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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

L’ITALIANA IN ALGERI, METropolitan Opera, Outubro / October 2016


 (review in English below)
L’Italiana in Algeri de G. Rossini esteve em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque, na “velha” encenação de Jean-Pierre Ponnelle.

A acção passa-se no início do Sec. XIX no norte de África. Mustafà quer oferecer a sua mulher Elvira em casamento a Lindoro, um italiano feito prisioneiro. Se aceitar, ganhará a liberdade e poderá regressar a Itália. Mustafà quer adicionar uma jovem italiana ao seu harém. Um barco italiano é atacado por piratas e, entre os sobreviventes, está Isabella, namorada de Lindoro. Os piratas acham que ela é a jovem ideal para Mustafà. Este tudo faz para conquistá-la mas, depois de uma série de peripécias, os italianos embarcam para Itália e Mustafà, enganado e arrependido, volta a receber Elvira como mulher. A encenação é convencional e datada mas muito engraçada, com numerosas situações de grande comicidade, tanto nos cenários como na actuação dos intervenientes.

O maestro James Levine dirigiu a Orquestra e os cantores o que é, por si só, uma garantia que o espectáculo será muito bom. E assim foi.

O baixo russo Ildar Abdrazakov foi um Mustafà de grande qualidade, cénica e vocal. Não tendo uma voz grande, é muito eficaz na forma como a projecta. O timbre é muito bonito e canta sempre em afinação total, sem nunca gritar. Tem uma excelente figura, o que tornou credíveis algumas cenas de conquista feminina, e foi muito cómico em vários momentos.



A mezzo italiana Marianna Pizzolato fez uma Isabella em grande estilo. Tem uma voz escura, agradável, relativamente pequena, mas bem projectada. Foi outra grande intérprete da noite.



A grande revelação para mim foi o jovem tenor norte americano René Barbera no papel de Lindoro. Cantou com grande convicção, tem um timbre bonito e revelou uma enorme facilidade nas notas agudas que foram abundantes e sempre impecavelmente cantadas. Um verdadeiro tenor rossiniano a seguir.



Nos papéis secundários estiveram cantores que não destoaram, a saber, Ying Fang como Elvira (mulher de Mustafà), Rihab Chaieb como Zulma (escrava de Elvira), Dwayne Croft como Haly (um pirata capitão) e Nicola Alaimo como Tadeo (companheiro de viagem de Isabella e seu pretendente).






Uma noite rossiniana em grande estilo.







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L'Italiana in Algeri, Metropolitan Opera, October 2016

L'Italiana in Algeri by G. Rossini was on stage at the Metropolitan Opera in New York, in the "old" production by Jean-Pierre Ponnelle.

The action is set at the beginning of Sec. XIX in North Africa. Mustafà wants to offer his wife Elvira in marriage to Lindoro, an Italian taken prisoner. If he accepts, he will gain freedom and can return to Italy. Mustafà wants to add a young Italian woman to his harem. An Italian ship is attacked by pirates, and among the survivors is Isabella, Lindoro's girlfriend. Pirates think she is ideal for Mustafà. Mustafà does everything to conquer her, but after a series of adventures, the Italian embark for Italy and Mustafà, deceived and repented, returns to receive Elvira as a wife. The staging is conventional and dated but very funny, with numerous comic situations in both scenarios and the performance of players.

Conductor James Levine directed the orchestra and singers which is, in itself, a guarantee that the show will be of quality. And so it was.

Russian bass Ildar Abdrazakov was a great Mustafà, scenic and vocal. Not having a great voice, he is very effective in the way he projects it. The tone is very beautiful and he always sings at full pitch, never screaming. He has an excellent figure, which made credible some scenes of female conquer, and was very humorous at various times.

Italian mezzo Marianna Pizzolato was an Isabella in style. She has a pleasant dark voice, relatively small but well projected. She was another great performer of the night.

The great revelation for me was the young North American tenor René Barbera in the role of Lindoro. He sang with great conviction, has a beautiful tone and revealed a huge facility in the high notes that were abundant and always impeccably sung. A true rossinian tenor to follow.

