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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ANNA BOLENA – Liceu, Barcelona, Janeiro de 2011

(Review in English below)

Uma Anna Bolena de ouro no Liceu de Barcelona!

Anna Bolena é uma ópera de Gaetano Donizetti, com libreto de Felice Romani, sobre a condenação à morte por Henrique VIII de Ana Bolena, sua segunda mulher, para se casar com Jane Seymour.


Em Windsor, Jane Seymour (Giovanna) sente-se culpada por manter um romance com o rei Henrique VIII (Enrico). Este diz-lhe que irão casar-se em breve. Ana Bolenna (Anna), rainha e segunda mulher de Henrique VIII, pede a Smeton (um músico da corte que está secretamente apaixonado por ela) uma canção que a faça lembrar Lord Percy, o seu primeiro amor, exilado pelo rei. O rei quer incriminar Percy como amante da rainha e manda-o regressar. Percy tenta suicidar-se depois de reafirmar o seu amor a Anna e esta o rejeitar. Quem o detém é Smeton que tinha consigo um retrato de Anna, que deixa inadvertidamente cair e que serve de pretexto para o rei afirmar a traição. Presa na torre de Londres, Anna tem um confronto com Giovanna em que esta lhe confessa que é ela a nova amante do rei e será a futura rainha. Depois da condenação, Anna perdoa-a, culpando apenas o rei. Os pedidos de Percy e de Giovanna para salvar Anna são ignorados pelo rei. Enquanto aguarda a execução, Anna recorda o seu primeiro amor, alternando momentos de lucidez e de delírio. O terceiro casamento do rei é anunciado e Anna é morta.

Anna Bolena foi a ópera representada na inauguração do Gran Teatre del Liceu em Barcelona em 17 de Abril de 1847.


A encenação do espanhol Rafael Duran é intemporal, simples e eficaz. O cenário, algo minimalista, tem 3 patamares, unidos por uma grande escadaria central. A cor dominante, chão e paredes, é o dourado, a condizer com a beleza da sala. Durante o espectáculo, os níveis mais elevados por vezes são cobertos por um painel de ripas de madeira, que desce, no qual são projectadas imagens que também se vêem no nível mais baixo em dois conjuntos de quatro grandes ecrans situados em cada lado do cenário, onde se projecta a acção em palco vista de quatro ângulos diferentes. Como nos sistemas de vigilância actuais, tudo pode ser controlado a partir deles (e o rei fá-lo explicitamente no 1º acto) mas, quando o rei está com a amante Giovanna, a sua privacidade é garantida porque passam a ser projectadas imagens de peixes num lago.

(Algumas fotografias são do site do Liceu, Barcelona)


A contrastar com o dourado do palco e dos vestidos das protagonistas estão omnipresentes, desde o início, vários corvos negros (máscaras inspiradas no surrealista Max Ernst), numa alusão à Torre de Londres (e ao 1984 de Orwell) onde Anna irá ser decapitada. O efeito cénico é fantástico. Ao longo da récita aparecem também vários cães (estes verdadeiros) pela mão de caçadores, trajados a rigor.
Na cena final, o dourado do palco dá lugar às grades negras do cárcere de Anna, com os elementos do coro também de negro, noutro momento cénico de belo efeito.










O coro esteve bem e a orquestra teve uma boa prestação, dirigida pelo maestro ucraniano Andriy Yurkevych, que foi vaiado no final, não tendo eu entendido porquê.

Anna Bolena foi interpretada pelo soprano eslovaco Edita Gruberova. É uma cantora ímpar que só tem paralelo em Plácido Domingo se considerarmos a associação longevidade - qualidade vocal. A senhora tem 64 anos mas continua a cantar estes papéis dificílimos com um assombro estarrecedor. Não concordo com os que dizem que a voz está danificada pela idade. No registo mais grave não tem (nunca teve) uma voz marcante, mas não é por essas curtas notas que a vamos ouvir. Nos agudos e sobreagudos a voz é imaculada e de potência e beleza assombrosas. Sempre audível sobre a orquestra, a coloratura é fantástica e os pianissimi são do outro mundo. Há ainda a salientar a óptima interpretação dramática da personagem.

