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domingo, 3 de março de 2013

PARSIFAL – METlive – Fundação Calouste Gulbenkian - 2 Março 2013


Vou ser muito breve na minha opinião em relação ao Parsifal de hoje.

Resumindo, acho os pontos altos foram, sem dúvida, o terceiro acto, a prestação de Evgeny Nikitin e a direção de Gatti.




A encenação, não sendo espectacular ou inovadora, consegue, através das projeções de fundo, transportar-nos em cada momento para um mundo de tranquilidade simplista, no primeiro e terceiro actos, apesar de tudo o que se vive em emoções. Outros pormenores como a associação do sangue ao pecado, dominando o segundo acto e aparecendo fugazmente no primeiro, o sentido de transport a obra para um presente basicamente apenas pela utilização de vestes da actualidade, não são novidade e não impressionam.



Só quero falar de emoção hoje. E acho que não me vou conseguir exprimir em relação ao que sinto porque não vos posso demonstrar a minha concepção das personagens e da obra. Precisava de recorrer a exemplos vocais de cantores que me marcaram nos diversos papéis e dar a minha visão interpretativa de alguns deles. Todos nós temos ideas sobre como uma ópera que veneramos deve ser e eu, de todas as que adoro, talvez do Parsifal tenha essa ideia mais coesa e consistente.

Sinceramente, não consigo compreender Jonas Kaufmann. Não o compreendi em NY quando o vi em Siegmund em 2 récitas ao vivo em 2011 (e onde esteve claramente assimétrico em termos interpretativos) e não o consegui compreender hoje neste Parsifal. Foi capaz de nos oferecer um terceiro acto magnífico, onde conseguiu claramente modular a sua voz à interpretação e sair do registo que predominou no segundo acto. Neste, foi evidente a projeção massiva da voz e ausência, embora parecesse tentá-lo talvez em 10% dos momentos, do correcto sentimento para aquilo que estava a cantar. Foi demasiado seco e não me convenceu na sua epifania de tolo para iluminado. Não estou a discutir a capacidade de Kaufmann cantar, não estou a discutir o seu timbre, estou sim a procurar evidenciar o que a mim me apaixona na ópera e que é a emoção. E essa emoção parte, na plenitude, da capacidade de não só cantar todas as notas mas sim saber quando descer desse nível e valorizar a emoção correcta em cada momento, mesmo que isso implique cantar com menos potência.  Só assim se pode dizer que um cantor é uma boa personagem e, sendo assim, não alcançando essa plenitude, não posso dizer que Kaufmann é, neste momento, um excelente Parsifal. o se consegue livrar pela morte porque \ao se conaqueza humana cede, que se arrepende mas persegue-o a dor fnsistente.mann duranWagner não é só cantar alto e em bom som. 


O exemplo de hoje, talvez mais evidente desta qualidade é o de Evgeny Nikitin, com o seu excelente Klingsor, no sentido que referi.


René Pape esteve fantástico mas também se superou no terceiro acto a um nível estrelarmente emotivo, deixando como momentos mais marcantes do primeiro acto a passagem do cisne e a troca de olhares com Kaufmann durante a cerimónia, e muito menos marcante na sua narração da história do Graal. 



Katarina Dalayman fez uma Kundry de muito bom nível. 



Peter Mattei, para quem interpreta o papel de Amfortas pela primeira vez na carreira nesta produção, deixou-me a desejar que se envolva ainda mais neste papel. No seu monólogo do primeiro acto sempre em crescendo neste sentido de emoção vocal, embora não na perfeição, talvez em parte por culpa da posição obrigatória pelo encenador. Mas também porque é preciso ter uma grande identificação com este papel. Penso que não deve haver muitos cantores que saibam o que Amfortas sente e sejam capazes de o viver em palco. No fundo, um Homem de fé, que é posto à prova por Deus com Kundry e que falha, que na fraqueza humana cede, que se arrepende, mas em que a culpa o persegue infligindo uma dor completa: a dor física da ferida pela lança e a dor espiritual das quais não se consegue livrar pela morte porque a força do Graal o mantém vivo, não achando ser digno de a oferecer a terceiros que o obrigam a oferecer essa mesma força.

