Mostrar mensagens com a etiqueta Wesendonck Lieder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Wesendonck Lieder. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de janeiro de 2022

Karita Mattila, Wesendonck Lieder e Sinfonia Nº1 de Mahler, Fundação Gulbenkian, Janeiro de 2022

 


(text in English below)

O ciclo de 5 canções Wesendonck Lieder, de Richard Wagner, abriu o concerto da Orquestra Gulbenkian, sob a direcção do maestro Hannu Lintu. A solista foi a grande soprano finlandesa Karita Mattila. A voz é cheia e mantém um timbre inconfundível. A cantora ofereceu-nos uma interpretação de grande nível emotivo e sempre afinada. No final recebeu um justo e prolongado aplauso de pé.


Na segunda parte do concerto ouviu-se a notável Sinfonia Nº1 de G Mahler. Gostei muito da interpretação da Orquestra. Começou da melhor forma este “segundo ciclo” de concertos da Orquestra Gulbenkian


****

Karita Mattila, Wesendonck Lieder and Sinfonia Nº1 by Mahler, Gulbenkian Foundation, January 2022

The 5-song cycle Wesendonck Lieder, by Richard Wagner, opened the Gulbenkian Orchestra concert, conducted by Hannu Lintu. The soloist was the great Finnish soprano Karita Mattila. Her voice is full and maintains an unmistakable timbre. The singer offered us an interpretation of a high emotional level and always in tune. In the end she received a fair and prolonged standing ovation.

In the second part of the concert, the remarkable Symphony Nº1 by G Mahler was heard. I really enjoyed the orchestra's performance. This “second cycle” of concerts by the Gulbenkian Orchestra started in the best way

****

sábado, 5 de março de 2016

Noite Wagneriana na Gulbenkian, com Waltraud Meier – 3 de Março 2016

(Fotografia: FCG)

Assisti ao concerto do passado dia 3 de Março de 2016, na Fundação Calouste Gulbenkian.
O programa foi preenchido, na primeira parte, pelo Prelúdio (e não abertura, como refere o programa) do Lohengrin e pelos Wesendonck Lieder, em versão orquestral. Na segunda parte tocou-se a 3ª Sinfonia de Anton Bruckner.

(Fotografia: FCG)

A Orquestra Gulbenkian foi dirigida pelo maestro finlandês Jukka-Pekka Saraste e contou com a interpretação da mezzo-soprano Waltraud Meier nos Wesendonck Lieder.

O Prelúdio da ópera Lohengrin é uma peça de grande delicadeza, cujo sucesso depende da capacidade do maestro de traduzir o carácter etéreo e quase intangível que constitui a essência do mundo divino que a música visa representar. O início, no registo sobre-agudo dos violinos, divididos em oito partes, necessita de uma perfeita articulação e de um ambiente de sublimidade que, manifestamente, não foi criado por Saraste. O tempo foi muito brusco, os naipes dos violinos tiveram dificuldade na articulação e a “beleza azul-prateada”, descrita por Thomas Mann, não se sentiu. O crescendo até ao culminar do tema do Graal, com as entradas sucessivas dos diversos naipes instrumentais, foi demasiado impetuosa na minha opinião, perdendo-se a atmosfera adequada à idealização de Wagner, que pretendia representar a descida dos anjos do céu em direcção às regiões sagradas de Montsalvat para confiar o Graal ao cuidado dos puros. O crescendo orquestral desembocou num fortíssimo muito poderoso, em que toda a orquestra ribombou de forma tremenda (marca constante deste concerto), para depois fazer o caminho inverso, de volta às harmonias iniciais.

(Mathilde Wesendock)

Para cantar os Wesendonck Lieder tivemos a presença da grande diva wagneriana Waltraud Meier (Würzburg, 09-01-1956), que eu nunca tinha tido oportunidade de ouvir ao vivo.


Como seria de esperar, a sua voz já não é – nem pode ser – o que foi nos anos 90, quando estava no seu auge. Em especial quando o maestro não ajuda e faz troar a orquestra, abafando-a completamente, como aconteceu em algumas ocasiões. Pareceu-me notar um certo nasalamento do timbre e o fôlego já não permite um legato perfeito. Contudo, a marca da grande artista está toda lá, na elegância do fraseio e na inteligência do canto.
A sua interpretação do lied “Im Treibhaus” foi verdadeiramente tocante, o melhor momento da sua actuação. Os lieder “Der Engel” e “Stehe still!” teriam igualmente sido perfeitos se Jukka-Pekka Saraste tivesse adoptado tempos menos rápidos, que me parecem pouco adequados a deixar a música respirar e a poesia a vir ao de cima. Com “Träume” encerrou-se o ciclo de forma belíssima.



