quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

MAHLER - Casa da Música, Porto, 14.12.2014

Assisti no passado domingo, dia 14, a um concerto na Casa da Música, integrado no ciclo “Música para o Natal”.



O programa foi integralmente preenchido com a Sinfonia n.º 4 de Gustav Mahler e contou com a interpretação do maestro Christoph König à frente da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e da soprano cipriota Zoe Nicolaidou.

Composta entre Julho de 1899 e Agosto de 1800 em Maiernigg-am-Wörthersee, na Caríntia, onde Mahler havia mandado construir uma casa de Verão, a 4ª Sinfonia foi estreada a 25 de Novembro de 1901, em Munique, sob a regência do compositor, tendo alcançado pouco sucesso.

A 4ª Sinfonia marca uma ruptura com a evolução no sentido no gigantismo sinfónico que Mahler vinha trilhando. Em contraste com a anterior, a 4ª Sinfonia regressa à duração da Titã, aos quatro andamentos e a uma orquestração menos complexa, com supressão dos trombones, da tuba e do próprio coro, mantendo apenas a voz solista no 4º andamento.

A razão da escolha desta sinfonia para um programa de Natal foi desvendada por Mário Azevedo, a quem coube o comentário musical com que começou o concerto. Como referiu, a ideia desta sinfonia prende-se com a infância e a descoberta progressiva do mundo, com a entrada num Paraíso que é apenas entrevisto nos três primeiros andamentos e que é cantado no quarto pelo mais miraculoso instrumento musical: a voz humana.

No 4º andamento a soprano canta o poema “Das himmlische Leben” (A  vida celestial), extraído dos Knaben Wunderhorn, em que os prazeres bucólicos e gastronómicos dos Céus são descritos de forma entusiástica, tendo Mahler recomendado que fossem cantados com uma expressão alegre e infantil, completamente desprovida de paródia.


O maestro Christoph König concebeu uma interpretação bastante sóbria, sem excessos expressivos, embora salientando bem as variações dinâmicas e os diferentes ambientes sonoros criados por Mahler. As vozes interiores foram evidenciadas, mas sem se sobreporem ou criarem desequilíbrios. No 2º andamento faltou talvez um pouco de verve, mas o 3º andamento, para mim um dos mais belos de Mahler, foi muito bem conseguido. A sonoridade das cordas foi belíssima e a construção do crescendo até ao conflito central foi bastante eficaz.


A orquestra esteve sempre bastante bem, sem falhas que eu tenha notado e mantendo elevados padrões de acerto entre os diversos naipes. Destacaria a concertina, tocando os solos de violino desafinado com vigor, bem como o quarteto de trompas, em grande destaque. Penso que os naipes de cordas ganhariam se tivessem um maior número de instrumentistas, em especial nos graves, para ganhar alguma espessura.


Devido ao lugar onde estava sentado, no coro, a minha percepção da actuação da soprano ficou muito prejudicada, pois a voz era praticamente inaudível. Ficou apenas a sensação de um timbre claro e jovial e de uma boa integração no tecido orquestral.

Duas notas mais sobre outros aspectos do concerto.
Tratou-se de um concerto pelas 12:00, com um público bastante heterogéneo e com a presença de bastantes crianças e jovens, o que é de registar com bastante agrado. Naturalmente que tal implicou um nível acrescido de ruído e movimentações na sala, mas nada que tivesse perturbado a fruição da música. Todavia, verifiquei muitos adultos a entrar e sair da sala durante o concerto, o que já me pareceu pouco admissível.

Outra nota para o atraso no início do concerto, que foi de cerca de um quarto de hora. Parece-me pouco admissível, mesmo para um concerto com as características apontadas. A circunstância de só ser dado um sinal sonoro a chamar o público a menos de 5 minutos da hora marcada para o início do concerto, embora não justifique o atraso do público a tomar os seus lugares, também não ajuda.

Em suma, foi um excelente concerto de Natal e uma oportunidade para ouvir a belíssima 4ª Sinfonia de Mahler, numa sala de concertos de excepção.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Die Meistersinger von Nürnberg — MET Live in HD, Fundação Gulbenkian, Dezembro 2014

(Review in English below)

Ontem assisti à transmissão em directo do MET Live in HD da ópera Die Meistersinger von Nürnberg de Richard Wagner.


