quarta-feira, 21 de novembro de 2018

GÖTTERDÄMMERUNG / O CREPÚSCULO DOS DEUSES, Deutsche Oper am Rhein, Düsseldorf, Novembro / November 2018



(review in English below)


A Ópera de Düsseldorf que, com a de Duisburg, integra a Deutsche Oper am Rhein é um edifício austero e sóbrio, de dimensão e acústica adequadas para assistir a um bom espectáculo de ópera.





O Crepúsculo dos Deuses, última ópera do Anel de R. Wagner, na encenação de Dietrich Hilsdorf, passa-se nas margens do Reno e num navio (MS Wodan) que nele navega. 




É uma crítica ao capitalismo e aos perigos da industrialização.



A encenação tem partes muito interessantes e outras nem tanto. Logo no início as Nornas, vestidas como senhoras do início do século passado, tomam chá numa mesa de um café nas margens do Reno, servidas por um empregado de rabo de cavalo vestido como nos dias de hoje. Este e outro que por vezes o acompanha estarão presentes ao longo da récita.


O navio ou vai viajando ao longo do Reno, ou atraca em determinados portos. Os elementos simbólicos chave mantêm-se conservados – o anel, a lança e a espada. As Filhas do Reno surgem e desaparecem no rio. O Hagen é uma figura tenebrosa e nunca larga a lança. Um dos momentos mais eficazes da récita é o início do 2º acto em que ele, agarrado aos ferros do navio, “ouve” o pai Alberich, excelentemente caracterizado, sem nunca mudar de posição ou olhar para ele. Menos interessante é a Gutrune que aparece como toxicodependente e o Coro (muito bom) 


que vem vestido em trajes militares coloridos e com uma bebida na mão.




No 3º acto, após o Hagen ferir mortalmente o Siegfried, ele cai para um porão. Durante a marcha fúnebre vão sendo içadas bandeiras pelos militares, na popa do navio, e lançadas para o porão. Primeiro a do império, depois as nazis, a bandeira actual da Alemanha (que é colocada no chão), a da República Democrática Alemã e, finalmente, uma bandeira branca. Depois desta, a bandeira da Alemanha é também para lá lançada.
No final, a Brünhilde lança fogo ao porão do navio e são projectadas chamas em todo o seu redor, ficando ela estática na parte mais elevada. Tudo deste mundo é destruído para que um novo surja em seu lugar.



O maestro Axel Cober dirigiu a orquestra que, apesar do bom desempenho global, teve ocasionalmente notas falhadas, sobretudo nos metais.



Nas interpretações vocais dominou a qualidade e homogeneidade. O Siegfried do tenor sueco Michael Weinius foi consistente, voz agradável e sem falhas. O cantor é obeso o que não favorece a personagem do herói interpretado.



A soprano norte americana Linda Watson cumpriu com valentia o exigente papel de Brünhilde. Esteve bem, embora no final da ópera não tenha atingido a excelência interpretativa que sempre desejamos ouvir.





O Hagen do baixo dinamarquês Stephen Milling foi sensacional, para mim o melhor intérprete da noite. Voz forte, grave, bem audível e uma postura sempre sinistra. Fantástico.





O barítono alemão Johannes Martin Kränzle foi um Gunter de referencia, tanto na interpretação vocal como cénica.



Sylvia Hamvasi, soprano húngara, interpretou a Gutrune com qualidade, embora a encenação não a favoreça.



Também esteve muito bem a mezzo polaca Katarzyna Knucio como Waltraute,



e o barítono alemão Michael Kraus no curto papel de Alberich.



Das 3 Nornas Susan Maclean (1ª), Sarah Ferede (2ª) e Morenike Fadayomi (3ª), a última foi claramente inferior às outras duas, mas já em relação às Filhas do Reno (Woglinde, Anke Krabbe; Wellgunde, Kimberley Boettger-Soller e Flossilde Ramona Zaharia) a consistência e qualidade imperaram.



Um espectáculo de grande qualidade.








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GÖTTERDÄMMERUNG, Deutsche Oper am Rhein, Düsseldorf, November 2018

The Düsseldorf Opera House which, with the one of Duisburg, is part of the Deutsche Oper am Rhein, is an austere and sober building of size and acoustics suitable for a good opera performance.

Götterdämmerung, the last opera of R. Wagner’s  Ring cycle, in a production of Dietrich Hilsdorf, takes place on the banks of the Rhine and on a ship (MS Wodan) traveling on it. It is a critique of capitalism and the dangers of industrialization.

The staging has very interesting parts and others not so much. In the beginning of the performance the Norns, dressed as ladies from the beginning of the last century, drink tea on a table on the banks of the Rhine, served by a waiter dressed in present outfits. This one and another that sometimes appears with him will be present throughout the performance.

