domingo, 12 de fevereiro de 2012

Götterdämmerung – METLive – Fundação Calouste Gulbenkian – 11 Fevereiro 2012



(review in english below)


Chegámos ao final do monumental novo Ciclo do Anel do Nibelungo, da Metropolitan Opera, com este Crepúsculo dos Deuses, visionado ontem na Fundação Calouste Gulbenkian.

Robert Lepage afirma-se, se ainda não o tinha feito antes, como um génio especial. Uma encenação em tudo clássica e fiel ao texto, mas apresentada de uma forma moderna, recorrendo a um mecanismo de grande complexidade tecnológica mas que se projecta de forma aparentemente simples. Será esta a perfeita união entre a encenação clássica e a moderna? Eu penso que sim e é a encenação que Richard Wagner, por certo, gostaria de tido e podido ver em vida.



A excelência desta encenação tem crescido desde o Ouro do Reno, atingindo no Crepúsculo a sua completa potencialidade e maturação de ideias. Lepage traz-nos visualmente e sem controvérsia todos os momentos que, em praticamente todas as outras encenações, é deixado à imaginação daqueles que conhecem a obra, como são exemplo, a viagem de Siegfried pelo Reno com Grane (o cavalo de Brünnhilde que Lepage personifica em boneco mecanizado e gerido electronicamente à distância) e a sua chegada junto de Hagen, Gunther e Gutrune.



Do mesmo modo, Lepage não deixa momentos cénicos em vazio, aproveitando os leitmotif de forma exemplar como é o caso da marcha fúnebre de Siegfried – simplesmente genial Gunther lavar a mão cheia de sangue de Siegfried (depois de o ter amparado após ser ferido por Hagen) nas águas do Reno projectadas na plataforma e esta ficar completamente vermelha.



Ainda mais o é o agarrar da mão de Siegfried por Gunther como manifestação de pesar deste (no fundo ficaram irmão de sangue no 1º acto).



E fantasticamente brutal o aproveitar do leitmotive da espada Notung na marcha, com Gunther a elevar Notung enquanto os seus homens elevam o corpo inerte de Siegfried.

Um momento de genialidade que encontra paralelo na cena da imolação de Brünnhilde, cavalgando Grane até à pira onde Siegfried jaz em chamas, enquanto a plataforma os encobre progressivamente, inicialmente em chamas e depois com as águas do Reno.




E também no final, com a representação da destruição de Walhalla com estátuas dos deuses a se desmoronarem, deixando no final, um fundo azul e a plataforma realizando movimentos simuladores de ondas – Lepage deixa-nos, no final, o local onde tudo começou – o Reno. GENIAL!!!

Jay Hunter Morris já me havia conquistado no Siegfried e ainda mais profundamente me arrebatou neste Crepúsculo. É certo que no prólogo não esteve ao seu mais alto nível, denotando ainda alguma falta de aquecimento da voz mas perfeito, no seu estilo, ao longo de toda a ópera. É genial a forma como tornou o seu Siegfried mais adulto, como se espera, mas com um ou outro momentos de maior ingenuidade. O seu porte faz-nos aceitar que estamos na presença de um verdadeiro herói e o seu olhar tem uma capacidade expressiva invulgar. A sua interpretação da morte de Siegfried é tão naturalmente sentida que até arrepia e o modo como, ferido, tentou agarrar ainda Notung como defesa contra Hagen e não a conseguir elevar, por estar ferido, foi mais do que um simples momento cénico marcante!



Deborah Voigt teve a sua melhor interpretação neste Anel. Voz fabulástica e uma postura de grande confiança. A validar o facto de ter sido ela a escolhida para ser a Brünnhilde desta produção.





Hans-Peter König
foi vocalmente perfeito como Hagen. Se formos picuinhas podemos só ter a ousadia de lhe exigir um pouco mais na expressão facial e corporal que, na minha opinião, é algo amorfa em cerca de 70% do tempo. Adorei a sua caracterização capilar, fazendo lembrar o aspecto do seu pai Alberich, no Ouro do Reno.



Iain Paterson foi um Gunther perfeito! Voz de timbre lindíssimo, já elogiada neste blog, postura muito digna e com uma interpretação de elevada qualidade dramática.



Waltraud Meier esteve simplesmente deslumbrante! Mesmo em papel mais curto dos que habitualmente canta em Wagner, não o deixou de fazer de forma marcante.



O modo como conta a Brunnhilde como Wotan aguarda o desfecho em Walhalla foi profundamente tocante.



Wendy Bryn Harmer foi uma Gutrune à altura dos seus companheiros, com voz forte, segura e expressiva.



Eric Owens, na sua fugaz aparição como Alberich, esteve ao seu nível de excelência.



