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sábado, 10 de setembro de 2016

Johan Botha 1965 - 2016

(text in English below)

Aos 51 anos morreu o grande tenor sul-africano Johan Botha. Era um dos meus cantores favoritos e, por isso, aqui deixo este registo. Neste blogue vários autores escreveram sobre ele, sempre com referencias altamente elogiosas.

Botha tinha uma voz de invulgar beleza, com timbre lírico e grande facilidade nas notas mais agudas. O poderio vocal era imponente, mesmo avassalador. Sempre afinado, mantinha qualidade melódica de topo em toda a grande extensão da sua voz. Enchia qualquer teatro de ópera, por maior que fosse. Conseguia imprimir emoção vocal a todas as personagens que encarnava, fraseando claramente os textos que cantava.

(Tannhäuser. Royal Opera House. London)

Tive o privilégio de o ouvir ao vivo várias vezes, em diversos papéis, mas foi em Wagner que as suas interpretações mais se destacaram. Para mim era o melhor Tannhäuser no activo e um dos melhores de sempre. Como desconhecia a sua doença, ainda alimentava a esperança de o voltar a ver nesse papel. Infelizmente tal não acontecerá.

                       (Tannhäuser. Metropolitan Opera. New York)

Desaparece o grande cantor, amargamente ficam as boas memórias e muitos registos de som e imagem que permitirão recordar mais um grande cantor lírico da história da ópera. 

RIP Johan Botha!



Johan Botha, the great South African tenor died aged 51. he was one of my favorite singers. In this blog several authors have written about him, always with highly laudatory references.

Botha had a voice of unusual beauty, with lyrical tone and ease at the top notes. The vocal power was impressive, even overwhelming. Always tuned, he maintained top melodic quality throughout the vast extent of his voice. Filling any opera house, however great it was. He expressed vocal emotion to all characters he sang, always with clearly phrasing of the texts.

I was privileged to hear him live several times, in different roles, but it was in Wagner that his performances stood out. For me he was the best Tannhäuser of the present and one of the best ever. As I was unaware of his illness, I still hoped to see him once more in that role. Unfortunately this will not happen.


The great singer disappears, bitterly remain good memories and many sound and image recordings with which we will remember a great opera singer in the history of opera. 
RIP Johan Botha!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

TANNHÄUSER – Transmissão do MET de Nova Iorque – FCG 31-10-2015


Tannhäuser und der Sängerkrieg auf der Wartburg” é a segunda das óperas de maturidade de Wagner. Acabada de compor no decurso do inverno de 1844, foi estreada em 19 de Outubro de 1845, no Königliche Hoftheater de Dresden, com sucesso moderado.

(Foto: Fanático_Um)

Ao longo dos anos seguintes, a ópera veio a ser amplamente modificada, com vista à sua estreia em Paris, o que veio a ocorrer em 13 de Março de 1861. Dado que a representação veio a ter lugar na Ópera de Paris e não no Théâtre Lyrique, Wagner teve de obedecer ao cânone francês e incluir um bailado, embora sob a forma de bacanal, para além de outras modificações no papel de Vénus e na ária de Walther. Paralelamente, muita da música introduzida de novo, designadamente na segunda parte do prelúdio, tem um cariz muito contrastante, pois que beneficia já da evolução da escrita de Wagner que, em 1859, havia terminado de compor o Tristan und Isolde.

A estreia parisiense foi um fiasco – embora, ao que parece, provocado por detractores do compositor – o que comprometeu definitivamente as aspirações de Wagner de vir a triunfar naquele que era, à data, o principal centro operático da Europa.

Em 1875 Wagner apresenta uma nova versão, a chamada “versão de Viena”, que assenta essencialmente na “versão de Paris” (e que normalmente não é autonomizada da “versão de Paris”), naturalmente que revertida para alemão e com pequenas alterações, designadamente a reposição do solo de Walther no concurso de canto do 2º acto.

(Castelo de Wartburg, na Turíngia. Foto: Wikipedia)

Não obstante o difícil percurso que teve, Wagner sempre acarinhou bastante esta ópera, constando que, já às portas da morte, se terá lamentado de ter ficado a dever um Tannhäuser ao mundo.

Lamento que bem se compreende, pois, não obstante esta ópera estar ainda longe do conceito para que caminhará a obra wagneriana no futuro, sendo ainda óbvias as influências da grand opéra francesa e o recurso a um modelo de ópera de números, nela encontramos, todavia, o tratamento de um conjunto de temas que virão a permear toda a criação wagneriana futura.