Trata-se de um drama musical (ou ópera) em 3 actos composto desde 1845 e só estreado na totalidade em 1868. A música e o libreto são, como não podia deixar de ser, da mesma pessoa: Richard Wagner. Mas esta ópera tem características diferentes das restantes óperas estreadas antes: desde logo é uma ópera cómica — fugindo à tradição (muito) séria de Tristão e Isolda ou do Anel de Nibelungo — e apresenta alterações da forma, regressando a uma forma operática mais clássica com árias, quintetos, etc.

A influência da filosofia de Schopenhauer é notória e personifica-se no homem de carácter nobre e na sua renúncia da vontade: Hans Sachs. A sua ária Wahn, Wahn, überall Wahn é como que um manifesto dessa filosofia.

Poderão ler uma sinopse no site do Metropolitan.

É uma ópera de grandes dimensões, tendo uma duração média de 4h30min de música contínua (com os intervalos são cerca de 6 horas), o que a torna difícil para principiantes. A maratona não é para todos e isso notou-se pelas desistências que foram deixando lugares vazios numa sala incialmente repleta. Mas desengane-se quem pense que foi por falta de qualidade.

A encenação é a já antiga de Otto Schenk. Como lhe é característico, a dimensão dos cenários é enorme, a atenção ao detalhe é inigualável e a narrativa que permite da história é de uma fluidez tremenda. Segue o texto de forma brilhante e só não se percebem mais pormenores porque o realizador da transmissão não atingiu o mesmo brilhantismo do encenador. Digo isto porque esses pormenores (por exemplo, quando Eva esconde propositadamente o véu na igreja para ganhar tempo para falar com Walther) são visíveis na realização de Brian Large do DVD de 2002, mas não na transmissão de ontem.


O primeiro acto passa-se numa igreja, onde decorre a celebração e, depois, a reunião dos Mestres Cantores.


O segundo acto, passa-se na rua que é uma enorme escadaria rodeada por edifícios baixos e onde Sachs trabalha ao ar-livre, martelando as solas dos sapatos de Beckmesser. No final transforma-se num enorme tumulto.


O terceiro acto decorre às portas de Nuremberga num terreno amplo onde foi montada uma estrutura para a festa. Há um pormenor interessante que mostra a riqueza do detalhe. Na muralha há uma bandeira que está sempre a esvoaçar: terá de haver uma ventoinha para que se crie o efeito.

É, pois, uma encenação muito interessante, vistosa e eficaz.


A Orquestra do MET foi dirigida pelo semideus do teatro: James Levine. O estatuto é merecido, diga-se. As suas interpretações de Wagner são muito famosas e não é por acaso. James Levine eleva a orquestra a níveis estratosféricos e Wagner, por certo, regozijar-se-á com uma interpretação tão viva, cuidada, clara nas linhas melódicas e coordenada. A interpretação foi magnética!

Também o Coro do MET teve uma performance de nível muito alto.

Relativamente aos cantores. Não vou nomear um a um a extensa lista dos cantores com papéis menos relevantes. Direi apenas que se apresentaram globalmente com um nível elevado, a fazer jus à qualidade que tornou o MET um palco de referência.


Tivemos a estreia de Paul Appleby em papéis mais relevantes. Trata-se de um tenor do programa de formação do MET que se apresentou evidenciando muita segurança no seu curto papel, mas relevante e muito belo. A voz é viva e límpida, a técnica segura e Appleby esteve interpretativamente muito bem. Cenicamente foi muito empenhado, mostrando-se um David de muita categoria. Tal como Polenzani que também fez este papel e é um tenor da alta roda, Appleby poderá ter um futuro interessante como intérprete solista internacional. A sua amada Magdalena foi interpretada pelo meio-soprano Karen Cargil que esteve, igualmente, em evidência pela formas vocal e cénica que apresentou.


