terça-feira, 28 de Outubro de 2014

WERTHER – Teatro Nacional de São Carlos, Outubro de 2014



A temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos abriu com a opera Werther de Jules Massenet.

Transcrevo o texto de Pedro Moreira que nos dá um excelente enquadramento da obra:
A acção de Werther desenrola-se em Frankfurt. Foi numa Primavera, símbolo do amor e da natureza, que o jovem Werther conheceu Charlotte, resultando desse encontro uma paixão muito intensa. Apesar de tão nobres sentimentos os unirem, o seu amor era impossível, uma vez que Charlotte, no leito de morte da mãe, prometera casar com Albert. A temática do suicídio resultante do amor impossível, juntamente com a escrita musical fortemente marcada pelo uso da técnica do leitmotiv, traduz-se assim numa agradável combinação de factores que tornam este trabalho numa ópera de culto.

A encenação de Graham Vick foi estreada em Lisboa há 10 anos. Coloca a acção em meados do século XX, mas tem diversas incoerências (onde o que se canta não é o que se vê) que culminam no último acto, décadas depois dos outros, em que a Charlotte é uma idosa parkinsónica (pelo menos desta vez serviu para mostrar as excelentes qualidades cénicas da solista, mas já lá iremos) e o Werther um zombie. Mas é uma encenação vistosa, dinâmica e o guarda-roupa é muito agradável.


 Dirigiu bem a Orquestra Sinfónica Portuguesa o jovem maestro Cristóbal Soler.

O tenor brasileiro Fernando Portari foi o Werther. Estava com alguma curiosidade em o ouvir, sobretudo tento em mente o que sobre ele já foi escrito neste blogue pelos nossos amigos brasileiros. Fez um Werther muito credível. Tem uma voz poderosa, agradável, mas a linha de canto nem sempre foi regular. Esteve melhor nos 2º e 3º actos. É um tenor de qualidade superior aos que temos ouvido em São Carlos nos últimos tempos. Em cena esteve regular, mas contracenar com uma Charlotte como a desta récita não é para todos.


 Veronica Simeoni, mezzo italiano, foi soberba como Charlotte. Tem tudo – voz, figura e arte dramática. A voz é muito bonita, de extensão apreciável, sempre afinada e bem audível, e manteve a qualidade ao longo de todo o espectáculo. Também a representação cénica foi excelente, o que ajudou muito na construção de uma personagem muito credível. Como referi, no último acto, transformada numa idosa trémula e pouco estável, foi brilhante. Para mim, a melhor da noite.


 O Albert do barítono Luís Rodrigues foi também de qualidade superior. O cantor tem-nos brindado com excelentes interpretações nos últimos anos e esta foi mais uma. A voz, potente, expressiva e bem colocada, associa-se a uma presença em palco sempre muito eficaz.


Dos restantes cantores Pierre-Yves Pruvot foi um óptimo Bailio, Cristiana Oliveira foi uma agradável Sophie por vezes com alguma tendência para a estridência, João Merino brilhou como Johann e Mário João Alves não esteve num dia de inspiração.

(João Merino)

Desde o ano passado que desconfio que há “lebres” no teatro para os aplausos. Hoje voltei a senti-lo, mas foram totalmente desnecessárias, pois foi um bom espectáculo.




 Começou bem a temporada do Teatro de São Carlos!



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quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Jordi Savall – Espírito da Arménia – Fundação Calouste Gulbenkian – Crítica de Francisco Casegas

(Fotos de Alia Vox e Fundação Calouste Gulbenkian respectivamente)

