sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

TURANDOT – METropolitan OPERA, Nova Iorque, Outubro 2015 / October 2015

(review in English below)

Turandot, de G. Puccini, foi novamente à cena em na Metropolitan Opera, na velhinha encenação de Franco Zeffirelli.


É um espectáculo muito vistoso, cheio de cor e movimento, mas a encenação é já muito datada. Contudo, ainda é aplaudida pelo público, nomeadamente no início do 2º acto, algo que, quando se consideram as verdadeiras catedrais de ópera, só se vê por aqui.



A Orquestra e Coro da Metropolitan Opera tiveram uma actuação de grande qualidade. Foram dirigidos pelo maestro Paolo Carignani. Já quanto aos cantores, infelizmente não foi assim, apesar estarmos a falar de intérpretes de todo, de quem esperamos sempre que nos surpreendam positivamente.


A Turandot foi interpretada pela soprano norte-americana Christine Goerke. Tem uma voz respeitável, bem audível e colocada, mas muito dura e sem sombra de emoção. Se nas intervenções iniciais do 2º acto essa postura até pode ser deliberada, no final não pode ser assim. E não basta cantar, há que tentar representar, sobretudo numa encenação como esta.


O tenor argentino Marcelo Álvarez foi um príncipe Calaf pouco convincente. Foi a pior interpretação que lhe ouvi até à data. No início ouvia-se mal, foi sempre estático em palco e, mesmo na aria Nessum dorma, esteve aquém do desejável, nomeadamente no final. A voz é bem timbrada, mas foi muito parado e manteve quase sempre o mesmo tom, sem emotividade.



Liu foi a soprano russa Hilba Gerzmava que também não me convenceu. Tem uma voz potente mas cantou sempre em força, o que não é nada ajustado ao papel. Só no último acto conseguiu transmitir alguma emoção na aria final, onde utilizou outras características vocais para além da força, nomeadamente algumas bonitas notas no registo mais agudo.


O baixo americano James Morris foi um Timur aceitável, apesar de o cantor já denotar importantes dificuldades vocais.


Ping foi Dwayne Croft, Pang Tony Stevenson, Pong Eduardo Valdes e o imperador Ronald Naldi.  Os três primeiros estiveram bem, mas o último mal se ouviu.



Enfim, um espectáculo aquém das expectativas, mas que foi muito aplaudido, como acontece sempre por aqui.





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TURANDOT - Metropolitan Opera, New York, October 2015

Turandot by G. Puccini, was again onstage in the Metropolitan Opera, with the old staging by Franco Zeffirelli.

It is a very rich performance, full of color and movement, but the scenario is dated. However, it is still applauded by the public, particularly at the start of the 2nd act. When considering the true cathedrals of opera, this behaviour is only seen here.

The orchestra and choir of the Metropolitan Opera had a fine performance, under the direction of Maestro Paolo Carignani. As for the singers, unfortunately we did not have the best, although we are talking about top interpreters, from whom I always expect to be positively surprised.

Turandot was interpreted by the American soprano Christine Goerke. She has a respectable voice, audible and well tuned, but very tough and emotionless. If in the initial interventions of the 2nd act this behaviour may even be deliberate, in the end of the opera, it should not be so. And the artists are supposed not just to sing, but also to try to act, especially in a staging like this.

Argentine tenor Marcelo Álvarez was a lame Prince Calaf. It was the worst interpretation I heard from him up to date. In the beginning he was badly heard, was unconvincing on stage, and even in the aria Nessum dorma, there was much to be desired, especially at the end. His voice has a nice timbre, but he was very static and often maintained the same tone, without emotion.

Liu was Russian soprano Hilba Gerzmava which also did not convince me. She has a powerful voice but always sang in force, which is nothing adjusted to the role. Only in the last act she managed to convey some emotion in the final aria, when she used other vocal characteristics in addition to force, including some beautiful notes in the high register.

American bass James Morris was an acceptable Timur, although the singer has denoted important vocal difficulties.

Ping was Dwayne Croft, Pang was Tony Stevenson, Pong was Eduardo Valdes, and the emperor was Ronald Naldi. The first three were good, but the latter was barely audible.

A performance well below my expectations, but that was much applauded, as always happens here.


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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

LA BOHÈME, English National Opera, Novembro de 2015


(in English below)

Depois de resistir muitos anos, acabei por assistir a um primeiro espectáculo de ópera na English National Opera, companhia residente no Coliseu de Londres. Aqui todas as óperas são cantadas em inglês. Neste teatro o público pode levar os copos com as bebidas compradas no intervalo para a sala, o que é outro aspecto muito negativo porque há sempre alguém por perto a levar um copo à boca e a pousá-lo no chão.