Embora Waltraud Meier seja uma intérprete vocal de excepção, ela atinge o seu zénite na representação teatral, como atestam as gravações em dvd disponíveis. Não sendo os Wesendock Lieder, porventura, o seu repertório mais significativo, foram, todavia, um excelente palco para demonstrar como os seus dotes artísticos permanecem intocados.
Para além disso, demonstrou grande simpatia com os membros do público que a procuraram para trocar umas palavras e pedir autógrafos, como pude testemunhar.



A segunda parte do concerto foi integralmente preenchida com a 3ª Sinfonia, em ré menor, de Anton Bruckner, na versão de 1877, edição Leopold Nowak.
Escrita inicialmente em 1873 (Bruckner terminou-a a 31 de Dezembro), a Sinfonia n.º 3 foi dedicada a Wagner. Mas, curiosamente, não directamente por escolha de Brucker, mas por escolha do próprio Wagner, a quem o mestre de Sankt Florian a apresentou em Setembro de 1873 (antes de estar concluída a orquestração do Finale) juntamente com a 2ª Sinfonia. Todavia, ao que rezam as crónicas, depois de Wagner ter escolhido a 3ª Sinfonia, ambos beberam tanta cerveja que, ao chegar a casa, Bruckner já não tinha a certeza de qual havia sido escolhida pelo seu mestre mais admirado. Escreveu-lhe então a perguntar se era aquela cujo tema inicial era tocado pela trompete, ao que Wagner terá respondido «Sim, sim! Melhores cumprimentos!», passando desde então a referir-se àquele como “Bruckner, o trompete».
Anedotas à parte, a 3ª Sinfonia marca o início das sinfonias da maturidade de Bruckner e, como se tornou hábito, foi sujeita a uma infindável série de revisões, nem todas da lavra do próprio compositor. As duas principais revisões foram a de 1877 e a de 1888/89, com a colaboração de Franz Schalk.
Neste concerto foi tocada a versão de 1877, com a coda do Scherzo, publicada por Nowak em 1981.
Jukka-Pekka Saraste, que dirigiu de memória, privilegiou tempos relativamente rápidos (pela minha contagem, a interpretação durou 56:31, dividida da seguinte forma: I – 19:30; II – 15:00; II – 7:34; IV – 14:27. Como referências comparativas que tenho posso indicar as gravações de Haitink/VPO 61:29; Sinopoli/Dresden 59:11; Solti/CSO 59:33) e, ao nível da estrutura interpretativa, a sua leitura foi marcada por grandes contrastes dinâmicos, um marcado sentido de progressão e uma sensação de urgência que às vezes roçava o enfático. Embora a orquestra tenha tocado sempre com uma elevada pressão sonora, os típicos e abruptos silêncios brucknerianos foram executados na perfeição.

O início do primeiro andamento não teve o carácter “misterioso” que a partitura pede, precisamente pela urgência adoptada pelo maestro finlandês. Contudo, a partir daí, as grandes massas sonoras foram sempre bem esculpidas, para terminar numa coda galvanizadora.
O segundo andamento foi muito equilibrado, cheio de belos momentos e com uma excelente execução.
O Scherzo foi, para mim, o melhor momento da Sinfonia, ao qual o estilo musculado de Jukka-Pekka Saraste se adequou perfeitamente. Extremamente vigoroso no seu tema principal, o maestro finlandês tocou-o com uma energia contagiante. Na secção central, do trio, a abordagem foi notavelmente robusta, evidenciando o carácter rústico do ländler. Era visível o prazer que tocar estas páginas estava a dar aos músicos da orquestra e que se reflectia dos seus sorrisos cúmplices com o maestro.
O final foi tocado de forma grandiosa, culminando toda a experiência bruckneriana que, seguramente, não deixou indiferente nenhum espectador do auditório, como se pôde atestar pelos longos aplausos proporcionados a todos os músicos.


Em suma, um concerto muito gratificante e que permanecerá na memória.