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domingo, 23 de outubro de 2011

DON CARLO – Teatro Nacional de São Carlos – 23 de Outubro 2011 – A visão de um Wagneriano...



Assisti hoje à última récita do Don Carlo no São Carlos e gostava de deixar a minha visão sobre esta produção. Esta foi a segunda vez que assisti a esta ópera ao vivo e, embora reconheça o seu grande valor na história da mesma, não posso dizer que seja a minha favorita das de Verdi e, por isso, talvez não seja muito versado na mesma. Aproxima-se de Wagner, pelo menos em 2 coisas: a duração e o pseudoleitmotiv da união entre amigos – Carlo e Rodrigo.

Esta produção do São Carlos é simplesmente, e como frequentemente costumo adjetivar, BRUTAL!!! É talvez a melhor produção desde o Anel do Nibelungo, ousando dizer que talvez o supere nas devidas proporções.

A encenação de Langridge é moderna, de palco cheio, e com pormenores de sublime excelência como é o caso do simbolismo da amizade e cumplicidade entre Carlo e Rodrigo com a inventada situação da quebra de um vaso por bola de ténis por Rodrigo em criança e o assumir da culpa por Carlo perante o pai Fillipo II. A retribuição desta lealdade encontra resposta, como sabemos, no decurso da ópera. A presença constante do túmulo de Carlos V toma também um papel de coerência necessária na encenação e que muito apreciei.

Martin André dirigiu uma Orquestra Sinfónica Portuguesa que nos ofereceu uma sonoridade confiante que há muito não ouvia. Foi forte o suporte para a presença em palco de um dos elencos mais equilibrados dos últimos tempos, cada um com qualidades exímias de representação.



Elisabete de Matos esteve ESTRATOSFÉRICA!!! e é sentida a sua estrela interior e a capacidade de elevar qualquer récita a um nível acima da média. Mas quem, à partida para esta produção, achava que só Matos seria um nome a considerar, enganou-se com os restantes intérpretes. Dimitri Platanias foi SOBERBO!!! Que barítono, que voz, que segurança nas diferentes alturas da tessitura!!!... O dueto com Giancarlo Monsalve “Dio, che nell’alma infondere” foi de síncrona qualidade superlativa, apoiados por um andamento perfeito por André. Giancarlo é um tenor jovem com agudos cristalinos e fortes mas por vezes com alguma sonoridade metalizada, principalmente no término das frases quando terminadas em vogais abertas. O Fillipo II de Enrico Iori foi imponente, com muito boa profundidade de voz, oferecendo uma ária “Ella giammai m’amo” de grande brilhantismo. O “rosnar” interpretativo de Ayk Martirossian conferiu o ajuste perfeito à personagem do Grande Inquisidor. A Princesa Eboli de Enkelejda Shkosa completou o grupo das personagens principais numa excelente interpretação.


Confesso que houve momentos em que já não sabia se estava em Lisboa ou... se em Londres...


Grande início de Temporada no São Carlos!

Tive pena de ler o comunicado do Sindicato dos Músicos-Cena em que revelam as dificuldades por que passam todos aqueles capazes de levar a cena estes espectáculos. Curioso que, em alturas de maior dificuldade, se consiga levar a palco uma das melhores produções do São Carlos dos últimos anos. Assim se revela a qualidade da ALMA ARTÍSTICA PORTUGUESA. Juntos conseguiremos chegar a bom porto...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

DON CARLO, Teatro de São Carlos, Lisboa, Outubro de 2011


Don Carlo é uma ópera de Giuseppe Verdi com libretto de Joseph Méry e Camille Du Locle, segundo o poema dramático Don Carlos, Infant von Spanien de Friedrish von Schiller. O enredo pode ler-se aqui.

Confesso que foi com expectativas elevadas que fui ver esta primeira ópera da temporada do São Carlos. É a ópera de Verdi que mais gosto, vi já produções excepcionais que me marcaram muito positivamente, cantava Elsabete Matos e tinha já lido críticas favoráveis.


Apesar de três apontamentos negativos, não saí defraudado. No cômputo final achei que foi um bom espectáculo.

