quarta-feira, 23 de maio de 2018

Joyce DiDonato – Fundação Calouste Gulbenkian, Maio 2018



(text in English below)

Uma breve nota sobre mais um espectáculo de qualidade superior na Fundação Gulbenkian – o concerto de Joyce DiDonato e Il pomo d’oro designado Em Guerra e Paz, Harmonia Através da Música.

Os leitores habituais deste espaço sabem que tenho grande admiração por Joyce DiDonato, que considero umas das melhores cantoras da actualidade e, por isso, estava com expectativas elevadas para este espectáculo. E não saí defraudado.


Ao entrar na sala, estava já a cantora sentada no palco, meio escurecido, bem como o bailarino Manuel Palazzo. A primeira parte, iniciada pelo bailarino e entrada da orquestra em cena, foi dedicada à “Guerra”, onde se ouviram trechos de Händel, Leo, Cavalieri, Purcell e Gesulado. A Orquestra foi excelente. A Joyce DiDonato tem uma voz enorme, muito bonita e de qualidade superior em todos os registos e tem também uma forte presença em palco, o que muito credibiliza a interpretação. Saliento a emotiva Prendi quel ferro, o bárbaro! de Leo, o comovente lamento de Dido de Dido and Eneias e a famosa Lascia ch’io pianga da ópera Rinaldo.

A segunda parte, dedicada à paz, foi mais leve mas igualmente de grande qualidade. Incluiu música de Pärt para além de Händel e Purcell. Refiro a interpretação superior da violinista Anna Fusek que brilhou também com o flautim.

Um espectáculo de qualidade superior.



Gostaria de terminar esta nota referindo um aspecto positivo e raro na Gulbenkian – a quase inexistência das tosses patológicas, e um negativo – o toque de telemóveis, que aconteceu mesmo na minha frente quando a DiDonato cantava o lamento de Dido, o que quebrou totalmente a concentração e solenidade do momento.

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Joyce DiDonato - Calouste Gulbenkian Foundation, May 2018

A short note about one more concert of superior quality at the Gulbenkian Foundation - the concert by Joyce DiDonato and Il pomo d'oro entitled In War and Peace, Harmony Through Music.

The usual readers of this space know that I have great admiration for Joyce DiDonato, who I consider to be one of the best singers of the present time and, therefore, I had high expectations for this concert. And I was not disappointed.

On entering the room, the singer was already sitting on the stage, half dark, as well as the dancer Manuel Palazzo. The first part started by the dancer and the orchestra entrance on the scene, was dedicated to "War", where music of Händel, Leo, Cavalieri, Purcell and Gesulado were heard. The Orchestra was excellent. Joyce DiDonato has a big voice, very beautiful and of superior quality in all registers and also has a strong presence on stage, which turns very credible her interpretation. I stress the emotive Prendi quel ferro, o bárbaro!  of Leo, the touching lament of Dido of Dido and Aeneas, and the famous Lascia ch'io pianga of the opera Rinaldo.

The second part, dedicated to peace, was lighter but equally of great quality. I highlight the superior performance of violinist Anna Fusek who was also brilliant  with the flautino.

A concert of superior quality.

I would like to end this note by referring to a positive and rare aspect at the Gulbenkian - the almost nonexistence of the pathological coughs, and a negative one - the ringign of mobile phones, which happened right in front of me when DiDonato was singing Dido's lament, which totally broke the concentration and solemnity of the moment.


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segunda-feira, 21 de maio de 2018

ACIS AND GALATEA, Teatro Amazonas, Manaus, Maio 2018


BARROCO AO ESTILO AMAZONENSE EM "ACIS AND GALATEA". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA& BALLET.




A apresentação da ópera "Acis and Galatea" de Händel pelo XXI Festival Amazonas de Ópera mostra ousadias poucas vezes vistas em teatros pelo Brasil. A primeira é montar ópera barroca, os diretores fogem dela como diabo foge da cruz já que fazê-la apresenta enormes dificuldades: vozes específicas e raras no Brasil, instrumentos de época, títulos longos, repetitivos, desconhecidos do público e muitas vezes chatos. Por isso os teatros preferem Traviatas, Toscas e Carmens. Outra ousadia é transportar as similaridades da mitologia grega para a amazônica. O público local pode se identificar com o tema, mas escorregar para o clichê e o démodé é fácil. 

O resultado da apresentação do dia 13 de Maio é uma ópera uniforme onde as dificuldades são vencidas com uma montagem inteligente e criativa acompanhada pelo que se viu de muitos ensaios. A transposição dos mitos não afetou o resultado, Galatea é a mãe d'água Iara, Acis é ribeirinho e Polifemo é um Mapinguari. A visão de Sergio Andrade tem qualidades que vencem a monotonia da ópera barroca. A movimentação dos solistas e coro resulta em uma dinâmica poucas vezes vista nesse estilo. O colorido dos cenários unido a beleza da luz junto com o figurino dão uniformidade no conjunto.

A dança é destaque que aparece diversas vezes e enriquece o enredo, o Balé Experimental do Corpo de Danças do Amazonas apresenta uma coreografia elaborada por Tindaro Silvano. Os movimentos simples transportam o espectador à mitologia onde ninfas e sereias parecem flutuar ou dançar nas águas do Amazonas. Os cenários Georgia Massetani são adequados, os figurinos de Laura Françoso compatíveis com os mitos amazônicos, o personagem Polifemo destoa de tudo isso com um figurino exageradamente pesado. O desenho de luz de Humberto Hernández é um primor de qualidade, realça as cenas tornando-as impactantes.


