segunda-feira, 22 de março de 2010

IL BARBIERE DI SIVIGLIA, The Israeli Opera, Tel-Aviv-Yafo, Março de 2010

O Barbeiro de Sevilha foi a minha primeira experiência operática em Israel. A ópera de Tel-Aviv é, na sua arquitectura exterior, um edifíco moderno e de grande beleza. Contudo, a sala de espectáculos é escura e pouco atraente. Foi uma experiência interessante assistir a este espectáculo onde grande parte do público era jovem e, apesar de ser uma estreia, a informalidade dominou.


Como nota muito negativa apenas o facto de, começado o espectáculo (e mesmo depois do intervalo) ser permitido aos atrasados tomarem os seus lugares.



A produção moderna, de Mariame Clément, deixou-me sentimentos contraditórios. A acção é passada nos dias de hoje, nos subúrbios de um qualquer lugar, num modesto consultório dentário (do Dr. Bartolo) onde, face à rotatividade do palco, são visíveis outras partes da casa. Rosina, na sua primeira aria (una voce poco fà), está na cama a depliar-se e faz coincidir as notas mais agudas com os momentos em que arranca os “adesivos” de depilação. No final, acaba por depilar também parte do seu urso de peluche. Ao longo da récita vêem-se personagens dentro de caixotes de lixo ou a urinar na parede (Fígaro e Almaviva), sentadas na sanita (Rosina) e na cama (Almaviva e Rosina), entre outras situações menos comuns. Mas a coisa até tem alguma graça e o guarda roupa, kitsch, também está bem escolhido para o enquadramento criado.
A orquestra, dirigida por George Pehlivanian, ao contrário do que esperava, esteve aquém das minhas expectativas, limitando-se a cumprir a partitura, sem brilho.


Os cantores, com uma excepção, estiveram muito bem e à altura dos papeis que representaram.
Lionel Peintre, barítono francês, foi o Dr. Bartolo. Esteve bem cenicamente e também vocalmente, embora revelando algumas dificuldades nas partes mais exigentes, sobretudo aquelas que obrigam a grande agilidade vocal. Também Ugo Guagliardo (baixo italiano) teve uma boa prestação como Don Basilio e a aria da calúnia foi particularmente bem cantada. Javier Abreu, americano, encarnou o Conde de Almaviva e foi o único que esteve muito aquém das exigências da personagem. A voz é pequena, revela grandes dificuldades nos agudos e é desastroso na coloratura. Oliver Grand (francês) foi Figaro e mostrou possuir uma voz de barítono de grande extensão, capaz de encher qualquer teatro de ópera e foi também muito bom em cena. Shira Raz, mezzo israelita, cantou e representou bem o papel de Berta, mas a noite foi do soprano israelita Chen Reiss que foi a Rosina. Possuidora de uma excelente voz, bem projectada, bom timbre e segura em toda a extensão do registo vocal, mostrou também ser uma excelente actirz.
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Tamerlano - Royal Opera House, Covent Garden - Londres - 20 Março 2010

Handel espectacular este fim-de-semana em Londres (Royal Opera House, Covent Garden)!!!

Comprei bilhetes em Setembro para esta produção. Lembro-me das duas opções no site: "Tamerlano with Kurt Streit" e "Tamerlano with Domingo". Claro está que, como grande fã do Maestro (aparte de ser também grande wagneriano), escolhi "Tamerlano with Domingo" No final de Fevereiro recebi a triste notícia de que, por problemas de saúde, Domingo não iria cantar nesta produção. Frustração completa! Não foi por Handel que decidi ir a Londres, foi por Domingo. Tudo parecia menos interessante agora. Confesso que a ideia de ir foi a de não perder o dinheiro já investido, em passagens low-cost (como quase sempre e com grande antecedência) e nos próprios bilhetes (na gama dos mais em conta mas em lugar onde se vê bem - Anfiteatro - com sorte nas primeiras filas por ser Friend of Covent Garden) embora me tenham oferecido 20% de desconto num vale por Domingo já não cantar (nem todas as casas de Ópera o fariam - tiro o chapéu à Royal Opera que considero a minha Casa de Ópera Mãe por me ter estreado em Julho de 2005 na Ópera ao vivo lá, com uma então espectacular Valquíria - Placido Domingo, Waltraud Meier, Bryn Terfel).