Na ária Al dolce guidami, de uma beleza interpretativa arrepiante, ofereceu-nos cascatas de notas agudas que parecem inatingíveis à voz humana e levou o público ao delírio, com uma estrondosa ovação recheada de bravos e outras manifestações de agrado de vários minutos, como raramente assisti ao vivo. E, no final, já depois dos agradecimentos, à chamada constante do público, voltou várias vezes ao palco, onde foi presenteada com chuvas de flores. Uma diva também no Liceu.


(Edita Gruberova)

E se a Gruberova foi assim, o mezzo-soprano letão Elina Garanca foi responsável por outra interpretação, de Giovanna Seymour, absolutamente excepcional. Desde que a ouvi como Romeu em I Capuleti e i Montecchi tornei-me um admirador incondicional e nunca me decepcionou.
A voz é poderosa e de uma beleza e musicalidade invulgares. A técnica é exímia e, no belcanto, é prodigiosa. A figura, bela, alta e loira, ajuda muito. Fez uma Giovanna apaixonada mas corroída pelo remorso perante a rainha.
O dueto com Gruberova no início do 2º acto O mia Regina! foi emocionante e inesquecível, com as duas cantoras a levarem a um nível superlativo as suas qualidades cénicas e vocais.

(Elina Garanca)

Já escrevi anteriormente neste blogue que não gosto da voz de José Bros, tenor catalão, que interpretou Percy. Mantenho essa opinião apesar de ter assistido aqui à sua melhor interpretação. Mas a voz é muito fina, pouco ágil e o cantor parece que canta com a boca fechada. Não soa bem e, cenicamente, também não lhe reconheço grande desempenho. Estava em casa (é de Barcelona) e foi muito aplaudido, mas continua sem me convencer.

Carlo Colombara, baixo italiano, foi Enrico. Seguro na voz e credível como rei tirano, não tem uma potência equiparável às duas protagonistas, mas não deixou de se ouvir e manteve a qualidade ao longo da récita.

O contralto italiano Sonia Prina deu boa conta no papel de Smeton. A voz é bem timbrada, firme e cheia.



Mais um excelente espectáculo em Barcelona, um daqueles em que a magia da ópera se sentiu em pleno! Recomenda-se vivamente!
*****



ANNA BOLENA – Liceu, Barcelona, Janeiro de 2011
A golden Anna Bolena at the Liceu in Barcelona!

Anna Bolena is an opera by Gaetano Donizetti, libretto by Felice Romani, on the sentencing to death by Henry VIII to Anna Bolena, his second wife, to marry Jane Seymour.

In Windsor, Jane Seymour (Giovanna) feels guilty for keeping an affair with King Henry VIII (Enrico). He tells her that they will marry soon. Anna Bolena (Anna), the Queen and the second wife of Henry VIII asks Smeton (a court musician who is secretly in love with her) to play a song that reminds her of Lord Percy, her first love, exiled by the king. The king wants to incriminate Percy as the Queen's lover and orders his return. Percy tries to kill himself after reaffirming his love for Anna as she rejects him. Smeton avoids it and drops a picture of Anna, what serves as a pretext to assert the king's betrayal. Stuck in the Tower of London, Anna has a confrontation with Giovanna in that she confesses that she is the new mistress of the king and that she will be queen in the future. After a confrontation, Anna forgives her, blaming only the king. Requests from Percy and Giovanna to save Anna are ignored by the king. While awaiting execution, Anna recalls her first love, alternating moments of lucidity and delirium. The king's third marriage is announced and Anna is dead.

The opera Anna Bolena was performed at the inauguration of the Gran Teatre del Liceu in Barcelona on April 17, 1847.

