segunda-feira, 19 de julho de 2010

SALOME – Royal Opera House, Londres, Julho de 2010


Salome de Richard Strauss é uma ópera em um acto com libretto baseado na tradução alemã de Hedwig Llachmann da peça homónima de Oscar Wilde, baseado no tema bíblico de Salomé, a decapitação de São João Baptista. Diz quem sabe que Oscar Wilde, impressionado pela obra do pintor simbolista Gustave Moreau sobre Salomé, alterou a tradição bíbica em que ela é tratada como uma jovem ingénua que obedece passivamente à mãe, para torná-la uma mulher possuída por um desejo sexual obsessivo por São João Baptista que não cedeu ao seu amor.

                                   
                                                                          Salomé por Gustave Moreau

A música de Strauss é dramática e poderosíssima. A sonoridade é grandiosa e rica (por vezes quase ofuscando os cantores), o cromatismo sonoro impressionante, há utilização de leitmotiven e alternância de consonância com dissonância. A orquestra é, assim, a parte maior desta obra.

Herodes Antipas, Tetrarca da Judeia, mandou matar o irmão para ficar com a sua mulher, Herodias (Herodíade), mãe de Salomé que agora também deseja. O profeta Jokanaan (São João Baptista) está preso numa cisterna pelo anátema que lançou em relação ao casamento incestuoso de Herodias. Narraboth, um jovem sírio capitão da guarda, encanta-se por Salomé, princesa da Judeia. Salomé, num terraço do palácio de Herodes, ouve a voz de Jokanaan e exige a Narraboth que o traga à sua presença, contrariando uma ordem de Herodes. Revela uma atracção sexual intensa por ele, pelo seu corpo, pelos seus cabelos, pela sua boca. Tenta insistentemente beijá-lo mas este repele-a, pedindo-lhe que peça perdão ao filho do Senhor. Narraboth, perante este comportamento, mata-se sem que Salomé sequer se aperceba. Jokanaan volta para a cisterna, sua cela, mas Salomé jura que o beijará. Herodes surge e, encantado com Salomé, pede-lhe que dance para ele, prometendo-lhe, em troca, o que ela quiser. Salomé seduz Herodes com a dança dos sete véus e pede-lhe a cabeça de Jokanaan numa bandeja de prata. Herodes tenta dissuadí-la do pedido, oferecendo-lhe todo o tipo de riquezas que possui, mas Salomé insiste. Herodes ordena a decapitação. Herodias manifesta concordância com a atitude da filha. Salomé recebe a cabeça e beija a sua boca longamente, para horror de todos. Herodes ordena a sua morte.

Estamos perante uma ópera para adultos, dominada pela decadência, crueldade, violência e necrofilia. Na informação da Royal Opera House constava que tinha cenas de sexo e violência.

A encenação de David McVicar também é para chocar. Na parte muito superior do palco vê-se mal uma sumptuosa sala onde Herodes, Herodias, Salomé e outros convidados comem. À direita há uma grande e larga escadaria que dá acesso à parte de baixo do palco e zona principal da acção, umas casas de banho públicas e imundas, onde há a um canto uma enorme tampa de ferro que dá acesso à cisterna onde está preso Jokanaan. De entre os figurantes há um, o carrasco, que está presente desde o primeiro momento, vestido com um casaco comprido e empunhando um sabre. Tudo se passa neste cenário (escadas e casa de banho) excepto a dança dos sete véus em que o palco se transforma radicalmente, aparecendo sucessivamente sete portas em movimento, entre as quais e com a ajuda de curtos filmes, Salomé executa simbolicamente a dança e concretiza, num percurso iniciático, a relação sexual com o padrasto.




As anunciadas cenas de nudez existem em momentos inesperados. Logo na abertura da cortina há uma mulher nua (e outra a vestir roupa interior) que aí permanece durante bastante tempo. Quando é dada a ordem de execução de Jokanaan, Herodias despe o casaco ao carrasco que fica nú, desce à cisterna e regressa todo ensaguentado com a cabeça do profeta, assim permanecendo até ao final da ópera. Para mim, nudez dispensável e gratuita. Já no que respeita à encenação da relação doentia de Salomé com a cabeça de Jokanaan, até finalmente a beijar e sentir o gosto amargo da sua boca (“talvez o gosto do amor”), a coisa funciona de forma bem mais interessante.


                                        Parte das fotografias apresentadas são de Clive Barda (Royal Opera House)

A orquestra da Royal Opera House esteve ao seu melhor nível e proporcionou-nos outra interpretação superior, de cortar a respiração, viva, dramática, dando-nos toda a sumptuosidade tímbrica que faz justiça à música de Strauss. Foi superiormente dirigida pelo maestro Hartmut Haenchen.

