CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.
Após a boa notícia da troca de
produções entre os teatros municipais do Rio e de São Paulo nos anos vindouros
estreou no Theatro Municipal de São Paulo a ópera "Manon Lescaut" de
Puccini no último dia 29 de Agosto. Entre as quatro mais famosas óperas de
Puccini considero Manon Lescaut a mais fraca, não vejo nela a mesma genialidade
musical das óperas "Turandot", "Madama Butterfly" ou da
"Tosca". Considero a "Manon" de Massenet superior em
matéria de libreto e melodias.
A exceção do
"Otello" o Theatro Municipal apresentou excelentes produções esse ano
e Manon Lescaut não foi diferente. Cenários exuberantes e corretos, de tirar o
fôlego de Juan Guillermo Nova, figurinos adequados de Marino Luxardo e a luz
que dialoga com o texto de Cesare Agoni foram o princípio de uma grande récita.
O cenário do primeiro ato lembra um quadro impressionista, leve e idílico. O
segundo ato passeia no expressionismo, o terceiro é realista e o último é
surrealista.
A direção cênica
de Cesare Lievi fica na medida correta, sem exageros, sem firulas e invencionices
modernistas. Mantém a ação na época em que ela se passa e se presta à narrar a
ação cênica como ela é. Moderna e atual se harmoniza com as outras linguagens
teatrais. Ser moderno não é necessário chocar o público colocando peladões ou
telões no palco.
Marcello
Giordani foi um dos melhores Des Grieux da sua geração, figura carimbada em
todos os grandes teatros do mundo afora. Apresentou voz potente e agudos
brilhantes e parou por aí, sua voz foi sempre constante, sem vibração e
empolgação. Cenicamente imprimiu certa dramaticidade ao seu personagem nos atos
finais, pecou nos dois primeiros pela falta de jovialidade.
Maria José Siri
mostrou mais uma vez no palco do Municipal sua qualidade vocal. Seja como Aida
ou como Manon Lescaut sua voz de soprano spinto tem calor e escuridão no
timbre, potencia e projeção para encher a sala de apresentações. Sua Manon é
tensa, apaixonada e totalmente convincente.
Paulo Szot
mostrou completo domínio cênico e vocal do personagem Lescaut, sua voz é
recheada de graves robustos e técnica refinada. Tive o prazer de vê-lo cantando
a versão francesa de Lescaut no Teatro Alfa em 2002 e agora o vejo na versão
italiana e ele só melhora a cada apresentação. O Geronte de Saulo Javan esteve
a altura do personagem com belos graves.
A Orquestra
Sinfônica Municipal regida por John Neschling mostra que está se acostumando ao
repertório operístico, tocou com precisão e firmeza. Andamentos precisos e
musicalidade com volume correta foram a tônica da apresentação. A prática leva a
perfeição, quanto mais óperas apresentadas maior será o crescimento da
orquestra. O incidente do início do quarto ato onde a música começa e para por
um problema técnico no palco afetou pouco o decorrer da récita. O Coro Lírico
Municipal segue a mesma fórmula, sempre se apresenta com qualidade vocal
superior em todos os naipes vocais.
Riccardo
Zandonai escreveu a ópera em quatro actos Francesca da Rimini em 1914 e
apresentou-a, pela primeira vez, no Teatro Régio de Turim. O libreto de Tito Ricordi baseou-se na peça de Gabriele D’Annunzio que, por sua vez,
se inspirou e adaptou livremente o episódio de Francesca da Rimini do Inferno
de Dante.
A história básica não vai além de um banal e
desinteressante quarteto amoroso — três irmãos apaixonados pela mesma mulher.
