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terça-feira, 15 de outubro de 2019

LA FORZA DEL DESTINO, Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, Outubro 2019





(review in English below)

O Teatro de São Carlos abriu a temporada com a opera de Verdi La Forza del Destino, numa encenação de David Pountney. Há projecções numa tela translúcida à frente do palco. Abre com a palavra Paz, vê-se uma borboleta e uma roda (da sorte?) e a pistola a disparar uma bala aparece várias vezes ao longo do espectáculo. No início da segunda parte é a palavra Guerra que surge. No palco há dois grandes painéis móveis que permitem criar os diversos cenários, um deles com uma cortina e os figurantes trazem e levam frequentemente mesas. No primeiro acto dominam imagens de cruzes de grandes dimensões e pouco mais, com um efeito cénico interessante no início mas depois muito repetitivo. Há situações bem conseguidas mas a encenação, para além de escura como a história da ópera, é estranha em várias partes. Há padres com enormes mitras trajados de branco mas todos ensanguentados (final do 2º acto), a morte aparece frequentemente retratada nos elementos do coro e há um “Piccolo Teatro di Guerra” no 3º acto de efeito algo bizarro.

O maestro Antonio Pirolli fez um óptimo trabalho, a Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve bem e o Coro também muito bem.



O baixo barítono Miklós Sebestyén foi o Marquês de Calatrava e o Padre Guardiano. Esteve bem, algo discreto, mas com um timbre agradável e boa presença em palco.

Leonora foi a soprano Julianna Di Giacomo que tem uma voz potente, com vibrato acentuado e, no registo mais agudo, perde qualidade e sai mais gritado que cantado. Contudo, teve partes muito boas, nomeadamente  Madre, pietosa Vergine” no 2º acto e o “Pace pace mio Dio...” no último.

O barítono Damiano Salerno foi um Don Carlo de qualidade superior. Voz poderosa, timbre muito agradável e sempre afinado. Para mim o melhor cantor da récita.

No extremo oposto esteve o tenor Rafael Alvarez como Don Alvaro. Voz agreste, desafinou frequentemente e com enormes dificuldades nos agudos. Em cena também não foi interessante.

De entre os cantores portugueses, Cátia Moreso foi uma Preziosilla muito vistosa mas a voz resvala frequentemente para a estridência, Luís Rodrigues foi um Melitone excelente, tanto na interpretação vocal como cénica, João Merino um Alcaide e um Cirurgião digno e Carlos Guilherme um Trabuco algo apagado.





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LA FORZA DEL DESTINO, Teatro Nacional de São Carlos, Lisbon, October 2019

The Teatro Nacional de São Carlos opened the season with the opera by Verdi La Forza del Destino, produced by David Pountney. There are projections on a translucent screen in front of the stage. It opens with the word Peace, you see a butterfly and a wheel (lucky?) and the pistol firing a bullet is appearing several times throughout the show. At the beginning of the second part is the word War that appears. On the stage there are two large moving panels that create the various scenarios, one with a curtain and the extras often bring and carry tables. In the first act dominate large crosses and little more, with an interesting scenic effect at first but later very repetitive and unimaginative. There are interesting scenic situations but the staging, as dark as the history of the opera, is strange in many parts. There are priests with huge white-clothed miter but all bloody (end of 2nd act), death often appears in the choir elements and there is a “Piccolo Teatro di Guerra” in the 3rd act of somewhat bizarre effect.

Conductor Antonio Pirolli did a good job, the Portuguese Symphony Orchestra was well and the Choir was very good.

Bass baritone Miklós Sebestyén was Marquis of Calatrava and Padre Guardiano He was fine, somehow discreet, but a nice timbre and good presence on stage.

Leonora was soprano Julianna Di Giacomo who has a powerful voice, but with strong vibrato and, in the top register, loses quality and the voice is more shouted than sung. However, she had very good parts, namely Madre, pietosa Verginein the second act and "Pace pace mio Dio..." in the last.

Baritone Damiano Salerno was a top quality Don Carlo. Powerful voice, very pleasant tone and always tuned. For me the best singer of the night.

At the opposite extreme of the interpretation was tenor Rafael Alvarez as Don Alvaro. Wild voice, often detuned and with great difficulties in the top register. On stage he was not interesting either.

