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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Don Giovanni, Teatro alla Scala, Milão, Dezembro de 2011


A nova produção da ópera Don Giovanni para o Teatro alla Scala do canadiano Robert Carsen foi, juntamente com um elenco de excepção, motivo para a abertura da temporada 2011/12 do teatro milanês, marcada, igualmente, pela estreia de Daniel Barenboim como seu director artístico.





Tivemos oportunidade de assistir, ao vivo, à segunda récita. Ainda que em lugares com visibilidade reduzida, ficam algumas notas sobre o que foi visto e ouvido.



“Notas do encenador”...
Pensamos ser, de salientar, ab initio, algumas das considerações do encenador presentes no programa da ópera editado pelo Teatro.
“Nesta produção quero criar um Don Giovanni com pensamento rápido, que domina todos, que precede e está sempre à frente dos demais. Tudo, em suma, gira em torno dele. Esta é a ideia base da encenação e que condiciona tudo o resto”, afirma Carsen.
Para Carsen, Don Giovanni é um homem que ninguém conhece, ao contrário dos demais que representam sempre tipos sociais/individuais conhecidos e conhecíveis, o que se sustenta nas primeiras palavras de Don Giovanni “chi son io tu non saprai”. É um homem que sabe e faz exactamente aquilo que quer e, de facto, o verbo volere é o que mais vezes surge no libretto. Que é corajoso e não tem medo da morte. No fim do primeiro acto diz “ma non manca in me coraggio, ... se cadesse ancora il mondo, nulla mai temer mi fa” e, no fim do segundo, “ho fero il cor nel petto, non ho timor, verrò”. Em suma, para Carsen, Don Giovanni é um homem profundamente livre, anárquico, sem medo da morte, sem constrições socais, que faz o que quer, que não acredita num céu ou num inferno que o possam julgar, por perceber que é um homem que vive num mundo absurdo e sem significado. E que não é um violador, um assassino ou um criminoso. Diz Carsen "não há culpa na morte do Comendador. Por duas vezes recusa bater-se em duelo e só o aceita porque é obrigado. (…) ele age em legítima defesa, tal como sucede quando agride Masetto“, pois todos estavam mais armados do que ele.
É um homem com uma enorme energia vital que electrifica todos os que se relacionam com ele: mulheres e homens.
Donna Ana está como que hiponotizada. Para Carsen, Donna Ana não é violada. Aliás, a dúvida sobre a cena inicial, está sublinhada em todo o libretto, bem patente na explicação que dá a Don Ottavio que é, indubitavelmente, pouco credível, e pela confusão que faz ao confundir, depois do desmaio, Don Ottavio com Don Giovanni “Fuggi, crudelle, fuggi! Lascia che mora, anch’io”, palavras que o primeiro não merecia, decerto. Sofre, antes, de uma dupla perda: por um lado, a perda da virgindade, sucumbindo aos seus desejos e pulsões, e de uma moral superior; por outro, a perda do pai, símbolo do que fora e de austeridade. 
Don Ottavio é a antítese de Don Giovanni, mas também este deixa transparecer uma admiração por Don Giovanni ao longo do libreto. O próprio Don Ottavio, parece não acreditar na culpa de Don Giovanni em relação a Donna Ana, dizendo “disinganarla voglio” e, só depois, corrigindo, “o vendicarla”.
Donna Elvira é louca por Don Giovanni: fala muito dos excessos deste, mas os excessos são, também e não menos, dela.

Não deixa de ser muito curioso, a ausência total da personagem Leporello nestas notas do encenador, o que fica bem patente no modo como acaba por secundarizar totalmente o seu papel.


“A encenação”
O ponto que mais curiosidade nos suscitava era a encenação de Carsen, conhecido pelas suas modernizações interpretativas e por cenários minimalistas.

