quarta-feira, 25 de junho de 2014

DIE WALKÜRE / A VALQUÍRIA, Liceu, Barcelona, Maio de 2014 – Elenco 2

(review in english below)

No primeiro texto sobre a Valquíria que assisti em Barcelona fiz já referência à encenação que não gostei. Aqui deixo uns apontamentos sobre outra récita, cantada por solistas distintos.

Mais uma vez a Orquestra Sinfónica do Liceu dirigida pelo maestro Josep Pons esteve frequentemente mal. Para além de notas falhadas e entradas em falso, o que mais me impressionou negativamente foi a falta de entusiasmo. A música exige pausas dramáticas, trechos empolgantes, sonoridade heróica. Nada disso ouvi numa interpretação morna e desinteressante.


 O tenor holandês Frank van Aken foi um Siegmund para esquecer. Não sei se o cantor estaria bem, penso que não porque, poucos minutos depois de começar a cantar, foi perdendo qualidade vocal, cantando sempre em esforço e, frequentemente, desafinado. Por isso, quebrou todo o encanto deste acto, não tendo transmitido a paixão e atracção sexual crescentes por Sieglinde. Heroicidade também não se viu.


 Em total contraste, a Sieglinde de Eva Maria Westbroek foi fabulosa! A holandesa ofereceu-nos uma interpretação de luxo, ardentemente apaixonada no primeiro acto, débil e desesperada no segundo, e determinada no terceiro. A voz é poderosíssima, bem timbrada e perfeitamente ajustada à personagem.


 Ante Jerkunica, baixo croata, foi a melhor voz masculina da noite. O seu Hunding maléfico foi de referência. O cantor tem uma óptima presença em palco e a voz é imponente em todos os registos.




 A Fricka do mezzo sueco Katarina Karnéus foi correcta tanto na interpretação vocal como cénica, mas não mais do que isso.

O cantor mais aplaudido da noite foi o Wotan de Greer Grimsley. O norte americano tem uma excelente figura, canta bem e de forma muito expressiva apesar de, ocasionalmente, ser abafado pela orquestra. Mas, para mim, é o timbre demasiado nasalado e baritonal que me de deixou algum desconforto. Não o consegui ver como o deus impositivo que a personagem exige e, no registo grave, foi frágil.


 Catherine Foster, soprano britânica, foi uma Brünhilde correcta, com uma interpretação em crescendo. No início um pouco áspera, mas o terceiro acto foi muito bom. Destacou-se, sobretudo, no registo mais agudo. Cenicamente foi correcta.






 A cavalgada das Valquírias foi idêntica ao que relatei aqui.


 Este era, à priori, o elenco menos forte e, de facto, assim aconteceu, apesar da excelência de Eva Maria Westbroek e de Ante Jerkunika.








****

Die Walküre, Liceu, Barcelona, May 2014 - Cast 2

In the first text on the Valkyrie I saw in Barcelona I have commented on the staging that I did not like. Here I leave some notes about a second performance, sung by different soloists.

Again the Symphony Orchestra of the Liceu conducted by Maestro Josep Pons was often in failure. In addition to missed notes and false starts, what impressed me most negatively was the lack of enthusiasm. The music requires dramatic pauses, exciting passages, heroic sound. Nothing that I heard in this uninteresting interpretation.

Dutch tenor Frank van Aken was a Siegmund to be forgotten  I do not know if the singer was be well, I presume not, because a few minutes after start singing the vocal quality was lost and he always sung in effort and often out of tune. Therefore, he broke all the charm of this act, having missed the passion and growing sexual attraction to Sieglinde. He was not heroic as well.

In stark contrast, Eva Maria Westbroek’s Sieglinde was fabulous! The Dutch soprano offered us a luxury interpretation, ardently in love in the first act, weak and desperate in the second, and determined in the third .The voice is very powerful, nice timbre and perfectly adjusted to the character.

Croatian bass Ante Jerkunica was the best male voice of the night. His malevolent Hunding was of reference. The singer has a great impressive voice in all registers.

Swedish mezzo Katarina Karnéus was a correct Fricka in vocal performance and on stage, but not more than that.