Confuso? Assim é a vida... E a ópera é isso... A vida de cada um de nós, projectada em palco.






sábado, 31 de março de 2012

Die Walküre, Bayerische Staatsoper, Munique, Março de 2012.


Die Walküre de R. Wagner tem sido uma ópera das mais comentadas aqui no blogue, talvez por ser uma das preferidas de, pelo menos, dois dos autores.


Desta vez coube-me o privilégio de assistir à novíssima produção da Bayerische Staatsoper, que culminará com um Anel completo em Julho, para o qual pedi bilhetes com mais de um ano de antecedência mas, infelizmente, não os consegui.




A produção é do alemão Andreas Kriegenburg. Gostei bastante, tem muitos pontos de interesse, mas também alguns aspectos controversos. Durante a abertura vê-se no palco Siegmund a lutar na floresta.



No início do primeiro acto o tecto desce, tem ao centro uma enorme árvore com a espada Notung nela cravada e com vários cadáveres pendurados. Em baixo está a casa de Sieglinde e Hunding. No início Sieglinde dá de beber a Siegmund através de umas raparigas que transportam o copo entre os dois, que estão em pólos opostos do palco. Vão-se aproximando e, num toque fortuito de mãos, sentem atracção imediata um pelo outro.



Uma mesa farta é colocada no centro do palco. Hunding chega e, ameaçando Siegmund, corta ao meio uma melancia com a espada e retira e espreme o seu conteúdo encarnado à frente de Siegmnud, ameaçando-o. A atracção entre os dois gémeos vai crescendo num efeito cénico muito bem conseguido e culmina, após a retirada da espada, numa cena de amor. A representação dos dois cantores é excelente.




No segundo acto, a montanha é substituída por uma sala grande (no Walhalla) contendo apenas uma secretária ao fundo, a lança de Wotan pendurada na parede e um grande quadro sobre ela.



Fricka aparece impecavelmente vestida, servida por um grupo elevado de empregados. É implacável com Wotan, obrigando-o a que Brünnhilde, a sua filha preferida, ajude Hunding a matar Siegmund. Muito contrariado e em sofrimento, Wotan dá essa ordem à filha, que fica em choque.



Brünnhilde encontra Siegmund e Sieglinde, avisa-o da sua morte próxima por Hunding mas, ao contactar com o amor pela primeira vez, decide protegê-los e desobedecer ao pai. Siegmund luta com Hunding mas não o consegue matar porque Wotan aparece e, com a lança, quebra a espada Notung. Siegmund é morto por Hunding e este, por influência de Wotan, corta o seu próprio pescoço e morre também.


O início do terceiro acto foi a fonte da grande controvérsia. A cortina abre e são içados, em estacas individuais, os heróis mortos e estropiados, espalhados por todo o palco. Segue-se uma coreografia de valquírias de trajos curtos, cabelos longos em constante movimento para a frente e para trás da cabeça, sapateado e suspiros ocasionais. O ritmo é frenético, não há música e o efeito é de mau gosto. O público manifesta-se ruidosamente em apupos e outras manifestações de desagrado, alguns gritando que querem ouvir música! A cena dura 10 minutos, uma eternidade!



Finalmente o maestro dá início à cavalgada das valquírias e as cantoras substituem as dançarinas e passa-se para outra dimensão. Cada uma tem as rédeas do seu cavalo e batem frequentemente com elas no chão, causando um ruído que perturba a audição da música. A parte claramente mais infeliz da encenação.


Segue-se o diálogo entre Brünnhilde e o pai, num dos trechos musicais mais belos alguma vez escritos. Novamente Wotan tem um comportamento excessivamente “humano” para o papel de um deus implacável.


No final o fogo sagrado que isola Brünnhilde é conseguido de forma original, com bailarinas alinhadas em círculo e, por fora, acende-se o fogo, potenciado por filmagens que abrangem todo o palco, num belo efeito.



A direcção musical de Kent Nagano, maestro americano titular da Bayerische Staatsoper, foi superlativa. Estive sentado a escassos metros dele. Com uma orquestra de qualidade excepcional, o som ouvido foi magnífico, numa direcção firme, bonita de se ver e silenciosa.