In secondary roles hw saw other good singers, namely Ying Fang as Elvira (Mustafà‘s wife), Rihab Chaieb as Zulma (Elvira’s slave), Dwayne Croft as Haly (a pirate captain) and Nicola Alaimo as Tadeo (travel companion of Isabella and her admirer).

A rossinian night in style.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

TANNHÄUSER – Transmissão do MET de Nova Iorque – FCG 31-10-2015


Tannhäuser und der Sängerkrieg auf der Wartburg” é a segunda das óperas de maturidade de Wagner. Acabada de compor no decurso do inverno de 1844, foi estreada em 19 de Outubro de 1845, no Königliche Hoftheater de Dresden, com sucesso moderado.

(Foto: Fanático_Um)

Ao longo dos anos seguintes, a ópera veio a ser amplamente modificada, com vista à sua estreia em Paris, o que veio a ocorrer em 13 de Março de 1861. Dado que a representação veio a ter lugar na Ópera de Paris e não no Théâtre Lyrique, Wagner teve de obedecer ao cânone francês e incluir um bailado, embora sob a forma de bacanal, para além de outras modificações no papel de Vénus e na ária de Walther. Paralelamente, muita da música introduzida de novo, designadamente na segunda parte do prelúdio, tem um cariz muito contrastante, pois que beneficia já da evolução da escrita de Wagner que, em 1859, havia terminado de compor o Tristan und Isolde.

A estreia parisiense foi um fiasco – embora, ao que parece, provocado por detractores do compositor – o que comprometeu definitivamente as aspirações de Wagner de vir a triunfar naquele que era, à data, o principal centro operático da Europa.

Em 1875 Wagner apresenta uma nova versão, a chamada “versão de Viena”, que assenta essencialmente na “versão de Paris” (e que normalmente não é autonomizada da “versão de Paris”), naturalmente que revertida para alemão e com pequenas alterações, designadamente a reposição do solo de Walther no concurso de canto do 2º acto.

(Castelo de Wartburg, na Turíngia. Foto: Wikipedia)

Não obstante o difícil percurso que teve, Wagner sempre acarinhou bastante esta ópera, constando que, já às portas da morte, se terá lamentado de ter ficado a dever um Tannhäuser ao mundo.

Lamento que bem se compreende, pois, não obstante esta ópera estar ainda longe do conceito para que caminhará a obra wagneriana no futuro, sendo ainda óbvias as influências da grand opéra francesa e o recurso a um modelo de ópera de números, nela encontramos, todavia, o tratamento de um conjunto de temas que virão a permear toda a criação wagneriana futura.

Assim, a ideia da arte como objecto principal de uma ópera, traduzida aqui no concurso de canto (ou melhor, no combate de canto, como parece mais correcto em face do subtítulo da obra: Sängerkrieg), virá a ser desenvolvida futuramente no Die Meistersinger von Nürnberg; A personagem de Elisabeth, mulher que pelo seu sacrifício oferece a redenção a Tannhäuser, virá a ser novamente explorada no Anel, designadamente na Brünnhilde, como já fora na Senta do Der fliegende Holländer; a cena do 1º acto, entre Tannhäuser e Vénus, da tentação para o amor profano, é premonitória do 2º acto do Parsifal e do papel desempenhado por Kundry.

O tema principal da ópera é normalmente centrado no conflito entre o amor cristão e o amor profano, entre o amor eros e o amor ágape, entre o amor sublime e o amor carnal. Todavia, em algumas análises salienta-se igualmente a temática do questionamento das concepções estéticas enquistadas na sociedade, que Wagner terá procurado protagonizar, e que encontram eco no desafio que Tannhäuser lança à sociedade cavaleiresca no concurso de canto, propondo o abandono do culto do amor cortês, o que conduz à sua proscrição.

(Bacanal. Foto: Metropolitan Opera)
           
Na transmissão deste final de Outubro, o Met de Nova Iorque proporcionou-nos a chamada “versão de Paris” (com as alterações de Viena), pelo que a abertura desembocou directamente no bacanal, onde o corpo de bailado do Met nos apresentou uma coreografia representativa das actividades desenvolvidas no Monte de Vénus, embora não particularmente inspirada ou interessante.
           
Podemos encontrar uma sinopse do enredo da ópera aqui.