Salome foi interpretada pela soprano alemã Angela Denoke. Possuidora de uma voz respeitável, de grande potência a alguma beleza, esteve vocalmente à altura do exigente papel da personagem, mantendo-se bem até ao final. Cenicamente, não conseguiu transmitir totalmente a intensa sensualidade e desejo sexual obsessivo da personagem, tendo estado estática, mais preocupada com o canto do que com a interpretação. Contudo, na cena de necrofilia final, com a cabeça de Jokanaan, teve um salto qualitativo, dando-nos uma notável interpretação em “Ah! Du wolltest mich nicht deinen Mund küssen” e “Ah! Ich habe deinen Mund geküsst, Jokannan



O tenor alemão Gerhard Siegel foi um Herodes convincente, a voz perfeita para o papel, manteve a qualidade interpretativa sem quebrar, fazendo-se sempre ouvir, mesmo nos momentos em que a orquestra é a protagonista. Cenicamente esteve muito bem, bastante ajudado pela encenação.

Johan Reuter, barítono dinamarquês, foi um poderoso Jokanaan. A voz é bonita, penetrante e bem timbrada. Também teve uma boa presença em cena.

Irina Mishura, mezzo-soprano russa foi Herodias. Cumpriu mas, mais uma vez, não me agradou (recordo a Azucena do Trovador de Barcelona no final do ano passado que não me convenceu). A voz é forte mas a emissão irregular e áspera. Finalmente o tenor britânico Andrew Staples foi um Narraboth decente que, como manda o libreto, morreu sem se dar por isso.



*****

7 comentários:

  1. Felicito pela excelente critica. Tive a oportunidade de comparar com 1ª versão de 2008 , já em DVD ( Opus Arte), maestro Phillippe Jordan e Nadja Michael como Salomé. E prefiro esta por duas razões : a encenação revista é mais eficaz e Angela Denoke , sem ter a idade e a sensualidade da soprano suiça , tem qualidades dramaticas e vocais superiores. Angela Denoke, fria e bela, é uma Salomé musicalmente superior, voz sumptuosa, com agudos possantes. Jokanaan fanático de Johan Reuter, canto intenso e fervoroso. Gerhard Siegel, um Herodes perverso. Hermut Haenschen e a orquestra superlativa , oferecem de forma luxuriante a genial partitura de Strauss. Uma grande noite no Convent Garden.

    ResponderEliminar
  2. Muito obrigado pelo excelente complemento ao apontamento sobre este espectáculo. Foi, realmente, uma noite inesquecível e impressionante no Covent Garden!

    ResponderEliminar
  3. "Estamos perante uma ópera para adultos"
    Discordo. Estamos perante uma ópera evoluída - que obviamente não deve ser apresentada a criancinhas da primária. Circula muita informação.
    Desde há uns meses, tenho andado a reflectir acerca da porcaria que vira no S Carlos... e fui ler por aí e espreitar no YouTube. Andava à espera de que me aparecesse a Nadja Michael para comprar (a um preço que ainda deve ser um balúrdio...), mas vou voltar para ler mais comentários como os do demoura. Fiquei sem perceber se são a mesma encenação depois de ver as imagens da entrega da cabeça e da Salomé a rolar no chão beijando a cabeça.

    ResponderEliminar
  4. Uma ópera em que é claramente explícito um desejo sexual obsessivo, uma crueldade de extrema violência (algumas fotos dão apenas uma ténue ideia do impacto que a apresentação tem ao vivo) e uma prolongada e patológica cena de necrofilia é claramente uma ópera para adultos.
    Por favor não confundir este espectáculo arrebatador da Royal Opera de Londres com a Salome que se viu há 2 anos no São Carlos, uma das piores óperas a que assisti na minha vida (e já vi algumas!). A encenação era inqualificavelmente má, optou-se por uma Salomé e um Herodes pedófilos, um Jokanaan gay e o abuso de travestis. De entre os cantores foi difícil escolher qual o pior e a orquestra também foi uma lástima. E nem houve violência por aí além em tão triste espectáculo. Mas houve, sim, uma matiné para famílias, onde habitualmente há muitas crianças.

    ResponderEliminar
  5. Continuo a achar que as crianças já têm informação suficiente (já pelos 12 anos) para compreender o que se passa. Têm é de ter gosto pelo drama musical.
    Mas pergunto se esta é a mesma encenação que gravou na Nadja.

    ResponderEliminar
  6. Pelo comentário feito por demoura presume-se que é a mesma encenação, com pequenas melhorias. Esta produção de David McVicar estreou há 2 anos em Covent Garden e, como é habitual nos grandes teatros de ópera, as produções mantêm-se muitos anos, variando apenas os cantores.

    ResponderEliminar
  7. Obrigado por este post tão rico e informativo!

    ResponderEliminar