segunda-feira, 17 de setembro de 2018

FALSTAFF – Staatsoper unter den Linden, Berlim, Abril 2018 / Berlin, April 2018




(review in English below)

Falstaff de G. Verdi esteve em cena na Staatsoper unter den Linden de Berlim, numa encenação de Mario Martone.



A ópera foi brutalíssima!!! Uma encenação que lhe chamaria mais “adaptada aos tempos modernos” do que propriamente “moderna”. Falstaff é um habitante de bairro social, calça de ganga e t-shirt e a taberna é transformada na rua do bairro social, com paredes cheias de graffitis, aspecto velho dos prédios... o contraste da casa de Alice é uma mansão da qual só chegamos a ver o jardim com uma piscina e relvado. A cena final é no meio de uma espécie de centro comercial abandonado com duas escadas rolantes em cada lateral.

Após combinar as coisas com Ford, e a passagem deste É sogno? O realtà? Falstaff vem vestido com uma camisa magenta brilhante, blazer azul e chapéu fazendo parecer um bocado aciganado. A Mrs. Quickly quando lhe vai dar a informação de que Alice o espera entre as 2 e as 3, sai do cenário numa mota a sério :)

Os pormenores cénicos são fantásticos e os cantores simplesmente magníficos não só nas vozes mas também como actores altamente credíveis. Tudo pareceu natural e eficaz, fluente sem excessos ou ausências. Que trabalho espectacular! Só visto! A concepção da ópera é simplesmente genial. Não é a ária “x” ou a ária “y” mas sim “o Falstaff” no seu todo. É versão Cavaleiro da Rosa verdiana :) mas com muito mais piada. Acredito que não deve ter havido nos últimos tempos encenação tão bem feita para esta ópera.

Dirigiu a Orquestra Staatskapelle Berlin o maestro Daniel Baremboim.




Os solistas foram Michael Volle (Sir John Falstaff),







Simone Piazzola (Ford),



Francesco Demuro (Fenton),



Barbara Frittoli (Mrs. Alice Ford),




Nadine Sierra (Nannetta) e




Daniela Barcellona (Mrs. Quickly).

Todos descomunais e a Orquestra belíssima, com uma celestilialidade nas passagens em que só temos as cordas, absolutamente arrepiante. A direcção do Barenboim excelente, pace ideal, intensidade e precisão irrepreensíveis.





Texto de wagner_fanatic.



FALSTAFF - Staatsoper unter den Linden, Berlin, April 2018

G. Verdi's Falstaff was on stage at Berlin's Staatsoper unter den Linden, staged by Mario Martone.

The opera was brutal!!! A staging that I would call it more "adapted to modern times" than properly "modern". Falstaff is an inhabitant of a social neighborhood, on jeans and t-shirt, and the tavern is transformed into the street of the social district, with walls full of graffiti, the old look of the buildings ... in contrast, Alice's house is a mansion of which we only got to see the garden with a swimming pool and lawn. The final scene is in the middle of a kind of abandoned shopping center with two escalators on each side.

After combining things with Ford, and the passage of this É sogno? O realtà? Falstaff comes dressed in a bright magenta shirt, blue blazer and hat making him look a bit gypsy. Mrs. Quickly when gives him the information that Alice is waiting for him between 2 and 3 o’clock, she gets out of the stage on a real motorcycle :)

The scenic details are fantastic and the singers simply magnificent not only in voices but also as highly credible actors. Everything seemed natural and effective, fluent without excesses or absences. What a spectacular job! Just seen! The design of the opera is simply brilliant. It is not the aria "x" or the aria "y" but "the Falstaff" as a whole. It is Verdi's version of the Rosencavalier :) but much more fun. I believe that there should not have been in recent times such well-done staging for this opera.

The Staatskapelle Berlin Orchestra was directed by Daniel Baremboim. The soloists included Michael Volle (Sir John Falstaff), Simone Piazzola (Ford), Francesco Demuro (Fenton), Maria Agresta (Mrs. Alice Ford), Nadine Sierra (Nannetta) and Daniela Barcellona (Mrs. Quickly).

All of them huge and the Orchestra was beautiful, with a heavenly touch in the parts where we only have the strings, absolutely chilling. Barenboim's excellent direction, ideal pace, intensity and precision were impeccable.