The staging of the Spanish Rafael Duran is timeless, simple and effective. The scenario, somehow minimalistic, has three floors, connected by a large central staircase. The dominant colour, floor and walls, is golden yellow, matching the beauty of the room. During the performance, the higher floors are sometimes covered by a panel of wooden strips, which descends, and in which images are projected that are also projected at the lowest floor in two sets of four large screens situated on each side of the scenario, where the action on stage is projected from four different angles. As modern security systems, everything can be controlled from them (and the king does it explicitly in the 1st act), but when the king is with his mistress Giovanna, his privacy is assured since the projected images change to golden fish in a lake.
In contrast with the golden stage and the dresses of the actresses, everywhere, from the beginning, several black crows are always present (masks inspired by the surrealist Max Ernst), alluding to the Tower of London (and Orwell's 1984) where Anna will be beheaded . The scenic effect is fantastic. Throughout the performance, several dogs (these live ones) also appear by the hand of hunters, dressed accordingly. In the final scene, the golden stage gives way to the bars of the black prison where Anna is, with the elements of the choir also in black, another moment of beautiful scenic effect.

The choir and the orchestra had a good performance, conducted by Ukrainian maestro Andriy Yurkevych, who was booed at the end, I did not understand why.

Anna was interpreted by the Slovak soprano Edita Gruberova. She is a unique singer that is only comparable to Placido Domingo considering the association longevity – quality of voice. The lady is 64 but still sings these extremely difficult roles with an astonishing quality. I do not agree with those who say that her voice is damaged by age. In the lower notes she does not have a remarkable voice (she never had), but we do not go to hear her for those short notes. In the high and extreme high register, her voice is divine and of breathtaking beauty and power. Always audible over the orchestra, the coloratura is fantastic and the pianissimi are above human capacities. I also highlight the great dramatic interpretation of the character.
In the aria Al dolce guidami , she offered us a beautiful interpretation, with cascades of top notes that seem unattainable to the human voice. The audience became wild with a thunderous ovation filled with bravos and other expressions of satisfaction during several minutes, something that I rarely watched live. And in the end, after curtain calls were over, responding to the constant call of the public, she returned repeatedly to the stage where she was presented with lots of flowers. A Diva also in the Liceu.

And if Gruberova was as I described, Latvian mezzo-soprano Elina Garanca was responsible for another absolutely exceptional interpretation, as Giovanna Seymour. Since I heard her as Romeo in I Capuleti e i Montecchi I became an unconditional admirer and she never disappointed me.
The voice is powerful and of unusual beauty and musicality. The technique excels and in belcanto, she is prodigious. The figure, tall, beautiful and blonde, helps a lot. She played a passionate Giovanna consumed by remorse before the queen The duet with Gruberova at the beginning of Act 2 O mia Regina! was exciting and unforgettable, with the two singers bringing to a superlative level their artistic and vocal qualities.

I've written before in this blog that I do not like the voice of José Bros, a Catalan tenor, who played Percy. I maintain that opinion despite having seen his best performance here. But his voice is very thin, not flexible and the singer seems to sing with the mouth closed. He does not sound attractive, and artistically, he is not also a great performer. He was at home (he is from Barcelona) and was much applauded, but he still did not convince me.

Carlo Colombara Italian bass, was Enrico. He showed a steady voice and he was artistically credible as the unfair king, although his voice is not comparable in power to the two protagonists. But he maintained the quality throughout the performance.

Italian contralto Sonia Prina was very good as Smeton. The voice is pleasant, firm and full.

Another excellent performance in Barcelona, one in which the magic of opera was felt in full! I strongly recommend it!

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gruberova triunfa como Lucrezia na Wiener Staatsoper - 2 de Outubro de 2010

























A Primadonna Assoluta Edita Gruberova levou o público de Viena ao delírio ao interpretar, pela primeira vez no grande palco da Wiener Staatsoper, Lucrezia Borgia.

A incomparável cantora, quase a completar 64 anos de idade, e há muito detentora do título de Österreichische Kammersängerin, já actuou mais de 500 vezes no palco da Wiener Staatsoper ao longo dos últimos 40 anos. E uma vez mais voltou a esse palco, desta vez para uma estreia: Lucrezia Borgia.

O evento, que era aguardado com grande expectativa, foi largamente anunciado nos meios de comunicação social austríacos. Vários jornais, revistas, estações de rádio e televisão davam notícia da presença de Edita na Ópera de Viena. Inclusivamente, no avião que me levou até Viena, deparei com um inesperado artigo numa revista, em que surgia a fotografia de Edita Gruberova, acerca desta tão esperada estreia.

