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terça-feira, 7 de agosto de 2018

IL BARBIERE DI SIVILGIA, Arena di Verona, Agosto / August 2018


(review in English below)

Texto de wagner_fanatic 

Nesta fase da minha vida de melómano, e sendo eu um Wagneriano (não estrito, é certo...), só mesmo uma lenda para me fazer ir a sítios onde nunca pensei ir, teatros e localidades, reforçando simultaneamente o meu gosto por Verdi. Essa lenda é Leo Nucci.



Já diversas vezes comentei com os outros membros deste blog que... cheguei tarde a Leo Nucci. Adivinha-se o seu adeus aos palcos cénicos em Setembro de 2019 no Scala, no papel que Verdi, sem o saber, escreveu para ele: Rigoletto. E foi neste papel que o vi pela primeira vez ao vivo em Janeiro de 2018, em Parma. Já se seguiram o seu último Miller, em Abril em Zurique, Germont no São Carlos de Nápoles em Maio, Macbeth em Liège em Junho e agora, o seu Figaro na Arena di Verona.








Nucci não resistiu em voltar mais uma vez a este palco que pisou mais de 100x (penso que totalizará 115 com a récita de 8 de Agosto) mesmo após ter dito que não voltaria depois da sua récita isolada do Rigoletto em 2017. Acompanhado de um elenco de luxo, onde figuraram nomes como Ferruccio Furlanetto, Nino Machaidze, Dmitry Korchak e Carlo Lepore (este substituindo o inicialmente anunciado Ambrogio Maestri), e sob a direção de um inspiradíssimo e venerado Daniel Oren.






Estava com algum receio da Arena. Tinha dúvidas se a qualidade sonora seria aceitável e se não iria assistir a um espetáculo de massas, vendendo ópera como se de um circo se tratasse. Mas não! O local é realmente mágico! Só assim realmente se manteria por 96 edições e sempre com grandes nomes da lírica. Tem-se a sensação de palco operático mas a “sala clássica” abre-se enormemente num dos mais bonitos tetos que existem, mudando de filtro à medida que o crepúsculo quente de Verão entra na noite densa.





Com o calor vem os leques das senhoras, cujo barulho de abano pode irritar o mais nervoso dos melómanos mas, mesmo assim, tolera-se, porque o calor é grande e estamos num local onde a Ópera saiu do seu usual habitat e se sente que é verdadeiramente de todos. As comodidades habituais de uma casa de Ópera tradicional estão presentes: temos casas de banho que imaginei que seriam portáteis mas não, estão feitas na estrutura da própria Arena, com as paredes em pedra, e temos locais onde se pode comprar bebidas antes ou no intervalo; entre vendedores de gelados com geleiras a tiracolo nas bancadas mais superiores, outros vendem programas e... leques... As cadeiras são confortáveis e há sempre a possibilidade de optimizar o conforto com almofadas que se vendem à entrada para aqueles que ficam nas bancadas mais superiores, onde o assento é de pedra e o conforto glúteo se adivinha menos agradável.

A encenação deste Barbeiro de Sevilha é de Hugo de Ana, reposta e não nova, e passa-se inteiramente num jardim labiríntico, onde sobressaem diversas rosas gigantes. Todos os pormenores cénicos e direção de atores levam a uma perfeita harmonia com o espírito cómico Rossiniano. Termina com um magnífico fogo de artifício por detrás do palco, causando um efeito final marcante.




Nucci esteve brilhante! Este é um papel cómico, ao invés dos outros em que o vi e, talvez por isso, mas acredito também por estar na Arena, a sua felicidade era evidente em cada passo, em cada nota, em cada agradecimento, valorizando sempre o público, a Orquestra e o Maestro. No final da ária Largo al factotum, quando eu já não esperava um bis, eis que do público saem, após aplausos estrondosos, pedidos de bis ao qual acedeu. Mágico! Arranhou num dos agudos em ambas as vezes mas perfeito em tudo o resto. Fazendo uma verdadeira “rasteira ao Tempo”, continua a mostrar que, quando se vive a vida com humildade, sem snobismos, sem procurar fama fácil, assente no trabalho, na dedicação e na paixão pela Música e Ópera durante já mais de 50 anos, a Vida (e, para mim, Deus) dá de volta o privilégio de “um pouco mais”.