Coro fenomenal e uma Orquestra no global fabulosa (que pecou apenas nos ocasionais momentos menos felizes dos metais como o início do prólogo e da morte de Siegfried) dirigida de modo que me agradou muito por Fabio Luisi, que se começa a afirmar como um bom sucessor de Levine.

Há encenações que marcam a história da Ópera e esta é uma delas. Serão possivelmente precisos muitos anos até que outra encenação atinja esta excelência. Até lá espero que possamos continuar a viver esta com a emoção que se sentiu hoje.



Götterdämmerung - METLive - Calouste Gulbenkian Foundation - February 11, 2012

We have reached the end of the monumental new Ring cycle by the Metropolitan Opera, with this Twilight of the Gods, viewed yesterday at the Calouste Gulbenkian Foundation.

Robert Lepage sets himself as a special genius. A classic production, faithful to the text, but presented in a modern way, using a mechanism of great technological complexity but projected in an apparently simple way. Is this the perfect marriage between classic and modern staging? I think so and this is the staging Richard Wagner, of course, would have liked to see.



The excellence of this staging has grown since das Rheingold, reaching the full potential and maturation of ideas in this Götterdämmerung. Lepage brings us what is left to imagination in other productions as, for example, the Siegfried’s voyage on the Rhine with Grane (Brünnhilde's horse who Lepage personifies in a mechanical horse, electronically controlled from a distance) and their arrival to Hagen, Gunther and Gutrune.



Similarly, Lepage does not leave empty scenic moments, using the leitmotif in an exemplary manner as in the case of Siegfried's funeral march – simply genious when Gunther washes his hand on the waters of the Rhein, projected on the platform, which become completely red.



Further greatness is seen in Gunther holding Siegfried’s hand with an expression of regret (they became blood brothers in the 1st act).



And excellence is seen when Gunther helds high Siegfried’s Notung when the leitmotiv of the sword is heard.

A moment of genius that is paralleled in the immolation scene of Brünnhilde, when she rides Grane to the pyre where Siegfried lies in flames, while the platform covers them progressively, initially in flames and then with the waters of the Rhine.




And in the end, with the representation of the destruction of Valhalla with statues of the gods falling apart, leaving in the end, a blue background and the platform simulating waves motion - Lepage leaves us, in the end, where it all began - the Rhein. SUPERB!!!

Jay Hunter Morris who has already convinced me in Siegfried, was once again superb. It is true that he was not at his highest vocal level in the prologue but he was perfect throughout the opera. It is fantastic has he gives us a more adult Siegfried but still shows us some moments of naivety. His physical appearance makes us accept that we are in the presence of a true hero and his eyes have an unusually expressive capability. His interpretation of the death of Siegfried is so naturally felt that shivers up and how, wounded, he still tried to grab Notung as a defense against Hagen and was not able to held it high because he was wounded was more than just a special scenic moment!



Deborah Voigt had her best performance in this Ring. Fabulous voice and a posture of great confidence. She showed why she was picked to be the Brünnhilde of this production.



Hans-Peter König as Hagen was vocally perfect. If we want to be nitpicking we can only dare to ask him a little more on facial and body expressivity that, in my opinion, is amorphous in about 70% of the time. I loved the hair characterization, resembling the appearance of his father Alberich in Das Rheingold.



Iain Paterson was a perfect Gunther! Voice of beautiful tone, already praised in this blog, very dignified posture and a dramatic interpretation of high quality.



Waltraud Meier was simply stunning! Even on a shorter than usual role when singing Wagner she was spectacular.



The way she sings how Wotan is waiting the end of the Gods in Walhalla was deeply touching.




Wendy Bryn Harmer was a very good Gutrune with a strong, safe and expressive voice.



Eric Owens, in his brief appearance as Alberich, was at his level of excellence.



The Choir was phenomenal and the Orchestra was globally phenomenal (sinned only in occasional less happy moments in the metal section like the beginning of the prologue and the death of Siegfried). Fabio Luisi begins to assert himself as a good Levine successor.

There are performances that mark the history of the Opera and this is one of them. It will probably take many years until another production achieves this excellence. Until then I hope we can continue to live this with the excitement we felt today.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ton Koopman, Fundação Gulbenkian, Fevereiro de 2012


Depois de dois concertos com estrelas do canto lírico na Terça e Quarta-feiras, a FCG voltou a presentear-nos com a presença do famoso maestro holandês Ton Koopman que se apresentava, pela primeira vez, a dirigir a Orquestra Gulbenkian.


O programa escolhido foi constituído, inevitavelmente, por obras do período barroco e clássico.