O Pogner do baixo Hans-Peter König foi imenso. O cantor tem uma das vozes mais bonitas no seu registo, a amplitude vocal é incrível e a facilidade com que canta e interpreta fazem deles um cantor de topo. Acresce que a sua figura — alta, bonacheirona e já a denotar a idade — o fazem perfeito para o papel. Não se pode pôr um jovem a cantar este papel: em 2002, René Pape era o pai de Karita Matilla...


Johannes Martin Kränzle interpretou Sixtus Beckmesser de forma interessante. Vocalmente esteve bem, mas foi cenicamente que se destacou pela comicidade que deu à personagem (excelente 3.º acto!) e que o tornaram motivo da chacota do povo.


A Eva de Annette Dasch tem uma excelente figura para o papel e interpretou com harmonia, jovialidade e leveza esta personagem wagneriana. O timbre da sua voz é bonito e o fraseado elegante. Foi (talvez) aqui e acolá um pouco mais estridente nos agudos, mas foi uma Eva de qualidade.


Johan Botha é um heldentenor por excelência e, como tal, fez um Walther von Stolzing de qualidade vocal superlativa. A facilidade com que lhe saem aqueles agudos rápidos e pontudos de Wagner é incrível e a sua voz é muito bonita. Que pena que tenha tanto peso: é um «barril»! [desculpem-me a comparação]. Isso dificulta-lhe muito a teatralidade e limita-o bastante. Torna uma aberração quando Eva o compara a David — o baixinho e magro David que matou o gigante e musculado Golias. Mas, paradoxos à parte, é um tenor incrível, um dos melhores intérpretes de Wagner da actualidade e deu-me imenso prazer ouvi-lo!


Propositadamente, deixo Michael Volle para o fim. Curvemo-nos perante o Hans Sachs deste barítono. Que interpretação de luxo: valeu-lhe um enorme triunfo no MET, mas de todo merecido. É difícil encontrar palavras para descrever a sua performance. Se vocalmente esteve muitíssimo bem e tem uma voz lindíssima, cenicamente foi um assombro. Humanizou a personagem Sachs de um modo soberbo, mostrando as suas angústias, paixões, irritações, preocupações e sabedoria. Confesso que adoro a postura mais contida e patriarcal de James Morris neste papel, mas esta de Volle contrasta pela adoção de um estilo mais terreno e provável. É por cantores como ele que a ópera é uma arte viva e que se prendem audiências. Que privilégio para quem lá esteve!

Esta récita dos Mestres Cantores de Nuremberga foi um espectáculo memorável. A sensação de magnetismo e vibração estética não se explica, mas sente-se. E isso é o que distingue um bom de um excelente espectáculo.

Nesta ligação ficam, ainda, alguns vídeos que o site do MET disponibiliza.

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(Review in English)

Yesterday, I attended to Richard Wagner's Die Meistersinger von Nürnberg broadcast of the MET Live in HD series.

It is a musical drama (or opera) in three acts composed since 1845 and only premiered in its entirety in 1868. The music and libretto are, as it could not be, of the same person: Richard Wagner. But this opera has characteristics different from other operas released before, it certainly is a comic opera - evading traditionally (very) serious operas as Tristan and Isolde, or the Ring of the Nibelung - and presents changes in the form, returning to a more classic operatic form with arias, quintets, etc.

The influence of Schopenhauer's philosophy is notorious and embodies on the noble nature of man and his renunciation of the will: Hans Sachs. His aria Wahn, Wahn, Wahn überall is like a manifesto of this philosophy.

You can read a synopsis in the Metropolitan site.

It is an large opera, with an average of 4h30min of continuous music (with the intervals is about 6 hours), which makes it difficult for beginners. The marathon is not for everyone and it was noted by the withdrawals which were leaving empty seats in a room filled initially. But it was not because tof poor quality. Not at all.

The staging is already old from Otto Schenk. As is characteristic of him, the size of the scenarios is huge, attention to detail is second to none and the narrative that allows the story is of tremendous fluidity. Follows the text brilliantly and just do not realize further details because the director of the transmission did not reach the same brilliance of stage director. I say this because these details (for example, when Eva purposely hides the veil in the church to make time to speak to Walther) are visible in the accomplishment of Brian Large in the 2002 DVD release of the same opera.

