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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

L’ITALIANA IN ALGERI, METropolitan Opera, Outubro / October 2016


 (review in English below)
L’Italiana in Algeri de G. Rossini esteve em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque, na “velha” encenação de Jean-Pierre Ponnelle.

A acção passa-se no início do Sec. XIX no norte de África. Mustafà quer oferecer a sua mulher Elvira em casamento a Lindoro, um italiano feito prisioneiro. Se aceitar, ganhará a liberdade e poderá regressar a Itália. Mustafà quer adicionar uma jovem italiana ao seu harém. Um barco italiano é atacado por piratas e, entre os sobreviventes, está Isabella, namorada de Lindoro. Os piratas acham que ela é a jovem ideal para Mustafà. Este tudo faz para conquistá-la mas, depois de uma série de peripécias, os italianos embarcam para Itália e Mustafà, enganado e arrependido, volta a receber Elvira como mulher. A encenação é convencional e datada mas muito engraçada, com numerosas situações de grande comicidade, tanto nos cenários como na actuação dos intervenientes.

O maestro James Levine dirigiu a Orquestra e os cantores o que é, por si só, uma garantia que o espectáculo será muito bom. E assim foi.

O baixo russo Ildar Abdrazakov foi um Mustafà de grande qualidade, cénica e vocal. Não tendo uma voz grande, é muito eficaz na forma como a projecta. O timbre é muito bonito e canta sempre em afinação total, sem nunca gritar. Tem uma excelente figura, o que tornou credíveis algumas cenas de conquista feminina, e foi muito cómico em vários momentos.



A mezzo italiana Marianna Pizzolato fez uma Isabella em grande estilo. Tem uma voz escura, agradável, relativamente pequena, mas bem projectada. Foi outra grande intérprete da noite.



A grande revelação para mim foi o jovem tenor norte americano René Barbera no papel de Lindoro. Cantou com grande convicção, tem um timbre bonito e revelou uma enorme facilidade nas notas agudas que foram abundantes e sempre impecavelmente cantadas. Um verdadeiro tenor rossiniano a seguir.



Nos papéis secundários estiveram cantores que não destoaram, a saber, Ying Fang como Elvira (mulher de Mustafà), Rihab Chaieb como Zulma (escrava de Elvira), Dwayne Croft como Haly (um pirata capitão) e Nicola Alaimo como Tadeo (companheiro de viagem de Isabella e seu pretendente).






Uma noite rossiniana em grande estilo.







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L'Italiana in Algeri, Metropolitan Opera, October 2016

L'Italiana in Algeri by G. Rossini was on stage at the Metropolitan Opera in New York, in the "old" production by Jean-Pierre Ponnelle.

The action is set at the beginning of Sec. XIX in North Africa. Mustafà wants to offer his wife Elvira in marriage to Lindoro, an Italian taken prisoner. If he accepts, he will gain freedom and can return to Italy. Mustafà wants to add a young Italian woman to his harem. An Italian ship is attacked by pirates, and among the survivors is Isabella, Lindoro's girlfriend. Pirates think she is ideal for Mustafà. Mustafà does everything to conquer her, but after a series of adventures, the Italian embark for Italy and Mustafà, deceived and repented, returns to receive Elvira as a wife. The staging is conventional and dated but very funny, with numerous comic situations in both scenarios and the performance of players.

Conductor James Levine directed the orchestra and singers which is, in itself, a guarantee that the show will be of quality. And so it was.

Russian bass Ildar Abdrazakov was a great Mustafà, scenic and vocal. Not having a great voice, he is very effective in the way he projects it. The tone is very beautiful and he always sings at full pitch, never screaming. He has an excellent figure, which made credible some scenes of female conquer, and was very humorous at various times.

Italian mezzo Marianna Pizzolato was an Isabella in style. She has a pleasant dark voice, relatively small but well projected. She was another great performer of the night.

The great revelation for me was the young North American tenor René Barbera in the role of Lindoro. He sang with great conviction, has a beautiful tone and revealed a huge facility in the high notes that were abundant and always impeccably sung. A true rossinian tenor to follow.

In secondary roles hw saw other good singers, namely Ying Fang as Elvira (Mustafà‘s wife), Rihab Chaieb as Zulma (Elvira’s slave), Dwayne Croft as Haly (a pirate captain) and Nicola Alaimo as Tadeo (travel companion of Isabella and her admirer).