Assim, a ideia da arte como objecto principal de uma ópera, traduzida aqui no concurso de canto (ou melhor, no combate de canto, como parece mais correcto em face do subtítulo da obra: Sängerkrieg), virá a ser desenvolvida futuramente no Die Meistersinger von Nürnberg; A personagem de Elisabeth, mulher que pelo seu sacrifício oferece a redenção a Tannhäuser, virá a ser novamente explorada no Anel, designadamente na Brünnhilde, como já fora na Senta do Der fliegende Holländer; a cena do 1º acto, entre Tannhäuser e Vénus, da tentação para o amor profano, é premonitória do 2º acto do Parsifal e do papel desempenhado por Kundry.

O tema principal da ópera é normalmente centrado no conflito entre o amor cristão e o amor profano, entre o amor eros e o amor ágape, entre o amor sublime e o amor carnal. Todavia, em algumas análises salienta-se igualmente a temática do questionamento das concepções estéticas enquistadas na sociedade, que Wagner terá procurado protagonizar, e que encontram eco no desafio que Tannhäuser lança à sociedade cavaleiresca no concurso de canto, propondo o abandono do culto do amor cortês, o que conduz à sua proscrição.

(Bacanal. Foto: Metropolitan Opera)
           
Na transmissão deste final de Outubro, o Met de Nova Iorque proporcionou-nos a chamada “versão de Paris” (com as alterações de Viena), pelo que a abertura desembocou directamente no bacanal, onde o corpo de bailado do Met nos apresentou uma coreografia representativa das actividades desenvolvidas no Monte de Vénus, embora não particularmente inspirada ou interessante.
           
Podemos encontrar uma sinopse do enredo da ópera aqui.

(Otto Schenk. Foto: Wikipedia)

A encenação apresentada foi a de Otto Schenk, que conta já com algumas décadas. É uma encenação “tradicional“, extremamente fiel à literalidade do libretto, que privilegia a espectacularidade dos cenários e dos figurinos, no que não merece quaisquer reparos, dada a extrema atenção ao detalhe e a grande beleza estética de todos os elementos que surgem em palco. Uma versão que, seguramente, poderíamos ter visto em Bayreuth até à primeira metade do século XX. Opção perfeitamente legítima, como é óbvio, mas que surge como algo datada e renuncia à possibilidade de explorar novos significados e novas ideias que a partitura ou o texto proporcionem ou de apresentar novas propostas interpretativas.
           
(James Levine. Foto: Metropolitan Opera)

A direcção musical foi confiada a James Levine, que nos deu uma leitura correcta, sem grandes arrebatamentos ou brilhantismos. Todavia, a excelência técnica da orquestra, capaz de tocar horas seguidas sem uma falha perceptível, constitui, realmente, uma fonte inesgotável de prazer.
Foi anunciado que a participação do ainda Director Musical do Met se fez com grande sacrifício pessoal, o que foi bem visível. Porém, confesso que me fez alguma impressão a imagem de um James Levine a dirigir a orquestra muitíssimo debilitado fisicamente.

(Johan Botha. Foto: Metropolitan Opera)

A grande figura da noite foi, sem dúvida, o tenor Johan Botha, já nosso conhecido da FCG precisamente neste papel. É talvez o grande Tannhäuser da actualidade e, desta vez, voltou a mostrá-lo. O timbre é essencialmente lírico – o que é excelente para o 1º acto, onde se exige flexibilidade vocal, arrebatamento e facilidade nos agudos – mas combina a energia e robustez necessárias para a “narração de Roma” do 3º acto, que fez de forma magnífica. Cantor generoso, embora sem grandes dotes de representação, compôs vocalmente uma personagem credível nos seus dilemas, variando a vocalidade consoante o estado do personagem.

(Eva-Maria Westbroek. Foto: Metropolitan Opera)

Elisabeth foi cantada pela soprado holandesa Eva-Maria Westbroek. Confesso que esperava bastante mais desta magnífica cantora. Logo que entrou em cena para cantar o “Dich, teure Halle, grüß ich wieder” a voz me pareceu bastante descontrolada, a acusar um vibrato enorme. Acho que faltou alguma frescura vocal nesse momento tão importante, embora tenha estado melhor na prece do 3º acto. Em qualquer caso, a voz é muito bonita, exibe potência vocal e tem uma presença física perfeita para o papel.