Marcelo de Jesus rege a Orquestra de Câmara do Amazonas, consegue extrair musicalidade barroca refinada com mistura de instrumentos atuais e de época. O Coral do Amazonas e o Madrigal Ivete Ibiapina não brilharam embora não tenham comprometido vocalmente. 
   
Cantar música barroca é extremamente difícil, a surpresa fica com o soprano Amanda Aparício. Vinda do coro local apresentou-se de maneira correta diante das dificuldades da partitura. A voz tem timbre lírico, pequena e afinada. Sofreu com os complexos ornamentos e coloraturas inerentes a opera barroca, cantou com expressividade e sua presença de palco realçou a personagem. O tenor Anibal Mancini tem o barroco no sangue, ficou a vontade com o personagem Acis. Cantou de forma sublime com sustentação apropriada e entoação perfeita. Miriam Abad teve bom desempenho vocal, volume considerável e consistência nas notas em todas as participações como Damon. Murilo Neves deu vida a um Polifemo com graves leves para as exigências do personagem. Falta o peso e densidade na voz para ser um Deus grego ou amazônico.

Ali Hassan Ayache viajou a Manaus a convite do XXI Festival Amazonas de Ópera.

sábado, 19 de maio de 2018

FLORENCIA EN EL AMAZONAS, Teatro Amazonas, Manaus, Maio 2018


O REALISMO MÁGICO DE "FLORENCIA EN EL AMAZONAS". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.




Quando o assunto é ópera moderna, novinha e com menos de 50 anos sempre torço o nariz. Os compositores que se enquadram nessa linha geralmente adotam a barulheira como tema principal. A busca de desconhecidas óperas tem sido uma característica do Festival Amazonas de Ópera, na sua XXI edição apresenta um título interessante. Mais que mera curiosidade "Florencia en el Amazonas" é uma ópera de notável qualidade em diversos aspectos: enredo fantástico, música com belas melodias e montagem moderna.  

Estreou em 1996 e contém elementos do realismo mágico ao estilo Gabriel Garcia Marques, seu libreto em espanhol é de uma de suas alunas, Marcela Fuentes-Berain. Conta a história de uma famosa e misteriosa soprano, Florencia Grimaldi, que viaja da Colômbia pelo Rio Amazonas a fim de se apresentar no teatro da capital amazonense e encontrar seu grande amor. Dizem ter cancelado uma apresentação no Scala de Milão para cantar no Teatro Amazonas.

Surpreendentemente o compositor mexicano Daniel Cátan não segue os modismos e faz uma composição de rara beleza musical. Sua linha melódica é de uma beleza ímpar, a música acompanha a ação com passagens orquestrais densas unidas a trechos minimalistas que interagem e dão forma definida as cenas. Raramente um compositor do século XX consegue linhas melódicas tão incisivas e adequadas ao libreto. Casamento perfeito entre música e texto. Um Debussy moderno com seu minimalismo empolgante. 

Tamanha qualidade musical só pode existir se a orquestra estiver a altura da partitura. A Orquestra Amazonas Filarmônica regida por Luiz Fernando Malheiro apresentou musicalidade exuberante com sons descritivos únicos e sonoridade no volume compatível com a sala. Extraiu toda a beleza musical da partitura.

A produção é originária da Colômbia com partes feitas no Brasil. Os cenários de Julián Hoyos evocam um barco e conforme o andar das cenas vão alterando seu formato. A projeção no fundo mostra o Rio Amazonas no primeiro ato e muda com o desenrolar das cenas.  

A simplicidade se une a dinâmica nessa montagem que explora todas as dimensões do palco. História bem contada onde o público desconhece o libreto não precisa de direção mirabolante, em "Florencia en el Amazonas" o diretor de cena Pedro Salazar consegue ser sucinta, ágil e explicar sem complicar. Os figurinos de Olga Maslova são adequados ao libreto, mais acerto da montagem.  

A protagonista é interpretada por Daniella Carvalho, soprano de canto elegante que enfrenta na entrada e na sua última participação árias de difícil interpretação. Conseguiu dar brilho a personagem com voz de timbre harmonioso, pela complexidade da partitura é perdoável algumas derrapadas nos agudos. Imprimiu credibilidade e intensidade com técnica vocal de excelência e exuberante atuação cênica. 



Quem se destaca é a cantora amazonense Dhijana Nobre, a jovem tem um colorido vocal encantador onde agudos brilhantes se unem a um timbre delicado. Como Rosalba consegue se mostrar pronta para voos maiores, quem deu a chance ao soprano fez uma excelente descoberta. 

Eric Herrero deu vida a Arcadio, tenor com voz potente e timbre adequado. Projeção vocal que enche o teatro e atuação cênica condizente mostra consistência nas apresentações do cantor. Mere Oliveira é mezzo-soprano com timbre escuro e voz potente. Mais uma vez se apresentou em excelente nível, deu vida a personagem Paula com grandes atributos vocais e cênicos. Pena que o público paulista a veja raras vezes.

O Alvaro de Inácio de Nonno entregou graves quentes e portentosos e o baixo-barítono Homero Perez fez um Riolobo a altura do personagem. O elenco se mostra equilibrado em todas as vozes, a escalação acertada prova mais uma vez que é possível fazer óperas de qualidade com vozes nacionais presentes nos papéis principais.

É duro dizer isso, mas a verdade é implacável. O XXI Festival Amazonas de Ópera faz em pouco mais de um mês, são cinco óperas, o que teatros de São Paulo e Rio de Janeiro não fazem em um ano e com verbas infinitamente menores. 

Ali Hassan Ayache viajou a Manaus a convite do XXI Festival Amazonas de Ópera.