A rossinian night in style.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

IL BARBIERE DI SIVIGLIA, Opéra National de Paris (Bastille), 20/09/2014, texto de José António Miranda


(Fotografia Bernard Contant /ONP)

Il Barbiere di Siviglia, ópera em dois actos de Gioacchino Rossini está em cena na Ópera National de Paris (Bastille).
Libreto: Cesare Sterbini, segundo a comédia de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais
Direcção musical: Carlo Montanaro
Encenação: Damiano Michieletto
Cenografia: Paolo Fantin
Roupas: Silvia Aymonino
Luzes: Fabio Barettin
Il Conte d’Almaviva: René Barbera
Bartolo: Carlo Lepore
Rosina: Karine Deshayes
Figaro: Dalibor Jenis
Basilio: Orlin Anastassov
Fiorello: Tiago Matos
Berta: Cornelia Oncioiu
Um oficial: Lucio Prete
Orchestre de l’Opéra national de Paris
Choeur de l’Opéra national de Paris  Dir: José Luis Basso
Produção: Grand Théâtre de Genève

Uma lufada de ar fresco esta produção do “Barbeiro” que a ópera de Paris foi buscar a Genève, O mérito é todo de Damiano Michieletto, o encenador, e este espectáculo confirma-o como um dos mais estimulantes autores do panorama operático europeu actual. Juntamente com o cenógrafo Paolo Fantin e a figurinista Silvia Aymonino, Michieletto consegue apresentar-nos a obra de Rossini como se estivéssemos a ver a ópera pela primeira vez.

                                             (Fotografia Bernard Contant /ONP)

E não é apenas o facto de ter transposto para a actualidade o tempo da acção, artifício vulgar nos dias de hoje, e nos apresentar como cenário uma rua de um bairro popular sevilhano, que fundamenta aquela sensação de actualidade. Em primeiro lugar, tudo aquilo que se passa em cena decorre a um ritmo vertiginoso que nos identifica de imediato com o estilo contemporâneo da vida urbana, e que é afinal o tempo da música rossiniana,

Para além deste facto, o sucessivo encadeamento de cenas da ópera, que nas versões cénicas tradicionais pode por vezes aparecer como um conjunto de números brilhantes colados uns aos outros por enfadonhas pausas de recitativos, surge aqui com uma fluência a que não estamos habituados no palco. Esta fluência resulta do tratamento cénico da obra: encenador e cenógrafo abordam a ópera numa perspectiva cinematográfica, e desse modo toda a acção ganha uma nova dinâmica adquirindo consistência e unidade globais.

                                           (Fotografia Bernard Contant /ONP)

Como no cinema, a montagem é aqui o elemento fundamental para a obtenção de uma coerência global da obra. Neste caso, a mobilização do cenário introduz uma terceira dimensão espacial na narrativa, que deixa de ser vista como um conjunto de quadros justapostos e surge como uma verdadeira sequência cinematográfica. A forma como encenador e cenógrafo conseguem este efeito demonstra, para além do domínio da habilidade técnica, grande inteligência. Esta revela-se em momentos brilhantes, como a encenação da famosa ária Largo al factotum como uma vertiginosa corrida por todo o prédio de Bartolo, como um verdadeiro plano-sequência de filme, ou a localização da ária La calunnia na passagem de um vão de escada, com a paralela ilustração contemporânea da chuva de tablóides que acompanha o seu final.

Também o desempenho cénico dos intérpretes reflecte a proposta do encenador e a sua perspectiva global da obra, num registo naturalista mais característico de alguma estética cinematográfica do que da convenção teatral. São deliciosas as cenas finais do primeiro acto, bem  como a utilização de um dos elementos da guarda para, antes do início da função, multar o teclista no fosso por desobediência.

A direcção de Carlo Montanaro, apesar de revelar por vezes alguma dificuldade em controlar orquestra e cantores, não obstruiu o brilho geral do espectáculo.

                                        (Fotografia Bernard Contant /ONP)

Dalibor Jenis fez um Figaro correcto, demonstrando que suporta muito bem a passagem do tempo. Já Karine Deshayes (Rosina), revelou-se um pouco velha para o papel. René Barbera, o conde de Almaviva, mostrou grandes qualidades vocais, mas menor capacidade cénica. Os baixos Bartolo e Basilio estiveram bem. Foi porém Cornelia Oncioiu, no papel de Berta, que brilhou no conjunto, pelo apogeu vocal e à vontade cénico exibidos. 
O jovem português Tiago Matos (Fiorello) confirmou tratar-se de um barítono a cuja carreira haverá que estar atento.

José António Miranda


Em nome dos “Fanáticos da Ópera” agradecemos a José António Miranda a sua óptima contribuição, esperando que esta seja uma primeira de várias que venham a enriquecer este espaço.