Text by wagner_fanatic.

sábado, 15 de setembro de 2018

XVII FESTIVAL DE ÓPERA DO THEATRO DA PAZ ATINGE A EXCELÊNCIA COM A ÓPERA "UM BAILE DE MÁSCARAS"


Cena da ópera Um Baile de Máscaras, Theatro da Paz, Belém

Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera & Ballet

   O Festival de Ópera do Theatro da Paz de Belém do Pará chega a sua décima sétima edição, uma raridade no mundo da ópera nacional. Atravessou diversos governos e se mantém de pé, sempre com uma programação equilibrada e interessante. Esperamos que os novos gestores a serem eleitos no Estado mantenham o festival, já que o mesmo criou um público cativo, formou plateias ao longo dos anos e incentivou o turismo. 
   
   Nesses dezessete anos as mais variadas óperas foram apresentadas, quem teve a oportunidade acompanhar o festival viu um panorama completo da história de ópera com diversos períodos contemplados. Esse ano um título exótico como "A Vida Breve" de Manuel de Falla e o clássico "Un Ballo in Maschera" ou "Um Baile de Máscaras" para os brasileiros. 
   
   A grande sacada da direção do festival é não inventar moda, não seguir as tendências do minimalismo, das transposições de época e dos conceitos abstratos. Em teatros com temporadas de mais de 20 ou 30 títulos isso pode ser feito em um ou dois. Em um festival curto seria um desastre eminente. 
   
   "Um Baile de Máscaras" apresentado no último dia 08 de Setembro entregou uma montagem clássica, bonita e correta. A direção de Mauro Wrona deixa o libreto fácil para os menos entendidos. Conta a ação de forma clara com movimentação correta dos solistas e demais participantes. A cena final é um primor de qualidade. 
   
   Os cenários de Duda Aruk são simples e funcionais, transmitem a temporalidade da época e se encaixam com as ideais da direção. Os figurinos assinados por Helio Alvarez seguem a mesma linha. A luz de Rubens Almeida é um destaque pela qualidade: foca na dinâmica, dá sentido ao enredo, dialoga com as cenas e enriquece o conjunto da obra.



 Rodolfo Giugliani em cena, barítono pensativo
   
   A escolha dos solistas foi um acerto na mosca, uma seleção de agraciados como os melhores por este Blog. É a milésima prova que temos excelentes cantores no Brasil. A começar pela paraense Adriane Queiroz, soprano de carreira consolidada no Brasil e na Europa, consegue com a personagem Amelia voz de técnica exuberante, agudos ricos e brilhantes unidos a uma atuação cênica apaixonada. 
   
   Rodolfo GiulianiMelhor Cantor Solista de 2016 tem um vozeirão de barítono, não aquela voz pequena e aguda que mais lembra um tenor em moda nos barítonos atuais e sim uma voz portentosa, forte, máscula e grande. Voz que chega chegando e enche o teatro com graves explosivos. Seu Renato é pura fidelidade e raiva ao Conde. Fernando Portari deu vida a Riccardo, o Conde e governador de Boston. Entregou voz de timbre lírico, onde os médios se sobressaem sobre os agudos. Atuação cênica brilhante, demonstra uma ingenuidade ao não acreditar nos conspiradores que querem sua cabeça. 

   Ulrica, a eterna bruxa e vidente é uma armadilha para mezzos soprano. A distância entre uma grande atuação cênica e o ridículo atroz é pequena. Denise de Freitas não cai do piegas, faz uma bruxa assustadora na medida certa. Agraciada como Destaque Lírico Feminino de 2011 por este Blog mais uma vez atuou e cantou de maneira brilhante. Imprimiu mistério na voz colocando graves profundos que enchem a sala. 


Fernando Portari e Adriane Queiroz fazem o casal apaixonado
   
   Kézia Andrade, o que falar dessa jovem soprano paraense, já foi agraciada como Revelação Lírica Feminina de 2017 pela personagem Donna Elvira da ópera "Don Giovanni" de Mozart. Como Oscar, o pajem de Ricardo esbanjou talento vocal e cênico. O timbre da voz é lírico, leve e realçado com pureza cristalina. Apesar da juventude mostra segurança de uma veterana com atuação cênica e vocal de grande estilo. Um alerta aos teatros brasileiros, contratem o soprano antes que alguém do estrangeiro a descubra. Daqui a alguns anos os colegas da revista Concerto vão indicá-la a algum de seus prêmios, como sempre atrasados. Andrey Mira é baixo que começa a se destacar, voz com volume sólido pronta para enfrentar trabalhos maiores. 



