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sábado, 16 de junho de 2018

LA TRAVIATA – Teatro de São Carlos, Lisboa / Lisbon, Junho / June 2018




(review in English below)


A opera La Traviata de Verdi encerrou a temporada do Teatro de São Carlos em Lisboa. Felizmente que se abandonou a concretização da nova produção (ao que se soube a Violeta seria um travesti com SIDA!) e se recuperou a encenação de Pier Luigi Pizzi, clássica, digna e que cumpre perfeitamente. Foi talvez a melhor encenação da temporada.

Já muito foi escrito neste espaço sobre esta ópera pelo que farei apenas um pequeno apontamento sobre os cantores e o público.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

A soprano russa Ekaterina Bakanova foi uma Violeta de excelente qualidade, muito acima dos restantes cantores e do melhor que se tem ouvido em São Carlos nos últimos tempos. Voz bonita, potente, sempre bem colocada e coloratura eficaz. A cantora tem uma figura que ajuda muito no papel, é alta e magra, embora no último acto mais parecia que estava a morrer com uma peritonite do que com tuberculose pulmonar (mas a culpa não foi dela). Esteve sempre bem, mas no 2º acto foi fabulosa!

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

O Alfredo foi o jovem tenor português Luís Gomes. O timbre vocal não é bonito, a figura também não ajuda, mas conseguiu cumprir com dignidade este grande papel, que será um marco na sua carreira.

O barítono britânico Alan Opie não esteve bem. Foi irregular na emissão, parecia perder o controlo vocal com frequência, a voz foi excessivamente nasalada e, ocasionalmente, tinha muito “grão”.

Dos cantores secundários, destacaria a boa prestação de Carolina Figueiredo como Annina. Os restantes cumpriram sem deslumbrar,  João Merino como Marquês d’Obigny, João Oliveira como Dr. Grenvil e Joana Seara como Flora. Mário Redondo como Barão Douphol e João Cipriano como Gastone foram os mais apagados.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

Uma nota final para o público, pelo menos no local onde estive. Para além das tosses contínuas, uma mulher sentada atrás de mim teve o telemóvel a vibrar durante grande parte do 2º Acto. Apesar de estar no silêncio, ouvia-se perfeitamente a vibração e ela nada fez, ou melhor, logo depois resolveu desembrulhar demoradamente um rebuçado, perturbando a audição de algumas das partes mais dramáticas da ópera. 
Tivemos ainda como surpresa adicional o maestro Michele Gamba a trautear a área Addio, del passato enquanto a Bakanova a cantava!
Não há paciência!!

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LA TRAVIATA - Teatro de São Carlos, Lisbon, June 2018

Verdi's opera La Traviata closed the São Carlos Theater season in Lisbon. Fortunately, the new production announced was abandoned (in which Violeta was known to be a transvestite with AIDS!) and recovered the production by Pier Luigi Pizzi, classic, dignified and that perfectly fulfils the staging of the opera. It was perhaps the best staging of the season.

Much has already been written in this blog about this opera so I will only make a small note about the singers and the audience.

Russian soprano Ekaterina Bakanova was a Violet of excellent quality, far above the other singers and the best that has been heard in São Carlos in recent times. Beautiful powerful voice, always well tuned and effective coloratura. The singer has a figure who helps a lot in the role, she is tall and lean, although in the last act more seemed to be dying with a peritonitis than with pulmonary tuberculosis (but it was not her fault). She was always good, but in the 2nd act she was fabulous!

Alfredo was the young Portuguese tenor Luís Gomes. The vocal tone is not beautiful, the figure also does not help, but he managed to perform with dignity this big role, which will be a milestone in his career.

British baritone Alan Opie was not well. He was irregular in the vocal emission, seemed to lose vocal control frequently, the voice was excessively nasal and occasionally had much "grain".

Of the secondary singers, I would emphasize the good performance of Carolina Figueiredo as Annina. The rest performed without being dazzled, João Merino as Marquis d'Obigny, João Oliveira as Dr. Grenvil and Joana Seara as Flora. Mário Redondo as Baron Douphol and João Cipriano as Gastone were the most discreet.

A final note about the public, at least where I've been. In addition to the continuous coughs, a woman sitting behind me had the cell phone vibrate during much of the 2nd Act. Despite being in the silence, the vibration was heard perfectly, and she did nothing, or rather, she soon resolved to slowly unwrap a candy, disturbing the hearing of some of the most dramatic parts of the opera. We also had as an additional surprise maestro Michele Gamba treading the area Addio, del passato while Bakanova was singing!
There is no more patience !!

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domingo, 2 de maio de 2010

AS BODAS DE FIGARO (Le Nozze di Figaro) –Teatro de São Carlos, Lisboa, Maio de 2010

As Bodas de Figaro (Le Nozze di Figaro) é uma das grandes óperas de Mozart que, se bem tocada, bem cantada e bem encenada, proporciona momentos musicais sublimes. Infelizmente não foi o que aconteceu na récita a que assisti no Teatro Nacional de São Carlos.


A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve sob a direcção de Julia Jones e foi, de longe, o melhor da tarde. A maestrina conduziu a orquestra com garra e conseguiu desta uma muito boa prestação. Ouviu-se Mozart! Foram ambas (orquestra e maestrina) incomparavelmente melhores e mais credíveis do que no Morcego, há poucos meses.
Guy Montavon, encenador com curriculo firmado e muito premiado (conforme assinalado na bio do programa) foi responsável por uma encenação que achei kitsch e de mau gosto. Apenas algumas tonalidades de azul ao longo da récita foram interessantes. No primeiro acto o amontoado de caixotes não resultou em qualquer efeito interessante, apenas dificultou a mobilidade dos cantores (já de si “perra”). No segundo, o quarto da Condessa parecia o da Imelda Marcos, pejado de caixas de sapatos, sem outros atractivos cénicos. No jardim do último acto apareceram retratadas, para o casamento, muitas figuras públicas, desde Lili Caneças à princesa Diana, passando por Berlusconi, Carla Bruni e diversos membros das famílias reais europeias, entre outros. Tudo muito kitsch, repito, e de gosto duvidoso.
O baixo Marco Vinco foi o Conde de Almaviva. Boa figura, a voz fazia-se ouvir com facilidade, apesar de o timbre não ser bonito e a expressividade ficar aquém do desejado. Mas foi um dos melhores em palco. A Condessa (Rosina) foi interpretada pela soprano Jessica Muirhead. Não esteve bem nem cenica nem vocalmente. A voz era aceitável no registo médio mas nos agudos perdia qualquer qualidade melódica, transformando-se em gritos. E foi pena porque a Condessa tem algumas das mais belas arias (exprimindo tristeza) escritas por Mozart. Joana Seara foi uma Susanna interessante, sem deslumbrar, mas melhor que qualquer das cantoras estrangeiras com papeis principais. Figaro foi cantado pelo barítono Leandro Fischetti. Teve uma prestação muito irregular ao longo da récita. Começou mal, foi pouco credível em cena, teve intervenções interessantes mas outras decepcionantes. Cherubino foi interpretado pelo mezzo Kristina Wahlin. Irregular na emissão, timbre aspro, desafinações frequentes e desastrosa em cena, não colocou nenhuma credibilidade na personagem. Em papeis menores ouviram-se alguns dos melhores da récita, nomeadamente Donato di Stefano como Dr. Bartolo e Mário João Alves como Don Basilio.
Foi ainda digno de registo a frequente falta de entrosamento das várias personagens, cada uma cantando para seu lado, fatal nesta ópera, onde os ensembles são tão frequentes e importantes.


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