(Otto Schenk. Foto: Wikipedia)

A encenação apresentada foi a de Otto Schenk, que conta já com algumas décadas. É uma encenação “tradicional“, extremamente fiel à literalidade do libretto, que privilegia a espectacularidade dos cenários e dos figurinos, no que não merece quaisquer reparos, dada a extrema atenção ao detalhe e a grande beleza estética de todos os elementos que surgem em palco. Uma versão que, seguramente, poderíamos ter visto em Bayreuth até à primeira metade do século XX. Opção perfeitamente legítima, como é óbvio, mas que surge como algo datada e renuncia à possibilidade de explorar novos significados e novas ideias que a partitura ou o texto proporcionem ou de apresentar novas propostas interpretativas.
           
(James Levine. Foto: Metropolitan Opera)

A direcção musical foi confiada a James Levine, que nos deu uma leitura correcta, sem grandes arrebatamentos ou brilhantismos. Todavia, a excelência técnica da orquestra, capaz de tocar horas seguidas sem uma falha perceptível, constitui, realmente, uma fonte inesgotável de prazer.
Foi anunciado que a participação do ainda Director Musical do Met se fez com grande sacrifício pessoal, o que foi bem visível. Porém, confesso que me fez alguma impressão a imagem de um James Levine a dirigir a orquestra muitíssimo debilitado fisicamente.

(Johan Botha. Foto: Metropolitan Opera)

A grande figura da noite foi, sem dúvida, o tenor Johan Botha, já nosso conhecido da FCG precisamente neste papel. É talvez o grande Tannhäuser da actualidade e, desta vez, voltou a mostrá-lo. O timbre é essencialmente lírico – o que é excelente para o 1º acto, onde se exige flexibilidade vocal, arrebatamento e facilidade nos agudos – mas combina a energia e robustez necessárias para a “narração de Roma” do 3º acto, que fez de forma magnífica. Cantor generoso, embora sem grandes dotes de representação, compôs vocalmente uma personagem credível nos seus dilemas, variando a vocalidade consoante o estado do personagem.

(Eva-Maria Westbroek. Foto: Metropolitan Opera)

Elisabeth foi cantada pela soprado holandesa Eva-Maria Westbroek. Confesso que esperava bastante mais desta magnífica cantora. Logo que entrou em cena para cantar o “Dich, teure Halle, grüß ich wieder” a voz me pareceu bastante descontrolada, a acusar um vibrato enorme. Acho que faltou alguma frescura vocal nesse momento tão importante, embora tenha estado melhor na prece do 3º acto. Em qualquer caso, a voz é muito bonita, exibe potência vocal e tem uma presença física perfeita para o papel.

(Michelle DeYoung. Foto: Metropolitan Opera)

Michelle DeYoung foi uma Vénus bastante mais convincente. A voz é aveludada, quente e bem timbrada, transmitindo a sedução dessa personagem que é um misto de mulher e de deusa. Demonstrou um sólido registo grave, mas com assinalável facilidade nos agudos, o que constitui requisito para abordar este papel com sucesso, cuja tessitura fica um pouco entre os registos de soprano e de mezzo-soprano. Para além disso, a sua presença física permitiu-lhe compor uma figura “botticelliana”, em perfeita consonância com as opções da produção.

(Peter Mattei. Foto: Metropolitan Opera)

Outro dos grandes sucessos foi o Wolfram von Eschenbach do barítono Peter Mattei. A beleza da voz, o fraseado elegante, a pureza da emissão e a nobreza do tom foram ideais para esta personagem, que é a antítese do dividido Tannhäuser. Por várias vezes, ao ouvi-lo e fechando os olhos, me fez lembrar o grande Dietrich Fischer-Dieskau a cantar este papel, de que constitui para mim o modelo ideal (e que se pode ouvir na gravação de 1960, em estúdio, dirigida por Franz Konwitschny ou, na do ano seguinte, ao vivo em Bayreuth, sob a batuta de Sawallisch).

Gunther Groissböck foi um bom Landgraf Hermann, com uma voz bonita e nobre, perfeitamente adequada ao papel e sem demasiada pomposidade.

