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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ELEKTRA de Richard Strauss — TNSC/CCB, 4.02.2018


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(Review in English below)

O Teatro Nacional de São Carlos em colaboração com o Centro Cultural de Belém trouxe à cena uma nova produção da ópera Elektra de Richard Strauss.

Foi estreada em Dresden em 1909, quatro anos volvidos da estreia da polémica ópera Salomé. O libreto de Hugo von Hofmannsthal é mais uma de muitas e brilhantes colaborações entre o libretista e o compositor. 

A história passa-se em Micenas na Grécia Antiga. Elektra, personagem principal, vive dilacerada pela morte do pai Agamemnon, morto pelas mãos de Klytamnestra e do seu amante Aegisth. O seu ódio é tal que vive na esperança de que o seu irmão Orest regresse para os assassinar. Está transformada, totalmente despida do seu eu que se funde no do pai morto. Não é nada além de ódio e vingança. E são esses ódio e desejo de vingança o motor para toda a ação. Em contraste, Chrysothemis, sua irmã, tem um forte desejo de viver e de cumprir o seu destino de mulher, esforçando-se por não se anular. Mais tarde, regressado Orest e assassinada a mãe e o amante, Elektra pode finalmente ser feliz e dançar, num ritual de autodestruição, com a morte que acaba por levá-la.

Muito poderá ser escrito sobre a interpretação psicológica das personagens, nomeadamente à luz das teorias freudianas que despontavam na época em que Elektra foi composta e que, indubitavelmente, influenciaram o libretista e o compositor. Mas tal reflexão far-nos-ia dedicar um tempo que, por ora, não dispomos.

Como é sabido, musicalmente é uma ópera de rotura, muito exigente para a orquestra que deve saber expressar os múltiplos cromatismos da partitura. E é-o igualmente exigente para os cantores, com natural destaque para Elektra, omnipresente em cena.

www.sapo.pt

Começando pela encenação. Ficou a cargo de Nicola Raab. Nem é bem uma encenação, mas uma tentativa de dar cena a uma ópera em versão de concerto que podemos resumir como desinteressante e estática. Não consigo elogiá-la e é-me difícil encontrar-lhe um sentido, ou algo inovador. É certo que há pouco recursos financeiros, mas tal não pode ser desculpa.


Passando à sua descrição. Tem um painel dourado ao fundo e centro do palco. Nele há uma porta que se abre e fecha ao longo do ato único da obra. Ao centro e em frente da porta, um quadrado em madeira ligeiramente elevado sobre o palco. É nele que, do início ao fim, se encontra Elektra. Ela vai-se movimentando, ora no chão, ora de pé. Há uma cadeira com os sapatos de Elektra por baixo, sapatos nunca usados de nenhuma forma. O quadrado funciona como mundo interior de Elektra. Nele nada nem ninguém entra, com excepção de Chrysothemis — mas apenas quando Elektra a chama para tomarem conta dos assassinatos de Klytamnestra e Aegisth, sendo daí expulsa por se recusar a colaborar — e Orest, irmão que funciona como o seu salvador. Também há uma outra transgressão: quando Elektra pergunta à mãe se Orest pode regressar, estende-lhe os braços e deita a cabeça sobre o seu colo, sem que, contudo, se deixe invadir ou se deixe evadir do seu angustiante mundo interior. Com esta, além da ambivalência, parece haver uma relação quase de fusão: quando a mãe chega para lhe falar dos sonhos, Elektra contrai-se dolorosamente sobre si, pondo as mãos nos genitais; quando mais tarde a mãe é assassinada, parece ser aí que sente novamente uma dor. Quase como se houvesse uma qualquer ligação uterina entre ambas. A tal que devia ser eliminada. Mas tal não passa de uma interpretação minha, provavelmente forçada. Ao lado do quadrado, 4 cadeiras, 3 suportes e um fundo negro. Aí — quase estáticas — vão aparecendo as restantes personagens. As personagens quase nunca se olham. Os diálogos são como que transformados em monólogos. No final, do fundo chegam os assassinados. Orest surge empunhando o machado que nunca lhe é entregue. A dança — não dançada — leva uma Elektra lentificada por uma porta lateral, carregando uma partitura que fecha com a sua última fala. E acaba a ópera.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por Leo Hussain esteve muito longe de conseguir expôr a palete cromática de Elektra, nunca soando verdadeiramente a Strauss, nem na força electrizante, nem no lirismo ou dramatismo da obra. Foi, a par com a encenação, um dos elementos mais pobres da récita. E em Elektra, esta falha é um pecado capital.

