Mostrar mensagens com a etiqueta Edita Gruberova. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Edita Gruberova. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de julho de 2013

LUCREZIA BORGIA, Deutsche Oper, Berlim, Abril 2013

(review in english below)

Lucrezia Borgia, ópera de G. Donizetti, foi-nos oferecida pela Deutsche Oper em versão concerto. Juntaram quatro solistas excepcionais e, por isso, assistimos a um espectáculo inesquecível.

A Orquestra e o Coro da Deutsche Oper foram dirigidos pelo maestro Andriy Yurkevych.


A grande atracção do espectáculo foi Edita Gruberova que interpretou a Lucrezia Borgia. Só ela teria valido o espectáculo, mas houve muito mais. Gruberova mantém uma capacidade interpretativa, vocal e cénica, absolutamente invulgares. A cantora está a caminho dos 70 anos mas continua a ser uma das melhores intérpretes de belcanto da actualidade. Foi extraordinária e acho que ninguém conseguiria fazer melhor o papel. Os pianissimi são fabulosos, as notas mais agudas continuam estratosféricas, poderosas e perfeitamente afinadas. O público assim o reconheceu e, no final, foi chamada ao palco várias vezes, sempre sob uma intensidade de aplausos invulgar nos dias de hoje.
Edita Gruberova é um raro exemplo de longevidade canora na plenitude das suas qualidades, só igualada por Plácido Domingo nos dias que correm.


 Mas os restantes solistas foram também excelentes:

O tenor eslovaco Pavel Breslik foi um Gennaro irrepreensível e, pela primeira vez, fiquei totalmente convencido das suas capacidades vocais. É um papel que interpreta há vários anos mas fá-lo ao mais alto nível.


Verdadeiramente excepcional foi o baixo barítono italiano Alex Esposito como Don Alfonso. O cantor foi arrasador. Tem uma voz enorme, belíssima e sempre afinada. A figura é também óptima, o que deixa adivinhar uma interpretação cénica marcante. Uma total revelação para mim e um cantor que tentarei acompanhar.


Maffio Orsini foi interpretado, de forma superior, pelo mezzo eslovaco Jana Kurucová. Outra grande interpretação, a ajudar ao sucesso da récita.


Os papeis secundários estiveram a cargo de Andrew Williams, Seth Carico, Jörg Schörner, Simon Pauly, Álvaro Zambrano, Tobias Keher e Paul Kaufmann e, não destuaram.




Uma Lucrezia Borgia excepcional, que foi pena não ter sido em versão encenada.

*****



Lucrezia Borgia, Deutsche Oper, Berlin, April 2013

Lucrezia Borgia,opera by G. Donizetti was offered to us by the Deutsche Oper in concert version. It joined four exceptional soloists and therefore we witnessed an unforgettable concert.

The Orchestra and Chorus of the Deutsche Oper were directed by conductor Andriy Yurkevych.

The major attraction of the concert was Edita Gruberova who played Lucrezia Borgia. Only she would have justified the performance, but there was more. Gruberova maintains an absolutely unusual interpretive capacity, vocal and artistic. The singer is on the way to 70 years but she is still one of the best interpreters of belcanto of our times. She was extraordinary and I think nobody could do a better job. The pianissimi are fabulous, the high notes are still stratospheric, powerful and perfectly tuned. The public well recognized it and, in the end, she was called to the stage several times, always under an intensity of applause, unusual these days.
Edita Gruberova is a rare example of longevity in all of her qualities, matched only by Placido Domingo these days.

 But the remaining soloists were also excellent:

Tenor Pavel Breslik was a blameless Gennaro. For the first time I was totally convinced of his vocal abilities. It's a role he plays for several years but he does so at the highest level.

Truly exceptional was bass baritone Alex Esposito as Don Alfonso. The singer was astonishing. He has a huge voice, beautiful and always in tune. His figure is also excellent, which helps him in a striking artistic interpretation. A complete revelation to me and I will try to follow this singer.

Maffio Orsini was fantastically interpreted by mezzo Jana Kurucová. Another great interpretation to help the success of the concert.

The secondary roles were given to Andrew Williams, Seth Carico, Jörg Schörner, Simon Pauly, Álvaro Zambrano, Tobias Keher and Paul Kaufmann and all them were good.

An exceptional Lucrezia Borgia, which was a pity to be in concert version, not staged version.

*****

quarta-feira, 13 de abril de 2011

LUCREZIA BORGIA, Bayerische Staatsoper, Munique, Abril de 2011


















(Este foi o único cartaz com que a Bayerische Staatsoper anunciou espectáculo!)
(This was the only poster used by the Bayerische Staatsoper announcing the opera!)

(Review in English below)

Lucrezia Borgia é uma ópera de Gaetano Donizetti com libreto de Felice Romani, segundo Lucrèce Borgia de Victor Hugo.

Lucrezia Borgia, uma mulher conhecedora de venenos, adúltera e assassina, faz o que pode para viver com uma imagem como concebida pelos homens e empenha-se em encontrar novas identidades. O seu filho Gennaro encanta-se por ela à primeira vista, sem saber que é sua mãe. O círculo de amigos denigre o seu nome. Don Alonso, marido de Lucrezia, convencido que Gennaro é seu rival, decide matá-lo, envenenando-o. Contudo, é salvo por Lucrezia que lhe dá um antídoto. Mais tarde são todos envenenados por ela uma segunda vez. Quando Lucrezia se apercebe que o filho está no grupo dos homens envenenados, confessa-lhe que é sua mãe e oferece-lhe novamente o antídoto. Ele recusa e morre também.

