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terça-feira, 21 de outubro de 2014

CAVALLERIA RUSTICANA & I PAGLIACCI ARRANCAM LÁGRIMAS NO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET


Dando sequência a temporada de óperas o Theatro Municipal de São Paulo apresentou no dia 18 de Outubro de 2014 a dobradinha mais famosa da ópera: Cavalleria Rusticana e  I Pagliacci. Ambas sucesso em todo mundo e por serem curtas são apresentadas na mesma noite. Representantes máximas do verismo, gênero do final do século XIX que trás o povão para ópera. Uma das características principais do movimento é o realismo exacerbado, descreve a vida cotidiana com nuances sanguinárias mostrando a realidade nua e crua no palco. Desaparecem as rainhas e nobres e gente simples e comum do povão dão vida aos personagens.

Apresentada ano passado ao lado da ópera Jupyra a Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni reprisada faz uma transposição temporal para o século XX com mafiosos parecidos com capangas de Al Capone. A idéia de mudar o período histórico para os anos 30 é uma solução que não prejudica o enredo. Os cenários, figurinos e luz dialogam com essa transformação e se harmonizam com a concepção do diretor cênico Pier Francesco Maestrini.

Para encarar a Santuzza convocaram Tuija Knihtlä, o soprano apresentou voz consistente com agudos e médios escuros e uma interpretação cênica convincente. Grande cantora com excelentes qualidades vocais e cênicas. O tenor Giancarlo Monsalve esteve aquém do personagem Turiddu. Voz fechada com agudos sem brilho, procura o conforto na região média e o timbre se mostra sem vigor e ocre. Tenor sem condição técnica para se apresentar no palco do municipal que recebeu vaias por pequena parte do público ao final da apresentação. Alberto Gazale é barítono de bons graves, cantou com dignidade e fez um bom Alfio. Luciana Bueno como Lola esbanjou qualidade vocal em sua pequena participação, todo o caráter da personagem que aceita trair o marido foi mostrado com uma voz escura e um timbre penetrante.

A estreante I Pagliacci de Ruggero Leoncavallo teve direção cênica William Pereira, o diretor optou por carregar nas tintas, encheu o palco de tudo. Solistas, figurantes, coristas e cenários lotaram o espaço cênico e instalaram uma confusão generalizada. A exibição de um vídeo transmitindo a cena ao vivo é um recurso manjado que poluí o cenário. Os cantores atuaram de forma coerente com o enredo. A transposição da ópera para os anos 80, em uma periferia de uma grande cidade não acrescenta nada de novo ou revolucionário. 

Walter Fraccaro cantou com força vocal, seu Canio é todo drama do início ao fim. Atuação correta e voz de tenor condizente com o personagem. Inva Mula trouxe ao palco do Municipal excelentes agudos, explorou-os com potência e grande volume. O barítono Alberto Gazale fez um Tonio mediano, que não chega a emocionar embora não comprometa a apresentação. Davide Luciano e Daniele Zanfardino cantaram de forma satisfatória os personagens Silvio e Beppe.

A Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo regida por Ira Levin apresentou precisão rítmica em uma interpretação com brilho e volume correto em ambos os títulos. Andamentos que acompanham os cantores e volume que respeita a linha vocal foram a tônica de toda a apresentação. Ira Levin já foi diretor do Theatro Municipal de São Paulo e além de um excelente pianista é um regente que entende os meandros da ópera. O Coro lírico Municipal de São Paulo mostrou uniformidade entre os naipes e conseguiu transmitir as emoções que os dois títulos apresentam.  

Cavalleria Rusticana e I Pagliacci  são óperas apresentadas de diversas formas pelos teatros do mundo e de todos os modos ambas têm a capacidade de deixar o espectador tenso. Transmitem uma dramaticidade que perturba os sentidos levando muitos as lágrimas. Um amigo que assistiu as óperas pela primeira vez sai do teatro com os olhos marejados, diz que I Pagliacci provocou nele uma emoção que afeta os sentidos. Por isso amo a arte, por isso amo a ópera. Ela tem a capacidade de nos transportar a outra dimensão, quem é tocado e tem sensibilidade artística sente na pele o drama vivido por Santuzza e por Nedda. 


Ali Hassan Ayache

Fonte:http://operaeballet.blogspot.pt/2014/10/cavalleria-rusticana-i-pagliacci.html

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

OTELLO, O MOURO DE BELÉM. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.





O Festival de Ópera do Theatro da Paz de Belém do Pará está em sua décima terceira edição e no auge da maturidade. Afirmo isso devido à apresentação de dois títulos de peso da ópera mundial, tivemos Mefistofele de Arrigo Boito em Agosto e no mês de Setembro a ópera Otello de Verdi. Apresentar dois títulos desse porte é prova incontestável que Belém do Pará está no circuito das grandes produções de óperas do Brasil. O festival ainda apresentou Um Americano em Paris e Blue Monday de George Gershwin e diversos recitais e concertos pela cidade.
   