Os seus pares estiveram à altura, numa noite que sendo “dele” só assim o foi por ser também “deles”. Ainda temos algumas oportunidades para o ouvir antes desse dia agridoce que será 22 de Setembro de 2019. Espero ir conseguindo participar na sua energia e paixão até lá. Com o que já vi e com o que, se Deus quiser, ainda está para vir, uma coisa poderei sempre lembrar - 2018 foi, é e será sempre, para mim, Ano Nucci!








Texto de wagner_fanatic



IL BARBIERE DI SIVILGIA, Arena di Verona, August 2018

Text by wagner_fanatic 

At this stage of my life as a music lover, and being a Wagnerian (not strict, that's right...), just a legend to make me go to places where I never thought to go, theaters and localities, while reinforcing my taste for Verdi . This legend is Leo Nucci.

Already several times I commented with the other members of this blog that ... I arrived late to Leo Nucci. His adieu to the scenic stages is predicted in September 2019 at La Scala, in the role that Verdi unknowingly wrote to him: Rigoletto. And it was in this role that I first saw him live in January 2018 in Parma. I already followed his last Miller, in April in Zurich, Germont in the Sao Carlo in Naples in May, Macbeth in Liège in June and now, his Figaro in the Arena di Verona.

Nucci could not resist coming back to this stage that he has stepped more than 100x (I think he will complete 115 with the recital of August 8) even after saying that he would not return after his isolated recital of Rigoletto in 2017. Accompanied by a cast with names like Ferruccio Furlanetto, Nino Machaidze, Dmitry Korchak and Carlo Lepore (replacing the initially announced Ambrogio Maestri), and under the direction of an inspired and revered Daniel Oren.

I was afraid of the Arena. I doubted whether the sound quality would be acceptable and whether we would not attend a mass show, selling opera as if it were a circus. But not! The place is really magical! Only thus would it really be maintained for 96 editions and always with great lyric names. It has the feel of operatic stage but the "classic room" opens up enormously in one of the most beautiful ceilings that exist, changing of filter as the hot twilight of summer enters the dense night.

With the heat comes the fans of the ladies, whose fanning noise can irritate the most nervous of music lovers, but even so, he tolerates it, because the heat is great and we are in a place where the Opera has left its usual habitat and feels is truly of all. The usual facilities of a traditional Opera house are present: we have bathrooms that I imagined would be portable but no, they are made in the Arena's own structure with the stone walls, and we have places where we can buy drinks before or in the interval; there are sellers of ice cream with glaciers in the uppermost benches, others sell programs and ... fans ... The chairs are comfortable and there is always the possibility of optimizing comfort with cushions that are sold at the entrance to those who stay on the more superior benches, where the seat is of stone and the gluteal comfort is guessed less pleasant.

The staging of this Barber of Seville is of Hugo de Ana, restored and not new, and is entirely spent in a labyrinthine garden, where stand out several giant roses. All the scenic details and directing of actors lead to a perfect harmony with the Rossinian humorous spirit. It ends with a magnificent firework behind the stage, causing a marked final effect.

Nucci was brilliant! This is a comic role, rather than the others I saw him in, and maybe because of that, but I also believe in being in the Arena, his happiness was evident in every step, every note, every thanks, always valuing the audience, the Orchestra and the Master. At the end of the aria Largo al factotum, when I no longer expected an encore, behold, from the audience, after thunderous applause, requests for an encore arrived. Magic! He scratched one of the high notes at both times but perfect in everything else. Making a real "run-of-the-mill", he continues to show that when one lives life with humility, without snobbery, without seeking easy fame, based on work, dedication and passion for Music and Opera for more than 50 years, Life (and, for me, God) gives back the privilege of "a little more."

His peers were of top quality, one night being "his" just so he was because they were "theirs." We still have some opportunities to listen to him before this bittersweet day that will be September 22, 2019. I hope to be able to participate in his energy and passion until then. With what I have seen and with what, God willing, is still to come, one thing I can always remember - 2018 was, is and will always be for me, Year Nucci!


