sexta-feira, 30 de setembro de 2016

TURANDOT NO THEATRO DA PAZ - MONTAGEM DIGNA DE UM GRANDE TEATRO




Crítica de Ali Hassan Ayache no blog de ÓPERA & BALLET.

Turandot é a principal atração do XV Festival de Ópera do Theatro da Paz, toda a genialidade melódica de Puccini está presente nessa obra, não por acaso ela é sucesso desde a estreia. Turandot é uma ópera repleta de curiosidades: Puccini não a terminou, faleceu antes de completar o gran finale, esta tarefa ficou a cargo de Franco Alfano. A regência da estreia coube a Toscanini, dizem as más línguas que o famoso maestro não gostou do final composto por Alfano e parou a récita informando ao público "senhoras e senhores, aqui parou Giacomo Puccini", interrompeu a recita por alguns minutos e depois retornou. Turandot é a protagonista, mas está longe de ser a heroína querida deste petardo de Puccini, a moça odeia um casamento e corta a cabeça do nobre que não decifrar os três enigmas por ela propostos, pensa que assim nunca vai se casar, isso não cria empatia. Liu é a personagem queridinha do público, canta árias belíssimas e se mata em nome do amor que nutre pelo protagonista, nada mais emocionante que isso. Dito isso ao respeitável leitor vamos a Turandot apresentada no Theatro da Paz no dia 23 de Setembro.

A direção de Caetano Vilela representa o respeito à obra de Puccini, ultimamente diversos compositores tem em diretores de cena como sócios que adoram modificar e muitas vezes profanar a obra. Felizmente não é o caso de Vilela, a falta de cabelos e o calor paraense não queimou seus neurônios, ambientou a ópera na china imperial conforme está no libreto. Sua direção cênica prima pelos detalhes exemplo disso é o posicionamento dos solistas e a movimentação das massas corais, sempre correto e de acordo com o enredo. As cabeças penduradas, mais de 70 feitas de Meriti são a lembrança do que acontece com quem se atreve a desafiar os enigmas de Turandot e são uma inteligente contextualização. Coloca o rei, este munido de um figurino amarelo imperial, no alto dando-lhe majestade. O contraste das cores dos figurinos deixa o espaço cênico com beleza inconfundível. Sua heroína é fria, gelada e densa na emoção, seu vestido branco é símbolo da pureza e da frieza. O painel do terceiro ato destoa dos dois primeiros, a perca de padrão é compensada com cores que se alternam conforme o andar da cenas. O final é uma apoteose, Turandot simbolicamente perde a pureza, nela é colocado um manto vermelho, deixa assim de ser a pura e gélida heroína para se tornar uma mulher apaixonada. Some o painel e o vermelho toma conta da cena, lado a lado Turandot e Calaf sobem as escadas e celebram a eternidade do amor. Uma leitura tradicional e ao mesmo tempo moderna da obra, com sacadas inteligentes e soluções criativas.  

Os cenários são grandiosos e perfeitamente adaptados ao palco do Theatro da Paz, Roni Hirsch o recheia com referências chinesas, o jogo Tangram e o ano do Tigre são algumas delas. Peças montadas e desmontadas no palco incrementam o enredo. Os figurinos de Adán Martinez lembram a China imperial e estão de acordo com o proposto pela direção. A montagem é digna de um grande teatro, tem nível para ser apresentada nos grandes palcos do mundo. 

Destaque de Turandot é o Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz, a preparação de Vanildo Monteiro é primorosa, lembro aos leitores que seus componentes são amadores. Com preparação exaustiva o regente consegue uma sonoridade digna dos coros profissionais, o equilíbrio nos naipes e a correta sonoridade é resultado de toda a dedicação. A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz regida por Miguel Campos Neto mostrou sonoridade correta com andamentos compatíveis com a ópera. 

Como disse acima a personagem Liu tem árias de grande beleza, isso não quer dizer que sejam moleza para o soprano. Luciana Tavares tem um timbre que navega entre o lírico e o potente, só não consegue uma Liu irretocável devido à carência técnica. Quem não tem falta de técnica e sabe como emocionar o público com seu vozeirão é o tenor  Richard Bauer. Apresentação irretocável com grandes agudos, potentes firmes e seguros aliados a uma interpretação cênica correta fazem de seu Calaf uma apresentação memorável.

