática e não promove o dramatismo.


É, pois, uma encenação bem interessante e agradável de acompanhar e que enriquece a ópera, não tentando ser pretensiosa ao atribuir novos significados à acção. Aliás, comparativamente à nova produção do MET de que aqui se deu conta, creio que esta encenação é muito mais interessante. Não posso concordar com quem ache que se trata de uma encenação destituída de interesse ou qualidade, ou, muito menos!, que se trate de uma encenação obsoleta, indigente ou carente de outros demais adjectivos negativos. Antes pelo contrário!

A Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por Domenico Longo apresentou um nível bom. Foi intensa a espaços e conseguiu criar momentos de dramatismo elevado, com um tempo interessante e, globalmente, favorável aos cantores. Foi, sem atingir o brilhantismo, uma interpretação de qualidade.

A ópera tem, como personagens principais, Macbeth — homem ambicioso e manipulável, com pouco recursos para lidar com a ambivalência que lhe geram os seus desejos e os seu actos —, Lady Macbeth — mulher implacável, perturbada, sem escrúpulos e com uma sede de poder que deixaria Maquiavél envergonhado —, e as Bruxas — elemento central do desenrolar da acção e  que lhe introduz sentido mágico.


Macbeth foi interpretado pelo barítono Àngel Òdena. Dotado de uma voz bem timbrada e agradável e dono de bons recursos dramáticos, foi um Macbeth convincente. Terminou em plano muito elevado na sua ária Pietà, rispetto, amore. É verdade que, cenicamente, não foi extraordinário, mas creio que esteve algo diminuído pela direcção de actores que, inclusive, o obrigou a um exercício acrobático e algo perigoso, ao fazê-lo subir uma cadeira muito alta envolto no seu manto comprido. Foi, apesar disso e no meu entender, o melhor da noite e um Macbeth de elevado nível vocal.


Lady Macbeth foi Elisabete Matos. Dotada de uma voz poderosa, metálica e de ampla tessitura, esperava-se uma Lady Macbeth de nível muito elevado. Cenicamente apenas cumpriu, não conseguindo passar a imagem de mulher perturbadamente sedenta de poder a qualquer custo, talvez pela sua postura demasiado estática. Vocalmente, cumpriu sem deslumbrar, o que muito se deveu à forma estranha como finalizava as notas mais agudas, a tendência para a estridência e à dificuldade em imprimir lirismo ao seu fraseado. Assim, quer em Vieni! t’affretta e La luce langue esteve longe de brilhar e perto de desiludir. Na famosa ária da loucura Una macchia è qui tuttora estava em melhor plano (foi mesmo, globalmente, a sua melhor ária) até que falhou, por completo, o pianissimo final ao dizer Andiam, o que, infelizmente, foi a imagem que ficou. Disseram-me que estava doente, pelo que, se assim for, se desculpa e se agradece o esforço.

O Coro do TNSC esteve, nas suas várias intervenções, num plano razoável, tendo, sobretudo no coro inicial, apresentado alguns elementos desencontrados dos restantes e com recurso frequente à estridência.

O Banquo de Giacomo Prestia deslumbrou com a sua voz potente e bem colocada que, dada a curta extensão do papel, não o permitiu brilhar mais. Esteve muito bem na sua ária Studia il passo, o mio figlio!

Macduff foi o tenor Enzo Peroni que, com uma voz relativamente pequena, baça e sem brilho vivo, cumpriu sem encanto o seu curto papel, nomeadamente na ária O figli, o figli miei!

Destaco a interpretação de Bárbara Barradas que, apesar do curto papel, conseguiu brilhar nas suas intervenções, tendo estado particularmente bem nos coros finais do 1.º acto (nomeadamente no quarteto que canta a morte de Duncano) e 2.º acto com uns agudos que sobressaiam sobre a orquestra, bem como no 4.º acto. Concordo com a opinião de J.A. Miranda quando afirma que esta — e do que vi sobretudo na récita de 27 (na última esteve mais comedida) — parecia estar numa competição para demonstrar  estar preparada para ser, ela própria, a diva. Ainda assim, dada a qualidade que evidenciou, fiquei muito agradado. Aliás, Bárbara Barradas, pelas suas recentes excelentes interpretações no Il Viaggio a Reims e como Barbarina no Le Nozze di Figaro da FCG, está há muito a pedir papéis de maior relevo e destaque!

Os restantes elementos foram competentes e eficazes, nomeadamente o Malcolm de Marco Alves dos Santos.


Foram, no cômputo geral, duas récitas homogéneas e agradáveis no TNSC. Nesta temporada, apesar do baixo orçamento, o São Carlos tem revelado vontade de retomar alguma da qualidade de outros tempos. Não posso, pois, concordar com opiniões tendentes a que o TNSC tenha apresentado um espectáculo medíocre. Posso concordar, isso sim e infelizmente, que parece haver uma nuvem negra sobre o futuro deste teatro. Entra director, sai director. Não anuncia o substituto. Logo não anuncia temporada. Antes se prenuncia a falta dela. Mas, entretanto, só há vazio e a incerteza. E fica seguramente o descrédito das entidades ligadas à cultura (ou falta dela) que a gerem. Fica a inépcia do Secretaria de Estado da Cultura. A cultura — a maior riqueza de um povo e aquilo que o faz perdurar e unir-se — reduzida a uma secretaria de estado sem expressão é, desde logo, sintomático da avareza intelectual dos nossos "dirigentes"... Assim, lentamente e, como diria Eça, "num galopezinho muito a direito e muito seguro", assiste-se ao cortejo fúnebre e lento do TNSC, não sem que se vislumbrem raros laivos de vida, aliás como acontece nos estertores da morte... E isso é lamentável!