(Michelle DeYoung. Foto: Metropolitan Opera)

Michelle DeYoung foi uma Vénus bastante mais convincente. A voz é aveludada, quente e bem timbrada, transmitindo a sedução dessa personagem que é um misto de mulher e de deusa. Demonstrou um sólido registo grave, mas com assinalável facilidade nos agudos, o que constitui requisito para abordar este papel com sucesso, cuja tessitura fica um pouco entre os registos de soprano e de mezzo-soprano. Para além disso, a sua presença física permitiu-lhe compor uma figura “botticelliana”, em perfeita consonância com as opções da produção.

(Peter Mattei. Foto: Metropolitan Opera)

Outro dos grandes sucessos foi o Wolfram von Eschenbach do barítono Peter Mattei. A beleza da voz, o fraseado elegante, a pureza da emissão e a nobreza do tom foram ideais para esta personagem, que é a antítese do dividido Tannhäuser. Por várias vezes, ao ouvi-lo e fechando os olhos, me fez lembrar o grande Dietrich Fischer-Dieskau a cantar este papel, de que constitui para mim o modelo ideal (e que se pode ouvir na gravação de 1960, em estúdio, dirigida por Franz Konwitschny ou, na do ano seguinte, ao vivo em Bayreuth, sob a batuta de Sawallisch).

Gunther Groissböck foi um bom Landgraf Hermann, com uma voz bonita e nobre, perfeitamente adequada ao papel e sem demasiada pomposidade.

(Final do Acto III. Foto: Metropolitan Opera)

Brilhante – como praticamente sempre – foi o coro do Metropolitan, numa ópera em que a sua intervenção é particularmente importante. Dinâmicas perfeitas nos coros dos peregrinos, homogeneidade tímbrica e nitidez não prejudicada pela dimensão da massa sonora, foram as marcas que coroaram uma prestação perfeita.

(Acto II. Foto: Metropolitan Opera)

Em suma – e com excepção da Elisabeth de Westbroek que não me pareceu nos seus melhores dias – tratou-se de uma récita de luxo, com um elenco dificilmente superável e que proporcionou uma experiência operática soberba.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Die Meistersinger von Nürnberg — MET Live in HD, Fundação Gulbenkian, Dezembro 2014

(Review in English below)

Ontem assisti à transmissão em directo do MET Live in HD da ópera Die Meistersinger von Nürnberg de Richard Wagner.


Trata-se de um drama musical (ou ópera) em 3 actos composto desde 1845 e só estreado na totalidade em 1868. A música e o libreto são, como não podia deixar de ser, da mesma pessoa: Richard Wagner. Mas esta ópera tem características diferentes das restantes óperas estreadas antes: desde logo é uma ópera cómica — fugindo à tradição (muito) séria de Tristão e Isolda ou do Anel de Nibelungo — e apresenta alterações da forma, regressando a uma forma operática mais clássica com árias, quintetos, etc.

A influência da filosofia de Schopenhauer é notória e personifica-se no homem de carácter nobre e na sua renúncia da vontade: Hans Sachs. A sua ária Wahn, Wahn, überall Wahn é como que um manifesto dessa filosofia.

Poderão ler uma sinopse no site do Metropolitan.

É uma ópera de grandes dimensões, tendo uma duração média de 4h30min de música contínua (com os intervalos são cerca de 6 horas), o que a torna difícil para principiantes. A maratona não é para todos e isso notou-se pelas desistências que foram deixando lugares vazios numa sala incialmente repleta. Mas desengane-se quem pense que foi por falta de qualidade.

A encenação é a já antiga de Otto Schenk. Como lhe é característico, a dimensão dos cenários é enorme, a atenção ao detalhe é inigualável e a narrativa que permite da história é de uma fluidez tremenda. Segue o texto de forma brilhante e só não se percebem mais pormenores porque o realizador da transmissão não atingiu o mesmo brilhantismo do encenador. Digo isto porque esses pormenores (por exemplo, quando Eva esconde propositadamente o véu na igreja para ganhar tempo para falar com Walther) são visíveis na realização de Brian Large do DVD de 2002, mas não na transmissão de ontem.


O primeiro acto passa-se numa igreja, onde decorre a celebração e, depois, a reunião dos Mestres Cantores.


O segundo acto, passa-se na rua que é uma enorme escadaria rodeada por edifícios baixos e onde Sachs trabalha ao ar-livre, martelando as solas dos sapatos de Beckmesser. No final transforma-se num enorme tumulto.


O terceiro acto decorre às portas de Nuremberga num terreno amplo onde foi montada uma estrutura para a festa. Há um pormenor interessante que mostra a riqueza do detalhe. Na muralha há uma bandeira que está sempre a esvoaçar: terá de haver uma ventoinha para que se crie o efeito.

É, pois, uma encenação muito interessante, vistosa e eficaz.