A encenação introduziu alguns elementos. Logo na abertura, um enorme espelho projectava todo o teatro, distorcendo-o, e provocando um efeito que, ao vivo, era marcante e que, no fundo, transportava para o palco o espectador,  desmascarando-o como que dizendo “não se escondam ou alheiem, porque o que vamos tratar aqui também faz parte das vossas vidas”; Leporello transforma as folhas do catálogo em painéis onde regista as conquistas do patrão; depois da morte do Commendatore, Donna Anna surge com Don Ottavio no funeral do seu pai, algo não habitual; no final do primeiro acto, Don Giovanni “derrota” os seus opositores, que empunham armas, fazendo cair o pano; Don Giovanni conduz os seus pares como se fosse um encenador, dividindo-se o palco em dois planos a alturas distintas, sendo mais um elemento indicativo de que este é uma personagem que vive intensamente e domina todo o teatro da vida; há diversas cenas passadas entre a plateia e o palco, o que, para o público, é um pormenor que agrada, pela proximidade estabelecida com os artistas e que remete, novamente, para a participação activa do espectador; o Commendatore chama Don Giovanni a partir da tribuna presidencial do teatro, algo que não é inovador (por exemplo, no Oneguin que esteve no TNSC , canta-se aí a ária do Príncipe Gremin); no final, todas as personagens acabam por ir para o inferno, surgindo Don Giovanni sorridente, vitorioso e fumando, displicente, o seu cigarro. De notar, a omnipresença do teatro infinitamente projectado em painéis no palco.


Entre todos estes elementos perpassa a questão: o que é que se acrescentou à leitura da obra? No nosso entender, o que difere das anteriores encenações, é o facto de o espectador ser chamado à ópera como mais um elemento participante, sendo este o ponto de realce na interpretação de Carsen. Em tudo o mais, os elementos surgidos pouco acrescentam à interpretação do libretto, pelo que não é uma encenação particularmente criativa.

Sob o ponto de vista da condução cénica, Don Giovanni é um homem frio, distante e snob; Leporello uma personagem esquecida, sem brio, sem graça, nunca surgindo como o elemento buffo da ópera. Ninguém destaca. Há como que um amorfismo generalizado.

De facto, tendo em conta as expectativas, e muito embora, no cômputo geral, acabasse por ser um dos melhores elementos da récita, esperávamos melhor. Se o objectivo era realizar uma encenação actualizada, condizente com os tempos que correm, não atingiu o objectivo. Uma interpretação clássica explora mais eficazmente a profundidade temática da obra. Para encenação moderna, recomendamos vivamente que se veja a de Claus Guth para o festival de Salzburgo de 2008 que, no nosso entender, é de uma genialidade ímpar (disponível em DVD/Blu-ray), mas deixo-vos a curiosidade para perceber porquê.

“Os artistas”


Peter Mattei (baixo) foi um Don Giovanni com um timbre muito adequado ao papel e que transpareceu, até pela sua compleição física, um Don Giovanni pertencente à alta sociedade, confiante nas suas escolhas e superior aos demais. Mas nunca conseguiu entusiasmar ou seduzir, parecendo sempre demasiado distante ou desinteressado, senão mesmo enjoado de tanto repetir o galanteio. Não sendo brilhante, a sua actuação foi pautada pela regularidade, considerando-o muito provavelmente limitado pela encenação e longe dos melhores no papel.

Kwangchul Youn (baixo) como Commendatore foi tudo o que lhe era exigível. Com uma voz bonita e enorme potência, preencheu todos os cantos da sala com enorme harmonia, transparecendo o negro autoritário exigido à voz de uma personagem que representa a austeridade e constância dos valores morais superiores. Esteve entre os melhores.

Anna Netrebko (soprano) estreava-se com este Don Giovanni no Teatro de Milão. E foi uma excelente Donna Anna. Com a sua voz brilhante e viva, aliada a uma excelente presença em palco, foi, sem dúvida, o elemento em maior destaque de todo o elenco, confirmando-se, uma vez mais, como um dos sopranos mais cintilantes do actual firmamento operático. Esteve perfeita na ária “No mi dir, bell’idol mio”.

Guiseppe Filianoti (tenor) foi um Don Ottavio regular. Tem uma voz com um timbre bonito, mas não muito potente. Interpretativamente pouco expressivo, não destacou.