Antes ainda de começar, um pequeno papel no programa e mais tarde uma figura feminina em palco, dão conta que Christianne Stotijn não cantaria e seria substituída por Tara Vendetti.

Confesso que não sou versado em Handel. Tenho alguns CDs com árias (sim, incluíndo o do Villazon... não o considero tão mau como muitos pensam neste repertório) e algumas que prefiro mas nunca tinha assistido a nenhuma ópera deste compositor ao vivo.

No lugar de Domingo estava então Kurt Streit, que acordou em cantar as récitas de Domingo para além das suas a 13 e 17 de Março. Nunca pensei dizer isto mas acho que a récita tinha sido pior de Domingo tivesse cantado. Kurt Streit foi espectacular. Voz perfeita para Handel, ao contrário de Domingo que, pelos excertos que vi no youtube canta Handel como se fosse Verdi, com a sua voz não limpida e por vezes arfada quando tenta transmitir o sentimento. Isso não funciona em Handel, como penso que todos concordarão. Mas não se pense que Streit não foi capaz de transmitir emoção. Claro que sim, e sem perder a beleza na voz. Só achei que parecia demasiado novo em palco para imaginarmos que era pai de Asteria, mas o que é isso ao pé do que se ouviu? Nada de importante.




Asteria foi cantada por Christine Schafer. Como a única coisa que ouvi dela previamente foi um CD de árias de Mozart e Strauss, pareceu-me que cantava Handel mas soava-me a Mozart. Este sentimeto dissipou-se ao longo da ópera e logo no 1º acto. Que voz espectacular. conseguiu sem dúvida transmitir o drama interior da personagem (apaixonada por Andronico e ter de casar com Tamerlano por vontade deste, contra o pai Bajazet, e contra a sua própria vontade, tendo tentado matar Tamerlano com punhal, depois com veneno, quase obrigada a escolher em matar o pai ou o seu amante... enfim... quem conhece sabe o que refiro, quem não conhece acha que isto é um contínuo de parvoíces...).
A grande surpresa para mim foi Sara Mingardo. Haverá melhor voz para o papel que ela? Que contralto!!! Soberbo!!! Fico fã e espero poder ter a possibilidade de a ouvir novamente. Voz forte, rica, timbre único e capacidade emotiva superlativa.


Tara Vendetti, embora substituta, esteve igualmente espectacular como Tamerlano. Voz de mezzo perfeita!! Excelente actriz!!! Mais uma boa surpresa.


Renata Pokupic, desconhecida para mim, surpreendeu (mais uma vez igualmente) com uma voz fantastica, potente, emotiva. Viva aos Mezzo-sopranos e Contraltos - esta é a ópera deles (talvez outras existam mas ainda não as conheço)!!!

A encenação de Graham Vick (aquele que "baralhou" a sala do São Carlos para um Anel que foi das melhores coisas que tivemos neste teatro nos últimos anos), jogando com preto e branco, meio clássica no traje, meio abstracto no resto, foi interessante e não desorientadora. Houve até um pequeno apontamento de humor, embora por erro técnico. Um dos elefantes azuis que foram andando no palco durante o 1º acto acabou por tombar e lá foram conseguindo endireitá-lo de forma a que concluísse o percurso. Muitos se riram, enquanto Christine Schafer nos brilhantava com uma das árias... eu incluído (sorry...).

A Orquestra (Orchestra of the Age of Enlightenment) esteve à altura das vozes, sem falhas, guiada soberbamente por Ivor Bolton, mostrando-me algo que tinha de certa maneira esquecido com tanto Wagner e Verdi (após muito tempo de Bach...): o barroco foi um dos períodos mais produtivos e imaginativos da História da Música, com árias capazes de nos penetrar a alma e de lá não sair para sempre.


Obrigado Handel!!!


quarta-feira, 17 de março de 2010

Ópera de Paris (Bastille e Palácio Garnier) - Temporada 2010-2011



No passado dia 10 de Março foi dada a conhecer a nova temporada da Ópera de Paris 2010-2011.

Para os amantes de Wagner este poderá ser um dos destinos possíveis.

Um Holandês Voador e o completar do Anel do Nibelungo iniciado nesta temporada (Ouro de Reno em cena e em Maio - Junho a Valquíria) com Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses.

Mas nem só de Wagner vive a temporada.