A Orquestra do MET foi dirigida pelo semideus do teatro: James Levine. O estatuto é merecido, diga-se. As suas interpretações de Wagner são muito famosas e não é por acaso. James Levine eleva a orquestra a níveis estratosféricos e Wagner, por certo, regozijar-se-á com uma interpretação tão viva, cuidada, clara nas linhas melódicas e coordenada. A interpretação foi magnética!

Também o Coro do MET teve uma performance de nível muito alto.

Relativamente aos cantores. Não vou nomear um a um a extensa lista dos cantores com papéis menos relevantes. Direi apenas que se apresentaram globalmente com um nível elevado, a fazer jus à qualidade que tornou o MET um palco de referência.


Tivemos a estreia de Paul Appleby em papéis mais relevantes. Trata-se de um tenor do programa de formação do MET que se apresentou evidenciando muita segurança no seu curto papel, mas relevante e muito belo. A voz é viva e límpida, a técnica segura e Appleby esteve interpretativamente muito bem. Cenicamente foi muito empenhado, mostrando-se um David de muita categoria. Tal como Polenzani que também fez este papel e é um tenor da alta roda, Appleby poderá ter um futuro interessante como intérprete solista internacional. A sua amada Magdalena foi interpretada pelo meio-soprano Karen Cargil que esteve, igualmente, em evidência pela formas vocal e cénica que apresentou.


O Pogner do baixo Hans-Peter König foi imenso. O cantor tem uma das vozes mais bonitas no seu registo, a amplitude vocal é incrível e a facilidade com que canta e interpreta fazem deles um cantor de topo. Acresce que a sua figura — alta, bonacheirona e já a denotar a idade — o fazem perfeito para o papel. Não se pode pôr um jovem a cantar este papel: em 2002, René Pape era o pai de Karita Matilla...


Johannes Martin Kränzle interpretou Sixtus Beckmesser de forma interessante. Vocalmente esteve bem, mas foi cenicamente que se destacou pela comicidade que deu à personagem (excelente 3.º acto!) e que o tornaram motivo da chacota do povo.


A Eva de Annette Dasch tem uma excelente figura para o papel e interpretou com harmonia, jovialidade e leveza esta personagem wagneriana. O timbre da sua voz é bonito e o fraseado elegante. Foi (talvez) aqui e acolá um pouco mais estridente nos agudos, mas foi uma Eva de qualidade.


Johan Botha é um heldentenor por excelência e, como tal, fez um Walther von Stolzing de qualidade vocal superlativa. A facilidade com que lhe saem aqueles agudos rápidos e pontudos de Wagner é incrível e a sua voz é muito bonita. Que pena que tenha tanto peso: é um «barril»! [desculpem-me a comparação]. Isso dificulta-lhe muito a teatralidade e limita-o bastante. Torna uma aberração quando Eva o compara a David — o baixinho e magro David que matou o gigante e musculado Golias. Mas, paradoxos à parte, é um tenor incrível, um dos melhores intérpretes de Wagner da actualidade e deu-me imenso prazer ouvi-lo!


Propositadamente, deixo Michael Volle para o fim. Curvemo-nos perante o Hans Sachs deste barítono. Que interpretação de luxo: valeu-lhe um enorme triunfo no MET, mas de todo merecido. É difícil encontrar palavras para descrever a sua performance. Se vocalmente esteve muitíssimo bem e tem uma voz lindíssima, cenicamente foi um assombro. Humanizou a personagem Sachs de um modo soberbo, mostrando as suas angústias, paixões, irritações, preocupações e sabedoria. Confesso que adoro a postura mais contida e patriarcal de James Morris neste papel, mas esta de Volle contrasta pela adoção de um estilo mais terreno e provável. É por cantores como ele que a ópera é uma arte viva e que se prendem audiências. Que privilégio para quem lá esteve!

Esta récita dos Mestres Cantores de Nuremberga foi um espectáculo memorável. A sensação de magnetismo e vibração estética não se explica, mas sente-se. E isso é o que distingue um bom de um excelente espectáculo.

Nesta ligação ficam, ainda, alguns vídeos que o site do MET disponibiliza.

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(Review in English)

Yesterday, I attended to Richard Wagner's Die Meistersinger von Nürnberg broadcast of the MET Live in HD series.

It is a musical drama (or opera) in three acts composed since 1845 and only premiered in its entirety in 1868. The music and libretto are, as it could not be, of the same person: Richard Wagner. But this opera has characteristics different from other operas released before, it certainly is a comic opera - evading traditionally (very) serious operas as Tristan and Isolde, or the Ring of the Nibelung - and presents changes in the form, returning to a more classic operatic form with arias, quintets, etc.

