terça-feira, 6 de dezembro de 2016

MANON LESCAUT, Royal Opera House, Londres / London, Dezembro / December 2016


 (review in English below)
Manon Lescaut de G. Puccini esteve em cena na Royal Opera House de Londres em Dezembro de 2016.
A encenação de Jonathan Kent é das piores que vi até à data. Transporta a acção para o Sec. XX e os cenários são sempre muito feios. O primeiro acto é dominado por uma escada em caracol que dá acesso à estalagem que se percebe ser um bordel. No segundo a Manon é representada como uma prostituta mas o mau gosto de toda a cena, muito pirosa, impera. Não é nem ousada nem agressiva, apenas muito feia. No terceiro acto, o embarque das prostitutas deportadas para a América é substituído por um desfile com público, comentado por um apresentador e filmado por uma cadeia de televisão, sem qualquer mais valia cénica e sem se perceber para onde se dirigem. Finalmente, no último, em vez do deserto na Luisiana há um viaduto rodoviário degradado e elevado, no cimo do qual a Manon agoniza e morre e o Des Grieux desce e sobe sem qualquer objectivo ou sentido. Uma encenação para não voltar a ver!



A direcção musical, de qualidade superior, foi do maestro titular Antonio Pappano.



Sondra Radvanovsky, um dos melhores sopranos americanos da actualidade, foi uma excelente Manon. Tem uma voz poderosíssima, bem timbrada e usada na perfeição. A encenação não favorece nada a sua presença em palco, mas valeu pela interpretação vocal.



O Des Grieux foi interpretado pelo tenor italiano Massimo Giordano que, apesar da boa figura para a personagem, teve uma interpretação vocal irregular e banal, cumprindo sem empolgar.



Também tiveram interpretações vocais aceitáveis o Lescaut, irmão da Manon, interpretado pelo tenor húngaro Levente Molnár e o Geronte de Revoir pelo baixo-barítono americano Eric Halvarson.

Deixo para o fim o jovem tenor português Luís Gomes, que fez um Edmondo de grande qualidade. As primeiras notas foram algo tímidas mas soltou-se e ofereceu-nos uma interpretação sólida e muito expressiva, tanto na componente vocal como na cénica.



Mas, no computo final, diria que Puccini merecia muito melhor. As duas estrelas que atribuo (na escala mais exigente aplicada às grandes catedrais da ópera) são uma para a Radvanovsky e outra para o Luís Gomes, embora o Papanno e a Orquestra também tenham estado muito bem.







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MANON LESCAUT, Royal Opera House, London, December 2016

G. Puccini's Manon Lescaut was on stage at the Royal Opera House in London in December 2016.
Jonathan Kent's staging is one of the worst I have seen to date. He Ttransported the action to Sec. XX and the scenarios are always very ugly. The first act is dominated by a spiral staircase that gives access to the inn that is perceived to be a brothel. In the second act Manon is represented as a prostitute but the bad look of the whole scene, very pitiful, reigns. It is neither scandalous nor aggressive, just very ugly. In the third act, the entry of the prostitutes in a ship to be deported to America was replaced by a parade with public, commented by a presenter and filmed by a television chain, without any scenic surplus value and without the understanding of where they were headed. Finally, in the 4th act, instead of the Louisiana desert there was a dilapidated and elevated road viaduct, at the top of which Manon dies and the Des Grieux descends and rises without any purpose or meaning. A production not to see again!

The musical direction, of superior quality was by conductor Antonio Pappano.

Sondra Radvanovsky, one of the current best American sopranos, was an excellent Manon. She has a very powerful voice, nice timbre and used in perfection. The staging does not favor her presence on stage, but the vocal interpretation was worth.

Des Grieux was played by Italian tenor Massimo Giordano who, despite the good figure for the character, had an irregular and banal vocal interpretation. He was ok without being enthusiastic.

Also good vocal interpretations were Lescaut, brother of Manon, played by Hungarian tenor Levente Molnár and Geronte de Revoir by the American baritone Eric Halvarson.

I leave to the end the young Portuguese tenor Luís Gomes, who made an Edmondo of great quality. The first notes were somewhat timid but afterwords he offered us a solid and very expressive interpretation, both in the vocal component and in the scenic.

But in the end, I would say that Puccini deserved better. The two stars I assign (on the most demanding scale applied to the great opera cathedrals) are one for Radvanovsky and one for Luís Gomes, although the Papanno and the Orchestra have also been very good.


