Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriella Pace. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriella Pace. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

TURANDOT COM CARA DE ZEFFIRELLI NO THEATRO MUNICIPAL DE SP.




Crítica de Ali Hassan Ayache no blog de Ópera & Ballet

  O clima nos bastidores não é dos melhores, em meio a uma confusão generalizada em relação à administração do Theatro Municipal de São Paulo entre o Instituto Odeon e a Secretaria Municipal de Cultura estreou e ópera Turandot de Puccini. As lambanças administrativas parecem não ter influenciado as coxias. A montagem da ópera esteve em nível compatível com as anteriores.
   
A direção cênica ficou a cargo de André Heller-Lopes, o experiente diretor optou pelo conservadorismo nas movimentações, pelo colorido excessivo e pela mescla entre o moderno e o tradicional. Cores berrantes e o exagero nos figurinos em uma China fantástica e irreal bem ao estilo do afamado diretor Franco Zeffirelli foram apresentados nos três atos. Bonito e impactante para alguns, brega e exagerado para outros, a diferença entre um e outro é pequena. Essas foram algumas opiniões divergentes colhidas entre o respeitável publico.
   
As movimentações dos solistas e figurantes não passaram do básico. O cenário de Renato Theobaldo cria diversos planos narrativos, o tradicional se apresenta no centro e nas laterais o moderno, confunde mais que ajuda. O teatro dentro do teatro com um cenário onde uma plateia vertical, composta de coristas, em forma de ferradura em diversos níveis elevados é uma ideia já manjada e repetida em diversas montagens pelo mundo afora. 
   
Os figurinos de Sofia Di Nunzio são recheados de exageros: estampas, cores fortes avermelhadas e máscaras realçam com força excessiva as tradições Chinesas. Os coristas tem roupagem inspirada nos anos 60 do século XX, mistura estranha. Dragão na Turandot é clichê brega, a protagonista usar salto Luís XV foge de tudo que é chinês, um globo típico das baladas dos anos 80, que reflete a luz na plateia ofuscando a visão é completamente desnecessário.
   
A Orquestra Sinfônica Municipal regida por Roberto Minczuk apresentou sonoridade potente, no limite para não cobrir os solistas. O volume denso combinou com a dramaticidade da ópera. O Coro Lírico Municipal e o Coral Paulistano entregaram excelente sonoridade, apesar da péssima localização nas laterais.
  


 Substituindo o tenor Rudy Park foi escalado David Pameroy. O físico enorme e a voz volumosa não apresentaram um timbre com brilho, muito pelo contrário, uma voz seca e sem vida. O publico merecia um Calaf de melhor nível. Elizabeth Blancke-Biggs incorporou a personagem, voz de soprano dramático, escura a potente. Não se intimidou com a massa orquestral volumosa, soltou o vozeirão sem medo de correr riscos. Mostrou uma Turandot correta e compatível com a personagem.
   
O grande destaque da noite foi o soprano Gabriella Pacce, como Liù esbanjou técnica vocal em uma irrepreensível atuação cênica. Visceral no palco, entregou tudo que se espera da personagem. Voz lírica, de timbre harmonioso e cristalino encantou a plateia que aplaudiu efusivamente. O Timur de Luiz-Ottavio Faria levou ao palco voz calibrada nos graves, sempre portentosos e volumosos. Vinícius Atique está em grande fase, e como Ping não foi diferente. Cantou e atuou de forma única.
   
Cenas dos próximos capítulos: A esperança é a última que morre, esperamos sem muita convicção que a confusão administrativa no Teatro não afete a temporada 2019. Até o presente momento ninguém teve coragem de sequer anunciá-la. 

Ali Hassan Ayache

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Ouro do Reno / Das Rheingold - Theatro Municipal de São Paulo




PÃO COM MORTADELA NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. ÓPERA "O OURO DO RENO" DE RICHARD WAGNER. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Depois de umas trezentas polêmicas no Theatro Municipal de São Paulo tivemos a apresentação, em forma de concerto, da ópera O Ouro de Reno de Richard Wagner. A ideia de produzir O Anel do Nibelungo brasileiro começou estranha e uma bagunça completa. A administração anterior optou por começar pela segunda parte da tetralogia (A Valquíria) e depois pulou para a última parte (O Crepúsculo dos Deuses). A atual administração anunciou fazer a primeira parte (O Ouro do Reno) e se "esqueceu" de programar para o ano de 2014 a última parte restante (Siegfried).