Barbara Frittoli (soprano) como Donna Elvira apresentou-se com uma voz bem colocada, madura e expressiva e tecnicamente em muito bom plano. Mas nunca conseguiu transmitir o doentio da sua personagem.

Bryn Terfel (barítono) foi um Leporello vocalmente em bom plano. É sabido ser, além de um extraordinário cantor lírico, um bom actor, sendo, por isso, de lamentar a interpretação que em nada (ou quase) nos fez rir, o que foi de encontro à secundarização carseniana da sua personagem e ao ambiente amorfo geral da récita.

Stefan Kocán (baixo) foi um Masetto eficaz quer vocal, quer cenicamente, cumprindo bem com os requisitos exigidos à personagem que interpretou.

Anna Prohaska (soprano) como Zerlina foi, no nosso entender, a desilusão da noite. Pouco expressiva, como uma voz que nada parece trazer de novo, esteve por diversas vezes no limite da afinação e, a título de exemplo, na ária de beleza ímpar “Vedrai, carino, se sei buonino” prejudicou mais do que excessivamente a interpretação vocal em detrimento da cénica, não suscitando o aplauso natural do público. Uma pena!





Daniel Baremboim conduziu a Orquestra do Scala aqui e ali um pouco lento, tendo sido, ainda assim, uma interpretação harmoniosa e limpa e que conseguiu transmitir os sentimentos da ópera de Mozart, sem que, todavia, tenha atingido o difícil compromisso entre o sério e o buffo que esta obra impõe.  


Em suma, tendo em conta os pergaminhos do Teatro e as elevadas expectativas em torno de uma produção com um elenco estrelar, um encenador da alta roda, a estreia de Baremboim como director artístico e o início da temporada, podemos dizer que ficou bem aquém das expectativas. Esperava-se melhor... 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DON GIOVANNI – Teatro alla Scala, Milão – Abertura da Temporada – 7 Dezembro 2011 (transmissão TV canal ARTE)






(review in english below)






A abertura da Temporada do Scala é sempre um grande evento musical e social (embora para nós menos importante neste campo…). Coube a Mozart inaugurá-la este ano e, para tal, foi escolhido o Don Giovanni, com um elenco estrelar.



Infelizmente não podemos estar presentes ao vivo mas o canal ARTE possibilitou-nos assistir ontem a esta produção e trago hoje aqui a minha impressão geral.








A encenação de Robert Carsen não traz nada de novo, nem prima pela inovação ou interesse cénico. A utilização de referências à estrutura do Scala em reflexos ou constituintes do cenário não é nova e já se viu em outras produções operáticas. O colocar da lista de conquistas de Don Giovanni como uma estrutura com traços verticais feitos a caneta, semelhantes aos que classicamente surgem nos filmes em que o prisioneiro conta os dias de clausura, não me pareceu particularmente imaginativo. A vaidade de Don Giovanni é dada por uma constante e excessiva troca de indumentaria do protagonista. No trio “Ah taci, ingiusto core”, não assistimos à tradicional e sempre jocosa imitação de Don Giovanni por Leporello. A cena da refeição antes da chegada do Comendador faz passar uma quantidade diversa de pratos altamente elaborados pela mesa, com simulação de ingesta por Don Giovanni, sem que haja tempo para uma refeição completa, torna a cena demasiado irreal. Em resumo, penso que as encenações devem trazer algo de novo e imaginativo quando pretendem não ser clássicas. Assim, teria sido preferível uma encenação tradicional e procurando apostar em alguns pormenores de representação, que também falharam, e que são aqueles que conseguem elevar obras como o Don Giovanni à excelência que são.