Ópera da fase da maturidade de Verdi com um dos melhores libretos de toda a história, Arrigo Boito transmitiu toda a complexidade da obra de Shakespeare em versos emblemáticos. A música de Verdi une todos os sentimentos dos personagens fazendo de Otello uma das maiores composições operísticas de todos os tempos. Otello é a melhor transposição de um texto teatral para libreto de ópera, um casamento perfeito entre música e versos.

Mauro Wrona faz das dificuldades da montagem uma motivação. Acerta nas cenas impactantes, nas movimentações do coro e dos solistas e nas sutilezas dos personagens. Direção correta que opta pelo contar dos fatos de modo linear onde expressões e movimentos são interligados as falas mostrando os interesses de cada personagem. Os cenários simples e geométricos de Duda Aruk unidos a excelentes e representativos figurinos de época de Fabio Namatame dialogam com as ideias da direção com harmonia. O auge é a cena final do terceiro ato, um primor de interpretação de Otello e Iago.




Interpretar Iago é uma complexidade tremenda, o papel exige um barítono com voz densa e atuação cênica sutil. Rodrigo Esteves esteve a altura do personagem, conseguiu imprimir todas as facetas dele em gestos e expressões que mostram seu lado manipulador. Sua voz mostrou graves portentosos, cheios e uniformes, tudo isso para fazer um Credo expressivo, forte e vibrante. Cantou e atuou com maestria em todas as passagens e fez um Iago inesquecível, daqueles que temos vontade de socar-lhe a cara após a récita por ter feito tanta maldade a um casal apaixonado.

Gabriela Rossi é jovem soprano com voz lírica e de timbre de grande beleza que não tem a densidade e o peso necessário para a personagem Desdemona. O soprano compensou isso com uma técnica apurada onde agudos brilhantes ecoam pelo teatro com lirismo e expressividade. Mostrou uma Desdemona inocente e apaixonada onde seu ápice foi o dueto com Otello no fim do primeiro ato. Atuação cênica digna de uma Desdemona apta a se apresentar em qualquer teatro pelo mundo afora. Gabriela Rossi é jovem promessa do canto lírico nacional que teve a coragem de encarar um papel complexo e se deu bem, sua coragem a levará a outras personagens e a novos desafios. Voz e talento a moça tem de sobra.

Otello já foi cantado por grandes tenores desde sua estreia, enumerar aqui os feras do passado é uma chatice daquelas, existem centenas de registros em CD e DVD dessa ópera. Vale ressaltar que suas dificuldades começam na forma do canto. Otello em muitas passagens segue a declamação do teatro falado com naturalidade, fato esse que culminaria posteriormente  no verismo. Exige do protagonista voz com registro médio sólido e toda uma gama de colorido vocal. Atuação cênica sutil e viril conforme o momento da ação . Walter Fraccaro não tem todos esses atributos, sua voz não tem o peso e volume necessários e seus médios são uniformes e de pouco colorido. Superou as dificuldades do personagem com atuação cênica primorosa que capta as sutilezas e detalhes. Destacou-se no quarto ato com um timbre lírico-spinto de boa técnica. Emprestou dignidade ao personagem vocal e cenicamente.
   
A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz regida por Sílvio Viegas apresentou sonoridade verdiana que respeita a partitura e mostra a música com clareza. Segurou os andamentos para socorrer a solistas cansados e em nenhum momento os encobriu. Maestro que entende e respeita a ópera sabe que música e canto andam juntos sem a supremacia de nenhum. Sílvio Viegas fez a orquestra tocar com empolgação e mostrou total domínio da partitura.

Dedicação, essa é a palavra que define o Coral Lírico do XIII Festival de Ópera do Theatro da Paz. Os coristas mostraram uma dedicação hercúlea no trabalho de preparação para a ópera e se apresentaram com excelência vocal obedecendo aos comandos do regente. Excelente o trabalho de Vanildo Monteiro que conseguiu equilibrar todas as vozes e de Elisety Rego que a frente do Coral Infanto-Juvenil Vale Música conseguiu também um excelente resultado.
   
O público sedento por cultura atende ao chamado e lota o teatro em todos os eventos do festival. Essa resposta é a maior prova de acerto de sua realização, o Theatro da Paz faz parte da história da cidade de Belém e sua utilização em apresentações de óperas e concertos só engrandece o povo paraense. Que venham mais festivais.


Ali Hassan Ayache viajou a Belém a convite da direção do XIII Festival de Ópera do Theatro da Paz.