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sábado, 15 de setembro de 2018

XVII FESTIVAL DE ÓPERA DO THEATRO DA PAZ ATINGE A EXCELÊNCIA COM A ÓPERA "UM BAILE DE MÁSCARAS"


Cena da ópera Um Baile de Máscaras, Theatro da Paz, Belém

Crítica de Ali Hassan Ayache no Blog de Ópera & Ballet

   O Festival de Ópera do Theatro da Paz de Belém do Pará chega a sua décima sétima edição, uma raridade no mundo da ópera nacional. Atravessou diversos governos e se mantém de pé, sempre com uma programação equilibrada e interessante. Esperamos que os novos gestores a serem eleitos no Estado mantenham o festival, já que o mesmo criou um público cativo, formou plateias ao longo dos anos e incentivou o turismo. 
   
   Nesses dezessete anos as mais variadas óperas foram apresentadas, quem teve a oportunidade acompanhar o festival viu um panorama completo da história de ópera com diversos períodos contemplados. Esse ano um título exótico como "A Vida Breve" de Manuel de Falla e o clássico "Un Ballo in Maschera" ou "Um Baile de Máscaras" para os brasileiros. 
   
   A grande sacada da direção do festival é não inventar moda, não seguir as tendências do minimalismo, das transposições de época e dos conceitos abstratos. Em teatros com temporadas de mais de 20 ou 30 títulos isso pode ser feito em um ou dois. Em um festival curto seria um desastre eminente. 
   
   "Um Baile de Máscaras" apresentado no último dia 08 de Setembro entregou uma montagem clássica, bonita e correta. A direção de Mauro Wrona deixa o libreto fácil para os menos entendidos. Conta a ação de forma clara com movimentação correta dos solistas e demais participantes. A cena final é um primor de qualidade. 
   
   Os cenários de Duda Aruk são simples e funcionais, transmitem a temporalidade da época e se encaixam com as ideais da direção. Os figurinos assinados por Helio Alvarez seguem a mesma linha. A luz de Rubens Almeida é um destaque pela qualidade: foca na dinâmica, dá sentido ao enredo, dialoga com as cenas e enriquece o conjunto da obra.



 Rodolfo Giugliani em cena, barítono pensativo
   
   A escolha dos solistas foi um acerto na mosca, uma seleção de agraciados como os melhores por este Blog. É a milésima prova que temos excelentes cantores no Brasil. A começar pela paraense Adriane Queiroz, soprano de carreira consolidada no Brasil e na Europa, consegue com a personagem Amelia voz de técnica exuberante, agudos ricos e brilhantes unidos a uma atuação cênica apaixonada. 
   
   Rodolfo GiulianiMelhor Cantor Solista de 2016 tem um vozeirão de barítono, não aquela voz pequena e aguda que mais lembra um tenor em moda nos barítonos atuais e sim uma voz portentosa, forte, máscula e grande. Voz que chega chegando e enche o teatro com graves explosivos. Seu Renato é pura fidelidade e raiva ao Conde. Fernando Portari deu vida a Riccardo, o Conde e governador de Boston. Entregou voz de timbre lírico, onde os médios se sobressaem sobre os agudos. Atuação cênica brilhante, demonstra uma ingenuidade ao não acreditar nos conspiradores que querem sua cabeça. 

   Ulrica, a eterna bruxa e vidente é uma armadilha para mezzos soprano. A distância entre uma grande atuação cênica e o ridículo atroz é pequena. Denise de Freitas não cai do piegas, faz uma bruxa assustadora na medida certa. Agraciada como Destaque Lírico Feminino de 2011 por este Blog mais uma vez atuou e cantou de maneira brilhante. Imprimiu mistério na voz colocando graves profundos que enchem a sala. 


Fernando Portari e Adriane Queiroz fazem o casal apaixonado
   
   Kézia Andrade, o que falar dessa jovem soprano paraense, já foi agraciada como Revelação Lírica Feminina de 2017 pela personagem Donna Elvira da ópera "Don Giovanni" de Mozart. Como Oscar, o pajem de Ricardo esbanjou talento vocal e cênico. O timbre da voz é lírico, leve e realçado com pureza cristalina. Apesar da juventude mostra segurança de uma veterana com atuação cênica e vocal de grande estilo. Um alerta aos teatros brasileiros, contratem o soprano antes que alguém do estrangeiro a descubra. Daqui a alguns anos os colegas da revista Concerto vão indicá-la a algum de seus prêmios, como sempre atrasados. Andrey Mira é baixo que começa a se destacar, voz com volume sólido pronta para enfrentar trabalhos maiores. 



Kézia Andrade, esbanjando talento no palco do Theatro da Paz
   
    A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz vem amadurecendo a cada ano, o regente Miguel Campos Neto extraiu dela sonoridade operística de qualidade portentosa. Linear e homogenia nos naipes teve o regente sempre marcando as entradas dos solistas e coro. As cordas expressavam emoções com energia e as madeiras sempre precisas deram o tom da alta qualidade. A harpa, um dos mais antigos instrumentos de corda dedilhada, foi um destaque á parte. Diana Todorova tirou notas que viajam com delicadeza, harmonia e romantismo.
   
   O Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz regido pelo sempre competente Vanildo Monteiro segue em alto padrão de qualidade vocal. Lembrando que não é um coro estável, os membros participam apenas do festival e geralmente tem outras profissões.  
   