Esta nova produção do Teatro de São Carlos teve encenação de Stephen Langridge. Aqui vai a primeira nota negativa. Achei-a muito má e não por ser austera. É má porque é de mau gosto, não tem nada de interessante ou inovador e inclui partes detestáveis. Está em palco, desde o início, uma urna de Carlos V que, no final da ópera, Carlos (Don Carlo) quebra e atira ao ar parte das cinzas que se inflamam! O Auto da Fé do 2º acto é de um mau gosto indescritível. O povo aparece vestido com umas batas brancas que mais lembram batas antigas de doentes tuberculosos, os (três) condenados parece que saíram da sarjeta e são colocados numa jaula de ferro (inspirada nas que albergam os símios no jardim zoológico?) e são amarrados a um tronco dentro da jaula, na qual são despejados sacos com pequenos pedaços de carvão e finalmente regados com gasolina! A mesma jaula voltará no 3º acto, como prisão de Carlos. E haveria muitos outros pontos negativos a referir, mas fico por aqui.
Contudo, verdadeiramente espectaculares são os fatos dos dois reis (Filipe II e Elisabete), sobretudo no 2º acto. Aqui impôs-se o bom gosto, mas ficou limitado a estas duas personagens.


A direcção musical foi de Martin André, director artístico do Teatro e, para ele, vai a segunda nota negativa. Foi atabalhoado, houve desencontros frequentes entre os instrumentistas e entre a orquestra e os cantores, incluindo os do coro, tudo da responsabilidade do maestro. Mas ainda pior foi o intenso ruído que foi fazendo ao longo da récita, pois é daqueles que não consegue dirigir a orquestra calado, dá muitas indicações verbais, que muito perturbam os espectadores que estão próximos, como foi o meu caso. Mas o pior foi durante o 3º acto, na passagem da primeira para a segunda parte. Houve uma interrupção de minutos para mudança de cenário, em que até as luzes do teatro se acenderam e, quando quis retomar, teve a enorme indelicadeza de se virar para o público (que até estava relativamente silencioso) e fazer um longo Schhhiiii!! Ele é que deveria ser alvo dessa expressão, dado o ruído que fez ao longo de toda a récita!


A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve muito bem e as falhas que se fizeram ouvir foram maioritariamente da responsabilidade do maestro. Bem, mas não perfeito, esteve também o Coro do Teatro Nacional de São Carlos.

Em relação aos cantores, juntou-se um conjunto de intérpretes de muita qualidade que, no primeiro acto, cantaram muito mais em força do que em harmonia. Ao longo da récita esta situação foi atenuada.

 Carlos foi interpretado pelo tenor coreano Alfred Kim (uma substituição de Giancarlo Monsalve). Desfrutamos de uma bela voz, sobretudo no registo agudo que foi afinado, bem audível e de timbre agradável. Já achei o registo médio menos interessante. Cenicamente não foi brilhante, mas o canto é mais importante e, isso, tivemos.


Elisabete Matos foi uma Elisabete de Valois extraordinária. É uma cantora de quem sempre gostei muito, acho que a voz tem um timbre muito bonito, uma potência enorme e uma afinação perfeita. Par além das qualidades vocais, consegue transmitir com grande credibilidade e intensidade as diversas emoções da personagem que interpreta. Foi fantástica e já era tempo de a voltarmos a ver e ouvir no nosso Teatro Nacional de Ópera.




Filipe II foi interpretado pelo baixo italiano Enrico Iori. Detentor de uma voz poderosa e bem colocada, foi muito credível no papel que desempenhou e foi outro dos grandes cantores da noite.



Enkelejda Shkosa, mezzo albanês, foi uma Princesa Eboli digna. Cenicamente cumpriu, a voz é de qualidade, sempre bem audível, mesmo quando a orquestra toca forte. Por vezes é levemente estridente, quando em esforço. O timbre é interessante, apesar de não mostrar versatilidade vocal ao longo da récita.



O Grande Inquisidor foi interpretado pelo baixo arménio Ayk Martirossian. Cumpriu com dignidade a personagem que interpretou, a voz era muito decente, apesar de já ter ouvido muito melhor.


O barítono grego Dimitri Platanias foi Rodrigo, Marquês de Posa. Foi a melhor voz masculina da récita e o cantor utiliza-a com grande eficácia. Impressionante na potência tem também uma beleza tímbrica assinalável. Nunca perdeu qualidade e, para mim, as suas intervenções no 3º acto foram notáveis.



Os portugueses Mário Redondo (Frade), Joana Seara (Tebaldo), Bruno Almeida (Conde de Lerma) e Marco Alves dos Santos (Arauto real) tiveram bons desempenhos, merecendo relevo Mário Redondo, que foi excelente.

A última nota negativa vai para o calor insuportável da sala. Num país como o nosso, em que há ocasiões, como a actual, em que as temperaturas estão elevadas, deveria já ter sido instalado um sistema de ar condicionado no teatro, pois não é admissível que se esteja penosamente a assistir a um espectáculo e, simultaneamente, a “escorrer” suor. Já na Carmen da temporada passada foi assim.


