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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"MANON LESCAUT" MANTÉM O MUNICIPAL DE SÃO PAULO EM ALTO NÍVEL


CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Após a boa notícia da troca de produções entre os teatros municipais do Rio e de São Paulo nos anos vindouros estreou no Theatro Municipal de São Paulo a ópera "Manon Lescaut" de Puccini no último dia 29 de Agosto. Entre as quatro mais famosas óperas de Puccini considero Manon Lescaut a mais fraca, não vejo nela a mesma genialidade musical das óperas "Turandot", "Madama Butterfly" ou da "Tosca". Considero a "Manon" de Massenet superior em matéria de libreto e melodias.



 A exceção do "Otello" o Theatro Municipal apresentou excelentes produções esse ano e Manon Lescaut não foi diferente. Cenários exuberantes e corretos, de tirar o fôlego de Juan Guillermo Nova, figurinos adequados de Marino Luxardo e a luz que dialoga com o texto de Cesare Agoni foram o princípio de uma grande récita. O cenário do primeiro ato lembra um quadro impressionista, leve e idílico. O segundo ato passeia no expressionismo, o terceiro é realista e o último é surrealista.
A direção cênica de Cesare Lievi fica na medida correta, sem exageros, sem firulas e invencionices modernistas. Mantém a ação na época em que ela se passa e se presta à narrar a ação cênica como ela é. Moderna e atual se harmoniza com as outras linguagens teatrais. Ser moderno não é necessário chocar o público colocando peladões ou telões no palco.

Marcello Giordani foi um dos melhores Des Grieux da sua geração, figura carimbada em todos os grandes teatros do mundo afora. Apresentou voz potente e agudos brilhantes e parou por aí, sua voz foi sempre constante, sem vibração e empolgação. Cenicamente imprimiu certa dramaticidade ao seu personagem nos atos finais, pecou nos dois primeiros pela falta de jovialidade.

 Maria José Siri mostrou mais uma vez no palco do Municipal sua qualidade vocal. Seja como Aida ou como Manon Lescaut sua voz de soprano spinto tem calor e escuridão no timbre, potencia e projeção para encher a sala de apresentações. Sua Manon é tensa, apaixonada e totalmente convincente. 



Paulo Szot mostrou completo domínio cênico e vocal do personagem Lescaut, sua voz é recheada de graves robustos e técnica refinada. Tive o prazer de vê-lo cantando a versão francesa de Lescaut no Teatro Alfa em 2002 e agora o vejo na versão italiana e ele só melhora a cada apresentação. O Geronte de Saulo Javan esteve a altura do personagem com belos graves.

A Orquestra Sinfônica Municipal regida por John Neschling mostra que está se acostumando ao repertório operístico, tocou com precisão e firmeza. Andamentos precisos e musicalidade com volume correta foram a tônica da apresentação. A prática leva a perfeição, quanto mais óperas apresentadas maior será o crescimento da orquestra. O incidente do início do quarto ato onde a música começa e para por um problema técnico no palco afetou pouco o decorrer da récita. O Coro Lírico Municipal segue a mesma fórmula, sempre se apresenta com qualidade vocal superior em todos os naipes vocais.

Ali Hassan Ayache

segunda-feira, 25 de março de 2013

Francesca da Rimini de Riccardo Zandonai — MetLive in HD, FCG, 23.03.2013


(Review in English below)

Riccardo Zandonai escreveu a ópera em quatro actos Francesca da Rimini em 1914 e apresentou-a, pela primeira vez, no Teatro Régio de Turim. O libreto de Tito Ricordi baseou-se na peça de Gabriele D’Annunzio que, por sua vez, se inspirou e adaptou livremente o episódio de Francesca da Rimini do Inferno de Dante.

