domingo, 10 de junho de 2012

A ESTREIA DE BIDU SAYÃO NO METROPOLITAN OPERA HOUSE DE NOVA YORQUE. MANON DE MASSENET

Mais um texto da autoria de Ali Hassan Ayache do blogue Música, Ópera e Ballet que agradecemos e publicamos na íntegra:


Bons tempos em que íamos às livrarias para garimpar novidades. Os atendentes entendiam do assunto, cada um se especializava em uma área e dialogava com o cliente. Saudades da livraria Brasiliense no centro de São Paulo, os atendentes conheciam todo o tipo de publicação. Hoje em dia as pequenas livrarias , praticamente desapareceram, sobraram as grandes redes. Atendentes que não entendem de assunto nenhum são, em geral, a regra. Trabalho hercúleo é encontrar um e quando você consegue, ele só sabe olhar para o computador e informar o óbvio.

Garimpava eu em uma grande livraria de São Paulo quando vejo um senhor tentando encontrar alguém para orientá-lo. Procura um bom tempo e depois de muita labuta, uma simpática e bela atendente lhe da atenção. Jeito de descolada, brincos pra todo lado e um sorriso falso no rosto. Ele lhe relata que quer presentear uma amiga com a ópera Nabucco de Verdi . Ela sequer imagina o que seja Nabucco e muito menos quem seja Verdi. Vai ao computador e esse lhe informa que essa ópera esta esgotada. Provavelmente digitou Nabucco com um C e o sistema não encontrou nada.
Decepcionado o senhor lhe agradece. Na minha frente, na prateleira, cara a cara, estava um Box em CD dessa ópera. Mostro ao senhor e ele se espanta, não entende nada, nem olha o preço e vai direto ao caixa.


Bidu Sayão

Nesse dia me deparo com outra novidade, nem sequer imaginava que essa gravação existia. Um Box triplo com a estreia da grande cantora brasileira Bidu Sayão no Metropolitan Opera House de Nova Yorque. Lançado pelo selo Naxos, a gravação da ópera Manon de Massenet foi realizada em 13 de Fevereiro de 1937. Nem penso duas vezes, comprei na hora.


Bidu Sayão

Ansiedade total, estava alucinado para ouvir a bela voz do rouxinol brasileiro. Não me decepciono, todo o lirismo e a grande técnica de Bidu Sayão estavam na gravação. O soprano tinha uma voz pequena, mas um timbre de beleza monumental, as notas saem como uma delicadeza única. Uma voz leve e especial e com uma luminosidade incrível. O sucesso de Bidu Sayão no Met foi consequencia desse belo timbre, em uma época em que as vozes eram o elemento primordial da ópera, cantou em várias temporadas e sempre agradou aos gringos.
Mostrei a gravação aos amigos da antiga, todos ficaram surpresos, tive que fazer cópias dessa ópera. Documento raro, Bidu Sayão estreando no Met e cantando muito. Grata surpresa!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Die Walküre (versão concerto) – Berliner Philharmoniker – 27 Maio 2012

(review in english below)



Juntando ao Simão Boccanegra de dia 28 de Maio, a minha visita a Berlim permitiu também, no dia anterior, estrear-me na mítica sala da Filarmónica de Berlim e com Wagner.

Christian Elsner foi Siegmund. É um excelente cantor, com uma voz de timbre bonito mas falta-lhe algum lirismo interpretativo que nos faça transparecer o herói que é Siegmund e o quanto a sua vida muda com Sieglinde. Falta-lhe alguma garra nas passagens de herói.  Esteve melhor no segundo acto mas pouca foi a entrega a e afirmação vocal, por exemplo, no duelo com Hunding.

Eva-Maria Westbroek foi sublime com Sieglinde - potência vocal brutal, sentido interpretativo exímio, uma verdadeira fera wagneriana, no bom sentido.

Mikhail Petrenko foi um Hunding perfeito - excelente nas nuances interpretativas da personagem, voz cavernosa quanto baste e uma presença física concordante.


Terje Stensvold espanta pela qualidade e pureza tímbrica da sua voz que conta já com 68 anos de idade. Apesar de excelente sentido dramático global, faltou-lhe, em alguns momentos, a profundidade necessária para a personagem de Wotan. Isso ficou patente, por exemplo, no final do segundo acto, onde foi claramente abafado pela Orquestra.