Text by wagner_fanatic

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

IL BARBIERE DI SIVIGLIA, Opéra National de Paris (Bastille), 20/09/2014, texto de José António Miranda


(Fotografia Bernard Contant /ONP)

Il Barbiere di Siviglia, ópera em dois actos de Gioacchino Rossini está em cena na Ópera National de Paris (Bastille).
Libreto: Cesare Sterbini, segundo a comédia de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais
Direcção musical: Carlo Montanaro
Encenação: Damiano Michieletto
Cenografia: Paolo Fantin
Roupas: Silvia Aymonino
Luzes: Fabio Barettin
Il Conte d’Almaviva: René Barbera
Bartolo: Carlo Lepore
Rosina: Karine Deshayes
Figaro: Dalibor Jenis
Basilio: Orlin Anastassov
Fiorello: Tiago Matos
Berta: Cornelia Oncioiu
Um oficial: Lucio Prete
Orchestre de l’Opéra national de Paris
Choeur de l’Opéra national de Paris  Dir: José Luis Basso
Produção: Grand Théâtre de Genève

Uma lufada de ar fresco esta produção do “Barbeiro” que a ópera de Paris foi buscar a Genève, O mérito é todo de Damiano Michieletto, o encenador, e este espectáculo confirma-o como um dos mais estimulantes autores do panorama operático europeu actual. Juntamente com o cenógrafo Paolo Fantin e a figurinista Silvia Aymonino, Michieletto consegue apresentar-nos a obra de Rossini como se estivéssemos a ver a ópera pela primeira vez.

                                             (Fotografia Bernard Contant /ONP)

E não é apenas o facto de ter transposto para a actualidade o tempo da acção, artifício vulgar nos dias de hoje, e nos apresentar como cenário uma rua de um bairro popular sevilhano, que fundamenta aquela sensação de actualidade. Em primeiro lugar, tudo aquilo que se passa em cena decorre a um ritmo vertiginoso que nos identifica de imediato com o estilo contemporâneo da vida urbana, e que é afinal o tempo da música rossiniana,

Para além deste facto, o sucessivo encadeamento de cenas da ópera, que nas versões cénicas tradicionais pode por vezes aparecer como um conjunto de números brilhantes colados uns aos outros por enfadonhas pausas de recitativos, surge aqui com uma fluência a que não estamos habituados no palco. Esta fluência resulta do tratamento cénico da obra: encenador e cenógrafo abordam a ópera numa perspectiva cinematográfica, e desse modo toda a acção ganha uma nova dinâmica adquirindo consistência e unidade globais.

                                           (Fotografia Bernard Contant /ONP)

Como no cinema, a montagem é aqui o elemento fundamental para a obtenção de uma coerência global da obra. Neste caso, a mobilização do cenário introduz uma terceira dimensão espacial na narrativa, que deixa de ser vista como um conjunto de quadros justapostos e surge como uma verdadeira sequência cinematográfica. A forma como encenador e cenógrafo conseguem este efeito demonstra, para além do domínio da habilidade técnica, grande inteligência. Esta revela-se em momentos brilhantes, como a encenação da famosa ária Largo al factotum como uma vertiginosa corrida por todo o prédio de Bartolo, como um verdadeiro plano-sequência de filme, ou a localização da ária La calunnia na passagem de um vão de escada, com a paralela ilustração contemporânea da chuva de tablóides que acompanha o seu final.

Também o desempenho cénico dos intérpretes reflecte a proposta do encenador e a sua perspectiva global da obra, num registo naturalista mais característico de alguma estética cinematográfica do que da convenção teatral. São deliciosas as cenas finais do primeiro acto, bem  como a utilização de um dos elementos da guarda para, antes do início da função, multar o teclista no fosso por desobediência.

A direcção de Carlo Montanaro, apesar de revelar por vezes alguma dificuldade em controlar orquestra e cantores, não obstruiu o brilho geral do espectáculo.

                                        (Fotografia Bernard Contant /ONP)

Dalibor Jenis fez um Figaro correcto, demonstrando que suporta muito bem a passagem do tempo. Já Karine Deshayes (Rosina), revelou-se um pouco velha para o papel. René Barbera, o conde de Almaviva, mostrou grandes qualidades vocais, mas menor capacidade cénica. Os baixos Bartolo e Basilio estiveram bem. Foi porém Cornelia Oncioiu, no papel de Berta, que brilhou no conjunto, pelo apogeu vocal e à vontade cénico exibidos. 
O jovem português Tiago Matos (Fiorello) confirmou tratar-se de um barítono a cuja carreira haverá que estar atento.

José António Miranda


Em nome dos “Fanáticos da Ópera” agradecemos a José António Miranda a sua óptima contribuição, esperando que esta seja uma primeira de várias que venham a enriquecer este espaço.

sábado, 28 de julho de 2012

Le Nozze di Figaro – Royal Opera House, 14 Fevereiro 2012

(review in english below)



Pela terceira vez, desde 2006, tive o prazer de voltar a ver a produção de “As Bodas de Fígaro” de David McVicar, na Royal Opera House – encenação disponível em DVD com o elenco original, clássica, e um prazer de se assistir, principalmente com cantores de nível estrelar como os deste ano.

