A ópera Macbeth
de Verdi foi novamente posta em cena na Metropolitan
Opera de Nova Iorque.
A produção de Adrian
Noble transporta a acção para o período após a 2ª Guerra mundial, na
Escócia. É minimalista mas de belo efeito e muito eficaz. Sob uma floresta ao
fundo, o palácio é constituído por umas grandes colunas móveis e negras, tendo
como adereços apenas lustres, cadeiras e uma grande toalha. As bruxas vêm
vestidas de vagabundos.
Dirigiu o maestro
Marco Armiliato e o Coro e a
Orquestra estiveram em grande nível.
Macbeth foi
interpretado pelo barítono Zeljko Lucic,
depois do despedimento de Placido Domingo na véspera da estreia, na sequência
dos inenarráveis episódios de potencial assédio sexual (de há décadas no caso
de Domingo), que têm salpicado vários artistas operáticos, transformando o
mundo da ópera actual numa verdadeira telenovela mexicana. Lucic tem um timbre bonito,
a voz é grande mas canta de forma algo monótona e foi pouco emotivo, aquém da
exigência da personagem.
O baixo Ildar Abdrazakov foi um Banquo muito
bom. Tem uma boa presença cénica e uma voz muito agradável e afinada. Como
morre cedo, não canta muito.
O tenor Matthew Polenzani fez um Macduff de
qualidade. Desta vez a voz não me pareceu tão nasalada como em outras ocasiões
e o cantor projectou-a com grande eficácia, sempre audível sobre a orquestra.
Cantou afinado e teve uma prestação cénica correcta.
Deixo para o fim
a verdadeira protagonista da ópera, Lady Macbeth, aqui interpretada por Anna Netrebko. Foi colossal! Loira e quase
sempre descalça, surge numa cama, lê a carta do marido e canta magistralmente a
primeira ária Vieni, t’affretta! Daí
em diante domina todo o espectáculo. Transborda sensualidade, malvadez e
domínio. O canto enche totalmente a enorme sala e é de uma beleza ímpar,
ornamentado com notas estratosféricas em perfeita afinação. A famosa cena do
sonambulismo Una macchia è qui tuttora
culmina uma actuação superlativa!
É um privilégio
poder ver e ouvir Anna Netrebko, que ficará para a história como uma das
maiores cantoras de ópera do Século.
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MACBETH,
METropolitan Opera, October 2019
Verdi's
Macbeth opera was once again performed at New York's Metropolitan Opera. Adrian
Noble's production transports the action to the post-WWII period in Scotland.
It is minimalist but attractive and very effective. Under a forest in
the background, the palace is made up of large black movable columns, with only
chandeliers, chairs and a large towel. The witches come dressed as tramps.
Directed
maestro Marco Armiliato and the Choir and the Orchestra were at top level.
Macbeth was
played by baritone Zeljko Lucic after Placido Domingo's dismissal on the day before the premiere following the unspeakable episodes of potential sexual harassment
(from decades ago in the case of Domingo) that have peppered several opera
artists, transforming the opera world of today as a real Mexican soap opera. Lucic has a
beautiful tone, the voice is large but sings somewhat monotonously and was not
very emotional, short of the requirement of the character.
Bass Ildar
Abdrazakov was a very good Banquo. Has a good stage presence and a very nice
and tuned voice. Because he dies early, he doesn't sing much.
Tenor
Matthew Polenzani was a quality Macduff. This time the voice did not seem as
nasal to me as on other occasions and the singer projected it with great
effectiveness, always audible over the orchestra. He sang in tune and had a
correct scenic performance.
I leave to
the end the true protagonist of the opera, Lady Macbeth, played here by Anna
Netrebko. She was colossal! Blonde and almost always barefoot, she appears in
bed, reads her husband's letter and masterfully sings the first aria Vieni t'affretta! From then on she dominates the whole performance. Overflows sensuality,
wickedness and dominance. The singing completely fills the huge auditorium and is of
unparalleled beauty, adorned with stratospheric notes in perfect pitch. The
famous sleepwalking scene Una macchia è qui tuttora culminates a superlative
performance!
It is a
privilege to be able to see and hear Anna Netrebko, who will make history as one
of the greatest opera singers of the century.
A ópera Macbeth foi estreada em 1847 em Florença depois de mais uma colaboração entre Francesco Maria Piave e Giuseppe Verdi. Mais tarde, em 1865, a ópera foi extensamente revista para a Ópera de Paris. Actualmente, é esta última versão aquela que é regularmente apresentada nos teatros.