Esperava mais do soprano Eliane Coelho, não adianta falar que já cantou aqui ou acolá nos melhores teatros do mundo. Sua Turandot foi mediana no segundo ato, voz sem brilho e um timbre inconsistente. Melhorou no terceiro com volume e potência exibindo um lirismo peculiar, mas nada empolgante. Sua apresentação cênica esteve correta, fria como o branco de seu vestido. Quando penso em Turandot imagino uma voz explosiva e quente de soprano dramático com um timbre escuro, agudos potentes e não gritados, dicção e fraseado impecáveis e uma superlativa capacidade de penetrar profundo na alma apenas com o poder vocal. Infelizmente esses atributos passaram longe de Belém.

É com imensa alegria que vejo bons cantores se dedicando e explorando possibilidades em papéis menores. A começar pelo vozeirão de Homero Velho (Ping), um barítono detentor de graves volumoso, a correção vocal e sensibilidade interpretativa de Mauro Wrona (Altoum), a excelente atuação cênica de Sávio Sperândio (Timur) e pelos agudos sempre afinados de Giovanni Tristacci (Pong). Idaías Souto (Mandarim) tem que evoluir como cantor, conseguiu falhar, quebrando notas em sua curta apresentação 

O XV Festival de Ópera do Theatro da Paz está na maturidade, à formação do público é uma realidade constatada pelos ingressos sempre esgotados para todas as récitas e pelos comentários ouvidos do público dizendo que sempre assiste aos eventos. Fiquei comovido ao ouvir um relato de uma senhora, diz ela que chegou no primeiro dia de vendas de ingressos as sete da manhã e viu a fila dar volta no teatro. Não se deu por vencida, saiu as onze com os bilhetes desejados na mão. Isso faz que acreditemos na ópera como arte que atrai interesse . O Festival de Ópera do Theatro da Paz é o maior do Norte do país e o público responde com sua presença. Que continue por muitos anos!


Ali Hassan Ayache viajou à Belém do Pará a convite da direção do XV Festival de Ópera do Theatro da Paz.

domingo, 25 de setembro de 2016

COSÌ FAN TUTTE, Royal Opera House, Londres / London, Setembro / September 2016


(review in English below)

A nova produção da opera de Mozart Così fan Tutte é mais um triunfo da prestigiada Royal Opera House de Londres.

A encenação do jovem Jan Philipp Gloger é interessante, original e muito agradável, embora misture épocas o que, por vezes, quebra a continuidade da acção. Gloger recorre, mais uma vez, ao espectáculo dentro do espectáculo.


Logo durante a abertura aparecem os cantores solistas, vestidos à época, a agradecer os aplausos do público, fazendo os gestos que habitualmente os cantores e as cantoras fazem nesta ocasião. Depois percebemos que estes não são os cantores solistas. Os dois casais aparecem na plateia e são espectadores da Royal Opera.

Don Alfonso será um dirigente da peça de teatro que decorrerá até final. Guglielmo e Ferrando vão para a guerra. O quadro com uma estação de comboios de meados do século passado é bem conseguido. Reaparecem disfarçados num bar moderno e aí começam a conquista das suas noivas. Noutro quadro aparece o jardim do Éden, com muitas maçãs, dinheiro e a serpente. Há também quadros em que a acção decorre num ambiente de teatro barroco.


Já no final, a festa do casamento é muito dinâmica. Num grande painel luminoso em que está escrito COSÌ FAN TUTTE, retiram algumas lâmpadas do E e passa a COSÌ FAN TUTTI.


A encenação é vistosa, alegre, muito diversificada, mas um pouco confusa. Uma das mensagens principais que o encenador pretende dar é que a instabilidade das emoções humanas não se aplica apenas no feminino, mas a todos e em todas as épocas.


O maestro russo Semyon Bychkov foi muito bom, embora tenha imposto alguns tempos excessivamente lentos. A orquestra esteve ao mais alto nível.


Os cantores solistas foram todos excelentes. Os dois pares de noivos eram jovens, o que deu grande credibilidade à interpretação cénica e permitiu alguns momentos de erotismo bem conseguidos.

O baixo-barítono italiano Alessio Arduini foi um Guglielmo de voz bonita, firme e potente. Presença sempre muito ágil e insinuante, muito favorecido pela sua figura.


O tenor alemão Daniel Behle fez um Ferrando muito credível e mais romântico. Na belíssima aria Un’aura amorosa foi magnífico, com um registo agudo de invulgar beleza.