Para mim, começou bem a temporada de ópera do São Carlos.

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DON CARLO, Teatro de São Carlos, Lisbon, October 2011

Don Carlo is an opera by Giuseppe Verdi with libretto by Joseph Méry and Camille Du Locle, after the dramatic poem Don Carlos, Infant von Spanien of de Friedrish von Schiller The plot can be read here.

I confess it was with high expectations that I went to see this first opera of the season in Teatro São Carlos. It is my favourite Verdi's opera, I have seen exceptional performances before that marked me very positively,  Elsabete Matos was singing the leading female role and I had already read favourable reviews.

Despite three negative points, I was not disappointed.
It was a good performance.


This new production was staged by Stephen Langridge. Here is my first negative point. I thought it was very bad. Not because it is austere. It is bad because it does not have anything interesting or innovative and includes very bad parts. On stage from the beginning is a coffin of Charles V and, at the end of the opera, Carlos (Don Carlo) breaks the coffin and throws to the air parts of the King´s ashes that are inflamed! The Auto-da-Fe of the 2nd act is disgusting. The people appear dressed in white gowns that seem the way some tuberculosis patients were dressed in sanatoriums. The (three) condemned seem that they have just came out of the gutter and are placed in an iron cage (inspired by the housing of apes at the zoo?) and are tied to a trunk inside the cage, into which bags are dumped with small pieces of charcoal and finally sprayed with gasoline! The same cage is back on stage in the 3rd act, as the prison of Carlos. And there would be many other negative points to mention..
Truly spectacular are the attire of the King and Queen (Philip II and Elizabeth), especially in the 2nd act. But the nice colthes were limited to these two characters.

The musical director was Martin André, the artistic director of the Theatre. For him goes the second negative note. He was reckless, there were frequent disagreements between musical players and between the orchestra and the singers, including the choir, all was the responsibility of the conductor. But even worse was the intense noise that he was doing throughout the performance. He is one of those who can not conduct the orchestra in silence, gives many verbal instructions, which greatly disturb the public who is nearby, as was my case. But the worst was during the 3rd act, from first to second part. There was an interruption of minutes for change of scene, where even theater lights were turned on and when he wanted to restart, he was very unpolite because he faced the public (which was relatively quiet) with a long Schhhiiii! He was the one who should be the target of this expression, as he was the more noisy one throughout the performance!

The Orquestra Sinfónica Portuguesa was very good and the failures that have been heard were largely the responsibility of the conductor. Also well, but not perfect, was also the Coro do Teatro Nacional de São Carlos.

Regarding the singers, they were a group of great quality. In the first act they sang more in “force” than in “harmony”. Throughout the performance this was attenuated.

Carlos was played by Korean tenor Alfred Kim (replacing Giancarlo Monsalve). He has a nice voice, especially in the high register that has been tuned, strong and with a pleasant timbre. I have found his medium register less impressive. Artistically he was not brilliant, but the singing is more important and that was what we had.

Elisabete Matos was an extraordinary Elizabeth of Valois. She is a singer who I always have admired. I think her voice has a beautiful tone, an enormous power and perfect pitch. Beyond her vocal qualities, she manages to convey with great credibility and intensity the various emotions of the character she plays. She was fantastic and it was time to see and hear her again in our National Opera.

Philip II was played by Italian bass Enrico Iori. He has a powerful and well tuned voice, and he was very credible in the role he played. He was another of the great singers of the night.

Enkelejda Shkosa, Albanian mezzo, was a remarkable Princess Eboli. Artistically she was OK, the voice has quality and we could always hear her well, even when the orchestra sounded forte. Sometimes she was slightly strident when under stress. The timbre is interesting, although she did not show vocal versatility throughout the performance.

The Grand Inquisitor was played by Armenian bass Ayk Martirossian. He sang with dignity the character he played, his voice was decent, even though I have heard much better.

The Greek baritone Dimitris Platanias was Rodrigo, Marquis of Posa. He was the best male voice of the night and the singer used it to great effect. The voice was impressive in power also had a remarkable beauty timbre. He never lost quality and, for me, his arias in the 3rd act were remarkable.

The Portuguese singers Mário Redondo (Prist), Joana Seara (Tebaldo), Bruno Almeida (Count of Lerma) and Marco Alves dos Santos (royal servant) had good performances, in particular Mario Redondo, which was excellent.