The most acclaimed singer of the night was Greer Grimsley that sang Wotan. The North American artist has a great figure, sings well and in very expressive way , while occasionally be drowned out by the orchestra. But, for me, his vouce is a bit too nasal and baritonal, which left me some discomfort. I could not see him as the imposing god that the character demands, and in the lower notes he lost quality.

Catherine Foster, British soprano, was a correct Brunhilde, with a growing performance. At first she was a little rough, but in the third act she was very good. She excelled especially in the high register .On stage shewas correct.

The ride of the Valkyries was identical to that reported here (the singers were the same).


This was a priori the least strong cast and, in fact, it was so, despite the excellence of Eva Maria Westbroek and Ante Jerkunika.

****

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MADAMA BUTTERFLY, METropolitan Opera, Nova Iorque, Maio de 2014 / New York, May 2014


(review in english below)


Foi com grande expectativa que revi esta produção da Madama Butterfly de G Puccini na Metropolitan Opera. Não pelos cantores mas pela encenação.


 Anthony Minghella concebeu uma obra prima quando pôs em cena esta ópera. O palco é negro e vazio, com uma larga abertura ao fundo, por onde entram grande parte das personagens. O jogo de luzes é magistral, o guarda-roupa japonês requintado é imponente e um conjunto de pequenos biombos que se movem na horizontal ao longo de todo o palco, movidos por figurantes todos vestidos de negro, faz o resto. Um conjunto de 5 cadeiras presas entre si e uma caixa com os pertences da Butterfly esgotam os elementos cénicos.


O efeito é magnífico e, sobre ele, ainda há partes de uma beleza de cortar a respiração como, por exemplo, o final do 1º acto, em que o dueto de amor entre Cio-Cio-San e Pinkelton é cantado à luz de lanternas japonesas, sob uma chuva dourada.
O filho da Butterfly é aqui um boneco Bunarku japonês, manipulado por três figurantes que mal se vêem e esta é, talvez, a componente cénica mais impressionante. Não tenho palavras para descrever a magia da encenação.








(fotografias de / photos by Marty Sohy / Met Opera)

Se o caro leitor tiver oportunidade de ver, aqui ou na English National Opera, não perca, é uma das melhores encenações a que assisti em toda a minha vida!

O maestro foi Fábio Luisi que soube tirar da Orquestra da Metropolitan Opera uma sonoridade excelente, como a obra exige. Todos os momentos mais dramáticos foram notáveis. O coro, apesar de ter intervenções mais contidas, foi também excepcional.

E nos solistas houve alguma heterogeneidade:

O soprano chinês Hui He foi uma Cio-Cio-San sensacional. A figura ajuda mas o mais importante é que transmitiu com grande naturalidade os diversos estados estados de alma por que passa a Butterfly, desde os momentos de felicidade ingénua no início, até ao desespero dilacerante mas algo contido no final. E a voz é versátil, de grande potência e excelente colocação.


 Já o tenor galês Gwyn Hughes Jones fez um B.F, Pinkerton aquém do exigível. A voz é pequena, perde qualidade no registo mais agudo e é pouco emotiva. A figura do cantor também não ajuda.

Outra interpretação de grande nível foi a do mezzo americano Maria Zifchak como Suzuki. Tem uma voz grande e expressiva e esteve sempre bem em palco.



O barítono americano Dwayne Croft foi um Cônsul Sharpless muito digno, tanto vocal como cenicamente.

Os restantes intérpretes foram banais para o nível elevado habitual nesta casa de ópera, nomeadamente Scott Scully como Goro e Jeongcheol Cha como Yamadori.

Como referi acima, a ac cão dos figurantes que manipulam o cenário e os bonecos Bunaku fazem um trabalho notável.




 Uma Butterfly numa encenação sublime que, sempre que puder, voltarei a rever!!

*****

Madama Butterfly, Metropolitan Opera, New York, May 2014

It was with great expectation that I have seen again this production of Madama Butterfly by G. Puccini at the Metropolitan Opera. Not because of the singers, but byecause of the staging production.