O espectáculo, que decorreu em versão de concerto, foi transmitido em directo por várias estações de rádio europeias. Para todos aqueles que não tiveram oportunidade de escutá-lo em directo, o evento ainda está disponível no site da ORF, acessível através do seguinte link:

http://oe1.orf.at/programm/255467


No exterior do edifício da Ópera, na Herbert von Karajan Platz, estava colocado um ecrã gigante, através do qual todos os que não conseguiram bilhete puderam ver e ouvir o espectáculo.
O concerto principiou. Laura Polverelli (Mafio Orsini) e José Bros (Gennaro), fazem as suas primeiras e breves intervenções.
Pouco depois, quando Gruberova surge no palco, imediatamente se faz ouvir um forte aplauso e gritos de "Brava!". O público saudava, assim, a aparição da grande cantora.
A Gruberova canta então "Tranquilo ei posa. Com'é bello! Quale incanto". Notei que Edita optou por uma postura mais afirmativa do que o habitual, quando cantou esta ária. Recorreu menos aos pianissimi e a alguns efeitos expressivos, como o crescendo e decrescendo com que algumas vezes pronuncia a primeira frase - Tranquilo ei posa. Todavia, mesmo dando um carácter mais afirmativo e uniforme em termos de dinâmica, Edita transmitiu um enorme lirismo em toda a ária. Eis aqui uma admirável característica de Gruberova, e que caracteriza os grandes artistas: a capacidade de interpretar de formas diferentes a mesma obra, mantendo contudo uma enorme coerência e um elevado bom gosto musical. Os trilos em pianissimo com que terminou a ária, foram duma perfeição admirável. O público aplaudiu intensamente Gruberova, no final desta ária.

Durante todo o prólogo, a prestação dos cantores foi formidável, com destaque para Gruberova e Jose Bros, que tiveram de regressar por duas vezes ao palco no final do prólogo, tal foi a intensidade e a duração dos aplausos.

Logo de seguida, tem início o primeiro acto. É aqui que surge pela primeira vez Michele Pertusi (Don Alfonso I), que interpretou bastante bem a ária "Vieni! La mia vendetta", quer na gestualidade, quer na expressão facial, quer vocalmente. Queria, a este propósito, fazer notar que, apesar de se ter tratado duma ópera em versão de concerto, os cantores e, em especial, Gruberova, interpretaram de forma tão admirável os seus papéis, que parecia que estávamos a assistir a uma ópera encenada: os gestos, os passos, a movimentação dos cantores, a expressão facial. Tudo parecia configurar uma verdadeira representação, à qual apenas faltavam os cenários e o guarda-roupa.

Gruberova foi admirável nos diálogos com D. Alfonso, quando tentava persuadi-lo a poupar Gennaro, bem como transmitindo a tensão que Lucrezia vivia ao ter de evenenar o próprio filho.

A tensão dramática, que progride durante toda a obra, atinge o seu apogeu no segundo acto, que ocorreu após o intervalo. É neste acto que Lucrezia revela a Gennaro que ele é seu filho. Neste diálogo final entre ambos, os cantores foram admiráveis. Gruberova e José Bros conseguiram transmitir toda a dor das personagens com uma intensidade tocante. Foi arrepiante o súbito dó sobreagudo que Edita emitiu no momento em que Lucrezia estaria prestes a ser ferida de morte por Gennaro. A Gruberova conseguiu um efeito dramático impressionante com o corte súbito do sobreagudo, seguido duma pausa, antes de exclamar com um timbre profundo e magoado: Un Borgia sei!