No passado dia 19 de Outubro tive a oportunidade de assistir ao concerto mágico do grande músico e humanista Jordi Savall, em conjunto com o agrupamento Hespèrion XXI (fundado pelo próprio Jordi Savall) e com 4 músicos arménios, no grande auditório da FCG (esgotadíssimo). Este concerto encerrou uma semana dedicada à música arménia com concertos, filmes, conferências entre outros eventos promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Antes de iniciar o concerto, Jordi Savall ofereceu-nos um pequeno encontro no Auditório 2 (que o público encheu) para falar sobre o contexto musical e histórico do seu album “Espírito da Arménia”, lançado em 2012. Neste encontro, moderado por Risto Nieminen (director do serviço de música da FCG), também foi possível assistir a uma breve explicação e demonstração do instrumento tradicional arménio “Duduk” pelo músico Haïg Sarikouyoumdjian.
Quanto ao concerto propriamente dito, foi nada menos que mágico. O músico catalão apresentou o seu album “Espírito da Arménia” lançado em 2012 (Editora Alia Vox). Mas na minha opinião o ponto alto do concerto ficou guardado para a 2a parte, quando foi interpretada a Ode “Hayastan yerkir”. Uma música extremamente bonita que nos transportou para um mundo onde só existe paz e harmonia. Quem quiser ouvir a música pode clicar no link seguinte https://www.youtube.com/watch?v=CQKSMd8xUm8 (gravada num concerto em Narbonne em Julho de 2013).
No final do concerto, Jordi Savall e os restantes músicos ofereceram-nos, para além de um encore, uma breve demostração e descrição de todos os instrumentos utilizados no concerto, a maior parte deles tradicional da Arménia e já centenários.
Em relação ao público, demonstrou durante todo o concerto, um comportamento bastante correcto, mostrando o enorme carinho e admiração pelos músicos presentes, aplaudindo entusiasticamente e levantando-se todo sem excepção no fim, facto que não se vê todos os dias nos concertos da FCG.
Para terminar em beleza, Jordi Savall deu uma sessão de autógrafos aos seus fãs onde tive a oportunidade de lhe deixar algumas palavras de agradecimento. Na foto seguinte podem ver o autógrafo que ganhei no meu CD.
 No geral faço um balanço extremamente positivo e espero assistir a mais concertos do Jordi Savall num futuro muito próximo.
Em nome dos "Fanáticos da Ópera" agradeço ao Francisco Casegas mais este expressivo texto, cheio de inveja do autógrafo (e também de não ter tido possibilidade de assistir ao espectáculo).

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

CAVALLERIA RUSTICANA & I PAGLIACCI ARRANCAM LÁGRIMAS NO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET


Dando sequência a temporada de óperas o Theatro Municipal de São Paulo apresentou no dia 18 de Outubro de 2014 a dobradinha mais famosa da ópera: Cavalleria Rusticana e  I Pagliacci. Ambas sucesso em todo mundo e por serem curtas são apresentadas na mesma noite. Representantes máximas do verismo, gênero do final do século XIX que trás o povão para ópera. Uma das características principais do movimento é o realismo exacerbado, descreve a vida cotidiana com nuances sanguinárias mostrando a realidade nua e crua no palco. Desaparecem as rainhas e nobres e gente simples e comum do povão dão vida aos personagens.

Apresentada ano passado ao lado da ópera Jupyra a Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni reprisada faz uma transposição temporal para o século XX com mafiosos parecidos com capangas de Al Capone. A idéia de mudar o período histórico para os anos 30 é uma solução que não prejudica o enredo. Os cenários, figurinos e luz dialogam com essa transformação e se harmonizam com a concepção do diretor cênico Pier Francesco Maestrini.

Para encarar a Santuzza convocaram Tuija Knihtlä, o soprano apresentou voz consistente com agudos e médios escuros e uma interpretação cênica convincente. Grande cantora com excelentes qualidades vocais e cênicas. O tenor Giancarlo Monsalve esteve aquém do personagem Turiddu. Voz fechada com agudos sem brilho, procura o conforto na região média e o timbre se mostra sem vigor e ocre. Tenor sem condição técnica para se apresentar no palco do municipal que recebeu vaias por pequena parte do público ao final da apresentação. Alberto Gazale é barítono de bons graves, cantou com dignidade e fez um bom Alfio. Luciana Bueno como Lola esbanjou qualidade vocal em sua pequena participação, todo o caráter da personagem que aceita trair o marido foi mostrado com uma voz escura e um timbre penetrante.