Among Portuguese singers, Cátia Moreso was a very showy Preziosilla but her voice often slips to stridency, Luís Rodrigues was an excellent Melitone, both in vocal and scenic interpretation, João Merino was a correct Mayor and Surgeon and Carlos Guilherme made a  weak Trabuco.

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quarta-feira, 10 de abril de 2019

L’ÉTOILE, Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa / Lisbon, Abril 2019



(text in English below)

A opereta L’Étoile de Emmanuel Chabrier estreou em Portugal numa nova produção do Teatro Nacional de São Carlos em Abril de 2019.
A encenação de James Bonas (Desenho de Luz muito eficaz de Rui Monteiro, Cenografia e Figurinos de Thibault Vancraenenbroeck) é simples mas não pindérica, engraçada, muito extravagante no guarda-roupa e caracterização das personagens. O libreto de Eugène Leterrier e Albert Vanloo é ridículo mas cumpre a opereta buffa.


A direcção musical da Orquestra e do Coro foi do maestro João Paulo Santos




Os solistas principais, todos portugueses, estiveram globalmente bem: O tenor Mário João Alves foi o Rei Ouf, a soprano Eduarda Melo foi a princesa Laoula, a soprano Dora Rodrigues foi o vendedor ambulante Lazuli, o barítono Luís Rodrigues foi Siroco o astrólogo do rei, o tenor Carlos Guilherme o embaixador Hérisson de Porc-Épic, a mezzo Maria Luísa de Freitas a sua mulher Aloès, e o tenor João Pedro Cabral o secretário Tapioca.




Foi um espectáculo agradável onde se salientaram nas melhores interpretações Luís Rodrigues, Maria Luísa de Freitas e João Pedro Cabral.





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L'ÉTOILE, Teatro Nacional de São Carlos, Lisbon, April 2019

The operetta L'Étoile by Emmanuel Chabrier debuted in Portugal in a new production of the Teatro Nacional de São Carlos in April 2019.
The staging by James Bonas (Rui Monteiro's very effective lights, Scenography and Costume Design by Thibault Vancraenenbroeck) is simple, funny, very extravagant in costumes and character characterization. The libretto by Eugène Leterrier and Albert Vanloo is ridiculous but complies with the operetta buffa.

The musical direction of orchestra and choir was by maestro João Paulo Santos.


The main soloists, all Portuguese, have been globally well: Tenor Mário João Alves was King Ouf, Soprano Eduarda Melo was princess Laoula, Soprano Dora Rodrigues was the peddler Lazuli, Baritone Luís Rodrigues was Siroco the king's astrologer, Tenor Carlos Guilherme the ambassador Hérisson de Porc-Épic, Mezzo Maria Luísa de Freitas his wife Aloès, and Tenor João Pedro Cabral the secretary Tapioca.

It was a pleasant show where Luís Rodrigues, Maria Luísa de Freitas and João Pedro Cabral stood out in the best performances.

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sábado, 21 de outubro de 2017

TURANDOT, Coliseu dos Recreios, Lisboa, Outubro 2017



A magnífica ópera Turandot de Puccini foi levada à cena no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Há décadas que era hábito haver algumas récitas das óperas em cartaz no Teatro de São Carlos e récitas populares das mesmas óperas no Coliseu. Esse hábito perdeu-se e não se recuperou na abertura da presente temporada, ao contrário do que foi dito, porque a primeira ópera a ser apresentada teve apenas uma récita no Coliseu e nenhuma em São Carlos.

Foi uma experiência globalmente negativa para mim, com vários pontos que gostaria de partilhar.

Começou com algum atraso. A acústica não é boa e houve ao longo da primeira parte grande perturbação com a abertura frequente das portas dos camarotes que, não sendo ruidosa, permitia a entrada de luz na sala, o que perturbava muito.

A Orquestra Sinfónica Portuguesa ocupava a quase totalidade do palco e os cantores tinham apenas um pequeno espaço na parte mais avançada para se movimentarem. (Os coros estavam nas cadeiras laterais nos dois lados do palco).