The last negative note goes to the unbearable heat of the room. In a country like ours, where there are occasions, such as the present one, where temperatures are high, should already have installed an air conditioning system in the theater because it is not acceptable to be painfully watching a performance and, simultaneously, sweating profusely. In the Carmen of last season the same happened.

For me, it was a good start of the season in São Carlos Opera House.

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sábado, 18 de junho de 2011

CARMEN – Teatro de São Carlos, Junho de 2011


Carmen é uma ópera de Georges Bizet com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy baseado no romance homónimo de Prosper Mérimée.

O argumento pode ser lido aqui, mas, como enquadramento histórico da obra, transcrevo o texto de Pedro Russo Moreira que se encontra no “site” do Teatro Nacional de São Carlos:

A ópera Carmen foi encomendada por Du Locle e De Leuven, directores da Opéra-Comique de Paris para integrar a temporada daquele teatro, que passava à altura por algumas dificuldades financeiras. Bizet aceitou o desafio e propôs a obra escrita em 1845 por Prosper Mérimée como base do seu enredo, tendo sido de imediato nomeados dois libretistas.
A obra foi intensamente trabalhada pelo compositor desde 1873, e os ensaios começaram no ano seguinte, reunindo várias críticas por parte da equipa devido ao realismo da história e à dificuldade de execução orquestral e coral. O papel principal foi atribuído a Célestine Galli-Marié, uma notável meio-soprano que actuou no Real Teatro de São Carlos na temporada de 1860-61, interpretando vários papéis de ópera italiana.
A recepção da ópera pelo público parisiense, no momento da sua estreia, não foi positiva. Algumas críticas em torno do trabalho de Bizet, que provinham de sectores mais conservadores, protestavam contra algumas cenas, tais como a morte de Carmen, ou pelo facto de apresentar uma personagem principal feminina, com tremenda liberdade, poder e comportamentos não aceites à época.
 A sua popularidade ascendeu através de uma produção que teve lugar em Viena, em Outubro de 1875, com a adaptação dos diálogos falados para recitativo efectuada por Giraud, versão esta que predominou, recolhendo a admiração pública de figuras como Saint-Saëns, Brahms, Wagner e Tchaikovski, entre outros. A história trágica da cigana Carmen voltaria a Paris apenas em 1883, reconciliando-se finalmente com o público.
 A riqueza da obra, no capítulo da orquestração, da construção melódica e da textura harmónica, aliadas a uma mistura entre a corrente do Realismo, em voga na época, e o exotismo do próximo, conferiram-lhe um lugar de destaque na história da música ocidental.


Com direcção musical  Julia Jones, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, o Coro dos Pequenos Cantores da Academia de Amadores de Música, encenação de  Stephen Medcalf,  cenografia e figurinos de Jamie Vartan e desenho de luz de Simon Corder, assistimos a uma nova encenação baseada na produção do do Teatro Lírico de Cagliari (2005).

Foi mais outro bom espectáculo no São Carlos. Julia Jones cumpriu, embora não tenha sido empolgante a sua direcção. Não conseguiu fazer levantar a  Orquestra Sinfónica Portuguesa que, contudo, teve um dos seus melhores desempenhos da temporada (em ópera). O Coro também esteve muito bem e o Coro infantil  teve a sua graça. 
A encenação transportou a acção para os anos 40 – 50 do século XX.. Não achei particularmente bem conseguida, mas foi vistosa e respeitou a obra.

(algumas fotografias são do programa de sala do TNSC)

Carmen foi interpretada pelo mezzo-soprano israelita Rinat Shaham, que tem feito sucesso internacional neste papel. A voz é escura e encorpada, o timbre bonito e gostei particularmente do registo mais grave. Os agudos saíram sempre afinados. Foi, de longe, a melhor cantora da tarde. Em cena esteve perfeita.


Don José foi o tenor norte americano Andrew Richards.. A voz é bem audível e cheia no registo médio e o timbre agradável. Contudo, os agudos são cantados em esforço, quase em falsete e não brilham. Cenicamente esteve bem, a figura também ajuda.


O soprano italiano Adriana Damato foi  uma Micaèla de voz bem projectada, doce e ingénua no 1º acto. No 3º acto foi, por vezes, estridente. Mas teve uma boa interpretação. Foi também uma das mais convincentes cenicamente, apesar da deficiente pronúncia do francês.

O barítono grero Yannis Yannissis, foi um Escamillo à altura dos restantes solistas. A voz é banal mas fez-se ouvir com facilidade


Os cantores portugueses Nuno Dias (Zuniga), Luís Rodrigues (Moralès), Joana Seara (Frasquita), Luísa Francesconi (Mercédès), Carlos Guilherme (Le Remendado) e Mário João Alves (Le Dancaïre ) estiveram também bem.