The influence of Schopenhauer's philosophy is notorious and embodies on the noble nature of man and his renunciation of the will: Hans Sachs. His aria Wahn, Wahn, Wahn überall is like a manifesto of this philosophy.

You can read a synopsis in the Metropolitan site.

It is an large opera, with an average of 4h30min of continuous music (with the intervals is about 6 hours), which makes it difficult for beginners. The marathon is not for everyone and it was noted by the withdrawals which were leaving empty seats in a room filled initially. But it was not because tof poor quality. Not at all.

The staging is already old from Otto Schenk. As is characteristic of him, the size of the scenarios is huge, attention to detail is second to none and the narrative that allows the story is of tremendous fluidity. Follows the text brilliantly and just do not realize further details because the director of the transmission did not reach the same brilliance of stage director. I say this because these details (for example, when Eva purposely hides the veil in the church to make time to speak to Walther) are visible in the accomplishment of Brian Large in the 2002 DVD release of the same opera.

The first act takes place in a church, where celebration and then the meeting of the Meistersinger occur.

The second act takes place in the street which is a huge staircase surrounded by low buildings and where Sachs is working in open-air, hammering the soles of Beckmesser' shoes. . At the end it becomes a huge uproar.

The third act takes place at the gates of Nuremberg on a large terrain in which was set up a structure for the party. There is an interesting detail that shows the richness of details. In the wall there is a flag that is always fluttering: there must be a fan in order to create the effect.

It is therefore a very interesting staging, showy and effective.

The MET Orchestra was directed by the theater demigod: James Levine. The status is deserved, I must say. His interpretations of Wagner are very famous and it is no coincidence. James Levine brings the orchestra to stratospheric levels and Wagner, of course, shall rejoice with an interpretation so alive, careful, clear in the melodic lines and so coordinated . The interpretation was magnetic!

The MET Chorus had also an excellent performance.

Regarding singers. I will not nominate one by one the long list of singers with less relevant roles. I will just say that broadly presented with a high level, to do justice to the quality that has made MET a reference stage.

We had the debut of Paul Appleby in more important roles. He is a tenor of the MET training program that presented himself showing great confidence in his short role but relevant and beautiful. The voice is lively and clear, safe technique and was interpretively well. Scenically he was very committed, showing us a David of enormous category. As Polenzani, Appleby could have an interesting future as an international soloist. Your beloved Magdalena was performed by the mezzo-soprano Karen Cargill which was also highlighted by the vocal and scenic form she presented.

The bass Hans-Peter König was immense as Pogner. The singer has one of the most beautiful voices in the bass registry, the vocal range is amazing and the ease with which he sings and plays make him a top singer. Moreover, his figure - tall and warmfully kind already denoting he is agging - make him perfect for the role. You can not put a young man in this paper.

Johannes Martin Kränzle played Sixtus Beckmesser in an interesting way. Vocally he was fine, but it was by his scenic skills that he highlight himself proving to be very comic turning him the reason for everyone laughing.

Annette Dasch has an excellent figure for the role of Eva that she performed with harmony, playfulness and lightness . The timbre of her voice is beautiful and elegant phrasing. She was (perhaps) here and there a bit more strident in acute, but it was an Eva of great quality.

Johan Botha is a heldentenor par excellence As such, he made a Walther von Stolzing of superlative voice quality. The ease as he leave those quick and sharp wagnerian trebles is amazing and his voice is very beautiful. Too bad he has so much weight: he is a barrel! This makes it difficult theatricality limited him too much. It becomes an aberration when Eva compares Walther to David - the short and skinny David that kill the musculous giant Goliath. But paradoxes aside, he's an amazing tenor, one of the best Wagner interpreters of our time and gave me great pleasure to he him!

Purposely I let Michael Volle to the end. Let us bow before the Hans Sachs of the baritone. What luxury interpretation: he earned  a huge triumph at the MET, but all deserved. It's hard to find words to describe his performance. If vocally he was extremely well and has a beautiful voice, scenically he was a wonder. He humanized Sachs character in a superb way, showing his troubles, irritatability, concerns and wisdom. I confess I love the more restrained posture and patriarchal attitude of James Morris in this role, but this contrasts by the adoption of a more grounded and probable style. It is for singers like him that opera is a living art and people adhere massively to the halls . What a privilege for those who were there!

This recitation of the Master Singers of Nuremberg was a memorable show. The feeling of magnetism and aesthetic vibration can not be explained, but only felt. And that is what distinguishes a good from an excellent show.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

DIE FRAU OHNE SCHATTEN (A MULHER SEM SOMBRA), Bayerische Staatsoper, Munique, Junho 2014/ Munich, June 2014.