A história básica não vai além de um banal e desinteressante quarteto amoroso — três irmãos apaixonados pela mesma mulher. Gianciotto, homem rude e deformado, casa-se com a bela Francesca que lhe fora prometida. Todavia, Francesca apaixona-se por Paolo (irmão de Gianciotto), um homem galante; Malatestino, o zarolho irmão mais novo de Paolo e Gianciotto, invejoso por não receber o amor da cunhada, lança-se em acusações contra o irmão Paolo. Nisto, Paolo e Francesca são apanhados em delito adúltero por Gianciotto que, cego de ciúme e afogado em desonra, comete um há muito esperado duplo homicídio passional... e Francesca morre nos braços de um igualmente defunto Paolo. Poderão ler uma sinopse aqui.
Poderei afirmar, com segurança, que o libreto é o elemento mais fraco da ópera. Não só não tem muito interesse poético, como é pouco verosímil e as suas cenas têm uma cadência pouco sequencial ou ligada. Em suma, de uma pobreza inesperada.


A encenação de Piero Faggioni foi a que o MET apresentou em 1986. Elegante, de excelente efeito visual e acompanhada de um guarda-roupa de nível, põe em evidência as diversas cenas da ópera de modo muito adequado e clássico.


A música de Zandonai é de qualidade, mas não é sumptuosa ou de um lirismo brilhante. Parece que fica aquém da grandeza melódica que, no imediato, sugere. A direcção de Marco Armiliato foi de muito bom nível, conduzindo a habitualmente excelente Orquestra do MET.

O soprano Eva Maria Westbroek foi a jovem Francesca. Tem uma voz com um timbre não especialmente belo, mas deu-nos uma boa interpretação. Apesar disso, lamenta-se uma dicção fraca do italiano, bem como um ou outro agudo mais rude.


O tenor Marcello Giordani foi Paolo. No papel de homem galante, apresentou-se com uma voz um pouco enfraquecida e num estilo demasiado piegas. Ainda assim, esteve bem num papel que, nas suas palavras, cantou “por ser fácil”. Assim se compreende a vasta lista que detém no MET… Adaptando a frase de Leporello em Don Giovanni: Madamina, il catalogo è questo delle opera qui cantò la voce mia...


O barítono Mark Delevan foi Gianciotto. O papel não é muito exigente vocalmente e esteve bem. Cenicamente foi-lhe pedido que fosse rude com toda a gente e amável com Francesca, o que não parece combinar bem com a deformidade física e carácter de homem guerreiro que ostenta.

O tenor Robert Brubaker foi Malatestino. Apresentou-se em bom nível, transmitindo, vocal e cenicamente, a ideia de um homem desagradavelmente mesquinho.


O quarteto de companheiras de Francesca (os sopranos Dísella Làrusdóttir e Caitlin Lynch; os mezzo-sopranos Patricia Risley e Renée Tatum) apresentaram-se em bom nível com destaque para os sopranos. Também o mezzo-soprano Ginger Costa-Jackson (Smaragdi, criada de Francesca) de muito agradável figura esteve em bom plano no seu modesto papel. Os restantes elementos têm participações residuais e estiveram bem.

Assim, podemos dizer que se assistiu a uma ópera com interpretações vocais de nível homogéneo e sem grandes destaques. A ópera de Zandonai (que é para muitos desconhecida) não é particularmente interessante em nenhum aspecto, pelo que não me posso dizer encantado.

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(Review in English)

Riccardo Zandonai wrote the opera in four acts Francesca da Rimini in 1914 and presented it for the first time at the Teatro Regio in Turin. The libretto by Tito Ricordi was based on the play by Gabriele D'Annunzio who, in turn, was inspired and adapted freely Francesca da Rimini episode of Dante's Inferno.

