segunda-feira, 27 de junho de 2022

ANDREA CHÉNIER, Teatro de São Carlos, Lisboa / Lisbon, Junho / June 2022

(Text in English below)

A ópera que muito gosto Andrea Chénier de U Giordano com libreto de Luigi Illica retrata o período da Revolução Francesa, suas esperanças e horrores. Numa festa no castelo da família, a jovem aristocrata Maddalena de Coigny, filha da condessa, é presenteada com um poema pelo generoso poeta Andrea Chénier, que defende a liberdade, amor e poesia. O mordomo Gérard queixa-se do luxo em que a família vive e demite-se. Em Paris começa a revolução mas os convidados ignoram-no. Anos mais tarde, o antigo mordomo, agora um revolucionário que quer vingar-se da opressão e injustiça, luta com Chénier por Maddalena, por quem estão ambos apaixonados. Gérard, contudo, avisa o poeta que é procurado como contra-revolucionário. Num tribunal revolucionário Chénier é condenado e Gérard é obrigado a assinar a condenação. Maddalena oferece-se em troca da vida de Chénier e comove Gérard quando relata a crueldade do povo francês no terror da revolução, ao assistir à morte da sua mãe, queimada viva. Aceita o amor de Chénier e são ambos condenados à morte pela guilhotina.

A encenação de Sarah Schinasi foi convencional, simples e eficaz. 

A Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção de Antonio Pirolli, cumpriu com qualidade, merecendo realce a harpista Carmen Cardeal que tocou maravilhosamente nesta partitura em que a harpa é instrumento essencial e tem alguma da mais bela música.




Um protagonista importante é o povo francês (representado pelo coro) com um papel decisivo na evolução dos acontecimentos revolucionários. O Coro do Teatro de São Carlos esteve bem.


Em relação aos solistas, infelizmente, a récita deixou muito a desejar.

O barítono Claudio Sgura foi Gérard e o único com um desempenho capaz. Tem uma voz bem audível e de timbre agradável. Na ária do 3º acto Nemico della patria foi emotivo e convincente.

O tenor Marco Berti foi um Andrea Chénier com má presença em palco. A voz está muito desgastada, o timbre é agradável mas, em esforço, perde qualidade porque ou não aguenta ou grita. E emotividade foi algo que nunca transpareceu.

A soprano Svetla Vassileva, em substituição de Elisabete Matos, foi uma Maddalena pouco dada a representações cénicas e com uma prestação vocal muito aquém do desejável. Ou não se ouvia ou, no registo mais agudo, a estridência incomodava. A belíssima aria La mamma morta foi decepcionante. (Sei que ter Maria Callas como referência para esta ária é impiedoso para as outras cantoras, mas... non troppo). E emoção foi algo inexistente, viver ou morrer foi idêntico em palco. 



Nos papéis secundários estiveram Maria Luísa de Freitas (Bersi), Cátia Moreso (Condessa de Coigny / Madelon), José Corvelo (Roucher), Christian Luján (Mordomo / Fouquier Tinville) sempre bem, Luis Rodrigues (Mathieu) também bem, Sérgio Martins (Abade) e João Oliveira ( Dumas / Schmidt).

Uma última nota sobre as biografias apresentadas nos programas de sala. Os cantores solistas são sempre os mais aclamados em todo o mundo, sempre requisitados para os grandes teatros de ópera mundiais, etc. etc.  Haja algum pudor no que se escreve!! Nem todo o público que ainda resiste e vai ao São Carlos é desconhecedor do mundo da ópera...



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ANDREA CHÉNIER, Teatro de São Carlos, Lisbon, June 2022

The opera I really like Andrea Chénier by U Giordano with a libretto by Luigi Illica portrays the period of the French Revolution, its hopes and horrors. At a party in the family castle, the young aristocrat Maddalena de Coigny, daughter of the countess, is presented with a poem by the generous poet Andrea Chénier, who defends freedom, love and poetry. The butler Gérard complains about the luxury in which the family lives and resigns. In Paris the revolution begins but the guests ignore him. Years later, the former butler, now a revolutionary who wants revenge for oppression and injustice, fights with Chénier for Maddalena, with whom they are both in love. Gérard, however, warns the poet that he is wanted as a counter-revolutionary. In a revolutionary court Chénier is condemned and Gérard is forced to sign the sentence. Maddalena offers herself in exchange for Chénier's life and moves Gérard when he recounts the cruelty of the French people in the terror of the revolution, when he witnessed the death of his mother, burned alive. She accepts Chénier's love and they are both sentenced to death by the guillotine.