(Capa do Programa : Divã do Dr. Sigmund Freud, Museu Freud, Londres)

( English version below)

Autor: De Moura MC, Lisboa

Assisti a Die Frau ohne Schatten na Bayerische Staatsoper, integrada no Festival de Ópera de Munique, 29 de Junho de 2014.


Esta ópera de Richard  Strauss foi escolhida para a reabertura do Teatro Nacional em 1963 depois da sua reconstrução na sequência do bombardeamento de 1943. Regressa em 21 Novembro de  2013, 50 anos da data histórica,  produção do realizador  Krzysztof Warlikowski e apresentação do novo director musical Kirill Petrenko. Ópera em 3 actos, com libreto de Hugo von Hofmannsthal,  foi estreada em Viena, 1919. A versão escolhida por Petrenko é a partitura completa, diferente do hábito corrente de usar versões com cortes.


O enredo situa-se num passado mítico e desenrola-se em três níveis de existência. A filha do Rei dos Espíritos (Keikobad) foi conquistada pelo Imperador; ela não é espírito nem humano. Não tem sombra (o que significa que é infértil). Uma grande ameaça paira sobre ambos: se não se tornar humana, o Imperador transformar-se-á em pedra. A Imperatriz pede ajuda à enfermeira que a acompanha e descem ao mundo dos humanos. Procuram uma mulher infeliz que recusa o marido (Barak, o tintureiro) e pensa vender a sua sombra. A ideia não agrada à Imperatriz que acaba por recusar. Esta recusa torna a Imperatriz humana. O imperador regressa à vida e ela adquire uma sombra. Os dois casais reúnem-se, e ouvem-se as vozes das crianças que esperam nascer num futuro distante.

O elenco de cantores é do melhor que se consegue actualmente. Adrianne Pieczonka (Imperatriz) , excelente soprano canadiana tem uma voz de belo timbre, enorme flexibilidade vocal, e constrói uma emocionante “Kaiserin”. A cena com Keikobad (julgamento ?) no  Acto 3 em que pronuncia as palavras fatídicas “ Ich will nicht “ é de antologia.


 Um caso á parte, a soprano dramática russa Elena Pankratova (Mulher de Barak), que teve uma interpretação superlativa, de incrível domínio vocal e cénico. Grande impacto na expressão de descontentamento e nas cenas de sedução do Acto 2 ,  ternura e desespero na extraordinária ária de arrependimento do  Acto 3. A beleza do canto distingue toda sua prestação.


 Johan Botha (Imperador), heldentenor reconhecido, a voz de timbre bonito é imponente em todos os registos. Certa rigidez cénica que empresta a um personagem que vai petrificar.


 John Lundgren (Barak), barítono sueco, foi notável. O timbre de um cantor de Lied, tem a presença e a simpatia do personagem humano (é a única figura da opera com um nome real). A mezzo americana Deborah Polaski (Enfermeira) é reputada em Strauss e Wagner. A sua voz revela já alguma fragilidade, mas manteve a tessitura adequada. Grande actriz, foi excelente a composição cénica da personagem ambígua, sensacional na loucura do fim. Os outros papeis estiveram muito bem, Sebastian Holecek, poderoso Mensageiro dos Espíritos, Eri Nakamura, bela Voz do Falcão, Okka von der Damerau, serena Voz do Além e Hanna-Elisabeth Müller, seguro  Guardião do Limiar do Templo. A actriz Renate Jett, represnta Keikobad (papel não falado).

 (Photo Wilfried Hösl, Bayerische Staatsoper)

Bayerischen Staatsorchester (BSO), Coro da BSO e Coro Infantil da BSO interpretações brilhantes. Com Strauss no seu ADN, os músicos foram os primeiros heróis da noite, revelando toda a grandeza e requinte musical desta partitura maior e complexa. Sebastian Weigle, maestro alemão, recebeu a orquestra preparada por Petrenko (ausente em Bayreuth para o “Anel” de Wagner) mas teve o mérito da direcção transparente e dinâmica que conferiu coerência ao todo. Revelou elegância e inteligência na condução dos cantores. Foi esmerado nos detalhes, como o monólogo do Imperador no Acto 2, e o solo do primeiro violino no Acto 3.


