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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Boris Godunov de Modest Mussorgsky — Teatro Real, Madrid — 5 de Outubro de 2012


(Review in English below)

A ópera Boris Godunov de Modest Mussorgsky é, sem sombra de dúvidas, uma das óperas mais originais escritas à sua época, não só pelo próprio argumento — focado nas questões políticas do poder e na qual o povo assume um papel-personagem fundamental —, como pelo desenrolar cénico e forma musical.

(fotos do próprio e da internet)

Mussorgsky não era um compositor profissional — foi um militar que aprendeu música de forma auto-didacta. Esse “amadorismo” terá levado Rimsky-Korsakov (notável maestro) a considerar as falhas da partitura original e a mudar mais de 3000 dos 4 mil e tal compassos da obra, oferecendo-nos uma versão muito harmoniosa e de uma beleza extraordinária. Quem não a transporta na sua cabeça através de gravações, por exemplo, como a de Karajan com o sublime Boris interpretado pela voz verdadeiramente única de Nicolai Ghiaurov? Todavia, a partir de 1975, voltou a privilegiar-se a versão original de Mussorgsky com toda a sua inegável força dramática e escrita dotada de enorme modernidade.

Esta ópera conheceu duas versões. A primeira data de 1869 e sete cenas centradas no drama psicológico de Boris Godunov. Foi prontamente rejeitada pelo Teatro Mariinsky por não se conformar na habitual configuração da grande ópera dramática: onde estava o grande amor arrebatador? E o que fazer ao soprano já contratado e aqui sem papel? Iria ficar a assistir? Não! 
Não derrotado, mas entusiasmado, Mussorgsky entregou-se à segunda versão que apresenta definitivamente em 1872 com novas cenas. Apesar de conforme as regras, só foi estreada 2 anos depois a 27 de Janeiro de 1874 no Teatro Mariinsky. A crítica disse “o compositor está louco”, enquanto o público aplaudiu entusiasticamente, obrigando o compositor a vir 20 vezes ao palco.

Boris Godunov é um drama baseado na obra homónima de Alexander Pushkin (1826) e no livro histórico “História do Império Russo” (1829) de Nikolai Karamazín. Foi-nos apresentada no Teatro Real de forma completíssima: com 10 cenas, incorporando a cena da Catedral de São Basílio presente na versão de 1869, mas suprimida na de 1872.


A nova produção do Teatro Real ficou a cargo de Johan Simons. Não trouxe novidades de maior. O cenário omnipresente é um edifício soviético de 3 andares muito degradado e, por sinal e carcateristicamente, muito feio. Aí se desenrola toda a acção, havendo um ou outro plano elevatório e várias janelas que não foram aproveitadas da melhor maneira. O guarda-roupa era actual e nada trouxe à ópera apresentada. A direcção de actores também não foi magnífica, por pouco dramática. A novidade foi a invocação do grupo russo Pussy Riot, tão famoso pela figura contestatária sem rosto ao regime de Putin que aqui foi invocada nalguns elementos, nomeadamente entre o coro. A utilização de uma camera de filmar com projecção no cenário de uma cena filmada em grande plano não foi mais do que um elemento vistoso. O Idiota ou O Iluminado (parece que esta é a tradução mais correcta) transportava um globo de luz: ele trazia a clareza, o esclarecimento, a sabedoria. Em suma, foi uma encenação que serviu o drama, mas cuja modernização nada acrescentou à obra.


A direcção musical de Hartmut Haenchen não tocou o sublime. Foi regular, mas faltou intensidade dramática e, no meu entender, sobretudo na cena da morte de Boris, foi demasiado rápido. Acresce o facto — negativo — de os sinos terem tocado, mas através de colunas de som que reproduziram o seu som previamente gravado... Ainda assim, a obra é magnífica e a qualidade foi muito razoável.

O Coro do Teatro Real ofereceu-nos os melhores momentos da récita: estiveram muito bem nos coros monumentais que esta ópera nos oferece e que são, sem dúvida, um dos seus pontos de maior interesse e destaque.


Gunther Groissbock foi Boris Godunov. Tem uma presença física espantosa e muito adequada ao papel e uma voz que sabe projectar com clareza. Todavia, a sua interpretação de Boris foi algo tensa, pouco dramática e, no meu entender, não suficientemente convincente. Creio que poderá vir a ser um bom Boris, mas ainda não o é.