A encenação, de Christof Loy, é moderna e simples. O palco está despido e tem em fundo o nome LUCREZIA BORGIA que, com o desenrolar da acção, vai desaparecendo pela esquerda, muito lentamente, sem que antes Genaro arranque o B de Borgia, ficando ORGIA, com as conotações da nova palavra também constantes do libretto. De resto, umas cadeiras simples, ocasionalmente uma mesita e pouco mais. Mas, sem deslumbrar, funciona.


(Some photos are from Bayerische Staatsoper website or programme)


O maestro foi o italiano Paolo Arrivabeni.

O dificílimo papel de Lucrezia Borgia foi interpretado pelo soprano eslovaco Edita Gruberova. Apesar da presença de vários cantores de elevada qualidade, diria que Edita Gruberova é, quase 200 anos depois de o compositor ter escrito a obra, a Lucrezia Borgia de Donizetti. A voz é bela, os pianíssimos são de uma qualidade, frequência e altura inultrapassáveis, o legato perfeito e a coloratura sublime.

Na sua cena inicial Com’è bello! Qualle incanto, no prólogo, consegue transmitir uma afectividade tocante, em total contraste com cenas posteriores. No 2º acto em que Gennaro está prestes a apunhalá-la, depois de cantar uma nota sobreaguda em fortíssimo, faz um momento de silêncio e diz num registo grave un Borgia sei!. O efeito cénico é arrepiante e o diálogo seguinte, com Gennaro, transborda tristeza. Depois da morte do filho, transmite de forma marcante dor e culpa na ária Era desso il figlio mio. Termina expressando raiva e revolta, numa sequência alucinante de cascatas de notas graves a sobre-agudas, finalizando com uma prolongada nota estratosférica (penso que um mi sobreagudo) em fortíssimo. Avassaladora!























Gennaro foi interpretado pelo jovem tenor norte-americano Charles Castronovo. O papel é exigente e extenso. Castronovo (que nunca tinha visto ao vivo) deu-nos uma interpretação marcante. A voz é encorpada e de grande beleza tímbrica. O artista tem uma excelente presença em palco. Pertence à nova geração de cantores que, nas suas apresentações, junta a representação ao canto, com grande efeito tanto para o espectáculo como para o público.



Don Alfonso foi interpretado pelo baixo-barítono canadiano John Relyea. Possuidor de uma voz grande, bonita e expressiva, a presença em palco foi também muito boa. Foi mais um grande artista da noite, não deixando por mãos alheias a representação da personagem.

A jovem mezzo-soprano de coloratura espanhola Sílvia Tro Santafé foi um Maffio Orsini, amigo de Gennaro, de excepcional qualidade. O papel, aparentemente secundário, é enorme e a artista teve garra e presença para o colocar sempre no centro da acção. Ofereceu-nos uma voz cheia, escura e quente, de grande extensão e beleza. A presença cénica esteve ao mais alto nível. Apesar da figura franzina, foi outra das grandes da noite.

Terminada a ópera, o público aplaudiu como nunca havia visto na Alemanha. Exuberante e de forma efusiva, com gritos de bravo e outras expressões, sobretudo dirigidos a Edita Gruberova. A cantora teve que voltar ao palco inúmeras vezes.




Existe uma gravação recente desta produção com Edita Gruberova.




Houve magia nesta noite gloriosa de ópera em Munique!

*****



Lucrezia Borgia, Bayerische Staatsoper, Munich, April 2011

Lucrezia Borgia is an opera by Gaetano Donizetti with libretto by Felice Romani, according to Victor Hugo's Lucrèce Borgia.

Lucrezia Borgia, an adulterous assassin woman knowledgeable of poisons, does what she can to live with an image as conceived by men, and strives to find new identities. His son Gennaro was well impressed by her at first sight, not knowing that she is his mother. His circle of friends reject and say the worst about her. Don Alonso, Lucrezia's husband, is convinced that Gennaro is his rival and decides to kill him by poisoning him. However, he is saved by Lucrezia that gives him an antidote. Later they are all poisoned by her a second time. When Lucrezia realizes that her son is poisoned within the male group, she confesses to him that she is her mother and gives him the antidote again. He refuses and dies.

The staging by Christof Loy is modern and simple. The stage is empty and has written in the background the name LUCREZIA BORGIA that, along the performance disappears very slowly by the left side. Prior Gennaro destroys the B of Borgia, getting ORGIA, with the connotations of the word also contained in the libretto. Simple chairs and occasionally a small table complete the scenary.. But, without a great scenic impact, it works.

The conductor was Italian Paolo Arrivabene.

The difficult role of Lucrezia Borgia was interpreted by the Slovak soprano Edita Gruberova. Despite the presence of several high-quality singers, Edita Gruberova, almost 200 years after the composer had written the piece, is Donizetti's Lucrezia Borgia. The voice is beautiful, the frequent pianissimi are of an exquisite quality, associated to a perfect legato and sublime coloratura.