Anthony Minghella concieved a masterpiece when put on stage this opera. The stage is black and empty, with a wide opening at the bottom, from where most of the players enter. The light design is also masterful, the Japanese clothes are exquisite and imposing. A set of small screens that move horizontally throughout the stage, driven by supernumeraries dressed all in black, complete the staging. A set of 5 chairs secured together and a box with the belongings of Butterfly complete the scenic elements.

The visual effect is magnificent and furthermore, there are parts of a breathtaking beauty as, for example, the end of the 1st act during the love duet between Cio-Cio-San and Pinkelton, that sung in illuminated by Japanese flashlights, under a golden rainfall.
The son of  Butterfly is a Japanese Bunarku puppet, manipulated by three extras that are barely visible. This is, perhaps, the most impressive staging component. I have no words to describe the magic of the staging effect.
If the dear reader have the opportunity to see this production, here or at the English National Opera, do not miss it, it is one of the best opera stagings I have witnessed in my entire life!

Maestro Fabio Luisi conducted the Metropolitan Opera Orchestra at its best, as the opera requires. All the most dramatic moments were remarkable. The chorus, although with discrete interventions, was also excellent.

Concerning the soloists, there was some heterogeneity:

Chinese soprano Hui He was a sensational Cio-Cio-San. Her figure helps but the most important is that she transmitted with great naturalness the various moods that Butterfly lives, from the moments of naive happiness at the beginning, to the heartrending despair at the final. And her voice is versatile, highly powerful, without losing quality when going up at higher notes.

Welsh tenor Gwyn Hughes Jones was  ​​a poor Pinkerton. His voice is small, it loses quality in the upper register, and is little emotional. The figure of the singer does not help either.

Another interpretation of high quality was American mezzo Maria Zifchak as Suzuki. She has a big and expressive voice and she was always well on stage.

American baritone Dwayne Croft was a very convincing Consul Sharpless, both vocally and on stage.


The other performers were trivial, including Scott Scully as Goro and Jeongcheol Cha as Yamadori, taking into consideration the usual high level in this opera house.

As I mentioned above, the action of the extras that manipulate the scenery and the Bunaku puppets did a remarkable job.

A Butterfly on a sublime staging that, whenever I can, I will see it again!

*****

segunda-feira, 16 de junho de 2014

CARMEN, Theatro Municipal de São Paulo

CARMEN, O SOBRENATURAL DE ALMEIDA E O CONSELHEIRO ACÁCIO NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA EBALLET.
 

 Como não poderia deixar de ser a ópera Carmen de Bizet apresentada nove vezes no Theatro Municipal de São Paulo foi sucesso de público com ingressos esgotados e cambistas tentando faturar. Como não poderia deixar de ser o público que frequenta teatros de ópera e concerto continua sem saber se comportar. Como não poderia deixar de ser o imponderável, ou como dizia Nelson Rodrigues, o Sobrenatural de Almeida entrou em campo aos 45 do segundo tempo e surpreendeu no resultado.

O TMSP escala dois elencos para suas apresentações, em teatros pelo mundo esses elencos se alternam nas apresentações, no nosso teatro eles se alternam nas primeiras récitas e depois se misturam mostrando diversas combinações de elencos, algumas interessantes e outras sem a menor sintonia. Essas combinações mostraram que o Sobrenatural de Almeida entrou no palco.

O primeiro a surpreender foi o tenor Fernando Portari, cantor tarimbado com interessante carreira internacional. No dia 10 de Junho seu Don José se mostrou cenicamente impecável, desfilou emoções a rodo, humanizou o personagem exibindo seu lado sentimental. O problema do Portari foi vocal, fugiu dos agudos o tempo todo, sua voz se apresentou sem brilho e muitas vezes tendendo para a rouquidão. Abusou dos pianíssimos tentando compensar a falta de agudos. Seu francês é de excelente qualidade e nos diálogos foi o melhor da trupe. Um grande tenor em uma noite infeliz, acontece com qualquer um. Olha o Sobrenatural de Almeida ai!


Cena de Carmen com Luisa Francesconi e Fernando Portari, divulgação/Sheila Guimarães.