Polêmicas a parte (a atual direção parece adorar uma) tivemos no dia 09 de Novembro O Ouro do Reno em forma de concerto. A Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo regida pelo competente e um dos maiores entendidos das óperas de Richard Wagner no Brasil Luiz Fernando Malheiro conseguiu sonoridade razoável. Diversas passagens soaram sem conexão entre os naipes, de modo geral esses pequenos erros foram superados pelas belas harmonias da música wagneriana. Os metais se mostraram o ponto fraco do elo orquestral, seus volumes elevados destoaram das características da música wagneriana.

Os solistas tentaram dar dinâmica a uma ópera feita em concerto, fizeram de tudo para atuar e mostrar os desejos e o caráter de seus personagens. Suas vozes foram beneficiadas por estarem na ponta do palco, isso facilita a projeção. Quase todos estiveram a contento com bom nível vocal: Denise de Freitas (Fricka) mais uma vez desfilou seu talento cênico e vocal, Gabriella Pace (Freia) apresentou agudos brilhantes e um timbre homogêneo que impressiona pela beleza. Destaco a bela voz de Angela Diel (Erda), técnica segura e um timbre quente nos graves fizeram ela mostrar seu talento ao público paulistano e a sempre competente Laura Aimbiré.



Gabriella Pace, foto Internet.

Michel Kupfer trouxe um Wotam com voz possante e graves majestosos. O Donner de Fabrizio Claussen foi mais um que mostrou segurança na voz. O grande destaque fica com o tenor Stefan Margita, como Loge o rapaz arrebentou na interpretação e na voz. Agudos possantes com uma técnica vocal rara fez esse personagem se tornar no mínimo inesquecível. Sávio Sperandio colocou credibilidade nos graves do gigante Fafner, uma voz marcante que impressiona pelo tamanho e volume.

Anunciar ópera com cenários e figurinos e fazê-la em forma de concerto é o mesmo que prometer um belo salmão defumado e oferecer pão com mortadela dormido. Quem não conhece a fundo a tetralogia composta por Richard Wagner fica perdido e só tem o programa (esse de ótima qualidade) para se virar. Pena que não teremos a continuação (Siegfried), nem em forma de concerto e muito menos encenada. O sonho do Anel do Nibelungo brasileiro completo ficará para tempos futuros.


Em uma rede social o Diretor artístico do Teatro Municipal nos informa:" Lançaremos no dia 23 de Novembro as assinaturas para a temporada 2014. Seis títulos na temporada oficial, grandes elencos, brasileiros e estrangeiros, grandes encenadores, igualmente daqui e de fora, interpretes de qualidade à frente de nossa OSM". O Diretor do Teatro ao anunciar a temporada de 2014, com toda a pompa e circunstância, em Julho desse ano relatou a presença de nove títulos, por agora viraram seis? Um passarinho me contou que Cosi fan Tutte de Mozart é uma das canceladas.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Werther, Theatro de São Pedro - 1


O PÚBLICO NEM SEMPRE ESCOLHE O MELHOR, WERTHER NO THEATRO SÃO PEDRO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Theatro São Pedro, foto Internet

 O dia 27 de Novembro foi uma data com grandes eventos na cidade de São Paulo. O Theatro Municipal apresentou Macbeth de Verdi, dirigida por Bob Wilson e sua concepção extravagante e excêntrica e com ingressos esgotados. Na Sala São Paulo tivemos a apresentação do barítono brasileiro Paulo Szot, o bonitão cantou de tudo: jazz, música popular brasileira, musical gringo e se lembrou das origens, cantou duas árias de ópera. Repertório moleza e em prol da Tucca. Sala São Paulo lotada para ver o afamado barítono. O Theatro São Pedro apresentou a ópera Werther de Massenet, entre as três opções da noite, com certeza a melhor. Mas o público não pensou assim, teatro com muitos lugares vazios.