(Final do Acto III. Foto: Metropolitan Opera)

Brilhante – como praticamente sempre – foi o coro do Metropolitan, numa ópera em que a sua intervenção é particularmente importante. Dinâmicas perfeitas nos coros dos peregrinos, homogeneidade tímbrica e nitidez não prejudicada pela dimensão da massa sonora, foram as marcas que coroaram uma prestação perfeita.

(Acto II. Foto: Metropolitan Opera)

Em suma – e com excepção da Elisabeth de Westbroek que não me pareceu nos seus melhores dias – tratou-se de uma récita de luxo, com um elenco dificilmente superável e que proporcionou uma experiência operática soberba.

sexta-feira, 6 de março de 2015

MET Orchestra (Direcção de James Levine) com Anna Netrebko - Carnegie Hall – Fevereiro 2015 –Crítica de Francisco Casegas



 No passado dia 8 de Fevereiro tive a oportunidade de assistir ao meu primeiro concerto no emblemático Carnegie Hall. O Programa consistiu (por esta ordem) na 2ª sinfonia de Beethoven, na ária “Song to the Moon” da ópera “Rusalka” e canção “Cäcilie” de Richard Strauss, “Three ilusions” de Carter e por fim na 2ª sinfonia de Schumann.

Estava inicialmente prevista a actuação de Elina Garanca e a intrepretação das “7 Frühe Lieder” de Berg, mas devido a doença teve de ser substituida por Anna Netrebko que possivelmente devido a ter recebido a notícia muito em cima da hora, apresentou um programa muito breve (menos de 10 minutos).

Tinha bastante curiosidade de ver ao vivo Elina Garanca, mas ainda mais curiosidade de ver Netrebko portanto não fiquei demasiado aborrecido por esta mudança de última hora (iria nessa mesma semana ouvir ambas na MET).
Na interpretação da 2ª sinfonia de Beethoven James Levine imprimiu à orquestra da MET uma excelente dinâmica do inicio ao fim elevando esta interpretação a um altíssimo nível.

Em relação à interpretação de Anna Netrebko, foi extraordinária, como já nos tem habituado, em ambas as canções. Uma voz potentíssima, (ajudada pela extraordinária acústica do Carnegie Hall) aliada a uma técnica vocal extraordinária que provam que não é por acaso que é considerada por muitos a maior “Diva” do mundo operático nos dias de hoje. Foi mesmo muita pena ter sido tão breve a sua actuação pois queremos sempre ouvir mais e mais quando toca a intrepretações suas. Em relação a Netrebko quero ainda dizer que estiveram presentes seguranças à entrada do palco, medida adoptada para prevenir outra invasão de palco como aconteceu na estreia de Iolanda na MET poucos dias antes.


 Na intrepretação das “Three ilusions” de Carter (que faleceu no passado ano de 2012 com 103 anos!), composição de 2002-2004 e estreada em Boston em 2005, a orquestra esteve muito competente embora a composição em si seja desconhecida para mim e não me tenha entusiasmado por aí alem.

Na intrepretação da 2ª sinfonia de Schumann penso que a orquestra mostrou um pouco menos de dinâmica em relação à intrepretação da sinfonia de Beethoven mas a intrepretação do 3º movimento foi sublime com a orquestra a mostrar uma delicadeza e intensidade enormes  que este movimento requer.

No geral foi um concerto de excelente nível onde tive a oportunidade de ver duas das minhas grandes referências do mundo óperático, Levine e Netrebko, pela primeira vez.

Por fim, apenas quero partilhar um aspecto curioso que encontrei no Carnegie Hall. Havia rebuçados para a tosse à disposição das pessoas à entrada. A ideia parece dar resultado visto que as tosse durante o concerto foram muito raras. Fica a sugestão para as salas de espectáculo portuguesas.

https://www.youtube.com/watch?v=StYkNyeViEA –Link para o video dos agradecimentos finais da orquestra

domingo, 14 de dezembro de 2014

Die Meistersinger von Nürnberg — MET Live in HD, Fundação Gulbenkian, Dezembro 2014

(Review in English below)

Ontem assisti à transmissão em directo do MET Live in HD da ópera Die Meistersinger von Nürnberg de Richard Wagner.