A primeira obra foi a cantata Ich habe genug (BWV 82) de J. S. Bach destinada à Festa da Purificação de Nossa Senhora e que se baseia num libreto de autor desconhecido.
Foi interessante podermos assistir na mesma semana à mesma cantata em duas das suas versões: primeiro na voz do contratenor Andreas Scholl e, agora, na do baixo alemão Klaus Mertens, colaborador habitual do maestro.


Podemos dizer que a orquestra foi excelentemente dirigida e teve em Pedro Ribeiro um solista para oboé que nos transportou com mestria para a primeira ária Ich habe genug. Klaus Mertens, com a sua voz melodiosa e bem colocada, foi um solista que correspondeu inteiramente às expectativas.

A obra seguinte foi uma selecção da obra Musique de table ou Tafelmusik do compositor G. P. Telemann que data de 1733. É uma obra muito interessante da qual ouvimos uma excelente interpretação, tendo Koopman conduzido a orquestra de um modo muito claro e explorando as várias linhas melódicas e ritmos muito elegantes da obra.

A concluir o programa, ouviu-se a última sinfonia de W. A. Mozart — Sinfonia n.º 41, em Dó Maior, K. 551, composta em 1788 e titulada “Júpiter” pelo seu empresário a propósito da sua eloquência poderosa.
Uma vez mais, Koopman conduziu-nos pela obra de Mozart com excelência, envolvendo o público com o amplo espectro dramático desta sinfonia.

Em suma, com a sua presença simpática e o seu estilo invulgar e muito próprio, Ton Koopman proporcionou-nos mais um espectáculo de elevada qualidade. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Karita Mattila, Fundação Gulbenkian, Fevereiro de 2012

 (fotografias / photos do site da Fundação Gulbenkian)

 Acompanhada ao piano por Ville Matvejeff, o soprano finlandês Karita Mattila cantou, mais uma vez, na Gulbenkian. Interpretou Alban Berg (sete canções de juventude), Lieder de Johannes Brahms e, na segunda parte, Claude Debussy (canções sobre poemas de Baudelaire) e Lieder de Richard Strauss.

A voz de Karita Mattila é invulgarmente bela e tem um timbre único que se reconhece imediatamente. A cantora possui uma técnica fabulosa que lhe permite abordar com segurança e perfeição todo o reportório que canta. A potência vocal é enorme, mas a voz é deslumbrante tanto quando canta em fortíssimo como nos pianíssimos. E a capacidade interpretativa é fantástica.

Para mim o concerto foi em crescendo: notável em Berg, excelente em Brahms, fabulosa em Debussy e arrasadora em Strauss. Das quatro canções de Strauss, ofereceu-nos uma interpretação superlativa em Wiegenlied e arrebatadora em Frühlingsfeier. Só estas duas teriam valido o concerto e mostram a versatilidade e excepcionalidade da cantora.


 Para além da voz, Karita Mattila é outra artista que revelou simpatia transbordante. Muitos dos grandes são assim! Ofereceu dois extras, um deles uma divertida canção finlandesa (cantada numa língua exótica para nós, como referiu com humor). Já na fase final dos aplausos, pediu silêncio e cantou um Good night inspirado no West Side Story de Bernstein. Fantástica!

Na Fundação Gulbenkian pudemos ouvir, em dois dias seguidos, dois dos melhores cantores da actualidade (Andreas Scholl e Karita Mattila). O que seria de nós, portugueses, sem a Fundação? Culturalmente (e não só) estaríamos mortos.

Bravo Gulbenkian e muito obrigado!

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Karita Mattila, Gulbenkian Foundation, February 2012

Accompanied by Ville Matvejeff (piano), Finnish soprano Karita Mattila sang once more at the Gulbenkian Foundation. She interpreted Alban Berg (seven songs of youth), Lieder by Johannes Brahms, Claude Debussy (songs on poems by Baudelaire) and Lieder by Richard Strauss.

Karita Mattila's voice is unusually beautiful and has a unique timbre that is recognized immediately. The singer has a fabulous technique that allows her to safely approach in perfection all her singing repertoire. The vocal power is enormous, but the voice is beautiful whether she sings fortissimi or pianissimi. And her artistic capacity is fantastic.

For me the concert was in crescendo: she was outstanding in Berg, excellent in Brahms, fabulous in Debussy and unsurpassed in Strauss. Of the four songs by Strauss, she offered us a superlative interpretation of Wiegenlied and unsurpassed in Frühlingsfeier. Only these two would have been worth the concert, and showed the versatility and uniqueness of the singer.

Apart from her voice, Karita Mattila is another artist who has shown overflowing sympathy. Many of the best are like that! She offered two extras, one of them a fun Finnish song (sung in an exotic language for us, as she said with humour). In the final part of applause, she called for silence and sang a Good night inspired by Bernstein’s West Side Story. Fantastic!