A história é baseada no drama homónimo de William Shakespeare, dramaturgo de referência para Verdi e que lhe inspirou outras óperas: Otello e Falstaff. É uma história de ambição, poder, crime e da culpa levada ao extremo da loucura. O libreto segue o drama inglês de forma muito próxima, sendo a alteração principal a transformação das três bruxas num conjunto de 3 coros femininos que, ainda assim, cantam cada um deles como uma personagem.
A encenação de Phyllida Lloyd é muito rica e interessante, tendo sido estreada na ROH em 2002. Aqui foi retomada por Daniel Dooner.
Imagens da ROH
A acção não é situada num século particular e a encenadora pretende dar relevo à atribuição de significados simbólicos a diversos elementos cénicos. Desde logo pela caracterização das bruxas. Sendo estas encaradas ao longo de séculos como símbolo demoníaco e maléfico, Lloyd caracteriza-as ao estilo de Frida Kahlo, quer na maquilhagem, quer no guarda roupa preto com turbante vermelho vivo. Se habitualmente a mulher em Macbeth é um ser maléfico nas suas acções, nesta encenação a mulher não é entendida exclusivamente como um símbolo do mal, demoníaco ou mágico. É-lhe, antes, atribuído um papel activo, um cunho irreverente, funcionando com um símbolo da emancipação da mulher que deve poder decidir as suas acções, sejam elas boas ou más. Para tal contribui o papel que é dado a uma bruxa que, como figurante, ajuda ao desenrolar da acção: por exemplo, é ela quem entrega a coroa de Duncan a Macbeth, é ela quem ajuda o pequeno Fleance a fugir de ser assassinado.
Imagens da ROH
Igualmente interessante é o uso da água: há uma espécie de lavatório no canto direito do palco que é usado com frequência para a lavagem das mãos, como se a necessidade de purificação das mãos manchadas pelo crime fosse permanente. Apesar dessa limpeza ser, como sabemos, ineficaz, a verdade é que há essa procura de purificação ou, antes, de ocultação do mal pela água.
Imagens da ROH
O uso de uma caixa em forma de gradeamento dourado também é interessante. É como se o poder estivesse sempre simbolicamente aprisionado: nessa caixa aparece Duncan a cavalo e é nela que é, posteriormente, assassinado. A caixa funciona também como a sala do trono, sala onde Macbeth é coroado e assassinado, e onde Malcolm retoma o poder.
Imagens da ROH
Para vincar essa ideia, a coroa de Macbeth surge encerrada numa pequena réplica dessa caixa quando, depois de coroado, Macbeth procura descansar no seu quarto.
Imagens da ROH
Do ponto de vista visual a encenação é impactante, apesar de escura, como aliás é habitual nas encenações de Macbeth. O cenário global é uma estrutura em madeira aos quadrados (como uma tablete de chocolate) pintada a negro matte. Esta estrutura vai aparecendo e desaparecendo, colocando os cantores num cenário sombrio e de algum modo claustrofóbico, como que a limitar no espaço a ambição pelo poder. A cama dos Macbeth é uma réplica dessa estrutura, cuja colcha reproduz esse padrão, mas com quadrados negros brilhantes. A forma como as alucinações e visões de Macbeth são apresentadas é convencional, mas muito eficaz. E não faltam os pormenores cénicos especificados no libreto: Duncan banhado em sangue, as diferentes visões, a lanterna de Lady Macbeth, os ramos da floresta de Birman.
O ponto negativo, a realçar algum, é a direção de actores que é, mais do que monótona, algo artificial, não impedindo, contudo, o desenrolar da acção de forma fluída.
A Orquestra da ROH apresentou-se ao mais alto nível sob a direção de Antonio Pappano, cuja capacidade para explorar as dinâmicas musicais da partitura foi magistral, assim como a expressividade que consegue nos diferentes momentos da ópera: é dramático, lírico, religioso ou pungente sempre que tal é exigido.
O Coro da ROH teve igualmente uma prestação de elevada qualidade, quer os três conjuntos das bruxas — sempre com um tempo e intensidade magníficos —, quer todo o coro nas suas diversas intervenções com destaque natural para o coro dos refugiados Patria oppressa.