Kalus Florian Vogt, tenor alemão, foi fabuloso como Siegmund. Já me referi várias vezes a este cantor aqui no blogue. Tem um timbre claríssimo, doce, quase angelical. A beleza vocal é extraordinária e consegue sempre ouvir-se sobre a orquestra, nunca perdendo qualidade em qualquer registo. Os seus chamamentos por Wälse foram arrepiantes, mas toda a actuação foi primorosa. Percebi bem a admiração que o conhecedor público alemão tem por ele.




A Sieglinde de Anja Kampe, soprano alemão, foi arrebatadora. A cantora tem uma voz potentíssima, muito bonita e com uma projecção fantástica. Cenicamente foi marcante a sua actuação, poderia ser “apenas” uma actriz e não uma cantora. Foi a melhor presença feminina em palco e o público também o reconheceu.





O Hunding do baixo estónio Ain Anger foi perfeito. Autoritário, firme, grande poderio vocal, excelente figura e interpretação irrepreensível.



Sophie Koch, mezzo francês, foi uma Fricka marcante. A voz é de grande beleza, forte e segura. A cantora é bonita e elegante, o que também ajuda. Cenicamente foi irrepreensível, fira, e implacável com Wotan.




Thomas Mayer, barítono alemão, foi um Wotan avassalador. Em termos cénicos, achei que foi um deus demasiado humanizado, dado que o remorso e amor paternal pela filha Brünnhilde estiveram sempre presentes, mas essa opção foi do encenador. Foi excelente em palco, ajudado pela sua boa figura. A voz é de uma beleza insuperável. No 2º acto resguardou-se mas no 3º mostrou todo o seu esplendor vocal. Fabuloso.



A Brünnhilde do soprano sueco Katarina Dalayman surpreendeu-me pela positiva. Já a tinha ouvido e não me havia impressionado. Contudo, aqui, teve uma interpretação de elevada qualidade. A voz é poderosíssima embora, apenas no registo mais agudo, tem ocasional tendência para a estridência. Mas cumpriu o papel com muita dignidade e segurança.




No início do 3º acto as Valquírias tinham vozes de qualidade. Foi pena a opção do encenador, que tanto perturbou a audição.



Uma Valquíria inesquecível que, depois da vaia monumental no início do 3º acto, foi delirantemente aplaudida no final. Musicalmente assombrosa, ouviu-se Wagner no seu máximo esplendor!












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Die Walküre, Bayerische Staatsoper, Munich, March 2012

Die Walküre by R. Wagner has been one of the most commented operas here in the blog, perhaps because it is a favorite of at least two of the authors.

This time it was my privilege to attend the brand new production of the Bayerische Staatsoper, which will culminate in a complete Ring in July, for which I ordered tickets over a year in advance, but unfortunately I could not get them.

The staging is by German director Andreas Kriegenburg. I really liked it, there are many points of interest, but there are also some controversial aspects. During the overture we see Siegmund fighting in the woods.

At the beginning of the first act the ceiling comes down, and in the center there is huge tree with the sword Notung in it, and several corpses hanging. Below is the house of Hunding and Sieglinde. At the beginning, Sieglinde gives Siegmund water to drink with the aid of some girls carrying the glass between the two, which are at opposite sites of the stage. They approach each other smoothly and, after a casual touch of hands, they feel immediate attraction for each other.


A big table plenty of food is placed in the middle of the stage. Hunding arrives and, threatening Siegmund, cuts a watermelon in half with his sword and squeezes the red contents ahead of Siegmnud, threatening him. The attraction between the twins develops progressively in a very successful scenic effect and culminates, after the removal of the sword from the tree, with a love scene. The acting of the two singers is excellent.

In the second act, the mountain is replaced by a large room (in Walhalla) with only a desk in the back, the spear of Wotan hanging on the wall and a big picture on it.


Fricka appears impeccably dressed, served by a large group of employees and is ruthless with Wotan, forcing him to order Brünnhilde, his favorite daughter, to help Hunding to kill Siegmund. Very upset and in suffering, Wotan gives this order to his daughter, who is in shock.