Evelyn Herlitzius surgiu com o mesmo fato com que havia feito Brunnhilde em Barcelona em 2008. Já não a ouvia neste papel desde essa altura. Entrou com o seu histerismo vocal que me fez odiar a sua voz da primeira vez que a ouvi nas transmissões de Bayreuth através da Antena 2, há vários anos. Os seus Hoiotohoos foram tecnicamente não como está escrito e a estridência gritada dos seus agudos incomodativa, emanando um som gutural sempre que mudava de sílabas nos agudos. Contrastando com isto, o canto no seu registo mais grave foi bastante melhor.


A Fricka de Lilli Paasikivi  foi de grande qualidade, muito sentida e com uma voz de qualidade acima da média.

As Valquírias estiveram, no seu todo, em excelente forma vocal.

Mas os Reis da Noite foram Simon Rattle e a Filarmónica de Berlim. Esta foi a maior (e talvez insuperável) prestação orquestral de A Valquíria a que alguma vez assisti. Virtualmente sem erros, e principalmente com uma secção de metais irrepreensível, a sonoridade wagneriana foi do outro Mundo, em consonância com a fantástica acústica da sala. A dinâmica, potência, coesão e sincronismo de cada elemento e de cada naipe foi absolutamente arrepiante. A sensação transmitida era que a Orquestra funcionava como um elemento único, como que personificando um único músico. Momentos como o acorde final após a escala descendente depois do “Geh” de Wotan que cair por terra Hunding, ou a entrada da Orquestra após o “Der Gott” no monólogo final de Wotan foram de uma precisão sublime, (passagens de elevada dificuldade de sincronismo de naipes). Eu que habitualmente evito falar da clássica “Cavalgada das Valquírias” (porque parece sempre para aqueles que não gostam de ópera, e para alguns que a criticam, a única coisa a que se resume esta obra monumental de Wagner), tenho o maior prazer em dizer que encheu a sala com um poderio imenso.

Foi a minha estreia na famosa sala da Filarmónica de Berlim e vai ficar, para sempre, na minha memória com um marco interpretativo orquestral brutal.







Die Walküre (concert version) - Berliner Philharmoniker - May 27, 2012


Along with the Simon Boccanegra on the 28th, my visit to Berlin also allowed me to debut in the legendary hall of the Berlin Philharmonic and with Wagner.

Christian Elsner was Siegmund. He is an excellent singer, with a beautifull soundly voice but lacks some lyrical touch. He was better in the second act was but missing some interpretative strength in his vocal posture as, for example, in the duel with Hunding.

Eva-Maria Westbroek was sublime as Sieglinde – superb vocal power, expert interpretive sense, a true wagnerian beast, in the good sense.

Mikhail Petrenko was a perfect Hunding - excellent in the interpretive nuances of the character, cavernous voice and a coherent physical presence.


Terje Stensvold surprised by the quality and purity of his voice which already has 68 years of age. Despite an overall excellent dramatic sense, he lacked, in some passages, the necessary depth to the character of Wotan. This was evident, for example, in the end of the second act, in which he was clearly muffled by the Orchestra.

Evelyn Herlitzius came up with the same suit with which she had done Brunnhilde in Barcelona in 2008. Have not heard her in this role since then. she entered with her hysterical voice which had made me hate her the first time I heard it in the Bayreuth broadcasts on our classical radio some years ago. Her Hoiotohoos were not technically as it is written and the stridency of her shouting in the high notes was disturbing, emitting a guttural sound when moved between the acute syllables. In contrast with this, her voice in a lower pitch was much better.


The Fricka of Lilli Paasikivi was of great quality, very experienced and with a voice quality above average.

The Valkyries were on the whole, in excellent vocal form.

