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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

PETER GRIMES, METropolitan OPERA, New York, Outubro / October 2022


(Review in English below)

A ópera Peter Grimes de B Britten passa-se numa pequena aldeia piscatória no litoral de Inglaterra. O pescador Peter Grimes, contra a vontade dos aldeões, é ilibado da morte do seu mais recente aprendiz e não deverá contratar outros. Poucos dias depois um boticário arranja num orfanato um novo aprendiz, John. A comunidade desaprova mas a professora Ellen Orford e um comandante reformado, Balstorde, apoiam-no. Grimes quer enriquecer com a pesca para casar com Ellen. Aproxima-se uma grande tempestade e ele quer ir para o mar. Ellen contraria-o e critica-o por ter molestado John que tem cicatrizes no pescoço. A população dirige-se à cabana de Grimes. Nas traseiras, a tempestade originou um desabamento de terras e John cai para o mar e  morre. Grimes lança-se atrás dele e desaparecem ambos. Balstrode, dias mais tarde, vê o barco de Grimes e, com Ellen, recolhe-o. A aldeia está vazia. Balstrode aconselha-o a levar o barco para o mar e afundá-lo. No dia seguinte os aldeões vêem um barco afundar-se, mas longe de mais para poder ser salvo.


A encenação de John Doyle é relativamente simples mas muito eficaz. Uma enorme fachada de casa em madeira, com portas a várias alturas, funciona bem nas várias cenas. As paredes também se afastam, o que permite criar situações adicionais de bom efeito cénico. Há ocasionalmente projecções excelentes (em particular do mar revolto). O ambiente é escuro como a ópera, os aldeões (coro) aparecem de cinzento escuro ou negro e não se misturam com Grimes. 


O maestro foi Nicholas Carter. A Orquestra tocou bem e o Coro salientou-se nas muitas e expressivas intervenções. 


A música de Britten não é das que mais aprecio, tem passagens líricas alternadas com dissonâncias. Contudo, os interlúdios musicais alusivos ao mar são impressionantes, muito ajudados pela encenação, com as projecções de mar agitado já referidas.


O tenor Allan Clayton foi Peter Grimes. Cantou bem, sempre sobre a orquestra e conseguiu transmitir a sua exclusão da comunidade, uma componente essencial da ópera.  


A soprano Nicole Car foi para mim a melhor da noite no papel de Ellen Orford. É uma cantora que muito aprecio graças à beleza vocal e ao seu empenho marcante nas interpretações que leva à cena. Mais uma vez, foi óptima. 


O barítono Adam Plachetka foi um Balstrode afinado, bem audível e, dentro do que a personagem permite, correcto na postura cénica.

Vários cantores secundários têm pequenas participações, incluindo Harold Wilson (Hobson), Patrick Carfizzi (Swallow), Michaela Martens (Mrs. Sedley), Denyce Graves (Auntie), Chad Shelton (Bob Boles), Tony Stevenson (Rev. Adams) e Justin Austin (Ned Keene).





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PETER GRIMES, METropolitan OPERA, New York, October 2022

The opera Peter Grimes by B Britten takes place in a small fishing village on the coast of England. 

The fisherman Peter Grimes, against the wishes of the villagers, is cleared by a lawyer of the death of his latest apprentice and must not hire others. A few days later, an apothecary finds a new apprentice, John, in an orphanage. The community disapproves but professor Ellen Orford and a retired sea captain, Balstorde, support him. Grimes wants to get rich from fishing to marry Ellen. A big storm is coming and he wants to go to sea. Ellen antagonizes him and criticises him for molesting John who has scars on his neck. The villagers head to Grimes' hut. In the back, the storm caused a landslide and John falls into the sea and dies. Grimes launches after him and they both disappear. Balstrode, days later, sees Grimes' boat and, with Ellen, picks him up. The village is empty. Balstrode advises Grimes to take the boat out to sea and sink it. The next day the villagers see a boat sinking, but too far away to be saved.