Gianciotto, homem rude e deformado, casa-se com a bela Francesca que lhe fora
prometida. Todavia, Francesca apaixona-se por Paolo (irmão de Gianciotto), um
homem galante; Malatestino, o zarolho irmão mais novo de Paolo e Gianciotto,
invejoso por não receber o amor da cunhada, lança-se em acusações contra o
irmão Paolo. Nisto, Paolo e Francesca são apanhados em delito adúltero por
Gianciotto que, cego de ciúme e afogado em desonra, comete um há muito esperado
duplo homicídio passional... e Francesca morre nos braços de um igualmente
defunto Paolo. Poderão ler uma sinopse aqui.
Poderei afirmar, com segurança, que o libreto
é o elemento mais fraco da ópera. Não só não tem muito interesse poético, como
é pouco verosímil e as suas cenas têm uma cadência pouco sequencial ou ligada.
Em suma, de uma pobreza inesperada.
A encenação de Piero Faggioni foi a que o MET apresentou em 1986. Elegante, de
excelente efeito visual e acompanhada de um guarda-roupa de nível, põe em
evidência as diversas cenas da ópera de modo muito adequado e clássico.
A música de Zandonai é de qualidade, mas não é
sumptuosa ou de um lirismo brilhante. Parece que fica aquém da grandeza
melódica que, no imediato, sugere. A direcção de Marco Armiliato foi de muito bom nível, conduzindo a habitualmente
excelente Orquestra do MET.
O soprano Eva
Maria Westbroek foi a jovem Francesca. Tem uma voz com um timbre não
especialmente belo, mas deu-nos uma boa interpretação. Apesar disso, lamenta-se
uma dicção fraca do italiano, bem como um ou outro agudo mais rude.
O tenor Marcello
Giordani foi Paolo. No papel de homem galante, apresentou-se com uma voz um
pouco enfraquecida e num estilo demasiado piegas. Ainda assim, esteve bem num
papel que, nas suas palavras, cantou “por ser fácil”. Assim se compreende a
vasta lista que detém no MET… Adaptando a frase de Leporello em Don Giovanni: Madamina,il catalogo è questo delle
opera qui cantò la voce mia...
O barítono Mark Delevan foi Gianciotto. O papel não é muito exigente
vocalmente e esteve bem. Cenicamente foi-lhe pedido que fosse rude com toda a
gente e amável com Francesca, o que não parece combinar bem com a deformidade
física e carácter de homem guerreiro que ostenta.
O tenor Robert
Brubaker foi Malatestino. Apresentou-se em bom nível, transmitindo, vocal e
cenicamente, a ideia de um homem desagradavelmente mesquinho.
O quarteto de companheiras de Francesca (os
sopranos Dísella Làrusdóttir e Caitlin Lynch; os mezzo-sopranos Patricia Risley e Renée Tatum) apresentaram-se em bom nível com destaque para os
sopranos. Também o mezzo-soprano Ginger
Costa-Jackson (Smaragdi, criada de Francesca) de muito agradável figura
esteve em bom plano no seu modesto papel. Os restantes elementos têm
participações residuais e estiveram bem.
Assim, podemos dizer que se assistiu a uma
ópera com interpretações vocais de nível homogéneo e sem grandes destaques. A
ópera de Zandonai (que é para muitos desconhecida) não é particularmente
interessante em nenhum aspecto, pelo que não me posso dizer encantado.
.......
(Review in
English)
Riccardo Zandonai wrote the opera in four acts Francesca da Rimini in 1914 and
presented it for the first time at the Teatro Regio in Turin. The libretto by
Tito Ricordi was based on the play by Gabriele D'Annunzio who, in turn, was
inspired and adapted freely Francesca da Rimini episode of Dante's Inferno.
Basically,
the plot is not going beyond a banal and uninteresting loving quartet - three
brothers in love with the same woman. Gianciotto, rude and deformed man,
marries the beautiful Francesca promised to him. However, Francesca falls in
love for Paolo (brother of Gianciotto), a gallant man; Malatestino, the
one-eyed younger brother of Paolo and Gianciotto, envious for not receive the
love of his sister-in-law, launches him into charges against his brother Paolo.
