Mais um texto da autoria de Ali Hassan Ayache do blogue Música, Ópera e Ballet que agradecemos e publicamos na íntegra:
Bons tempos em que íamos às livrarias para garimpar
novidades. Os atendentes entendiam do assunto, cada um se especializava em uma
área e dialogava com o cliente. Saudades da livraria Brasiliense no centro de
São Paulo, os atendentes conheciam todo o tipo de publicação. Hoje em dia as
pequenas livrarias , praticamente desapareceram, sobraram as grandes redes.
Atendentes que não entendem de assunto nenhum são, em geral, a regra. Trabalho
hercúleo é encontrar um e quando você consegue, ele só sabe olhar para o
computador e informar o óbvio.
Garimpava eu em uma grande livraria de São Paulo quando vejo
um senhor tentando encontrar alguém para orientá-lo. Procura um bom tempo e
depois de muita labuta, uma simpática e bela atendente lhe da atenção. Jeito de
descolada, brincos pra todo lado e um sorriso falso no rosto. Ele lhe relata
que quer presentear uma amiga com a ópera Nabucco de Verdi . Ela sequer imagina
o que seja Nabucco e muito menos quem seja Verdi. Vai ao computador e esse lhe
informa que essa ópera esta esgotada. Provavelmente digitou Nabucco com um C e
o sistema não encontrou nada.
Decepcionado o senhor lhe agradece. Na minha frente, na
prateleira, cara a cara, estava um Box em CD dessa ópera. Mostro ao senhor e ele
se espanta, não entende nada, nem olha o preço e vai direto ao caixa.
Bidu Sayão
Nesse dia me deparo com outra novidade, nem sequer imaginava
que essa gravação existia. Um Box triplo com a estreia da grande cantora
brasileira Bidu Sayão no Metropolitan Opera House de Nova Yorque. Lançado pelo
selo Naxos, a gravação da ópera Manon de Massenet foi realizada em 13 de
Fevereiro de 1937. Nem penso duas vezes, comprei na hora.
Bidu Sayão
Ansiedade total, estava alucinado para ouvir a bela voz do
rouxinol brasileiro. Não me decepciono, todo o lirismo e a grande técnica de
Bidu Sayão estavam na gravação. O soprano tinha uma voz pequena, mas um timbre
de beleza monumental, as notas saem como uma delicadeza única. Uma voz leve e
especial e com uma luminosidade incrível. O sucesso de Bidu Sayão no Met foi
consequencia desse belo timbre, em uma época em que as vozes eram o elemento
primordial da ópera, cantou em várias temporadas e sempre agradou aos gringos.
Mostrei a gravação aos amigos da antiga, todos ficaram
surpresos, tive que fazer cópias dessa ópera. Documento raro, Bidu Sayão estreando
no Met e cantando muito. Grata surpresa!
Juntando ao Simão Boccanegra de dia 28 de Maio, a minha visita a Berlim permitiu também, no dia anterior,
estrear-me na mítica sala da Filarmónica de Berlim e com Wagner.
Christian Elsner foi
Siegmund. É um excelente cantor, com uma voz de timbre bonito mas falta-lhe
algum lirismo interpretativo que nos faça transparecer o herói que é Siegmund e
o quanto a sua vida muda com Sieglinde. Falta-lhe alguma garra nas passagens de
herói. Esteve melhor no segundo acto mas
pouca foi a entrega a e afirmação vocal, por exemplo, no duelo com Hunding.
Eva-Maria Westbroek foi
sublime com Sieglinde - potência vocal brutal, sentido interpretativo exímio,
uma verdadeira fera wagneriana, no bom sentido.
Mikhail Petrenko foi um
Hunding perfeito - excelente nas nuances interpretativas da personagem, voz
cavernosa quanto baste e uma presença física concordante.
Terje Stensvold espanta pela
qualidade e pureza tímbrica da sua voz que conta já com 68 anos de idade.
Apesar de excelente sentido dramático global, faltou-lhe, em alguns momentos, a
profundidade necessária para a personagem de Wotan. Isso ficou patente, por
exemplo, no final do segundo acto, onde foi claramente abafado pela Orquestra.