Não sendo pessoalmente um profundo conhecedor profundo de muitas das representações que subirão ao palco, ousarei humildemente dar a minha opinião sobre o que me parece poder vir a ser o melhor.

Pontos fortes:
Holandês Voador - Richard Wagner (Setembro - Outubro 2010):
Matti Salminen: Daland
Adrianne Pieczonka: Senta
Klaus Florian Vogt: Erik
Marie-Ange Todorovitch: Mary
Bernard Richter: Der Steuermann
James Morris: Der Höllander

Elenco wagneriano por excelência para uma das primeiras óperas de Wagner.

Matti Salminen tem historial wagneriano de peso (ainda não tive a oportunidade, infelizmente, de o ver em palco... esperança caiu por terra no Tristão de Londres em Outubro de 2009 por ter feito cirurgia ao joelho) e fará por certo um Daland convincente. James Morris, embora já não com a qualidade vocal de outros tempos em que se passeava pelo palco do Met como um dos melhores Wotans de todos os tempos, poderá ser uma boa surpresa (surpresa na medida da idade e ainda conseguir convencer) ou uma grande desilusão. Algumas deficiências, principalmente na ausência de graves, foi visível na recente transmissão do Simon Boccanegra do Met, ao lado de Plácido Domingo. Na mesma récita ouviu-se Pieczonka que transmitiu um lirismo interessante como Amelia mas não sei se conseguirá transmitir a obecessão e ao mesmo tempo a ingenuidade amorosa de Senta.

Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses - Richard Wagner (Março e Junho 2011)
Torsten Kerl: Siegfried
Wolfgang Ablinger-Sperrhacke: Mime
Juha Uusitalo: Der Wanderer
Peter Sidhom: Alberich
Stephen Milling: Fafner
Qiu Lin Zhang: Erda
Elena Tsallagova: Waldvogel
Katarina Dalayman: Brünnhilde
Iain Paterson Gunther
Hans-Peter König: Hagen
Christiane Libor Gutrune, Troisième Norne
Sophie Koch: Waltraute
Nicole Piccolomini: Première Norne, Flosshilde
Caroline Stein: Woglinde
Daniela Sindram: Wellgunde

Se olharmos para os nomes a negrito, facilmente encontramos dos melhores cantores wagnerianos da actualidade.

Juha Uusitalo é um dos melhores Wotans que podemos desejar ver no presente, embora para mim, o melhor e o a se procurar sempre seja Bryn Terfel (pena o cancelamento passado em Londres... mas regresso em Nova Iorque já este ano...). Peter Sidhom fez este papel no Anel de Londres 2007 e tem o carisma, o timbre e a capacidade cénica para um Alberich ao mais alto nível. Torsten Kerl possui uma voz limpa e clara de clássico Heldentenor, como se pode assistir no papel de Erik no Holandês de Londres 2009. A presença de Matti Salminen como Hagen tornaria este elenco ainda mais forte, embora assuma que Hans Peter Konig poderá fazer um bom papel.

Ariadne auf Naxos - Richard Strauss (Dezembro 2010)

Franz Mazura: Der Haushofmeister
Detlev Roth: Ein Musiklehrer
Sophie Koch: Der Komponist
Stefan Vinke: Der Tenor (Bacchus)
Xavier Mas: Ein Tanzmeister
Vladimir Kapshuk: Ein Perückenmacher
Diana Damrau: Zerbinetta
Ricarda Merbeth: Primadonna (Ariadne)

Elenco cheio de celebridades para esta ópera de Strauss. Não sabia que Franz Mazura ainda se arriscaria a participar numa ópera (???!!!!) Tem 86 anos... :) Detlev Roth é um perito em Mozart e Wagner (presentemente faz o papel de Amfortas no Parsifal do Festival de Bayreuth e, este mês, na Ópera de Genebra). Sophie Koch, mezzo expressivo e potente, será uma boa aposta no papel de compositor. Quem se recorda de Stefan Vinke, o nosso Siegfried de Lisboa, Anel do São Carlos? Dúvidas sobre o seu brilhantismo? Acho que não temos. Diana Damrau é uma das minhas paixões mais recentes depois de um Elixir do Amor ao lado de Giuseppe Filianoti em 2009 em Londres: excelente voz, magnífica actriz, culminando numa beleza e charme arrebatadores... A não perder!!!