 Atique e Pacce em cenna de Werther, foto Internet

Os acertos da produção começaram com a escolha do elenco, solistas de primeira grandeza. Fernando Portari sempre competente, voz com belos agudos e um timbre espetacular de tenor. Considero Portari o melhor tenor do Brasil juntamente com Martin Muehle. O que dizer da voz de Luisa Francesconi, vou cansar de elogiar a moça. Mezzo-soprano do mais alto nível, canta elevado, uma voz penetrante munida de graves fartos que tocam na alma. Um timbre perfeito para a personagem Charlotte, além do timbre a guria mostra uma beleza encantadora no palco e uma grande representação cênica. Quando for descoberta começará uma grande carreira internacional e será difícil vê-la em nossos palcos.

 Elenco de Werther, foto Internet

O soprano Gabriella Pace esteve perfeita como Sophie, cantou e representou de maneira graciosa. Mostrou uma fartura de belos agudos e um belo fraseado. Uma voz delicada e adequada a personagem com uma atuação cênica impecável. Vinícius Atique surpreendeu, mostrou bela voz de barítono com bons agudos, consistentes do começo ao fim da récita. Atuou com primor e mostrou todos os sentimentos de seu personagem. Boa garoto!

A concepção e direção cênica de André Heller-Lopes se mostrou criativa e dentro da realidade do Theatro São Pedro. Idéias inteligentes contam de maneira clara o espírito de libreto, fácil de acompanhar, com cenários limpos e quase nada fora do lugar. Movimentação dos cantores correta, luz focada de maneira inteligente, cenários simples e funcionais e figurinos certos fazem a direção ser inovadora sem ser exagerada. Mostrar Charlotte grávida e o contraste das cortinas brancas e negras foi uma bela sacada.

 Portari e Francesconi em cena de Werther, foto Internet

 Luis Fernando Malheiro entende o universo da música francesa, conduziu a orquestra do Theatro São Pedro com tempos e volume corretos. Mostrou, na regência, todas as belas melodias líricas escritas na partitura e uma grande intensidade dramática no último ato. O coro das crianças merecia mais alguns componentes.

Pena o público ter debandado para outros teatros, perdeu a melhor apresentação da noite. Werther será cantado no dia 01 e dia 04 de Dezembro por Leonardo Neiva em versão para barítono inédita no Brasil

sábado, 30 de junho de 2012

A CRIATIVIDADE REINA NO THEATRO SÃO PEDRO-L'ELISIR D'AMORE DE DONIZETTI.



O Theatro São Pedro / SP abriu sua temporada de óperas na noite do dia 26 de junho com um título querido pelo público. L'Elisir D'Amore é uma das óperas mais conhecidas de Donizetti. Nela temos cenas cômicas, belas árias e duetos e um amor inocente que nos dias atuais seria considerado até bobo. L'Elisir D'Amore contagia com sua bela música e é encenada há quase duzentos anos. Grandes sopranos e tenores atuais e da antiga já cantaram a alegria e as mazelas de Nemorino e Adina.


 A opção do diretor Walter Neiva de trazer o enredo para a década de 40 do século XX era um risco eminente. Grandes diretores já se atrapalharam transportando a ação para épocas diferentes do libreto. Walter Neiva consegue, com maestria, e sem inventar moda modernizar a ópera, transportá-la para a década de 40 e ser fiel ao libreto. Não inventa moda, não faz firulas e não quer aparecer mais que os outros. Idéias criativas e inteligentes fazem parte de toda a apresentação, suas marcações são corretas, a movimentação dos cantores e do coro realça o cômico. Arranca muitos risos da platéia, diverte e emociona ao mesmo tempo.
O cenário é de uma beleza sem igual, digno de figurar em grandes teatros. O melhor cenário apresentado pelo Theatro São Pedro nos últimos anos. Os figurinos impecáveis e a luz realçaram ainda mais a apresentação.