Brünnhilde finds Sieglinde and Siegmund, and warns him of his near death by Hunding but, when she faces love for the first time, she decides to protect Seigmund and Sieglinde and disobey his father. Siegmund fights with Hunding, but can not kill him because Wotan appears and, with the spear, breaks the sword Notung. Siegmund is killed by Hunding. Hunding, by the influence of Wotan, cuts his own throat and dies too.



The beginning of the third act was the source of much controversy. The curtain opens and the dead heroes are lifted in single piles, all over the stage. Following this there is a choreography of the Valkyries, in short costumes and long hair constantly moving forward and back of the head, taping the floor and with occasional sighs. The pace is frenetic, there is no music and the effect is disgusting. The audience shout loud booing and other expressions of displeasure, some shouting they want to hear music! The scene lasts 10 minutes, an eternity!


Finally, the maestro begins the ride of the Valkyries and the dancers are replaced by the singers, and the performance reaches another dimension. Each Valkyrie has the reins of his horse and often beat them on the floor, causing a noise that disturbs the hearing of music. This is the unfortunate part of the staging.


Than we hear the dialogue between Brünnhilde and her father, one of the most beautiful pieces of music ever written. Again Wotan is behaving too "human" for the role of an unforgiving God.

At the end, the sacred fire that isolates Brünnhilde is achieved in an original way, with dancers lined on in a circle and the fire lighting up outside, boosted by film images covering the entire stage, originating a beautiful effect.



The musical direction of American conductor Kent Nagano, the main maestro of the Bayerische Staatsoper, was superlative. I was sitting a few feet from him. With an orchestra of exceptional quality, the sound heard is of exceptional quality, and the direction was firm, beautiful to see, and silent.

Kalus Florian Vogt, German tenor, was fabulous as Siegmund. I have already mentioned several times this singer here in the blog. He has a very clearsweet tone, almost angelical. The vocal beauty is extraordinary and he can always be heard over the orchestra, never losing any vocal quality. Their claas for Wälse were fabulous, but the whole performance was excellent. I now realized why the knowledgeable German public has such an admiration about this singer.



The Sieglinde of German soprano Anja Kampe, was overwhelming. The singer has a very powerful and beautiful voice, with a fantastic projection. Artistically her performance was outstanding, she could be "just" an actress and not a singer. She was the best female presence on stage and the audience also recognized that.

The Estonian bass Ain Anger was a perfect Hunding. He was authoritative, with strong, great vocal power, a good figure and flawless interpretation.

Sophie Koch, French mezzo, was a remarkable Fricka. Her voice is very beautiful, strong and secure. The singer is beautiful and elegant, which also helps. Artistically she was blameless. She was hurt and ruthless with Wot


Thomas Mayer, German baritone, was an overwhelming Wotan. I think he played a too humanized god, as remorse and fatherly love for his daughter Brünnhilde were always present, but this option was the director’s. He was great on stage, aided by his good figure. The voice is of an unsurpassed beauty. In the 2nd act he was prudent but in the 3rd he showed all his vocal splendor. Fabulous.



Swedish soprano Katarina Dalayman surprised me positively as Brünnhilde. I had heard her beforeit and I was not very impressed. However, here, she had a high quality performance. The voice is powerful though, in the higher register, she has an occasional tendency to stridency. But she sang the role with great dignity and security.



At the beginning of Act 3, the Valkyries had voices of great quality. It was regrettably the option of the director, who disturbed the hearing.

An unforgettable Valkyrie that, despite the monumental booing at the beginning of act 3, was praised deliriously by the public at the end . Musically it was a wonder, and we heard Wagner in his full splendour!

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Die Walkure - Opera de Paris (Bastille) - 9 de Junho 2010



A temporada 2009-2010 da Ópera de Paris inclui o início de um novo ciclo de Anel do Nibelungo em Paris.

Depois de o Ouro do Reno em Março, chegou agora a vez de A Valquíria que, como penso que todos concordam, se trata (muito provavelmente) da melhor ópera do ciclo (para mim é de certeza a melhor).

Tive então a oportunidade de assistir ontem a uma das diversas récitas desta nova produção parisiense.

Com um elenco, à partida, de grande classe (embora não possa dizer de topo), seria de esperar um espectáculo melhor do que aquele a que assisti. Tentarei relatar e comentar como se estivessem a assistir...