Herein, Gianciotto catches Paolo and Francesca in adulterous crime, and
jealousy blind and drowned in disgrace, makes a long-awaited passionate double
homicide... Francesca dies in the arms of an equally deceased Paolo... You can
read a synopsis here.
I can say
with certainty that the libretto is the weakest element of the opera. Not only
has not much poetic interest, as their scenes have a little cadence or are sequential
or linked. In short, it was of an unexpected poverty.
The staging
of Piero Faggioni was presented to
the MET in 1986. Elegant, with excellent visual effect and accompanied by a high
level wardrobe, it highlights the various scenes of the opera in a very
appropriate and classic way.
Zandonai’s
music has indeed quality, but is not sumptuous or of a brilliant lyricism. It
seems that falls short, despite the greatness of some melodic themes
immediately suggests. The direction of Marco
Armiliato was of very good level, leading the usually excellent MET
Orchestra.
The soprano
Eva Maria Westbroek was the young
Francesca. She has a voice with a timbre not particularly beautiful, but gave
us a good interpretation. Nevertheless, I lament a weak Italian diction, as
well as some ruder acute.
The tenor Marcello Giordani was Paolo. In the
role of a gallant man, presented with a weakened voice and in a style too
slobbery. Still, he was good in a role that, in his words, sang "because
it is easy." Once you understand the vast list that he holds at MET… Adapting
a phrase from Leporello in Don Giovanni: Madamina,il
catalogo è questo delle opera qui cantò la voce mia...
The
baritone Mark Delevan was
Gianciotto. The role is not very demanding vocally and he did well. Scenically
was asked to be rude to everyone and kind with Francesca, which does not seem
to match well with his physical deformity and character of a warrior man.
The tenor Robert Brubaker was Malatestino. He
performed at a good level, transmitting, vocal and scenically, the idea of an
unpleasant stingy man.
The quartet
mates Francesca (the sopranos Dísella
Larusdottir and Caitlin Lynch,
the mezzo-sopranos Renée Tatum and Patricia Risley) were at a good level
with emphasis on the sopranos. Also the beautiful mezzo-soprano Ginger Costa-Jackson (Smaragdi, created
by Francesca) was in good plan in her modest role. The remaining elements have
been well on their residual roles.
So I can
say that there has been an opera with homogeneous vocal interpretations with no
major highlights. Zandonai's opera (which is unknown to much) is not particularly
interesting in any aspect, so I cannot say I was enchanted.
Aida é uma ópera de G. Verdi com libretto de Antonio Ghislanzoni. O enredo pode
ler-se aqui.
Quando me perguntam qual a ópera que recomendo para quem
quer começar, habitualmente sugiro a Carmen ou a Aida. A produção do Met
preenche todos os requisitos que espero que uma ópera ofereça a quem quer ver
este tipo de espectáculo pela primeira vez. É também óptima para quem já tem
experiência, claro!
A encenação de Sonja
Frisell é grandiosa e espectacular. É impossível fazer mais num teatro de
ópera. Os cenários transportam-nos ao Egipto faraónico, mudam com frequência, o
guarda-roupa é adequado à época, os adereços são muitos e de grande
diversidade. Na marcha triunfal do 2º Acto até cavalos entram em cena. Uma
encenação conservadora mas verdadeiramente espectacular.
É o esplendor da ópera no seu apogeu e um exemplo perfeito
de que a ópera é para ouvir mas também para ver. Na próxima temporada esta será
uma das transmissões no Met Live em HD. Não é a mesma coisa do que ver ao vivo,
perde-se sobretudo a grandiosidade da encenação mas, se nos for dada a
possibilidade de a ver em Portugal, é imperdível.
Dedico este texto em particular aos iniciados, permitam que
os chame assim, incluindo neste grupos todos os que nunca assistiram a um
espectáculo de ópera ou já o fizeram mas consideraram que foi uma experiência
menos agradável. Este é o espectáculo para ouvir e ver.