A encenação de Annabel Arden e Joanna Parker, foi trazida da Opera North. Depois do que vi, fui procurar comentários a esta encenação e o que encontrei foi altamente elogioso. A minha opinião está no extremo oposto! Detestei, acho que esta ópera espectacular de Puccini, que já vi em produções fabulosas (como há poucos meses em Londres como referi aqui) foi assassinada nesta produção!

No palco havia apenas, a meio e sobre a orquestra, uma grande cadeira parcialmente coberta por um pano, e pouco mais. Passámos da China antiga para um local de zombies. Trajos cinzentos ou negros a condizer e nem faltou um esqueleto humano. Os cantores entravam e saíam praticamente sem movimentos cénicos (nem tinham espaço para os fazerem). O príncipe persa que é decapitado no primeiro acto é um membro do coro que despe a camisa e faz gestos a pedir clemência.



Enfim, um espectáculo para ver de olhos bem fechados! Teria sido melhor se apresentado em versão concerto.

A direcção musical, a cargo do maestro Domenico Longo, foi aceitável mas faltou-lhe alguma da energia que esta obra exige.

Felizmente que os cantores salvaram a récita. O Coro do Teatro Nacional de São Carlos esteve bem, melhor esteve o Coro Juvenil de Lisboa. Elisabete Matos, uma cantora que muito respeito, foi uma Turandot respeitável e sempre bem audível sobre a orquestra e coros. O tenor Rafael Rojas tem um timbre bonito e cantou o Calaf com qualidade. Dora Rodrigues interpretou bem a Liù mas nem sempre com a suavidade e doçura que a personagem requer. O Timur do baixo Stephen Richardson foi notável. Diogo Oliveira (excelente!) e Sérgio Sousa Martins impuseram-se como Ping e Pang e, num patamar imediatamente abaixo, esteve João Pedro Cabral como Pong. Carlos Guilherme e Manuel Rebelo cumpriram como Altum e mandarim.



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terça-feira, 6 de junho de 2017

PETER GRIMES – Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2017



De José António Miranda, mais um texto rigoroso e lúcido, como nos habituou: 

PETER GRIMES   (Benjamin Britten)

Ópera em três Actos, um Prólogo e um Epílogo   (Londres, Sadler’s Wells, 1945)

Libreto de Montagu Slater segundo o poema The Burrough, de George Crabbs

    Direcção musical: Graeme Jenkins
    Encenação: David Alden
    Cenografia: Paul Steinberg
    Roupas: Brigitte Reiffenstuel
    Luz: Adam Silverman
    Coreografia: Maxine Braham
    Responsável pela reposição: Ian Rutherford
    Peter Grimes: John Graham-Hall
    Ellen Orford: Emily Newton
    Balstrode : Jonathan Summers
    Auntie: Rebecca de Pont Davies
    Primeira Sobrinha: Bárbara Barradas
    Segunda Sobrinha: Mariana Castello-Branco
    Bob Boles: James Kryshak
    Swallow: Graeme Danby
    Mrs. Sedley: Maria Luísa de Freitas
    Reverendo Horace Adams: Carlos Guilherme
    Ned Keene: João Merino
    Hobson: Nuno Dias
    Orquestra Sinfónica Portuguesa
    Coro do Teatro Nacional de São Carlos   Dir: Giovanni Andreoli
    Produção: English National Opera ENO (Londres 2013)
    Co-produção: Vlaamse Opera (Gand/Antuérpia); Ópera de Oviedo; Deutsche Oper (Berlim).


A história de Peter Grimes é um exorcismo da opressão: mistura de ode ao carácter opressivo da insularidade britânica cruzado com a natureza também opressiva das pequenas comunidades em relação a tudo o que é diferente. O mar e o álcool são portanto os ingredientes maiores desta tragédia em que tudo se desenrola num contexto de marcada nostalgia cuja poesia intrínseca a música de Britten tão generosamente expõe.

A esta realidade factual David Alden sobrepõe inteligentemente um segundo nível de leitura, supostamente mais profundo. Nesse segundo nível as motivações do inconsciente e os mecanismos ocultos dos personagens e seus contextos são cruamente expostos no quadro conceptual de uma psicanálise de pacotilha.