Evelyn Herlitzius surgiu com
o mesmo fato com que havia feito Brunnhilde em Barcelona em 2008. Já não a
ouvia neste papel desde essa altura. Entrou com o seu histerismo vocal que me
fez odiar a sua voz da primeira vez que a ouvi nas transmissões de Bayreuth
através da Antena 2, há vários anos. Os seus Hoiotohoos foram tecnicamente não
como está escrito e a estridência gritada dos seus agudos incomodativa,
emanando um som gutural sempre que mudava de sílabas nos agudos. Contrastando
com isto, o canto no seu registo mais grave foi bastante melhor.
A Fricka de Lilli
Paasikivi foi de grande qualidade, muito
sentida e com uma voz de qualidade acima da média.
As Valquírias estiveram, no
seu todo, em excelente forma vocal.
Mas os Reis da Noite foram
Simon Rattle e a Filarmónica de Berlim. Esta foi a maior (e talvez insuperável)
prestação orquestral de A Valquíria a que alguma vez assisti. Virtualmente sem
erros, e principalmente com uma secção de metais irrepreensível, a sonoridade
wagneriana foi do outro Mundo, em consonância com a fantástica acústica da
sala. A dinâmica, potência, coesão e sincronismo de cada elemento e de cada
naipe foi absolutamente arrepiante. A sensação transmitida era que a Orquestra
funcionava como um elemento único, como que personificando um único músico.
Momentos como o acorde final após a escala descendente depois do “Geh” de Wotan
que cair por terra Hunding, ou a entrada da Orquestra após o “Der Gott” no
monólogo final de Wotan foram de uma precisão sublime, (passagens de elevada
dificuldade de sincronismo de naipes). Eu que habitualmente evito falar da clássica
“Cavalgada das Valquírias” (porque parece sempre para aqueles que não gostam de
ópera, e para alguns que a criticam, a única coisa a que se resume esta obra
monumental de Wagner), tenho o maior prazer em dizer que encheu a sala com um
poderio imenso.
Foi a minha estreia na
famosa sala da Filarmónica de Berlim e vai ficar, para sempre, na minha memória
com um marco interpretativo orquestral brutal.
Die Walküre (concert
version) - Berliner Philharmoniker - May 27, 2012
Along with the Simon Boccanegra on the 28th, my visit to Berlin also allowed me to debut in the legendary hall
of the Berlin Philharmonic and with Wagner.
Christian Elsner was
Siegmund. He is an excellent singer, with a beautifull soundly voice but lacks
some lyrical touch. He was better in the second act was but missing some
interpretative strength in his vocal posture as, for example, in the duel with
Hunding.
Eva-Maria Westbroek was
sublime as Sieglinde – superb vocal power, expert interpretive sense, a true
wagnerian beast, in the good sense.
Mikhail Petrenko was a
perfect Hunding - excellent in the interpretive nuances of the character, cavernous
voice and a coherent physical presence.
Terje Stensvold surprised by
the quality and purity of his voice which already has 68 years of age. Despite an
overall excellent dramatic sense, he lacked, in some passages, the necessary
depth to the character of Wotan. This was evident, for example, in the end of
the second act, in which he was clearly muffled by the Orchestra.
Evelyn Herlitzius came up
with the same suit with which she had done Brunnhilde in Barcelona in 2008.
Have not heard her in this role since then. she entered with her hysterical
voice which had made me hate her the first time I heard it in the Bayreuth
broadcasts on our classical radio some years ago. Her Hoiotohoos were not
technically as it is written and the stridency of her shouting in the high
notes was disturbing, emitting a guttural sound when moved between the acute
syllables. In contrast with this, her voice in a lower pitch was much better.
The Fricka of Lilli
Paasikivi was of great quality, very experienced and with a voice quality above
average.
The Valkyries were on the
whole, in excellent vocal form.
But the Kings of the Night
were Simon Rattle and the Berlin Philharmonic. This was the best (and perhaps
insurmountable) orchestral performance of The Valkyrie I have ever listen to.