A soprano chilena Andrea Aguilar fez uma Micaëla ingênua e apaixonada, em suas intervenções sua voz esteve lírica, melódica e leve. Agudos claros com projeção que enche o teatro, conseguiu expressividade na ária Je dis que rien ne m'épouvante . Uma cantora correta com bons dotes vocais. Nem toda a pureza vocal e cênica da jovem comoveu Don José, o amor pela cigana Carmen falou mais alto.

David Marcondes encarnou o toureiro Escamillo, papel de barítono que tem mostrar bravura, força vocal e cênica. Marcondes pecou no fraseado, sua voz esteve travada e seus graves opacos. Conseguiu emprestar dignidade cênica ao personagem, mas nada que empolgasse.

Luisa Francesconi, o que dizer desse mezzo-soprano. Fiquei meio ressabiado quando vi que ela foi escalada para essa ópera, tinha outra cantora em mente. Já a conhecia pelo Werther do Theatro São Pedro e sabia que era uma grande cantora, mas Carmen é Carmen e o Municipal é bem maior que o São Pedro. A bela jovem (pode colocar bela nisso) mostrou ser uma Carmen empolgante em todos os quesitos. Cenicamente fez sua personagem ousada e sensual, daquelas com capacidade de seduzir até um monge tibetano. Mostrou-se sempre à vontade no palco com um bom francês nas partes faladas e cantadas, sua dicção prima pela qualidade. Sedutora quando necessário e dramática na medida certa no terceiro e quarto ato. Vocalmente esteve excelente em todos os registros: Agudos limpos e graves fortes e sólidos em um timbre de grande beleza. Mostrou personalidade e impôs seu estilo para a personagem com gestos e expressões na medida, Francesconi compreende as necessidades da Carmen e a interpreta na medida certa. Fiquei de queixo caído com a moça. Olha o Sobrenatural de Almeida de novo ai!



Cena Carmen, foto Internet.
 
Vinícius Atique fez um Moralès com voz consistente, barítono que evolui a cada apresentação e que deveria ter se apresentado em todas as récitas. Lembro aos leitores que sua participação na ópera é pequena e não vejo a necessidade de um cantor de fora dividir com ele o papel.


O clima no Theatro Municipal de São Paulo esteve leve nas récitas da Carmen, do mais humilde funcionário ao mais graduado solista estavam relaxados e trabalhando felizes. O motivo de tanta alegria é que o diretor da casa John Neschling esteve na Europa nesse período. Lembro que John disse a revista Veja São Paulo que o Parque do Ibirapuera cheira a xixi, sabemos que ele ama o velho continente. Em um texto de sua autoria no Facebook ele escreve sobre literatura, ele já escreveu sobre psicanálise, fez uma crítica da Carmen que ele mesmo produziu e agora pensa que é crítico literário. Estranho para quem defende que cada um fique restrito a sua área de estudo, virou o Conselheiro Acácio.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

TRISTAN UND ISOLDE, Teatro Real, Madrid, Fevereiro de 2014 / February 2014


(review in english below)

Aqui deixo um breve apontamento do wagner_fanatic sobre o Tristão e Isolda de R Wagner que viu recentemente em Madrid.


 Encenação de Peter Sellars, direcção de actores excelente, com sentido no conteúdo do texto. Imagens projectadas de Bill Viola complementares à acção e possibilitando, mesmo que não olhássemos para os cantores mas sabendo o que se passava, viajar para um universo paralelo mas cheio de significado de um amor induzido por porção, é certo, mas além do que é compreensível se nunca se viveu um assim.


 Sellars põe o Rei Marke a beijar na face o Tristão por duas vezes - a ideia transparecer mais intensamente que o Rei Marke fica mais perturbado não por Tristão lhe "roubar" Isolda como mulher, mas pelo facto de trair a confiança e admiração (embora involuntariamente como sabemos) que tinha por ele. Isto é algo que antes eu não me tinha apercebido inteiramente. Transparece com maior peso nesta produção.