Sarah Schinasi's staging was conventional, simple and effective. The Orquestra Sinfónica Portuguesa, under the direction of Antonio Pirolli, performed with quality, with emphasis on the harpist Carmen Cardeal who played wonderfully in this score in which the harp is an essential instrument and has some of the most beautiful music.

An important protagonist is the French people (represented by the choir) with a decisive role in the evolution of revolutionary events. The Coro do Teatro de São Carlos did well.

Concerning the soloists, unfortunately, the performance left a lot to be desired.

Baritone Claudio Sgura was Gérard and the only one with a capable performance. He has a very audible voice and a pleasant timbre. In the aria of the 3rd act Nemico della patria was emotional and convincing.

Tenor Marco Berti was an Andrea Chénier with poor stage presence. The voice is very worn, the timbre is pleasant but, with effort, it loses quality because it either can't stand it or screams. And emotionality was something that never transpired.

Soprano Svetla Vassileva, replacing Elisabete Matos, was a Maddalena little given to scenic representations and with a vocal performance that was far from desirable. Either you couldn't hear it or, in the highest register, the shrill was annoying. The beautiful aria La mamma morta was disappointing. (I know that having Maria Callas as a reference for this aria is ruthless for the other singers, but... non troppo). And emotion was non-existent, living or dying was identical on stage.

In the supporting roles were Maria Luísa de Freitas (Bersi), Cátia Moreso (Countess de Coigny / Madelon), José Corvelo (Roucher), Christian Luján (Butler / Fouquier Tinville) always well, Luis Rodrigues (Mathieu) also well, Sérgio Martins ( Priest) and João Oliveira (Dumas / Schmidt).

A final note about the biographies presented in the programs. Soloist singers are always the most acclaimed all over the world, always in demand for the world's great opera houses, etc. etc. Some modesty in what is written should exist!! Not all the public that still resists and goes to Teatro São Carlos is unaware of the opera world...

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5 comentários:

  1. Seria bom de salientar que a Sra. Svetla Vassileva fez o espetáculo sem qualquer ensaio!

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  2. De salientar que as notas biográficas são fornecidas pelos proprios artistas

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  3. Olá, fui á 3ªrecita e a encenação é muito interessante e vistosa.Em relação aos cantores o baritono Cláudio Sgura foi crescendo ao longo do espectáculo e terminou em beleza, a Elisabete Matos teve momentos menos bons, mas na aria "La Mamma Morta" foi fantástica e aí ganhou confiança para prosseguir em contínuo crescendo.O tenor Marco Berti, como actor é fraco e desinteressante, e a voz está gasta, e nos diálogos sente imensa dificuldade em expressar-se com os colegas. O restante elenco realço a Catia Moreso e Luisa de Freitas ambas com grande lealdade aos papéis. A orquestra, não sei o que se passa, mas tem vinda o ter prestações fantásticas, é efeito da boa direcção do António Pirolli, o coro com grande nível.Parabéns ao São Carlos!

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  4. Realmente, na récita a que assisti só tenho a destacar o bom desempenho do barítono Cláudio Sgura, no que diz respeito aos cantores. Marco Berti e Svetla Vassilieva foram um desastre. Quanto aos outros cantores não gostei do desempenho vocal de Maria Luísa de Freitas. Tirando estes pontos negativos teria sido uma récita bastante agradável. Enfim o nosso São Carlos continua a não encontrar um rumo. Nem tendo à frente Elisabete Matos. Saliento ainda o pouco público na sala. Quase vazia. Nunca tinha assistido a uma récita com tão pouco público no São Carlos.

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  5. A partir do comentário do Manuel Mourato - já sabemos quem vai dirigir o teatro quando Elisabete Matos se dedicar às funções de deputada?

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