sábado, 11 de janeiro de 2020

DAS RHEINGOLD / O OURO DO RENO, Royal Opera House, Londres / London, Outubro / October 2018



 (review in English below)

A encenação de Keith Warner, em reposição na Royal Opera House, é vistosa mas desinteressante. A ópera abre com as Filhas do Reno a nadarem nuas, há um efeito ondulante luminoso muito eficaz e está bem marcada a superfície do rio, com um barco a remos a passar na parte superior do cenário. Alberich chega no barco e toda a cena com as Filhas do Reno é muito boa.
A cena seguinte passa-se num salão onde está o Wotan e restantes personagens. Há um enorme telescópio antigo ao fundo, uma mesa e cadeiras, várias escadas verticais, uma esfera gigante (já vem da cena anterior) e uma parede com vários objectos cujo simbolismo não é claro. É lá que o Wotan coloca a lança.
Nas profundezas da terra, no Nibelheim, terra dos nibelungos, passa-se a 3ª cena, aqui aparentada com uma morgue austera, com um cadáver esventrado numa das duas macas presentes. Os nibelungos aparecem vestidos com túnicas brancas. O Tarnhelm, capacete mágico feito pelo Mime, irmão do Alberich, é um cubo com as faces com múltiplos espelhos. Mas pode ser colocado na cabeça. O ouro é ouro. A transformação de Alberich (por acção do capacete mágico) em gigante e depois em sapo é literalmente encenada, num dos momentos visualmente mais explícitos e que até desencadeou algum riso no público.
A última cena volta a passar-se no salão do Wotan.



A direcção musical, óptima,  foi do maestro titular Antonio Pappano. A Orquestra da Royal Opera esteve quase sempre muito bem. Apenas os metais tiveram algumas notas falhadas, algumas delas logo no início, o que fez temer pela sua prestação mas, felizmente, nada de muito grave aconteceu.



Quanto aos cantores a nota mais positiva foi que foram todos muito homogéneos na elevada qualidade vocal e cénica.

As Filhas do Reno, Lauren Fagan (Woglinde), Christina Bock (Wellgunde) e Angela Simkin (Flosshilde) abriram em grande a parte cantada.  



Johannes Martin Kränzle fez um Alberich ao mais alto nível, tanto cénico como vocal.



O Wotan de John Lundgren tem um timbre muito bonito, foi bom, mas em potencia vocal esteve um pouco abaixo do que esperava. Deve estar a guardar-se para a Valquíria.



Sarah Connolly impôs-se como uma Fricka de topo, deixando antever uma excelente prestação na ópera seguinte, onde tem uma intervenção muito mais importante.



A jovem soprano norueguesa Lise Davidsen foi uma Freia destacada. Será que temos mais uma grande soprano wagneriana escandinava (donde são originárias quase todas) em ascensão?



Os dois gigantes, Günther Groissböck (Fasolt) e Brindley Sherratt (Fafner) foram excelentes, tanto em cena como no canto.



O Froh do tenor Andrew Staples foi o elo mais fraco da noite. Voz pequena e sem grande expressão. O Donner de Markus Eiche cumpriu.



Outro dos melhores da noite foi o tenor Alan Oke como Loge. Vocalmente irrepreensível, foi o melhor em cena, muito expressivo, cínico e com grande agilidade.



O Mime de Gerhard Siegel cantou pouco mas deixou antever uma grande interpretação no Siegfried.



Finalmente uma palavra de muito apreço também para a contralto Wiebke Lehmkuhl que se impôs como Erda.



Um grande espectáculo, música fantástica e interpretações vocais homogéneas e ao mais alto nível. Um excelente começo do Anel.







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DAS RHEINGOLD, Royal Opera House, London, October 2018

The production of Keith Warner, in reprieve at the Royal Opera House, is flashy but uninteresting. The opera opens with the Rhine Daughters swimming naked, there is a very luminous undulating effect and the surface of the river is well marked, with a rowboat passing the upper part of the scene. Alberich arrives on the boat and the whole scene with the Daughters of the Rhine is very good.
The next scene takes place in a hall where Wotan and other participants are. There is a huge ancient telescope in the background, a table and chairs, several vertical stairs, a giant sphere (already comes from the previous scene) and a wall with several objects whose symbolism is not clear. That's where Wotan puts the spear.
In the depths of the earth, in Nibelheim, land of the Nibelungen, the third scene is passed, here related with an austere morgue, with a corpse exploded in one of the two present litters. The Nibelungen are dressed in white robes. The Tarnhelm, magic helmet made by the Mime, brother of the Alberich, is a cube with the faces with multiple mirrors. But it can be put on the head. Gold is gold. The transformation of Alberich (by the magic helmet) into a giant and then into a frog is literally staged, in one of the visually more explicit moments that even elicited some laughter in the audience. The last scene returns to Wotan's hall.

The musical direction was great, by maestro Antonio Pappano. The Royal Opera Orchestra was almost always very perfect. Only the metals had some missed notes, some of them early on, which made me afraid of their performance, but fortunately nothing very relevant happened.

As for the singers the most positive note was that they were all very homogeneous in the high vocal and scenic quality.

The Daughters of the Rhine, Lauren Fagan (Woglinde), Christina Bock (Wellgunde) and Angela Simkin (Flosshilde) opened well part the sung part.

Johannes Martin Kränzle was an Alberich at the highest level, both scenic and vocal.

John Lundgren's Wotan has a very nice timbre, he was good, but in vocal power he was a little lower than I expected. He must be guarding himself for The Valkyrie.

In contrast, Sarah Connolly was a top quality Fricka, anticipating an excellent performance in the next opera, where she has a much more important intervention.

The young Norwegian soprano Lise Davidsen was a prominent Freia. Do we have yet another great Scandinavian Wagnerian soprano (where they all come from) on the rise?

The two giants, Günther Groissböck (Fasolt) and Brindley Sherratt (Fafner) were excellent both on stage and in the way they sang superbly.

Tenor Andrew Staples’s Froh was the weakest link of the night. Small voice and without great expression. Markus Eiche's Donner was good.

Another of the best performers of the night was tenor Alan Oke as Loge. Vocally irreproachable, he was the best on stage, very expressive, cynical and with great agility.

Gerhard Siegel's Mime sang a little part but anticipated a great performance in Siegfried.

Finally a word of much appreciation also for contralto Wiebke Lehmkuhl who imposed herself as Erda.

A great performance, fantastic music and homogeneous top vocal singing. An excellent start to the Ring.

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