No final, todos os restantes cantores abandonam o palco e Gruberova fica sozinha, fazendo arrepiar todo o público com "Era dessa il figlio mio". A cantora parecia chorar enquanto cantava, era enorme a dor que transmitia na sua voz e na sua expressão facial. A temida Lucrezia Borgia, transformava-se aqui numa mãe que tinha perdido o seu filho e que estava dominada por um enorme sentimento de perda e de culpa. Edita foi brilhante nos dificílimos momentos de acrobática coloratura final, terminando com um poderosíssimo mi sobreagudo, que manteve ao longo de oito compassos! Edita Gruberova, após todo o esforço que certamente representou todo o seu magnífico desempenho nesta ópera, ainda teve energia para este demorado mi sobreagudo, que manteve com uma emissão absolutamente uniforme durante toda a sua duração. Impressionante!
O público, não conseguindo esperar que a orquestra atingisse os acordes finais, começa imediatamente a exclamar: "Brava! Brava!".

Mal a orquestra se silencia, todo o público se coloca de pé e aplaude intensissimamente. Edita Gruberova emocionada, mas visivelmente feliz, agradece. Imensas pessoas abandonam os seus lugares e descem pelos corredores da plateia até ao palco, empunhando máquinas fotográficas e telemóveis, para conseguirem fotografar mais de perto a grande cantora.

Os aplausos duraram mais de vinte minutos! A orquestra e o coro abandonaram o palco, mas os aplausos não terminavam e os cantores tinham de regressar novamente. Junto à saída do palco, câmaras de televisão, repórteres, fotógrafos, rodeavam Gruberova. Foi uma apoteose impressionante. Dum dos camarotes, algumas pessoas penduraram um cartaz onde podia ler-se "Edita. Simply the best!".

Os aplausos já duravam havia cerca de 20 minutos, mas o público queria que Gruberova regressasse ao palco. Então, começaram a gritar: "Edita! Edita!". Gruberova regressou uma e outra vez. Foi memorável esta magnífica noite, em que Edita Gruberova triunfou uma vez mais na Wiener Staatsoper, agora como Lucrezia Borgia.

Não foi possível obter autógrafos de Gruberova, dado que os cantores foram participar num jantar de gala que teve lugar no interior da Staatsoper. Ainda assim, alguns fãs japoneses de Gruberova, que vierem propositadamente do Japão para assistir a este momento, afirmaram que esperariam que o demorado jantar terminasse, para receberem o tão esperado autógrafo de Gruberova.
Várias estações de televisão fizeram reportagens sobre este concerto. Encontrei um breve apontamento televisivo da ORF, com imagens deste concerto, que pode ser visualizado através do seguinte link:

http://tvthek.orf.at/programs/1360-Seitenblicke/episodes/1644593-Seitenblicke/1646749-Edita-Gruberova-feiert-Buehnenjubilaeum

Aproveito também para anunciar que acabou de ser lançado o novo CD de Lucrezia Borgia com Edita Gruberova, que foi gravado ao vivo em Junho de 2010 em Colónia (a última fotografia que aqui coloquei, mostra um cartaz com a capa do CD). Já tive oportunidade de relatar, aqui no blog, o concerto em que decorreu a gravação desse CD, a que também assisti, na Kölner Philharmonie.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Lucrezia Borgia com Edita Gruberova - Kölner Philarmonie - 7 de Junho de 2010









































No passado dia 7 de Junho, a cidade de Colónia recebeu, na imponente sala da Kölner Philarmonie, a Primadonna Assoluta do Belcanto - Edita Gruberova - que interpretou um dos seus mais recentes papéis: Lucrezia Borgia.

A já legendária cantora eslovaca, há dois anos atrás (então, com a idade de 61 anos) acrescentou ao seu impressionante repertório mais um dificílimo papel belcantista - Lucrezia Borgia - que estreou em 2008 em versão de concerto, tendo no ano passado estreado esse papel em palco, numa nova produção operática do aclamado encenador Christof Loy.

Aqui, a Gruberova apresenta-se para uma versão de concerto de Lucrezia Borgia, sendo acompanhada por um elenco do qual fazem parte nomes como José Bros (Gennaro), Franco Vassallo (Don Alfonso) e Silvia Tro Santafé (Maffio Orsini). O concerto contou ainda com a presença do Coro da Ópera de Colónia e da WDR Rundfunkorchester, que foi dirigida pelo maestro ucraniano Andriy Yurkevych.