John Doyle staging is relatively simple but very effective. A huge wooden house facade, with doors at various heights, works well in the different scenes. The walls also move away, which makes it possible to create additional situations with a good scenic effect. There are occasionally excellent projections (particularly of the rough sea). The atmosphere is dark like the opera, the villagers (chorus) appear dressed in dark gray or black and don't mix with Grimes.

The conductor was Nicholas Carter. The Orchestra played well and the Choir stood out in its many expressive interventions.

Britten's music is not one of my favorites, it has lyrical passages alternating with dissonances. However, the musical interludes alluding to the sea are impressive, greatly aided by the staging, with the previously mentioned rough sea projections.

Tenor Allan Clayton was Peter Grimes. He sang well, always over the orchestra and managed to convey his exclusion from the community, an essential component of the opera.

Soprano Nicole Car was for me the best of the night in the role of Ellen Orford. She is a singer that I really appreciate thanks to her vocal beauty and her remarkable commitment to the interpretations she brings to the scene. Once again, she was great.

Baritone Adam Plachetka was a finely tuned Balstrode, very audible and, as far as the character allows, correct in the scenic posture.

Several supporting singers participate, including Harold Wilson (Hobson), Patrick Carfizzi (Swallow), Michaela Martens (Mrs. Sedley), Denyce Graves (Auntie), Chad Shelton (Bob Boles), Tony Stevenson (Rev. Adams) and Justin Austin (Ned Keene).

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terça-feira, 6 de junho de 2017

PETER GRIMES – Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2017



De José António Miranda, mais um texto rigoroso e lúcido, como nos habituou: 

PETER GRIMES   (Benjamin Britten)

Ópera em três Actos, um Prólogo e um Epílogo   (Londres, Sadler’s Wells, 1945)

Libreto de Montagu Slater segundo o poema The Burrough, de George Crabbs

    Direcção musical: Graeme Jenkins
    Encenação: David Alden
    Cenografia: Paul Steinberg
    Roupas: Brigitte Reiffenstuel
    Luz: Adam Silverman
    Coreografia: Maxine Braham
    Responsável pela reposição: Ian Rutherford
    Peter Grimes: John Graham-Hall
    Ellen Orford: Emily Newton
    Balstrode : Jonathan Summers
    Auntie: Rebecca de Pont Davies
    Primeira Sobrinha: Bárbara Barradas
    Segunda Sobrinha: Mariana Castello-Branco
    Bob Boles: James Kryshak
    Swallow: Graeme Danby
    Mrs. Sedley: Maria Luísa de Freitas
    Reverendo Horace Adams: Carlos Guilherme
    Ned Keene: João Merino
    Hobson: Nuno Dias
    Orquestra Sinfónica Portuguesa
    Coro do Teatro Nacional de São Carlos   Dir: Giovanni Andreoli
    Produção: English National Opera ENO (Londres 2013)
    Co-produção: Vlaamse Opera (Gand/Antuérpia); Ópera de Oviedo; Deutsche Oper (Berlim).


A história de Peter Grimes é um exorcismo da opressão: mistura de ode ao carácter opressivo da insularidade britânica cruzado com a natureza também opressiva das pequenas comunidades em relação a tudo o que é diferente. O mar e o álcool são portanto os ingredientes maiores desta tragédia em que tudo se desenrola num contexto de marcada nostalgia cuja poesia intrínseca a música de Britten tão generosamente expõe.

A esta realidade factual David Alden sobrepõe inteligentemente um segundo nível de leitura, supostamente mais profundo. Nesse segundo nível as motivações do inconsciente e os mecanismos ocultos dos personagens e seus contextos são cruamente expostos no quadro conceptual de uma psicanálise de pacotilha.

Mas para o sucesso de uma proposta intelectualmente tão aliciante, aliás atributo frequente do trabalho deste encenador, seria necessário que o trabalho dramatúrgico se traduzisse na criação de um verdadeiro espaço teatral único, que é muito mais do que o simples efeito da manutenção de uma cenografia homogénea e coerente ao longo da obra.