We heard at the Gulbenkian Foundation, in two consecutive days, two of the best singers in the world (Andreas Scholl and Karita Mattila). What would happen to us, Portuguese, without the Gulbenkian Foundation? Culturally (and beyond) we're dead.

Bravo Gulbenkian and thank you!

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Andreas Scholl, Kammerorchester Basel, Fundação Gulbenkian, Fevereiro de 2012

(Algumas fotografias / photos do site da Fundação Gulbenkian)

A Fundação Gulbenkian proporcionou-nos, uma vez mais, a possibilidade de ouvir ao vivo o contratenor alemão Andreas Scholl, desta vez acompanhado pela orquestra de câmara de Basileia, Kammerorchester Basel. Interpretaram J. S. Bach, no âmbito da divulgação do recente CD do cantor com a orquestra.

O concerto iniciou-se com a breve sinfonia da cantata Ich steh mit einem Fuss im Grabe seguida da cantata Ich habe genug. Na segunda parte tivemos o Concerto para cravo nº5 em Fá menor e a cantata Got soll allein mein Herze haben.

A orquestra, dirigida pela violinista Júlia Schröder, deu-nos uma bela sonoridade barroca. O início não saiu bem a Krestin Kramp no oboé, mas tudo o resto foi excelente, merecendo destaque o cravista e organista Giorgio Paronuzzi, responsável por momentos altos no concerto.Os instrumentistas cantaram também o trecho coral final da última cantata, uma mais valia pouco frequente e muito interessante.



Andreas Scholl é um cantor de excepção e demonstrou-o mais uma vez. Cantou com uma suavidade insuperável, fraseando na perfeição e imprimindo nuances interpretativas notáveis. A voz, sempre afinada, mantém um timbre puro e belíssimo. Está mais maudra e perdeu o tom angelical de outros tempos, mas soa cada vez melhor. O cantor, na sua postura informal e simpática, consegue estabelecer uma invulgar empatia com o público, quer quando canta, quer quando está sentado enquanto toca a orquestra. Um artista de referência que sempre encanta.




O público, que esgotou a sala, foi generoso mas não esfuziante nos aplausos mas, nem por isso, alguns dos seus membros deixaram de aplaudir a entrada dos funcionários da Gulbenkian no palco, quando foram retirar o cravo, confundindo-os com elementos da orquestra J!

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Andreas Scholl, Kammerorchester Basel, Gulbenkian Foundation, February 2012

The Gulbenkian Foundation has given us, once again, the opportunity to hear live the German countertenor Andreas Scholl, this time accompanied by the Kammerorchester Basel. They interpreted J. S. Bach, within the recent CD release of the singer with the orchestra.

The concert began with a brief symphony from the cantata Ich steh mit einem Fuss im Grabe followed by the cantata Ich habe genug. In the second part we heard the Concerto for harpsichord No. 5 in F minor and the cantata Got soll allein mein Herze haben.

The orchestra, directed by violinist Julia Schröder, gave us a beautiful baroque sound. The start did not go well for Krestin Kramp in the oboe, but everything else was excellent, with emphasis on the harpsichordist and organist Giorgio Paronuzzi responsible for high moments in the concert. The musicians also sang the choral part of the last cantata, an infrequent and very interesting approach.


Andreas Scholl is an exceptional singer and proved it once again. He sang with an unsurpassed smoothness, phrasing perfectly and with remarkable interpretive nuances. The voice, always in tune, keeps a pure and beautiful tone. It is more mature and lost the angelic tone of previous times, but it sounds better. The singer, in her informal and friendly posture, was able to establish an unusual empathy with the public, either when singing or when sitting while the orchestra was playing. An artist of reference that always delights us.

The audience (the room was sold out) was generous but not too effusive in applause, but even so, some members applauded the entry on stage of workers of the Gulbenkian Foundation, when they were removing the harpsichord, confunding them with elements of the orchestra
J!

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domingo, 5 de fevereiro de 2012

THE ENCHANTED ISLAND – Met Live em HD, Fundação Gulbenkian, Fevereiro de 2012

(review in english below)

 

The Enchanted Island é uma opera concebida por Jeremy Sams, também autor do libretto, em inglês. Foi inspirada no pasticcio, tradição do Séc. XVIII que combinava música pré-existente com novos textos ou enredos. A música é de vários compositores, incluindo Händel, Vivaldi e Rameau. A história teve por base duas obras de Shakespeare, The Tempest e A Midsummer Night’s Dream.

 

A encenação de Phelim McDermott juntou cenários à moda do barroco com tecnologia actual. O resultado foi vistoso, com partes de gosto discutível (a cena de Neptuno no fundo do mar não podia ser mais kitsch) e outras muito bem conseguidas (o final do primeiro acto, com a saída minimalista de Próspero).