A expectativa é grande e, entre o público, é frequentemente pronunciado o nome de Edita Gruberova.

Todo o palco estava repleto de microfones. O nome da rádio alemã Westdeutschen Rundfunks 3 constava no programa, fazendo crer que o concerto iria ser transmitido por essa estação. Sabe-se, entretanto, que brevemente será lançado um CD de Lucrezia Borgia, com Edita Gruberova, gravado ao vivo, presumivelmente deste mesmo concerto, apesar de Edita Gruberova, a seguir ao concerto de Colónia, ter partido para uma série de récitas de Lucrezia Borgia em Dresden.

O concerto principia. Andriy Yurkevych dirige os primeiros acordes da orquestra, visivelmente satisfeito, pois tudo leva a crer que começava uma grande noite musical. E assim foi.

Tem início o prólogo. O Coro, José Bros e Silvia Tro Santafé, fazem as suas primeiras intervenções e recebem os seus primeiros e merecidos aplausos.

Surge então um momento de silêncio. Do lado esquerdo do palco, ouve-se o som surdo de passos que marcam o estrado de madeira, e eis que surge Edita Gruberova. A sua entrada em cena, com um vestido branco, adornado pelos seus cabelos loiros e os seus olhos intensamente azuis, dá a sensação de termos recebido a aparição luminosa dum ser celestial que subitamente nos visita. De imediato, o público irrompe numa estrondosa ovação e repetem-se as exclamações vigorosas: "Brava! Brava!". Os aplausos, antes mesmo da Gruberova ter feito ouvir a sua voz, parecem não terminar. A cantora, reconhecida, agradece. Com efeito, o esclarecido, erudito e conhecedor público alemão tinha demonstrado claramente qual o principal motivo que o tinha trazido até ali: Edita Gruberova.

Por fim, os demorados aplausos silenciam-se e a orquestra prepara o caminho para a primeira intervenção da Gruberova: "Tranquillo ei posa. Com'é bello! Quale incanto." Logo nas primeiras palavras, a grande cantora confirma a sensação de presença celestial que antes nos havia provocado. Com efeito, dos seus lábios brota o som mais sublime que o ouvido humano pode perceber: uma dinâmica perfeita, equilibrada, de um bom gosto e duma sensibilidade inexcedíveis. Um som puro e cristalino. De salientar a emissão de pianissimi absolutamente miraculosos. O maestro sorri, encantado.

A ária termina com uma sequência incrível de trilos em pianissimo, que a Gruberova executa com uma perfeição absolutamente inefável, comprovando o seu conhecido e aclamado domínio da técnica, aliado a uma capacidade vocal e a um bom gosto inimitáveis. As ovações que se seguem fazem estremecer o recinto: Edita Gruberova, confirmando as qualidades que lhe conferiram o título de Primadonna Assoluta, tinha levado o público ao delírio.

Certamente contagiados pela atmosfera de excelência que foi imprimida por Edita Gruberova, os outros cantores são levados a prestações de muito bom gosto musical e grande entrega.

A primeira intervenção de Franco Vassallo - "Vieni! La mia vendetta" - é arrebatadora. O aclamado baixo italiano, canta essa ária com um vigor impressionante, terminando numa nota aguda, prolongada e em forte, atingindo o limite superior da tessitura dum baixo. O público aplaude intensamente.

O tenor catalão José Bros (um dos filhos do Gran Teatre del Liceu de Barcelona), também se apresenta vigoroso, e premeia o público com notas suspensas que prolonga até ao limite, percebendo-se que a sua entrega é também total. Os fortes aplausos com que o público o premiou, pareceram conferir grande entusiasmo ao cantor que, até ao final do concerto, manteve a sua prestação com grande qualidade.

Ao longo de todo o primeiro acto, os duetos de Gruberova com Vassallo são arrebatadores. Particularmente impressionante é a prestação da Gruberova, que revela uma enorme energia na oposição de Lucrezia a Don Alfonso, quando este a pretende obrigar a envenenar o próprio filho, Gennaro. Impressionante como a Gruberova, mesmo em versão de concerto, consegue transmitir a impressão de estarmos a assistir a uma ópera no palco, tais são as suas capacidades expressivas e dramáticas: além da sua voz, toda a sua gestualidade (de bom gosto, sem excessos), a sua postura e o seu facies, imprimem intenção e vida às suas palavras.