Trata-se de um drama musical (ou ópera) em 3 actos composto desde 1845 e só estreado na totalidade em 1868. A música e o libreto são, como não podia deixar de ser, da mesma pessoa: Richard Wagner. Mas esta ópera tem características diferentes das restantes óperas estreadas antes: desde logo é uma ópera cómica — fugindo à tradição (muito) séria de Tristão e Isolda ou do Anel de Nibelungo — e apresenta alterações da forma, regressando a uma forma operática mais clássica com árias, quintetos, etc.

A influência da filosofia de Schopenhauer é notória e personifica-se no homem de carácter nobre e na sua renúncia da vontade: Hans Sachs. A sua ária Wahn, Wahn, überall Wahn é como que um manifesto dessa filosofia.

Poderão ler uma sinopse no site do Metropolitan.

É uma ópera de grandes dimensões, tendo uma duração média de 4h30min de música contínua (com os intervalos são cerca de 6 horas), o que a torna difícil para principiantes. A maratona não é para todos e isso notou-se pelas desistências que foram deixando lugares vazios numa sala incialmente repleta. Mas desengane-se quem pense que foi por falta de qualidade.

A encenação é a já antiga de Otto Schenk. Como lhe é característico, a dimensão dos cenários é enorme, a atenção ao detalhe é inigualável e a narrativa que permite da história é de uma fluidez tremenda. Segue o texto de forma brilhante e só não se percebem mais pormenores porque o realizador da transmissão não atingiu o mesmo brilhantismo do encenador. Digo isto porque esses pormenores (por exemplo, quando Eva esconde propositadamente o véu na igreja para ganhar tempo para falar com Walther) são visíveis na realização de Brian Large do DVD de 2002, mas não na transmissão de ontem.


O primeiro acto passa-se numa igreja, onde decorre a celebração e, depois, a reunião dos Mestres Cantores.


O segundo acto, passa-se na rua que é uma enorme escadaria rodeada por edifícios baixos e onde Sachs trabalha ao ar-livre, martelando as solas dos sapatos de Beckmesser. No final transforma-se num enorme tumulto.


O terceiro acto decorre às portas de Nuremberga num terreno amplo onde foi montada uma estrutura para a festa. Há um pormenor interessante que mostra a riqueza do detalhe. Na muralha há uma bandeira que está sempre a esvoaçar: terá de haver uma ventoinha para que se crie o efeito.

É, pois, uma encenação muito interessante, vistosa e eficaz.


A Orquestra do MET foi dirigida pelo semideus do teatro: James Levine. O estatuto é merecido, diga-se. As suas interpretações de Wagner são muito famosas e não é por acaso. James Levine eleva a orquestra a níveis estratosféricos e Wagner, por certo, regozijar-se-á com uma interpretação tão viva, cuidada, clara nas linhas melódicas e coordenada. A interpretação foi magnética!

Também o Coro do MET teve uma performance de nível muito alto.

Relativamente aos cantores. Não vou nomear um a um a extensa lista dos cantores com papéis menos relevantes. Direi apenas que se apresentaram globalmente com um nível elevado, a fazer jus à qualidade que tornou o MET um palco de referência.


Tivemos a estreia de Paul Appleby em papéis mais relevantes. Trata-se de um tenor do programa de formação do MET que se apresentou evidenciando muita segurança no seu curto papel, mas relevante e muito belo. A voz é viva e límpida, a técnica segura e Appleby esteve interpretativamente muito bem. Cenicamente foi muito empenhado, mostrando-se um David de muita categoria. Tal como Polenzani que também fez este papel e é um tenor da alta roda, Appleby poderá ter um futuro interessante como intérprete solista internacional. A sua amada Magdalena foi interpretada pelo meio-soprano Karen Cargil que esteve, igualmente, em evidência pela formas vocal e cénica que apresentou.


O Pogner do baixo Hans-Peter König foi imenso. O cantor tem uma das vozes mais bonitas no seu registo, a amplitude vocal é incrível e a facilidade com que canta e interpreta fazem deles um cantor de topo. Acresce que a sua figura — alta, bonacheirona e já a denotar a idade — o fazem perfeito para o papel. Não se pode pôr um jovem a cantar este papel: em 2002, René Pape era o pai de Karita Matilla...