The first act takes place in a church, where celebration and then the meeting of the Meistersinger occur.

The second act takes place in the street which is a huge staircase surrounded by low buildings and where Sachs is working in open-air, hammering the soles of Beckmesser' shoes. . At the end it becomes a huge uproar.

The third act takes place at the gates of Nuremberg on a large terrain in which was set up a structure for the party. There is an interesting detail that shows the richness of details. In the wall there is a flag that is always fluttering: there must be a fan in order to create the effect.

It is therefore a very interesting staging, showy and effective.

The MET Orchestra was directed by the theater demigod: James Levine. The status is deserved, I must say. His interpretations of Wagner are very famous and it is no coincidence. James Levine brings the orchestra to stratospheric levels and Wagner, of course, shall rejoice with an interpretation so alive, careful, clear in the melodic lines and so coordinated . The interpretation was magnetic!

The MET Chorus had also an excellent performance.

Regarding singers. I will not nominate one by one the long list of singers with less relevant roles. I will just say that broadly presented with a high level, to do justice to the quality that has made MET a reference stage.

We had the debut of Paul Appleby in more important roles. He is a tenor of the MET training program that presented himself showing great confidence in his short role but relevant and beautiful. The voice is lively and clear, safe technique and was interpretively well. Scenically he was very committed, showing us a David of enormous category. As Polenzani, Appleby could have an interesting future as an international soloist. Your beloved Magdalena was performed by the mezzo-soprano Karen Cargill which was also highlighted by the vocal and scenic form she presented.

The bass Hans-Peter König was immense as Pogner. The singer has one of the most beautiful voices in the bass registry, the vocal range is amazing and the ease with which he sings and plays make him a top singer. Moreover, his figure - tall and warmfully kind already denoting he is agging - make him perfect for the role. You can not put a young man in this paper.

Johannes Martin Kränzle played Sixtus Beckmesser in an interesting way. Vocally he was fine, but it was by his scenic skills that he highlight himself proving to be very comic turning him the reason for everyone laughing.

Annette Dasch has an excellent figure for the role of Eva that she performed with harmony, playfulness and lightness . The timbre of her voice is beautiful and elegant phrasing. She was (perhaps) here and there a bit more strident in acute, but it was an Eva of great quality.

Johan Botha is a heldentenor par excellence As such, he made a Walther von Stolzing of superlative voice quality. The ease as he leave those quick and sharp wagnerian trebles is amazing and his voice is very beautiful. Too bad he has so much weight: he is a barrel! This makes it difficult theatricality limited him too much. It becomes an aberration when Eva compares Walther to David - the short and skinny David that kill the musculous giant Goliath. But paradoxes aside, he's an amazing tenor, one of the best Wagner interpreters of our time and gave me great pleasure to he him!

Purposely I let Michael Volle to the end. Let us bow before the Hans Sachs of the baritone. What luxury interpretation: he earned  a huge triumph at the MET, but all deserved. It's hard to find words to describe his performance. If vocally he was extremely well and has a beautiful voice, scenically he was a wonder. He humanized Sachs character in a superb way, showing his troubles, irritatability, concerns and wisdom. I confess I love the more restrained posture and patriarchal attitude of James Morris in this role, but this contrasts by the adoption of a more grounded and probable style. It is for singers like him that opera is a living art and people adhere massively to the halls . What a privilege for those who were there!

This recitation of the Master Singers of Nuremberg was a memorable show. The feeling of magnetism and aesthetic vibration can not be explained, but only felt. And that is what distinguishes a good from an excellent show.

sábado, 13 de dezembro de 2014

AS BODAS DE FÍGARO no Theatro São Pedro e a melhor semana para os amantes de opera



 O Theatro São Pedro fecha sua temporada 2014 com uma ópera clássica, As Bodas de Fígaro de Mozart, título que é certeza de casa cheia. Das seis récitas programadas uma delas fica a cargo dos alunos da Academia de Ópera do Theatro São Pedro, uma oportunidade única deles colocarem na prática o que aprenderam durante o ano.