Nadja Michael foi Elektra e é a grande cabeça de cartaz da temporada do TNSC. Apresentou-se vocalmente em bom nível. Tem uma voz colossal, com enormes volume e projeção, tendo denotado, no início da récita, alguma dificuldade com os agudos que lhe saíram mais agrestes. Mas foi uma boa interpretação vocal e também cénica. É uma cantora com uma excelente presença em palco, muito física, tendo conseguido transmitir a angústia de Elektra.

Allison Oakes foi uma Crysothemis de muita qualidade vocal: tem uma voz muito grande que projetou com muita facilidade sobre a orquestra e uns agudos fáceis, ainda que por vezes com tendência para a estridência. Na verdade, um pouco como o próprio papel exige. Cenicamente, embora pouco jovial, esteve bem, sobretudo tendo em conta o pouco que lhe foi pedido pela encenadora.

Confesso que a Klytamnestra de Lioba Braun me desiludiu. Não pela forma como montou a personagem que foi muito adequada e intensa, mas pelo timbre da voz, algo nasalado, e baixo volume, o que acabou por diminuir a sua prestação.

James Rutherford foi um Orest de muito bom nível: tem uma voz madura e com um timbre bonito (a lembrar-me Bryn Terfel), tendo montado bem a personagem.

O Aegisth de Marco Alves do Santos foi de grande qualidade, tanto pela voz poderosa, como pela interpretação cénica do seu pequeno papel.

As restantes personagens estiveram globalmente bem, assim como o coro na sua pequena intervenção.

Em resumo, assistiu-se a uma Elektra com duas vozes femininas de peso que se apresentaram em bom plano, mas que pecou pela pobreza simbólica da encenação e pela por uma desinspirada e pouco cromática orquestra.

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(Review in English)

The National Theater of São Carlos in collaboration with the Cultural Center of Belém brought to the scene a new production of the opera Elektra by Richard Strauss.

It was premiered in Dresden in 1909, four years after the debut of the controversial opera Salome. The libretto by Hugo von Hofmannsthal is one of many brilliant collaborations between the librettist and the composer.

The story takes place in Mycenae in Ancient Greece. Elektra, the main character, lives torn by the death of his father Agamemnon, killed by the hands of Klytamnestra and his lover Aegisth. Her hatred is such that she lives in the hope that her missing brother Orest will return to assassinate them. She is transformed, utterly stripped of her self that merges into that of her dead father. She is nothing but hatred and revenge. And it is these hatred and desire to revenge the moto for all the action. In contrast, Chrysothemis, her sister, has a strong desire to live and fulfill her destiny as a woman, striving not to be annulled. Later, when Orest returned and his mother and lover were murdered, Elektra could finally be happy and dance, in a ritual of self-destruction, with the death that ends up taking her.

Much can be written about the psychological interpretation of the characters, especially in light of the Freudian theories that emerged at the time Elektra was composed and that undoubtedly influenced the librettist and the composer. But such reflection would give us time that we do not have at the moment.

As it is known, musically it is a controversy opera, very demanding for the orchestra that must be able to express the multiple chromatisms of the score. And it is equally demanding for the singers, with a natural highlight for Elektra, omnipresent on stage.

Beginning with the staging. It was commissioned to Nicola Raab. It is not an opera staging, but an attempt to give some staging to a concert version opera that we can summarize it as uninteresting and static. I can not praise it and I find it difficult to find a meaning or something innovative. Admittedly there is little financial resources, but this can not be an excuse.