A estreante I Pagliacci de Ruggero Leoncavallo teve direção cênica William Pereira, o diretor optou por carregar nas tintas, encheu o palco de tudo. Solistas, figurantes, coristas e cenários lotaram o espaço cênico e instalaram uma confusão generalizada. A exibição de um vídeo transmitindo a cena ao vivo é um recurso manjado que poluí o cenário. Os cantores atuaram de forma coerente com o enredo. A transposição da ópera para os anos 80, em uma periferia de uma grande cidade não acrescenta nada de novo ou revolucionário. 

Walter Fraccaro cantou com força vocal, seu Canio é todo drama do início ao fim. Atuação correta e voz de tenor condizente com o personagem. Inva Mula trouxe ao palco do Municipal excelentes agudos, explorou-os com potência e grande volume. O barítono Alberto Gazale fez um Tonio mediano, que não chega a emocionar embora não comprometa a apresentação. Davide Luciano e Daniele Zanfardino cantaram de forma satisfatória os personagens Silvio e Beppe.

A Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo regida por Ira Levin apresentou precisão rítmica em uma interpretação com brilho e volume correto em ambos os títulos. Andamentos que acompanham os cantores e volume que respeita a linha vocal foram a tônica de toda a apresentação. Ira Levin já foi diretor do Theatro Municipal de São Paulo e além de um excelente pianista é um regente que entende os meandros da ópera. O Coro lírico Municipal de São Paulo mostrou uniformidade entre os naipes e conseguiu transmitir as emoções que os dois títulos apresentam.  

Cavalleria Rusticana e I Pagliacci  são óperas apresentadas de diversas formas pelos teatros do mundo e de todos os modos ambas têm a capacidade de deixar o espectador tenso. Transmitem uma dramaticidade que perturba os sentidos levando muitos as lágrimas. Um amigo que assistiu as óperas pela primeira vez sai do teatro com os olhos marejados, diz que I Pagliacci provocou nele uma emoção que afeta os sentidos. Por isso amo a arte, por isso amo a ópera. Ela tem a capacidade de nos transportar a outra dimensão, quem é tocado e tem sensibilidade artística sente na pele o drama vivido por Santuzza e por Nedda. 


Ali Hassan Ayache

Fonte:http://operaeballet.blogspot.pt/2014/10/cavalleria-rusticana-i-pagliacci.html

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

LE NOZZE DI FIGARO, METropolitan OPERA, Outubro de 2014 / October 2014

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(review in english below)

A presente temporada da METropolitan Opera de Nova Iorque abriu com uma nova produção de Richard Eyre da opera As Bodas de Fígaro de Mozart.

A acção passa-se em Sevilha e foi trazida para os anos 1930. A distinção entre os nobres e os criados só é evidente no guarda roupa e esgota-se por aí. O palco é rotativo (imagem de marca de Eyre) e vêem-se várias partes do palácio, incluindo o salão, o quarto da condessa, o quarto do Fígaro e os jardins. As paredes têm uma decoração mourisca e são muito altas, minimizando por vezes o que se passa no palco.





Logo na abertura é dado o mote, aparecendo uma mulher nua da cintura para cima a vestir-se apressadamente e, depois, o conde em robe vermelho e com ar satisfeito, enquanto a condessa dorme sozinha, profundamente, no seu quarto. Mas não deixa de ser uma encenação convencional.

Dirigiu o grande maestro James Levine, com graves limitações físicas mas em excelente forma. Ouvir esta obra prima de Mozart tocada pela magnífica Orquestra do Met, sob a batuta de Levine, é já um privilégio raro.

O baixo russo Ildar Abdrazakov foi um Figaro óptimo. A voz é firme, penetrante, sempre bem colocada e muito bonita. O cantor tem uma boa figura, o que ajuda muito o desempenho em palco. A aria Non più andrai foi inesquecível.


Peter Mattei, barítono sueco, fez um Conde de Almaviva próximo da perfeição. Tem uma voz muito expressiva, cheia, bem audível, e com um registo agudo marcante quando o usa. É mais um cantor de excelente figura, o que torna mais credível a personagem.