(fotografias /Photos de Ken Howard / Met Opera)

O elenco foi de grande peso e muito equilibrado. Wiliam Christie, um reputado especialista no barroco, dirigiu.

O contratenor David Daniels foi um Próspero de qualidade. Mantém as características vocais que sempre lhe conheci e é um cantor respeitável mas sem grandes atributos cénicos, como mais uma vez demonstrou.

O mezzo Joyce DiDonato, no papel da feiticeira Sycorax, foi a melhor cantora em cena. Começou muito bem no registo grave e subiu facilmente para agudos fantásticos, mantendo a qualidade em toda a extensão e em todas as intervenções.


O baixo barítono Luca Pisaroni cumpriu como Caliban, dando boa nota das suas qualidades vocais.

O soprano Danielle de Niese foi um Ariel marcante cenicamente. A voz é muito digna mas achei que a cantora teve dificuldades nas árias de bravura e, no registo mais agudo, tendeu para a estridência.


O Neptuno de Plácido Domingo foi ao nível do que nos tem habituado nas suas recentes interpretações.

Também estiveram bem o soprano Lisette Oropesa (voz clara, cristalina e de grande beleza), o contratenor Anthony Roth Costanzo (excelente na sua única ária), o soprano Layla Claire, o mezzo Elizabeth DeShong, o tenor Paul Appleby e o barítono Elliot Madore.


Apesar de tudo isto, confesso que nunca me senti entusiasmado. Estamos no Séc. XXI e não consigo assimilar com naturalidade a tradição barroca do pasticcio. Logo a primeira ária de Vivaldi cantada por Próspero / David Daniels Ah, if you would earn your freedom, copiada de Ah, ch’infelice sempre da cantata Cessate, omai cessate causou-me alguma estranheza e desconforto. Nunca consegui ultrapassá-lo e, quando ouvi a ária Mother why not? – Mother my blood is freezing cantada por Caliban / Luca Pisaroni, copiada de Gelido in ogni vena de Il Farnace de Vivaldi, não mais perdi a sensação que se estavam a banalizar alguns trechos musicais sublimes. Recordei imediatamente a interpretação superlativa de Cecilia Bartoli, que consegue transmitir uma dor dilacerante (gravação disponível no CD The Vivaldi Album). Comparando as duas, a interpretação nesta ópera foi quase grotesca.
Este é “apenas” um pormenor, mas foram eles que fizeram com que não conseguisse achar que assisti a um espectáculo empolgante.

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THE ENCHANTED ISLAND - Met Live in HD, Gulbenkian Foundation, February 2012

The Enchanted Island is an opera concieved by Jeremy Sams who also wrote the English libretto. It was inspired in pasticcio, an eighteenth-century tradition that combined pre-existing music with new texts or plots. The music was by various composers, including Händel, Vivaldi and Rameau. The story was based on two Shakespeare’s pieces, The Tempest and A Midsummer Night's Dream.

The staging of Phelim McDermott joined stylish baroque scenarios with modern technology. The result was showy, with parts of questionable interest (the scene of Neptune in the sea could not be more kitsch) and others very good (the end of the first act, with the minimalist exit of Prospero).

The cast was of top quality and well balanced. William Christie, a renowned baroque specialist, directed.

Countertenor David Daniels was a Prospero of quality. He keeps his vocal characteristics preserved, and he is a respectable singer, but not with great scenic attributes, as we could see once again.

Soprano Danielle de Niese was,a striking Ariel on stage. The voice is powerful but I thought the singer had difficulties in bravura arias, and in the register she tended to stridency.

Mezzosoprano Joyce DiDonato, as the witch Sycorax, was the best singer on the scene. She started very well in the lower register and she easily achieved fantastic top notes, maintaining the highest quality throughout the entire vocal range and in all her interventions.

Bass baritone Luca Pisaroni was a very decent Caliban, showing his good vocal form.

Placido Domingo’s Neptune maintained the interpretative quality that we have seen in his recent performances.

Also very well were soprano Lisette Oropesa (clear, cristal and beautiful voice), countertenor Anthony Roth Costanzo (excellent in his single aria), soprano Layla Claire, mezzo Elizabeth DeShong, tenor Paul Appleby and baritone Elliot Madore.

Despite all this, I confess that I never felt excited. We are in the XXI century and I can not assimilate naturally the baroque tradition of the pasticcio. The first Vivaldi aria sung by Prospero / David Daniels Ah, if you would earn your freedom, copied from Ah, ch'infelice sempre from the cantata Cessate, omai cessate caused me immediately some strangeness and discomfort. I could never overcome this discomfort, and when I heard the aria Mother why not? - Mother my blood is freezing sung by Caliban / Luca Pisaroni, copied from Gelido in ogni vena from Vivaldi’s Il Farnace I no longer lost the feeling that some sublime pieces of exquisite baroque music were being trivialized. I remembered immediately the sublime interpretation of Cecilia Bartoli of this aria, who manages to convey an excruciating pain (available on CD The Vivaldi Album).  Comparing the two, the interpretation in this opera is almost grotesque.