Peter Mattei foi o eterno sedutor. Tem a voz perfeita para o papel e como a imagino para a personagem. Irrepreensível na sua prestação vocal. Contudo, não posso dizer que tenha sentido o Don Giovanni egoísta, altivo e sem respeito por ninguém. Faltaram as nuances vocais que por exemplo Johannes Weisser faz na gravação de Rene Jacobs. No “Non ti fidar, o mísera”, além de Barenboim ter colocado o andamento demasiado lento, Mattei pareceu demasiado apático e métrico na interpretação. Disse “È pazza, amici miei” como quem lê uma lista de compras, em vez de ter a atitude esperada de disfarce e relativizar o que Elvira acusa. Com uma Elvira altamente expressiva, destoou por completo alguns momentos mais à frente quando diz “Zitto, zitto, che la gente. Si raduna a noi d'intorno, Siate un poco più prudente, Vi farete criticar”. Muito longe da minha referência…





Bryn Terfel confirma que é um artista completo. Vocalmente em forma, muito expressivo corporalmente. Mas não conseguiu ser claramente evidente em todas as passagens cómicas da personagem. Estas são, sem dúvida, a cereja no topo do bolo desta personagem – conseguir ser cómico e não parecer foleiro é difícil. Esperava outra luz de Terfel neste campo.




Anna Netrebko esteve sublime! A voz inunda a sala de modo envolvente e doce. Canta em força e com sentimento, chegando a emocionar-se verdadeiramente no final das árias. Uma das melhores presenças em palco, sem dúvida.



Barbara Frittoli está fantástica! Perdeu uns quilinhos e, na maturidade da idade, revelou-se uma Donna Elvira muito expressiva quer vocal quer corporalmente. Vive os dramas da personagem com uma mestria inigualável e a voz está em excelente momento.



Giuseppe Filianoti foi muito lírico, cristalino, embora na maior parte das intervenções, com pouca expressividade facial.



Kwangchul Youn é o Comendador perfeito. Voz grave e ressonante é o que se pede à personagem, principalmente no final, e ele consegui-lo de forma perfeita.




Anna Prohaska
supreendeu-me muito pela positiva, com uma voz bastante bonita.

Stefan Kocan foi uma Masseto eficaz.



A condução de Daniel Barenboim foi bastante boa, exceptuando o já referido “Non ti fidar, o mísera” que achei muito lento.








Este elenco, na encenação do Met deste ano, e com alguns pormenores teatro-vocais melhorados seria um Don de referência, capaz de tocar qualquer um. Assim, é “só” e “apenas” mais uma boa produção desta ópera…






DON GIOVANNI - Teatro alla Scala, Milan - Opening of the Season - December 7, 2011 (broadcast TV channel ARTE)







The opening of the Scala season is always a great musical and social event (although less important for us in this field ...). Mozart fell to inaugurate it this year and, for that was named the Don Giovanni, with an all-star cast.





Unfortunately we can not attend live but ARTE enabled us to watch this production yesterday and today I bring you my overall impression.







The staging by Robert Carsen does not bring anything new, nor press for innovation or scenic interest. The use of references to the structure of the Scala with reflexes or constituting the scenario is not new and has been seen in other opera productions. The place of the list of achievements of Don Giovanni as a structure with vertical strokes made by pen, similar to that classically appearance in films in which the prisoner counts the days of closure, did not seem particularly imaginative. The vanity of Don Giovanni is given by a constant and excessive exchange of clothes by the protagonist. In the trio "Ah Taci, ingiusto core" I did not see the traditional and always humorous imitation of Leporello in Don Giovanni. The scene of the meal before the arrival of the Commendatore passes a diverse number of dishes of high cuisine, with simulated intake by Don Giovanni, with no time for a full meal, the scene becomes too unreal.






In summary, I think that the scenarios should bring something new and imaginative when they wish not to be classic. Thus, it would have been preferable a traditional staging and try to ameliorate some details of representation, which also failed, and those are the ones who can raise works like Don Giovanni to the excellence they are.