Moving on to its description. It has a golden panel at the bottom and center of the stage. In it there is a door that opens and closes along the single act of the work. To the center and in front of the door, a wooden square slightly elevated on the stage. It is over it that, from the beginning to the end, is Elektra. She moves, sometimes on the ground, sometimes standing. There's a chair with Elektra's shoes underneath, shoes never used in any way. The square works as the inner world of Elektra. Nothing and no one enters it, except for Chrysothemis - but only when Elektra calls her to take care of the murders of Klytamnestra and Aegisth, being expelled from it for refusing to collaborate - and Orest, brother who functions as her savior. There is another transgression: when Elektra asks her mother if Orest can return home, she extends her arms and lays her head on her mother’s lap, without, however, allowing herself to be invaded or allowed to escape her agonizing inner world. With this, in addition to the ambivalence she feels, there seems to be an almost fusion relationship: when the mother arrives to tell her of her dreams, Elektra painfully contracts over herself, placing her hands on her genitals; when the mother is later murdered, it seems that she feels a pain again. Almost as if there was any uterine connection between them. The one that should be eliminated. But this is just an interpretation of mine, probably forced. Beside the square, 4 chairs, 3 stands and a black background. There - almost static - the remaining characters appear. The characters almost never look at each other. The dialogues are transformed into mere monologues. In the end, the murderers arrive from the bottom. Orest appears wielding the ax that is never given to him. The dance - not danced - takes a motor retarded Elektra by a side door, carrying a score that she closes with her last words. And the opera ends.

The Portuguese Symphony Orchestra directed by Leo Hussain was very far from being able to expose the chromatic palette of Elektra, never really sounding Strauss. It was, along with the staging, one of the poorest elements of the recital. And in Elektra, this fault is a capital sin.

Nadja Michael was Elektra and the biggest star of the TNSC’s season. She presented herself vocally on a good level. She has a colossal tremendous voice, with enormous volume and projection, having denoted, at the beginning of the recital, some difficulty with the treble that went a bit more strident. But it was a good vocal interpretation and also scenic. She is a singer with an excellent presence on stage, having managed to convey the anguish of Elektra.

Allison Oakes was a Crysothemis of very good vocal quality: she has a huge voice that she manage very easily over the orchestra and easy trebles, although sometimes with a tendency to stridency, too. In fact, a bit like the role itself requires. Cenically, although not very jovial, she was well, especially considering the little that was asked by the director.

I confess that the Klytamnestra of Lioba Braun disillusioned me. Not by the way she set the character that was appropriate and intense, but by the timbre of the voice, a bit too nasal, and low volume, which eventually diminished her performance.

James Rutherford was an Orest of very good level: he has a mature voice and a beautiful timbre (it remembers me Bryn Terfel), having set the character well.

The Aegisth by Marco Alves do Santos had great quality, both by the powerful voice he managed so well, and by the scenic interpretation of his small part.

The remaining characters were overall good, just like the chorus in his short intervention.


In summary, it was an Elektra with two great female voices in good plan. However, the production was of an extreme symbolic poverty and the orchestra was uninspired, lacking chromatic expressiveness.

sábado, 15 de outubro de 2016

ELEKTRA, UM SOCO NO ESTÔMAGO DO ESPECTADOR



Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera e Ballet
   
Matérias publicadas nos últimos dias falam que a ópera "Elektra" de Richard Strauss tem elementos da psicanalise de Freud que viria a ser estudada anos depois. Esse discurso é para aqueles que adoram bancar os intelectuais, isso funciona em jantares após a récita ou nos intervalos da ópera e mostra um ar de intelectualidade ao seu detentor. Deixemos a psicanalise na faculdade, quando um cidadão vai à ópera o que lhe interessa é a emoção que a música unida ao teatro lhe transmite. Ele pode rir, chorar ou levar um soco no estômago. O importante é que ele saia do teatro com a arte operística incrustada na alma. Busca-se um aprimoramento cultural.

Um soco no estômago, essa é a melhor definição da ópera "Elektra" de Strauss, a música e o libreto fazem todos entrar em transe. A ação não deixa o espectador respirar. A potente e elucidativa partitura de Strauss leva a dimensões que poucos títulos conseguem.

Duvidas pairaram no ar sobre o desempenho de Eduardo Strausser como regente. Os pessimistas diziam que o jovem não tinha condições de enfrentar tamanho desafio após a saída de John Neschling. As minhas dúvidas acabaram nas primeiras notas. Regência coerente com a música e o cuidado de não encobrir os solistas se mostra acertado. Todo o peso impactante da enorme orquestra foi minimizado em um volume correto onde as notas se destacavam com clareza. Regência límpida, sem invencionices e que mostra o brilho, o drama e a tensão contidas na composição.   

A direção de Livia Sabag segue o padrão de suas óperas anteriores, ambientar o enredo em outra época não afeta o desenvolvimento da ação já que a diretora com inteligência não deturpa os fatos. Consegue ser didática ao narrar a história com movimentações constantes. Utiliza velhos clichês de montagens pretéritas, como o cenário em dois níveis e a projeção de imagens. O que pode ser interpretado como falta de ousadia é sim um sinal de criatividade, esses elementos são utilizados para realçar o drama cênico que não para um segundo.