In its opening scene Com'è bello! Qualle incanto in the prologue, she transmits a kind affection, in stark contrast to later scenes. In Act 2 in which Gennaro is about to stab her, after singing a top note in fortissimi, a moment of silence comes and then she says in low register un Borgia sei!. The scenic effect is amazing and the following dialog, with Gennaro, overflows with sorrow. After the death of her son, she transmits markedly pain and guilt in the aria Era desso il figlio mio. She ends the opera expressing anger and outrage in an impressive sequence of low to top notes, finishing with a prolonged stratospheric note in fortissimi. Overwhelming!

Gennaro was interpreted by American young tenor Charles Castronovo. The role is demanding and long. Castronovo (who I had never seen live) gave us a remarkable interpretation. The voice is full-bodied and has a beautiful timbre. The artist has a great stage presence. He belongs to the new generation of opera singers who, in their presentations, joint artistic acting to singing, with an excellent effect both for the performance and the audience.

Don Alfonso was sung by Canadian bass-baritone John Relyea. A great voice, beautiful and expressive, and also very good acting. He was another great artist of the night.

The young Spanish coloratura mezzo-soprano Silvia Tro Santafe was a Maffio Orsini, friend of Gennaro, of exceptional quality. The role is remarkable and the artist had the strength and presence to always be in the center of the action. She offered us a full voice, dark and warm, with great beauty and length. Artistically she was also excellent.

After the opera, the audience applauded as I had never seen in Germany. Exuberant and effusive applauses, with shouts of bravo and other expressions, mainly directed at Edita Gruberova. The singer had to come to the stage numerous times.

There is a recent recording of this production with Edita Gruberova

There was magic in this glorious night at the opera in Munich!

*****

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ANNA BOLENA – Liceu, Barcelona, Janeiro de 2011

(Review in English below)

Uma Anna Bolena de ouro no Liceu de Barcelona!

Anna Bolena é uma ópera de Gaetano Donizetti, com libreto de Felice Romani, sobre a condenação à morte por Henrique VIII de Ana Bolena, sua segunda mulher, para se casar com Jane Seymour.


Em Windsor, Jane Seymour (Giovanna) sente-se culpada por manter um romance com o rei Henrique VIII (Enrico). Este diz-lhe que irão casar-se em breve. Ana Bolenna (Anna), rainha e segunda mulher de Henrique VIII, pede a Smeton (um músico da corte que está secretamente apaixonado por ela) uma canção que a faça lembrar Lord Percy, o seu primeiro amor, exilado pelo rei. O rei quer incriminar Percy como amante da rainha e manda-o regressar. Percy tenta suicidar-se depois de reafirmar o seu amor a Anna e esta o rejeitar. Quem o detém é Smeton que tinha consigo um retrato de Anna, que deixa inadvertidamente cair e que serve de pretexto para o rei afirmar a traição. Presa na torre de Londres, Anna tem um confronto com Giovanna em que esta lhe confessa que é ela a nova amante do rei e será a futura rainha. Depois da condenação, Anna perdoa-a, culpando apenas o rei. Os pedidos de Percy e de Giovanna para salvar Anna são ignorados pelo rei. Enquanto aguarda a execução, Anna recorda o seu primeiro amor, alternando momentos de lucidez e de delírio. O terceiro casamento do rei é anunciado e Anna é morta.

Anna Bolena foi a ópera representada na inauguração do Gran Teatre del Liceu em Barcelona em 17 de Abril de 1847.


A encenação do espanhol Rafael Duran é intemporal, simples e eficaz. O cenário, algo minimalista, tem 3 patamares, unidos por uma grande escadaria central. A cor dominante, chão e paredes, é o dourado, a condizer com a beleza da sala. Durante o espectáculo, os níveis mais elevados por vezes são cobertos por um painel de ripas de madeira, que desce, no qual são projectadas imagens que também se vêem no nível mais baixo em dois conjuntos de quatro grandes ecrans situados em cada lado do cenário, onde se projecta a acção em palco vista de quatro ângulos diferentes. Como nos sistemas de vigilância actuais, tudo pode ser controlado a partir deles (e o rei fá-lo explicitamente no 1º acto) mas, quando o rei está com a amante Giovanna, a sua privacidade é garantida porque passam a ser projectadas imagens de peixes num lago.

(Algumas fotografias são do site do Liceu, Barcelona)


A contrastar com o dourado do palco e dos vestidos das protagonistas estão omnipresentes, desde o início, vários corvos negros (máscaras inspiradas no surrealista Max Ernst), numa alusão à Torre de Londres (e ao 1984 de Orwell) onde Anna irá ser decapitada. O efeito cénico é fantástico. Ao longo da récita aparecem também vários cães (estes verdadeiros) pela mão de caçadores, trajados a rigor.
Na cena final, o dourado do palco dá lugar às grades negras do cárcere de Anna, com os elementos do coro também de negro, noutro momento cénico de belo efeito.










O coro esteve bem e a orquestra teve uma boa prestação, dirigida pelo maestro ucraniano Andriy Yurkevych, que foi vaiado no final, não tendo eu entendido porquê.

Anna Bolena foi interpretada pelo soprano eslovaco Edita Gruberova. É uma cantora ímpar que só tem paralelo em Plácido Domingo se considerarmos a associação longevidade - qualidade vocal. A senhora tem 64 anos mas continua a cantar estes papéis dificílimos com um assombro estarrecedor. Não concordo com os que dizem que a voz está danificada pela idade. No registo mais grave não tem (nunca teve) uma voz marcante, mas não é por essas curtas notas que a vamos ouvir. Nos agudos e sobreagudos a voz é imaculada e de potência e beleza assombrosas. Sempre audível sobre a orquestra, a coloratura é fantástica e os pianissimi são do outro mundo. Há ainda a salientar a óptima interpretação dramática da personagem.