But the Kings of the Night were Simon Rattle and the Berlin Philharmonic. This was the best (and perhaps insurmountable) orchestral performance of The Valkyrie I have ever listen to. Virtually no errors, and especially with a blameless metal section, the wagnerian sound was from another world, in line with the fantastic acoustics of the room. The dynamic power, cohesion and timing of each elemento was absolutely chilling. The feeling was that the Orchestra worked as a single element, as if embodying a single musician. Moments like the final chord after the sliding scale ending the "Geh" by Wotan which makes Hunding die, or after the entry of the Orchestra after the "Der Gott" in the final monologue of Wotan was of a sublime precision. I usually avoid talking of the classic "Ride of the Valkyries" (because it seems always to those who do not like opera, and to some who criticize it, the only thing that comes down from this monumental work of Wagner), I have great pleasure in say that it filled the room with an immense power.

It was my debut in the famous room of the Berlin Philharmonic and this concert will stay forever in my memory manily due to a superb orchestral performance.





sexta-feira, 1 de junho de 2012

SIMÃO BOCCANEGRA – Theatre Schiller, Berlim – 28 Maio 2012



(review in english below)

Com o mesmo elenco e na mesma cidade em que se estreou no papel, Plácido Domingo voltou a trazer Simão Boccanegra a Berlim.



Tendo tido o privilégio de assistir a uma das suas récitas de estreia em Novembro de 2009, e depois das récitas em Londres e Madrid, posso dizer que a récita do passado dia 28 foi extrasensorialmente brutal! 



Não sei se posso dizer, sendo Domingo quem é (mas talvez justamente por ser quem o é), que Plácido amadureceu o papel a um nível sobre-humano. Da voz já nem vale a pena fazer comentários. Para quê fazer frases tidas como feitas, com alusão à sua idade, e que têm passado em diversos blogues e artigos de revistas? Penso importante sim, referir que atingiu uma coerência harmónica, aliada a uma expressividade magnífica, numa das passagens que soavam como menos convincentes no seu todo. Estou a falar do “Plebe! Patrizi! Popolo!” e, particularmente do “E vo gridando pace!”... O seu falado “e tu ripeti il giuro” em direcção a Paolo foi aterrorizador. O modo como no último acto foi exprimindo vocal e corporalmente, em intensidade crescente, o efeito mortífero do veneno ingerido e, ao mesmo tempo, ia interagindo com Fiesco como que evoluindo emocionalmente em duas plataformas, uma física e outra psicológica, foi de uma qualidade ímpar. Após a sua última palavra na obra – “Maria”, e mesmo antes de cair morto, de forma sempre atlética,  leva a mão ao peito com um esgar de dor e lança um último suspiro de forma tão dramaticamente tocante que todos no Teatro estavam inertes, sem se ouvir um único ruído – genial!


Mais uma vez e de forma ainda mais tocante, Plácido Domingo demonstrou-me que, sendo deste Mundo, ao mesmo tempo não o é, pela sua singularidade. A sua paixão pela Vida e pela Ópera é o que lhe dá alimento, e o que o faz querer sempre inovar e crescer, tenha 71 anos ou qualquer que seja a sua idade. E isto é uma verdadeira lição de vida e uma inspiração para todos!


Anja Harteros foi uma Amélia excelente com a sua voz bela, de grande pureza de timbre e sensibilidade. Contudo fica a sensação de que não domina completamente a capacidade de regulação da potência vocal. Amélia Grimaldi não é uma personagem wagneriana e, mesmo que fosse, em determinados momentos projecta a sua voz com uma intensidade tal que o que transparece é que destina a exibir a sua potência mais do que uma adaptação à personagem que está a interpretar.


Fabio Sartori não me surpreendeu pela sua voz, a qual conheço já bem e que me faz afirmar que se trata de uma das maiores vozes de tenor da actualidade. Supreendeu-me sim o seu maior à-vontade em palco. Já não é só um corpo inerte a cantar. A sua maior naturalidade e credibilidade de movimentos acaba por se traduzir também na sua interpretação vocal.


Depois de ouvir Ferruccio Furlanetto interpretar o papel de Fiesco torna-se difícil admirar outro cantor neste papel. Kwangchul Youn esteve bem mas principalmente nos terceiro e quarto actos, onde a sua expressão cénica foi mais natural e sentida.


Hallo Muller-Brachmann foi um Paolo de excelente qualidade mas a deixar a possibilidade de ser ainda melhor se tornar a personagem menos rígida e com um horror mais tenebroso.