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

L’ITALIANA IN ALGERI, METropolitan Opera, Outubro / October 2016


 (review in English below)
L’Italiana in Algeri de G. Rossini esteve em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque, na “velha” encenação de Jean-Pierre Ponnelle.

A acção passa-se no início do Sec. XIX no norte de África. Mustafà quer oferecer a sua mulher Elvira em casamento a Lindoro, um italiano feito prisioneiro. Se aceitar, ganhará a liberdade e poderá regressar a Itália. Mustafà quer adicionar uma jovem italiana ao seu harém. Um barco italiano é atacado por piratas e, entre os sobreviventes, está Isabella, namorada de Lindoro. Os piratas acham que ela é a jovem ideal para Mustafà. Este tudo faz para conquistá-la mas, depois de uma série de peripécias, os italianos embarcam para Itália e Mustafà, enganado e arrependido, volta a receber Elvira como mulher. A encenação é convencional e datada mas muito engraçada, com numerosas situações de grande comicidade, tanto nos cenários como na actuação dos intervenientes.

O maestro James Levine dirigiu a Orquestra e os cantores o que é, por si só, uma garantia que o espectáculo será muito bom. E assim foi.

O baixo russo Ildar Abdrazakov foi um Mustafà de grande qualidade, cénica e vocal. Não tendo uma voz grande, é muito eficaz na forma como a projecta. O timbre é muito bonito e canta sempre em afinação total, sem nunca gritar. Tem uma excelente figura, o que tornou credíveis algumas cenas de conquista feminina, e foi muito cómico em vários momentos.



A mezzo italiana Marianna Pizzolato fez uma Isabella em grande estilo. Tem uma voz escura, agradável, relativamente pequena, mas bem projectada. Foi outra grande intérprete da noite.



A grande revelação para mim foi o jovem tenor norte americano René Barbera no papel de Lindoro. Cantou com grande convicção, tem um timbre bonito e revelou uma enorme facilidade nas notas agudas que foram abundantes e sempre impecavelmente cantadas. Um verdadeiro tenor rossiniano a seguir.



Nos papéis secundários estiveram cantores que não destoaram, a saber, Ying Fang como Elvira (mulher de Mustafà), Rihab Chaieb como Zulma (escrava de Elvira), Dwayne Croft como Haly (um pirata capitão) e Nicola Alaimo como Tadeo (companheiro de viagem de Isabella e seu pretendente).






Uma noite rossiniana em grande estilo.







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L'Italiana in Algeri, Metropolitan Opera, October 2016

L'Italiana in Algeri by G. Rossini was on stage at the Metropolitan Opera in New York, in the "old" production by Jean-Pierre Ponnelle.

The action is set at the beginning of Sec. XIX in North Africa. Mustafà wants to offer his wife Elvira in marriage to Lindoro, an Italian taken prisoner. If he accepts, he will gain freedom and can return to Italy. Mustafà wants to add a young Italian woman to his harem. An Italian ship is attacked by pirates, and among the survivors is Isabella, Lindoro's girlfriend. Pirates think she is ideal for Mustafà. Mustafà does everything to conquer her, but after a series of adventures, the Italian embark for Italy and Mustafà, deceived and repented, returns to receive Elvira as a wife. The staging is conventional and dated but very funny, with numerous comic situations in both scenarios and the performance of players.

Conductor James Levine directed the orchestra and singers which is, in itself, a guarantee that the show will be of quality. And so it was.

Russian bass Ildar Abdrazakov was a great Mustafà, scenic and vocal. Not having a great voice, he is very effective in the way he projects it. The tone is very beautiful and he always sings at full pitch, never screaming. He has an excellent figure, which made credible some scenes of female conquer, and was very humorous at various times.

Italian mezzo Marianna Pizzolato was an Isabella in style. She has a pleasant dark voice, relatively small but well projected. She was another great performer of the night.

The great revelation for me was the young North American tenor René Barbera in the role of Lindoro. He sang with great conviction, has a beautiful tone and revealed a huge facility in the high notes that were abundant and always impeccably sung. A true rossinian tenor to follow.

In secondary roles hw saw other good singers, namely Ying Fang as Elvira (Mustafà‘s wife), Rihab Chaieb as Zulma (Elvira’s slave), Dwayne Croft as Haly (a pirate captain) and Nicola Alaimo as Tadeo (travel companion of Isabella and her admirer).