 Sete anos depois de ver esta encenação, e vários Tristãos depois, alcancei a beleza e a potência emocional que esta obra tem. E imagino o que Wagner sentiu por Mathilde Wesendonk para escrever isto. Só mesmo ao alcance de poucos.

A Orquestra do Teatro Real, dirigida pelo maestro Marc Piollet, está brutal em Wagner!


 A Isolda de Violeta Urmana foi potentíssima vocalmente, estridente mas nunca gritando.

O Tristão de Robert Dean Smith, sem reservas no início, deu tudo vocalmente e de forma regular em toda a ópera.

Ekaterina Gubanova muito bem como Bargäne, principalmente no primeiro acto; voz de vigília no 2º acto muito bem mas por vezes com alguma oscilação ligeira da afinação nas notas prolongadas.

O Kurwenal de Jukka Rasileinen esteve muito bem, afinação, credibilidade vocal e excelente sintonia de lealdade (que se sentiu) com Tristão.

Franz Josef Selig foi excelente como Rei Marke. O timbre (belíssimo), a entoação que dá e o modo como viveu os monologos em termos vocais e cénicos foi arrepiante.





Um excelente Tristão e Isolda!


TRISTAN UND ISOLDE, Teatro Real, Madrid, February 2014 

Here is a brief note from wagner_fanatic about R Wagner´s Tristan and Isolde that he saw recently in Madrid.

The staging was by Peter Sellars. The stage direction was excellent with regard to the content of the text. Projected images by Bill Viola complementary to the stage action, even if we did not look to the singers but knowing what was going on, enabling us to travel to a parallel universe of meaningful of love, although induced by a portion, but beyond what is understandable, if never experienced one like this.

Sellars puts King Marke kissing Tristan's face twice - the idea showing that King Marke is more disturbed not by Tristan "steal" his Isolde as a woman, but because he betrayed the trust and admiration (though unintentionally as we know) we had for him. This is something that I had not noticed before so clearly as it is shown in this production

Seven years after seeing this staging, and several “Tristans” after, I reached the beauty and emotional power that this opera has. And I guess what Wagner felt by Mathilde Wesendonk to write this. Only for very few.


The Orchestra of the Teatro Real, directed by maestro Marc Piollet, was brutal in Wagner!

Violeta Urmana´s Isolde was very powerful vocall, but she never screamed.

Robert Dean Smith´s Tristan gave everything he has vocally, and regularly throughout the opera.

Ekaterina Gubanova’s Bargäne was very good, especially in the first act. Sometimes she showed some slight oscillation of relaying in extended notes.

Jukka Rasileinen’s Kurvenal was fine, good pitch, with vocal credibility and excellent expression of loyalty (he felt) with Tristan.

Franz Josef Selig as King Marke was excellent. The timbre (gorgeous), the intonation he gives and thw way he lived the monologues, vocal and artistic, was creepy.

An excellent Tristan and Isolde!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

DIE WALKÜRE / A VALQUÍRIA, Liceu, Barcelona, Maio de 2014 – Elenco 1

(review in english below)

Assisti em Barcelona a duas récitas da ópera Die Walküre de R. Wagner, com elencos distintos. Neste primeiro texto relato as minhas impressões sobre uma delas.

A encenação de R Carsen, desinteressante e austera, traz a acção para a segunda guerra mundial. Tudo se passa em diferentes cenários do campo de batalha, com excepção do início do 2º acto, num imponente salão de inspiração nazi. A ópera é desprovida de qualquer misticismo, quase todas as personagens são figuras militares (apenas Fricka e Brünhilde são civis).
As incoerências cénicas são muitas. A espada Nothung está num tronco totalmente a despropósito no contexto (um acampamento militar), dado todos usarem metrelhadoras e outras armas de fogo. O início do 3º acto é muito mau. As valquírias, vestidas de senhoras e ensaiando brincadeiras de criança, beijam os heróis estropiados e mortos e estes a levantam-se, tipo zombies, e sobem umas escadas ao fundo do palco. Mas o pior é o fogo sagrado, dividido entre uma pequena vela pífia colocada a meio do palco (que numa das récitas se apagou de imediato) e uma pequeníssima linha de chamas ao fundo, de intensidade tipo “campingás” (que nem se via das primeiras filas da plateia, segundo me disse um amigo).