Fiódor, o filho de Boris, foi interpretado por Alexandra Kadurina. Cumpriu bem o seu pequeno papel. Xenia, a filha de Boris, foi Alina Yarovaya: tem uma bela presença e também se apresentou vocalmente bem.


O príncipe Chuiski foi Stefen Margita que esteve em bom plano, quer vocal, quer cenicamente. A sua voz fez-se ouvir com clareza e tem um timbre adequado.

O tenor Michael Konig foi Grigori, o falso Dmitri. Creio que não tem uma voz cheia e ampla, e os agudos não são o seu forte. Cenicamente não foi perfeito. No seu todo, a sua prestação foi regular e esteve longe de encantar.

Dmitry Ulyanov foi o monge Pimen. Tem uma voz de baixo com enorme amplitude, potência e beleza. Interpretou o seu papel de forma exemplar e foi o melhor da noite! 

Marina Mnishek, a princesa polaca, foi o mezzo-soprano Julia Gertseva. Tem uma voz com um bom timbre e controla bem as notas mais agudas. Desempenhou bem o seu papel e foi uma das melhores da noite.


Yuri Nechaev foi Andrei Chelkalov e esteve bem, o mesmo se podendo dizer da dupla Rangoni (Evgeny Nikitin) e Varlaam (Anatoli Kotscherga). Este último, conceituado Boris, já estará longe daquilo de que foi capaz. A taberneira foi a mezzo-soprano Pilar Vázquez que nos foi apresentada com uma indumentária medonha, o que realçava a sua imagem corporal de enorme porte e nos distraía de uma voz pouco capaz. Já o Idiota foi o tenor Andrey Popov, que tinha uma voz adequada ao papel e cumpriu com destreza cenicamente.


Em suma, foi uma récita que, no seu todo, foi homogénea e interessante de seguir, mas com uma encenação que nada acrescentou (apesar de ser moderna...) e da qual não levamos nenhuma interpretação na memória.

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(Review in English)

The opera Boris Godunov by Modest Mussorgsky is, without a doubt, one of the most original operas of time, not only by the argument - focused on issues of power and politics in which the people plays a vital role as a major character - as by scenic development and musical form.

Mussorgsky was not a professional composer – he was a military man who learned music by himself. His "amateurism" has led Rimsky-Korsakov (notable conductor) to consider the flaws of the original score and change over 3000 of the more than 4000 bars of the score, giving us a very harmonious and extraordinarily beautiful revised version. Who does not carry it in your head through recordings, for example, like Karajan’s with the sublime Boris interpreted by the truly unique voice of Nicolai Ghiaurov? However, since 1975, there has been a return Mussorgsky's original version with all its undeniable dramatic power and writing endowed with enormous modernity.

This opera met two versions. The first date of 1869 and seven scenes focused on psychological drama of Boris Godunov. The Mariinsky Theatre promptly rejected it by not settling in the usual setting of great dramatic opera: where was the great love duet? And what do the soprano already hired here and paperless? Would get just to watch? Definitely, no!
Not defeated, but enthusiastic, Mussorgsky delivered to the second version that definitely shows in 1872 with new scenes. Although according to the rules, it was just premiered two years after on January 27, 1874 at the Mariinsky Theatre. The critics said, "The composer is crazy," while the audience applauded enthusiastically, forcing the composer to come to the stage 20 times.

Boris Godunov is a drama based on the homonymous work of Alexander Pushkin (1826) and historical book "History of the Russian Empire" (1829) by Nikolai Karamazín. It was presented to us at the Teatro Real in a very complete way: with 10 scenes, incorporating the 1869 version scene of St. Basil's Cathedral, but abolished in 1872.

Johan Simons handled the new Teatro Real production but he does not brought great new ideas. The scenario is a ubiquitous and very degraded Soviet building of 3 floors and, by the way, very ugly. Then all the action unfolds, with one plan or another elevated, and there were several windows that were not utilized in the best way. The costumes were modern but they brought nothing to the opera. The actors’ direction was not magnificent, by the fact that it was poorly dramatic. The novelty was the invocation of the Russian group Pussy Riot, famous for faceless contestation of President Putin’s regime that has been invoked in some elements, notably between the choir. Using a camera for filming one of the scenes and projecting it in close-up way was not more than a fashionable element. The Idiot or the The Lighted (seems that this is the most correct translation) carried a globe of light: he was the one who brought clarity, enlightenment, and wisdom. In short, it was a performance that served the drama, but whose modernization added nothing to the work.