A rossinian night in style.


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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

NORMA, Royal Opera House, Londres London, Setembro / September 2016


(texto in English below)

Foi com grande expectativa que assisti à nova produção da Norma de V. Bellini na Royal Opera House em Londres. É uma das óperas do belcanto que mais gosto e não saí defraudado.

A encenação de Àlex Ollé (La Fura dels Baus) é vistosa mas bizarra. Toda a acção decorre numa espécie de “templo”. O palco está rodeado, de crucifixos, mais de 1000 no total, assim permanecendo durante toda a ópera. Os druidas vestidos com trajos sugestivos de uma seita religiosa (por vezes fazendo lembrar o Ku Klux Klan) alternando com roupa contemporânea, e os romanos com fardas militares. 



A acção passa-se na actualidade, o que fica bem claro quando, no início do 2º acto, aparecem os filhos da Norma no quarto com uma televisão moderna e com brinquedos actuais, engenhosamente situado por baixo do “templo” onde decorre a restante acção. O momento de maior impacto visual acontece quando a Norma, numa plataforma elevada, canta a Casta diva, enquanto um enorme turíbulo oscila pelo palco espalhando incenso, momento possivelmente inspirado na catedral de Santiago de Compostela.



A direcção musical de Antonio Pappano foi muito boa, orquestra e coro ao mais alto nível.



A soprano búlgara Sonia Yontcheva (substituiu a Netrebko que estava inicialmente anunciada) foi uma Norma assombrosa. A voz é de uma beleza e pureza ímpares, transmitindo de forma muito expressiva todas as emoções da personagem. Sempre audível sobre a orquestra (e o Pappano bem podia ter reduzido o volume) foi insuperável. A melhor da noite e uma interpretação de referencia.



Sem ter uma voz suave como outros tenores de topo, Joseph Calleja foi um Pollione excelente. A voz é enorme, o timbre bem marcado e algo “caprino”, mas para o papel deste militar adequa-se bem. Como sempre, nada falha na interpretação e a emissão parece sem qualquer esforço.



A Adalgisa foi interpretada pela mezzo italiana Sonia Ganassi. Cumpriu sem destoar, teve uma interpretação muito boa, mas não esteve ao nível superlativo da Yoncheva.



Nos papéis secundários todos estiveram bem, Brindley Sherratt como Oroveso, Vlada Borovko como Clotilde e David Junghoon Kim como Flavio.

Vocalmente, uma excelente Norma, numa encenação vistosa mas algo bizarra.





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NORMA, Royal Opera House, London, September 2016

It was with great expectation that I attended the new production of V. Bellini's Norma at the Royal Opera House in London. It is one of my favourite belcanto operas and I was not defrauded.

The staging of Àlex Ollé (La Fura dels Baus) is fine but bizarre. All the action took place in a kind of "temple." The stage was surrounded by crucifixes, more than 1,000 in total, and remained so throughout the opera. Druids appeared dressed in costumes suggestive of a religious sect (sometimes reminiscent of the Ku Klux Klan) alternating with contemporary clothing, and the Romans in military uniforms. The action takes place in the present, which was clear when, at the beginning of the 2nd act, Norma’s children appeared in the bedroom with a modern TV and toys, ingeniously located under the "temple". The moment of greatest visual impact occurred when Norma, on a raised platform sang Casta diva, while a huge censer swinged the stage spreading incense, an action possibly inspired in the cathedral of Santiago de Compostela.

Musical direction of Antonio Pappano was very good, orchestra and choir were at the highest level.

Bulgarian soprano Sonia Yontcheva (who replaced Netrebko initially announced) was an amazing Norma. The voice is of a beauty and unique purity, transmitting very expressively all emotions. Always audible over the orchestra (and Pappano could well have reduced the volume) was unsurpassed. The best of the night and a reference performance.

Without a soft voice as other top tenors Joseph Calleja was an excellent Pollione. The voice is huge with a characteristic and peculiar timbre, but in the role of the militar is well suited. As always, nothing fails in his vocal interpretation and the singing always seems effortless.

Adalgisa was interpreted by Italian mezzo Sonia Ganassi. She had a very good interpretation, but was not to the superlative level of Yoncheva.

In supporting roles all were good, Brindley Sherratt as Oroveso, Vlada Borovko as Clotilde and David Junghoon Kim as Flavio.

Vocally an excellent Norma in a fine but bizarre staging.


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