Foi um prazer ver, pela primeira vez este ano, o Teatro de São Carlos cheio. A lotação estava esgotada. Como já aqui escrevi várias vezes, acho que são necessárias mais óperas populares como esta para que o público português se reconcilie com o seu Teatro de Ópera.

Quando me perguntam, aconselho a Carmen aos que querem ver, pela primeira vez, uma ópera. Acho que esta produção do Teatro de São Carlos cumpre bem essa função, a de cativar novos espectadores.

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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Teatro de São Carlos, Lisboa - Temporada 2011-2012


Foi ontem tornada pública a Temporada Lírica 2011-2012 do Teatro Nacional de São Carlos. Também se conhecem a Temporada Sinfónica e Outras Iniciativas, mas abordarei apenas a temporada lírica.


Conta com 6 óperas (para além de outras, pequenas, no Salão Nobre) e, dadas as dificuldades que o País atravessa, é uma temporada digna, assim as coisas corram bem. A cultura é sempre das áreas que mais sofre nestas ocasiões e não se concretizou o que chegou a constar – que não estava garantida uma próxima temporada. Um País sem cultura é um País morto e, felizmente, não chegámos a esse extremo.





Aspectos positivos:


- O afastamento do espectro da inacção (e possível afastamento ou “reforma” antecipada) dos músicos do TNSC e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, por razões que lhes seriam totalmente alheias.

- A presença de cantores portugueses em papeis de relevo em algumas óperas.

- Finalmente, a possibilidade de voltar a admirar a nossa melhor cantora da actualidade: Elisabete Matos, no papel de Elisabetta de Valois na ópera Don Carlo. O Teatro estava em dívida com Elisabete Matos há muito!

- A escolha dominante de óperas mais conhecidas da generalidade do público, o que poderá contribuir para que este se reconcilie com o São Carlos, como tenho vindo a referir em textos anteriores.

- O conceito “Contar uma Ópera”, se for feito de forma radicalmente diferente do ano passado. Vi a Cavalleria Rusticana que foi uma desgraça.

- A apresentação de ópera para famílias e escolas – O Gato das Botas no Teatro Camões.

Aspectos negativos:

- O número escasso de óperas levadas à cena mas, como referi acima, no contexto actual, aceita-se a opção que pode já constituir um esforço muito significativo.

- A falta de alguns compositores de referência (Wagner, Bellini, Rossini e outros).

- A presença de cantores estrangeiros que poderão não estar à altura das personagens que lhes foram atribuídas. Dou-lhes o benefício da dúvida, mas é esperar para ver. Faço votos para que não tenha regressado o preconceito de que os cantores estrangeiros (sejam eles quais forem) são melhores do que os nacionais, situação que foi totalmente negada nas passadas temporadas em que tivemos estrangeiros de má ou péssima qualidade. É essencial continuar a dar oportunidades aos portugueses no principal palco de ópera nacional para que o público amante da lírica os possa apreciar convenientemente.


As óperas anunciadas são:

-
Don Carlo (Verdi) em Outubro de 2011, dias 8, 11, 13,15,18, 20 às 20:00h e dia 23 às 16:00h Produção nova do TNSC. Uma das melhores óperas de Verdi, aguardo-a com expectativa. Tem cantores de qualidade e, claro, Elisabete Matos. A não perder!

- O Gato das Botas (Montsalvatge) em Dezembro de 2011, dias 13, 20 e 22 às 20:00h e dias 10, 11,17 e 18 às 16:00h (dias 14 e 16 e 21 às 15:00h e às 11h00 para escolas).

- Così fan Tutte (Mozart) em Janeiro de 2012 nos dias 14, 17, 19, 24 e 26 às 20:00h e
dia 22 Janeiro às 16:00h. Também uma das melhores óperas de Mozart numa produção da Vlaamse Opera da Bélgica. Tem intérpretes que sugerem que poderá ser outro bom espectáculo.

- Madama Butterfly (Puccini), em Março de 2012, dias 13, 15,17, 20,22 às 20:00h e dia 25 às 16:00h. Produção da Ópera Real de Copenhaga. A história da mais trágica heroína de Puccini. Pode ser um espectáculo muito interessante ou o oposto. Depende muito da forma como for cantada e da encenação.

- Turandot (Busoni) + Francesca da Rimini (Rachmaninov) em Maio de 2012, dias 19, 21, 23, 25 às 20:00h e dia 27 às 16:00h. Uma nova produção do TNSC.