   "Um Baile de Máscaras" foi apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nos princípios do ano corrente. A opção de uma montagem de concepção moderna, importada, cara e recheada de projeções se mostrou desastrosa para a crítica e público. O custo dela exauriu os cofres do teatro, depois disso só se apresenta concertos por lá. Seria mais lógico e econômico que a produção do Theatro da Paz fosse apresentada depois no Rio de Janeiro. Isso já aconteceu com a ópera "Don Giovanni" apresentada em Belém e depois no Theatro São Pedro/SP. Afirmo aqui que a montagem do Theatro da Paz é infinitamente superior a carioca. Por que não economizar?

Ali Hassan Ayache viajou a Belém do Pará a convite da produção do XVII Festival de Ópera do Theatro da Paz. 

sábado, 12 de setembro de 2015

OS PESCADORES DE PÉROLAS DO THEATRO DA PAZ NA VISÃO DE FERNANDO MEIRELLES



Crítica de Ali Hassan Ayache no blog de ópera e ballet

Escalar o diretor Fernando Meirelles (Cidade de Deus e o Jardineiro Fiel entre outras tantas) para a direção cênica da ópera Os Pescadores de Pérolas de Bizet trás à XIV edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz de Belém do Pará grande relevância nacional. O diretor não se fez de rogado, criou um monte de polêmicas antes da estreia. Especialista na sétima arte postou um vídeo de divulgação nas redes sociais onde tenor e barítono cantam no chuveiro, anunciou em entrevistas que como diretor de ópera se sentia um amador e estagiário.

Diretores de cinema ou teatro comandando espetáculos operísticos nem sempre é um casamento perfeito, existem casos de sucesso e lambanças imperdoáveis. No Brasil Ugo Giorgetti fez uma "Norma" razoável no Theatro São Pedro e Gabriel Vilela fez o pior "Don Carlo" de Verdi de todos os tempos no Municipal de São Paulo. As falas de Meirelles indicavam que tudo podia dar errado, felizmente não foi bem assim.

O nobre diretor fez na ópera o que mais entende, filmes. Usou o recurso em diversos momentos tornando a ópera didática, facilitando a compreensão das cenas. Sua leitura é correta e muitas vezes criativa. A primeira cena, onde a projeção mostra o mar e ao fundo descem do teto pescadores de pérolas é de uma beleza atroz. Seguem-se filmagens e mais filmagens, exagera-se na dose em diversos momentos.


Quem não comete exageros é sua equipe, os cenários de Cassio Amarante, todo em madeira é funcional. Os figurinos de Veronica Julian estiveram compatíveis com o Ceilão e a luz de Joyce Drummond conversa com as cenas dando um realce extra. A coreografia de Marília Araújo leva coro e solistas a cenas impactantes. A impressão que fica é : Fernando Meirelles ficou mais atento aos vídeos e sua equipe se dedicou às cenas de palco e a produção foi pensada para o cinema onde será exibida no próximo dia 15 em diversas salas do país. 

O resultado é visualmente impactante com uma leitura simplista da obra. Quando diretores dizem que não leem críticas e Meirelles é mais um deles, podem acreditar amigos que o contrário é a verdade. As minhas todos leem embora nunca admitam em público.

Miguel Campos Neto é regente da nova geração que começa a ganhar destaque no cenário nacional. Regeu a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz com precisão, o volume e a intensidade musical é operístico destacando todas as melodias de Bizet. Uma boa interpretação da partitura com toda sua intensidade melódica. Derrapadas acontecem em todas as récitas, seus metais se perderam em duas passagens no primeiro ato. 

Vanildo Monteiro consegue com o Coral Lírico sonoridade digna dos melhores coros profissionais do Sudeste. Lembrando que seus coristas são amadores, cantam com intensidade e doação. O equilíbrio entre os naipes e a harmonia vocal foram a constante na apresentação, além de cantarem executaram a coreografia de maneira digna. A galera do Coral Lírico canta com empolgação, como se fosse a última récita de sua vida. 

A ousadia é sempre bem vinda e permeia a direção do festival, ano passado o diretor Mauro Wrona arriscou e inovou ao escalar a novata Gabriela Rossi para o papel de Desdemona da ópera "Otelo" de Verdi. Esse ano não foi diferente chamou a jovem Camila Titinger para o papel de Leila. A moda nos espetáculos operísticos é que o cantor tenha semelhança física do personagem e Camila Titinger é a encarnação viva da personagem Leila. A bela jovem não se intimidou em cantar ao lado de dois veteranos, soltou a voz em agudos brilhantes e líricos. Sua voz tem uma beleza que contrasta com expressividade marcante. Sofreu ao encarar as complexas coloraturas, a jovialidade do timbre e a marcante presença cênica compensaram essa falha.

Fernando Portari é veterano e tarimbado tenor do cenário nacional e internacional, tirou de letra o personagem Nadir em uma voz que explode em agudos potentes.

Leonardo Neiva foi vocalmente explosivo, uniu graves volumosos com médios precisos. Os duetos foram o melhor de sua participação, com Nadir em "Au fond du temple saint" e com Leila "Je fremis, je chancelle" mostrou bela musicalidade em uma atuação cênica louvável. O baixo paraense Andrey Mira fez um Nourabad com voz volumosa e escura, graves explosivos saiam como dinamite dignos de uma divindade. Pena a voz ter perdido esses atributos no terceiro ato.    


A XIV edição do Festival de Ópera do Theatro da Paz prova a consolidação do mesmo no Estado do Pará e agora como o único e mais importante festival do Norte do país. O que se vê é um teatro sempre lotado e um público ávido e interessado por ópera. Soubemos que a edição do ano que vem homenageará Carlos Gomes, que venham suas melhores óperas. Ganhará o público paraense e o Estado do Pará.


Ali Hassan Ayache viajou à Belém do Pará a convite da direção do XIV Festival de Ópera do Theatro da Paz.