Mas para o sucesso de uma proposta intelectualmente tão aliciante, aliás atributo frequente do trabalho deste encenador, seria necessário que o trabalho dramatúrgico se traduzisse na criação de um verdadeiro espaço teatral único, que é muito mais do que o simples efeito da manutenção de uma cenografia homogénea e coerente ao longo da obra.

E se é claro que aquela criação poderá ter sido a intenção do encenador, a evidência que nos foi dada é que esta solução cenográfica, que deveria servir para o aprofundamento da vivência dos conflitos e problemas que nos são apresentados no libreto, não resulta sob tal perspectiva.

É certo que estivemos a ver uma produção que nos chega pela mão de Ian Rutherford, e na qual portanto a participação directa do encenador não terá existido. Mas se esta circunstância pode ajudar a justificar alguns problemas menores, ela não chega para explicar o sucedido.


De facto, para a criação de um espaço teatral único seria necessário que tivesse sido conseguida a fusão dos dois níveis de leitura, o realista suportado nas palavras e nas notas da obra escrita, e o fantástico idealmente decorrente da análise desses elementos, pelas opções dramatúrgicas e plásticas da encenação.

Tal não sucedeu porém aqui, e o resultado deste exclusivo trabalho a nível da cenografia fez aparecer no final o conjunto como uma proposta esquizofrénica, em que alguns momentos de intenso realismo, como a cena terminal, contrastam violentamente com outros de perfeito delírio surrealista, sem que seja possível estabelecer entre ambos um nexo de associação ou de causalidade que de algum modo os unifique e lhes confira alguma coerência.

Sinais desta duplicidade são por exemplo os momentos histriónicos do coro, globalmente muito bem trabalhado na excelente coreografia de Maxine Braham, mas deixado a nível individual ao bom critério dos coralistas, disso resultando momentos contraditórios e mesmo ridículos, ou ainda a géstica marionetista das duas sobrinhas nas cenas de realismo, resquícios do seu comportamento nos momentos de desmando surreal.

Como acontece com frequência uma ideia brilhante acaba aqui por ser desbaratada na sua operacionalização devido à ausência de uma unidade conceptual estilística. Trata-se portanto de um problema que é intrínseco a esta proposta global de David Alden, sendo aliás recorrente no percurso profissional deste encenador.

Curiosamente a orquestra demonstrou idêntico comportamento esquizofrénico, desta vez não por culpa da direcção de Graeme Jenkins, muitíssimo empenhada, mas sim como claro resultado da sua impreparação para a tarefa expressiva, consequência da sua inexistência virtual enquanto agrupamento sinfónico.

Não há milagres, e todos sabemos que um conjunto de instrumentistas, mesmo recheado de óptimos executantes, não é sinónimo de uma orquestra. A música de Britten surgiu assim como um puzzle mal montado, em que as várias peças foram justapostas mas sem o cuidado necessário para que as junções se tornem invisíveis ao primeiro olhar: a ondulação do mar, omnipresente no tecido sonoro, esteve ausente.

Se este desempenho não foi problemático na sucessão da diversidade estilística da ópera, e se os momentos de tempestade ou furor puderam soar apesar de tudo aceitáveis, foi deplorável ver como os esforços do director nos momentos de mais intenso lirismo não conseguiram qualquer tradução a nível do som.

Em aparente contraste com este problema, o desempenho global no que respeita às vozes foi um dos pontos positivos do espectáculo.

O coro, quiçá como resultado colateral do trabalho coreográfico que lhe foi exigido, emergiu da rotina funcionária em que tem estado mergulhado e ofereceu-nos alguns momentos de grande qualidade. Quanto aos cantores, deve realçar-se a grande segurança e à vontade de Bárbara Barradas, muito melhor tecnicamente do que em prestações anteriores, e em vias de se tornar uma das principais intérpretes líricas nacionais.

Já no respeitante ao desempenho dramático não poderá dizer-se o mesmo: os gestos estiveram todos lá, mas tudo soou dramaticamente como um postiço, sem profundidade, revelando um trabalho de actores inexistente ou insuficiente.



Em todo o caso porém, e sobretudo por servir para nos revelar de uma forma menos convencional uma obra pouco conhecida entre nós, o espectáculo pode considerar-se como uma pedra positiva no percurso final do desolador jardim da temporada que agora termina.


JAM    06/06/2017