A cenografia de Nicolàs Boni ambienta e torna o clima sombrio, lembra um filme de terror com tempestade ao fundo. A utilização de dois níveis de cena pode ser questionada, a rápida movimentação dos personagens os torna dinâmicos. Os figurinos de Fabio Namatame como sempre corretos e adequados. A luz do versátil Caetano Vilela condiz com as cenas e impressiona pela cor delicada e ao mesmo tempo impactante.

As vozes femininas foram um luxo, a mulherada detonou. Começando pela protagonista, Catherine Foster tem voz possante, densa, dramática e com um timbre arrasador. Perfeitamente adaptada para Elektra, une isso a uma interpretação cênica avassaladora e uma intensidade histérica constante. Transmite medo, histeria, realismo, dor e sangue nos olhos pela morte do pai. Natasha Petrinsky dá vida a uma Climnestra amargurada, muitas vezes arrependida de seus atos. Sendo assim sua voz explode em graves expressivos que evidenciam a tristeza que o destino lhe impôs. Tocante, profunda e misteriosa é sua atuação cênica, certos momentos ficamos com ódio dela e em outros ela nos causa uma pena profunda, atinge o ápice da personagem. Emily Magee faz uma Crisótemis de luxo, a moça tem uma voz quente regada com agudos incisivos. Sempre em dúvida com seus sentimentos sobre se vingar ou não. Soprano de técnica excelente com voz luminosa e detentora de bom fraseado. 



O restante da galera teve participação correta, fica chato falar mais uma vez, mas vou falar. É desnecessário trazer de fora dois cantores para os papéis de Egisto e Orestes. Um só é o suficiente e na necessidade temos muitos por aqui. Prova cabal disso é o retorno à Inglaterra do tenor que estava escalado para o papel de Egisto, Kim Begley, por conta de falecimento na família. O tenor que cantaria nos outros dias assumiu seu lugar. O Egisto de Jürgen Sacher tem voz escura com graves sólidos, mais parece um barítono. Albert Dohmen faz um Orestes com força cênica e vocal. Destaque é a excelente participação dos serviçais e das criadas, todas impecáveis.

Elektra é a penúltima ópera a ser apresentada no Theatro Municipal esse ano. As eleições trouxeram um novo prefeito. O futuro do Theatro Municipal de São Paulo é uma incógnita, pairam muitas dúvidas e poucas certeza. Afirmo aqui que o caminho para o Municipal 2017 é a produção e manutenção de um acervo de óperas a serem apresentadas por mais de duas décadas. Outra possibilidade interessante é a troca de produções entre os teatros brasileiros. E principalmente a valorização do artista nacional.

Ali Hassan Ayache

domingo, 1 de maio de 2016

ELEKTRA de Richard Strauss — Estreia da nova produção da Wiener Staatsoper, 29.03.2015


A ópera Elektra que Richard Strauss estreou em Dresden a 29 de Janeiro de 1909 foi apresentada numa nova produção e com elenco de luxo na Wiener Staatsoper (WSO). Trata-se de uma ópera trágica num único acto com libreto de Hugo von Hofmannsthal cuja acção se passa em Micenas imediatamente após a Guerra de Tróia. Drama intenso de vingança, ódio e intriga, de contemporaneidade eterna, é uma ópera de sempre e para sempre.


A música está para além do moderno e foi composta de modo muito arrojado para uma orquestra de 111 instrumentos. Esta funciona como um dos elementos essenciais para que a ópera possa desmultiplicar-se em tonalidades, inventar-se em caleidoscópicos cromatismos e criar-se em dissonâncias. Exige por isso uma capacidade musical e interpretativa de excelência aos músicos. Acresce que, à sua imensa expressividade, é acompanhada por um libreto que permite o desenrolar da acção trágica com uma intensidade dramática difícil de encontrar e que obriga a explorar ao máximo a capacidade técnica dos cantores. Elektra, personagem central e quase omnipresente, é levada a um extremo doentio que só um soprano dramático estratosférico consegue criar de modo credível e vocalmente elegante. É, pois, uma obra fantástica e fundamental da história da música do século XX.