The ship either goes traveling along the Rhine, or docks in certain ports. The key symbolic elements remain preserved - the ring, the spear and the sword. The Daughters of the Rhine appear and disappear in the river. Hagen is a dark figure and always carries the spear. One of the most effective moments of the opera is the beginning of the second act in which he, clinging to the irons of the ship, "listens" to his (excellently characterized) father Alberich, without ever changing his position or looking at him. Less interesting is Gutrune who appears as a drug addict and the (very good) Choir comes dressed in colorful military outfits and with a drink in hand.

In the 3rd act, after Hagen mortally wounded Siegfried, he falls into the basement. During the funeral march flags are raised by the military at the stern of the ship and thrown into the basement. First the empire flag, then the Nazi flags, the current flag of Germany (which is placed on the ground), the German Democratic Republic flag and finally a white flag. After this, the current flag of Germany is also launched there.
In the end, Brünhilde sets fire to the ship's basement and flares are projected all around it. She remains static at the top of the ship. Everything in this world is destroyed so that a new one will arise in its place.

Maestro Axel Cober directed the orchestra which, despite its good overall performance, occasionally missed some notes, especially on metals.

Vocal interpretations were dominated by quality and homogeneity. Siegfried of Swedish tenor Michael Weinius was consistent, pleasant voice and without flaws. The singer is obese which does not favor the character of the interpreted hero. North American soprano Linda Watson was brave in the demanding role of Brünhilde. She was well, although at the end of the opera did not reach the interpretive excellence that we always want to hear.

Hagen of the Danish bass Stephen Milling was sensational, for me the best interpreter of the night. Strong, bass voice, well audible and always a sinister posture. Fantastic. German baritone Johannes Martin Kränzle was a reference Gunter, both in vocal and scenic interpretation. Sylvia Hamvasi, Hungarian soprano, interpreted Gutrune with quality, although the staging does not favor it. Polish mezzo Katarzyna Knucio was also very well as Waltraute, and the German baritone Michael Kraus in the short role of Alberich.

From the 3 Norns Susan Maclean (1st), Sarah Ferede (2nd) and Morenike Fadayomi (3rd), the latter was clearly inferior to the other two. The Daughters of the Rhine (Woglinde, Anke Krabbe, Wellgunde, Kimberley Boettger-Soller and Flossilde, Ramona Zaharia) were consistent and of remarkable quality.

A performance of great quality.

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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

SAMSON ET DALILA, METropolitan Opera, Outubro / October 2018



(review in English below)

A ópera Sansão e Dalila de C. Saint-Saëns abriu este ano a temporada da Metropolitan Opera.



A encenação de Darko Tresnjak é convencional e kitsch. Recorre a umas estruturas metalizadas coloridas com vários andares e duas varandas que representam uma praça na Palestina no 1º acto, as instalações da Dalila no 2º e a prisão em Gaza e o templo de Dagon no 3º, este com uma enorme estátua de forma humana no centro e aberta a meio. No final, quando o Sansão destrói o templo, nada acontece, para além do aparecimento de umas luzes brancas cintilantes na zona posterior. 



O guarda roupa também não ajuda - se os hebreus aparecem vestidos de cinzento, os filisteus estão de vermelho e dourado, com coroas na cabeça. Uma piroseira!



O maestro Mark Elder dirigiu a Orquestra da Metropolitan Opera com nível e merece também uma nota muito positiva o Coro que tem muitas intervenções, todas de grande qualidade.




O Sansão do tenor Roberto Alagna foi irregular na prestação vocal, alternando períodos em que pareceu estar em grandes dificuldades com outros em que cantou melhor, mas longe de uma boa interpretação. Cenicamente esteve algo estático e não se sentiu paixão ou sequer atracção pela Dalila.



O Sumo Sacerdote de Dagon foi interpretado com qualidade pelo barítono Laurent Naouri que tem um timbre muito agradável e esteve afinado e com boa presença cénica. Mas as intervenções são curtas.



A Dalila da mezzo Elina Garanca foi a grande intérprete da noite. Se em cena não foi fantástica, vocalmente esteve ao mais alto nível. Tem uma voz muito bonita, potente, quente e sempre afinada e a cantora usa-a de forma impecável. A ária mais famosa da ópera, Mon coeur s’ouvre à ta voix, foi magnífica. Só não tem os graves necessários em algumas intervenções.



O barítono Elchin Azizov esteve bem como Abimélech mas, como é morto logo no primeiro acto, tem uma intervenção pequena.



Um espectáculo aquém das minhas expectativas que valeu, sobretudo, pela Garanca.






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SAMSON ET DALILA, METropolitan Opera October 2018

Samson and Dalila opera by C. Saint-Saëns opened this year the Metropolitan Opera season.