Peter Mattei was the eternal charmer. His voice is perfect for the role and how I imagine the character. Faultless in his vocal delivery. However, I can not say that he make me feel the Don Giovanni who is selfish, arrogant and lacking respect for anyone. He did not give the vocal nuances like Johannes Weisser does in the Rene Jacobs recording, and which I find helpfull in giving that superficial look of Don. In "Non ti fidar, o misera", and Barenboim was very slow here, Mattei seemed too apathetic and with a metric interpretation. He said, "È pazza, amici miei" as those who read a shopping list, instead of having the attitude expected of disguise and relativize what Elvira accuses. Elvira with a highly expressive, fully jars a few moments later when he says "“Zitto, zitto, che la gente. Si raduna a noi d'intorno, Siate un poco più prudente, Vi farete criticar”. Too far from my reference ...








Bryn Terfel confirms that he is a complete artist. Vocally in shape, very expressive. But he could not be clearly evident in all passages of comic character. These are undoubtedly the icing on the cake of this character – to manage to be humourous and not to look tacky is difficult. I expected another light from Terfel in this field.




Anna Netrebko was sublime! The voice fills the room in an engaging and sweet way. She sings in strength but with feeling, the emotion is true at the end of the arias. One of the best stage presence, no doubt.


Barbara Frittoli is fantastic! Lost a few pounds, and in the maturity of age, proved to be a very vocal and bodily expressive Donna Elvira. She lives the drama of this character with an unparalleled mastery of the voice.





Giuseppe Filianotti was very lyrical, crystalline, although most of the interventions, with little facial expression.Kwangchul Youn was a perfect Commnedatore. A resonant bass voice is what is required for this character, especially at the end, and he got it in a perfect way.







Kwangchul Youn was a perfect Commnedatore. A resonant bass voice is what is required for this character, especially at the end, and he got it in a perfect way.








Anna Prohaska surprised me very positively, with a very beautiful voice.



Stefan Kocan was an effective Masseto.







Daniel Barenboim conduction was pretty good, except for the aforementioned "Non ti fidar, o misera" which I found in a very slow pace.









This cast, the sets from this year’s Met production, and some enhanced theatric and vocal details would mader this a refence Don Giovanni. This way it is "only" and "just" a good production of this opera...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

RIGOLETTO – METropolitan Opera, Nova Iorque, Abril de 2011

(review in English below)

Rigoletto é uma das óperas mais conhecidas de Giuseppe Verdi com libretto de Francesco Maria Piave, inspirada na peça de Victor Hugo Le Roi s’Amuse.


 O Duque de Mantua é um mulherengo conhecido e tem um bobo, Rigoletto, que troça de todos. Monterone, um nobre, acusa o Duque de ter seduzido a filha e é ridicularizado por Rigoletto, o que o faz lançar-lhe uma maldição. Os nobres suspeitam que Rigoletto tem uma amante e decidem raptá-la. Rigoletto fica perturbado com a maldição de Monterone e, em casa, avisa a governanta (Giovanna) que não deve deixar entrar ninguém, por protecção à filha, Gilda. O Duque, disfarçado de estudante, suborna a governanta e encontra-se com Gilda que se havia apaixonado por ele na igreja. Ela é depois raptada e levada para o palácio ducal. Quando Rigoletto se apercebe do rapto volta a recordar a maldição de Monterone.
No palácio, pede para lhe devolverem a filha, surpreendendo os raptores. Gilda, a sós com o pai, relata o sucedido e pede-lhe para perdoar o Duque. Rigoletto jura vingança. Para matar o Duque contrata um assassino, Sparafucile, que vive com a irmã Maddalena nos arredores de Mantua. Acompanhado da filha, mostra-lhe que o Duque se está a divertir com Maddalena e manda-a regressar a Verona. Gilda disfarça-se de rapaz e, após ouvir que Sparafucile não quer matar o Duque, a pedido da irmã, mas tem de matar alguém para entregar um corpo, decide sacrificar-se e bate à porta da casa, pedindo abrigo porque a noite é tempestuosa. Sparafucile entrega a Rigoletto um saco com o corpo e, quando este o vai deitar ao rio, ouve a voz do Duque na casa. Abre o saco e apercebe-se que é Gilda que lá está. Ela pede desculpa ao pai por se ter sacrificado e morre. Rigoletto volta a lembrar-se da maldição de Monterone.