- Don Pasquale (Donizetti) em Junho de 2012 nos dias 14, 16, 18, 20 e 22 às 20:00h e no dia 24 às 16:00h. Uma produção do Teatro La Fenice de Veneza. Mais uma ópera que poderá ser muito boa ou desinteressante, conforme a interpretação.

Todos os pormenores podem ser consultados em:
http://www.saocarlos.pt/gca/?id=1068

É esperar para ver e ouvir…
E cá estaremos para comentar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O CHAPÉU DE PALHA DE ITÁLIA / IL CAPPELLO DI PAGLIA DI FIRENZE – Teatro de São Carlos, Maio de 2011



Quando o chapéu não é, de todo, um barrete!





Il Cappello di Paglia di Firenze é uma ópera de Nino Rota, com libretto de Nino e Ernesto Rota, baseado na peça Le chapeau de paille d'Italie de Eugène Labiche e Marc Michel.

Como introdução à obra, transcrevo o texto de Pedro Russo Moreira que se encontra no “site” do Teatro Nacional de São Carlos:

O nome de Nino Rota está associado à composição musical para cinema na Itália do pós-guerra, sobretudo com as parcerias efectuadas com Federico Fellini.
A sua produção musical abarcou, no entanto, vários géneros musicais apresentados desde a sala de concertos ao teatro de ópera, marcados por uma estética e processos de composição ecléticos.
Nino Rota iniciou a composição da farsa em quatro actos, Il cappello di paglia di Firenze, em 1945, terminando apenas em 1955 devido à pressão exercida por Simone Cuccia, director do Teatro Massimo em Palermo. A estreia da ópera foi um sucesso estrondoso e imediato, tendo circulado por toda a Itália e estrangeiro, recebendo sempre boas críticas.
O enredo assenta num episódio cómico, centrado na personagem Fadinard, um jovem nubente que, no dia da sua boda com a amada Elena, se vê aflito porque o seu cavalo comeu o chapéu de palha de Anaide enquanto esta se encontrava com o amante Emilio. Receosa de que seu marido, Sr. Beaupertuis desconfiasse, exigiu um chapéu igual. Fadinard inicia a busca, que o leva à casa da baronesa de Champigny, onde vários mal entendidos o conduzem à residência da Sra. Beaupertuis, que descobre ser Anaide, colocando em risco a sua boda. Tudo termina bem quando o tio surdo do protagonista lhe oferece como prenda de casamento um chapéu de palha, salvando a boda.
Destaca-se desta farsa a habilidade no tratamento da instrumentação e o sentido dramatúrgico do compositor e co-autor do libreto, conseguindo um equilíbrio entre o dinamismo e unidade que se apoia numa estrutura que evoca o vaudeville, a ópera buffa e a opereta.


(fotografias do Facebook e do programa do Teatro de São Carlos)




Com direcção musical João Paulo Santos, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, encenação de Fernando Gomes, cenografia de João Mendes Ribeiro, figurinos de Rafaela Mapril e desenho de luz de Paulo Sabino, assistimos a uma nova produção do Teatro Nacional de São Carlos de qualidade muito acima da mediania.


Não estamos perante um grande vulto da composição operática mas o espectáculo que nos foi apresentado é despretensioso mas de inegável qualidade, onde tudo funcionou bem. A música é de audição agradável, a encenação é simples mas eficaz, o jogo de luzes estupendo, o guarda roupa fantástico e as interpretações muito boas.







Estamos perante um caso de uma ópera que é para ouvir mas também para ver. Penso que será transmitida na Antena 2 na próxima quarta-feira, mas quem ouvir vai perder muito porque as múltiplas cenas cómicas, bem interpretadas, eficazes e de bom gosto, vão passar completamente ao lado. A troca de sapatos e os percalços finais com o chapéu de palha foram verdadeiramente hilariantes.


Os intérpretes principais foram o tenor Mário João Alves como Fadinard , o soprano Dora Rodrigues como Anaide, o barítono José Fardilha como Nonacourt , o barítono Luís Rodrigues como Beaupertuis , o mezzo Maria Luísa de Freitas como Baronesa de Champigny, o tenor Carlos Guilherme como Vezinet e o soprano Lara Martins como Elena.

Qualitativamente houve interpretações vocais diversas mas, ao contrário do que é hábito, não vou fazer um pequeno comentário sobre cada um deles porque o espectáculo valeu como um todo e como tudo se articulou bem.
Mas não posso deixar de salientar a interpretação superior de José Fardilha, claramente o melhor cantor em palco, que nos ofereceu um barítono cheio e de beleza tímbrica assinalável.