Vi La Bohème, de Puccini. A encenação de Benedict Andrews tem pouco impacto. Trás a acção para os anos 60 – 70 do século passado, em ambientes casuais (aqui bem), mas há muitas incoerências cénicas (por exemplo baguetes de pão embrulhadas individualmente, garrafas de água de plástico). Mas o pior foi mesmo ter sido cantado em inglês. Nunca consegui abstrair-me desse facto, apesar da beleza da partitura musical.

A direcção musical foi de Xian Zhang e os cantores foram o melhor da récita. Todos cantavam bem, eram jovens, magros e ágeis, condições que dão grande credibilidade ao espectáculo.
Mimi foi interpretada pelo soprano Corinne Winters. Esteve sempre afinada, a voz é bem audível, muito expressiva, e foi excelente em palco.



O tenor Zach Borichevsky foi um Rodolfo com um timbre muito bonito e uma projecção vocal excelente, para além de ter transmitido grande emotividade.



O Marcello do barítono Duncan Rock também esteve sempre ao mais alto nível, com uma voz potente e muito agradável. Num patamar mais abaixo mas, ainda assim, de qualidade, estiveram o soprano Rhian Lois como Musetta, o baixo Nicholas Masters como Colline e o barítono Ashley Riches como Schaunard.





Um bom espectáculo, sobretudo à custa dos cantores.

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La Bohème, English National Opera, November 2015

After resisting many years, I ended up watching a first opera performance by the English National Opera, at the London Coliseum. Here all the operas are sung in English. In this theater the audience can take the glasses with drinks bought at the intermission into the main room, which is another very negative issue because there is always someone around to take a glass to his mouth and put it down on the floor.

I saw La Bohème by Puccini. The staging of Benedict Andrews has little impact. The action was placed around the years 60-70 of the last century, in common settings (here OK), but there are several inconsistencies (eg baguettes of bread wrapped individually, plastic water bottles). But the worst was even been sung in English. I never got me abstract thereof, despite the beauty of the musical score.

The musical direction was Xian Zhang and the singers were the best in the performance. All sang very well, they were young, lean and agile, conditions that give great credibility to the show.
Mimi was interpreted by soprano Corinne Winters. She was always in tune, the voice is well audible and she was excellent on stage. The tenor Zach Borichevsky was a Rodolfo with a beautiful timbre, emotive and excellent vocal projection. Baritone Duncan Rock’s Marcello always sang at the highest level.
A level below but still with good quality, were soprano Rhian Lois as Musetta, bass Nicholas Masters as Colline, and baritone Ashley Riches as Schaunard.

A good performance, especially at the expense of the singers.


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domingo, 10 de janeiro de 2016

A FORÇA DO DESTINO / THE FORCE OF DESTINY, English National Opera, December 2015

(review in English below)

A ópera A Força do Destino, de G. Verdi, esteve em cena no Coliseu de Londres, sede da English National Opera. Apesar de ter sido cantada em inglês, o que muito me incomoda, foi um espectáculo de grande qualidade, sobretudo devido aos cantores. Outro facto incompreensível é a possibilidade de os espectadores trazerem para a sala as bebidas que adquirem no bar.

Dirigiu o maestro Mark Wigglesworth. A encenação foi do controverso encenador catalão Calixto Bieito que, nesta ópera, não incluiu cenas de sexo ou nudez. Contudo, a encenação é escura, agressiva e com elementos de difícil interpretação. Bieito transportou a acção para a guerra civil espanhola e no palco, entre fachadas incaracterísticas de edifícios em constante movimentação, há projecção de imagens de soldados, aviões e cavalos, quiçá irrelevantes. Algumas opções não compreendi, como a destruição minuciosa de livros (que são rasgados) pelos membros do coro no 2º acto ou a projecção da criança a riscar a cortina antes do último acto.



As imagens de violência gratuita estão presentes, incluindo Preziosilla a pontapear uma grávida e a matar prisioneiros de guerra no coro do 3º acto (Rataplan). Enfim, é uma encenação violenta e incomodativa em que não há compaixão de ninguém por ninguém.

Já em relação aos cantores, os solistas foram de elevada qualidade.
A soprano norte americana Tamara Wilson foi uma Leonora excelente, de voz potente e afinada, mantendo a qualidade interpretativa ao longo de toda a récita, irrepreensível no último acto.