Imagens da ROH
Quanto aos cantores, o elenco era dominado pela presença de Anna Netrebko. A sua presença magnética, carisma e voz sem paralelo no mundo lírico actual catapultaram-na para uma prestação de absoluta excelência. A voz está enorme e Netrebko sabe usá-la em toda a sua extensão: os agudos são estratosféricos, os graves sublimes, as passagens em piano ou as entradas em forte inatacáveis, e apresentou uma coloratura impecável. A sua Lady é maléfica e manipuladora e cambia a forma como faz e diz em perfeita consonância com a acção. A leitura da carta, passagem de grande dificuldade na atribuição de um cunho dramático e anunciador da trama trágica que se vai seguir, foi perfeita, assim como todas as intervenções seguintes, podendo destacar a ária La luce langue cujo A loro um requiem, l’eternita foi arrepiante. Netrebko é um espanto e, no meu entender, ninguém canta ou cantou o papel de Lady Macbeth melhor. Que privilégio!
Imagens da ROH
Željko Lučić, como Macbeth, foi a figura central do elenco masculino. A sua voz é, indubitavelmente, bonita e grande e, creio, ter tudo para ser a de um verdadeiro barítono verdiano. Todavia, sucede que está a milhas de o ser. A sua interpretação cénica é estática, coisa que perdoaria não fosse a sua interpretação vocal de uma monotonia exasperante. É incapaz de transmitir emoções: por isso canta Iago tal como canta Rigoletto ou Macbeth. Por exemplo, quando a alucinar diz Ma fuggi, deh, fuggi, fantasma tremendo! parece tão desesperado quanto eu estaria a relaxar num esteira de uma piscina com um mojito na mão. Em jeito de comparação, é como um computador a tocar piano: tem voz, mas não tem vida! Uma frustração porque vocalmente não falha uma.
Imagens da ROH
Ildebrando D’Arcangelo foi um Banquo de grande categoria, apresentando uma excelente forma vocal e uma projeção irrepreensível. O papel é pequeno, mas bonito, e D’Arcangelo, como habitualmente, engrandeceu-o com uma magnífica interpretação de Come dal ciel precipita.
David Junghoon Kim foi um Macduff de voz cheia e com excelente projeção, tendo cantado a famosa ária O figli, o figli miei! de forma expressiva e elegante.
Konu Kim foi um Malcolm de qualidade. Foi engraçado que quer Macduff, quer Malcolm tivessem sido cantores asiáticos: parecia que a Escócia ia ser tomada de assalto pela Coreia do Sul.
As restantes personagens, nos seus pequenos papéis, estiveram em muito bom nível, destacando Francesca Chiejina como aia de Macbeth pela beleza do timbre.
A deslocação a Londres ficou totalmente justificada. Assistiu-se a uma récita de elevadíssimo nível qualitativo, a começar pela encenação que se destaca pela riqueza simbólica, passando pela orquestra de musicalidade sumptuosa e terminando nos cantores de nível global muito alto. E faço duas menções: uma negativa para Lučić, pela frustração que causa a sua monotonia; uma tremendamente positiva para Netrebko, pela incomparável qualidade como intérprete. Diria mesmo que quando Netrebko participa em récitas de Macbeth a ópera dever-se-ia chamar Lady Macbeth!
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(Review in English)
The opera Macbeth was premiered in 1847 in Florence resulting from another collaboration between Francesco Maria Piave and Giuseppe Verdi. Later, in 1865, the opera was extensively reviewed for the Paris Ópera. Nowadays, it is this last version that is regularly presented in the theatres.
The story is based on the homonymous William Shakespeare’s drama, playwright of reference for Verdi and that inspired to him other operas: as Otello or Falstaff. It is a story of ambition, power, crime and guilt taken to the extreme of madness. The libretto follows the English drama closely, the main alteration being the transformation of the three witches into a set of three female choirs that still sing each of them as a solo character.
Phyllida Lloyd's staging is very rich and interesting, having premiered at ROH in 2002. This time, it’s revisited by Daniel Dooner.
The setting is not situated in a particular century and the stage director intends to attribute symbolic meanings to various scenic elements. First of all, the characterisation of witches. Witches has been regarded for centuries as a demonic and malefic symbol. Lloyd characterises them in the style of Frida Kahlo, both in their make-up and in the black wardrobe with a bright red turban. If usually the woman in Macbeth is an evil being in her actions, in this scenario the woman is not understood as a symbol of evil, demonic or magical powers. Rather, she is given an active role, an irreverent character, functioning as a symbol of the emancipation of the woman who must be able to decide her actions, being they good or bad. For this, the role that is given to a witch who, as an assistant, helps in the unfolding of the action: for example, it is she who delivers the crown of Duncan to Macbeth, it is she who helps little Malcolm to escape being assassinated.
