Salome de Richard Strauss é uma ópera em um acto com libretto baseado na tradução alemã de Hedwig Llachmann da peça homónima de Oscar Wilde, baseado no tema bíblico de Salomé, a decapitação de São João Baptista. Diz quem sabe que Oscar Wilde, impressionado pela obra do pintor simbolista Gustave Moreau sobre Salomé, alterou a tradição bíbica em que ela é tratada como uma jovem ingénua que obedece passivamente à mãe, para torná-la uma mulher possuída por um desejo sexual obsessivo por São João Baptista que não cedeu ao seu amor.
Salomé por Gustave Moreau
A música de Strauss é dramática e poderosíssima. A sonoridade é grandiosa e rica (por vezes quase ofuscando os cantores), o cromatismo sonoro impressionante, há utilização de leitmotive e alternância de consonância com dissonância. A orquestra é, assim, a parte maior desta obra.
Herodes Antipas, Tetrarca da Judeia, mandou matar o irmão para ficar com a sua mulher, Herodias (Herodíade), mãe de Salomé que agora também deseja. O profeta Jokanaan (São João Baptista) está preso numa cisterna pelo anátema que lançou em relação ao casamento incestuoso de Herodias. Narraboth, um jovem sírio capitão da guarda, encanta-se por Salomé, princesa da Judeia. Salomé, num terraço do palácio de Herodes, ouve a voz de Jokanaan e exige a Narraboth que o traga à sua presença, contrariando uma ordem de Herodes. Revela uma atracção sexual intensa por ele, pelo seu corpo, pelos seus cabelos, pela sua boca. Tenta insistentemente beijá-lo mas este repele-a, pedindo-lhe que peça perdão ao filho do Senhor. Narraboth, perante este comportamento, mata-se sem que Salomé sequer se aperceba. Jokanaan volta para a cisterna, sua cela, mas Salomé jura que o beijará. Herodes surge e, encantado com Salomé, pede-lhe que dance para ele, prometendo-lhe, em troca, o que ela quiser. Salomé seduz Herodes com a dança dos sete véus e pede-lhe a cabeça de Jokanaan numa bandeja de prata. Herodes tenta dissuadí-la do pedido, oferecendo-lhe todo o tipo de riquezas que possui, mas Salomé insiste. Herodes ordena a decapitação. Herodias manifesta concordância com a atitude da filha. Salomé recebe a cabeça e beija a sua boca longamente, para horror de todos. Herodes ordena a sua morte.
Estamos perante uma ópera para adultos, dominada pela decadência, crueldade, violência e necrofilia. Na informação da Royal Opera House constava que tinha cenas de sexo e violência.
Parte das fotografias apresentadas são de Clive Barda (Royal Opera House)
A orquestra da Royal Opera House esteve ao seu melhor nível e proporcionou-nos outra interpretação superior, de cortar a respiração, viva, dramática, dando-nos toda a sumptuosidade tímbrica que faz justiça à música de Strauss. Foi superiormente dirigida pelo maestro Hartmut Haenchen.
Salome foi interpretada pela soprano alemã Angela Denoke. Possuidora de uma voz respeitável, de grande potência a alguma beleza, esteve vocalmente à altura do exigente papel da personagem, mantendo-se bem até ao final. Cenicamente, não conseguiu transmitir totalmente a intensa sensualidade e desejo sexual obsessivo da personagem, tendo estado estática, mais preocupada com o canto do que com a interpretação. Contudo, na cena de necrofilia final, com a cabeça de Jokanaan, teve um salto qualitativo, dando-nos uma notável interpretação em “Ah! Du wolltest mich nicht deinen Mund küssen” e “Ah! Ich habe deinen Mund geküsst, Jokannan”
O tenor alemão Gerhard Siegel foi um Herodes convincente, a voz perfeita para o papel, manteve a qualidade interpretativa sem quebrar, fazendo-se sempre ouvir, mesmo nos momentos em que a orquestra é a protagonista. Cenicamente esteve muito bem, bastante ajudado pela encenação.
Johan Reuter, barítono dinamarquês, foi um poderoso Jokanaan. A voz é bonita, penetrante e bem timbrada. Também teve uma boa presença em cena.
Irina Mishura, mezzo-soprano russa foi Herodias. Cumpriu mas, mais uma vez, não me agradou (recordo a Azucena do Trovador de Barcelona no final do ano passado que não me convenceu). A voz é forte mas a emissão irregular e áspera. Finalmente o tenor britânico Andrew Staples foi um Narraboth decente que, como manda o libreto, morreu sem se dar por isso.
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