E há muito que ouvir. A ópera inicia-se de forma suave e
comedida mas rapidamente surgem as grandes sonoridades, orquestrais, corais e
dos solistas. Os cantores principais (Aida, Radamès, Amneris e Amonastro) têm tipos
de vozes diferentes, papeis de enorme exigência e, se forem de qualidade, como
seguramente acontecerá no Met, terão interpretações inesquecíveis. Os coros são
também grandiosos e atingem o expoente máximo no 2º Acto. A música é de muito
fácil apreensão e inclui muitas partes que são conhecidas de todos. A encenação
(esta encenação) faz o resto mas, repito, é uma ópera que enche o olho e o
ouvido.
Na récita que vi, a Orquestra do Met foi superiormente
dirigida pelo maestro italiano Marco
Armiliato que fez um excelente trabalho. Houve grandiosidade, emoção ou
intimismo sonoros sempre que necessário e solistas, coro e orquestra soaram sempre
em uníssono e sem qualquer desencontro. Armiliato foi, merecidamente, muito
ovacionado no final
Aida foi interpretada pelo jovem soprano americano Latonia Moore (em substituição de
última hora de Violeta Urmana). Teve um triunfo absoluto em casa (foi a sua
estreia no Met). A voz é de grande beleza. Alcança os agudos com facilidade e
sem perda de qualidade, sempre sobre a orquestra. A cantora é negra, o que
ajuda muito ao papel. Esteve muito bem cenicamente. Nas duas árias mais conhecidas,
Ritorna vincitor! no 1º acto e Qui Radamès verrà! no 3º foi fabulosa.
Penso que terá uma carreira brilhante à sua frente.
Marcello Giordani tenor italiano, surpreendeu-me muito
positivamente em Radamès. Tem uma voz de uma enorme potência e agudos sonantes,
embora no registo médio perca qualidade e, por vezes, não se faz ouvir. A ária Celeste Aida, logo no início do 1º acto,
é de dificuldade elevada e é cantada quando os artistas ainda não aqueceram a
voz, o que já vi ter efeitos muito negativos. Não foi o caso aqui, Giordani
cantou-a sem mácula e, no dueto final da ópera, esteve também irrepreensível.
Amneris, princesa egípcia, é o papel que mais gosto na
ópera. Foi interpretada pelo mezzo americano Stephanie Blythe. Gosto muito da cantora que tem uma voz de excepção,
a mais poderosa de todos os cantores em cena. No último acto tem as
intervenções mais marcantes L'abborrita
rivale a me sfuggìa e, sobretudo, Ohimè, morir mi sento.
Mas, confesso, fiquei um pouco desiludido, não pela fantástica qualidade da voz
mas pela forma como cantou. O fraseado foi deficiente. A figura da cantora
também não a ajuda em palco.
Amonastro, rei etíope e pai de Aida foi interpretado pelo
barítono georgiano Lado Ataneli. Foi
mais um cantor com elevado nível vocal e cénico, embora o seu papel seja menos
exigente que o dos intérpretes anteriores. É no 3º acto, em dueto com a filha
que a sua intervenção pode ser apreciada.
Uma palavra final para os dois baixos norte americanos, o
veterano James Morris (Ramfis, Sumo
sacerdote) e o jovem Jordan Bish
(Faraó egípcio), ambos com desempenhos vocais de grande classe.
Uma Aida inesquecível e muito recomendável.
*****
AIDA,
Metropolitan Opera, New York,
March 2012
Aida is an opera by G. Verdi with libretto by Antonio Ghislanzoni. The plot can be
read here.
When people ask me what is the opera that I recommend for beginners, usuallt I
suggest Carmen or Aida. The Met production meets all the requirements that an
opera should offer to those who want to see this type of show for the first
time. It is also great for those who already have significant experience, of
course!