Afirmo que a maioria dos alunos não fez feio, muito pelo contrário, Camila Titinger fez uma Condessa de Almaviva com bela voz e venceu as deficiências cênicas passadas. Roseane Soares foi outro destaque, voz lírica, jovial e um belo timbre. Interpretou uma Susanna com grandes atributos cênicos. André Rabello apresentou uma voz com bons graves e deu comicidade ao personagem Fígaro. Johnny França fez um bom Conte de Almaviva. O único destaque negativo é o Cherubino de Angélica Menezes, voz inconsistente em um timbre frio e sem graça.

(Foto Décio Figueiredo)

A direção de Lívia Sabag é inteligente e dinâmica e não cai nas armadilhas da transposição temporal. Esbanja em criatividade e na movimentação correta dos artistas. Os cenários de Nicolàs Boni são simples e adequados com painéis que levam o espectador ao período que se passa a ópera. Os figurinos de Fábio Namatame seguem a linha de acertos e a luz de Wagner Pinto acrescenta qualidade as cenas.
   
A Orquestra do Theatro São Pedro nas mão de Luiz Fernando Malheiro mostrou-se preparada para a empreitada. Regência segura com sonoridade correta e equilibrada. Orquestra do Theatro São Pedro se mostra preparada para aventuras maiores e nas mãos do competente Malheiro só tem a evoluir.

(Foto Décio Figueiredo)

Os destaques em uma ópera repleta de solistas foram as mulheres. Luísa Francesconi fez um Cherubino com voz única, um timbre agradável e uma atuação cênica primorosa. Todos os personagens que o mezzo-soprano canta são de alto nível e esse foi mais um deles. Não conhecia a voz de Carla Cottini e de fato a moça impressionou pelo lirismo e pela doçura vocal. Um timbre leve, voz clara e ágil e uma atuação cênica de tirar o chapéu. Essas são as melhores palavras que definem o jovem soprano.    

Rodrigo Esteves fez um Figaro a altura do personagem, engraçado e com voz melódica e potente. Rosana Lamosa emprestou brilho a Condessa com voz de excelente fraseado e cor. Homero Velho é um barítono com voz sólida, seu Conde de Almaviva foi um luxo.
   
Ópera com excelentes vozes nacionais, direção cênica impecável e uma orquestra correta, o que o público paulistano pode desejar mais. Coroa a melhor semana do ano para os amantes da música clássica e ópera. No período de 7 dias tivemos As Bodas de Figaro no Theatro São Pedro, A Danação de Fausto de Berlioz pela OSESP, Madama Butterfley de Puccini no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a Tosca de Puccini no Theatro Municipal de São Paulo e a Gala da São Paulo Cia de Dança. 

Ali Hassan Ayache

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

FIDELIO, Teatro alla Scala, Milão, Dezembro de 2014 / Milan, December 2014



(in English below)

 Tivemos a oportunidade de assistir à transmissão em directo, no cinema, da récita de abertura da presente temporada do Teatro Scala de Milão – a ópera Fidelio de Beethoven.

A encenação, clássica e de bom impacto visual, foi de Deborah Warner. Toda a acção foi passada na prisão e seus calabouços, numa abordagem convencional e bem conseguida.

(Fotografia  Brescia-Armisano)

A Orquestra e Coro do Teatro Scala foram magistralmente dirigidos pelo maestro Daniel Barenboim. E foi uma récita de luxo também no que aos cantores respeita.

(Fotografia  Brescia-Armisano)

Fidelio / Leonora foi magistralmente interpretado pelo soprano alemão Anja Kampe. É uma cantora que muito gosto, apresenta-se sempre ao mais alto nível e assim aconteceu mais uma vez. Tem uma voz potentíssima, bonita e expressiva, e representa como poucos. Foi extraordinária.

(Fotografia  Brescia-Armisano)

(Fotografia  Brescia-Armisano)

O tenor alemão Klaus Florian Vogt, com o seu característico timbre muito claro, fez um Florestan convincente e, mais uma vez, em grande forma.