As Bodas de Fígaro - W.A. Mozart (Outubro - Novembro e Maio-Junho 2011)

Christopher Maltman: Il Conte di Almaviva
Dorothea Röschmann: La Contessa di Almaviva
Erwin Schrott: Figaro
entre outros...
A escolher elenco de Maio - Junho (principais intérpretes em cima - Peritos em Mozart!!!).

Otello - Giuseppe Verdi (Junho - Julho 2011)

Aleksandrs Antonenko: Otello
Lucio Gallo / Sergei Murzaev: Jago
Michael Fabiano: Cassio
Renée Fleming / Tamar Iveri: Desdemona

Nunca assisti a Antonenko como Otello ao vivo mas já tive oportunidade de ver excertos da sua interpretação moura e acho um pouco rude demais. Renée Fleming fez parte do melhor Otello que assisti embora e infelizmente só em DVD - produção do Met em 1996 com Placido Domingo e James Morris nos papeis principais (disponível na Deutsche Grammophon), altamente recomendável. Não sei se estará ao nível neste papel e neste momento...

Pode-se conhecer por completo a temporada em:

http://www.operadeparis.fr/cns11/live/onp/Saison_2010_2011/Operas/index.php?lang=fr


Boa pesquisa!

segunda-feira, 8 de março de 2010

METropolitan OPERA, Nova Iorque, 2010-2011


Foi recentemente anunciada a nova temporada do Met 2010-2011. Podem consultar-se todos os pormenores em:
http://www.metoperafamily.org/metopera/
É mais uma temporada excelente que conta com 28 produções, onde apenas a ópera barroca não está incluída. Como seria de prever, actuarão muitos dos cantores mais notáveis da actualidade.


Arrisco um “top 10” (embora tivesse vontade de apontar um “top 20”) com base nas obras, intérpretes e preferências pessoais, por ordem de aparecimento em cartaz:
- Das Rheingold
- Don Pasquale
- Don Carlo
- Simon Boccanegra
- Lucia di Lammermoor
- Roméo et Juliette
- A Dama de Espadas
- Le Comte d’Ory
- Il Trovatore (elenco de Abril)
- Die Walküre


Para quem quiser e puder passar um fim de semana alargado (ida à Quinta-feira e regresso no Domingo) que permite assistir a 4 óperas, aqui vão sugestões para cada mês, referindo os cantores que, em minha opinião, poderão proporcionar interpretações marcantes:

- Outubro - dias 28, 29 e 30 – La Bohème (Maija Kovalevska, Vittorio Grigolo) , Don Pasquale (Anna Netrebko), Boris Godunov (René Pape) e Il Trovatore (Patricia Racette, Marcelo Álvarez).

- Novembro – dias 11, 12 e 13 ou 18, 19 e 20 – Carmen (Elina Garanca), Il Trovatore (Patricia Racette, Marcelo Álvarez) , Così Fan Tutte (Miah Persson, Danielle de Niese) e Don Pasquale (Anna Netrebko).

- Dezembro – dias 2, 3 e 4 – Così Fan Tutte (Danielle de Niese), Don Carlo (Simon Keenlyside, Ferruccio Furlanetto, Eric Halfvarson), La Bohème (Krassimira Stoyanova, Joseph Calleja) e Carmen (Elina Garanca).

- Janeiro – dias 20, 21 e 22 ou 27, 28 ou 29 (Um verdadeiro fim de semana verdiano!) – Simon Boccanegra (Dmitri Hvorostovsky, Barbara Frittoli, Ferruccio Furlanetto), Tosca (Sondra Radvanovsky, Marcello Álvarez), Rigoletto (Carlos Alvarez, Joseph Calleja) e La Traviata.

- Fevereiro – dias 24, 25 e 26 (Para os amantes do belcanto) – Lucia di Lammermoor (Natalie Dessay, Joseph Calleja, Kwangchul Youn), La Bohème (Maija Kovalevska), Iphigénie en Tauride (Susan Graham, Plácido Domingo, Paul Groves) e Armida (Renée Fleming).

- Março – dias 24, 25 e 26 – Le Comte d’Ory (Juan Diego Flórez, Diana Damrau, Joyce DiDonato), Tosca (Violeta Urmana, Salvatore Licitra), A Dama de Espadas (Karita Mattila, Dolora Zajick) e Roméo et Juliette (Angela Gheorghiu, Piotr Beczala).