Na ária Al dolce guidami, de uma beleza interpretativa arrepiante, ofereceu-nos cascatas de notas agudas que parecem inatingíveis à voz humana e levou o público ao delírio, com uma estrondosa ovação recheada de bravos e outras manifestações de agrado de vários minutos, como raramente assisti ao vivo. E, no final, já depois dos agradecimentos, à chamada constante do público, voltou várias vezes ao palco, onde foi presenteada com chuvas de flores. Uma diva também no Liceu.


(Edita Gruberova)

E se a Gruberova foi assim, o mezzo-soprano letão Elina Garanca foi responsável por outra interpretação, de Giovanna Seymour, absolutamente excepcional. Desde que a ouvi como Romeu em I Capuleti e i Montecchi tornei-me um admirador incondicional e nunca me decepcionou.
A voz é poderosa e de uma beleza e musicalidade invulgares. A técnica é exímia e, no belcanto, é prodigiosa. A figura, bela, alta e loira, ajuda muito. Fez uma Giovanna apaixonada mas corroída pelo remorso perante a rainha.
O dueto com Gruberova no início do 2º acto O mia Regina! foi emocionante e inesquecível, com as duas cantoras a levarem a um nível superlativo as suas qualidades cénicas e vocais.

(Elina Garanca)

Já escrevi anteriormente neste blogue que não gosto da voz de José Bros, tenor catalão, que interpretou Percy. Mantenho essa opinião apesar de ter assistido aqui à sua melhor interpretação. Mas a voz é muito fina, pouco ágil e o cantor parece que canta com a boca fechada. Não soa bem e, cenicamente, também não lhe reconheço grande desempenho. Estava em casa (é de Barcelona) e foi muito aplaudido, mas continua sem me convencer.

Carlo Colombara, baixo italiano, foi Enrico. Seguro na voz e credível como rei tirano, não tem uma potência equiparável às duas protagonistas, mas não deixou de se ouvir e manteve a qualidade ao longo da récita.

O contralto italiano Sonia Prina deu boa conta no papel de Smeton. A voz é bem timbrada, firme e cheia.



Mais um excelente espectáculo em Barcelona, um daqueles em que a magia da ópera se sentiu em pleno! Recomenda-se vivamente!
*****



ANNA BOLENA – Liceu, Barcelona, Janeiro de 2011
A golden Anna Bolena at the Liceu in Barcelona!

Anna Bolena is an opera by Gaetano Donizetti, libretto by Felice Romani, on the sentencing to death by Henry VIII to Anna Bolena, his second wife, to marry Jane Seymour.

In Windsor, Jane Seymour (Giovanna) feels guilty for keeping an affair with King Henry VIII (Enrico). He tells her that they will marry soon. Anna Bolena (Anna), the Queen and the second wife of Henry VIII asks Smeton (a court musician who is secretly in love with her) to play a song that reminds her of Lord Percy, her first love, exiled by the king. The king wants to incriminate Percy as the Queen's lover and orders his return. Percy tries to kill himself after reaffirming his love for Anna as she rejects him. Smeton avoids it and drops a picture of Anna, what serves as a pretext to assert the king's betrayal. Stuck in the Tower of London, Anna has a confrontation with Giovanna in that she confesses that she is the new mistress of the king and that she will be queen in the future. After a confrontation, Anna forgives her, blaming only the king. Requests from Percy and Giovanna to save Anna are ignored by the king. While awaiting execution, Anna recalls her first love, alternating moments of lucidity and delirium. The king's third marriage is announced and Anna is dead.

The opera Anna Bolena was performed at the inauguration of the Gran Teatre del Liceu in Barcelona on April 17, 1847.

The staging of the Spanish Rafael Duran is timeless, simple and effective. The scenario, somehow minimalistic, has three floors, connected by a large central staircase. The dominant colour, floor and walls, is golden yellow, matching the beauty of the room. During the performance, the higher floors are sometimes covered by a panel of wooden strips, which descends, and in which images are projected that are also projected at the lowest floor in two sets of four large screens situated on each side of the scenario, where the action on stage is projected from four different angles. As modern security systems, everything can be controlled from them (and the king does it explicitly in the 1st act), but when the king is with his mistress Giovanna, his privacy is assured since the projected images change to golden fish in a lake.
In contrast with the golden stage and the dresses of the actresses, everywhere, from the beginning, several black crows are always present (masks inspired by the surrealist Max Ernst), alluding to the Tower of London (and Orwell's 1984) where Anna will be beheaded . The scenic effect is fantastic. Throughout the performance, several dogs (these live ones) also appear by the hand of hunters, dressed accordingly. In the final scene, the golden stage gives way to the bars of the black prison where Anna is, with the elements of the choir also in black, another moment of beautiful scenic effect.

The choir and the orchestra had a good performance, conducted by Ukrainian maestro Andriy Yurkevych, who was booed at the end, I did not understand why.