A Orquestra Sinfónica do Liceu esteve aquém do desejável, muito por culpa do maestro Josep Pons. As notas falhadas e fora de tempo foram uma constante (e não apenas nos metais), o ritmo foi quase sempre empastelado, sem variações rítmicas significativas e, sobretudo, sem transmitir emoção.


 Klaus Florian Vogt foi um Siegmund de grande qualidade vocal e cénica. O tenor alemão tem uma voz belíssima e muito clara, à partida menos adequada para uma personagem viril como é Siegmund. Mas, graças às suas qualidades técnicas e cénicas, foi muito credível, a ligação com a Sieglinde foi excelente (apesar da encenação desfavorável) e brindou-nos com uma interpretação de qualidade superior. Foi muito convincente quando chamou por Wälse e o no Winterstürme foi tocante.


 A Sieglinde de Anja Kampe esteve ao mesmo nível. A soprano (lírica) alemã foi sensacional na interpretação. Voz poderosa, harmoniosa, cheia de nuances enriquecedoras que proporcionaram uma interpretação de elevada qualidade, também muito apoiada nas excelentes capacidades cénicas.


 O Hunding de Eric Halfvarson completou um primeiro acto excelente. Uma personagem de voz cavernosa, potente e assustadora, como se exige neste papel.




 O mezzo japonês Mihoko Fujimura fez uma Fricka com classe mas não perfeita. Revelou alguma instabilidade vocal, sobretudo no início, mas cantou o papel de forma convincente e com boa projecção vocal.


 Albert Dohmen impôs-se como Wotan e mostrou que a idade não significa menor qualidade interpretativa. O cantor alemão pode estar em fim de carreira mas tem um timbre muito bonito, canta sempre sobre a orquestra e só no registo mais agudo quebra ligeiramente. Foi excelente e transmitiu toda a força interpretativa de uma personagem vencida e, no final, rendida à filha Brünhilde.


 Irene Theorin foi soberba como Brünhilde. Vocalmente fabulosa, a soprano sueca fez uma interpretação de referência. Segura e alegre no início, gélida no anuncio da morte a Siegmund, e frágil, assustada e resignada no final, no diálogo com o pai. A voz é magnífica, apiana com uma qualidade invulgar nos sopranos dramáticos e esteve sempre ao mais alto nível.


 Nas Valquírias as interpretações foram muito distintas no que à qualidade respeita, mas saliento a voz magnífica de Daniela Köhler (Helmwige) que cantou os Hojotoho com uma qualidade superior à que já tenho ouvido a algumas Brünhildes.


 Uma récita em grande, ao contrário da que ouvi ao outro elenco, sobre a qual escreverei algo posteriormente.









*****



Die Walküre, Liceu, Barcelona, May 2014 - Cast 1

I saw in Barcelona two performances of the opera Die Walküre by R. Wagner , with different casts .
In this first article reporting my impressions of them .

The staging by R Carsen, uninteresting and austere, brings the action to the second world war. Everything happens in different scenarios of the battlefield, with the exception of the beginning of the 2nd act, an imposing hall with nazi inspiration. The opera is devoid of any mysticism, almost all the characters are military figures (only Fricka and Brunhilde are civilians).
The staging inconsistencies are frequent. The sword Nothung is on a trunk not adequate to the context (a military camp) because everyone uses machine guns and other firearms  The start of the 3rd act is very bad. The Valkyries, dressed as ladiesm rehearse children's games, kissing the dead heroes and these arise, like zombies, and go up some stairs to the back of the stage. But the worst is the sacred fire, split between a small and ridiculous candle placed in the middle of the stage (in one of the performances it went out immediately) and a tiny line of flames in the background,(which is not even seen from first rows of the audience, a friend told me) .

The Symphony Orchestra of the Liceu was below desired level, much because of the conductor Josep Pons. Wrong notes and timings were constant (not only in the metals), the rhythm was often jammed, without significant variations, and especially without transmitting emotion.