- Abril – dias 21, 22 e 23 - Le Comte d’Ory (Juan Diego Flórez, Diana Damrau, Joyce DiDonato), Die Walküre (Deborah Voigt, Eva Maria Westbroek, Jonas Kaufmann, Bryn Terfel), Capriccio (Renée Fleming, Sara Connolly), Il Trovatore (Sondra Radvanovsky, Dolora Zajick, Marcelo Álvarez, Dmitri Hvorostovsky).


Se viermos a ter hipótese de assistir ao Met Live em HD o programa é:
Das Rheingold, 9 de Outubro
Boris Godunov, 23 de Outubro
Don Pasquale, 13 de Novembro
Don Carlo, 11 de Dezembro
La Fanciulla del West, 8 de Janeiro
Iphigénie en Tauride, 26 de Fevereiro
Lucia di Lammermoor, 19 de Março
Le Comte d´Ory, 9 de Abril
Capriccio, 23 de Abril
Il Trovatore, 30 de Abril
Die Walküre, 14 de Maio

domingo, 7 de março de 2010

Tristan und Isolde - Gran Teatre del Liceu - Barcelona - 20 Fevereiro 2010




Um Tristão e Isolda sem sal em Barcelona.

A encenação, da qual já havia visto imagens no site do Liceu e me parecia algo diferente do habitual, deixando-me com curiosidade, penso que foi um ponto fraco e que em nada ajudou no viver desta récita. Parecia mais uma encenação para o Hansel und Gretel do que propriamente para um Tristão e Isolda. Muito infantilizado em termos de cores, arquitectura, etc, ao contrário do tema da ópera que até é bastante sério. Tudo muito curvilíneo (com graça até muito Gaudiano...).

Em relação ao publico, muito mau. Sebastian Weigle teve de começar a ópera 2 vezes porque alguém se esqueceu de desligar o telemóvel... muita tosse (no solo de oboé do início do 3º acto devem ter tossido 50 vezes, sem exagero), muitos shsss!!! Muitas vozes em surdina... Muitas "damas" com pulseiras de argolas que chocalham ao mínimo movimento... horrível!! Não foi pior que em Sevilha mas esteve quase lá. Aqui não tivemos nenhuma mulher a descalçar frequentemente um sapato de salto alto e a batê-lo no chão... mas esteve lá quase.



Em relação aos cantores:

Deborah Voigt não enche as minhas medidas como Isolda. Não sei explicar mas a expressão mais popular do "não tem sal" é o que me vem à cabeça. Não gostei simplesmente e acho que isso me impediu, juntamente com a encenação e arredores de disfrutar da ópera.

Peter Seiffert finalmente largou o tradicional bigode espesso que lhe dava um ar muito antiquado. Esteve vocalmente muito bem. Boa dicção, agudos fortes sobre a orquestra, cenicamente credível.

Bo Skovhus, que havia feito um Sixtus Beckmesser bastante bom nos Mestres do ano passado também em Barcelona, estragou um pouco a interpretação com um excesso de maneirismos cénicos que não eram muito apropriados. Não foi como Michael Volle no Tristão em Londres (que recebeu até um prémio por essa actuação...). Todo ele parecia um fantoche e a dicção muito fraca na maioria das passagens (não sei alemão com perfeição mas conheço o que vão dizendo...).

O grande peso pesado foi o rei Marke de Kwanchoul Youn. Este coreano é um baixo à baixo. Soberbo no Lohengrin de Londres (apesar do défice de encenação), soberbo como Fiesco no Simão em Berlim e agora um Marke vocalmente marcante. Gostei mais no 2º acto. No 3º muito estático e pouco sentimento na voz mas mesmo assim, superando muitos dos pontos fracos que vivi ao longo da ópera.

A orquestra e Sebastien Weigle estiveram bem, como esperava encontrar depois da produção do ano passado, sem desilusões neste ponto.

Lohengrin - Deutsche Oper Berlim - 13 Fevereiro 2010

Encontro de novo com... Ben Heppner. Nada semelhante ao que se viu em Londres no Tristão e Isolda - Outubro 2009, onde a voz falhou desde o final do 1º acto até ao fim. Esteve muito bem vocalmente (um ou outro "tremor" da voz em algumas passagens, fruto de não "limpar" a garganta como Domingo hoje em dia faz em Wagner, aí umas 50 vezes / récita...) mas sem ir buscar a voz muito aos brônquios como quem vai literalmente cuspir notas. Cenicamente um pouco rígido nas marcações de palco mas superou tudo isso com a parte vocal.