This is "only" a detail, but several of these "details" made me feel that I was not watching an exciting performance.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Iolanta e Pèrsephone, Teatro Real, Madrid, 28 de Janeiro de 2012


É com grande satisfação que apresento de um novo amigo, colega e fanático, um texto sobre um espectáculo em Madrid. Quem deveria fazer esta introdução era o wagner_fanatic mas, como anda por terras britânicas a saborear Mozart, cabe-me a mim agradecer ao camo_opera esta sua primeira excelente contribuição para o nosso blogue que, como sempre, publicamos na íntergra:


Assistimos à penúltima récita da sessão dupla (Iolanta de Piotr Ilych Tchaikovsky e Pèrsephone de Igor Stravinsky) que o Teatro Real de Madrid propunha numa nova produção conjunta com o Teatro Bolshoi.
A encenação esteve, para ambas as obras, a cargo de Peter Sellars.


A primeira a ser interpretada foi Iolanta de Tchaikovsky. É uma última ópera do compositor e é marcada por um texto belíssimo (sem se basear em autores russos, mas na obra Henrik Hertz “A Filha do Rei René”) e música como só Tchaikovsky sabe compor. E não podia ter sido melhor! Assistimos de facto a um espectáculo de elevadíssima qualidade.

A encenação de Peter Sellars foi brilhante. É daqueles casos em que o rejuvenescimento cénico se agradece.

Não só foi muito eficaz, como traduziu o texto e emoções na ópera contidas. De realce o magnífico jogo de luzes e cores (nomeadamente entre vermelho e branco quando Iolanta não distingue as cores e Vaudémont se apercebe da sua cegueira), a alternância de sombras e de luzes, bem como os contrastes que foi provocando com a mudança de painéis. Os pórticos simples e eficazes que permitiram a criação das 4 cenas sem qualquer mudança de cenário foi, igualmente, uma ideia excelente e muito bem conseguida.


O jovem maestro grego — Teodor Currentzis — com formação na Rússia fez-nos sentir Tchaikovsky. Talvez um pouco exuberante em demasia no gesto, apresentou-nos uma interpretação com brilho e plena de harmonia romântica. Destacamos a beleza do quarteto e ária de Iolanta na primeira cena e a mestria com que dirigiu o coro a capela da última cena, glorificando-se Deus pela recuperação da visão de Iolanta. Esse foi um momento em que quase sentimos a sua presença mística.

A soprano russa — Ekaterina Scherbachenko — foi magnífica. Com um timbre muito bonito, seguro e expressivo, encheu a sala do Teatro Real com a emoção inocente de uma Iolanta desconhecedora do mundo da luz e das cores que habitava. Esteve soberba no dueto mais famoso da ópera. Sem dúvida um nome a reter!

O tenor que encarna Vaudémont — Pavel Cernoch — esteve, igualmente em bom plano. Com uma voz agradável, captou a atenção do público com uma interpretação jovial, sem que, todavia, brilhasse ao nível de outros elementos do elenco.

O baixo que interpreta o Rei René — Dmitry Ulianov — foi fantástico. Tem uma voz de enorme potência e brilho constantes, encheu sempre a sala com a sua interpretação carregada do desejo da cura da filha e do sofrimento que a sua impotência perante a sua cegueira lhe causava.


O famoso barítono Willard White foi um Ibn-Hakia muito bom. Com uma interpretação contida (como é esperado nesta personagem), a sua voz vestiu inteiramente a assertividade e emoção do texto, tendo sido agradabilíssimo de seguir.


O barítono Maxim Aniskin apresentou-se em grande nível no papel de Robert, duque de Borgõna. Tem uma belíssima voz e sabe colocá-la de um modo impecável. A destacar a ária em que exalta Matilde, a sua amada: perfeito!

O tenor Vasily Efimov foi igualmente muito bom a interpretar o escudeiro do Rei. Cumpriu com mestria o pequeno papel que lhe foi atribuído e destacou pela potência da voz no finale em que todo o elenco canta em conjunto.

O trio feminino de personagens — Marta (Ekaterina Semenchuk, contralto), Brigitta (Irina Churilova, soprano) e Laura (Lettia Singleton, mezzosoprano) — esteve em elevadíssimo nível, cumprindo com todas as solicitações dos seus registos com mestria e vozes límpidas e harmoniosas. Destacou (a realçar alguma) Ekaterina Semenchuk.