O primeiro acto incia-se na casa de Hunding. Esta produção oferece-nos uma sala com duas colunas brancas revestidas de crânios que me pareceram de carneiros (encontrava-me na 23ª fila da plateia... lugares sobrevalorizados do ponto de vista de custo...). Numa das colunas um pano negro que deixa em dúvida aquilo que esconde. Uma fogueira, um local onde não se consegue perceber mas corresponde a uma fonte (só perceptível quando alguém a utiliza e se vê ter como conteúdo água) e, como fundo, um painel a preto que no decorrer do acto se eleva e deixa transparecer um vidro amplo como se de uma janela se tratasse.

No prelúdio, em vez da simulação do casamento de Hunding e Sieglinde, como assistimos em São Carlos, e em vez de uma ausência de acção relevante como a que pude ver no Anel de Covent Garden, Londres, 2005-2007, assistimos à sanguinária acção de Hunding e dos seus homens, mais tarde relatada por Siegmund. Hunding e os seus capangas aqui vestidos como se soldados de tropa se tratassem, matam e violam, com esguichos de sangue evidentes mesmo à distância a que me encontrava. Ali ficam depois, virados de costas para o público, aguardando a entrada de Hunding em "cena". Siegmund, também de tropa, entra e segue-se toda a acção que penso que conhecem.

Talvez aqui seja bom começar a minha avaliação dos cantores...

Robert Dean Smith foi Siegmund e Ricarda Merbeth Sieglinde. O que dizer?

Achei ambos como azeite e água em palco. Em todos os momentos que estiveram a interagir, tudo pareceu, do ponto de vista cénico, forçado e sem efeito.
Não se sentiu qualquer intimidade, qualquer sentimento, olhar escondido, de quem no fundo se está a apaixonar.
Mesmo quem não conhecesse o enredo acharia, como eu, que estes dois só podeiam ser uma coisa: "parvos"! Um correr de um lado ao outro de cena por Merbeth, o cantar de Smith com a mão direita aberta de palma para o público, enfim... pouco eficaz.

Do ponto de vista vocal, Merbeth com voz aceitável, por vezes soluçando o canto encolhendo os ombros, mas sem sentimento na voz. Smith num registo que lhe é mais grave, com distorção tímbrica, e muito métrico, pouco melódico, num 1º acto que fica tão mais belo quando se assume como "bel canto" (posso afirmar tal sem pecar, FanaticoUm? :)).

Tudo melhorou quando Gunther Groissbock entrou. Clarificado nas suas posições em cena, com uma voz de timbre perfeito para o papel, voz interpretativa com temor nas alturas certas, dominou a cena em pleno. Revistou Siegmund quando o encontrou (ponto interessante da encenação) e até ao final do acto esteve no seu melhor. Fiquei muito impressionado por este jovem cantor.

A chegada de Hunding revelou então a tal janela ampla. só de vidro, no fundo do palco, e a chuva a cair intensamente sobre essa mesma janela (como sabem, na história, chove no exterior, é isso que a entrada orquestral tenta simular no início da ópera...).

O relato de Siegmund manteve-se métrico demais...
Deixado só, o duplo grito com que chama o pai Walse que lhe havia prometido a espada foi afinado mas completamente incorrecto. Ambos os Walse foram demasiado longos e não houve grande diferença de duração entre ambos. Quando chamamos alguém que não nos ouve, tendencialmente aumentos intensidade e alguma duração no segundo chamamento, e o mesmo acho que se deve fazer em ópera. Não em igual intensidade e duração. Enfim... mais um ponto criticável e do qual não gostei.
Merbeth aparece, não cria qualquer entoação especial qual fala do desconhecido com um olho apenas que apareceu no casamento e deixou a espada cravada na árvore. Falamos de Wotan e não de um homem (ou melhor Deus...) qualquer. Não se pode cantar como se não fosse importante... aqui Philippe Jordan também não ajudou orquestralmente.
O referido pano negro tapava um quadro em tons de dourado onde era claramente perceptível uma árvore mas sem se ver a espada. Sieglinde tratou de cortar o quadro após o destapar e por baixo encontrava-se então Notung.