A Elsa foi Ricarda Merberth que esteve igualmente muito bem, aparte de algumas caretas a cantar.

Destaco o grande motivo que me levou a ver este Lohengrin - Waltraud Meier. Finalmente completo um ciclo de a ver como Sieglinde, Isolda, Kundry e agora Ortrud. É realmente uma referência em Wagner. Nota-se, comparativamente às vezes que a vi em palco, que tem dias para o seu timbre. Aqueles agudos com uma sonoridade que não engana ao se pensar que vem do seu aparelho vocal, soam mais belos ou mais gritados, consoante o dia... Aqui esteve um misto que se aplica até bem à personagem. O final, na despedida de Lohengrin, foi particulamente bonito o efeito que deu na voz... parestesias... E a excelente actriz que é! 2º acto soberbo! A encenação também muito tradicional, mais ainda que o Tannhauser. Achei particularmente conseguido o final do 2º acto, quando antes de entrar na igreja para se casar com Lohengrin, Elsa não resiste a olhar para trás e foca nos olhos Ortrud... a dúvida de quem é e de onde vem o cavaleiro... O maior grau de parestesias foi aí, e curiosamente não por um momento unicamente musical, mas sim cénico (interessante...).

O Coro mais uma vez soberbo!!!



Tannhauser - Deutsche Oper Belim - 12 Fevereiro 2010


Não tendo disponibilidade de tempo e dinheiro para completar uma semana (diga-se 5 dias) de Wagner na Deutsche Oper (Rienzi, Navio Fantasma, Tannhauser, Lohengrin e Mestres Cantores), optei (em Abril do ano passado) em compara bilhetes para Tannhauser e Lohengrin.

Tannhauser


Sensação mista - Stephen Gould foi espectacular como Tannhauser; um verdadeiro Heldentenor, que conhecia apenas pelas gravações da antena2 de Bayreuth. Desde o início até ao fim mantendo excelente qualidade vocal e interpretativa. Apesar de ser um peso pesado (menos que o Johan Botha, acho), mexe-se bem e disfarçava-se bem no traje. Muito bom, boa surpresa ao vivo.


Nadja Michael fez de Vénus e de Elisabete. Esteve melhor enquanto Vénus. Como Elisabete falta-lhe alguma tessitura e acabou por gritar 2 ou três vezes. Não aprovo muito estas manias de fazerem os dois papeis pela mesma cantora mas enfim... Não fiquei particularmente fã da senhora.


A grande desilusão foi Dietrich Henschel. Ouvi o senhor na Gulbenkian há uns anos nas Cenas de Fausto de Goethe de Schumann. Na altura o timbre lembrava o de Fischer-Dieskau, embora sem comparação máxima possível. Grande desilusão. Embora cenicamente bem, cantou um Wolfram em força mas sem voz. As passagens do 3º acto em que se pede lirismo, ofereceu rudeza, indo buscar a voz, por vezes, a uma rouquidão lá do fundo dos brônquios principais (...). A encenação também foi algo ingrata para ele no 3º acto: começou a cantar em cima do cavalo mas no fundo do palco... resultado? Não se ouviu nada de uma das melhores passagens vocais da personagem. Até um senhor à nossa frente se virou para o lado (para a esposa que devia ser crítica de ópera ou coisa do género porque esteve quase sempre a tirar notas...) e fez o tradicional gesto de indicador aproximado do polegar em distância curta. Este mesmo fez o tradicional som gutural de reprovação aquando da "puxada brônquica" que já referi.


A encenação foi meio clássica meio moderna - palco preenchido, contudo. Sem grandes controvérsias aparentes mas também não perdi muito tempo a pensar no que significaria tudo. Pode ser visto no site da casa de Ópera um pequeno video de resumo para quem quiser ter uma ideia.




A Orquestra espectacular e o Coro sublime. Sem dúvida do melhor possível em Wagner, aos meus olhos. A Orquestra espectacular e o Coro sublime. Sem dúvida do melhor possível em Wagner, aos meus olhos.