The staging of Darko Tresnjak is conventional and kitsch. It uses colored metallized structures with several floors and two balconies that represent a square in Palestine in the 1st act, the house of Dalila in the 2nd act, and the prison in Gaza and the temple of Dagon in the 3rd act, this one with a huge statue of human form in the center and open in half. In the end, when Samson destroys the temple, nothing happens, other than the appearance of sparkling white lights in the back. The wardrobe also does not help - if the Hebrews appear clothed in gray, the Philistines are red and gold with crowns on their heads. Kitsch!

Conductor Mark Elder directed the Orchestra of the Metropolitan Opera with quality and also deserves a very positive reference the Choir that has many interventions, all of great quality.

Tenor Roberto Alagna (Samson) was irregular in vocal performance, alternating periods in which he seemed to be in great difficulties with others in which he even sang well. On stage he was static and transmitted no passion or even attraction for Dealila.

The High Priest of Dagon was interpreted with quality by baritone Laurent Naouri that has a very nice timbre and was in tune and with good scenic presence. But the interventions are short.

Delilah of mezzo Elina Garanca was the great interpreter of the night. If the acting was not fantastic, vocally she was at the highest level. She has a very beautiful, powerful, warm and always-tuned voice and the singer uses it impeccably. The most famous opera house, Mon coeur s'ouvre à ta voix, was magnificent.

Baritone Elchin Azizov was a good Abimélech but, as he is killed in the first act, he has a small intervention.

A performance below my expectations that was worth, above all, by Garanca.

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domingo, 11 de novembro de 2018

CENDRILLON – METropolitan Opera, Nova Iorque / New York, Maio / May 2018



 (review in English below)

Cendrillon é uma ópera de Jules Massenet com libretto de Herni Cain baseado no conto de fadas Cendrillon (Cinderela) de Charles Perrault.



Era uma vez… um conto de fadas para o esplendor das vozes femininas!


A história é bem conhecida. Nesta versão Lucette (Cendrillon, Cinderela) vive com Pandolfe, o pai que casou em segundas núpcias com madame de la Haltière, uma madrasta terrível que tem duas filhas. Todos se preparam para um baile no palácio do príncipe Charmant. A madrasta proíbe Lucette de ir ao baile. Aparece uma fada que a transforma numa irreconhecível e bela jovem mas avisa-a que deve regressar antes da meia noite. No baile o príncipe rejeita todas as pretendentes e apaixona-se de imediato por Lucette. À meia noite desaparece, mas perde um sapato. De novo em casa, a madrasta descreve o baile a Lucette. Demasiado triste, decide fugir para a floresta para aí morrer. Aparece de novo a fada e, na floresta, encontra-se com o príncipe e cantam o seu amor. O pai encontra-a muito doente, leva-a para casa e diz-lhe que, enquanto dormia, falou num príncipe. Lucette pensa que afinal tudo foi um sonho. O príncipe pretende encontrar a sua amada e chama todas as jovens que foram ao baile para provarem o sapato. A madrasta tem a certeza que será uma das filhas a escolhida. Todas provam o sapato que não serve a nenhuma. Surge Lucette com a fada e é imediatamente reconhecida pelo príncipe. Toda a família fica subitamente feliz e cumprimenta a futura rainha.



A produção de Laurent Pelly de é muito bem conseguida para o conto de fadas. O cenário é constituído por painéis onde está escrita a história. Têm muitas portas e movem-se ao longo do espectáculo oferecendo-nos quadros muito diversos e de grande efeito visual, mantendo sempre as páginas da história como elemento central.


Os trajos são muito engraçados e exageradamente peculiares. Todas as personagens femininas aparecem de encarnado, com excepção das criadas (de cinzento), da madrasta (inicialmente de roxo), suas duas filhas (de cor de rosa e verde claro) e da fada (de azul celeste). 




Lucette aparece de cinzento mas, quando transformada pela fada, de branco prateado. Os homens, de fato preto, colete e camisa branca, muitos meias encarnadas e cabeleiras fartas.




A direcção musical foi do maestro francês Bertrand de Billy.



Joyce DiDonato, mezzo-soprano americano, foi uma Lucette (Cendrillon) extraordinária. A voz é de uma extensão invulgar (incluindo pelos terrenos de soprano), de timbre belíssimo, de potência avassaladora. Já várias vezes referi que aprecio muito DiDonato. Acho que consegue transmitir vocalmente os diferentes estados de alma como poucas. Aqui foi ora triste e melancólica ora alegre e radiosa. Em cena foi sempre muito credível. É uma actriz que canta. É sempre um privilégio ouvir Joyce DiDonato.




A madrasta Madame de la Haltière foi interpretada pela mezzo norte-americana Stephanie Blythe. Foi outra grande interpretação. A figura da cantora ajuda e a voz é potente e com um registo grave assinalável.



