sexta-feira, 22 de junho de 2018

LOHENGRIN, Royal Opera House, Londres / London, Junho /June 2018


(review in English below)


O que se passou hoje aqui na Royal Opera House, Covent Garden, é indescritível (!!!) mas eu vou tentar: esta foi decididamente a MAIOR noite wagneriana da minha vida em Covent Garden e em qualquer outro lugar até ao momento! E acho que não peco se a considerar a melhor noite de Ópera da minha vida! A perfeição operática é rara mas existe e aflora-se em grande plano na nossa casa mãe, a ROH!



Tenho de realçar fortissimamente a jovem que substituiu a Opolais - Jennifer Davis - porque é a que de todos ainda não tem estatuto - é “um anjo na terra”, é a Elsa perfeita! Todos os outros estiveram acima do estatuto wagneriano que já tem!



A direção de Andris Nelsons é absolutamente genial - tudo o que saiu deste fosso foi estratosfericamente brutal -  o prelúdio: celestial, a alteração de pace que faz nas áreas de maior importância dramática e para realçar a beleza da linha melódica, por exemplo, no 2º acto, no final do dueto da Elsa e Ortrud! Mas não só... o final do 2º acto foi avassalador. E quando a orquestra se cala em “unisilêncio” e se houve só o órgão, sem um único pio do público, foi de arrepiar!!! É incomparável o sentido dramático que este homem tem! Surreal! E de pensar que deixou a produção do Parsifal em Bayreuth porque o Thielemann não o deixava fazer as coisas como ele queria... 

Na encenação está lá tudo, embora deslocada temporalmente. Na sua fidelidade ao texto e concepção, cor e dinâmica, reside a sua perfeição!

O Klaus Florian Vogt, o melhor papel que faz e que se adapta à sua maneira de cantar “menino de coro” é o Lohengrin. Gostei muito dele. Já o tinha ouvido no papel mas hoje, neste conjunto global perfeito, foi ainda mais fantástico.




O Thomas J. Mayer teve um ataque de tosse alérgica durante um dos períodos que estava em palco mas sempre que cantou esteve genial. Antes do 2º acto veio um da ROH pedir desculpas em nome dele mas que ia continuar em palco. E esteve perfeito! “Desculpas” só por ter cantado e interpretado tão bem que quase me dava um enfarte :)




A Christine Goerke foi uma Ortrud cínica e também com excelente desempenho vocal.



Isto é um Lohengrin que vai ficar na História da Royal Opera House e na História da Ópera para sempre! E cravado nas minhas memórias e no meu coração além da vida!




Texto de wagner_fanatic


LOHENGRIN, Royal Opera House, London, June 2018

What happened today at the Royal Opera House, Covent Garden, is indescribable (!!!) but I'll try to describe: this was decidedly the GREATEST Wagnerian night of my life in Covent Garden and anywhere else so far! And I think I do not fail if I consider it the best opera night of my life! The operatic perfection is rare but it exists and comes out in great detail in our mother house, the ROH!

I must emphasize very strongly the young lady who replaced Opolais - Jennifer Davis - because she is the one that does not yet have status – she is "an angel on earth", the perfect Elsa! All others were above the Wagnerian status they already have!

The musical direction of Andris Nelsons is absolutely brilliant - everything that came out of this pit was brutal - the celestial prelude, the alteration of pace that makes in the areas of greater dramatic importance and to enhance the beauty of the melodic line, for example, in the 2nd act, at the end of the duet of Elsa and Ortrud! But not only ... the end of the 2nd act was overwhelming. And when the orchestra is silent and if there was only the organ, without a single sound from the audience, it was a shiver!!! It is incomparable the dramatic sense that this man has! Surreal! And to think that he left the production of Parsifal in Bayreuth because Thielemann would not let him do things as he wanted...

In the staging is everything there, although temporarily displaced. In its fidelity to the text and conception, color and dynamics, lies its perfection!

Klaus Florian Vogt, the best role he plays is Lohengrin that adapts to his way of singing as a "chorus boy". I really liked him. I had heard him on the role but today, in this perfect global set, he was even more fantastic.