Johannes Martin Kränzle interpretou Sixtus Beckmesser de forma interessante. Vocalmente esteve bem, mas foi cenicamente que se destacou pela comicidade que deu à personagem (excelente 3.º acto!) e que o tornaram motivo da chacota do povo.


A Eva de Annette Dasch tem uma excelente figura para o papel e interpretou com harmonia, jovialidade e leveza esta personagem wagneriana. O timbre da sua voz é bonito e o fraseado elegante. Foi (talvez) aqui e acolá um pouco mais estridente nos agudos, mas foi uma Eva de qualidade.


Johan Botha é um heldentenor por excelência e, como tal, fez um Walther von Stolzing de qualidade vocal superlativa. A facilidade com que lhe saem aqueles agudos rápidos e pontudos de Wagner é incrível e a sua voz é muito bonita. Que pena que tenha tanto peso: é um «barril»! [desculpem-me a comparação]. Isso dificulta-lhe muito a teatralidade e limita-o bastante. Torna uma aberração quando Eva o compara a David — o baixinho e magro David que matou o gigante e musculado Golias. Mas, paradoxos à parte, é um tenor incrível, um dos melhores intérpretes de Wagner da actualidade e deu-me imenso prazer ouvi-lo!


Propositadamente, deixo Michael Volle para o fim. Curvemo-nos perante o Hans Sachs deste barítono. Que interpretação de luxo: valeu-lhe um enorme triunfo no MET, mas de todo merecido. É difícil encontrar palavras para descrever a sua performance. Se vocalmente esteve muitíssimo bem e tem uma voz lindíssima, cenicamente foi um assombro. Humanizou a personagem Sachs de um modo soberbo, mostrando as suas angústias, paixões, irritações, preocupações e sabedoria. Confesso que adoro a postura mais contida e patriarcal de James Morris neste papel, mas esta de Volle contrasta pela adoção de um estilo mais terreno e provável. É por cantores como ele que a ópera é uma arte viva e que se prendem audiências. Que privilégio para quem lá esteve!

Esta récita dos Mestres Cantores de Nuremberga foi um espectáculo memorável. A sensação de magnetismo e vibração estética não se explica, mas sente-se. E isso é o que distingue um bom de um excelente espectáculo.

Nesta ligação ficam, ainda, alguns vídeos que o site do MET disponibiliza.

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(Review in English)

Yesterday, I attended to Richard Wagner's Die Meistersinger von Nürnberg broadcast of the MET Live in HD series.

It is a musical drama (or opera) in three acts composed since 1845 and only premiered in its entirety in 1868. The music and libretto are, as it could not be, of the same person: Richard Wagner. But this opera has characteristics different from other operas released before, it certainly is a comic opera - evading traditionally (very) serious operas as Tristan and Isolde, or the Ring of the Nibelung - and presents changes in the form, returning to a more classic operatic form with arias, quintets, etc.

The influence of Schopenhauer's philosophy is notorious and embodies on the noble nature of man and his renunciation of the will: Hans Sachs. His aria Wahn, Wahn, Wahn überall is like a manifesto of this philosophy.

You can read a synopsis in the Metropolitan site.

It is an large opera, with an average of 4h30min of continuous music (with the intervals is about 6 hours), which makes it difficult for beginners. The marathon is not for everyone and it was noted by the withdrawals which were leaving empty seats in a room filled initially. But it was not because tof poor quality. Not at all.

The staging is already old from Otto Schenk. As is characteristic of him, the size of the scenarios is huge, attention to detail is second to none and the narrative that allows the story is of tremendous fluidity. Follows the text brilliantly and just do not realize further details because the director of the transmission did not reach the same brilliance of stage director. I say this because these details (for example, when Eva purposely hides the veil in the church to make time to speak to Walther) are visible in the accomplishment of Brian Large in the 2002 DVD release of the same opera.

The first act takes place in a church, where celebration and then the meeting of the Meistersinger occur.

The second act takes place in the street which is a huge staircase surrounded by low buildings and where Sachs is working in open-air, hammering the soles of Beckmesser' shoes. . At the end it becomes a huge uproar.