O tenor Gwyn Hughes Jones foi um Don Alvaro fervoroso na interpretação vocal, sempre bem audível, possuidor de um timbre bonito e muito expressivo em todas as intervenções.



Também ao mais alto nível esteve o barítono Anthony Michaels-Moore como Don Carlo. A voz é poderosa, bem timbrada e o cantou usa-a de uma forma muito eficaz. Em palco foi o melhor intérprete, apesar de a encenação não ajudar.



A mezzo israelita Rinat Shaham cantou e interpretou a cigana Preziosilla com grande classe e também estiveram muito bem o baixo Matthew Best como Marquês de Calatrava, o barítono Andrew Shore como Frei Melitone e, sobretudo, o baixo James Creswell como Padre Guardiano.

Um grande espectáculo, sobretudo pelos cantores.






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THE FORCE OF DESTINY, English National Opera, December 2015

 The opera The Force of Destiny by G. Verdi, was on stage at the London Coliseum, home to the National English Opera. Although it was sung in English, which greatly disturbs me, it was a great quality performance, mainly because of singers. Another incomprehensible fact is the ability to bring into the auditorium the drinks that people buy at the bar.

The conductor was Mark Wigglesworth. The controversial Catalan director Calixto Bieito tin this opera did not include sex or nudity scenes. However, the scenario is dark, aggressive and with difficult to interpret elements. Bieito moved the action to the Spanish Civil War period and on stage, among uncharacteristic facades of buildings in constant movement, there are projected images of soldiers, planes and horses, perhaps irrelevant. Some options I did not understand, as the thorough destruction of books (which are torn) by choir members in the 2nd act or the projection of the child to scratch the curtain before the last act.
The gratuitous violence of images is present, including Preziosilla kicking a pregnant woman and killing prisoners of war in the choir of the 3rd act (Rataplan). Anyway, it's a violent and disturbing scenario in which there is no compassion for anyone.

In relation to the singers, the soloists were of high quality.
North American Soprano Tamara Wilson was an excellent Leonora, with a potent and refined voice, keeping high quality vocal interpretation throughout the performance, faultless during the last act.

Tenor Gwyn Hughes Jones was a Don Alvaro of fervent vocal interpretation, always well audible, with a beautiful and very expressive timbre in all interventions.

Also at the highest level was baritone Anthony Michaels-Moore as Don Carlo. The voice is powerful and the singer used it in a very effective manner. On stage he was the best performer, although the staging did not help.

Israeli mezzo Rinat Shaham sang and played the Gypsy Preziosilla with great class and also very good were bass Matthew Best as Marquis of Calatrava, baritone Andrew Shore as Frei Melitone and, especially, bass James Creswell as Padre Guardiano.

A great performance, especially because of the singers.


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domingo, 3 de janeiro de 2016

LES CONTES D’HOFFMANN, METropolitan Opera, Nova Iorque, Março / New York, March 2015


 (review in English below)


Les Contes d’Hoffmann é uma ópera de Jacques Offenbach com libreto de Jules Barbier baseado em contos de E.T.A. Hoffmann.

A acção passa-se em Nuremberg no início do Século XIX. Hoffmann bebe com os amigos e Nicklausse (a sua musa protectora transformada). Conta a história de três casos de amor anteriores que ilustram facetas do seu actual relacionamento infeliz com a cantora Stella, que é desejada por Lindorf, um político sem escrúpulos. A primeira é Olympia, uma boneca mecânica construída por Spalanzani, em Paris. A segunda em Munique, é Antónia que, contrariando as ordens do seu pai, morre por cantar, na sequência de uma indicação nesse sentido do Dr. Miracle. A terceira, em Veneza, é Giulietta uma cortesã que tira o reflexo às pessoas por ordem de Dapertutto. No final está bastante bêbedo e adormece após um diálogo com Stella que é levada por Lindorf.



A encenação de Bartlett Sher é vistosa e diversificada mas irregular. O prólogo e o epílogo decorrem numa taberna alemã convencional. O primeiro acto, a história de Olympia, é o mais bem conseguido. Passa-se numa feira, na barraca de Spalanzani, com uma estrutura em caracol dominante e onde a utilização de guarda-chuvas com olhos desenhados tem um efeito de grande impacto. O segundo acto é, teatralmente, decepcionante porque não há nada para ver. O palco está vazio e podia passar-se em Munique ou em qualquer outro local. Em contraste, o 3º acto é cenicamente exagerado, com uma mistura de prostitutas e outros figurantes (recuperando-se as referencias aos actos anteriores) numa Veneza com gôndolas. Uma mistura pirosa e sem jeito.