Thomas J. Mayer had an attack of allergic cough during one of the periods he was on stage but every time he sang he was great. Before the 2nd act came someone from ROH to apologize in his name but he was going to continue on stage. And he was perfect! "Excuses" just for having sung and interpreted so well that I almost had a heart attack :)

Christine Goerke was a cynical Ortrud and also with excellent vocal performance.

This is a Lohengrin that will stay in the History of the Royal Opera House and in the History of the Opera forever! And stuck in my memories and in my heart beyond life!

Text by wagner_fanatic

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O CAVALEIRO DA ROSA, Theatro Municipal de São Paulo, Junho 2018


A CAFONICE DECADENTE DO CAVALEIRO DA ROSA NO THEATRO MUNICIPAL DE SP. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

 
Foto, cena da ópera "O Cavaleiro da Rosa", fonte facebbok. Foto de Fabiana Stig

Richard Strauss já tinha composto "Salome" e "Elektra quando em 1911 lança uma ópera de estilo completamente diferente, para não dizer antagônico ao que vinha compondo. Dois sucessos recheados de drama e tensão com histórias chocantes, marcantes e personagens vorazes, é substituído pela ópera "O Cavaleiro da Rosa" onde aparecem nobres assediadores querendo dotes polpudos. Valsas vienenses desfilam com carinho nos ouvidos (estas nem existiam na época que a história é ambientada) e inspiração mozartiana são características inerentes da ópera. 

   Raras vezes é montada no Brasil, tive a chance de ouvi-la em forma de concerto pela OSESP em 2009. Alguns musicólogos veem similaridades entre a opereta "O Morcego" de Johann Strauss e "O Cavaleiro da Rosa" de Richard Strauss. O sobrenome pode ser igual, o parentesco é nenhum. Similaridades entre as duas estão no fato de serem cômicas e vienenses. A música de Richard é de uma riqueza absurda, contrastes entre o dramático, o cômico e melancólico aparecem a todo instante. Enquanto a opereta de Johann tem melodias que grudam na memória e nada mais. 

    A segunda produção do ano no Theatro Municipal de São Paulo teve vozes que compensaram às quatro horas na casa. Luisa Francesconi como sempre soberba como Octavian. A Marechala de Carla Filipcic Holm tem voz poderosa e compatível com o canto de Strauss, o baixo Dirk Aleschus não atinge as notas mais graves, apresentação caracterizada pela atuação cênica eficaz como Barão Ochs. Grande destaque é a voz de Elena Gorshunova, soprano de grandes qualidades vocais. 

   Pablo Maritano opta pelo caricato, pelo toque de humor a costumes de uma sociedade que se imagina nobre e esta em fase final de existência. Acerta ao narrar com clareza os diversos encontros e desencontros e aproximar o título a uma opereta. A transposição de época não afeta o resultado, o século XVIII vira início do século XX na montagem. O cenário de Italo Grassi vai do simples no primeiro ato a cafonice decadente do segundo e terceiro. 

   O exagero do dourado simboliza perfeitamente essa característica. Uma verdadeira crítica as elites tupiniquins. Os cavaleiros na "Apresentação da Rosa" mais parecem os Dragões da Independência. Os figurinos de Fabio Namatame acompanharam a ideia e a luz de Caetano Vilela fica torta, sombras por todos os lados e algumas penumbras que transmitem a ideia de decadência social.

   A Orquestra Sinfônica Municipal regida por Roberto Minczuk manteve bom nível do início ao fim da récita. Quem imagina que o regente só é chegado a concertos começa a ver um Minczuk conhecedor da linguagem operística. Segurou a orquestra nos três atos em excelente nível técnico, valsas de sonoridade leve e clara em uma orquestra enorme exigida pela partitura.

Ali Hassan Ayache 
Extra-campo: 
-Preço do programa R$ 35,00, um absurdo de caro. 
-A galera adora tirar fotos e fazer filmagens quando isso é permitido durante um pequeno trecho da ópera, boa sacada iniciada na gestão Cleber Papa.
-O público foi diminuindo conforme os intervalos iam chegando. Ópera longa é para poucos nos tempos onde o mais importante é o celular e as redes sociais.
- É o fim dos tempos um colega crítico de ópera ficar mendigando um programa para a produção.



sábado, 16 de junho de 2018

LA TRAVIATA – Teatro de São Carlos, Lisboa / Lisbon, Junho / June 2018




(review in English below)


A opera La Traviata de Verdi encerrou a temporada do Teatro de São Carlos em Lisboa. Felizmente que se abandonou a concretização da nova produção (ao que se soube a Violeta seria um travesti com SIDA!) e se recuperou a encenação de Pier Luigi Pizzi, clássica, digna e que cumpre perfeitamente. Foi talvez a melhor encenação da temporada.