 A escalação do elenco foi um primor: vindo da frança tivemos Sébastien Guèze. O jovem tenor tem uma voz com timbre interessante, pequena e adequada ao personagem. Exagera nas caretas ao cantar, mas atua com emoção. Esse é um detalhe que não pode escapar, sua atuação junto com sua voz emociona o público. Os conhecedores de ópera podem reclamar de sua técnica, dizer que sua tessitura, seu legatto e sua extensão não são das melhores, eu concordo com eles. Mas o jovem tem a capacidade de ser um grande Nemorino, pela atuação cênica e pela superlativa capacidade de emocionar o público. Isso é mais que suficiente para um grande Nemorino.


 Gabriella Pace arrasou como Adina, sua voz esteve maravilhosa. Lírica, jovial e sedutora. Sua atuação cênica impecável mostrou sentimentos de desprezo e paixão quando o libreto exigia. Mostrou grandes qualidades vocais do início ao fim da récita, tudo adequado a personagem. Grande soprano, grande atuação vocal que arrepia a cada nota.
Sebastião Teixeira fez um Sargento Belcore engraçado e interessante. Sua voz de barítono tem belos graves e agudos consistentes. Sua atuação cênica mostra todas as trapalhadas e ansiedades do militar que deseja casar o mais rápido possível com Adina. Sua patente é de sargento, mas seu uniforme mostra medalhas e condecorações de general, tudo hilário. Bravo Teixeira!
Outro que arrebentou foi Saulo Javan, como Dulcamara foi o mais charlatão dos charlatões. Sua voz tem graves maduros, consegue uma agilidade incrível para um baixo. Voz possante, madura e arrepiante. Atuação soberba, quase derruba o cenário na sua saída do palco com a bicicleta. Excelente Dulcamara.


 O programa cedido ao público saiu da mesmice e mostrou informações apresentadas de maneira inusitada e criativa. Dar bem casado, com o nome de Adina e Nemorino, ao público na saída do espetáculo é outra idéia interessante que agrada a todos. Espero que essa produção não se perca e que seja apresentada no decorrer dos próximos anos. A Orquestra do Theatro São Pedro manteve grande qualidade: tempos, volume e sonoridade compatíveis com a ópera de Donizetti. Nas mãos do maestro Emiliano Patarra rendeu apresentou uma sonoridade digna de um grande Donizetti. O coro esteve brilhante, nas suas intervenções mostrou grandes qualidades vocais e ritmos que combinam com a obra.
Dia de estréia (geralmente escrevo estréia com acento, a reforma ortográfica que vá às favas) é peculiar, estão presentes cantores , diretores e muitos que escrevem e trabalham no meio. Uma presença em especial me chama a atenção, o diretor do Theatro Municipal de São Paulo, Abel Rocha. Ele assistiu a récita e espero que se inspire em fazer óperas com essa qualidade. Contratar Walter Neiva é uma grande solução. Depois do Rigoletto de 2011 e da La Traviata desse ano a coisa anda meio complicada por lá.

Ali Hassan Ayache

sábado, 21 de abril de 2012

Idomeneo, Theatro Municipal de São Paulo


AS SURPRESAS DE IDOMENEO NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO.

Theatro Municipal de São Paulo

Mais um texto de Ali Hassan Ayache do blogue Música, Ópera & Ballet que agradecemos e publicamos na íntegra:

O anúncio oficial, do nobre Theatro Municipal de São Paulo, informa que a apresentação da ópera Idomeneo de Mozart como "concerto cênico". Não foi o que aconteceu, a surpresa foi ver a ópera com montagem completa. Tomei um susto quando entrei no teatro e vi a orquestra no alto e na frente, imaginei qual era a surpresa? Depois da abertura ela desceu suavemente para seu devido lugar.

Surpresa amarga: Diretores de ópera tem a mania de querer transportar a ação para tudo quanto que é lugar. Alguns adoram o atemporal, outros gostam de avançar algumas décadas e os mais ousados falam em séculos. Não tenho nada contra esse tipo de ideia. O perigo das transposições é cair no ridículo em algumas cenas, é o exagero na "concepção". O Idomeneo apresentado no último dia 14/04/2012 teve direção cênica de Regina Galdino, a nobre diretora extrapolou no direito de viajar na ação. Transpôs tudo para a atualidade onde deuses da mitologia grega viram banqueiros inescrupulosos, o povão se manifesta contra os altos juros cobrados e a bolsa de valores cai. Concepção que não combina com o tema, a mitologia greco-romana.