The musical direction of Hartmut Haenchen did not touched the sublime. It was regular, but lacked dramatic intensity and, in my opinion, especially in Boris's death scene was too fast. Moreover, the fact – negative - that the bells have rung, but through speakers that reproduce its sound previously recorded... Still, the work is beautiful and the quality was very reasonable.

The Choir of the Teatro Real has offered us the best moments of the recital: the choirs of this monumental opera offer us marvellous momentous and are undoubtedly one of its major points of interest and focus.

Gunther Groissbock was Boris Godunov. He has an amazing physical presence well suited to the role and a voice he projects clearly. However, his interpretation of Boris was somewhat tense, and dramatic but, in my opinion, not sufficiently convincing. I think he could be a good Boris, but still he is not.

Feodor, Boris' son, was Alexandra Kadurina. She served well her small role. Xenia, Boris’ daughter, was Alina Yarovaya: she has a nice presence and also performed well vocally.

The prince Chuiski was Stefen Margita who was in good plan, either vocal or scenically. His voice was heard with clarity and has a proper timbre.

The tenor Michael Konig was Grigori, the false Dmitri. He does not have a voice full and wide, and high-pitched notes are not his best. Scenically he was not perfect. Overall, his performance was regular and was far from delighted.

Dmitry Ulyanov was the monk Pimen. He has a bass voice with great range, power and beauty. He played his part in an exemplary manner and was the best performer of the recitation!

Mnishek Marina, the Polish princess, was mezzo-soprano Julia Gertseva. She has a voice with good tone and she controls well the higher notes. She played her role well and was one of the best of the night.

Yuri Nechaev was Andrei Chelkalov and he did well, the same can be said of the Rangoni (Evgeny Nikitin) and Varlaam (Anatoli Kotscherga). The latter, well known as Boris, is already far from what he was capable of. The Innkeeper was a mezzo-soprano Pilar Vázquez presented to us with a hideous outfit, which emphasized her heavy body image and distracted us of her little voice capacities. Idiot was the tenor Andrey Popov, who had a voice appropriate to the role and fulfilled skilfully scenically.

In short, it was a performance that, as a whole, was homogeneous and interesting to follow, but with a staging that added nothing (despite being modernity...) and which does not take into memory any singer interpretation.

sábado, 8 de setembro de 2012

KHOVANSHCHINA, METropolitan Opera, Nova Iorque, Março de 2012


(review in english below)

Khovanshchina é uma ópera de Modest Mussorgsky com libretto incompleto do compositor, concluído por Rimsky-Korsakov. Posteriormente foi feita uma nova versão por Shostakovich.


 A ópera aborda os conflitos políticos e espirituais na Rússia dos finais do século XVII quando chega ao poder o czar reformista Pedro o Grande. Descreve o fracasso de uma milícia militar (Streltsy) fundada por Ivan o Terrível e comandada pelo príncipe Ivan Khovansky que defende os privilégios da antiga nobreza, e dos Antigos Crentes (raskolniki), chefiados por Dosifey, representantes da ortodoxia religiosa mais conservadora que acusa o czar de destruir os valores da Rússia. A estes junta-se um nobre reformista, o Príncipe Vasily Golitsyn, caído em desgraça.
As restantes personagens principais são o débil Príncipe Andrei Khovansky, filho de Ivan, Marfa, sua antiga amante e mulher de convicções fortes, agora membro dos Antigos Crentes, e Shaklovity, um nobre que se opõe às ideias de Ivan Khovansky. É também importante um escrivão que está frequentemente em cena, relatando vários episódios. A ópera termina com os Antigos Crentes a lançarem-se e serem consumidos por uma grande pira à chegada das forças do czar.
Apesar de o enredo ser algo complexo, a música não o é e a obra está repleta de árias declamatórias e magistrais intervenções corais evocativas da Rússia.




 A encenação de August Everding foi sóbria e eficaz, embora certas cenas, como as da praça vermelha e da capela, tenham ficado aquém do que seria expectável.


 A direcção musical do maestro russo Kirill Petrenko foi de grande categoria e imprimiu grande fluidez à orquestra, que respondeu ao seu alto nível habitual. O Coro do Met foi excelente e as intervenções são numerosas, grandiosas e espectaculares.