Ildebrando D’Arcangelo faz um Fígaro notável. A sua expressividade cénica é muito boa e cómica, alque que, por culpa de outros encenadores, não transparece nas duas gravações disponíveis em DVD com a sua interpretação deste papel.

Aleksandra Kurzak foi simplesmente fabulosa no papel de Susana. A sua ária “Deh vieni non tardar” foi de uma perfeição de arrepiar, marcando um ponto alto de toda a sua interpretação.


A grande expectativa para esta produção era ver como Rachel Willis-Sorensen e Lucas Meachem substituíriam Kate Royal e Simon Keenlyside, inicialmente anunciados para a produção mas que acabaram por sair por razões pessoais. A resposta é simples: brilhantemente! Uma Condessa vocalmente poderosa e um Conde americano capaz do melhor do ponto de vista cénico, aliando uma voz também potente e expressiva, tudo saído de um porte físico convincente – deve medir para aí 2 metros de altura.


Anna Bonitatibus fez um Cherubino adorável, e parece ter perdido o vibrato incomodativo que lhe conheci na gravação de Zurique do Così fan tutte, disponível na Arthaus.


Ann Murray e Carlo Lepore estiveram excelentes como Marcellina e Bartolo.


Dos papéis mais secundários não posso deixar de enaltecer a magnífica voz da portuguesa Susana Gaspar. O timbre é bonito e puro. Sente o que canta e apaixona quem a vê. Excelente Barbarina a cheirar a potencialidade breve para fazer a personagem com o seu nome… Senti um grande orgulho de ler no programa a sua biografia e encontrar escrito “Portugal”, “Teatro Nacional de São Carlos”, “Lisboa”, “Mafra”, “Quinta da Regaleira”… Quantos mais lusos não estariam a nível similar e a poder cantar nestes palcos se tivessem mais oportunidades?...


Quem criticou em Londres este reviver da Trilogia Da Ponte por ser um repetir de produções que têm estado muito presentes na Royal Opera House, e se teve a possibilidade de assistir a estas récitas, deve estar a lamentar tê-lo feito. As récitas foram impecáveis e parece-me, no mínimo inteligente, fazer render estas produções de sucesso e, em vez de gastar dinheiro em novas, conseguir estes artistas para as interpretar. Bravo!



Le Nozze di Figaro – Royal Opera House - February 14, 2012

For the third time since 2006, I had the pleasure to see again the production of "The Marriage of Figaro" by David McVicar at the Royal Opera House – production available on DVD with the original cast, classic, and a delight to watch, especially with singers with the star level of this year.


Ildebrando d’Arcangelo is a remarkable Figaro. His expression is very good and his comic sense is superb, something that is not is not evident in the two recordings available on DVD with his interpretation of this paper.


Aleksandra Kurzak was simply fabulous in the role of Susanna. Her aria "Deh vieni non tardar" was perfect, marking it a high point of her whole interpretation.


The great expectations for this production was to see how Rachel Willis-Sorensen and Lucas Meachem would replace Kate Royal and Simon Keenlyside, originally announced for the production but who ultimately quit for personal reasons. The answer is simple: brilliantly! A Countess and Count vocally powerful capable of the best from the scenic point of view, combining with a powerful and expressive voice.


Anna Bonitatibus made a lovely Cherubino, and she seems to have lost her troublesome vibrato present in the Zurich recording of Così fan tutte, available on Arthaus label.



Ann Murray and Carlo Lepore were excellent as Marcellina and Bartolo.



Of the secondary roles, I can’t stop praising the magnificent voice of the portuguese Susana Gaspar. The tone is beautiful and pure. She feels every word she sings. An excellent Barbarina with the potential to make the character with her name... I felt a great pride when I read her biography in the program and saw words and places like "Portugal", "Teatro Nacional de São Carlos," "Lisboa", "Mafra" "Quinta da Regaleira"... How many more portuguese opera singers would not be in a similar level and able to sing on these stages if they had more opportunities?...


The ones who criticized this revival of Da Ponte trilogy, mainly because of the repetition of old productions, must be regretting having done so. The productions were great and it seems to me a very smart move to make use of such good and successful productions, using the money to get fine artists like the ones here, instead of spending money on new ones. Bravo!