Já muito foi escrito neste espaço sobre esta ópera pelo que farei apenas um pequeno apontamento sobre os cantores e o público.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

A soprano russa Ekaterina Bakanova foi uma Violeta de excelente qualidade, muito acima dos restantes cantores e do melhor que se tem ouvido em São Carlos nos últimos tempos. Voz bonita, potente, sempre bem colocada e coloratura eficaz. A cantora tem uma figura que ajuda muito no papel, é alta e magra, embora no último acto mais parecia que estava a morrer com uma peritonite do que com tuberculose pulmonar (mas a culpa não foi dela). Esteve sempre bem, mas no 2º acto foi fabulosa!

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

O Alfredo foi o jovem tenor português Luís Gomes. O timbre vocal não é bonito, a figura também não ajuda, mas conseguiu cumprir com dignidade este grande papel, que será um marco na sua carreira.

O barítono britânico Alan Opie não esteve bem. Foi irregular na emissão, parecia perder o controlo vocal com frequência, a voz foi excessivamente nasalada e, ocasionalmente, tinha muito “grão”.

Dos cantores secundários, destacaria a boa prestação de Carolina Figueiredo como Annina. Os restantes cumpriram sem deslumbrar,  João Merino como Marquês d’Obigny, João Oliveira como Dr. Grenvil e Joana Seara como Flora. Mário Redondo como Barão Douphol e João Cipriano como Gastone foram os mais apagados.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

Uma nota final para o público, pelo menos no local onde estive. Para além das tosses contínuas, uma mulher sentada atrás de mim teve o telemóvel a vibrar durante grande parte do 2º Acto. Apesar de estar no silêncio, ouvia-se perfeitamente a vibração e ela nada fez, ou melhor, logo depois resolveu desembrulhar demoradamente um rebuçado, perturbando a audição de algumas das partes mais dramáticas da ópera. 
Tivemos ainda como surpresa adicional o maestro Michele Gamba a trautear a área Addio, del passato enquanto a Bakanova a cantava!
Não há paciência!!

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LA TRAVIATA - Teatro de São Carlos, Lisbon, June 2018

Verdi's opera La Traviata closed the São Carlos Theater season in Lisbon. Fortunately, the new production announced was abandoned (in which Violeta was known to be a transvestite with AIDS!) and recovered the production by Pier Luigi Pizzi, classic, dignified and that perfectly fulfils the staging of the opera. It was perhaps the best staging of the season.

Much has already been written in this blog about this opera so I will only make a small note about the singers and the audience.

Russian soprano Ekaterina Bakanova was a Violet of excellent quality, far above the other singers and the best that has been heard in São Carlos in recent times. Beautiful powerful voice, always well tuned and effective coloratura. The singer has a figure who helps a lot in the role, she is tall and lean, although in the last act more seemed to be dying with a peritonitis than with pulmonary tuberculosis (but it was not her fault). She was always good, but in the 2nd act she was fabulous!

Alfredo was the young Portuguese tenor Luís Gomes. The vocal tone is not beautiful, the figure also does not help, but he managed to perform with dignity this big role, which will be a milestone in his career.

British baritone Alan Opie was not well. He was irregular in the vocal emission, seemed to lose vocal control frequently, the voice was excessively nasal and occasionally had much "grain".

Of the secondary singers, I would emphasize the good performance of Carolina Figueiredo as Annina. The rest performed without being dazzled, João Merino as Marquis d'Obigny, João Oliveira as Dr. Grenvil and Joana Seara as Flora. Mário Redondo as Baron Douphol and João Cipriano as Gastone were the most discreet.