Outra cantora de topo foi o mezzo-soprano britânico Alice Coote que interpretou o príncipe Charmant. Mais uma voz sensacional, em potência e beleza tímbrica. O papel é extenso e esteve sempre afinada e nunca perdeu qualidade. Cenicamente foi também muito boa.



Para completar o conjunto de vozes femininas superiores que se juntaram nesta produção falta referir a soprano sul-coreana Kathleen Kim que interpretou a Fada. A voz esteve sempre muito afinada, audível sobre a orquestra e recheada de notas agudas de qualidade. A coloratura foi também notável.



O barítono francês Laurent Naouri, que foi Pandolfe, pai de Lucette. É um cantor que nunca falha e oferece-nos sempre óptimas interpretações, cénicas e vocais. Tem um timbre muito bonito e é sempre muito expressivo e bem audível.



Os cantores secundários Ying Fang (Noémie), Maya Lahyani (Dorothée), David Leigh (mestre de cerimónias), Jeongcheol Cha (Primeiro Ministro) e Bradley Garvin (Rei) e actores estiveram bem, mas a noite foi das Senhoras que nos ofereceram interpretações inesquecíveis em todos os registos vocais.








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CENDRILLON, METropolitan Opera, May 2018

Cendrillon is an opera by Jules Massenet with libretto by Herni Cain based on the fairy tale Cendrillon (Cinderella) by Charles Perrault.

Once upon a time ... a fairy tale for the splendour of the female voices!

The story is well known. In this version Lucette (Cendrillon, Cinderella) lives with Pandolfe, his father who marriage for a second time with Madame de la Haltière, a terrible stepmother who has two daughters. All are preparing for a ball in the palace of Prince Charmant. Lucette's stepmother forbids her to go to the ball. A fairy appears and transforms her into an unrecognizable and beautiful young woman, but warns her that she should come back before midnight. At the ball the prince rejects all girls and falls immediately in love by Lucette. At midnight she disappears, but leaves a shoe behind. At home again, the stepmother describes the ball to Lucette. Too sad, she decides to escape to the forest to die there. The fairy appears again and in the forest she meets the prince and both sing their love. Her father finds her very sick, takes her home and tells her that while she slept, she spoke about a prince. Lucette thinks that all was a dream. The prince wants to find his beloved and calls all the girls who went to the ball to test the shoe. The stepmother is sure that one of her daughters will be chosen. The shoe does not fit any of the girls. Lucette appears with the fairy and is immediately recognized by the prince. The whole family is suddenly happy and greets the future queen.

Laurent Pelly’s production is excellent for the fairy tale. The scenario consists of panels where the story is written. They have many doors and move throughout the show giving us very different scenes of great visual effect, keeping the pages of history as a central element.
The costumes are very funny and overly quirky. All the female characters appear in red, with the exception of the maids (gray), the stepmother (initially purple), her two daughters (of pink and light green) and the Fairy (light blue). Lucette appears in gray but when transformed by the fairy, she becomes silvery-white. The men were in black suit, vest and white shirt, red socks, and bushy hair.

The musical director was the French conductor Bertrand de Billy.

Joyce DiDonato,  American mezzo-soprano, was an extraordinary Lucette (Cendrillon). The voice is of an unusual extent (also throughout the soprano territory), with beautiful tone and overwhelming power. I have often mentioned that I really appreciate DiDonato. I think vocally she manages to convey the different feelings of the character as few others. Here she was either sad and melancholic or happy and radiant. Artistically she was always very credible. She is a singing actress. It is always a privilege to see Joyce DiDonato.

The stepmother, Madame de la Haltière, was interpreted by American mezzo Stephanie Blythe. Another great performer. The figure of the singer helped and her voice is strong and with a fantastic low register.

Another top singer was British mezzo-soprano Alice Coote who played Prince Charmant. She was another sensational voice, both in power and beauty of timbre. The role is extensive and she has always been in tune and never lost quality. On stage she was also very good.

To complete the set of female top quality voices that joined in this production I need to mention South Korean soprano Kathleen Kim who played the Fairy. Her voice was always well tuned, audible over the orchestra and filled with high notes of quality. The coloratura was also remarkable.

French baritone Laurent Naouri, was Pandolfe, Lucette's father. He is a singer who never fails and always offers us great interpretations, scenic and vocal. He has a very beautiful tone and is always very expressive and well audible.

Supporting singers Ying Fang (Noémie), Maya Lahyani (Dorothée), David Leigh (master of ceremonies), Jeongcheol Cha (Prime Minister) and Bradley Garvin (King) and actors were fine, but the evening was of the Ladies who offered us unforgettable performances in all vocal records.

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