Um pormenor interessante foi, quando Siegmund diz que "ninguém entrou nem saiu da casa mas é sim a Primavera que os vem cumprimentar", a janela fica totalmente descoberta com um luar cheio de luz, revelando então árvores com folha branca. Só no Wintersturmme deixa de chover o que realmente tem um efeito cénico muito bem conseguido (na altura pareceu-me demasiado tardia a interrupção da chuva mas ao escrever estas palavras compreendo agora o timing ideal).

Alguma magia (exceptuando a do papel de Hunding) apenas se viu apartir do "Siegmund heiss ich...". O andamento imprimido por Jordan e o acordar de Smith permitiram um final que se desejava ter visto durante todo o acto. Aqui, por um breve momento, os gémeos agora amantes funcionaram bem cenicamente, com o acto a terminar com ambos a sairem da casa e a serem vistos, através da janela, correndo pelas árvores, fugindo no seu amor.

O segundo acto foi, sem dúvida, o melhor de toda a récita.

Abre com uma mesa cheia das maças de Freia, onde as 9 valquírias se sentam e brincam com as mesmas. O fundo é agora substituído por um espelho que revela a escadaria que dá acesso ao palco. Umas letras escrevendo GERMANGEJ (com mais uma letra mas que não consegui perceber se era um I ou não...) não me transmitiram ideia nenhuma... German sim mas as restantes seriam de?

Katarina Dalayman como Brunnhilde parecia embalar-se para uma noite de glória. Potência na voz, sobre a orquestra, e muito confiante com à vontade cénico.

O Wotan (esperava o grande Falk Strukmann, mas aparentemente ainda adoentado) foi de um desconhecido para mim: Thomas Johannes Mayer. Entrou bem, com voz embora pouco forte em potência e com timbre pouco "à baixo" para o papel, passeava cenicamente convincente e com alma e entoação eficaz na voz. A Fricka de Yvonne Naef foi espectacular. Timbre perfeito, viu-se no espelho a subir a escadaria até se encontrar com Wotan, num vestido escarlate incapaz de nos deixar indiferente. Quando diz a Wotan: "Olha-me nos olhos..." obriga-o com um gesto de autoridade com a mão na face do Deus. Toda a passagem musical que procura transmitir o tormento psicológico de Wotan ao ver que Fricka tem razão e que ele não pode ajudar Siegmund, foi cenicamente fenomenal por Mayer, acabando num "mas ele encontrou a espada" sublime. Bom momento de ópera este dueto Fricka-Wotan.

O monólogo de Wotan foi também muito convincente quer cenica quer vocalmente. Terminou com as 3 primeiras letras do palco a serem empurradas escadaria abaixo e com um voltar da mesa com as maças de pantanas quando afirma que só lhe resta esperar por uma coisa: o FIM!

À frente do palco durante todo este tempo do 2º acto temos a lança de Wotan, prateada e extremamente luzidía, e o capacete e colete de Brunnhilde.

A passagem para Siegmund e Sieglinde trouxe novamente o que se assistiu no 1º acto: ausência completa de interacção cénica entre os dois. Tudo melhorou quando no dueto de Siegmund com Brunnhilde. Orquestra sublime, Smith transfigurado na voz, sem distorção tímbrica, convincente nos movimentos em relação com Dalayman segura como até então, arranjando em círculo as maças incialmente desordenadas no chão. Como fundo, já sem espelho, voltamos a ver as árvores do 1º acto, agora com as 8 restantes valquírias entre as mesmas.

Os capangas de Hunding chegam, envolvem Siegmund num círculo denso enquanto Merbeth canta de forma convincente e sem maneirismos cénicos fúteis.

Brunnhilde agarra na lança que sempre esteve no palco sem a mover mas ao aparecer Wotan dizendo para a largar ela foge assustada e termina o duelo com ambos os intervenientes lesados, Siegmund e Hunding (mais uma vez com um jacto de sangue à mistura). Fricka assiste a tudo.

O acto termina de forma aceitável mas penso que poderia ter mais impacto de outra forma. Em vez de Wotan fica de braços abertos para Fricka como quem diz "aqui está o que querias" ao apontar para ambos os corpos mortos (no fundo sem deixar transparecer qualquer sentimento em relação à morte do filho), poderia ter olhado para Siegmund com tristeza, aproximado de Fricka lançado-lhe olhar de reprovação em relação ao que se assistiu e acabar o acto a sair de cena atrás de Brunnhilde para a castigar. Isto acaba por ser a minha visão cénica, "armado" em encenador de ópera ultra-amador mas... deixem-me sonhar! Eu especialmente acho deliciosas as encenações em que Fricka aparece fisicamente neste final de acto...