Conversas por computador e presos oprimidos tentam mostrar o lado atual da concepção, fica tudo embolado. É complicado adequar mitologia aos dias atuais. Figurinos normais, o deus Netuno aparece com roupas estampadas em reais e dólares. A ideia de colocar o deus em cena não é nenhuma novidade, já foi utilizada em Salsburg/2006. O deus tinha roupas mais adequadas a um ser celeste.


 Defendo a apresentação da obra conforme escrita pelo compositor, sou purista nesse ponto. A ideia de tirar os longos e muitas vezes cansativos recitativos e colocar uma narradora deu uma bela dinâmica e reduziu o tempo da ação, uma surpresa interessante. Para quem não conhece a obra e não tem contato com a mitologia grega é uma mão na roda. Quem conhece a obra fica com a sensação que faltou alguma coisa.
A Orquestra Sinfônica Municipal regida por Rodolfo Fisher mostrou sonoridade volumosa e andamentos interessantes, o problema foi a falta do estilo mozartiano na apresentação da obra. A regência de Rodolfo Fisher toca Mozart como uma ópera romântica, como se ele tivesse vivido uns cem anos depois. O Coral Lírico se mostrou eficaz como sempre. Sua sonoridade foi muitas vezes atrapalhada pelas maluquices da direção.

 Gabriella Pace 
 
 Os solistas arrebentaram, a maioria em noite inspirada e digna de um verdadeiro canto mozartiano. O mezzo-soprano Luisa Francesconi mostrou uma voz uniforme, um timbre escuro e uma bela atuação cênica. Um Idamante empolgante. Sua voz está tinindo, no ponto certo para interpretar outros papéis do repertório. Outra surpresa foi Gabriella Pace, o soprano cantou com maestria, detentora de uma técnica perfeita, agudos brilhantes, vivos e empolgantes. Seu timbre mudou de acordo com os sentimentos da personagem, áspero nos momentos de desespero e lírico nas partes animadas. Gabriela Pace acertou em cheio, compôs uma grande Ilia, digna de sentar ao lado do deus Netuno e cantar uma longa ária para acalmá-lo.

 Luisa Francesconi

 O tenor Miguel Geraldi mostrou uma voz pequena, isso não é nenhum demérito, seu timbre é puro lirismo. Empolga e se mantém constante do começo ao fim da apresentação. Fez um Idomeneo completo. A baixa ficou por conta de Claudia Riccitelli, com uma virose não pode se apresentar. Em seu lugar entrou o soprano Janete Dornelas, chamada de última hora, chegou as duas da manhã no dia da apresentação e às sete horas já estava ensaiando. Cantou Electra cinco anos antes, relembrou as árias e conseguiu um belo timbre de soprano dramático. Tirou leite de pedra.

Quem não acertou a mão foi Marcos Liesenberg, sua voz não tem a solidez necessária de um Mozart. Emissão quase sempre áspera e irregular, que troca agudos por gritos agressivos. Será que Mozart compôs isso? Duvido, seu Arbace/Sacerdote foi o elo fraco entre os solistas, fez uma interpretação contida com troca qualidade melódica transformando-se em gritos.

 As surpresas mostram a organização e a desorganização do grande teatro paulistano: A direção conseguiu um sorprano de última hora , que cantou com dignidade e salvou a récita. O desagradável vem quando anuncia-se concerto cênico e se monta uma ópera completa. Todos os meios de comunicação divulgaram conforme o anunciado, algumas pessoas nas redes sociais reclamaram do erro e culparam a imprensa. O Theatro Municipal de São Paulo deve saber o que vai fazer, programar com antecedência o espetáculo e anunciar o correto. Todos os grandes teatros líricos do mundo divulgam suas programações com meses ou anos de antecedência, esse é o exemplo a ser seguido.

Theatro Municipal de São Paulo