A final note about the public, at least where I've been. In addition to the continuous coughs, a woman sitting behind me had the cell phone vibrate during much of the 2nd Act. Despite being in the silence, the vibration was heard perfectly, and she did nothing, or rather, she soon resolved to slowly unwrap a candy, disturbing the hearing of some of the most dramatic parts of the opera. We also had as an additional surprise maestro Michele Gamba treading the area Addio, del passato while Bakanova was singing!
There is no more patience !!

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domingo, 10 de junho de 2018

TOSCA, METropolitan Opera, New York, Maio / May 2018



 (review in English below)

A ópera Tosca é uma das minhas favoritas de G. Puccini e, mais uma vez, tive oportunidade de a ver e de assistir a um espectáculo de qualidade superior, desta vez na Metropolitan Opera de Nova Iorque.



A encenação de David McVicar é espectacular, com cenários sumptuosos, muito respeitadora da obra de Puccini. Um regalo também para os olhos. Veio substituir a anterior de Luc Bondy que teve vida curta porque era muito feia e, por estas partes, o eurotrash não é bem acolhido.



O maestro Bertrand de Billy foi excelente na direcção musical. Tempos correctos, muita emotividade na música e total respeito pelos cantores. A Orquestra da Metropolitan Opera e os Coros fantásticos também.



Na protagonista tivemos o privilégio de ver e ouvir Anna Netrebko. Já atingiu o estatuto em que é aplaudida logo que entra em cena, ainda antes de cantar. E, simplesmente... arrasou! A voz está muito mais encorpada mas mantém a invulgar beleza que sempre a caracterizou. O volume é muito maior e as notas agudas continuam fabulosas. É um privilégio poder ouvir a Netrebko, sem dúvida uma das melhores cantoras de ópera de sempre.



No papel de Cavaradossi esteve o tenor uzbeque Najmiddin Mavlyanov que não conhecia. Jovem e muito ágil em cena, cantou com grande categoria. O timbre não é particularmente bonito mas o cantor é muito expressivo e mantém a qualidade interpretativa em todos os registos. Foi uma agradável surpresa.


O Scarpia do baritono Željko Lučić foi um pouco estático, mas cumpriu perfeitamente a figura de vilão. O cantor tem uma voz grande e bonita, foi sempre bem audível e nos duetos com a Netrebko não destoou.



Nos papéis secundários, todos bem interpretados, Patrick Carfizzi foi o Sacristão, Christian Zaremba o Cesare Angelotti, e Brenton Ryan o Spoletta.




Mas a noite foi de Anna Netrebko e de todos os que puderam desfrutar deste magnífico espectáculo.







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TOSCA, METropolitan Opera, New York, May 2018

The opera Tosca by G. Puccini is one of my favorites and once again I had the opportunity to see it and to see a performance of superior quality, this time at the Metropolitan Opera in New York.

The staging by David McVicar is spectacular, with sumptuous settings, very respectful of Puccini's work. A gift also for the eyes. It came to replace the previous one by Luc Bondy that had short life because it was very ugly and, in this opera house, the eurotrash is not welcomed.

Maestro Bertrand de Billy was excellent in the musical direction. Right tempi, lots of emotion in music and total respect for the singers. The Orchestra of the Metropolitan Opera and the fantastic Choirs too.

In the protagonist we had the privilege of seeing and hearing Anna Netrebko. She has already reached the status in which she is applauded as soon as she enters the scene, even before singing. And, she just ... smashed! The voice is much stronger but maintains the unusual beauty that has always characterized her. The volume is much higher and the high notes remain fabulous. It is a privilege to be able to listen to Netrebko, undoubtedly one of the best opera singers ever.

In the role of Cavaradossi was the Uzbek tenor Najmiddin Mavlyanov who I did not know. Young and very agile on stage, he sang with great class. The timbre is not particularly beautiful but the singer is very expressive and maintains the interpretive quality in all registers. It was a pleasant surprise.

Scarpia from baritone Željko Lučić was a little static, but perfectly fulfilled the figure of the villain. The singer has a great and beautiful voice, was always well audible and in the duets with Netrebko was very good.

In the secondary roles Patrick Carfizzi was the sacristan, Christian Zaremba was Cesare Angelotti, and Brenton Ryan was Spoletta.

But the night was Anna Netrebko´s and everyone who could enjoy this magnificent performance.

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