Klaus Florian Vogt was a Siegmund of great vocal and scenic quality. The German tenor has a beautiful and very light voice, less suitable for a strong character like Siegmund . But thanks to his technical and scenic qualities, he was very credible, the connection with Sieglinde was excellent (despite the unfavorable staging) and presented us with a performance of superior quality. He was very convincing when calling Wälse and in Winterstürme he was touching.

Anja Kampe 's Sieglinde was at the same top level. The German soprano was sensational in the performance. She has a powerful, harmonious, full of enriching nuances voice that provided an interpretation of top quality, very well supported by her excellent acting capabilities.

The Eric Halfvarson’s Hunding completed an excellent first ac . A performer of cavernous, powerful and scary voice, as required in this role.

Japanese mezzo Mihoko Fujimura was
​​a Fricka with class but not perfect. She revealed some vocal instability, especially at the beginning, but she sang the role convincingly and with good vocal projection .

Albert Dohmen was imposing as Wotan and showed that age does not mean lower performance quality. The German singer may be close to the end of his career but nevertheless he has a very beautiful timbre, always sings about the orchestra and only in the very top notes he breaks slightly. He was excellent and conveyed all interpretive power of an unsuccessful Wotan and, in the end, rendered to his daughter Brünhilde .

Irene Theorin was superb as Brunhilde. Vocally fabulous, the Swedish soprano was a reference in the role. She was confident and happy at the beginning, icy when announcing the death to Siegmund, and fragile, scared and resigned at the end, in the dialogue with her father. The voice is magnificent, she reaches piano notes with an unusual quality in the dramatic sopranos, and has always been at the highest level.

In the Valkyries interpretations were very different in regards to quality, but the magnificent voice of Daniela Köhler ( Helmwige ) who sang the Hojotoho better than some Brünhildes I have heard before deserves a special reference

An excellent performance, unlike that of the other cast, on which I will write something in a few days.

*****

quarta-feira, 4 de junho de 2014

CARMEN, Theatro Municipal de São Paulo

CARMEN, ACERTOS E MAIS ACERTOS NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.
   


Carmen de Bizet é sucesso há mais de 100 anos por diversos fatores. Usa tema exótico, a Espanha onde desfilam toureiros, contrabandistas, ciganas, mocinhas indefesas, bêbados e soldados. A música de Bizet é do início ao fim da ópera contagiante, uma miscelânea de temas que tem a cor espanhola como a Habanera, a Seguidilha, o Quinteto dos Contrabandistas e a música da Plaza dos Touros. Empolgante também é o lirismo da ária de Micaëla e a força da Canção do Toreador. Avança no tempo ao mostrar uma mulher independente que segue seus princípios de liberdade, mais que volúvel Carmen é uma mulher que vive intensamente sempre buscando novas aventuras e amores.

Opéra-comique é um gênero de ópera que mistura diálogos falados com recitativos cantados, cuidado leitor, nem toda Opéra-comique é engraçada ou cômica. Carmen de Bizet é uma Opéra-comique completamente trágica. Existe versão de Carmen, feita após a morte do compositor, somente com recitativos que exclui os diálogos, esta versão descaracteriza a ópera. Acertadamente o Theatro Municipal de São Paulo utiliza a versão original com os diálogos falados em francês e mantém quase toda a estrutura da ópera.

Dito isso o que dizer da estreia da Carmen apresentada no Theatro Municipal de São Paulo. Uma sucessão de acertos e mais acertos. A começar pelo elenco, a escalada para dar vida a cigana que adora excitar a macharada foi Rinat Shaham. O mezzo-soprano mostrou excelentes dotes vocais: Voz quente, sensual com graves profundos e encorpados. Atuação que esbanja na sensualidade e deixa os homens de queixo caído, uma Carmen na medida com qualidade vocal do início ao fim da récita. Desempenho dramático espetacular que mostra todas as facetas da personagem.