(Fotografia  Brescia-Armisano)

O baixo sul-coreano Kwangchul Youn foi um Rocco insuperável. À beleza de timbre que lhe é característica, juntou um desempenho muito expressivo e generoso, dando grande generosidade à personagem do carcereiro que, frequentemente, não se vê.

(Fotografia  Brescia-Armisano)

O baixo-barítono alemão Falk Struckmann foi um Don Pizarro malvado e insensível, também com uma interpretação vocal excelente.

(Fotografia  Brescia-Armisano)

O barítono sueco Peter Mattei impôs-se como Don Fernando. Apesar do papel ser pequeno, não deixou de impressionar com a sua interpretação marcante.

E deixei para o fim os dois mais jovens e excepcionais intérpretes: Florian Hoffmann, tenor alemão, foi um magnífico Jaquino, sempre inconformado com o amor não correspondido. A voz é expressiva e de grande beleza, e o cantor teve uma interpretação cénica insuperável.

Mojca Erdmann, soprano alemão, trouxe toda a frescura e ingenuidade que o papel da Marzelline exige, numa interpretação cénica e vocal absolutamente irrepreensível.

                                       (Fotografia  Brescia-Armisano)


Um Fidelio superlativo na abertura da temporada do Scala!

 (http://www.repubblica.it/spettacoli/teatro-danza/2014/12/07/news/teatro_alla_scala_fidelio-102366284/)

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FIDELIO, Teatro alla Scala, Milan, December 2014

 We had the opportunity to attend the live broadcast of the opening performance of this season at Teatro alla Scala, Milan - Beethoven's opera Fidelio.

The staging, classic and with good visual impact, was by Deborah Warner. All the action was spent in prison and his dungeons, a conventional and well done approach.

The Orchestra and Chorus of La Scala Theatre were under a fantastic direction by Maestro Daniel Barenboim. And it was a luxury performance also with respect to the singers.

Fidelio / Leonora was masterfully interpreted by the German soprano Anja Kampe. She's a singer that I appreciate, always presents herself at the highest level and so it happened again. She has a very powerful, beautiful, and expressive voice, like few others. She was extraordinary.

German tenor Klaus Florian Vogt, with his characteristic very light tone, was a convincing Florestan and, again, at his best.

Korean bass Kwangchul Youn was an unsurpassed Rocco. To his the characteristic beauty of timbre he joined a very expressive and generous performance, giving great generosity to the jailer's character who often we do not see.

German bass-baritone Falk Struckmann was a mean and insensitive Don Pizarro, also with a great vocal performance.

Swedish baritone Peter Mattei was Don Fernando. Although the role is small, he impressed with his striking interpretation.

And I left the end the two youngest and exceptional singers: Florian Hoffmann, German tenor, was a magnificent Jaquino, always sad about his unrequited love. The voice is expressive and of great beauty, and the singer had an unsurpassed stage interpretation.

Mojca Erdmann, German soprano, brought all the freshness and ingenuity that the role of Marzelline requires, a scenic and vocal absolutely impeccable performance.

A superlative Fidelio to open the season at La Scala!


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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

TOSCA, Theatro Municipal de São Paulo, Dezembro de 2014

PUBLICO VAIA EQUIPE DE CRIAÇÃO DA TOSCA DE PUCCINI. Críticade Ali Hassan Ayache no blog de Ópera e Ballet



Tosca de Puccini encerra a temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo de 2014, a ópera manteve o padrão do programa "Mais Cantores" instituído pelo teatro paulistano (http://operaeballet.blogspot.com.br/2014/04/programa-mais-cantores-do-teatro.html) com uma penca de estrangeiros cantando e dirigindo. A direção cênica esteve a cargo do italiano Marco Gandini, não me comove em nada ele ter sido assistente do afamado diretor de óperas Franco Zeffirelli. Na Tosca ele pisou na bola em diversos quesitos. Seu maior pecado foi ter transportado a ação para a década de 1970 em meio a uma ditadura militar. O problema é que o libreto não permite essas aventuras já que nele constam fatos históricos do século XIX e a confusão está instaurada.