The staging by Sonja Frisell is
grand and spectacular. It is impossible to do more in the opera house. The
scenarios bring us to pharaonic Egypt,
they change frequently, the dresses are appropriate at the time, the props are
many and diverse. In the triumphal march of the 2nd Act even horses come onto
the stage. A truly conservative spectacular staging.
It is the splendour of the opera in its top quality and a perfect example that
opera is a show to listen but also to see. Next season this opera will be a
broadcast from the Met Live in HD. It is not the same thing as to see it live,
especially the grandeur of the scenario is lost, but if we are given the
possibility to see it in Portugal,
it is a must.
I dedicate
this text in particular to beginners, let me call them so, this including all
those who have never attended an opera performance, or that have already seen
one but felt that it was a less pleasant experience. This is the opera to hear
and see.
And there
is much to hear. The opera begins smoothly but quickly great sounds emerge, by
the orchestra, the chorus and the soloists. The main singers (Aida, Radamès,
Amneris and Amonastro) have different types of voices, roles of great demand,
and if they will be of top quality, as surely will happen at the Met, they will
give us unforgettable performances. The choirs are also great and reach the
pinnacle in the 2nd Act. The music is very easy to grasp and includes many
parts that are well known to everyone. The scenarios (these scenarios) do the
rest, I repeat, it is an opera that fills the eye and ear.
In the
performance I saw, the Met Orchestra was directed with superior quality by
Italian conductor Marco Armiliato.
He did an excellent job. There was grandeur, emotion or intimacy in music where
necessary and soloists, chorus and orchestra sounded always in tune and without
any coordination problems. Armiliato much applauded at the end, and he deserved
it.
Aida was played by the young American soprano Latonia Moore (a last minute replacement of Violeta Urmana). She had an absolute triumph at
home (it was her debut at the Met). The voice is large and of considerable
beauty. She reachede the top notes with ease and without loss of quality,
always over the orchestra. She is a black singer, which helps a lot to the
role. Artistically she was very well. In the two most famous arias, Ritorna
vincitor! in the 1st Act and Qui Radamès
verrà! in the 3rd Act, she was fabulous. I think she has a brilliant
career ahead of her.
Italian
tenor Marcello Giordani, surprised
me very positively as Radamès. He has a voice of tremendous power and sharp top
notes of quality, although in the medium register the voice looses quality and,
sometimes, is not heard. The aria Celeste Aida, early in the 1st act, is
of high difficulty and is sung when the singers have not warmed up their voice,
I've seen bad performances in this aria before, but.it was not the case here,
Giordani sang it without problems. And at the final duet of the opera, he was
also excellent.
Amneris,
the Egyptian princess, is the role that I prefer in this opera. It was
interpreted by American mezzo Stephanie
Blythe. I like this singer very much. She has an exceptional voice, the
most powerful of all the singers on stage. In the last act she has the most
striking interventions L'abborrita rivale
a me sfuggìa, and especially Ohimè, morir mi sento. But, I
confess, I was a little disappointed, not by the fantastic voice quality but by
the way she sang. The phrasing was poor. The figure also does not help the
singer on stage.
Amonastro,
Ethiopian king and father of Aida was played by Georgian baritone Lado Ataneli. He was one more singer with
vocal and artistic high quality, although his role is less demanding than those
of the previous singers. It is in the 3rd act, in a duet with his daughter that
his intervention can be appreciated.
A final word for the two low north American basses, veteran James Morris (Ramfis, High Priest) and Jordan Bish (Egyptian Pharaoh), both
with vocal performances of great class.
Aida é uma ópera composta em 1871 por Giuseppe Verdi
(1813-1901), a partir de um libretto de Antonio Ghislanzoni (1824-1893), por
seu turno, fundado num argumento elaborado pelo egiptólogo Auguste Mariette (1821-1881),
posteriormente, expandido por Camille Du Locle (1832-1903) com base em fontes
tão diversas como Nitteti de Pietro
Metastasio (1698-1782) ou Bajazet de Jean
Racine (1639-1699).