                                                Cena Carmen , foto Internet
  
Thiago Arancam mostrou o porquê de seu sucesso internacional. Tenor com técnica refinada de agudos com brilho e de extrema beleza em uma voz bem projetada e penetrante. Pode ter pecado no fraseado, mas nada que atrapalhasse em demasia. Exibição cênica que prima pela qualidade onde sua melhor participação se concentrou no terceiro e quarto atos. Na cena final colocou intensidade ao personagem mostrando um homem desesperado pela paixão arrebatadora da cigana. Grande Don José.

O Escamillo de Rodrigo Esteves não mostrou graves a altura do personagem, na falta deles colocou bons médios e abusou dos agudos. Soltou um bom agudo no final da canção do Toreador inexistente na partitura que levanta o público. Atuação cênica correta que demonstra a valentia e o caráter conquistador do personagem.



                                                   Cena Carmen, foto Internet

Quando se fala em Micäela se pensa em uma personagem doce e apaixonada e por isso os sopranos que a interpretam costumam ter voz lírica com pouco peso. Eu fazia parte desse grupo, agora vejo que Micäela é uma personagem forte que tem a coragem de enfrentar o perigo de se aventurar nas matas correndo o risco de ser trucidada por contrabandistas inescrupulosos, tudo isso atrás de Don José, para lhe dizer que sua mãe está morrendo. Lana Kos faz uma Micäela forte vocal e cenicamente, seu dueto no primeiro ato e sua ária no terceiro são um primor de canto. Voz forte, encorpada e quente com um timbre que atinge vigor nas notas médias. Uma Micäela que não estamos acostumados a ver e que nos surpreende pelo talento vocal.

Os personagens Frasquita, Mercedes, Dancaïre, Remendado, Zuniga e Morales mostraram boas vozes em suas pequenas intervenções, isso não justifica a vinda deles de diversos países do mundo. Cantores brasileiros fazem o que eles fizeram igual ou melhor, sou capaz de lembrar sem consulta uns 3 ótimos solistas para cada papel citado.

Em uma rede social John Neschling faz uma crítica de sua própria montagem (até crítico ele virou agora, no que será que ele é formado?) sobram palavras de elogios a todos: Excelência, qualidade superior, pronuncia impecável e fenomenal interpretação são termos que utiliza para elogiar a ópera que ele mesmo produziu. Diz que os comprimários de fora são importantíssimos para uma Carmen de qualidade, cita escritores e compositores (ele adora uma citação, se for em inglês melhor ainda). Tudo conversa para justificar o injustificável.

A Orquestra Sinfônica Municipal dirigida por Ramón Tebar mostrou ótima sonoridade com tempos e sonoridade perfeitos. Toda a beleza melódica da partitura foi explorada em diversas cores e nuances. Tebar exibiu respeito aos cantores fazendo com que música e voz estivessem em harmonia. O Coro Lírico Municipal nas mãos de Bruno Greco Facio mostrou vozes afinadas e sincronizadas, destaque para a petizada do Coral da Gente, Silmara Drezza extraiu ótima afinação dos guris.



                                               Carmen, foto Internet
  
A direção cênica de Filipo Tonon opta pelo tradicional, não inventa soluções mirabolantes e consegue dar dinâmica a ação. Sua Carmen explode em sensualidade e em paixões arrebatadoras, o diretor caracteriza os personagens conforme o libreto até nos pormenores. O cenário de Juan Guillermo Nova todo em madeira exibe grande beleza visual e se apresenta adequado a ideia da direção. Os figurinos confeccionados por Cristina Aceti elevam ainda mais o nível da produção com acertos. O único senão é a Carmen estar vestida igual a todas as moças do coro no primeiro ato. Pode-se dizer que ela é igual as outras, trabalhadora na fábrica de cigarros como elas e tem que estar com a mesma roupa. O problema é que no palco essa saída não funciona, devido ela estar igual as demais gera confusão no espectador, Carmen é protagonista e tem que se destacar na multidão.


Bizet compôs uma abertura para a ópera que é conhecida do grande público e compôs uma pequena abertura para cada ato. Não entendi por que colocaram a cena do coro na abertura do quarto ato primeiro e depois a abertura original. O Balé da Cidade de São Paulo mostrou excelente coreografia com passos que mostram o calor da música espanhola.