Anna was interpreted by the Slovak soprano Edita Gruberova. She is a unique singer that is only comparable to Placido Domingo considering the association longevity – quality of voice. The lady is 64 but still sings these extremely difficult roles with an astonishing quality. I do not agree with those who say that her voice is damaged by age. In the lower notes she does not have a remarkable voice (she never had), but we do not go to hear her for those short notes. In the high and extreme high register, her voice is divine and of breathtaking beauty and power. Always audible over the orchestra, the coloratura is fantastic and the pianissimi are above human capacities. I also highlight the great dramatic interpretation of the character.
In the aria Al dolce guidami , she offered us a beautiful interpretation, with cascades of top notes that seem unattainable to the human voice. The audience became wild with a thunderous ovation filled with bravos and other expressions of satisfaction during several minutes, something that I rarely watched live. And in the end, after curtain calls were over, responding to the constant call of the public, she returned repeatedly to the stage where she was presented with lots of flowers. A Diva also in the Liceu.

And if Gruberova was as I described, Latvian mezzo-soprano Elina Garanca was responsible for another absolutely exceptional interpretation, as Giovanna Seymour. Since I heard her as Romeo in I Capuleti e i Montecchi I became an unconditional admirer and she never disappointed me.
The voice is powerful and of unusual beauty and musicality. The technique excels and in belcanto, she is prodigious. The figure, tall, beautiful and blonde, helps a lot. She played a passionate Giovanna consumed by remorse before the queen The duet with Gruberova at the beginning of Act 2 O mia Regina! was exciting and unforgettable, with the two singers bringing to a superlative level their artistic and vocal qualities.

I've written before in this blog that I do not like the voice of José Bros, a Catalan tenor, who played Percy. I maintain that opinion despite having seen his best performance here. But his voice is very thin, not flexible and the singer seems to sing with the mouth closed. He does not sound attractive, and artistically, he is not also a great performer. He was at home (he is from Barcelona) and was much applauded, but he still did not convince me.

Carlo Colombara Italian bass, was Enrico. He showed a steady voice and he was artistically credible as the unfair king, although his voice is not comparable in power to the two protagonists. But he maintained the quality throughout the performance.

Italian contralto Sonia Prina was very good as Smeton. The voice is pleasant, firm and full.

Another excellent performance in Barcelona, one in which the magic of opera was felt in full! I strongly recommend it!

*****

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

La Traviata, com Edita Gruberova - Hamburgische Staatsoper - 12 de Novembro de 2010






























No dia 12 de Novembro de 2010, a Ópera de Hamburgo recebeu uma das maiores cantoras líricas de todos os tempos - Edita Gruberova - que interpretou, alegadamente pela última vez em versão encenada, o papel de Violetta Valéry em La Traviata, de Giuseppe Verdi.

Como sempre, a presença da Primadonna Assoluta levou a que a casa estivesse esgotada, com inúmeras pessoas no exterior a desesperar por um bilhete. O ambiente era de grande expectativa. E, uma vez mais, a expectativa foi coroada de êxito e o milagre voltou a acontecer: Edita Gruberova revelou ser uma das maiores intérpretes de sempre deste papel, deslumbrando o público que enchia por completo a Hamburgische Staatsoper.

Os cenários eram clássicos e grandiosos. No primeiro acto, Edita surgiu com um vestido de noite branco, na sala de baile. Deslizava com graciosidade sobre o palco, enchendo de champagne os copos dos seus convivas. Enquanto o fazia, sorria e fazia soar as primeiras notas que, com a maior elegância, brotavam da sua voz cristalina.

E foi, precisamente, logo neste primeiro acto, que a Gruberova triunfou ao cantar com um vigor impressionante È strano! ... Ah, fors'è lui. Follie! Follie! ... Sempre libera. O público foi levado ao delírio, perante o desempenho não só vocal, mas também interpretativo, que foi verdadeiramente impressionante.

No segundo acto, Edita transmitiu duma forma absolutamente tocante a dor de Violetta ao aceitar a separação de Alfredo, a pedido de seu pai. As lágrimas brotavam verdadeiramente dos seus olhos enquanto cantava, num pianissimo arrepiante, Ah! Ditte alla giovane.

No terceiro acto, a Gruberova também arrepiou o público enquanto cantava, tombada no solo após a humilhação a que Violeta tinha sido submetida por Alfredo na casa de Flora, Alfredo, Alfredo, di questo core.

Mas o clímax do dramatismo interpretativo, surgiu no quarto e último acto. No final da leitura da carta, a Gruberova exclamou com uma profundidade e uma dor arrepiantes "È tardi", transmitindo um desespero imenso. Seguidamente, Edita Gruberova emitiu os mais supreendentes agudos em pianissimo, na ária Addio del passato. No final desta dificílima ária, houve uma ovação em cena impressionante, de vários minutos, em que o público não cessava de gritar "Brava! Brava!". Edita, reconhecida, inclinou-se em sinal de agradecimento.

Mas a ópera ainda não havia terminado. Seguiram-se duos formidáveis com José Bros (Alfredo). No final, Edita conseguiu comunicar ao público a sensação de que a sua alma principava a elevar-se, antes de tombar inanimada no solo, no momento em que a ópera termina. Notem que, apesar dos seus 64 anos, Edita Gruberova mantém uma capacidade física notável, não se coibindo de toda a gestualidade e actividade física cénica, tal como cantar em posições difíceis, inclinada ou deitada, bem como tombar no solo. Impressionante!