 A orquestra teve grandes momentos, como a explosão dramática do final cataclísmico do Acto 2 e nos tutti que encerram o conto. 
A régie superior do grande realizador polaco merece nota máxima. Inspirado no filme de Alain Resnais, “L´Année Dernière à Marienbad“(1961), são projectadas várias sequências, desse labirinto surreal de sonhos e memórias, antes de se ouvir o motivo de Keikobad que inicia a opera. A soberba cenografia da grande decoradora Malgorzata Szczesniak modula um espaço poético e onírico, de espectacular beleza plástica. Warlikowski consegue a integração dos cantores no seu conceito de “teatro completo“.

(Photo Wilfried Hösl, Bayerische Staatsoper)

 Vídeos e trabalho de animação notáveis, de Denis Guéguin e Kamil Polak, projectados nas paredes de tijolo branco de um sanatório  (ou hospital ?). Clareza na definição dos espaços: divã da Imperatriz num ambiente confortável face à simples cama e máquina de lavar roupa dos Barak. Um elevador faz a ligação entre os dois mundos: o cunho pessoal de Warlikowski. As sequências alucinantes de vídeos da Floresta e Debaixo de Agua (deflagração de uma guerra?) introduzem a magia inesperada nesta ópera fantástica. Na cena do Imperador no pavilhão dos Falcões no Acto 2 as crianças usando grandes máscaras de Falcão evocam o mundo dos sonhos e do subconsciente que a musica potente de Strauss e o texto de Hofmannstahl sugerem. A menina loira que acompanha a Imperatriz pela mão (a Kaiserin na infância) lembra o mundo onírico em que a Imperatriz parece viver. Keikobad, um velho muito curvado faz aparições regulares, apoiado numa bengala.

(Photo Wilfried Hösl, Bayerische Staatsoper)

Na grande cena final é interessante a dicotomia: ao fundo um muro azul onde se projectam as sombras e o movimento das crianças que esperam nascer, de grande beleza. No proscénio ocorre o brinde de champagne dos pares reencontrados, a acidez da realidade burguesa. Para Warlikowski o trajecto dos casais que se tornaram finalmente humanos é complexo e provavelmente não tem  “happy ending“. Partilho a sua visão. O final que se segue ao reencontro dos dois casais pode ser um grande ponto de interrogação. Na mesa onde está o quatuor jubilatório, três têm uma criança ao colo, a Imperatriz não?

 (Photo Wilfried Hösl, Bayerische Staatsoper)

Warlikoski mantem-se fiel à história original, deixa intacta a grande obra dramática. A qualidade e a seriedade da encenação, a sua concentração no essencial conferem unidade e força dramática a esta grande noite de ópera. Na utopia do Acto 3 o uso superior dos vídeos e a sua beleza poética, criam simplicidade e inteligência inesquecíveis. “Chapeau”!
Die Frau Ohne Schatten”, encenação extraordinária que salienta a complexidade intelectual e a sumptuosidade musical e vocal. Indiscutível triunfo de uma obra única de Strauss e certamente um dos maiores espectáculos do aniversário dos 150 anos.





THE WOMAN WITHOUT A SHADOW, Bayerische Staatsoper, Munich, June 2014.

I saw the performance of the DIE FRAU OHNE SCHATTEN  at the Munich Opera Festival,  29th June 2014.  This opera from Richard Strauss was chosen for the reopening of the National Theatre in 1963, after his reconstruction after the II World War. Celebrating  50 years of the historic date, a new production by Krzysztof Warlikowski and the presentation of Kirill Petrenko as the brand new musikdirector. Opera in three Acts, to a libretto by Hugo von Hofmannsthal, first performed in Vienna, 1919. Petrenko selected the complete uncut score, against the current trend of using shortened versions.

Set in the mythical past the plot takes place in three levels of existence. The daughter of the King of the Spirits (Keikobad) has been floating in an in-between state since the human Emperor conquered her: She is neither a spirit nor a human. A woman without a shadow – which means a woman who is infertile.  A threat hangs over the Empress and Emperor : If she does not become fully human, he will turn to stone.  The Empress asks help from the nurse that accompanies her to search for a shadow. They descend to the human world, and the nurse takes the Empress to an unhappy woman who refuses her husband's (Barak, the Dyer) advances.  She is prepared to sell her shadow. However, the prospect of the transaction does not make the Empress happy. She declares her wish to belong to the humans. With this renunciation, Keikobad´s spell is broken: the Emperor comes back to life , she herself casts a shadow. The couples reunite and the voices of unborn children  can be heard, a possibility for a distant future

The singers cast is one of the best that could be assembled today. Adrianne Pieczonka (The Empress), excellent Canadian soprano, has a voice with a beautiful timbre, great vocal flexibility and offered us  a very moving Kaiserin. The scene with Keikobad (a judgment ?), Act 3 , in which she pronounces  the terrible words “Ich will nicht“ is truly impressive. But the outstanding performance  was Elena Pankratova (the Dyer’s Wife). 