Aliás, não é por acaso que Edita Gruberova é detentora de distintos prémios pela excelência da representação, como é o caso do Prémio Sir Laurence Olivier.

O primeiro acto termina com fortes ovações do público, como é natural.

No intervalo, o público comenta, impressionado a qualidade do espectáculo, com especial relevo para "Die Gruberova" - A Gruberova.

A segunda parte é preenchida com o segundo e último acto. E é aqui que a intensidade dramática da obra atinge o seu clímax. Este acto é particularmente exigente para Gennaro (José Bros) e, sobretudo, para Lucrezia (Edita Gruberova).

É também no segundo acto que Silvia Tro Santafé tem a sua prestação mais importante, com a ária "Il segreto per esser felici", que interpretou com raça. Os aplausos do público foram intensos e muito justos. A jovem cantora catalã, discípula de Monserrat Caballé e Renata Scotto, tendo também completado a sua formação artística na Julliard School de Nova York, é já considerada um dos melhores mezzo sopranos de coloratura da sua geração. Detentora duma voz encorpada, com um timbre quente e escuro, transmite, mesmo na sua aparência física, a sensação duma cantora latina, afirmativa, vigorosa.

Digna de nota, foi também a participação do tenor Thomas Blondelle, que desempenhou o papel secundário de Rustighello, com grande musicalidade e entrega.

As cenas finais constituíram o momento mais alto do espectáculo. Foi arrepiante a ocasião em que Gennaro se prepara para apunhalar Lucrezia. Nesse ponto altamente dramático, que a Gruberova cantou com uma entrega e um dramatismo impressionantes, Edita emite um fortíssimo e inesperado dó sobreagudo, ao qual se segue uma pausa súbita. Orquestra, coro e todos os cantores se silenciam e Edita exclama num registo grave e com uma intenção poderosíssima: "un Borgia sei!"

Um arrepio percorre a nossa alma, quase que sentimos as tábuas do chão estremecer, tal é o poder dramático da Gruberova. Segue-se então um diálogo impressionante, carregado de tristeza e lirismo entre José Bros e Gruberova. Aqui, José Bros tem uma prestação formidável, cantando em voz velada até, por fim, silenciar-se (Gennaro morre).

Segue-se, então, um momento pungente e Gruberova canta "Era desso il figlio mio". A dor da personagem, que sente todo o peso da culpa pela morte do seu próprio filho, que morreu envenenado pelas suas próprias mãos, é admiravelmente transmitida pela Gruberova.

Foi impressionante ver os olhos de José Bros, bem como do tenor Tansel Akzeybek (que desempenhou o papel de Oloferno Vitelozzo) repletos de lágrimas. Estes cantores não conseguem conter a sua emoção e choram em palco com os olhos dirigidos para Edita Gruberova, que a todos faz estremecer com a pungência e a dor com que canta esta magoada ária.

Olho, então, em redor e constato que várias pessoas no público estão a chorar. Esta capacidade de tocar os corações humanos é algo que só um grande talento como o de Edita Gruberova consegue atingir. Não se trata somente de estar muito bem cantado, de tecnicamente ser mais ou menos irrepreensível; é muito mais do que isso. É algo que, simplesmente, não tem outra explicação, a não ser o imenso talento, o imenso dom. Melhor dizendo, é algo que não tem, de facto, explicação.
A este momento de dor, acresce um momento de raiva, em que Lucrezia é devorada por uma imensa culpa e revolta. Toda essa mistura de dor e raiva é cantada duma forma impressionante pela Gruberova: "Sul mio capo il Cielo avventa il suo strale punitor!"

Nesta passagem dificílima, a Gruberova exibe uma coloratura formidável, tendo de ascender desde as notas mais graves, até às mais agudas, em rápidas e turbulentas sequências de notas, que vocaliza sem hesitações.