A nova produção da WSO esteve a cargo de Uwe Eric Laufenberg. E foi precisamente aqui que começou a polémica. Os austríacos não permitem que se maltrate o seu bem-amado Strauss. A encenação é objectivamente má. O cenário é escuro, sombrio, húmido. É uma casa, um armazém, um espaço de aspecto abandonado. Em ambos os extremos, uma parede de azulejos velhos e cinzentos, ao jeito de balneário. Á esquerda, por trás da parede, um amontoado de carvão acentua a escuridão do cenário e a ideia de sujidade. À direita, um duplo elevador panorâmico percorre três andares. No da esquerda, a palavra «Totet» (mortes) mancha de sangue o elevador. É aqui decorre a acção.


Enquanto criadas vestidas austeramente de cinzento comentam o comportamento estranho de Elektra, várias mulheres nuas e indefesas são banhadas com mangueiras pelas criadas que assumem uma postura repressora, empurrando-a contra a parede. Parecia o banho que os nazis davam aos judeus antes de os fazerem entrar para aquela hedionda invenção que foi a câmara de gás. Elektra, muito andrógina, surge de fato escuro, desajeitada e estranha. Chrysothemis vem vestida de branco e toma uma postura mais jovial e inocente. Mas sem mistério. Clytemnestra vem com um penteado com rolinhos e, apesar da sua manifesta inferioridade física por vir sentada numa cadeira de rodas, assume um estilo empertigado e desafiante. Os elementos cénicos são pobres. Alguns jogos de luzes evidentes, uma mala rectangular de couro onde Elektra se senta, mas que nada transporta de relevante, que nada desvenda.


Os assassinatos são cometidos nos elevadores, enquanto corpos ensanguentados sobem e descem freneticamente. No fim, na cena final de Elektra, surgem bailarinos aos pares que dançam. Elektra une-se a estes. Dança e desaparece numa correria no fundo do palco sob o olhar da irmã que, ao canto, parece não compreender o que se passa. E a ópera acaba sem que ninguém perceba para que foi isto, destituída de coerência ou de inovação, vazia de genialidade. O público vienense — habitualmente simpático — fê-lo notar com uma valente vaia aos encenadores que poderão ver no vídeo final (6:55). Eu nunca havia ouvido tal, mas creio que foi merecido. Aqui imperou a decepção e o desinteresse.

A Orquestra da WSO foi dirigida por Franz Welser-Möst. Mas também a sua interpretação decepcionou. Dura e constantemente em forte, pouco amigável para os cantores (mas não se notou!), sem fazer brilhar os cromatismos fundamentais desta partitura, sem elegância e desmultiplicação de sons, a interpretação nunca fez jus à genialidade de Strauss. O público também o fez notar ao maestro, ainda que com menos impetuosidade (6min:20s).


Falk Struckmann fez de Oreste. Vestia-se de sobretudo e assumia, com a sua elevada estatura, uma postura austera e distante. Ordena o assassinato com frieza e desaparece. A encenação creio que o diminui vocalmente, conquanto tenha sido competente e agradável ao ouvido.


Anne Schwanewilms foi uma Chrysothemis vocalmente brilhante. Voz potentíssima, sempre sobre a orquestra, agudo cristalino e com excelente expressividade. Interpretação global de excelência.


O mesmo se pode dizer da Clytemnestra de Anna Larsson. Vocalmente muito intensa, sem falhas, e cenicamente arrogante e ao mesmo tempo indefesa e cheia de dúvidas, atormentada pelo seu passado, o que é representado pela sua diminuição física: está em cadeira de rodas. Outra grandíssima interpretação.


Para o fim, como de costume, o melhor. Nina Stemme. Dois nomes de uma soprano estratosférica. Como o papel exige. Voz sublime de agudos pontudos, cristalinos, com uma coluna de som inacreditável, técnica perfeita, tessitura óptima, graves escuros, sombrios, pesados. Nem um único grito, nem uma estridência a mais. Intensa, doentia, neurótica, vingativa, fria e quente ao mesmo tempo. Uma Elektra de arrepiar na cena final. Em tudo mais-que-perfeita e ao nível de — até mesmo a ofuscar um bocadinho — Birgit Nilsson. Marcará uma era neste papel. Os 25 minutos de aplausos não foram à toa.


E eu tive o privilégio de ouvir ao vivo aquela que é uma das melhores interpretações de sempre do papel de Elektra, daquelas que apagam da memória uma encenação que se perde nos circuitos fantásticos da memória indelevelmente marcados por Nina Stemme.