O terceiro acto desiludiu vocalmente...

Inicia-se a "Cavalgada" com projecção de texto que me pareceu alemão, em que (traduzido no placar electrónico sobre o palco) se diz, resumindo...: "nós somos as Valquírias e andamos a reunir homens guerreiros heróis para fortalecer Walhalla". Entretando um grupo de pessoas vestidas de Samurais fazem movimentos de guerra sincronizados. À frente, quatro mesas têm sobre elas indivíduos do sexo masculino, completamente desnudos, manchados de sangue, os quais vão sendo lavados pelas valquírias; a certa altura, com um movimento de braços, como que transferem vida a estes homens e estes saem de palco, voltando outros nas mesmas condições para serem lavados, etc... alguns vêm puxados por elas em cobertores, arrastados pelo chão e amontoados a um canto antes deste procedimento purificador. Achei muito original embora houvesse alguns risos e comentários sonoros (do senhor à minha frente para a acompanhante) de possível reprovação...
Sieglinde e Brunnhilde chegam e Dalayman começa o show de gritos. Embora baptize o filho dos gémeos cantando claramente Siegfried, em vez do muitas vezes ajustado para facilitar "Saigfried", o final das frases no agudo terminavam com gritos e assim se manteve até ao final.
Wotan entra trazendo a lança e Siegmund enrolado num cobertor e coloca-o em cima de uma das mesas, central ao palco. Toda a cena de explicação do castigo a Brunnhilde é feita metricamente por Mayer, numa voz que se agrava em termos de ausência de força suficiente para se ouvir sobre a orquestra e que progressivamente se torna gutural em vez de visceral. Muito fraco.
O interlúdio orquestral que se ouve após a saída de cena das 8 valquírias é cortado com descida de pano de palco o que, no meu entender, distrai muito o seguimento da acção. Mas, no fundo, os Samurais tinham de sair bem como mais alguns acessórios de palco. Acho que não foram felizes neste aspecto.
Até ao final, Wotan e Brunnhilde, embora cenicamente aceitáveis, vão transmitindo a degradação da voz em progressivo, Dalayman com gritos, Mayer com som gutural, o que acabou por comprometer também a alma vocal que havia distribuído no 2º acto. A última interveção de Wotan não me fez ter medo nenhum da ponta da sua lança... completamente fora de tom, voz gasta de esforço. Ponto forte foi o sincronismo do "Der Gott" com a Orquesta e alguns aspectos cénicos: o colocar de Brunnhilde, por Wotan, ao lado do corpo de Siegmund envolto em cobertor - no fundo Wotan perde um filho pela morte e uma filha pelo castigo (muito bem conseguida esta visão); o passar de uma senhora vestida de luto de um lado ao outro do palco na passagem musical final - penso que seria Erda (também ela perdendo assim, de certo modo, uma das filhas - é a minha interpretação); e Brunnhilde acabado por acordar e se deitar debaixo da mesa como quem, com medo, se procura defender ainda mais. O palco revela cores vermelhas, ambiente de "pós-fogo" com alguns figurantes caracteristicamente humanos, talvez antevendo assim o fim dos deuses (a ver do modo como terminar o Crepúsculo) - Pode-se ver estes aspectos na foto que coloco.

Uma palavra final para Jordan que conduziu uma Orquestra bem oleada, por vezes empastada e sem ataque forte nas passagens importantes como a entrada com o tema de Hunding no primeiro acto mas globalmente bem nos restantes.

Não assisti ao Ouro do Reno mas, fazendo uma análise com base nesta A Valquíria, penso que não se trata de um Anel a considerar e a merecer seguimento (por quem pense fazê-lo) no Siegfried e Crespúsculo na próxima temporada (já revista por mim neste blog). A manter-se elenco semelhante, uma possível representação de ciclo completo no início da temporada de 2011-2012 soa-me pouco merecedor de investimento.