Basically, the plot is not going beyond a banal and uninteresting loving quartet - three brothers in love with the same woman. Gianciotto, rude and deformed man, marries the beautiful Francesca promised to him. However, Francesca falls in love for Paolo (brother of Gianciotto), a gallant man; Malatestino, the one-eyed younger brother of Paolo and Gianciotto, envious for not receive the love of his sister-in-law, launches him into charges against his brother Paolo. Herein, Gianciotto catches Paolo and Francesca in adulterous crime, and jealousy blind and drowned in disgrace, makes a long-awaited passionate double homicide... Francesca dies in the arms of an equally deceased Paolo... You can read a synopsis here.
I can say with certainty that the libretto is the weakest element of the opera. Not only has not much poetic interest, as their scenes have a little cadence or are sequential or linked. In short, it was of an unexpected poverty.

The staging of Piero Faggioni was presented to the MET in 1986. Elegant, with excellent visual effect and accompanied by a high level wardrobe, it highlights the various scenes of the opera in a very appropriate and classic way.

Zandonai’s music has indeed quality, but is not sumptuous or of a brilliant lyricism. It seems that falls short, despite the greatness of some melodic themes immediately suggests. The direction of Marco Armiliato was of very good level, leading the usually excellent MET Orchestra.

The soprano Eva Maria Westbroek was the young Francesca. She has a voice with a timbre not particularly beautiful, but gave us a good interpretation. Nevertheless, I lament a weak Italian diction, as well as some ruder acute.

The tenor Marcello Giordani was Paolo. In the role of a gallant man, presented with a weakened voice and in a style too slobbery. Still, he was good in a role that, in his words, sang "because it is easy." Once you understand the vast list that he holds at MET… Adapting a phrase from Leporello in Don Giovanni: Madamina, il catalogo è questo delle opera qui cantò la voce mia...

The baritone Mark Delevan was Gianciotto. The role is not very demanding vocally and he did well. Scenically was asked to be rude to everyone and kind with Francesca, which does not seem to match well with his physical deformity and character of a warrior man.

The tenor Robert Brubaker was Malatestino. He performed at a good level, transmitting, vocal and scenically, the idea of an unpleasant stingy man.

The quartet mates Francesca (the sopranos Dísella Larusdottir and Caitlin Lynch, the mezzo-sopranos Renée Tatum and Patricia Risley) were at a good level with emphasis on the sopranos. Also the beautiful mezzo-soprano Ginger Costa-Jackson (Smaragdi, created by Francesca) was in good plan in her modest role. The remaining elements have been well on their residual roles.

So I can say that there has been an opera with homogeneous vocal interpretations with no major highlights. Zandonai's opera (which is unknown to much) is not particularly interesting in any aspect, so I cannot say I was enchanted.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

AIDA, METropolitan Opera, Nova Iorque, Março de 2012



 (review in english below)
Aida é uma ópera de G. Verdi com libretto de Antonio Ghislanzoni. O enredo pode ler-se aqui.


 Quando me perguntam qual a ópera que recomendo para quem quer começar, habitualmente sugiro a Carmen ou a Aida. A produção do Met preenche todos os requisitos que espero que uma ópera ofereça a quem quer ver este tipo de espectáculo pela primeira vez. É também óptima para quem já tem experiência, claro!


 A encenação de Sonja Frisell é grandiosa e espectacular. É impossível fazer mais num teatro de ópera. Os cenários transportam-nos ao Egipto faraónico, mudam com frequência, o guarda-roupa é adequado à época, os adereços são muitos e de grande diversidade. Na marcha triunfal do 2º Acto até cavalos entram em cena. Uma encenação conservadora mas verdadeiramente espectacular.
É o esplendor da ópera no seu apogeu e um exemplo perfeito de que a ópera é para ouvir mas também para ver. Na próxima temporada esta será uma das transmissões no Met Live em HD. Não é a mesma coisa do que ver ao vivo, perde-se sobretudo a grandiosidade da encenação mas, se nos for dada a possibilidade de a ver em Portugal, é imperdível.



