terça-feira, 17 de setembro de 2019

1 000 000 visitas ao Fanáticos da Ópera / 1 000 000 visits to Fanáticos da Ópera!




Em quase 10 anos de existência o Fanáticos da Ópera ultrapassou um milhão de visitas!!! Quem diria! Criámos e mantemos este blogue sobretudo para registar as nossas experiências “operáticas”. É com muita satisfação (e surpresa) que verificamos que tantos leitores nos visitaram e visitam. Obrigados a todos.


Merecem um agradecimento muito especial aqueles que nos visitam regularmente e enriquecem o blogue com comentários. São eles os responsáveis pela manutenção do blogue, nestes tempos de outras alternativas mais apetecíveis e em que já equacionámos encerrar estes relatos.

Renovados agradecimentos a todos e esperamos que, com os nossos comentários, tenhamos conseguido estimular o espírito crítico dos aficionados e a curiosidade dos iniciados nesta forma de arte suprema que é a Ópera.


1,000,000 visits to Opera Fanatics!

In almost 10 years of existence the Opera Fanatics blog has exceeded one million visits!!! Who would say! We created and maintain this blog mainly to record our “operatic” experiences. It is with great satisfaction (and surprise) that we find that so many readers have visited and visite us. Thank you all.

Special thanks to those who visit us regularly and enrich the blog with comments. They are responsible for maintaining the blog, in these times of other more desirable alternatives and in which we have already considered closing these posts.

Thanks again to all and we hope that with our comments we have been able to stimulate the critical spirit of the experts and the curiosity of the beginners in this supreme art form which is the Opera.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

LA FORZA DEL DESTINO, Ópera de Paris / Paris Opera, Junho / June 2019


(text in English below)

Texto de camo_opera

Uma La Forza del Destino excelente em Paris. Um espectáculo fantástico. Orquestra sublime na batuta de Nicola Luisotti: sons cheios, vivos e dramáticos. Coro de muita qualidade. Cantores secundários todos bons e equilibrados. E cantores principais muito bons.

(fotografia / Photo: Julien Benhamou) 

A pior foi, sem dúvida, a Preziosila de Varduhi Abrahamyan: voz pouco potente e com agudos difíceis, teve um desempenho aceitável, mas destoava da qualidade superlativa dos demais. Foi pena.

(fotografia / Photo: Julien Benhamou) 

Depois tivemos só cantores bons, mas com o Zeljko Lucic. Foi um Don Carlo di Vargas com uma qualidade vocal assinalável, mas é embotado a cantar. Canta a vida ou a morte da mesma maneira e, uma vez mais, deixou-me decepcionado porque a voz exigia um cérebro melhor. Uma pena e uma frustração gigante! Tem tudo para ser o melhor barítono da atualidade, mas não pode porque não sabe interpretar. Além disso, canta todos os papéis de igual forma.

 (fotografia / Photo: Julien Benhamou) 

O Padre Guardiano de Rafal Siwek foi bom, mas também não deslumbrou. Mas não destoou. Já o Melitone de Gabriele Viviani foi excelente: voz muito bonita e potente, interpretação excepcional e grande sentido cénico. Este devia ter sido o Carlos di Vargas!

(fotografia / Photo: Julien Benhamou) 

O Don Álvaro foi Brian Jagde: grande interpretação. Agudos sublimes, timbre belíssimo, técnica apurada e bom sentido cénico fizeram dele um Álvaro de excelente qualidade, confirmando Jagde como um valor seguríssimo entre os tenores jovens da sua geração.

(fotografia / Photo: Julien Benhamou) 

As últimas palavras acerca dos cantores vão para a Leonora de Anja Harteros. Não me canso de dizer que é das melhores sopranos da atualidade. Voz belíssima, segura e de técnica perfeita a que alia um bom sentido dramático (talvez seja um pouco fria às vezes). Nunca falha em nenhum papel. Foi uma grande Leonora.

A encenação de Auvray foi outros dos pontos fortes: muito simples, muito dinâmica, muito fluída, com pormenores inteligentes, muito cumpridora do guião e do texto. Clássica e simples: tudo aquilo que se quer e pode pedir. Muda de ambientes quase só com a luz no fundo do palco ou com recursos a pequenos panos que criam espaços. Uma forma inteligente de tornar dinâmico um enredo pesado que se estende por um período temporal de 5 anos. Excelente récita.



LA FORZA DEL DESTINO, Paris Opera,  June 2019

Text by camo_opera

An excellent La Forza del Destino in Paris. A fantastic performance. Sublime orchestra under the direction of Nicola Luisotti: full, lively and dramatic sounds. Very good Choir. Secondary singers all good and balanced. And very good soloist singers.