A Susana foi interpretada pelo soprano alemão Marlis Petersen. E que interpretação! Voz magnífica em afinação e projecção, sem gritar, e presença cénica sem descurar o menor pormenor. 


Amanda Majeski, soprano norte americano, fez uma condessa triste e introspectiva nas mais belas árias da personagem, Porgi, Amor e Dove sono, que cantou com delicadeza invulgar, mas também esteve muito bem na cena cómica do 2º acto em que ela, Susanna e Cherubino são apanhadas no quarto pelo conde.


Cherubino foi interpretado pelo soprano Isabel Leonard. Também esteve muito bem tanto no nível vocal como em cena. Ofereceu-nos uma interpretação alegre e jovial, sem exageros excessivos. Na aria Voi, che sapete esteve em particular destaque.


Nos cantores secundários o gigante John Del Carlo foi um Doctor Bartolo muito bom,


a Marcellina de Susanne Mentzer tendeu para a estridência, 


o Don Basilio de Greg Fedderly, a Barbarina de Ying Fang e o Antonio de Philip Cokorinos  não destoaram.







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LE NOZZE DI FIGARO, METropolitan Opera, / October 2014


This season of the Metropolitan Opera in New York opened with a new production by Richard Eyre of Mozart 's opera The Marriage of Figaro.

The action takes place in Seville and was brought to the 1930s. The distinction between nobles and servants is evident only in the dresses they wear. The stage rotates (brand image of Eyre) and we can see several parts of the palace, including the ballroom, the bedroom of the Countess, Figaro's room and the gardens. The walls have a Moorish decor and are very high, sometimes minimizing what is happening on stage.
In the opening the motto is given, with the appearance of a naked woman from the waist up, to dress hurriedly and then the Count in a red robe and with a satisfied look, while the Countess sleeps alone, deep in her room. But it is still a conventional staging.

The performance was directed by the great conductor James Levine, with serious physical limitations, but always excellent. To listen to this Mozart ‘s masterpiece played by the magnificent Met Orchestra, under the directon of Levine, is a rare privilege.

Russian bass Ildar Abdrazakov was a great Figaro. The voice is firm, penetrating, always well tuned and very beautiful. The singer is good looking, which helps his performance on stage. The aria Non più andrai was unforgettable.

Peter Mattei, Swedish baritone, was ​​a Count Almaviva near the perfection. He has a full, well audible voice, with a striking high register, and very expressive. He's another good looking singer, which makes the character more believable.

Susana was interpreted by German soprano Marlis Petersen. And what a performance! She has a magnificent voice in pitch and projection, without shouting, and her stage presence was perfect, without neglecting the smallest detail.

Amanda Majeski, North American soprano, was ​​a sad and introspective Countess. In the most beautiful arias of her role, Porgi, Amor and Dove sono, she sang with unusual delicacy, but also did very well in the comic scene of the 2nd act when she, Susanna and Cherubino are caught in the room by the Count.

Cherubino was interpreted by soprano Isabel Leonard. She was also very well in both vocal and stage performances. She offered us a light-hearted interpretation, without undue exaggeration. The aria Voi che sapete was excellent.

Among secondary singers, giant John Del Carlo was a very good Doctor Bartolo, Susanne Mentzer’s Marcellina tended to stridency, and Greg Fedderly’s Don Basilio, Ying Fang’s Barbarina, and Philip Cokorinos’s  Antonio were very good.


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quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

IL BARBIERE DI SIVIGLIA, Opéra National de Paris (Bastille), 20/09/2014, texto de José António Miranda


(Fotografia Bernard Contant /ONP)

Il Barbiere di Siviglia, ópera em dois actos de Gioacchino Rossini está em cena na Ópera National de Paris (Bastille).
Libreto: Cesare Sterbini, segundo a comédia de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais
Direcção musical: Carlo Montanaro
Encenação: Damiano Michieletto
Cenografia: Paolo Fantin
Roupas: Silvia Aymonino
Luzes: Fabio Barettin
Il Conte d’Almaviva: René Barbera
Bartolo: Carlo Lepore
Rosina: Karine Deshayes
Figaro: Dalibor Jenis
Basilio: Orlin Anastassov
Fiorello: Tiago Matos
Berta: Cornelia Oncioiu
Um oficial: Lucio Prete
Orchestre de l’Opéra national de Paris
Choeur de l’Opéra national de Paris  Dir: José Luis Basso
Produção: Grand Théâtre de Genève