Dedico este texto em particular aos iniciados, permitam que os chame assim, incluindo neste grupos todos os que nunca assistiram a um espectáculo de ópera ou já o fizeram mas consideraram que foi uma experiência menos agradável. Este é o espectáculo para ouvir e ver.

E há muito que ouvir. A ópera inicia-se de forma suave e comedida mas rapidamente surgem as grandes sonoridades, orquestrais, corais e dos solistas. Os cantores principais (Aida, Radamès, Amneris e Amonastro) têm tipos de vozes diferentes, papeis de enorme exigência e, se forem de qualidade, como seguramente acontecerá no Met, terão interpretações inesquecíveis. Os coros são também grandiosos e atingem o expoente máximo no 2º Acto. A música é de muito fácil apreensão e inclui muitas partes que são conhecidas de todos. A encenação (esta encenação) faz o resto mas, repito, é uma ópera que enche o olho e o ouvido.

Na récita que vi, a Orquestra do Met foi superiormente dirigida pelo maestro italiano Marco Armiliato que fez um excelente trabalho. Houve grandiosidade, emoção ou intimismo sonoros sempre que necessário e solistas, coro e orquestra soaram sempre em uníssono e sem qualquer desencontro. Armiliato foi, merecidamente, muito ovacionado no final











Aida foi interpretada pelo jovem soprano americano Latonia Moore (em substituição de última hora de Violeta Urmana). Teve um triunfo absoluto em casa (foi a sua estreia no Met). A voz é de grande beleza. Alcança os agudos com facilidade e sem perda de qualidade, sempre sobre a orquestra. A cantora é negra, o que ajuda muito ao papel. Esteve muito bem cenicamente. Nas duas árias mais conhecidas, Ritorna vincitor! no 1º acto e Qui Radamès verrà! no 3º foi fabulosa. Penso que terá uma carreira brilhante à sua frente.


 Marcello Giordani  tenor italiano, surpreendeu-me muito positivamente em Radamès. Tem uma voz de uma enorme potência e agudos sonantes, embora no registo médio perca qualidade e, por vezes, não se faz ouvir. A ária Celeste Aida, logo no início do 1º acto, é de dificuldade elevada e é cantada quando os artistas ainda não aqueceram a voz, o que já vi ter efeitos muito negativos. Não foi o caso aqui, Giordani cantou-a sem mácula e, no dueto final da ópera, esteve também irrepreensível.




 Amneris, princesa egípcia, é o papel que mais gosto na ópera. Foi interpretada pelo mezzo americano Stephanie Blythe. Gosto muito da cantora que tem uma voz de excepção, a mais poderosa de todos os cantores em cena. No último acto tem as intervenções mais marcantes L'abborrita rivale a me sfuggìa e, sobretudo, Ohimè, morir mi sento. Mas, confesso, fiquei um pouco desiludido, não pela fantástica qualidade da voz mas pela forma como cantou. O fraseado foi deficiente. A figura da cantora também não a ajuda em palco.


 Amonastro, rei etíope e pai de Aida foi interpretado pelo barítono georgiano Lado Ataneli. Foi mais um cantor com elevado nível vocal e cénico, embora o seu papel seja menos exigente que o dos intérpretes anteriores. É no 3º acto, em dueto com a filha que a sua intervenção pode ser apreciada.


 Uma palavra final para os dois baixos norte americanos, o veterano James Morris (Ramfis, Sumo sacerdote) e o jovem Jordan Bish (Faraó egípcio), ambos com desempenhos vocais de grande classe.
















 Uma Aida inesquecível e muito recomendável.

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AIDA, Metropolitan Opera, New York, March 2012

Aida is an opera by G. Verdi with libretto by Antonio Ghislanzoni. The plot can be read here.

When people ask me what is the opera that I recommend for beginners, usuallt I suggest Carmen or Aida. The Met production meets all the requirements that an opera should offer to those who want to see this type of show for the first time. It is also great for those who already have significant experience, of course!