The Russian dramatic soprano sang with a thrilling radiance,  incredible vocal and scenic qualities. She can shade her voice to express many nuances of the role, and never seemed to have to push very hard. A compelling performer she had great impact on the expression of her naggishness and the seduction  scenes in Act 2, specially riveting in her Act 3 aria of repentance. It was the beauty of her singing that marks an unique performance. 

Johan Botha (The Emperor), a well known heldentenor, beautiful singing , vocally impressive, effortless power. His scenic rigidity seems appropriate as the figure will turn into stone. 

John Lundgren, a Swedish baritone, was a notable Barak. The voice of a Lieder singer, he has the presence and the sympathy of this figure humanity (only character  with a real name). American mezzo Deborah Polaski (The Nurse),  an experienced Straussian and Wagnerian singer, throws everything at her performance. Her dramatic voice is certainly frailer than it was, but she kept her  tessitura adequate. Great actress, she was excellent in portraying this ambiguous personage, sensational in the final madness. The other parts were well taken, notably so Sebastian Holecek as the powerful Spirit Messenger, Eri Nakamura sang the Voice of the Falcon, Okka von der  Damerau delivered a serene Voice from the Above and Hanna-Elisabeth Müller was a secure Guardian of the Threshold. Renate Jett, Austrian actress, represents a mute  Keikobad.

Bayerischen Staatsorchester BSOChoir of BSO e Children Choir da BSO were brilliant. Sebastian Weigle took over from Kirill Petrenko (in Bayreuth for the Wagner´s Ring). Weigle led a solid, well-paced and superior performance, and the BSO (on its finest form) responded beautifully. He had his own merit in the transparency and dynamic direction that gave coherence to all the massive ensemble. Weigle´s handling of everything from the magical, intimate textures to the visceral exciting climaxes was masterful.  With elegance and intelligence he gave ideal support to the singers. Especially notable were the Emperor´s monologue and the solo violin of Act 3. Great moments were the dramatic explosion of the cataclysmic final of the Act 2 and the tutti that end the opera.

The superior new staging of the Polish director deserves the highest mark. Inspired in Alain Resnais ´s movie “L´Année Dernière à Marienbad “(1961), several clips were projected “ohne musik”, a surreal labyrinth  of dreams and remembrances,  before the strong Keikobad motif with which Strauss called the audience to attention. The superb scenario of the great decorator Malgorzata Szczesniak modulates a dreamlike and poetic space. 
Visual spectacular and plastic beauty and the integration of the singers into Warlikowski “ total theatre “ concept, which included spell-binding video and animation work- by Denis Guéguin and Kamil Polak – projected onto the white-tiled walls of a sanatorium (or hospital ?) set. Clear definition of the spaces : the Empress´s couch in a comfortable décor face to the simple bed and washing-machines of the dyers’ home. An elevator makes the connection between the two worlds,  with a personal touch of the director.  The Forest and Underwater video sequences brought breath-taking magic to this fantasy opera. 
In the big scene in Act 2 with the Emperor at the “Falkenhaus”, with child actors wearing huge falcon masks, evoked the word of dreams and the unconscious as potently as Strauss´s music and Hofmannsthal’s text do. The blonde little girl that accompanies by the hand the Empress (the Kaiserin in infancy?) recalls the dreamlike world in which the Empress seems to live.
Keikobad, an old man very curved made regular appearances propped up on a walking stick. The final scene is dominated by a large number of children whose playful actions are shown as shadows on the back blue wall, great beauty , on the proscenium the reunited couples toast champagne, the acid reality of the bourgeoisie.
For Warlikowski the journey of the couples that have assumed humanity is complex and mostly probably does not have a happy ending. I agree with his artistic vision. What happens after the final encounter of the beautiful two couples can be a great question mark. In the round table where the jubilatory quatuor feasts, three have a child seated on the lap, but the Empress has not?
Warlikovski  keeps his fidelity to the original plot, and leaves intact the great dramaturgic work. The quality and seriousness of the staging, his focus on the essential, give unity and strength to this great opera evening. In the utopia of Act 3 the superior use of videos and the poetic beauty, create simplicity and intelligence.” Chapeau”! 

Die Frau ohne Schatten , an extraordinary staging that enhances the intellectual complexity and the musical and vocal sumptuosity. Great triumph of Richard Strauss most complex and enigmatic opera, this will certainly be one of the major achievements of the Strauss anniversary year.