The worst was undoubtedly the Preziosila of Varduhi Abrahamyan: a little powerful voice and with difficult top notes, she had an acceptable performance, but was not the superlative quality of the others. It was regrettable.

The other soloists were all good singers, despite Zeljko Lucic. He was a Don Carlo di Vargas with a remarkable vocal quality, but he is dull to sing. He sings life or death in the same way and once again disappointed me because the voice demanded a better brain. A pity and a giant frustration! He has everything to be the best baritone of our days, but can not because he does not know to interpret. In addition, he sings all the roles in the same way.

Rafal Siwek's Father Guardian was good, but he was not dazzled either. Gabriele Viviani's Melitone was excellent: very beautiful and powerful voice, exceptional interpretation and great scenic sense. He must have been Carlos di Vargas!

Don Álvaro was Brian Jagde: great interpretation. Sublime top notes, beautiful timbre, exquisite technique and good scenic sense made him an excellent Alvaro, confirming Jade as a very good value among the young tenors of his generation.

The last words about the singers go to Anja Harteros’ Leonora. I never tire of saying that she is one of the best sopranos of our time. Beautiful voice and perfect technique that combines a good dramatic performance (maybe she's a bit cold at times). Never fails in any role. She was a great Leonora.

The staging of Auvray was another strong issue: very simple, very dynamic, very fluid, with clever details, very fulfilling of the script and the text. Classic and simple: everything you want and can ask for. The settings change almost only with the light at the bottom of the stage or with resources to small cloths that create spaces. A clever way to make a heavy storyline dynamic that stretches over a 5-year time frame. Excellent performance.


domingo, 8 de setembro de 2019

LA TRAVIATA, Bayreshe Staatsoper, Julho / July 2019



(review in English below)

Texto de camo_opera

La Traviata começou pelo anúncio apenas em alemão do cancelamento de Plácido Domingo no papel de Germont-pai. Foi um ooohhhh! enorme na sala, mas o meu contentamento, confesso! Acho que pode vender muitos bilhetes, mas a sua voz de barítono já deu o pouco que tinha para dar, pelo que agradeci.

O ponto forte da noite foi mesmo a direção perfeita de Marco Armiliato: para mim, é um dos grandes maestros da atualidade e vê-lo de perto foi um privilégio e um deleite auditivo. Também o Coro esteve em bom plano. A encenação de Gunter Kramer não é interessante em nenhum momento, mas não estraga, o que já não é mau, dado que neste teatro tenho visto muita porcaria.

No que respeita ao elenco de cantores, pautou-se pela qualidade geral muito elevada e homogénea que elevaram a récita a um nível muito, muito bom. A Violeta de Ailyn Pérez esteve muito bem do ponto de vista vocal: intensa e acertada. Pena que cenicamente se tenha sentido pouca ligação, porque teria sido ainda melhor, e que tenha dito “ritorno a vincere” em vez de “a vivere”. Quase pareceu incomodada com essa falha mesmo a terminar!

O Alfredo de Atalla Ayan esteve igualmente em bom plano: gosto muito do timbre e da presença, tem sempre muito bom volume, embora estivesse algo irregular sobretudo no primeiro ato.
O Germont do barítono romeno George Petean foi muito bom: timbre quente, volume elevado, cenicamente interessante, foi uma das figuras da noite e, talvez, até por estar em substituição, o mais ovacionado. Pena que se tenha enganado duas vezes na letra, dizendo coisas algo disparatadas. Mas aposto que passou ao lado para a maior parte do público.
Os restantes cantores eram todos muito, muito bons, pelo que a récita valeu pela homogeneidade e pelo brilhantismo da direção de Armiliato.




LA TRAVIATA, Bayreshe Staatsoper, July / July 2019

Text by camo_opera

La Traviata began by announcing, in German only, the cancellation of Placido Domingo in the role of Giorgio Germont. It was an ooohhhh! in the room, but my contentment, I confess! I think he can sell a lot of tickets, but his baritone voice has already given the littlehe had to give, so thank you.

The strong point of the evening was even the perfect direction of Marco Armiliato: for me, he is one of the great maestros of today and seeing him up close was a privilege and an auditory delight. Also the choir was in good plan. The staging of Gunter Kramer is not interesting at any time, but it does not spoil, which is not bad, since in this theater I have seen a lot of crap.
With regard to the cast of singers, the general quality was very high and homogeneous that raised the performance to a very, very good level. Violeta by Ailyn Pérez was very well from the vocal point of view: intense and correct. It is a pity that a little connection has been made, because it would have been even better, and that she said "ritorno a vincere" instead of "a vivere". She almost seemed bothered by this failure to finish!
Alfredo by Atalla Ayan was also good: I really like the timbre and the presence, always has very good volume, although he was somewhat irregular especially in the first act.
The Germont of the Romanian baritone George Petean was very good: warm timbre, high volume, richly interesting, was one of the figures of the night and getting the most ovation. It's a shame that he was mistaken twice in the lyrics, saying something crazy. But I bet it passed along for most of the audience.
The remaining singers were all very good so the performance was worth the homogeneity and brilliance of the direction of Armiliato.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