Após uma interminável sucessão de aplausos no final da ópera, em que Edita foi premiada com numerosos ramos de flores que lhe foram atirados pelo público, seguiu-se, no palco, uma homenagem prestada pela Hamburgische Staatsoper. Nesse dia (12 de Novembro), comemoravam-se exactamente 40 anos desde a primeira vez que Edita Gruberova actuou naquele palco. No palco foi colocada uma mesa e um pequeno canapé, no qual Edita se sentou. Atrás de si, estavam de pé todos os cantores. Ao lado de Edita e em pé, estava a maestrina titular da Orquestra Filarmónica de Hamburgo - Simone Young - que proferiu palavras de profundo agradecimento a Edita Gruberova por todos os magníficos momentos que tinha oferecido ao público, naquele palco, ao longo dos últimos quarenta anos. Enumerou os diversos papéis que Edita interpretou naquela casa. Por fim, ofereceu a Edita uma fotografia sua no papel de Zerbinetta (na ópera Ariadne auf Naxos de Richard Strauss), no início dos anos setenta, naquele palco. O público aplaudia de pé, vigorosamente.

Por fim, Edita Gruberova tomou a palavra para agradecer a homenagem e, entre outras palavras simpáticas, para dizer ao público "vamo-nos vendo por aí nos próximos... 40 anos?!". Com um enorme sentido de humor e, ao mesmo tempo, revelando uma energia fantástica, Edita disse assim ao público que pode continuar a contar com a sua presença. O público aplaudiu intensamente e Edita teve ainda de regressar inúmeras vezes ao palco, perante o público que gritava incessantemente pelo seu nome: "Edita!!!"
Ao lado de Edita, estiveram José Bros (Alfredo), Dalibor Jenis (Giorgio Germont) e Renate Spingler (Flora).

sábado, 23 de outubro de 2010

Edita Gruberova confirma o seu triunfo como Lucrezia Borgia na Wiener Staatsoper - 18 de Outubro de 2010













(Please see review in english below)

No passado dia 18, Edita Gruberova fez o último duma série de 5 concertos com Lucrezia Borgia na Ópera de Viena. A Première teve lugar no dia 2 de Outubro e já tive ocasião de comentá-la neste blog, pelo que não irei alongar-me muito acerca deste concerto.
A lotação da sala estava mais do que esgotada e eram muitos os que, em vão, desesperavam no exterior por um bilhete. Foram muito afortunados todos aqueles que puderam ver e ouvir Edita Gruberova nesta noite de glória na Wiener Staatsoper. A cantora, que recebeu um avassalador aplauso mal entrou em cena, não desiludiu o público que, com fervoroso entusiasmo, a louvava.

Logo nas primeiras notas, a cantora transportou-nos para uma dimensão etérea: o legato irrepreensível, o timbre cristalino da voz, a coloratura acrobática executada de modo exímio, os agudos em pianissimo, absolutamente milagrosos.

A acrescentar à sua extraordinária perfeição vocal, Edita fez uma representação formidável do papel de Lucrezia, confirmando os seus dotes de grande actriz, amplamente reconhecidos em todo o mundo: a gestualidade, a expressão facial, as exclamações que o seu olhar e a sua voz transmitiam, a dor no seu rosto, a vivência física e psicológica da personagem. E, notem, tudo isto numa ópera em versão de concerto. Mesmo sem o suporte cénico, Edita Gruberova trouxe-nos uma Lucrezia completa e eximiamente representada.

O clímax da acção, bem como da dificuldade técnica e interpretativa, surge no final, quando Lucrezia Borgia enfrenta a dor pela morte do seu filho, bem como um sentimento de culpa avassalador. Nesta noite, fiquei apenas a duas filas de distância do palco, pelo que pude sentir de perto toda a emoção de Edita. Pude ver que as lágrimas corriam pela sua face e que os seus lábios tremiam, quando cantava Era desso il figlio mio. Foi absolutamente arrepiante. Toda a sala estava em transe, perante aquele desempenho magnífico e inigualável. Com efeito, Edita Gruberova confirma, cada vez mais, o merecidíssimo título de Primadonna Assoluta.

Após o fantástico e demorado mi sobreagudo com que Edita Gruberova encerra esta ópera, todo o público se colocou instantaneamente de pé e gritou "Brava" arrebatadoramente. Dezenas de pessoas aproximaram-se do palco e ofereceram flores e outros presentes a Edita que, gentilmente, se curvava com um sorriso para aceitar as oferendas que o entusiástico público lhe fazia. Choviam "flashs" da imensidão de máquinas fotográficas e telemóveis com que toda a gente procurava captar a imagem de Edita Gruberova.

Os restantes cantores, em particular José Bros e Michele Pertussi tiveram desempenhos formidáveis. Menos segura e brilhante, todavia muito correcta e digna, esteve Laura Polverelli, que deixou sempre transparecer algum nervosismo.

Os aplausos duraram seguramente meia hora. O público clamava "Edita, Edita", pois queria que Edita Gruberova regressasse uma e outra vez ao palco, apesar de já terem praticamente desligado as luzes da sala, na tentativa de que o público desmobilizasse. Dum dos camarotes, alguém pendurou um cartaz onde podia ler-se: "Edita, quale incanto".

Cá fora, largas dezenas de fãs esperaram por Edita Gruberova, que a todos atendeu, a todos deu autógrafos. Os aplausos e os gritos de "Brava" soaram na Herbert von Karajan Platz à medida que Edita Gruberova se afastava a pé do edifício da ópera, acenando ao público e levando consigo vários ramos de flores.

Bravissima, Edita!