Virtually no errors, and especially with a blameless metal section, the
wagnerian sound was from another world, in line with the fantastic acoustics of
the room. The dynamic power, cohesion and timing of each elemento was
absolutely chilling. The feeling was that the Orchestra worked as a single
element, as if embodying a single musician. Moments like the final chord after the
sliding scale ending the "Geh" by Wotan which makes Hunding die, or
after the entry of the Orchestra after the "Der Gott" in the final
monologue of Wotan was of a sublime precision. I usually avoid talking of the
classic "Ride of the Valkyries" (because it seems always to those who
do not like opera, and to some who criticize it, the only thing that comes down
from this monumental work of Wagner), I have great pleasure in say that it
filled the room with an immense power.
It was my debut in the
famous room of the Berlin Philharmonic and this concert will stay forever in my
memory manily due to a superb orchestral performance.
Não sei se
posso dizer, sendo Domingo quem é (mas talvez justamente por ser quem o é), que
Plácido amadureceu o papel a um nível sobre-humano. Da voz já nem vale a pena
fazer comentários. Para quê fazer frases tidas como feitas, com alusão à sua
idade, e que têm passado em diversos blogues e artigos de revistas? Penso
importante sim, referir que atingiu uma coerência harmónica, aliada a uma
expressividade magnífica, numa das passagens que soavam como menos convincentes
no seu todo. Estou a falar do “Plebe! Patrizi! Popolo!” e, particularmente do
“E vo gridando pace!”... O seu falado “e tu ripeti il giuro” em direcção a
Paolo foi aterrorizador. O modo como no último acto foi exprimindo vocal e
corporalmente, em intensidade crescente, o efeito mortífero do veneno ingerido
e, ao mesmo tempo, ia interagindo com Fiesco como que evoluindo emocionalmente
em duas plataformas, uma física e outra psicológica, foi de uma qualidade
ímpar. Após a sua última palavra na obra – “Maria”, e mesmo antes de cair
morto, de forma sempre atlética, leva a
mão ao peito com um esgar de dor e lança um último suspiro de forma tão
dramaticamente tocante que todos no Teatro estavam inertes, sem se ouvir um
único ruído – genial!
Mais uma vez e de forma ainda mais tocante, Plácido Domingo
demonstrou-me que, sendo deste Mundo, ao mesmo tempo não o é, pela sua
singularidade. A sua paixão pela Vida e pela Ópera é o que lhe dá alimento, e o
que o faz querer sempre inovar e crescer, tenha 71 anos ou qualquer que seja a
sua idade. E isto é uma verdadeira lição de vida e uma inspiração para todos!
Anja Harteros foi uma Amélia excelente com a sua voz bela,
de grande pureza de timbre e sensibilidade. Contudo fica a sensação de que não
domina completamente a capacidade de regulação da potência vocal. Amélia
Grimaldi não é uma personagem wagneriana e, mesmo que fosse, em determinados
momentos projecta a sua voz com uma intensidade tal que o que transparece é que
destina a exibir a sua potência mais do que uma adaptação à personagem que está
a interpretar.
Fabio Sartori não me surpreendeu pela sua voz, a qual
conheço já bem e que me faz afirmar que se trata de uma das maiores vozes de
tenor da actualidade. Supreendeu-me sim o seu maior à-vontade em palco. Já não
é só um corpo inerte a cantar. A sua maior naturalidade e credibilidade de
movimentos acaba por se traduzir também na sua interpretação vocal.
Depois de ouvir Ferruccio Furlanetto interpretar o papel de
Fiesco torna-se difícil admirar outro cantor neste papel. Kwangchul Youn esteve
bem mas principalmente nos terceiro e quarto actos, onde a sua expressão cénica
foi mais natural e sentida.
Hallo Muller-Brachmann foi um Paolo de excelente qualidade
mas a deixar a possibilidade de ser ainda melhor se tornar a personagem menos
rígida e com um horror mais tenebroso.
Daniel Barenboim e a Orquestra estiveram sublimes! Foi talvez a
primeira vez que vi Barenboim sorrir em palco, deixando cair a sua postura séria
e egocêntrica (talvez não o seja realmente mas é a ideia que sempre
transparece).