The third act takes place at the gates of Nuremberg on a large terrain in which was set up a structure for the party. There is an interesting detail that shows the richness of details. In the wall there is a flag that is always fluttering: there must be a fan in order to create the effect.

It is therefore a very interesting staging, showy and effective.

The MET Orchestra was directed by the theater demigod: James Levine. The status is deserved, I must say. His interpretations of Wagner are very famous and it is no coincidence. James Levine brings the orchestra to stratospheric levels and Wagner, of course, shall rejoice with an interpretation so alive, careful, clear in the melodic lines and so coordinated . The interpretation was magnetic!

The MET Chorus had also an excellent performance.

Regarding singers. I will not nominate one by one the long list of singers with less relevant roles. I will just say that broadly presented with a high level, to do justice to the quality that has made MET a reference stage.

We had the debut of Paul Appleby in more important roles. He is a tenor of the MET training program that presented himself showing great confidence in his short role but relevant and beautiful. The voice is lively and clear, safe technique and was interpretively well. Scenically he was very committed, showing us a David of enormous category. As Polenzani, Appleby could have an interesting future as an international soloist. Your beloved Magdalena was performed by the mezzo-soprano Karen Cargill which was also highlighted by the vocal and scenic form she presented.

The bass Hans-Peter König was immense as Pogner. The singer has one of the most beautiful voices in the bass registry, the vocal range is amazing and the ease with which he sings and plays make him a top singer. Moreover, his figure - tall and warmfully kind already denoting he is agging - make him perfect for the role. You can not put a young man in this paper.

Johannes Martin Kränzle played Sixtus Beckmesser in an interesting way. Vocally he was fine, but it was by his scenic skills that he highlight himself proving to be very comic turning him the reason for everyone laughing.

Annette Dasch has an excellent figure for the role of Eva that she performed with harmony, playfulness and lightness . The timbre of her voice is beautiful and elegant phrasing. She was (perhaps) here and there a bit more strident in acute, but it was an Eva of great quality.

Johan Botha is a heldentenor par excellence As such, he made a Walther von Stolzing of superlative voice quality. The ease as he leave those quick and sharp wagnerian trebles is amazing and his voice is very beautiful. Too bad he has so much weight: he is a barrel! This makes it difficult theatricality limited him too much. It becomes an aberration when Eva compares Walther to David - the short and skinny David that kill the musculous giant Goliath. But paradoxes aside, he's an amazing tenor, one of the best Wagner interpreters of our time and gave me great pleasure to he him!

Purposely I let Michael Volle to the end. Let us bow before the Hans Sachs of the baritone. What luxury interpretation: he earned  a huge triumph at the MET, but all deserved. It's hard to find words to describe his performance. If vocally he was extremely well and has a beautiful voice, scenically he was a wonder. He humanized Sachs character in a superb way, showing his troubles, irritatability, concerns and wisdom. I confess I love the more restrained posture and patriarchal attitude of James Morris in this role, but this contrasts by the adoption of a more grounded and probable style. It is for singers like him that opera is a living art and people adhere massively to the halls . What a privilege for those who were there!

This recitation of the Master Singers of Nuremberg was a memorable show. The feeling of magnetism and aesthetic vibration can not be explained, but only felt. And that is what distinguishes a good from an excellent show.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

COSÌ FAN TUTTE, METropolitan OPERA, Nova Iorque, Abril de 2014 /METropolitan Opera, New York, April 2014

(review in English below)

 Cosi fan tutte é a ópera de W A Mozart com libretto de Lorenzo da Ponte que mais gosto. Vi-a recentemente num dia de chuva diluviana em Nova Iorque!


 A encenação, magnífica, é de Lesley Koenig. Toda a cenografia é de grande impacto visual, mas o primeiro quadro é fabuloso. Vêem-se em fundo, na penumbra, dois barcos, que parecem uma tela pintada. Mas não é, as personagens entram neles e um desloca-se. O jogo de luzes (de Duane Schuler) é muito eficaz, criando diversas atmosferas ao longo do quadro. Do melhor que tenho visto. Também os outros quadros são bonitos e estão muito bem conseguidos, mas o primeiro é único. A movimentação cénica é outra mais valia assinalável.