Kézia Andrade, esbanjando talento no palco do Theatro da Paz
   
    A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz vem amadurecendo a cada ano, o regente Miguel Campos Neto extraiu dela sonoridade operística de qualidade portentosa. Linear e homogenia nos naipes teve o regente sempre marcando as entradas dos solistas e coro. As cordas expressavam emoções com energia e as madeiras sempre precisas deram o tom da alta qualidade. A harpa, um dos mais antigos instrumentos de corda dedilhada, foi um destaque á parte. Diana Todorova tirou notas que viajam com delicadeza, harmonia e romantismo.
   
   O Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz regido pelo sempre competente Vanildo Monteiro segue em alto padrão de qualidade vocal. Lembrando que não é um coro estável, os membros participam apenas do festival e geralmente tem outras profissões.  
   
   "Um Baile de Máscaras" foi apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nos princípios do ano corrente. A opção de uma montagem de concepção moderna, importada, cara e recheada de projeções se mostrou desastrosa para a crítica e público. O custo dela exauriu os cofres do teatro, depois disso só se apresenta concertos por lá. Seria mais lógico e econômico que a produção do Theatro da Paz fosse apresentada depois no Rio de Janeiro. Isso já aconteceu com a ópera "Don Giovanni" apresentada em Belém e depois no Theatro São Pedro/SP. Afirmo aqui que a montagem do Theatro da Paz é infinitamente superior a carioca. Por que não economizar?

Ali Hassan Ayache viajou a Belém do Pará a convite da produção do XVII Festival de Ópera do Theatro da Paz. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

ROMÉO ET JULIETTE, METropolitan Opera, New York, Maio / May 2018




 (review in English below)

Roméo et Juliette de Charles Gunot é uma ópera (com prólogo e cinco actos) com libretto de Jules Barbier e Michael Carré, baseada na obra homónima de William Shakespeare. A história pode ler-se aqui.



A encenação de Bartlett Sher é sóbria e clássica, mas não traz nada de novo. O cenário mantém-se ao longo de toda a ópera, mas funciona.



Placido Domingo foi banal na direcção da orquestra. Não houve emoção e em várias partes parecia que se limitava a marcar o compasso. Um excelente tenor não é necessariamente um bom maestro.



Roméo foi interpretado pelo tenor Norte Americano Charles Castronovo. Foi muito bom, muito ágil em cena e a voz esteve sempre segura e bem audível. Tem um timbre bonito e no final foi muito credível.



A soprano Norte Americana Ailyn Peréz foi a Juliette. Começou com alguma estridência mas melhorou muito e foi também outra boa cantora. A voz é muito grande, perde ligeiramente a qualidade nas notas mais agudas, mas cumpre neste papel, embora considere que não é o mais adequado para ela.



Dos restantes cantores destacaram-se o baixo Sul Coreano Kwanchoul Youn que fez um Padre Laurent excepcional, a mezzo francesa Karine Deshayes que foi um Stéphano irrepreensível, o barítono francês Laurent Naouri muito bem como Capulet, o baritono canadiano Joshua Hopkins óptimo como Mercutio, a mezzo americana Maria Zifchak como Gertrude e o tenor ucraniano Bogdan Volkov como Tybald não destoaram.





Um espectáculo muito bom, pena a direcção musical não ter acompanhado em qualidade tudo o resto.

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ROMÉO ET JULIETTE, METropolitan Opera, New York, May 2018

Roméo et Juliette by Charles Gunot is an opera (with prologue and five acts) with libretto by Jules Barbier and Michael Carré, based on the work of the same name by William Shakespeare. The story can be read here.

The staging of Bartlett Sher is sober and classic, but brings nothing new. The settings remain throughout the opera, but it works.


Placido Domingo was banal in the direction of the orchestra. There was no emotion, and in several places it seemed to be limited to the bars. An excellent tenor is not necessarily a good maestro.

Roméo was played by the North American tenor Charles Castronovo. He was very good, very agile on stage and the voice was always there and well audible. He has a beautiful timbre and in the end he was very credible.

American soprano Ailyn Peréz was Juliette. She started with some stridency but she improved a lot and was also another top singer. The voice is big, slightly loses the quality in the top notes, but is an excellent singer for this role.

Of the remaining singers stood out South Korean bass Kwanchoul Youn who was an exceptional Priest Laurent, French mezzo Karine Deshayes who was an impeccable Stéphano, French baritone Laurent Naouri was well as Capulet, Canadian baritone Joshua Hopkins terrific as Mercutio, American mezzo Maria Zifchak as Gertrude and Ukrainian tenor Bogdan Volkov as Tybald were also correct.

A very good performance, despite the musical direction not having accompanied everything else in quality.

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