E se é claro que aquela criação poderá ter sido a intenção do encenador, a evidência que nos foi dada é que esta solução cenográfica, que deveria servir para o aprofundamento da vivência dos conflitos e problemas que nos são apresentados no libreto, não resulta sob tal perspectiva.

É certo que estivemos a ver uma produção que nos chega pela mão de Ian Rutherford, e na qual portanto a participação directa do encenador não terá existido. Mas se esta circunstância pode ajudar a justificar alguns problemas menores, ela não chega para explicar o sucedido.


De facto, para a criação de um espaço teatral único seria necessário que tivesse sido conseguida a fusão dos dois níveis de leitura, o realista suportado nas palavras e nas notas da obra escrita, e o fantástico idealmente decorrente da análise desses elementos, pelas opções dramatúrgicas e plásticas da encenação.

Tal não sucedeu porém aqui, e o resultado deste exclusivo trabalho a nível da cenografia fez aparecer no final o conjunto como uma proposta esquizofrénica, em que alguns momentos de intenso realismo, como a cena terminal, contrastam violentamente com outros de perfeito delírio surrealista, sem que seja possível estabelecer entre ambos um nexo de associação ou de causalidade que de algum modo os unifique e lhes confira alguma coerência.

Sinais desta duplicidade são por exemplo os momentos histriónicos do coro, globalmente muito bem trabalhado na excelente coreografia de Maxine Braham, mas deixado a nível individual ao bom critério dos coralistas, disso resultando momentos contraditórios e mesmo ridículos, ou ainda a géstica marionetista das duas sobrinhas nas cenas de realismo, resquícios do seu comportamento nos momentos de desmando surreal.

Como acontece com frequência uma ideia brilhante acaba aqui por ser desbaratada na sua operacionalização devido à ausência de uma unidade conceptual estilística. Trata-se portanto de um problema que é intrínseco a esta proposta global de David Alden, sendo aliás recorrente no percurso profissional deste encenador.

Curiosamente a orquestra demonstrou idêntico comportamento esquizofrénico, desta vez não por culpa da direcção de Graeme Jenkins, muitíssimo empenhada, mas sim como claro resultado da sua impreparação para a tarefa expressiva, consequência da sua inexistência virtual enquanto agrupamento sinfónico.

Não há milagres, e todos sabemos que um conjunto de instrumentistas, mesmo recheado de óptimos executantes, não é sinónimo de uma orquestra. A música de Britten surgiu assim como um puzzle mal montado, em que as várias peças foram justapostas mas sem o cuidado necessário para que as junções se tornem invisíveis ao primeiro olhar: a ondulação do mar, omnipresente no tecido sonoro, esteve ausente.

Se este desempenho não foi problemático na sucessão da diversidade estilística da ópera, e se os momentos de tempestade ou furor puderam soar apesar de tudo aceitáveis, foi deplorável ver como os esforços do director nos momentos de mais intenso lirismo não conseguiram qualquer tradução a nível do som.

Em aparente contraste com este problema, o desempenho global no que respeita às vozes foi um dos pontos positivos do espectáculo.

O coro, quiçá como resultado colateral do trabalho coreográfico que lhe foi exigido, emergiu da rotina funcionária em que tem estado mergulhado e ofereceu-nos alguns momentos de grande qualidade. Quanto aos cantores, deve realçar-se a grande segurança e à vontade de Bárbara Barradas, muito melhor tecnicamente do que em prestações anteriores, e em vias de se tornar uma das principais intérpretes líricas nacionais.

Já no respeitante ao desempenho dramático não poderá dizer-se o mesmo: os gestos estiveram todos lá, mas tudo soou dramaticamente como um postiço, sem profundidade, revelando um trabalho de actores inexistente ou insuficiente.



Em todo o caso porém, e sobretudo por servir para nos revelar de uma forma menos convencional uma obra pouco conhecida entre nós, o espectáculo pode considerar-se como uma pedra positiva no percurso final do desolador jardim da temporada que agora termina.


JAM    06/06/2017