Equally interesting is the use of water: there is a kind of lavatory on the right-hand corner of the stage that is often used for hand-washing, as if the need to cleanse the hands stained by crime was permanent. Although this cleansing is, as we know, ineffective, the truth is that there is this quest for purification or, rather, for hiding evil through the water.
The use of a box in the shape of a golden cage is also interesting. It is as if the power were always symbolically imprisoned: in this cage Duncan appears on his horseback and is in that cage he will be assassinated. The box also functions as the throne room, where Macbeth is crowned and murdered, and where Malcolm regains power. To emphasise this, Macbeth's crown is enclosed in a small replica of this cage when, after crowning, Macbeth seeks to rest in his room.
The staging is visually striking, although a bit too dark, as is usual in Macbeth's stagings. The overall setting is a wooden frame with squares (like a chocolate bar) painted in matte black. This structure appears and disappears, creating a dark and claustrophobic scenario, as if it was to limit in space the ambition for power. The Macbeth bed is a replica of this structure, whose quilt reproduces this pattern, but with shiny black squares. The way Macbeth's hallucinations and visions are presented is conventional, but very effective. And the scenic details specified in the script are all present: Duncan bathed in blood, the different visions, the lantern of Lady Macbeth, the branches of the Birman forest.
The negative point, to mention one, is the direction of actors that is, more than monotonous, a bit artificial. Despite this, it does not prevent the unfolding of the action in a fluid way.
The ROH Orchestra performed at the highest level under the Antonio Pappano’sbaton, whose ability to explore the musical dynamics of the score was masterful, as well as the expressiveness it achieves in the different moments of the opera: it is dramatic, lyrical, religious or pungent where required.
The ROH Choir also had a high quality performance, both the three sets of witches - always with a magnificent time and intensity - and the whole choir in its various interventions with a natural highlight for the refugees’ chorus Patria oppressa.
As for the singers, the cast was dominated by the presence of Anna Netrebko. Her magnetic presence, charisma, and unparalleled voice in today's lyrical world have catapulted her into a performance of absolute excellence. The voice is enormous and Netrebko knows how to use it in all its length: the highs are stratospheric, the basses sublime, the passages in piano or the fortes unassailable, and presented an impeccable coloratura. Your Lady is evil and manipulative and changes the way she does and says everything in perfect harmony with the action. The reading of the letter, a passage of great difficulty in the attribution of a dramatic and announcing tragic trait that is to follow, was perfect, as well as all the following interventions. I could emphasise the aria La luce langue whose A loro un requiem, l’eternita was amazing. Netrebko is an astonishment and, in my opinion, no one sings or sang the role of Lady Macbeth any better. What a privilege!
Željko Lučić, as Macbeth, was the central figure of the male cast. His voice is undoubtedly beautiful and great and, I believe, have everything to be that of a true Verdian baritone. However, it happens that it is miles away from being so. His scenic interpretation is static, which I would forgive, but his vocal interpretation is of exasperating vocal monotony. He is incapable of transmitting emotions: he sings Iago as he sings Rigoletto or Macbeth. For example, when hallucinating he says Ma fuggi, deh, fuggi, fantasma tremendo! it seems as desperate as if I would be to relax on a pool with a mojito in my hand. In comparison, he's like a computer playing the piano: he has the voice, but no life, which is a huge frustration because he does not fail a note vocally speaking.
Ildebrando D'Arcangelo was a Banquo of great category, presenting an excellent vocal form and an impeccable projection. The role is short but beautiful, and D'Arcangelo, as usual, magnified it with a magnificent interpretation of Come dal ciel precipita.
David Junghoon Kim was a Macduff with huge voice and with excellent projection, having sung the famous aria O figli, o figli miei! in an expressive and elegant way.
Konu Kim was a Malcolm of good quality. It was funny that either Macduff or Malcolm were Asian singers: it seemed that Scotland was going to be taken by South Korea.
The remaining characters, in their short roles, were at a very good level, highlighting Francesca Chiejina as Macbeth's lady-in-waiting for the beauty of the timbre.