The staging by Sonja Frisell is grand and spectacular. It is impossible to do more in the opera house. The scenarios bring us to pharaonic Egypt, they change frequently, the dresses are appropriate at the time, the props are many and diverse. In the triumphal march of the 2nd Act even horses come onto the stage. A truly conservative spectacular staging.
It is the splendour of the opera in its top quality and a perfect example that opera is a show to listen but also to see. Next season this opera will be a broadcast from the Met Live in HD. It is not the same thing as to see it live, especially the grandeur of the scenario is lost, but if we are given the possibility to see it in Portugal, it  is a must.

I dedicate this text in particular to beginners, let me call them so, this including all those who have never attended an opera performance, or that have already seen one but felt that it was a less pleasant experience. This is the opera to hear and see.

And there is much to hear. The opera begins smoothly but quickly great sounds emerge, by the orchestra, the chorus and the soloists. The main singers (Aida, Radamès, Amneris and Amonastro) have different types of voices, roles of great demand, and if they will be of top quality, as surely will happen at the Met, they will give us unforgettable performances. The choirs are also great and reach the pinnacle in the 2nd Act. The music is very easy to grasp and includes many parts that are well known to everyone. The scenarios (these scenarios) do the rest, I repeat, it is an opera that fills the eye and ear.

In the performance I saw, the Met Orchestra was directed with superior quality by Italian conductor Marco Armiliato. He did an excellent job. There was grandeur, emotion or intimacy in music where necessary and soloists, chorus and orchestra sounded always in tune and without any coordination problems. Armiliato much applauded at the end, and he deserved it.

Aida was played by the young American soprano Latonia Moore (a last minute replacement of Violeta Urmana). She had an absolute triumph at home (it was her debut at the Met). The voice is large and of considerable beauty. She reachede the top notes with ease and without loss of quality, always over the orchestra. She is a black singer, which helps a lot to the role. Artistically she was very well. In the two most famous arias, Ritorna vincitor! in the 1st Act and Qui Radamès verrà! in the 3rd Act, she was fabulous. I think she has a brilliant career ahead of her.

Italian tenor Marcello Giordani, surprised me very positively as Radamès. He has a voice of tremendous power and sharp top notes of quality, although in the medium register the voice looses quality and, sometimes, is not heard.  The aria Celeste Aida, early in the 1st act, is of high difficulty and is sung when the singers have not warmed up their voice, I've seen bad performances in this aria before, but.it was not the case here, Giordani sang it without problems. And at the final duet of the opera, he was also excellent.

Amneris, the Egyptian princess, is the role that I prefer in this opera. It was interpreted by American mezzo Stephanie Blythe. I like this singer very much. She has an exceptional voice, the most powerful of all the singers on stage. In the last act she has the most striking interventions L'abborrita rivale a me sfuggìa, and especially
Ohimè, morir mi sento. But, I confess, I was a little disappointed, not by the fantastic voice quality but by the way she sang. The phrasing was poor. The figure also does not help the singer on stage.

Amonastro, Ethiopian king and father of Aida was played by Georgian baritone Lado Ataneli. He was one more singer with vocal and artistic high quality, although his role is less demanding than those of the previous singers. It is in the 3rd act, in a duet with his daughter that his intervention can be appreciated.

A final word for the two low north American basses, veteran James Morris (Ramfis, High Priest) and Jordan Bish (Egyptian Pharaoh), both with vocal performances of great class.

An unforgettable and highly recommended Aida.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

AIDA: Gran Teatre del Liceo, Barcelona - 30 de Julho de 2012



Aida é uma ópera composta em 1871 por Giuseppe Verdi (1813-1901), a partir de um libretto de Antonio Ghislanzoni (1824-1893), por seu turno, fundado num argumento elaborado pelo egiptólogo Auguste Mariette (1821-1881), posteriormente, expandido por Camille Du Locle (1832-1903) com base em fontes tão diversas como Nitteti de Pietro Metastasio (1698-1782) ou Bajazet de Jean Racine (1639-1699).