Corinne Winters, soprano americana, foi a Fiordiligi indecisa de voz quente e belo soprano. Esteve particularmente bem nas árias Come scoglio e, sobretudo, Per pietà, ben mio, perdona tocante na sensibilidade e tristeza. Fantástica.


A mezzo americana Angela Brower foi uma Dorabella de voz lírica e firme que esteve sempre bem e afinada ao longo de toda a récita.



O barítono alemão Johannes Martin Kränzle fez um Don Alfonso seguro e muito bem adaptado à personagem.


A soprano espanhola Sabina Puértolas foi uma Despina enérgica e de grande qualidade, vocal e cénica.


A Royal Opera apostou na juventude (produtor e cantores) e, mais uma vez, ganhou.







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Così fan Tutte, Royal Opera House, London

The new production of Mozart's opera Così fan tutte is another triumph of the prestigious Royal Opera House in London.

The staging by young director Jan Philipp Gloger is interesting, unique and very pleasant, although it mixes different periods of time that sometimes breaks the continuity of the action. Gloger uses, again, a show within the show.

Just in the opening the soloists singers appear, dressed in Mozart’s time, and thank the applause of the audience, making the gestures usually singers make on this occasion. Quickly we realize that these are not the soloists. The two couples appear in the audience and are members of the audience of the Royal Opera.

Don Alfonso is a director of the play and will run until the end. Guglielmo and Ferrando go to war. The setting with a train station in the middle of last century is well managed. Disguised, they reappear in a modern bar and then begin the conquest of their brides. In another setting the garden of Eden appears, with many apples, money and the serpent. There are also settings in which the action takes place in a baroque theater environment.

At the end, the wedding party is very dynamic. In a large display panel where it is written COSÌ FAN TUTTE, the removal some lamps from the E and turns into COSÌ FAN TUTTI.

The staging is fine, cheerful, very diverse, but a little confusing. One of the main messages that the director wants to give is that the instability of human emotions does not only apply only to women, but to all and at all times.

Russian maestro Semyon Bychkov was very good, although some times he imposed excessively slow tempi. The orchestra was at the highest level.

The soloists were all excellent. The two couples were young, which gave great credibility to the stage interpretation and allowed some moments of eroticism.

Italian bass-baritone Alessio Arduini was a Guglielmo with a beautiful, firm and powerful voice. His presence always very agile and ingratiating, much favored by his figure.

German tenor Daniel Behle was a more romantic and very credible Ferrando. The beautiful aria Un'aura amorosa was magnificent, with a top register of unusual beauty.

Corinne Winters, American soprano, was a fragile Fiordiligi with a warm beautiful soprano voice. She was particularly well in the arias Come scoglio and especially Per pieta, ben mio, perdona that she sang with touching sensitivity and sadness. Fantastic.

American mezzo Angela Brower was a lyrical Dorabella with firm voice that was always in tune throughout the performance.

German baritone Johannes Martin Kränzle was a firm and very well suited to the character of Don Alfonso, and Spanish soprano Sabina Puértolas was an energetic Despina with high quality, vocal and scenic.

The Royal Opera bet on youth (director and singers) and, once again, won.


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sábado, 10 de setembro de 2016

Johan Botha 1965 - 2016

(text in English below)

Aos 51 anos morreu o grande tenor sul-africano Johan Botha. Era um dos meus cantores favoritos e, por isso, aqui deixo este registo. Neste blogue vários autores escreveram sobre ele, sempre com referencias altamente elogiosas.

Botha tinha uma voz de invulgar beleza, com timbre lírico e grande facilidade nas notas mais agudas. O poderio vocal era imponente, mesmo avassalador. Sempre afinado, mantinha qualidade melódica de topo em toda a grande extensão da sua voz. Enchia qualquer teatro de ópera, por maior que fosse. Conseguia imprimir emoção vocal a todas as personagens que encarnava, fraseando claramente os textos que cantava.

(Tannhäuser. Royal Opera House. London)

Tive o privilégio de o ouvir ao vivo várias vezes, em diversos papéis, mas foi em Wagner que as suas interpretações mais se destacaram. Para mim era o melhor Tannhäuser no activo e um dos melhores de sempre. Como desconhecia a sua doença, ainda alimentava a esperança de o voltar a ver nesse papel. Infelizmente tal não acontecerá.