 A encenação, de Otto Schenk, é de há muitos anos, clássica mas eficaz. Tudo se passa no exterior do palácio ducal, da casa de Rigoletto, ou da de Sparafucille. A concepção cénica é interessante.

A orquestra foi dirigida por Fábio Luigi e, como é habitual, teve uma óptima prestação. Também o coro foi muito bom.


 Rigoletto foi superiormente interpretado pelo barítono sérvio Zeljko Lucic. A voz é invulgarmente bela, grande e sempre afinada. O cantor conseguiu expressar vocalmente, com muita credibilidade, os sentimentos dominantes da personagem. Foi jocoso, terno, angustiado, desesperado e vingativo sempre que as ocasiões surgiram. Também a sua presença em palco foi credível. Um dos grandes da noite.



 Diana Damrau, soprano alemão, foi uma Gilda de elevada qualidade. A voz é de grande beleza e parece que cresceu após a maternidade. Nos vários duetos com o pai foi brilhante e em Caro nome foi irrepreensível e mostrou o esplendor da sua capacidade interpretativa. Cantou sempre afinada e ofereceu-nos uns pianissimi inesquecíveis. Foi a outra grande intérprete da noite.


 Maddalena foi interpretada pelo mezzo espanhol Nancy Fabiola Herrera. Esteve bem mas não mais do que isso. A voz é mais interessante no registo mais grave mas é facilmente abafada pela orquestra.

O baixo eslovaco Stefan Kocán foi um Sparafucille pouco interessante. O cantor tem um timbre bizarro, particularmente notório quando cantava notas mais agudas. Não soou bem e também não teve uma presença cénica marcante.


 Deixo para o fim o Duque de Mântua, cantado pelo tenor italiano Giuseppe Filianoti. Um desastre! Começou mal, sem qualidade vocal, com voz excessivamente nasalada e assim continuou até ao final. A emissão foi irregular e os agudos, quando se ouviam, eram muito esforçados, esganiçados, frequentemente desafinados e sem qualquer laivo de beleza. Em la donna è mobile, a ária emblemática da personagem, esteve menos mal do que em tudo o resto mas muito aquém do desejável. Contudo, no final, quando a volta a cantar dentro de casa, foi uma desafinação completa!
Não percebo o que se terá passado. Filianoti tem fama de tenor de qualidade e seguramente que não é com interpretações como esta que a granjeou.
Não ouvimos o Giuseppe Filianoti mas sim o “Guiseppe Falhanote!” (comentário do wagner_fanatic).


 Uma última palavra para o público aqui no Met. Como já escrevi anteriormente, acho que tem um comportamento desagradável, não só porque aparentemente não distingue o bom do mau, aplaudindo de forma semelhante como, sobretudo, porque aplaude tudo e em plena execução musical – os cenários, a entrada em cena de certos cantores mais famosos, algum movimento cénico mais invulgar, etc. E, sempre que suspeita que a ária, o ensemble ou o acto vai terminar, aplaude intensamente sem deixar ouvir a música (e por vezes os cantores) até ao fim.








A isto, que é o habitual em todos os espectáculos, juntou-se nesta récita um coro de tosses que fez lembrar uma competição – ora vamos lá ver quem consegue tossir mais alto e, quiçá, sobrepor o som à orquestra e aos cantores? No 3º acto foi preciso assistir para acreditar que era verdade (e mesmo assim ainda se ouviram as desafinações do Filianoti!). Uma selvajaria!





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Rigoletto - Metropolitan Opera, New York, April 2011

Rigoletto is one of the best known operas of Giuseppe Verdi with libretto by Francesco Maria Piave, inspired in part by Victor Hugo’s Le Roi s'Amuse.