O Coro apresentou uma enorme qualidade. E foi divinal na cena à capela já referida.



Em suma, foi um espectáculo digno de uma casa que pretende afirmar-se como uma das referências internacionais do mundo da ópera. Tenho muita dificuldade (mas também não o desejo) em encontrar pontos negativos.


A segunda obra - Pèrsephone de Stravinsky - não é nem uma ópera, nem um oratório, nem um bailado. É, sim, um melodrama apresentado pela primeira vez em 1934 em Paris. Apresenta um texto de André Gide de elevada qualidade e a partir do qual se podem tirar diversas interpretações, nomeadamente, da origem da religião.

Encaixa com a ópera Iolanta, na medida em que partilha parte dos ensinamentos que se podem retirar do texto, apresentando diversos elementos de ligação com a primeira obra apresentada, o que permite justificar a sua encenação conjunta.

O encenador optou por utilizar os mesmos elementos cénicos, alternando os efeitos de luz e cores novamente com muita mestria. O bailado, com elementos simples, foi bonito, expressivo e representativo da história. Podemos dizer que foi muito eficaz e que serviu totalmente o texto e o propósito da obra.

De realçar a forma como conseguiu dar dimensão aos contrastes da escuridão das profundezas do Hades e da luz da vida ao cimo da Terra, na qual se pode ler uma metáfora de teor agrícola bem patente no facto de Persèphone ser a Deusa dos cultivos e Eumolpe, o Deus dos mortos: da terra (escuridão representada pelo Hades) brota a vida (luz existente na terra).


O maestro Vicente Alberola foi quem dirigiu esta obra. E fê-lo com qualidade, mostrando conhecimento do estilo musical de Stravinsky.

O tenor Paul Groves em Eumolpe foi magnífico. Num papel muito difícil pela construção melódica que Stravinsky pouco adaptou à língua francesa (desconsiderado que as suas palavras são, por regra, agudas) esteve muito seguro, apresentando um timbre em todos os momentos muito agradável, transmitindo toda a emoção da personagem. Muito bom!

A narradora Dominique Blanc foi auxiliada por amplificação digital (necessária?) e foi eficaz. Sem nada a apontar.

Os bailarinos do Amrita Performing Arts do Camboja (Sam Sathya em Persèphone; Chumvan em Déméter; Khon Chansithyka em Pluton; e Nam Narim em Mercure, Démophoon e Triptolème) tiveram um enorme destaque dado pela encenação e foram, com os elementos de dança simples, capazes de transmitir não só a história, como as suas emoções.

O Coro esteve, novamente, num nível muito elevado, destacando-se igualmente o Coro infantil muito bem orientado.

Em conclusão, apesar de não ser o nosso tipo musical preferido, nem a música de Stravinsky nesta obra atingir a qualidade de Le Sacre du Primtemps, é uma obra muito interessante com um excelente texto e que permite muitas reflexões. Valeu bem a pena conhecer!

Queremos deixar, ainda, uma pequena nota sobre a iniciativa do Teatro Real em realizar um comentário pré-concerto 30min antes de cada récita: é muito informativo e de elevada qualidade. Aliás, o senhor que fez este comentário (e creio que fará os outros) é um excelente comunicador.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Don Giovanni, Royal Opera House, Londres, Janeiro de 2012

(review in english below)

Don Giovanni é uma ópera de W A Mozart (encomendada depois do sucesso de Le nozze di Fígaro) também com libretto de Lorenzo da Ponte.

A ópera está recheada de árias e ensembles marcantes. Relata a história de um sedutor compulsivo que escapa a tudo e a todos, excepto à morte. Don Giovanni, para além das múltiplas conquistas que são recordadas pelo seu criado Leoporello, seduz Donna Anna, noiva de Don Ottavio e filha do Commendatore que assassina. Donna Elvira foi outra conquista que abandonou e Zerlina, uma camponesa noiva de Masetto, é mais um alvo. Depois de múltiplas peripécias, incluindo a troca de identidade com Leoporello, a estátua do Commendatore convida-o a arrepender-se, o que recusa, acabando devorado pelas chamas do inferno.

A encenação de Francesca Zambello é de grande qualidade. No centro do palco há uma estrutura que roda, bem concebida e com escadas de acesso à parte superior. Ao rodar vai dando origem aos diferentes cenários. O fogo é uma presença frequente ao longo da récita e Don Giovanni acaba consumido pelas chamas num cenário de impressionante efeito visual.




 O maestro grego Constantinos Carydis esteve bem e conseguiu que a excelente Orquestra da Royal Opera House nos brindasse com uma bela interpretação. Ouviu-se Mozart!


 O baixo italiano Marco Spotti foi um Commendatore de voz muito grave, forte e cavernosa, como se espera neste breve papel.