Edita Gruberova confirms her triumph as Lucrezia Borgia at the Wiener Staatsoper –October 18th, 2010



Last October 18th, Edita Gruberova made the last of a series of five concerts as Lucrezia Borgia at the Vienna Opera. The Premiere was held on October 2nd and I had the opportunity to comment on it in this blog, so I will not dwell on too much about that concert.

Tonight the capacity of the room was more than exhausted and there were many who, in vain, desperate for a ticket outside. Those who could see and hear Edita Gruberova in this night of glory in the Wiener Staatsoper were, indeed, very lucky. The singer, who received an overwhelming applause when stepping in, did not disappoint the public, who praised her with fervor enthusiasm.

Immediately after the first few notes the artist took us to an ethereal dimension with the faultless legato, the crystalline tone of her voice, the perfect acrobatic coloratura, the treble in pianissimo, absolutely miraculous.

In addition to her extraordinary vocal perfection, Edita did a great representation of the role of Lucrezia, confirming her talent as a great actress, widely recognized throughout the world: the gestures, the facial expressions, the exclamations that her look and her voice conveyed, the pain in her face, experiencing the physical and psychological feelings of the character. And, please note, all in a concert version of an opera. Even without the support scenarios, Edita Gruberova brought us a complete and expert staged Lucrezia.

The climax of the action, as well as the technical and interpretative difficulty, arise in the end, when Lucrezia Borgia faces the pain of her son's death, and an overwhelming sense of guilt. Tonight, I was only two rows from the stage, so close that I could feel the emotion of Edita. I could see that tears were streaming down her face and her lips trembled as she sang Era desso il figlio mio. It was absolutely shivering. The whole audience was in a trance, before that magnificent and unparalleled performance. Indeed, Edita Gruberova confirms, increasingly, the well-deserved title of Primadonna assoluta.

After the fantastic and lengthy high E with which Edita Gruberova ends the opera, the entire audience stood up and instantly shouted "Brava" ecstatically. Dozens of people approached the stage and offered flowers and other gifts to Edita that, gently, bowed with a smile to accept the gifts from the enthusiastic audience. Endless "flashes" came from the multitude of cameras and mobile phones as everyone sought to capture the image of Edita Gruberova.

The other singers, particularly José Bros and Michele Pertussi, had tremendous performances. Less secure and bright, but very correct, was Laura Polverelli, who always seemed to be a little nervous.

The applause lasted for no less than half an hour. The crowd cried "Edita, Edita” because they wanted Edita Gruberova to return to the stage again and again, despite having the room lights partially off, trying to demobilize the public. From one of the boxes, someone hung a banner that read: "Edita, quale incanto".

Outside, dozens of fans waited for Edita Gruberova, who all attended and signed autographs for all. The applause and cries of "Brava" sounded throughout the Herbert von Karajan Platz as Edita Gruberova walked away from the opera house, waving to the public and carrying several bouquets of flowers.

Bravissima, Edita!

(Concerning translation, this is the best we can do. Please do not hesitate to comment if you feel it is not correct. We decided to translate this post into english because we know we have several visitors from abroad that, we guess, do not understand portuguese. Thank you).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gruberova triunfa como Lucrezia na Wiener Staatsoper - 2 de Outubro de 2010

























A Primadonna Assoluta Edita Gruberova levou o público de Viena ao delírio ao interpretar, pela primeira vez no grande palco da Wiener Staatsoper, Lucrezia Borgia.

A incomparável cantora, quase a completar 64 anos de idade, e há muito detentora do título de Österreichische Kammersängerin, já actuou mais de 500 vezes no palco da Wiener Staatsoper ao longo dos últimos 40 anos. E uma vez mais voltou a esse palco, desta vez para uma estreia: Lucrezia Borgia.

O evento, que era aguardado com grande expectativa, foi largamente anunciado nos meios de comunicação social austríacos. Vários jornais, revistas, estações de rádio e televisão davam notícia da presença de Edita na Ópera de Viena. Inclusivamente, no avião que me levou até Viena, deparei com um inesperado artigo numa revista, em que surgia a fotografia de Edita Gruberova, acerca desta tão esperada estreia.

O espectáculo, que decorreu em versão de concerto, foi transmitido em directo por várias estações de rádio europeias. Para todos aqueles que não tiveram oportunidade de escutá-lo em directo, o evento ainda está disponível no site da ORF, acessível através do seguinte link:

http://oe1.orf.at/programm/255467


No exterior do edifício da Ópera, na Herbert von Karajan Platz, estava colocado um ecrã gigante, através do qual todos os que não conseguiram bilhete puderam ver e ouvir o espectáculo.
O concerto principiou. Laura Polverelli (Mafio Orsini) e José Bros (Gennaro), fazem as suas primeiras e breves intervenções.
Pouco depois, quando Gruberova surge no palco, imediatamente se faz ouvir um forte aplauso e gritos de "Brava!". O público saudava, assim, a aparição da grande cantora.
A Gruberova canta então "Tranquilo ei posa. Com'é bello! Quale incanto". Notei que Edita optou por uma postura mais afirmativa do que o habitual, quando cantou esta ária. Recorreu menos aos pianissimi e a alguns efeitos expressivos, como o crescendo e decrescendo com que algumas vezes pronuncia a primeira frase - Tranquilo ei posa. Todavia, mesmo dando um carácter mais afirmativo e uniforme em termos de dinâmica, Edita transmitiu um enorme lirismo em toda a ária. Eis aqui uma admirável característica de Gruberova, e que caracteriza os grandes artistas: a capacidade de interpretar de formas diferentes a mesma obra, mantendo contudo uma enorme coerência e um elevado bom gosto musical. Os trilos em pianissimo com que terminou a ária, foram duma perfeição admirável. O público aplaudiu intensamente Gruberova, no final desta ária.