SALOME, Bayerische Staatsoper, Julho / July 2019



(review in English below)

Texto de camo_opera

Concluí esta visita a Munique com a Salome de Strauss. A direção ficou a cargo de Kirill Petrenko: foi muito, muito boa, a explorar a grande orquestra do teatro, mas esteve, a meu ver, com demasiado volume na maior parte da récita, abafando frequentemente os cantores, pelo que não leva nota máxima.



Estava muito preocupado com a encenação de Krzysztof Warlikowski, mas acabei por gostar muito. Começa mal com um cântico mahleriano e com todo um elenco de judeus ortodoxos em palco, um deles a cantar em playback evidente. Tudo sem grande propósito. Mas depois toda a concepção é estimulante e muito dinâmica, explorando a componente psicológica de forma muito bem conseguida e atribuindo um carácter dramático, pesado e angustiante à ópera, ou seja, aquilo que é suposto. Foi mesmo das encenações mais interessantes que vi desta ópera.


Os cantores foram também muito bons. O grande destaque é para a Salomé de Marlis Petersen: não tem uma voz gigante, mas é tecnicamente perfeita e tem um timbre muito bonito. Em cima disso, foi uma Salomé vibrante, empertigada, exigente e perturbada de forma super convincente. Uma Salomé de referência.


O Jochanaan de Wolfgang Koch esteve também muito bem vocalmente, embora com pouco volume, problema agravado por Petrenko. O Narraboth de Pavel Breslik esteve em excelente plano vocal e cénico, sendo muito convincente em palco e assumindo uma relevância destacada pelo encenador que o fez estar presente em toda a récita, ainda que morto na maior parte do tempo como é sabido.

O Herodes de Wolfgang Ablinger-Sperrhacke tem um timbre interessante, embora não seja daqueles tenores com agudos pontudos como eu gosto neste papel, mas esteve bem globalmente. O mesmo posso dizer da Herodias de Michaela Schuster: o timbre não é especialmente bonito, mas esteve vocalmente sempre acertada e cenicamente muito convincente. O restante elenco esteve também muito bem.


Assim, foi uma récita de muito boa qualidade: por um lado pela encenação muito interessante e intensa do ponto de vista dramático que me fez ficar com aquela sensação de angústia e perturbação que está presente na obra; por outro pelos cantores de excelente nível em que cintilou uma Marlis Petersen fantástica; por outro ainda, pela orquestra que nos ofereceu uma leitura excelente, ainda que com pouco respeito pelos cantores.



SALOME, Bayerische Staatsoper, July 2019

Text by camo_opera

I concluded my visit to Munich with Richard Straus’s Salome. The direction was by Kirill Petrenko: he was very, very good to explore the great orchestra of the theater, but he imposed, in my view, too much volume in most of the performance, often muffling the singers, the reason why he does not take maximum score.

I was very worried about the staging of Krzysztof Warlikowski, but I ended up really enjoying it. It starts badly with a Mahlerian chant and a whole cast of Orthodox Jews on stage, one of them singing in obvious playback. All without great purpose. But then the whole conception is stimulating and very dynamic, exploring very well the psychological component and attributing a dramatic, heavy and harrowing character to the opera, that is, what is supposed to be. It was the most interesting approach I saw of this opera.

The singers were also very good. The great highlight is for Salome by Marlis Petersen: she does not have a giant voice, but is technically perfect and has a very beautiful timbre. On top of that, she was a vibrant Salomé, stout, demanding and disturbed in a super convincing way. A reference Salome.

Wolfgang Koch's Jochanaan was also very good vocally, albeit with little volume, a problem aggravated by Petrenko. Pavel Breslik's Narraboth was excellent vocal and on stage, being very convincing and assuming a prominent relevance by the director who made him present throughout the performance, although dead most of the time.

Wolfgang Ablinger-Sperrhacke's Herodes had an interesting timbre, although not one of those tenors with pointed highs like I like in this role, but he was good overall. The same I can say of Herodias by Michaela Schuster: the timbre is not especially beautiful, but she has been vocally always rightful and on stage very convincing. The rest of the cast was also very well.

Thus, it was a performance of very good quality by the very interesting and intense staging of the dramatic point of view that made me stay with that feeling of anguish and disturbance that is present in the work, by the excellent singers in which a fantastic Marlis Petersen flickered, and by the orchestra that offered us an excellent performance, although with little respect for the singers.