Daniel Barenboim e a Orquestra estiveram sublimes! Foi talvez a primeira vez que vi Barenboim sorrir em palco, deixando cair a sua postura séria e egocêntrica (talvez não o seja realmente mas é a ideia que sempre transparece).



Para finalizar, agradeço ao encenador o facto de trocar o manto de Boccanegra do 2º acto de um amarelo profundamente irritante para um branco/creme, conferindo muito mais classe ao papel.

O Teatro Schiller é muito mais acolhedor do que a velhinha Staatsoper, agora em remodulação. 


O fosso é fundo, não se vendo o Maestro da plateia, e a acústica e excelente. Penso que seria uma mais valia manter este Teatro aberto, mesmo depois da abertura do edifício renovado, não só pelas suas qualidades mas sim também por estar a poucos metros da Deutsche Oper. A Bismarkstrasse continuaria a ser a rua mais importante de Berlim para qualquer Fanático da Ópera...






SIMON BOCCANEGRA - Schiller Theatre, Berlin - May 28, 2012


With the same cast and in the same city in which debuted in the role, Plácido Domingo brought back Simon Boccanegra to Berlin.



Having had the privilege of attending one of his debut performances in November 2009, and after the performances in London and Madrid, I can say that the one of the 28th May was heavenly brutal! 




I do not know if I can say this, with Domingo being who he is (but maybe just because of who is), but Plácido matured this role to a superhuman level. There is no need to comment on the voice. Why make the usual statements, with reference to his age, and that have passed on several blogs and magazine articles? But I think important to note that he reached a harmonic coherence, coupled with a magnificent expression, in one of the passages that sounded less convincing as a whole. I'm talking about the "Plebe! Patrizi! Popolo” and particularly "E vo gridando pace!"... His spoken "e tu ripeti il giuro" towards Paolo was terrifying. The manner in which he expressed physically and vocally, with increasing intensity, the lethal effect of the ingested poison and while interacting with Fiesco as if evolving in two platforms, one physical and other psychological, was of a unique quality. After his last word in the opera - "Maria", and just before he drops dead, always in an athletic way, he takes his hand to his chest with a grimace of pain and gives a last breath so dramatically that all the people in the Theatre were inert. Not a single noise was  heard from the audience - brilliant!


Again, and in a way even more touching, Plácido Domingo showed me that being from this World, he also isn’t due to his uniqueness. His passion for Life and the Opera is what feeds him and what makes him always want to innovate and grow, be it 71 years old or whatever your age is. And this is a real life lesson and an inspiration to all of us!




Anja Harteros was a great Amelia, with her beautiful voice of great purity of tone and sensitivity. However it feels that she has not completely mastered the ability to regulate the intensity of her vocal power. Amelia Grimaldi is not a Wagnerian character, and even if it were, at times she throws her voice with an intensity that what transpires is that she intended to display her vocal powers more than an adaptation to the character she is playing.


I was not surprised by Fabio Sartori voice, which I know very well and which makes me say that this is one of the greatest tenor voices of our time. He did surprised me but with his better at ease on stage. Is not just an inert body who sings. His more natural movement and credibility finally results also in his vocal performance.


After hearing Ferruccio Furlanetto play the role of Fiesco is difficult to admire other singer in this role. Kwangchul Youn was well but mainly in the third and fourth acts, where his expression was more scenic and natural felt.


Hallo Muller-Brachmann was a Paolo of excellent quality but there is the opportunity to be even better if he makes the character less rigid and with a darker horror.


Daniel Barenboim and the Orchestra were sublime! It was perhaps the first time I saw Barenboim smiling on stage, dropping his self-centered and serious posture (maybe not his real personality but that is the idea that always shines).



Finally, I thank the director for changing Boccanegra mantle of the second act from a deeply irritating yellow to a classy white cream one.

The Schiller Theater is much more welcoming than the old house of the Staatsoper, now in refurbishment.

 

The pit is deep, not seeing the Maestro from the orchestra stalls, and the acoustics are excellent. I think that would be an asset to keep this theater open, even after the opening of the renovated building, not only for its qualities but also for being a few meters from the Deutsche Oper. The Bismarkstrasse would remain the most important street in Berlin for any Opera Fanatic...