                       (Tannhäuser. Metropolitan Opera. New York)

Desaparece o grande cantor, amargamente ficam as boas memórias e muitos registos de som e imagem que permitirão recordar mais um grande cantor lírico da história da ópera. 

RIP Johan Botha!



Johan Botha, the great South African tenor died aged 51. he was one of my favorite singers. In this blog several authors have written about him, always with highly laudatory references.

Botha had a voice of unusual beauty, with lyrical tone and ease at the top notes. The vocal power was impressive, even overwhelming. Always tuned, he maintained top melodic quality throughout the vast extent of his voice. Filling any opera house, however great it was. He expressed vocal emotion to all characters he sang, always with clearly phrasing of the texts.

I was privileged to hear him live several times, in different roles, but it was in Wagner that his performances stood out. For me he was the best Tannhäuser of the present and one of the best ever. As I was unaware of his illness, I still hoped to see him once more in that role. Unfortunately this will not happen.


The great singer disappears, bitterly remain good memories and many sound and image recordings with which we will remember a great opera singer in the history of opera. 
RIP Johan Botha!

sábado, 27 de agosto de 2016

WILLIAM PEREIRA TRANSFORMA "O ANÃO" EM OBRA PRIMA



Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera e Ballet

Beleza física nunca foi um dos atributos do compositor Alexander Von Zemlinsky e consequentemente a mulherada não o via como um galã ou símbolo sexual. A rejeição o atraiu para compor "O Anão", baseado no conto de Oscar Wilde (este rejeitado em sua época por ser homossexual) "O Aniversário da Infanta". O texto é pra lá de maluco, fala de uma infanta que ganha de presente um anão com problemas físicos e que nunca se olhou no espelho. O catatau se julga boa pinta e tem a ousadia de se apaixonar pela infanta. Quando declara seu amor a ela e se olha no espelho a ficha cai e todos os dramas do mundo desabam sobre suas costas.
   
Rejeição, indiferença e intolerância são características inerentes do ser humano desde sua existência e estão marcadas no libreto. As dores e traumas do personagem central foram explorados de forma única pela competente direção de Willam Pereira na apresentação do Theatro São Pedro/SP. Sua visão favorece o psicológico, atua na mente e no imaginário onde os personagens falam através de gestos e expressões. Cada um a sua maneira está inserido em um contexto social e se mostra de forma linear.
   
O cenário de Renata Pati e Karina Machado não tem grandes palácios ou salões nobres, os figurinos  de Olintho Malaquias mostram o temperamento de cada personagem e a luz de Fabio Retti leva a um casamento das cenas. O branco total do cenário remete a pureza e a inocência sentimental do Anão, os cubos interagem movimentando-se e formando cenas imaginárias e o teto é um requinte de cores em fios que descem como uma chuva de pétalas. Willam Pereira faz um teatro moderno, antenado com o enredo que através da imaginação leva o espectador à reflexão. Foge dos clichês atuais onde todos tem que defender as causas dos excluídos, devem amar os animais de estimação e a natureza. 
   
O problema é que o diabo mora nos detalhes e esses que se mostram corretos e defensores das grandes causas sempre tem uma atitude não tão correta ou um pensamento nem sempre "adequado". Pereira mostra o drama humano e nada é mais importante que isso. Simplesmente perfeito na sua concepção. Você pode não gostar dos críticos William, às vezes os críticos gostam de você.
   
A Orquestra do Theatro São Pedro comandada por André dos Santos apresentou sonoridade volumosa e densa, realçando a força da música de Zemlinsky em prol da delicadeza das notas. O Coro sempre afinado e recheado de solistas da casa cantou com sonoridade esplendida. Os solistas mostraram competência para encarar as difíceis passagens: Gustavo Lassen evolui a cada apresentação, voz de baixo com excelentes graves. Mar Oliveira faz um Anão denso e dramático cenicamente conciliando um timbre que não é dos mais agradáveis embora combine com as dores do personagem. A Infanta interpretada por Maria Sole Gallevi cantou com um timbre delicado e técnica correta, atuação cênica correta e linear. 
  
 Mais uma vez o teatro da Barra Funda traz títulos raros em montagens com roupagem moderna, que privilegia os cantores da casa e solistas brasileiros de extrema qualidade. Enquanto isso na Praça Ramos o clima é de poucos amigos, com o titular depondo em CPIs da Prefeitura Municipal e tendo a quebra de sigilo eletrônico decretada pela justiça. Quanta diferença! 


Ali Hassan Ayache