A sala estava com muitos lugares vazios (talvez pouco menos de metade).

É uma pena mas mostra que o público ainda não se reconciliou com o São Carlos, fruto dos muitos espectáculos deploráveis da ruinosa direcção artística de Dammann, alguns dos quais restaram ainda para a presente temporada.

Martin André tem a obrigação de recuperar o público, imprimindo à programação um rumo diferente e, na minha opinião, incluindo um número interessante de óperas “populares”, a par de outras que compete ao único teatro nacional de ópera divulgar.


A presente produção é a prova de que, com restrições orçamentais, se consegue fazer um espectáculo de inegável qualidade (já o mesmo tinha acontecido com o “Banksters”), assim haja engenho e arte.

Se quiser passar uma tarde ou noite divertida e assistir a um espectáculo muito engraçado, não deixe de ir ao São Carlos ver o Chapéu de Palha de Itália..



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terça-feira, 22 de março de 2011

BANKSTERS – Teatro Nacional de São Carlos – 20 Março 2011


(review in english below)

"A ópera Banksters, de Nuno Côrte-Real, em estreia absoluto no TNSC este mês, é uma tragicomédia lírica em 3 actos com libreto de Vasco Graça Moura inspirado na peça Jacob e o Anjo de José Régio.
Burlesca, satírica e irónica, é uma ópera sobre a vida e a morte: a morte de quem, em vida, se afastou fatalmente de si próprio, e a vida de quem, na morte, encontra a luz de uma paz nunca sentida. O herói, um banqueiro de nome Santiago Malpago, é visitado por uma estranha personagem, qual anjo ou demónio, cuja única missão é levar o grande senhor da finança à desgraça e desespero totais, abandonado, preso e humilhado por todos os que ainda antes lhe obedeciam e idolatravam. A estranha personagem, que surge disfarçada de jornalista conseguindo assim o acesso aos mais improváveis lugares e situações, responde pelo satírico nome de Angelino Rigoletto, e qual emissário de natureza divina, tudo sabe, tudo vê e tudo sente, de modo a que a queda do banqueiro seja a mais terrível e fatal, mas tão só porque deseja a mais bela e transcendente redenção para o herói deste burlesco engodo. A mulher do banqueiro, senhora da mais alta elegância, educação e hipocrisia, de nome Mimi Kitsch, fêmea de uma ambição desmedida e cruel, notável amante, é a grande orquestradora da queda do marido." (resumo retirado do programa do TNSC)

A obra é, do ponto de vista musical, de uma qualidade superlativa. Não sendo muito apreciador de música contemporânea ao não me identificar com a sonoridade que dela emana, oiço a música de Côrte-Real com prazer e sentido. Para os mais cépticos, encontrarão na variação sobre o tema da ária “La Donna è mobile” da ópera Rigoletto de Giuseppe Verdi, um escape momentâneo.

A encenação de João Botelho é de excelente bom gosto e bastante eficaz ao que se pretende transmitir, podendo ser classificada de clássica: escritório do banqueiro com secretária, sofá, mesa de apoio.



Em jogo de sombras temos o fundo do palco, no primeiro acto, com trabalhadores escriturários; no segundo, uma disposição de vários pares de sapatos de salto alto, em cores arco-íricas, num acto onde domina o poder da personagem feminina, na pele da mulher do banqueiro.



Posso estar a manifestar profunda ignorância quando digo que, literariamente, o libreto, nas suas frases e expressões, é algo que se aproxima do ridículo e por vezes demasiado ordinário e calão. Nomes como “merda”, “puta”, “cabrão”, “porrada”, “chiça”, “cão” passeiam-se pela obra. Expressões que, por vezes, procuram satirizar o sistema financeiro saem com pouco sentido de humor. Pasmei de ver que algumas pessoas riam na plateia. Resta saber se pela sátira ou se pelo ridículo.



No que diz respeito aos intérpretes, apenas Jorge Vaz de Carvalho, no papel de banqueiro, escapou à mediania, revelando ainda excelentes qualidades baritonais, a par de grande alma de actor.



Musa Nkuna (Angelino Rigoletto) tem voz pouco encorpada, com evidentes falhas de técnica na projecção vocal, por vezes com rudeza de timbre. Enalteço contudo, o facto de, sendo sul-africano (mas há algum tempo em Portugal...) ter conseguido cantar na língua lusa, embora com sotaque pouco credível e por vezes hilariante.



