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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

CARMEN, Teatro Ademir Rosa, CIC - Florianópolis, SC


De Lucas Andrade de Florianópolis  (https://www.facebook.com/lucasandradesilva) recebemos o presente texto sobre a Carmen. Em nome dos "Fanáticos da Ópera" o nosso agradecimento a mais um amante de ópera que se junta aos autores deste espaço.

A Cia Ópera de Santa Catarina e a Camerata Florianópolis trouxeram ao palco do Teatro Ademir Rosa na capital catarinense sua mais nova montagem, desta vez da popular e querida Carmen de Georges Bizet. A Cia Ópera vem trazendo bravamente versões completas de diversas peças, já tendo no currículo A Flauta Mágica, Rigoletto, La Traviata, Elixir do Amor e Barbeiro de Sevilha.

A Carmen foi apresentada em versão sem diálogos nos dias 14, 15, 16 e 17 de novembro. Nos dias pares tivemos Richard Bauer no papel de Don José, Adriana Clis como Carmen e Masami Ganev como Micaëla. Por sua vez, nos dias 15 e 17, Fernando Portari foi Don José, Luciana Bueno personificou Carmen e Claudia Ondrusek interpretou Micaëla. Sebastião Teixeira foi Escamillo nas quatro noites. Assisti à apresentação do dia 17 e o ensaio geral e final na íntegra na quarta-feira, dia 13, com a equipe Portari/Bueno/Ondrusek, portanto meus comentários serão em relação a este último dia.

Antes de partir para as considerações da encenação, no entanto, gostaria de salientar como é importante a montagem de um espetáculo operístico deste porte em uma cidade que não tem esta tradição. Todos os cantores, músicos e membros da equipe são verdadeiros heróis e promoveram um espetáculo belíssimo, com muita atenção aos detalhes e qualidade e para um “fanático da ópera” como eu, a emoção de poder apreciar sua mais amada forma de arte ao vivo, novamente, tem a tendência de nos tornar extramente positivos!


O casal principal esteve excepcional. Fernando Portari foi vocalmente impecável, com agudos potentes e seguros. Destaque também para seu pianíssimo na frase “Et j'étais une chose à toi” no final da ária La Fleur Que Tu M'avais Jetée. Cenicamente foi muito focado e envolvido. Sua explosão de ciúmes no final do Ato III foi de trancar o fôlego de tão visceral! Sem dúvida, um dos grandes tenores mundiais! Se me permitem um breve momento tiete, que alegria poder vê-lo ao vivo!

Luciana Bueno foi uma Carmen de bons graves e boa postura cênica e expressões faciais muito ricas. Até gostaria que ousasse um pouco mais no palco, pois tem corpo, rosto, voz, beleza e sensualidade para tal. No balaço final, uma Carmen memorável, sem dúvidas.

A Micaëlla de Claudia Ondrusek, natural de Florianópolis, foi uma candura, muito meiga e com mais segurança na região alta do que nas notas mais graves que perderam um pouco do brilho na acústica desfavorável do teatro.

Sebastião Teixeira foi um Escamillo de muita potência vocal e agudos tranquilos. Melhor ainda quando dividia o palco com Portari.

Os demais membros do elenco foram muito sólidos, principalmente o simpático bando de contrabandistas, proporcionando excelentes cenas de conjunto. Outro destaque muito positivo, vocalmente e cenicamente, para o coro, formado por vários cantores jovens e o coro infantil, que conquistou os corações de todos na plateia até os momentos finais com a cortina já se fechando e as pequenas mãozinhas nos dando tchau!

A regência do maestro Jeferson Della Roca, verdadeiro embaixador da música clássica no estado de Santa Catarina, foi muito equilibrada, com sonoridades muito agradáveis, menção especial para as madeiras, e com uso de tempos que permitiram o fluxo normal do espetáculo. Particularmente nos intermezzos, a Camerata soou superior!

Vale a congratulação ainda para os figurinos de José Alfredo Beirão.



Florianópolis quer se firmar como um polo operístico nacional e esta Carmen, com suas quatro noites de casa cheia, veio mostrar que o público existe. E um espetáculo desta qualidade é mais passo definitivo nesta jornada.

sábado, 30 de junho de 2012

A CRIATIVIDADE REINA NO THEATRO SÃO PEDRO-L'ELISIR D'AMORE DE DONIZETTI.