The Duke of Mantua is a known woman seductor and has a jester, Rigoletto, that makes fun of everyone. Monterone, a nobleman, accuses the Duke of seducing his daughter and he is ridiculed by Rigoletto. He throws a curse to Rigoletto. The nobles suspect that Rigoletto has a mistress and decide to kidnap her. Rigoletto is afflicted with the curse of Monterone and at home, warns the governess (Giovanna) that she should not let anyone in, for protection to his daughter, Gilda. The Duke, disguised as a student, bribes the governess and meets Gilda who had fallen in love with him in church. Later, she is kidnapped and taken to the ducal palace. When Rigoletto realizes the abduction, he remembers the curse of Monterone. At the palace he asks to get back her daughter, surprising the kidnappers. Gilda, alone with his father, tells him what happened and asks him to forgive the Duke. Rigoletto swears revenge. To kill the Duke he hires an assassin, Sparafucile, who lives with his sister Maddalena on the outskirts of Mantua. Accompanied by his daughter, he shows her that the Duke is seducing Maddalena and sends her back to Verona. Gilda disguises herself as a boy and, after hearing that Sparafucile does not want to kill the Duke, at the request of his sister, but must kill someone to deliver a body, decides to sacrifice herself and knocks at the door, asking for shelter for the stormy night. Sparafucile gives Rigoletto a bag with the body, and when he is going to pour it into the river, he hears the voice of Duke in the house. Rigoletto opens the bag and realizes that Gilda is there. She apologizes to her father for having sacrificed and died. Rigoletto remembers again the curse of Monterone.

The staging by Otto Schenk, is an old one, classic but effective. Everything takes place outside the Ducal Palace, Rigoletto's house, or Sparafucille’s house. The scenic design is interesting.

The orchestra was conducted by Fabio Luigi and, as usual, had a great performance. The Choir was also, very good.

Rigoletto was fantastically interpreted by the Serbian baritone Zeljko Lucic. The voice is unusually beautiful, powerful and always in tune. The singer managed to express vocally, with a lot of credibility, the dominant feelings of the character. He was playful, tender, anguished, desperate and vengeful whenever occasions arose. Also his scenic presence was credible. He was one of the remarkable performers of the night.

Diana Damrau, German soprano, was a high quality Gilda. Her voice is very beautiful and it seems that it grew after motherhood. In several duets with his father she was brilliant and in  Caro nome she was impeccable and showed the splendor of her interpretive capacity. She sang always in tune and gave us some unforgettable pianissimi. she was another great performer of the night.

Maddalena was interpreted by Spanish mezzo Nancy Fabiola Herrera. She was OK but not more than that. Her voice is more interesting in the lower register but it is easily drowned out by the orchestra.

Slovak bass Stefan Kocani was a weak Sparafucille. The singer has a weird tone, particularly noticeable when singing high notes. He did not sound well and also did not have a remarkable stage presence.

The Duke of Mantua, sung by Italian tenor Giuseppe Filianoti was a disaster! He started poorly, with no vocal quality and a too nasal voice and he remained so until the end of the performance. The voice was irregular and the top notes, when audible, were screamed, shrill, often out of tune and without any hint of beauty. In La donna è mobile, the most charismatic aria of the Duke, he was better than anywhere else, but far from the desirable. However, in the end, when he sings again inside the house, he was completely out of tune.
I do not understand what happened. Filianoti has a reputation and I am sure he did not achieved it with performances like this one!! We did not hear Giuseppe Filianoti but  Giuseppe “Falhanote" ( Falhanote – fails the notes, the joke sounds well in portuguese) (wagner_fanatic’s comment).

One last comment about the audience here at the Met. As I wrote earlier, I think the audience has an unpleasant behavior, not only because it apparently does not distinguish good from bad performances, applauding both the same way, but especially because it applauds while the music is still being played. Furthermore, it applauds the scenarios, the entrance of certain most famous singers, some more unusual scenic movement, etc.. And whenever it suspects that the aria, ensemble or the act is coming to the end, it strongly applauds without letting the proper listening the music (and sometimes the singers) until the end.

Adding to this unpleasant situation, which is usual in all performances, this time a chorus of coughs was joined. It seemed a competition – let’s see who can cough louder and, perhaps, overlap the sound to the singers?
It was bad all over but, in the 3rd act, it was necessary to be there to believe it! (and we could still hear Filianoti out of tune!). Horrible!

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