terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Die Walküre (A Valquíria), Theatro Municipal de São Paulo, Brasil – Um outro ponto de vista


(Fotografia de Cristiano Mascaro)

Mais um texto de Eduardo Vieira, colaborador regular deste blogue, também sobre A Valquíria recentemente apresentada em São Paulo, Brasil.
Ao Eduardo Vieira os habituais agradecimentos dos “Fanáticos da Ópera”.



"Aproveitando que meu companheiro paulistano já escreveu sobre a montagem de "Die Walkure" no Theatro Municipal de São Paulo, onde assisti a récita do dia 25 de novembro, com exatamente o mesmo elenco, vou dispensar a descrição dos cenários e dos detalhes técnicos da montagem, coisa que o Ali fez tão bem.

Na minha opinião, quando você vai dar um segundo ponto de vista de um assunto já comentado, é mais interessante que busquemos o que achamos que não foi comentado ou aqueles pontos onde nossa opinião colide com a do relator. Portanto, peço ao Ali que não fique chateado, estou apenas buscando enriquecer a discussão!

Cada vez me encanto mais com as montagens feitas pelo André Heller-Lopes. Eu diria que é o melhor encenador de óperas do Brasil nos dias de hoje. Eu gostei da montagem, embora tenha achado que o primeiro ato tenha ficado muito distante do segundo e terceiro em termos conceituais.

Enquanto a concepção do cenário do primeiro ato, embora bem executado, tenha sido altamente convencional, no segundo e terceiro atos o encenador coloca elementos brasileiros para montar a imagem do Walhalla (as fitas de bonfim, os votos de Aparecida, os bois de maracatu no lugar dos cavalos do terceiro ato).


Mas concordo que a montagem é de muito bom gosto, que funciona e não descaracteriza a peça. Poderia ser encenada em qualquer lugar do mundo sem passar vergonha.

O Palco em dois níveis foi uma boa idéia, assim como a caracterização de Sieglinde.


Talvez pelo problema de não ter tido acesso aos programas antes da montagem (na minha récita eles estavam disponíveis e foram entregues gratuitamente, e os achei de boa qualidade, com textos interessantes e boas fotos), o Ali não percebeu que a "trupe" de Hunding na verdade eram os seus cachorros (é o que dá a entender um dos textos dos realizadores da peça).

O interessante é que, no primeiro ato, para mim o melhor cantor foi justamente o Hunding. Não que os gêmeos estivessem ruins, mas eles cresceram muito no segundo ato.

A soprano que faz a Brunhilde estava gripada e isso foi avisado ao público antes do início da récita. Tirando dois momentos onde ela tossiu, não acho que tenha comprometido sua apresentação.

Não gostei muito do Wotan, talvez porque tenha na minha cabeça a performance do James Morris no Met e compare qualquer um que faça esse papel com ele.

A Fricka foi a melhor parte feminina da récita. E as demais Valquírias completam bem o elenco.

O maestro fez um grande trabalho com a orquestra, que trouxe a vida o drama musical de Wagner em todo o seu esplendor.

Aqui aproveito para fazer um comentário da minha esposa, que entende de música, mas não é exatamente uma fanática por ópera, e que teve essa como a sua primeira experiência com Wagner: "'Depois que você se acostuma com a música, é como se ela fizesse parte do ambiente e que você estivesse assistindo uma peça de teatro normal". Eu acho que é mais ou menos por aí... Wagner inventou a "trilha sonora", ou pelo menos mudou o patamar com que a música contribuiu para a narrativa da história.

Meu grande problema com essa apresentação foi a logística da coisa. Eu moro no Rio, que fica a 430 quilometros de SP. Só consegui ingresso para a última apresentação, que era na sexta-feira do fim de semana da F1 (a semana mais concorrida da cidade de São Paulo, quando os hotéis ficam pelo triplo do preço normal). Sendo assim, resolvemos ficar na casa de minha cunhada, que mora em Cotia, um município nos arredores de SP.

Viajamos na quinta a noite. Cheguei em SP por volta de 3 da manhã. Na sexta, dia da apresentação, tive que acompanhar minha esposa com um compromisso profissional dela em um hospital (ela é médica), para depois encararmos, de carro, o centro antigo de SP. Encaramos um trânsito horroroso na Avenida Rebouças e na Avenida Paulista (mais de uma hora para cobrir 25 quilometros de distância)!

Conseguimos chegar perto do Teatro por volta das 17:00, mas descobri que os estacionamentos da área fecham todos as 22:00. Sem saber o que fazer, andei mais um pouco e deixei o carro em um estacionamento a frente do Teatro Abril (teatro que leva musicais da Broadway') e o vigia me disse que ficaria aberto até a meia-noite. Com a peça começando as 19:00 achei que não teria problemas. Deixei o carro lá, fomos andando até o Teatro (uma caminhada de 15 minutos), pensando em voltar de taxi na volta.

(Fotografia de Cristiano Mascaro)

Resultado: a peça começou uns 20 minutos atrasada e, com o famigerado intervalo de 45 minutos, vi que teria problemas com o estacionamento (O segundo ato terminou as 22:30 e ainda teria um intervalo de meia hora). Ante a possibilidade de ter que sair antes do final do terceiro ato (e perder a melhor cena da ópera? nem pensar!!), liguei desesperado para o estacionamento, prometendo uma gorjeta se o cara mantivesse o estacionamento aberto me esperando. Graças a Deus, o vigia concordou!

A ópera terminou 00:30, com praticamente todo mundo dentro do teatro. Mais de cinco horas de espetáculo e o público, que não era exatamente de melômanos, aguentou firme e aplaudiu entusiasticamente todos os atos. Preocupado com o estacionamento, fiz a vergonha de não ficar para os aplausos finais, mas acabou dando tudo certo!

Mortos por dois dias de correria intensa, não conseguimos nem pensar em jantar. Voltamos para casa da minha cunhada, passando na padaria (sim, existem padarias que fica abertas até duas da manhã em São Paulo) para levar algo para comer e dormir. Mas a melodia infinita de Wagner ficou ecoando dentro de mim. Está até agora..."

Texto de Eduardo Vieira do blogue Pitacos do Eduardo:

3 comentários:

  1. Me senti aflito pelas atribulações paulistanas, vi o teatro e ouvi a ópera! A isso chamo de boa crônica!
    Parabéns Eduardo

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  2. Obrigado Antonio (estou com problemas para me logar, por isso estou enviando apenas com meu nome, sem usar o perfil).

    Sds,

    Eduardo

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