Sara Braga Simões, personificando a mulher do banqueiro, revelou um histerismo vocal incomodativo que só foi ultrapassado em qualidade negativa por Chelsey Schill que gritou a plenos pulmões em tudo o que cantou.

Tive pena que José Corvelo não tivesse um papel mais interventivo na ópera porque penso que a elevaria em qualidade vocal.

Os outros estiveram num nível aceitável, mas não sem impressionar.

Penso que, com as devidas alterações no libreto e com um elenco mais forte do ponto de vista vocal, esta obra, com esta encenação, tem elevada qualidade, até mesmo para sonhar com palcos maiores. Como está, a impressão que deixa é que funcionaria melhor como peça de teatro do que como ópera, porque foi clara a maior capacidade dramática dos cantores em relação à respectiva capacidade vocal.

Banksters pode ser visto ainda nos próximos dias 22, 24 e 26 às 20h. A julgar pela grande quantidade de lugares vagos neste domingo, será fácil a aquisição de bilhete...

(as fotos apresentadas foram retiradas do programa do TNSC)


Banksters - Teatro Nacional de Sao Carlos - March 20, 2011



"The Nuno Côrte-Real’s opera Banksters, in absolute debut this month at the TNSC, is a tragicomic opera in three acts with libretto by Vasco Graça Moura in part inspired on the José Regio’s play Jacob and the Angel.
Burlesque, satirical and ironic, it is an opera about life and death: the death of one whom in life, inevitably moved away from himself, and whose life finds in deaths the light of peace that has never felt. The hero, a banker named Santiago Malpago, is visited by a strange character, angel or demon, whose only mission is to bring the great lord of finance to total disgrace and despair, abandoned, arrested and humiliated by all that even before obeyed and worshiped him. The strange character, who comes disguised as a journalist so getting access to the most unlikely places and situations, accounts for the satirical name of Angelino Rigoletto, and as an emissary of the divine nature, knows all, sees all, and feels all, so that the fall of the banker is the most terrible and fatal, but only because he wants the most beautiful and transcendent redemption for the hero of this comic con. The banker's wife, lady of the highest elegance, education and hypocrisy, named Mimi Kitsch, a female of unchecked ambition and a relentless lover, is the great orchestrator of the fall of her husband." (synopsis as presented in the TNSC programme)

The work is, in terms of music, of superlative quality. Not being very fond of contemporary music not identifying myself with the sound that emanates from it, I listen to music Corte-Real with pleasure and meaning. For the skeptics, you can find a moment of escape at the variation of the theme of the aria "La Donna e mobile" from the opera Rigoletto by Giuseppe Verdi.

The staging by João Botelho is of excellent taste and very effective when it does convey, and may be classified as classical: banker's office with desk, sofa, coffee table.


In the first act we see shadows of bankers working on their desks; in the second act, an array of several pairs of high heels in rainbow colors - an act where the the power of the female character (banker’s wife) dominates.



I may be expressing profound ignorance when I say that, literally, the libretto, in its phrases and expressions, is something approaching the ridiculous and sometimes too ordinary and slang. Names like "shit", "bitch," "bastard," "ass" "damm", "dog" are several times mentioned. Expressions that sometimes seek to satirize the financial system come with little sense of humor. I was astonished to see that some people were laughing in the audience. The question is whether they were laughing of the satire or the its ridiculous sound.



Now, the performers:

Only Jorge Vaz de Carvalho, in the role of the banker, escaped mediocrity, revealing excellent qualities as a baritone, coupled with a great soul of an actor.



Musa Nkuna (Angelino Rigoletto) voice misses texture, with obvious technical flaws in vocal projection, sometimes with harshness of tone. Praise, however, that, being South African (but for some time in Portugal ...), he has managed to sing in the Lusitanian language, though with an unreliable and often hilarious accent.



Sara Braga Simões, embodying the banker's wife, revealed an annoying vocal hysteria that was only surpassed in negative quality by Chelsey Schill who shouted loudly in everything she sang.

I regret that Jose Corvelo had a minor role in the opera because I think it would have raised the vocal quality of the performance.

The others were at an acceptable level, but did not impress.

I think that, with appropriate changes in the language of the libretto and a stronger cast from the vocal standpoint, this work, with this scenario, has high quality, even to dream of bigger stages. As it stands, the impression conveyed is that it works better as a play than as an opera, because it was clear that the dramatic ability of the singers was far superior to thei overall vocal capacities.

Banksters can still be seen on the 22, 24 and 26 of March at 8pm. Judging by the large amount of vacant seats on Sunday, it will be easy to find a ticket ...

(all presented photos are from the TNSC programme)