Durante todo o prólogo, a prestação dos cantores foi formidável, com destaque para Gruberova e Jose Bros, que tiveram de regressar por duas vezes ao palco no final do prólogo, tal foi a intensidade e a duração dos aplausos.

Logo de seguida, tem início o primeiro acto. É aqui que surge pela primeira vez Michele Pertusi (Don Alfonso I), que interpretou bastante bem a ária "Vieni! La mia vendetta", quer na gestualidade, quer na expressão facial, quer vocalmente. Queria, a este propósito, fazer notar que, apesar de se ter tratado duma ópera em versão de concerto, os cantores e, em especial, Gruberova, interpretaram de forma tão admirável os seus papéis, que parecia que estávamos a assistir a uma ópera encenada: os gestos, os passos, a movimentação dos cantores, a expressão facial. Tudo parecia configurar uma verdadeira representação, à qual apenas faltavam os cenários e o guarda-roupa.

Gruberova foi admirável nos diálogos com D. Alfonso, quando tentava persuadi-lo a poupar Gennaro, bem como transmitindo a tensão que Lucrezia vivia ao ter de evenenar o próprio filho.

A tensão dramática, que progride durante toda a obra, atinge o seu apogeu no segundo acto, que ocorreu após o intervalo. É neste acto que Lucrezia revela a Gennaro que ele é seu filho. Neste diálogo final entre ambos, os cantores foram admiráveis. Gruberova e José Bros conseguiram transmitir toda a dor das personagens com uma intensidade tocante. Foi arrepiante o súbito dó sobreagudo que Edita emitiu no momento em que Lucrezia estaria prestes a ser ferida de morte por Gennaro. A Gruberova conseguiu um efeito dramático impressionante com o corte súbito do sobreagudo, seguido duma pausa, antes de exclamar com um timbre profundo e magoado: Un Borgia sei!

No final, todos os restantes cantores abandonam o palco e Gruberova fica sozinha, fazendo arrepiar todo o público com "Era dessa il figlio mio". A cantora parecia chorar enquanto cantava, era enorme a dor que transmitia na sua voz e na sua expressão facial. A temida Lucrezia Borgia, transformava-se aqui numa mãe que tinha perdido o seu filho e que estava dominada por um enorme sentimento de perda e de culpa. Edita foi brilhante nos dificílimos momentos de acrobática coloratura final, terminando com um poderosíssimo mi sobreagudo, que manteve ao longo de oito compassos! Edita Gruberova, após todo o esforço que certamente representou todo o seu magnífico desempenho nesta ópera, ainda teve energia para este demorado mi sobreagudo, que manteve com uma emissão absolutamente uniforme durante toda a sua duração. Impressionante!
O público, não conseguindo esperar que a orquestra atingisse os acordes finais, começa imediatamente a exclamar: "Brava! Brava!".

Mal a orquestra se silencia, todo o público se coloca de pé e aplaude intensissimamente. Edita Gruberova emocionada, mas visivelmente feliz, agradece. Imensas pessoas abandonam os seus lugares e descem pelos corredores da plateia até ao palco, empunhando máquinas fotográficas e telemóveis, para conseguirem fotografar mais de perto a grande cantora.

Os aplausos duraram mais de vinte minutos! A orquestra e o coro abandonaram o palco, mas os aplausos não terminavam e os cantores tinham de regressar novamente. Junto à saída do palco, câmaras de televisão, repórteres, fotógrafos, rodeavam Gruberova. Foi uma apoteose impressionante. Dum dos camarotes, algumas pessoas penduraram um cartaz onde podia ler-se "Edita. Simply the best!".

Os aplausos já duravam havia cerca de 20 minutos, mas o público queria que Gruberova regressasse ao palco. Então, começaram a gritar: "Edita! Edita!". Gruberova regressou uma e outra vez. Foi memorável esta magnífica noite, em que Edita Gruberova triunfou uma vez mais na Wiener Staatsoper, agora como Lucrezia Borgia.

Não foi possível obter autógrafos de Gruberova, dado que os cantores foram participar num jantar de gala que teve lugar no interior da Staatsoper. Ainda assim, alguns fãs japoneses de Gruberova, que vierem propositadamente do Japão para assistir a este momento, afirmaram que esperariam que o demorado jantar terminasse, para receberem o tão esperado autógrafo de Gruberova.
Várias estações de televisão fizeram reportagens sobre este concerto. Encontrei um breve apontamento televisivo da ORF, com imagens deste concerto, que pode ser visualizado através do seguinte link:

http://tvthek.orf.at/programs/1360-Seitenblicke/episodes/1644593-Seitenblicke/1646749-Edita-Gruberova-feiert-Buehnenjubilaeum

Aproveito também para anunciar que acabou de ser lançado o novo CD de Lucrezia Borgia com Edita Gruberova, que foi gravado ao vivo em Junho de 2010 em Colónia (a última fotografia que aqui coloquei, mostra um cartaz com a capa do CD). Já tive oportunidade de relatar, aqui no blog, o concerto em que decorreu a gravação desse CD, a que também assisti, na Kölner Philharmonie.