A encenação de José Antonio Gutiérrez, estreada em 2003, propõe um resgate evocativo de algumas criações cenográficas da autoria do emérito artista plástico catalão Josep Mestres i Cabanes (1898-1990), remontantes a 1945, a cargo de Jordi Castells. Por intermédio da multíplice disposição de diversos telões modelados em função dos elementos cénicos a representar (colunas, templos, vegetação, interiores), Gutiérrez sucede na obtenção de efeitos visuais, apropriadamente, sugestivos da monumentalidade, comummente, associada a encenações de cariz mais tradicional, evitando, contudo, resvalar para a mera ostensão de um fausto, cenicamente, vácuo e, em derradeira instância, condicionador da dramaturgia que a obra encerra.

Em Radames, Marcello Giordani surgiu a um nível, genericamente, recomendável, não obstante um notório défice de emissão no registo mais grave, tendente à inaudibilidade. Dotado de um instrumento robusto com suficiente volume e generosa extensão, o tenor logrou alcançar um plano assinalável nos duetos nucleares dos terceiro e quarto actos, maugrado a evidenciação de alguns óbices no ensejo de apianar no limiar da região aguda. Dramaticamente, lamenta-se a expressão, ainda que esporádica, de trejeitos algo desadequados.


Do mesmo modo, a Amneris de Ildiko Komlossi (substituindo Luciana D’Intino) denotou, num estágio inicial, uma vocalidade algo destimbrada, acrescida de uma laboriosa projecção. Conquanto, transversalmente, comprometida por um insistente vibrato, ameaçando distorcer, amiúde, o fraseado, releva-se, sobremaneira, o palpável engajamento dramático numa performance, parcialmente, congenial, culminando num quarto acto de relevante efeito.


Em récita que assinalou o desfecho da carreira artística, o veterano Juan Pons compôs um Amonasro, dramaticamente, assertivo, numa abordagem convincente. Conservando suficiente robustez vocal, mormente, no registo médio, o barítono catalão sucedeu em defender-se, eficazmente, em ambos os extremos da tessitura, domando, com propriedade, a linha de canto. Um epílogo comovedor, fragorosamente ovacionado pelo público.


Numa caracterização irrepreensível, o Ramfis de Vitalij Kowaljow primou pela nobreza tímbrica, num instrumento assaz homogéneo, não obstante a ausência da expectável ressonância nos graves, designadamente, na cena com Radames no Templo de Vulcano.

Stefano Palatchi patenteou a necessária autoridade na assunção do monarca egípcio, a despeito de uma generalizada debilidade na coluna de som, enquanto Josep Fadó (um mensageiro) e Elena Copons, no papel de uma sacerdotiza, lograram prestações correctíssimas, integrando-se favoravelmente no conjunto.


A princesa etíope da norte-americana Sondra Radvanovsky foi, absolutamente, notável. Possessora de um instrumento de basta amplitude e privilegiando uma emissão, constantemente, sul fiato, assombrou pelo incessante desenho e suspensão de uma insuspeita pureza tímbrica na melhor tradição verdiana, considerando a matriz de laivos, intrinsecamente, metálicos característica do material vocal. O soprano foi, inequivocamente, modelar, na negociação da terrífica cadência em O patria mia, sem qualquer decréscimo de qualidade, concomitantemente, explorando de modo activo a paleta dinâmica, num exercício de controlo admirável, evidenciado pela sucessiva abordagem triunfante dos pianissimi. Destaca-se, de forma análoga, a consistência do jogo cénico, contribuindo para um salutar envolvimento dramático no âmbito das possibilidades ofertadas pela natureza da encenação. Uma estupenda intérprete do papel-titular.