O barítono canadiano Gerald Finley foi um Don Giovanni muito convincente. A voz é bem timbrada e bem audível. Foi muito credível no papel do protagonista. Cenicamente esteve bem, apesar de a encenação ajudar muito.


 Leoporello foi interpretado pelo baixo barítono italiano Lorenzo Regazzo. Apesar de ter sido um óptimo actor, foi o único cantor que destoou dos restantes. A voz não tem nenhuma característica particularmente atractiva e, sobretudo, é pouco potente e deixa-se facilmente abafar pela orquestra. Uma pena.

O tenor norte americano Matthew Polenzani foi um Don Ottavio excepcional. Voz sempre afinada, com um timbre belíssimo e uma interpretação de um lirismo marcante, sobretudo no registo mais agudo.

Também o jovem baixo barítono checo Adam Plachetka foi um Massetto de qualidade superior. Voz potente e muito bonita, muito expressivo e excelente actor.


 Nas senhoras reinou a excelência. O soprano russo Hibla Gerzmava foi uma Dona Anna deslumbrante, com uma interpretação ao nível que nos habituou. Apesar de por vezes ter um vibrato excessivo, a voz é expressiva, de grande potência, sempre afinada, excelente em toda a extensão vocal.


 O mezzo-soprano sueco Katarina Karneus foi uma Dona Elvira marcante. Possuidora de um timbre invulgar e atraente, interpretou a personagem com autoridade, foi sempre bem audível e muito credível. Cenicamente foi uma das melhores.



 Zerlina foi interpretada pelo soprano grego Irini Kyriakidou . Voz clara, límpida e muito lírica, deu graciosidade à personagem e brilho à representação.



 Um excelente Don Giovanni que inicia o ciclo Mozart / da Ponte que a Royal Opera vai levar à cena nas próximas semanas e que o wagner_fanatic vai ter a sorte de saborear na íntegra.





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Don Giovanni, Royal Opera House, London, January 2012

Don Giovanni is an opera by Mozart (commissioned after the success of Le nozze di Fígaro) also with a libretto by Lorenzo da Ponte.

The opera is full of striking arias and ensembles. It tells the story of a compulsive seducer that escapes everyone and everything except death. Don Giovanni, in addition to the many lovers that are mentioned by his servant Leoporello, seduce Donna Anna, Don Ottavio’ fiancee and daughter of the Commendatore who he murders. Donna Elvira is another lover that he abandoned, and Zerlina, a peasant engaged to Masetto, is another target. After many adventures, including the exchange of identity with Leoporello, the statue of the Commendatore invites him to sorrow, which he refuses and ends devoured by the flames of hell.

The staging of Francesca Zambello is of great quality. At the center of the stage there is a well-designed rotating structure with ladders to the top. When it rotates, it originates different scenarios. Fire is a frequent presence along the performance and Don Giovanni ends up consumed by flames in a staging of stunning visual effect.

Greek conductor Constantinos Carydis was good and the excellent Orchestra of the Royal Opera House gave us with an excellent performance. We heard Mozart!

Italian bass Marco Spotti was a Commendatore with a very strong bass voice, as expected in this short role.

Canadian baritone Gerald Finley was a very convincing Don Giovanni. His voice háas a nice timbre and is always heard. He was very credible in the protagonist role. Artistically he was well, though the staging helped a lot.

Leoporello was interpreted by Italian bass-baritone Lorenzo Regazzo.  Despite being a good actor, he was the only singer that was not at the high level as all the others. His voice had no particularly attractive feature and, above all, it was not powerful and was easily drown out by the orchestra.
A pity.

North American tenor Matthew Polenzani was an exceptional Don Ottavio. His voice, always in tune, has a beautiful timbre and his performance was very lyrical, particularly evident in the upper registers.

Also the young Czech bass baritone Adam Plachetka was a great Massetto. He has a powerful and beautiful voice, and he is very expressive and an excellent actor.

Among the ladies excellence was the rule. Russian soprano Hilba Gerzmava was a stunning Dona Anna, with a performance to the level that she uses to offer the public. She has an expressive voice of great power, always in tune, and excellent throughout all her vocal range.

Swedish mezzo-soprano Katarina Karnéus was a remarkable Dona Elvira. She possesses an unusual and attractive timbre, she was outstanding in her performance, always well audible and very credible. Artistically she was one of the best.

Zerlina was interpreted by Greek soprano Irini Kyriakidou. She has a light voice, clear and very lyrical, and she was very gracious and bright in her performance.

It was an excellent Don Giovanni that starts the cycle Mozart / da Ponte that the Royal Opera will offer in the coming weeks, and that wagner_fanatic will be lucky enough to enjoy in full.

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