The trip to London was totally justified. There was a recital of very high quality, starting with the staging that stands out for the symbolic richness, passing by the sumptuous orchestra of great musicality and ending up with the singers of a very high global level. And I must make two special mentions: a negative one to Lučić, by the frustration that causes his monotony; a tremendously positive for Netrebko, for her incomparable quality as an interpreter. I would even say that when Netrebko participates in recitals of Macbeth the opera should be called Lady Macbeth!
Assisti à penúltima e última récitas da ópera Macbeth de Giuseppe Verdi. Trata-se de um ópera estreada em 1847, num dos períodos mais produtivos do compositor, mas, sobretudo, num período de maturação estilística de Verdi, havendo já muito daquele Verdi da trilogia popular (Il Trovatore, Rigoletto e La Traviata). Esta ópera foi, aquando da estreia em Paris em 1865, globalmente revista, sendo essa versão, claramente superior à original, aquela que hoje em dia se representa. Trata-se da primeira obra de Verdi que tem por base um peça do dramaturgo inglês William Shakespeare que foi adaptada pelo seu libretista Francesco Maria Piave. Para o meu gosto pessoal, trata-se de uma das óperas mais entusiasmantes de Verdi, com todo um conjunto de árias de dificuldade muito elevada e com um ritmo alucinante entre cenas.
O texto de Shakespeare é uma trama de crime guiado pela sede de poder e, também, da culpa geradora de uma tremenda angústia que conduz à loucura. Trata-se de uma peça muito rica que foi adaptada com qualidade por Piave, muito embora sem a genialidade do libretista de Otelo e Falstaff — Arrigo Boito. Poderão ler uma sinopse e conjunto de textos interessantes, além do libreto com excelente tradução para português, no programa de sala do TNSC de 2007.
A encenação de Elena Barbalich já era conhecida de parte do público, uma vez que se trata de uma reposição da encenação de Macbeth de 2007. É uma encenação interessante e que permite, de forma extremamente eficaz, o desenrolar da acção atendendo aos pormenores do libreto.
Destaca-se uma circunferência em forma de íris e com 8 partes espelhadas que, ao longo da acção, toma diversos papéis: serve como uma espécie de olho que permite as revelações das bruxas; de mesa aquando do banquete; de caldeirão nas revelações do III acto; torna-se escura e opaca quando os 8 reis empunham, cada um, um espelho; de ligação permanente entre a realidade, a revelação, a loucura e uma metáfora de observação que, no fundo, olha também para nós, elementos do público.
O jogo de luzes entre o vermelho e o branco é interessante, nomeadamente quando Duncano é assassinado: o fundo branco torna-se vermelho e, mais tarde, quando Duncano surge coberto do seu sangue vermelho-vivo, o fundo torna-se branco em contraste. Também são interessantes os flashes de luz branca aquando das revelações, ou o jogo de projecções baças e mal definidas das alucinações.
O vestuário é de época e rico em detalhes. Peca pela direcção de actores no que diz respeito aos solistas. É demasiado estática e não promove o dramatismo.
É, pois, uma encenação bem interessante e agradável de acompanhar e que enriquece a ópera, não tentando ser pretensiosa ao atribuir novos significados à acção. Aliás, comparativamente à nova produção do MET de que aqui se deu conta, creio que esta encenação é muito mais interessante. Não posso concordar com quem ache que se trata de uma encenação destituída de interesse ou qualidade, ou, muito menos!, que se trate de uma encenação obsoleta, indigente ou carente de outros demais adjectivos negativos. Antes pelo contrário!
A Orquestra Sinfónica Portuguesa dirigida por Domenico Longo apresentou um nível bom. Foi intensa a espaços e conseguiu criar momentos de dramatismo elevado, com um tempo interessante e, globalmente, favorável aos cantores. Foi, sem atingir o brilhantismo, uma interpretação de qualidade.
A ópera tem, como personagens principais, Macbeth — homem ambicioso e manipulável, com pouco recursos para lidar com a ambivalência que lhe geram os seus desejos e os seu actos —, Lady Macbeth — mulher implacável, perturbada, sem escrúpulos e com uma sede de poder que deixaria Maquiavél envergonhado —, e as Bruxas — elemento central do desenrolar da acção eque lhe introduz sentido mágico.