Uma lufada de ar fresco esta produção do “Barbeiro” que a ópera de Paris foi buscar a Genève, O mérito é todo de Damiano Michieletto, o encenador, e este espectáculo confirma-o como um dos mais estimulantes autores do panorama operático europeu actual. Juntamente com o cenógrafo Paolo Fantin e a figurinista Silvia Aymonino, Michieletto consegue apresentar-nos a obra de Rossini como se estivéssemos a ver a ópera pela primeira vez.

                                             (Fotografia Bernard Contant /ONP)

E não é apenas o facto de ter transposto para a actualidade o tempo da acção, artifício vulgar nos dias de hoje, e nos apresentar como cenário uma rua de um bairro popular sevilhano, que fundamenta aquela sensação de actualidade. Em primeiro lugar, tudo aquilo que se passa em cena decorre a um ritmo vertiginoso que nos identifica de imediato com o estilo contemporâneo da vida urbana, e que é afinal o tempo da música rossiniana,

Para além deste facto, o sucessivo encadeamento de cenas da ópera, que nas versões cénicas tradicionais pode por vezes aparecer como um conjunto de números brilhantes colados uns aos outros por enfadonhas pausas de recitativos, surge aqui com uma fluência a que não estamos habituados no palco. Esta fluência resulta do tratamento cénico da obra: encenador e cenógrafo abordam a ópera numa perspectiva cinematográfica, e desse modo toda a acção ganha uma nova dinâmica adquirindo consistência e unidade globais.

                                           (Fotografia Bernard Contant /ONP)

Como no cinema, a montagem é aqui o elemento fundamental para a obtenção de uma coerência global da obra. Neste caso, a mobilização do cenário introduz uma terceira dimensão espacial na narrativa, que deixa de ser vista como um conjunto de quadros justapostos e surge como uma verdadeira sequência cinematográfica. A forma como encenador e cenógrafo conseguem este efeito demonstra, para além do domínio da habilidade técnica, grande inteligência. Esta revela-se em momentos brilhantes, como a encenação da famosa ária Largo al factotum como uma vertiginosa corrida por todo o prédio de Bartolo, como um verdadeiro plano-sequência de filme, ou a localização da ária La calunnia na passagem de um vão de escada, com a paralela ilustração contemporânea da chuva de tablóides que acompanha o seu final.

Também o desempenho cénico dos intérpretes reflecte a proposta do encenador e a sua perspectiva global da obra, num registo naturalista mais característico de alguma estética cinematográfica do que da convenção teatral. São deliciosas as cenas finais do primeiro acto, bem  como a utilização de um dos elementos da guarda para, antes do início da função, multar o teclista no fosso por desobediência.

A direcção de Carlo Montanaro, apesar de revelar por vezes alguma dificuldade em controlar orquestra e cantores, não obstruiu o brilho geral do espectáculo.

                                        (Fotografia Bernard Contant /ONP)

Dalibor Jenis fez um Figaro correcto, demonstrando que suporta muito bem a passagem do tempo. Já Karine Deshayes (Rosina), revelou-se um pouco velha para o papel. René Barbera, o conde de Almaviva, mostrou grandes qualidades vocais, mas menor capacidade cénica. Os baixos Bartolo e Basilio estiveram bem. Foi porém Cornelia Oncioiu, no papel de Berta, que brilhou no conjunto, pelo apogeu vocal e à vontade cénico exibidos. 
O jovem português Tiago Matos (Fiorello) confirmou tratar-se de um barítono a cuja carreira haverá que estar atento.

José António Miranda


Em nome dos “Fanáticos da Ópera” agradecemos a José António Miranda a sua óptima contribuição, esperando que esta seja uma primeira de várias que venham a enriquecer este espaço.