O primeiro ato representa uma catedral moderna em concreto com duas estátuas fantasmas ou sei lá o que é aquilo no centro. Parece uma assombração, cruz credo! Os atores se movimentam com dinâmica e conseguem dar sustentação ao enredo. O segundo ato utiliza dois níveis ao fundo do palco, no primeiro ficam os torturadores, cena escura demais e quase invisível, aconselho o público a levar óculos para visão noturna. Na parte de cima se passa a ação, quando se abre a porta para ouvir o canto de Tosca uma luz florescente está bem de frente para a plateia ofuscando a visão, recomendo que o público leve um óculos escuros. Colocar a ação no alto e no fundo acabou com a acústica e as vozes foram prejudicadas. O terceiro ato mostrou uma limpeza cênica com exceção de um monumento artístico com anjos. Bonito pra caramba e inútil em um local recheado de milicos fuzilando condenados e heroínas se atirando das alturas.




 Marco Gandini mostrou-se perdido na direção cênica, a transposição temporal não funcionou pelo libreto histórico e os cenários de Italo Grassi prejudicaram ainda mais seu trabalho. Os figurinos de Simona Morresi estiveram corretos com a ideia da direção embora tenha transformado Tosca em uma pirigete dos anos 70, aquela que adora aparecer com cores berrantes e frequenta o Shopping Light. A luz de Virginio Levrio foi a salvação com sombras e cores que ajudam a narrar os acontecimentos. Parte do público vaiou a equipe de criação na estreia, sinal de maturidade, a galera não aceita mais invencionices exageradas nas montagens.

Outro que diziam que era um figurão e que também não me comoveu é o regente Oleg Caetani, filho do também regente Igor Markevitch. Exagerou no volume e colocou sua orquestra acima de tudo. A opção por tempos lentos em diversos momentos realça a música de Puccini, regeu uma ópera como se fosse um concerto de Mahler ou de Strauss. Faltou a delicadeza e a sensibilidade operística em sua leitura. O Theatro Municipal de São Paulo possuí um excelente órgão Tamburini que não está sendo utilizado, dizem que está quebrado. Será que é tão difícil concertar o Tamburini? Enquanto isso não acontece usa-se um órgão elétrico de churrascaria.  

Os solistas foram soberbos, Marcelo Alvarez é tenor top e sua voz está entre as mais belas da atualidade. Agudos brilhantes em uma voz de coloridos únicos que beiram a perfeição. Ainhoa Arteta fez uma Tosca com voz densa e escura, um timbre ideal para a personagem e uma atuação cênica comovente. O Scarpia de Roberto Frontali exibiu um timbre de barítono clássico com os graves volumosos e cheios. Voz que realça a excelente atuação cênica: sádico, dominador e sacana são atributos de um bom Scarpia e Frontali consegue com naturalidade. Saulo Javan, um dos raros brasileiros, mostrou como sempre voz segura e uma interpretação muito engraçada do sacristão.

O personagem Spoleta de Luca Casalin e Angelotti cantado por Massimiliano Catellani fizeram o básico. Repito mais uma vez, papéis pequenos podem ser cantados por solistas nacionais ou por membros do Coro Lírico Municipal. Não existe a necessidade de trazer gente de fora. Infelizmente a direção do Theatro Municipal de São Paulo representada pelo diretor John Neschling insiste em não prestigiar os cantores nacionais ou os da casa. Muitos solistas renomados e que fazem carreira pelos teatros do Brasil estão entrando no Coro Lírico Municipal para garantir o salário mensal, mais um motivo para usar membros do coro. 

O programa vendido ao público teve um aumento injustificável de 100%. Os antes R$ 5,00 passaram para R$ 10,00 sem qualquer motivo aparente. Falando em programa a capa dele é de um mal gosto tremendo, elaborada por Kiko Farkas e segundo o diretor da casa "é mais uma obra prima", "arquitetura moderna dos anos 70" ou "um dos cartazes mais bonitos da nossa já alentada coleção de obras primas". Mais uma vez tenho que discordar de você Joninho, o que vejo é uma capa sem graça e quem não conhece o título não consegue decifrá-lo. 


Ali Hassan Ayache