O Theatro São Pedro / SP abriu sua temporada de óperas na noite do dia 26 de junho com um título querido pelo público. L'Elisir D'Amore é uma das óperas mais conhecidas de Donizetti. Nela temos cenas cômicas, belas árias e duetos e um amor inocente que nos dias atuais seria considerado até bobo. L'Elisir D'Amore contagia com sua bela música e é encenada há quase duzentos anos. Grandes sopranos e tenores atuais e da antiga já cantaram a alegria e as mazelas de Nemorino e Adina.


 A opção do diretor Walter Neiva de trazer o enredo para a década de 40 do século XX era um risco eminente. Grandes diretores já se atrapalharam transportando a ação para épocas diferentes do libreto. Walter Neiva consegue, com maestria, e sem inventar moda modernizar a ópera, transportá-la para a década de 40 e ser fiel ao libreto. Não inventa moda, não faz firulas e não quer aparecer mais que os outros. Idéias criativas e inteligentes fazem parte de toda a apresentação, suas marcações são corretas, a movimentação dos cantores e do coro realça o cômico. Arranca muitos risos da platéia, diverte e emociona ao mesmo tempo.
O cenário é de uma beleza sem igual, digno de figurar em grandes teatros. O melhor cenário apresentado pelo Theatro São Pedro nos últimos anos. Os figurinos impecáveis e a luz realçaram ainda mais a apresentação.


 A escalação do elenco foi um primor: vindo da frança tivemos Sébastien Guèze. O jovem tenor tem uma voz com timbre interessante, pequena e adequada ao personagem. Exagera nas caretas ao cantar, mas atua com emoção. Esse é um detalhe que não pode escapar, sua atuação junto com sua voz emociona o público. Os conhecedores de ópera podem reclamar de sua técnica, dizer que sua tessitura, seu legatto e sua extensão não são das melhores, eu concordo com eles. Mas o jovem tem a capacidade de ser um grande Nemorino, pela atuação cênica e pela superlativa capacidade de emocionar o público. Isso é mais que suficiente para um grande Nemorino.


 Gabriella Pace arrasou como Adina, sua voz esteve maravilhosa. Lírica, jovial e sedutora. Sua atuação cênica impecável mostrou sentimentos de desprezo e paixão quando o libreto exigia. Mostrou grandes qualidades vocais do início ao fim da récita, tudo adequado a personagem. Grande soprano, grande atuação vocal que arrepia a cada nota.
Sebastião Teixeira fez um Sargento Belcore engraçado e interessante. Sua voz de barítono tem belos graves e agudos consistentes. Sua atuação cênica mostra todas as trapalhadas e ansiedades do militar que deseja casar o mais rápido possível com Adina. Sua patente é de sargento, mas seu uniforme mostra medalhas e condecorações de general, tudo hilário. Bravo Teixeira!
Outro que arrebentou foi Saulo Javan, como Dulcamara foi o mais charlatão dos charlatões. Sua voz tem graves maduros, consegue uma agilidade incrível para um baixo. Voz possante, madura e arrepiante. Atuação soberba, quase derruba o cenário na sua saída do palco com a bicicleta. Excelente Dulcamara.


 O programa cedido ao público saiu da mesmice e mostrou informações apresentadas de maneira inusitada e criativa. Dar bem casado, com o nome de Adina e Nemorino, ao público na saída do espetáculo é outra idéia interessante que agrada a todos. Espero que essa produção não se perca e que seja apresentada no decorrer dos próximos anos. A Orquestra do Theatro São Pedro manteve grande qualidade: tempos, volume e sonoridade compatíveis com a ópera de Donizetti. Nas mãos do maestro Emiliano Patarra rendeu apresentou uma sonoridade digna de um grande Donizetti. O coro esteve brilhante, nas suas intervenções mostrou grandes qualidades vocais e ritmos que combinam com a obra.
Dia de estréia (geralmente escrevo estréia com acento, a reforma ortográfica que vá às favas) é peculiar, estão presentes cantores , diretores e muitos que escrevem e trabalham no meio. Uma presença em especial me chama a atenção, o diretor do Theatro Municipal de São Paulo, Abel Rocha. Ele assistiu a récita e espero que se inspire em fazer óperas com essa qualidade. Contratar Walter Neiva é uma grande solução. Depois do Rigoletto de 2011 e da La Traviata desse ano a coisa anda meio complicada por lá.

Ali Hassan Ayache