A ópera termina com a Gruberova emitindo um fantástico, fortíssimo e demorado mi sobreagudo. Arrepiante! O público põe-se imeditamente de pé e aplaude em júbilo! Várias pessoas, em especial nas primeiras filas, têm ainda o rosto coberto de lágrimas.

Ouve-se "Brava!!!", "Bravissima!!!, "Bravi!!" Muitas pessoas querem pronunciar o nome de Edita e gritam "Brava, Edita!!!". É a apoteose. Os outros cantores, emocionados, olham para Edita Gruberova demonstrando claramente um grande respeito e admiração pela grande artista que perante eles se encontra.

Com humildade, Edita, reconhecida, agradece e apressa-se a dar as mãos aos outros cantores, que se aproximam, vergando-se respeitosamente perante a Raínha do Belcanto - Die Königin des Belcanto - como é frequentemente referida na imprensa germânica.

Vários elementos do público aproximam-se do palco e oferecem flores a Edita. Alguém da assistência, certamente francês, oferece a Edita Gruberova uma placa idêntica às que se encontram a nomear as ruas de Paris, com a inscrição: "Place Edita Gruberova". Nesse momento, recordei-me do fabuloso concerto que a cantora deu em Dezembro do ano passado em Paris, no Théâtre des Champs-Elysées, no qual alguém do público entregou a Edita uma placa semelhante, com a inscrição "Avenue Edita Gruberova"!

Os aplausos parecem não cessar. Os cantores saiem e regressam ao palco inúmeras vezes. Por fim, a orquestra sai, o coro também se retira, mas o público permanece aplaudindo. Os cantores têm de regressar uma e outra vez. As pessoas do público que se encontravam mais longe do palco, aproximam-se, para poderem aplaudir mais de perto. Dos varandins que estão sobre o palco, alguns elementos do público desfraldam cartazes com a fotografia de Edita Gruberova.

Estou certo de que todos os que assistiram a este magnífico concerto, levaram consigo memórias que jamais esquecerão. Bravi Tutti! Bravissima Edita!!!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

L’ELISIR D’AMORE –Wiener Staatsoper, Viena, Abril de 2010

De Gaetanno Donizetti, o Elixir do Amor é uma ópera cómica bem conhecida apesar de, em minha opinião, não ser uma ópera de referência. Contudo, se bem encenada e se interpretada por bons cantores, poderá proporcionar um espectáculo inesquecível.

Aqui em Viena a encenação de Otto Schenk foi aceitável e alegre, retratando uma cena campestre, mas sem sofrer qualquer alteração ao longo do espectáculo, o que foi pena.


A orquestra, dirigida por Daniele Callegari, teve uma prestação excelente, tal como o coro.
Adina foi interpretada por Alexandra Reinprecht, um soprano decente que foi melhorando ao longo do espectáculo. No início foi pouco expressiva e algo agressiva nos agudos, mas a situação melhorou ao longo da récita, proporcionando-nos alguns momentos interpretativos de qualidade.


Nemorino foi José Brós, um tenor que, em minha opinião, não tem estofo para o papel. Possuidor de uma voz pequena, esteve irregular ao longo da récita, com muitas passagens em que se ouvia mal (e nas que se ouvia bem, gritava mais que cantava) e cantou una furtiva lagrima muito aquém do desejável (e esta aria é a referência para apreciar as qualidades vocais e cénicas do Nemorino). Depois de se ter ouvido, há pouco, Juan Diego Florez ou Rolando Villazon a cantar este papel, todos os outros parecem de outro “campeonato”!

Mariusz Kwiecien foi uma surpresa em Belcore, esteve vocalmente irrepreensível, a figura é excelente e foi o melhor em cena.
Também Ambrogio Maestri, um desconhecido para mim, esteve muitíssimo bem no papel do doutor Dulcamara. Possuidor de um barítono potentíssimo e de qualidade, fez um papelão e também esteve muito bem cenicamente.
Dos restantes, nada a dizer, para além de mencionar o timbre particularmente irritante de Elisabeta Marin, no felizmente curto papel de Gisanetta.

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