Macbeth foi interpretado pelo barítono Àngel Òdena. Dotado de uma voz bem timbrada e agradável e dono de bons recursos dramáticos, foi um Macbeth convincente. Terminou em plano muito elevado na sua ária Pietà, rispetto, amore. É verdade que, cenicamente, não foi extraordinário, mas creio que esteve algo diminuído pela direcção de actores que, inclusive, o obrigou a um exercício acrobático e algo perigoso, ao fazê-lo subir uma cadeira muito alta envolto no seu manto comprido. Foi, apesar disso e no meu entender, o melhor da noite e um Macbeth de elevado nível vocal.
Lady Macbeth foi Elisabete Matos. Dotada de uma voz poderosa, metálica e de ampla tessitura, esperava-se uma Lady Macbeth de nível muito elevado. Cenicamente apenas cumpriu, não conseguindo passar a imagem de mulher perturbadamente sedenta de poder a qualquer custo, talvez pela sua postura demasiado estática. Vocalmente, cumpriu sem deslumbrar, o que muito se deveu à forma estranha como finalizava as notas mais agudas, a tendência para a estridência e à dificuldade em imprimir lirismo ao seu fraseado. Assim, quer em Vieni! t’affretta e La luce langue esteve longe de brilhar e perto de desiludir. Na famosa ária da loucura Una macchia è qui tuttora estava em melhor plano (foi mesmo, globalmente, a sua melhor ária) até que falhou, por completo, o pianissimo final ao dizer Andiam, o que, infelizmente, foi a imagem que ficou. Disseram-me que estava doente, pelo que, se assim for, se desculpa e se agradece o esforço.
O Coro do TNSC esteve, nas suas várias intervenções, num plano razoável, tendo, sobretudo no coro inicial, apresentado alguns elementos desencontrados dos restantes e com recurso frequente à estridência.
O Banquo de Giacomo Prestia deslumbrou com a sua voz potente e bem colocada que, dada a curta extensão do papel, não o permitiu brilhar mais. Esteve muito bem na sua ária Studia il passo, o mio figlio!
Macduff foi o tenor Enzo Peroni que, com uma voz relativamente pequena, baça e sem brilho vivo, cumpriu sem encanto o seu curto papel, nomeadamente na ária O figli, o figli miei!
Destaco a interpretação de Bárbara Barradas que, apesar do curto papel, conseguiu brilhar nas suas intervenções, tendo estado particularmente bem nos coros finais do 1.º acto (nomeadamente no quarteto que canta a morte de Duncano) e 2.º acto com uns agudos que sobressaiam sobre a orquestra, bem como no 4.º acto. Concordo com a opinião de J.A. Miranda quando afirma que esta — e do que vi sobretudo na récita de 27 (na última esteve mais comedida) — parecia estar numa competição para demonstrar estar preparada para ser, ela própria, a diva. Ainda assim, dada a qualidade que evidenciou, fiquei muito agradado. Aliás, Bárbara Barradas, pelas suas recentes excelentes interpretações no Il Viaggio a Reims e como Barbarina no Le Nozze di Figaro da FCG, está há muito a pedir papéis de maior relevo e destaque!
Os restantes elementos foram competentes e eficazes, nomeadamente o Malcolm de Marco Alves dos Santos.
Foram, no cômputo geral, duas récitas homogéneas e agradáveis no TNSC. Nesta temporada, apesar do baixo orçamento, o São Carlos tem revelado vontade de retomar alguma da qualidade de outros tempos. Não posso, pois, concordar com opiniões tendentes a que o TNSC tenha apresentado um espectáculo medíocre. Posso concordar, isso sim e infelizmente, que parece haver uma nuvem negra sobre o futuro deste teatro. Entra director, sai director. Não anuncia o substituto. Logo não anuncia temporada. Antes se prenuncia a falta dela. Mas, entretanto, só há vazio e a incerteza. E fica seguramente o descrédito das entidades ligadas à cultura (ou falta dela) que a gerem. Fica a inépcia do Secretaria de Estado da Cultura. A cultura — a maior riqueza de um povo e aquilo que o faz perdurar e unir-se — reduzida a uma secretaria de estado sem expressão é, desde logo, sintomático da avareza intelectual dos nossos "dirigentes"... Assim, lentamente e, como diria Eça, "num galopezinho muito a direito e muito seguro", assiste-se ao cortejo fúnebre e lento do TNSC, não sem que se vislumbrem raros laivos de vida, aliás como acontece nos estertores da morte... E isso é lamentável!