 A direcção musical foi excelente, a cargo de James Levine.  A Orquestra e o Coro da Met Opera estiveram ao mais alto nível.

O tenor norte-americano Matthew Polenzani foi um Hoffmann superior. Tem uma voz de timbre muito bonito, potente e expressiva. Os agudos soam fáceis e de grande qualidade. Foi o melhor da noite e foi a melhor interpretação que lhe ouvi.



Também ao mais alto nível esteve a mezzo francesa Karine Deshayes como musa / Nicklausse. Tem uma voz ponderosa e penetrante, e esteve sempre muito bem.



Outro grande intérprete foi o baixo-barítono francês Laurent Naouri nos papéis diabólicos, Lindorf / Copéllius / Doctor Miracle e Dappertutto. Tem um registo grave muito interessante, a voz é bonita e de grande musicalidade. O cantor tem uma excelente figura o que o ajudou muito na superior prestação cénica.



A soprano norte-americana Audrey Luna fez uma Olympia excelente na representação mas aquém das expectativas no que ao canto respeita. Tem uma voz bem audível mas, por vezes tornou-se agreste e estridente, e ocasionalmente pareceu perder o controlo, o que foi mais notório no registo agudo.



Antonia e Stella foram interpretadas pela soprano norte-americana Susanna Philips. Esteve muito bem, sobretudo como Antonia, que cantou com grande emotividade, poderio e beleza vocal.


A mezzo russa Elena Maximova fez uma Giulietta sem brilho. A voz é relativamente pequena e monocórdica. A belíssima barcarola Belle nuit, ô nuit d’amour valeu apenas pela música.



No cômputo geral, um bom espectáculo.








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LES CONTES D'HOFFMANN, Metropolitan Opera, March 2015


Les Contes d'Hoffmann is an opera by Jacques Offenbach with libretto by Jules Barbier based on tales by E.T.A. Hoffmann.

The action takes place in Nuremberg in the early nineteenth century. Hoffmann drinks with friends and Nicklausse (his protective muse transformed).  He tells the story of three cases of previous love that illustrate facets of his current unhappy relationship with the singer Stella, who is wanted by Lindorf, an unscrupulous politician. The first is Olympia, a mechanical doll built by Spalanzani in Paris. The second, in Munich, is Antonia that, contrary to her father's orders, dies for singing, following an indication to that direction of Dr. Miracle. The third, in Venice, is a courtesan, Giulietta, that takes the reflection to people in order of Dapertutto. At the end Hoffmann is quite drunk and falls asleep after a dialogue with Stella that follows Lindorf.

The staging of Bartlett Sher is fine and diverse but irregular. The prologue and the epilogue are in a conventional tavern. The first act, the story of Olympia, is the best achieved. It is set in a fair, in the tent of Spalanzani, where the use of umbrellas with eyes designed on them has a great visual impact. The second act is disappointing because there is nothing to see. The stage is empty and could be in Munich or elsewhere. In contrast, the 3rd act is scenically exaggerated, with a mixture of prostitutes and other extras (recovering the references to previous acts) in Venice with gondolas.

Musical direction by James Levine was excellent. The Orchestra and Chorus of the Met were at the highest level.

American tenor Matthew Polenzani was an excellent Hoffmann. He has a very beautiful, powerful and expressive voice. Top notes sound easy and of high quality. He was the best of the night and it was the best performance I heard from him.

Also at the highest level was the French mezzo Karine Deshayes as Muse / Nicklausse. She has a strong and penetrating voice, and she was always at the top level throughout the performance.

Another great performer was French bass-baritone Laurent Naouri in the evil roles, Lindorf / Copéllius / Doctor Miracle and Dappertutto. He has a very interesting low register, the voice is beautiful and has great musicality. The singer has a great figure which helped a lot in the acting.

American soprano Audrey Luna was an excellent theatrical performer as Olympia but short of expectations with respect to the singing. She has a very audible voice but sometimes became wild and seemed to lose control, which was most notable in the high register.

Antonia and Stella were interpreted by American soprano Susanna Philips. She was very good, especially as Antonia, who sang with great emotion and vocal beauty.

Russian mezzo Elena Maximova was a dull Giulietta. The voice is relatively small and monotonous. The beautiful barcarola Belle nuit ô nuit d'amour paid only for music.

All together, it was an excellent performance.


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