Para finalizar, agradeço ao encenador o facto de trocar o
manto de Boccanegra do 2º acto de um amarelo profundamente irritante para um
branco/creme, conferindo muito mais classe ao papel.
O Teatro Schiller é muito mais acolhedor do que a velhinha
Staatsoper, agora em remodulação.
O fosso é fundo, não se vendo o Maestro da
plateia, e a acústica e excelente. Penso que seria uma mais valia manter este
Teatro aberto, mesmo depois da abertura do edifício renovado, não só pelas suas
qualidades mas sim também por estar a poucos metros da Deutsche Oper. A
Bismarkstrasse continuaria a ser a rua mais importante de Berlim para qualquer
Fanático da Ópera...
SIMON BOCCANEGRA - Schiller Theatre,
Berlin - May 28, 2012
With the same cast and in the same city
in which debuted in the role, Plácido Domingo brought back Simon Boccanegra to
Berlin.
I do not know if I can say this, with Domingo being who he is (but
maybe just because of who is), but Plácido matured this role to a superhuman level.
There is no need to comment on the voice. Why make the usual statements, with
reference to his age, and that have passed on several blogs and magazine
articles? But I think important to note that he reached a harmonic coherence,
coupled with a magnificent expression, in one of the passages that sounded less
convincing as a whole. I'm talking about the "Plebe! Patrizi! Popolo” and
particularly "E vo gridando pace!"... His spoken "e tu ripeti il
giuro" towards Paolo was terrifying. The manner in which he expressed
physically and vocally, with increasing intensity, the lethal effect of the ingested
poison and while interacting with Fiesco as if evolving in two platforms, one
physical and other psychological, was of a unique quality. After his last word
in the opera - "Maria", and just before he drops dead, always in an athletic
way, he takes his hand to his chest with a grimace of pain and gives a last
breath so dramatically that all the people in the Theatre were inert. Not a
single noise was heard from the audience
- brilliant!
Again, and in a way even more touching,
Plácido Domingo showed me that being from this World, he also isn’t due to his
uniqueness. His passion for Life and the Opera is what feeds him and what makes
him always want to innovate and grow, be it 71 years old or whatever your age
is. And this is a real life lesson and an inspiration to all of us!
Anja Harteros was a great Amelia, with
her beautiful voice of great purity of tone and sensitivity. However it feels
that she has not completely mastered the ability to regulate the intensity of
her vocal power. Amelia Grimaldi is not a Wagnerian character, and even if it
were, at times she throws her voice with an intensity that what transpires is
that she intended to display her vocal powers more than an adaptation to the
character she is playing.
I was not surprised by Fabio Sartori voice,
which I know very well and which makes me say that this is one of the greatest
tenor voices of our time. He did surprised me but with his better at ease on
stage. Is not just an inert body who sings. His more natural movement and
credibility finally results also in his vocal performance.
After hearing Ferruccio Furlanetto play
the role of Fiesco is difficult to admire other singer in this role. Kwangchul
Youn was well but mainly in the third and fourth acts, where his expression was
more scenic and natural felt.
Hallo Muller-Brachmann was a Paolo of
excellent quality but there is the opportunity to be even better if he makes
the character less rigid and with a darker horror.
Daniel Barenboim and the Orchestra were
sublime! It was perhaps the first time I saw Barenboim smiling on stage,
dropping his self-centered and serious posture (maybe not his real personality
but that is the idea that always shines).
Finally, I thank the director for
changing Boccanegra mantle of the second act from a deeply irritating yellow to
a classy white cream one.
The Schiller Theater is much more
welcoming than the old house of the Staatsoper, now in refurbishment.
The pit is deep, not seeing the Maestro from the orchestra stalls, and the acoustics
are excellent. I think that would be an asset to keep this theater open, even
after the opening of the renovated building, not only for its qualities but
also for being a few meters from the Deutsche Oper. The Bismarkstrasse would remain
the most important street in Berlin for any Opera Fanatic...