A Orquestra da Metropolitan Opera esteve ao mais alto nível mas, verdadeiramente sensacional, foi a direcção do maestro James Levine. Tempos e sonoridade perfeitos, primazia para os cantores, uma maravilha.


 Os solistas foram muito uniformes de de excelente nível.

O tenor americano Matthew Polenzani foi um Ferrando irrepreensível. Voz sempre bem colocada, timbre belíssimo, potência assinalável e interpretação cénica de qualidade. Transmitiu uma expressividade vocal marcante.



Também o Guglielmo do barítono russo Rodion Pogossov (um desconhecido para mim) esteve à altura da personagem, que interpretou com muita qualidade vocal e boa presença em palco.


 O veterano baixo barítono italiano Maurizio Muraro fez um grande Don Alfonso, muito correcto, de voz forte e afinada.


Isabel Leonard, mezzo “da casa”, foi uma Dorabella de boa presença cénica e voz bonita e afinada ao longo de toda a récita. Teve como ponto mais alto a ária È amore un ladroncello, no 2º acto. 


 O soprano australiano Danielle de Niese fez uma Despina excelente, tanto em comicidade como em interpretação vocal. Mostrou grande versatilidade artística, bem evidente quando encarnou o médico e o notário. Foi sempre muito viva, cómica e alegre.


 Finalmente outra interpretação fantástica foi de Susanna Philips, jovem soprano americano, que deu vida à Fiordiligi. A cantora é sempre muito expressiva (como se viu recentemente na excelente Musetta da La Bohème de há poucas semanas) e a voz é também magnífica. Timbre muito agradável, sempre sobre a orquestra, mantendo uniformidade qualitativa em todos os registos. Na ária dramática do 1º acto Come scoglio deu-nos uma interpretação acrobática e quase jocosa, como é desejável, contrastando com o lamento mais genuíno e humano na longa ária Per pieta no 2º acto, onde foi notável. Excelente!


 Uma daquelas poucas (infelizmente) récitas que não esquecerei rapidamente.









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Cosi fan tutte, Metropolitan Opera, New York, April 2014

Cosi fan tutte is my favorite Mozart 's opera with libretto by Lorenzo da Ponte. I saw it recently on a day of diluvian rain in New York!

The staging, magnificent, is by Lesley Koenig. The whole scenery is of great visual impact, but the first part is fabulous. We see in the background, in the shadows , two boats, which look like a painting. But it is not, we see the people enter in them and one then moves away. The lights (by Duane Schuler) are very effective, creating different atmospheres along the performance. Of the best I have seen. The rest of the scenery is also beautiful, but but the first part is unique.

The Orchestra of the Metropolitan Opera was at the highest level but, truly sensational, was the direction of conductor James Levine. Tempi and perfect sound, primacy for the singers, wonderful.

The soloists were very uniform and excellent.

American tenor Matthew Polenzani was a faultless Ferrando. His voice was powerful and with a beautiful timbre.Also a remarkable stage interpretation.

Also Russian baritone Rodion Pogossov (unknown to me) was a good Guglielmo, who sang with great quality and good stage presence.

Veteran Italian bass baritone Maurizio Muraro was a great Don Alfonso, very correct on stage and showing a strong and refined voice.

Isabel Leonard , mezzo from the " house " , composed Dorabella with good stage presence and beautiful and refined singing throughout the performance. She had the highest moment in the aria È amore un ladroncello in the 2nd act .

Australian soprano Danielle de Niese was
​​an excellent Despina, both in comedy and in vocal performance. She showed great artistic versatilitys, evident when he playied the doctor and the notary characters. She was always very lively, comic and cheerful.

Finally another fantastic interpretation was by young American soprano Susanna Philips who was Fiordiligi. The singer was always very expressive (as recently seen in the excellent Musetta in La Bohème a few weeks ago) and the voice is also magnificent. The timbre is very beautiful, the voice was always above the orchestra, keeping qualitative uniformity in all registers . In dramatic aria from Act 1 Come scoglio she gave us an acrobatic interpretation and almost playful, as it is desirable, contrasting with the more humain and genuine regret in the long aria Per pieta in the 2nd act, which was remarkable. Excellent!

One of those few (unfortunately) performances that I will not forget quickly.
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