 Em relação aos cantores, o Met ofereceu-nos um elenco em que dominaram largamente os cantores russos e ucranianos o que, à partida, era logo uma circunstância favorável, como se veio a verificar.

Olga Borodina, mezzo russo, foi uma Marfa prodigiosa. O seu mezzo é de excepcional qualidade. A voz é grave, quente e de uma potência e beleza avassaladoras. As diferentes cenas foram interpretadas na perfeição, vocal e cenica. É uma daquelas cantoras que nunca desilude.


 O Dosifei do baixo russo Ildar Abdrazakov foi marcante, a sua voz é bem audível, mas em certos momentos pareceu-me estar algo tenso. Cenicamente também esteve bem, menos estático do que habitualmente o vi anteriormente.


 O Shaklovity do barítono georgiano George Gagnidze foi sinistro e ameaçador. A sua voz é bem timbrada e forte e a presença em palco marcante.


 Anatoli Kotscherga, baixo ucraniano, foi um fabuloso Príncipe Ivan Khovansky. O seu baixo é forte e de uma beleza tímbrica invulgar. Cenicamente foi excelente, sempre muito credível na figura do frágil e perturbado príncipe.


 O tenor ucraniano Misha Didyk, como Príncipe Andrei Khovanskynesteve também ao mais alto nível, oferecendo-nos uma expressiva interpretação vocal, bem timbrada e bem audível.


 O príncipe Vasily Golitsyn, interpretado pelo tenor russo Vladimir Galouzine foi o cantor menos forte da noite. Apesar de se ouvir bem, o seu timbre é excessivamente nasalado, o que não o favorece, e perde qualidade nas notas mais agudas.


 Finalmente merece relevo a excelente interpretação do tenor norte americano John Easterlin como escrivão. Óptima prestação vocal e perfeita interpretação cénica.










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Khovanshchina, Metropolitan Opera, New York, March 2012

Khovanshchina is an opera by Modest Mussorgsky with libretto by the composer, who died before the conclusion what happened by the hand of Rimsky-Korsakov and later was made a new version by Shostakovich.

The opera is about the spiritual and political conflicts in Russia of the late seventeenth century when reformist Tsar Peter the Great reached power. It describes the failure of a military militia (streltsy) founded by Ivan the Terrible and commanded by Prince Ivan Khovansky defending the privileges of the old nobility, and the Old Believers (raskolniki), headed by Dosifey, representatives of the most conservative religious orthodoxy that accused the Tsar of destroying the values of Russia. A noble (but disgraced) reformer, Prince Vasily Golitsyn joined them.
The other main characters are the fragile Prince Andrei Khovansky, son of Ivan, Marfa, his former lover and a woman of strong convictions, now a member of the Old Believers, and Shaklovity, a nobleman that opposes to the ideas of Ivan Khovansky. It is also important a clerk who is often on the scene, reporting several episodes. The opera ends with the Old Believers killing themselves by large fire when the forces of the Tsar arrive.
Although the plot is somewhat complex, the music is not, and the opera is full of declamatory arias and choral interventions about the fate of Russia.

The staging of August Everding was sober and efficient, although certain scenes, such as the red square and the chapel, were far short of what would be expected.

 Musical direction of russian conductor Kirill Petrenko  was of high class and imposed great fluidity to the orchestra, which responded with the usual high level. The Met chorus was excellent and their parts are numerous and spectacular.

Concerning the soloists, the Met has given us a cast of singers largely dominated by Russians and Ucranians, which was a favourable startingance, as it turned out.

Olga Borodina, Russian mezzo, was a prodigious Marfa. Her mezzo is of exceptional quality. The voice is deep, warm and of overwhelming power and beauty. The different scenes were interpreted perfectly, vocal and artistically. She's one of those singers who never disappoints.

Dosifei was Russian bass Ildar Abdrazakov. He was remarkable, his voice is well audible, but at times he seemed to be somewhat tense. Artistically he was also good, less static than I usually saw him before.

Georgian baritone George Gagnidze was a sinister and threatening Shaklovity. His voice is strong, with a nice timbre, and he had striking stage presence.

Anatoli Kotscherga, Ukrainian bass, was a fabulous Prince Ivan Khovansky. His bass is strong and with unusual beauty timbre. Artistically he was excellent, always very credible in the role of the fragile and troubled prince.