Sob a batuta de Renato Palumbo, o Coro e a Orquestra do Gran Teatre del Liceo exibiram-se em plano idiomático, não obstante um relativo pendor para a adopção de tempi algo lestos por parte do maestro italiano.




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AIDA: Gran Teatre del Liceo, Barcelona - 30 de Julho de 2012

Aida is an opera composed in 1871 by Giuseppe Verdi (1813-1901), after a libretto by Antonio Ghislanzoni (1824-1893), in its turn, based on a story created by the Egyptologist Auguste Mariette (1821-1881), expanded, afterwards, by Camille Du Locle (1832-1903) from such diverse sources as Pietro Metastasio’s Nitteti and Jean Racine’s Bajazet.

Premiered in 2003, José Antonio Gutiérrez’s staging proposes an evocative restoration of some scenographic creations designed by the illustrious Catalan artist Josep Mestres i Cabanes (1898-1990), dated from 1945, adapted by Jordi Castells. Through the manifold disposition of several screens modelled according to the scenic elements to represent (columns, temples, vegetation, interiors), Gutiérrez succeeds in achieving visual effects, appropriately, suggestive of the monumentality, usually, associated to more traditionally-natured stagings, avoiding, however, slipping into the mere ostentation of a scenically hollow pageantry and, ultimately, the conditioning of the work’s dramaturgy.

As Radames, Marcello Giordani emerged at a, generally, commendable, level, notwithstanding, a notorious deficit of emission in the lower register, tending to inaudibility. Gifted with a robust instrument with sufficient volume and generous extension, the tenor succeeded in reaching a remarkable level in the fundamental duets of the third and fourth acts, despite evincing some difficulties when taking a note in pianissimo at the upper part of the voice. Dramatically, one regrets the expression, tough sporadic, of somewhat inappropriate mannerisms.

Likewise, the Amneris of Ildiko Komlosi (subbing for Luciana D’Intino) denoted, at an early stage, a whitish vocalism, accompanied by an elaborate emission. Even though, transversely, compromised by an insistent vibrato, threatening, in several instances, to distort the phrasing, the blatant dramatic involvement stood out in a, partially, congenial performance, culminating in a fourth act of nice effect.

In his farewell performance, veteran Juan Pons drew a, dramatically, assertive Amonasro, in a convincing portrayal. Preserving sufficient vocal strength, especially, in the middle voice, the Catalan baritone managed to defend himself, effectively, at both ends of the range, taking hold of the vocal line, with property. A moving epilogue, soundly cheered by the public.

In a faultless depiction, Vitalij Kowaljow’s Ramfis distinguished himself through the nobility of the tone, in a markedly even instrument, despite the lack of the required resonance in the lowest notes, namely, in the scene with Radames at the Vulcano Temple.

Stefano Palatchi exhibited the expected authority, in spite of a generalized fragility in the sound column, while Josep Fadó (a messenger) and Elena Copons, in the role of a priestess, turned in extremely correct performances, blending themselves, positively, in the ensemble.

The Ethiopian princess of the American Sondra Radvanovsky was, absolutely, remarkable. Possessing an instrument of great amplitude and favouring an emission, constantly, sul fiato, she astounded by the incessant spinning and sustaining of an unsuspected purity of tone in the best Verdian tradition, considering the intrinsically metallic nature of the voice. The soprano was, unequivocally, exemplary in the negotiation of the terrific cadenza in O patria mia, without any loss of quality, at the same time, exploring, actively, the dynamic range, in an admirable exercise of control display, evinced by the triumphant way in which she, successively, approached pianissimi. One should also highlight the consistency of the stage deportment, contributing to a wholesome dramatic involvement, within the possibilities offered by the character of the staging. An outstanding interpreter of the title-role.

Under the baton of Renato Palumbo, the Gran Teatre del Liceo Chorus and Orchestra presented themselves in an idiomatic level, notwithstanding the Italian maestro’s penchant for the adoption of rather fleet tempi.

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