A encenação de José Antonio Gutiérrez, estreada em 2003,
propõe um resgate evocativo de algumas criações cenográficas da autoria do
emérito artista plástico catalão Josep Mestres i Cabanes (1898-1990),
remontantes a 1945, a
cargo de Jordi Castells. Por intermédio da multíplice disposição de diversos
telões modelados em função dos elementos cénicos a representar (colunas,
templos, vegetação, interiores), Gutiérrez sucede na obtenção de efeitos
visuais, apropriadamente, sugestivos da monumentalidade, comummente, associada
a encenações de cariz mais tradicional, evitando, contudo, resvalar para a mera
ostensão de um fausto, cenicamente, vácuo e, em derradeira instância, condicionador
da dramaturgia que a obra encerra.
Em Radames, Marcello Giordani surgiu a um nível, genericamente,
recomendável, não obstante um notório défice de emissão no registo mais grave, tendente
à inaudibilidade. Dotado de um instrumento robusto com suficiente volume e
generosa extensão, o tenor logrou alcançar um plano assinalável nos duetos
nucleares dos terceiro e quarto actos, maugrado a evidenciação de alguns óbices
no ensejo de apianar no limiar da região aguda. Dramaticamente, lamenta-se a
expressão, ainda que esporádica, de trejeitos algo desadequados.
Do mesmo modo, a Amneris de Ildiko Komlossi (substituindo
Luciana D’Intino) denotou, num estágio inicial, uma vocalidade algo
destimbrada, acrescida de uma laboriosa projecção. Conquanto, transversalmente,
comprometida por um insistente vibrato, ameaçando distorcer, amiúde, o
fraseado, releva-se, sobremaneira, o palpável engajamento dramático numa performance,
parcialmente, congenial, culminando num quarto acto de relevante efeito.
Em récita que assinalou o desfecho da carreira artística, o
veterano Juan Pons compôs um Amonasro, dramaticamente, assertivo, numa
abordagem convincente. Conservando suficiente robustez vocal, mormente, no
registo médio, o barítono catalão sucedeu em defender-se, eficazmente, em ambos
os extremos da tessitura, domando, com propriedade, a linha de canto. Um
epílogo comovedor, fragorosamente ovacionado pelo público.
Numa caracterização irrepreensível, o Ramfis de Vitalij
Kowaljow primou pela nobreza tímbrica, num instrumento assaz homogéneo, não
obstante a ausência da expectável ressonância nos graves, designadamente, na
cena com Radames no Templo de Vulcano.
Stefano Palatchi patenteou a necessária autoridade na
assunção do monarca egípcio, a despeito de uma generalizada debilidade na
coluna de som, enquanto Josep Fadó (um mensageiro) e Elena Copons, no papel de
uma sacerdotiza, lograram prestações correctíssimas, integrando-se
favoravelmente no conjunto.
A princesa etíope da norte-americana Sondra Radvanovsky foi,
absolutamente, notável. Possessora de um instrumento de basta amplitude e
privilegiando uma emissão, constantemente, sul
fiato, assombrou pelo incessante desenho e suspensão de uma insuspeita
pureza tímbrica na melhor tradição verdiana, considerando a matriz de laivos,
intrinsecamente, metálicos característica do material vocal. O soprano foi,
inequivocamente, modelar, na negociação da terrífica cadência em O patria mia, sem qualquer decréscimo de
qualidade, concomitantemente, explorando de modo activo a paleta dinâmica, num exercício
de controlo admirável, evidenciado pela sucessiva abordagem triunfante dos pianissimi. Destaca-se, de forma
análoga, a consistência do jogo cénico, contribuindo para um salutar envolvimento
dramático no âmbito das possibilidades ofertadas pela natureza da encenação.
Uma estupenda intérprete do papel-titular.
Sob a batuta de Renato Palumbo, o Coro e a Orquestra do Gran
Teatre del Liceo exibiram-se em plano idiomático, não obstante um relativo pendor
para a adopção de tempi algo lestos
por parte do maestro italiano.