The Ukrainian tenor Misha Didyk, as Prince Andrei Khovansky was also at the top level, both vocal and artistic.

Prince Vasily Golitsyn, played by Russian tenor Vladimir Galouzine was the less strong singer of the evening. Although we could hear him well, his voise was too nasal, which did not sound nice, and he lost quality in top notes.

Finally the excellent interpretation of the North American tenor John Easterlin as the clerk deserves a positive mention. He had a great vocal and artistic performance.

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domingo, 24 de outubro de 2010

BORIS GODUNOV – Met Live em HD, Fundação Gulbenkian, Outubro de 2010


Na segunda transmissão da temporada do Met para Portugal e primeira ao vivo, a Gulbenkian volta a proporcionar-nos um espectáculo notável.

Baseada na peça de Alexander Pushkin, Boris Godunov é uma ópera grandiosa passada no final do Século XVI e início do Século XVII que narra a ascensão e queda do Czar Boris Godunov. A música e libreto são da autoria de Modest Mussorgsky.

É uma história que retrata o sofrimento e ambição do povo da Rússia, centrada no czar que vive dilacerado pela culpa, por ter mandado matar Dimitri, o herdeiro natural do trono, que ocupou. É um drama de proporções épicas que termina com a morte de Boris Godunov, enlouquecido, acusado do assassínio de Dimitri por um religioso idiota – Simplório – a quem é permitido, pela tradição, falar sem medo. Antes de morrer, nomeia o filho Fyodor seu sucessor. O povo russo lincha nobres da corte e jesuítas e aclama um impostor, Grigory, que se faz passar por Dimitri, que marcha sobre Moscovo acompanhado por Marina, uma princesa católica polaca que ambiciona ser czarina. A ópera termina com o Simplório a chorar pela Rússia.



A encenação de Stephen Wadsworth é algo minimalista, com cenários abstractos (mosteiros, Kremlin, floresta, tudo pouco explícito) mas que não deixa de ser eficaz. O guarda-roupa é rico e variado.

A direcção musical foi do maestro Valery Gergiev. A Orquestra da Metropolitan Opera teve uma prestação que fez justiça à riqueza tímbrica da obra de Mussorgsky.
O Coro da Metropolitan Opera, que nesta ópera é uma das peças mais importantes do espectáculo, foi constituído por 120 elementos. Teve uma actuação de grande nível, tanto vocal como artisticamente.


O baixo alemão René Pape, um dos poucos solistas não russos, interpretou Boris Godunov. Foi autoritário no papel, embora tenha um registo vocal médio mais elevado do que a personagem exige. Mas fez-se ouvir bem e a voz tem um belo timbre. Os dois monólogos foram, vocalmente, emocionantes. Em cena esteve muito bem, a capacidade de transmitir emoção nos gestos e expressões faciais é impressionante. Contudo, no quarto acto, já louco, os movimentos corporais faziam lembrar mais um embriagado que um atormentado.

Mikhail Petrenko foi outro baixo que se destacou. Fez o papel de Pimen, monge ermita que escreve a história da Rússia. Possuidor de uma voz poderosa, segura e, esta sim, capaz de graves profundos e prolongados.

Ainda outro baixo que deu boa conta do papel foi Vladimir Ognovenko que fez de Varlaam, outro monge.

O tenor Aleksandrs Antonenko foi Grygori / Dimitri. É detentor de uma voz potente, com agudos imponentes, mas algo “rígida” e pouco emotiva. Cenicamente foi um desastre.

O meio-soprano Ekaterina Semenchuk foi Marina, a princesa polaca. A voz é escura mas, ocasionalmente, deixava-se afogar pela orquestra.


Evgeni Nikitim, baixo-barítono, foi o jesuíta Rangoni e não convenceu. A voz era banal e o artista mau em palco, cheio de trejeitos bocais a cantar, sempre a olhar para o maestro e não teve qualquer preocupação com a representação.

O contrário pode dizer-se do tenor Andrey Popov que fez de Simplório, numa interpretação curta mas notável tanto cénica como vocalmente.

Merecem ainda uma palavra de elogio os filhos de Boris Godunov (no programa não constam os seus nomes), sobretudo Fyodor, interpretado de forma impressionante por um jovem adolescente de bela voz e grande presença em palco.

(Grande parte das fotografias são de Ken Howard)


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