AIDA: Gran Teatre del Liceo, Barcelona - 30 de Julho de 2012
Aida is an
opera composed in 1871 by Giuseppe Verdi (1813-1901), after a libretto by
Antonio Ghislanzoni (1824-1893), in its turn, based on a story created by the
Egyptologist Auguste Mariette (1821-1881), expanded, afterwards, by Camille Du
Locle (1832-1903) from such diverse sources as Pietro Metastasio’s Nitteti and Jean Racine’s Bajazet.
Premiered
in 2003, José Antonio Gutiérrez’s staging proposes an evocative restoration of some
scenographic creations designed by the illustrious Catalan artist Josep Mestres
i Cabanes (1898-1990), dated from 1945, adapted by Jordi Castells. Through the
manifold disposition of several screens modelled according to the scenic
elements to represent (columns, temples, vegetation, interiors), Gutiérrez
succeeds in achieving visual effects, appropriately, suggestive of the
monumentality, usually, associated to more traditionally-natured stagings,
avoiding, however, slipping into the mere ostentation of a scenically hollow
pageantry and, ultimately, the conditioning of the work’s dramaturgy.
As Radames,
Marcello Giordani emerged at a, generally, commendable, level, notwithstanding,
a notorious deficit of emission in the lower register, tending to inaudibility.
Gifted with a robust instrument with sufficient volume and generous extension,
the tenor succeeded in reaching a remarkable level in the fundamental duets of
the third and fourth acts, despite evincing some difficulties when taking a
note in pianissimo at the upper part of the voice. Dramatically, one regrets
the expression, tough sporadic, of somewhat inappropriate mannerisms.
Likewise, the
Amneris of Ildiko Komlosi (subbing for Luciana D’Intino) denoted, at an early
stage, a whitish vocalism, accompanied by an elaborate emission. Even though,
transversely, compromised by an insistent vibrato, threatening, in several
instances, to distort the phrasing, the blatant dramatic involvement stood out
in a, partially, congenial performance, culminating in a fourth act of nice
effect.
In his
farewell performance, veteran Juan Pons drew a, dramatically, assertive Amonasro,
in a convincing portrayal. Preserving sufficient vocal strength, especially, in
the middle voice, the Catalan baritone managed to defend himself, effectively,
at both ends of the range, taking hold of the vocal line, with property. A
moving epilogue, soundly cheered by the public.
In a
faultless depiction, Vitalij Kowaljow’s Ramfis distinguished himself through
the nobility of the tone, in a markedly even instrument, despite the lack of
the required resonance in the lowest notes, namely, in the scene with Radames
at the Vulcano Temple.
Stefano
Palatchi exhibited the expected authority, in spite of a generalized fragility
in the sound column, while Josep Fadó (a messenger) and Elena Copons, in the
role of a priestess, turned in extremely correct performances, blending
themselves, positively, in the ensemble.
The
Ethiopian princess of the American Sondra Radvanovsky was, absolutely,
remarkable. Possessing an instrument of great amplitude and favouring an
emission, constantly, sul fiato, she astounded
by the incessant spinning and sustaining of an unsuspected purity of tone in
the best Verdian tradition, considering the intrinsically metallic nature of
the voice. The soprano was, unequivocally, exemplary in the negotiation of the
terrific cadenza in O patria mia,
without any loss of quality, at the same time, exploring, actively, the dynamic
range, in an admirable exercise of control display, evinced by the triumphant
way in which she, successively, approached pianissimi.
One should also highlight the consistency of the stage deportment, contributing
to a wholesome dramatic involvement, within the possibilitiesofferedby the characterof the staging. An outstanding
interpreter of the title-role.
Under the
baton of Renato Palumbo, the Gran Teatre del Liceo Chorus and Orchestra
presented themselves in an idiomatic level, notwithstanding the Italian
maestro’s penchant for the adoption of rather fleet tempi.