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segunda-feira, 26 de julho de 2010

GÖTTERDÄMMERUNG (O Crepúsculo dos Deuses) – Teatro de São Carlos, Lisboa, Outubro de 2009

No início da temporada em São Carlos e ainda antes de termos decidido iniciar este blogue, tanto eu como o wagner_fanatic assistimos à mesma récita do Crepúsculo dos Deuses de Richard Wagner. Como o meu amigo e colega de blogue não se decidiu a escrever algo sobre este espectáculo, avanço eu, profanando território sagrado para ele, atrevendo-me a uns comentários sobre o que nos foi proporcionado pelo nosso teatro lírico principal. Devo confessar-me um grande admirador de Wagner mas, como temos um especialista no blogue, não me tenho aventurado a comentar as suas óperas que tenho visto.

Foi a conclusão do último “Anel” apresentado, de forma intercalar, em Lisboa (o início com “O Ouro do Reno” foi em Junho de 2006), o que já não acontecia há mais de 30 anos e que se deveu a Paolo Pinamonti, apesar de já estar substituído pelo incompetente Christoph Dammann.

A encenação de Graham Vick revolucionou o São Carlos porque fez da plateia o palco principal da acção, tendo os espectadores que habitualmente a ocupam, como é o meu caso, sido colocados num balcão montado no palco. Nesta última ópera do Anel, até os dourados e candeeiros das frisas, camarotes e balcão foram tapados por plásticos cinzentos (só o tecto e o lustre central escaparam).

A orquestra, deixou de estar no local habitual e passou para a entrada do que normalmente é a plateia, ficando nas profundezas, com os nibelungos, o que foi prejudicial pois, por vezes, ouvia-se mal, sobretudo pelos que estavam no extremo oposto. Parecia que tocava em “mono”, como diria o wagner_fanatic, o que é fatal em Wagner. Contudo, ao longo de quase todo este Anel, apesar de a orquestra e maestro terem sido os mesmos, respectivamente Orquestra Sinfónica Portuguesa e Marco Letonja (no Ouro do Reno foi Emilio Pomàrico o maestro na récita que assisti), houve diferenças importantes no que se ouviu. Na minha opinião, o melhor desempenho foi no Crepúsculo dos Deuses e, apesar de algumas críticas que li na altura aos seus instrumentistas e aos próprios instrumentos, achei que tiveram uma boa prestação, prejudicada, repito, pelo seu arrastamento para um extremo da sala.


A acção foi trazida para a actualidade (e deturpada no final, pois Hagen morre no fundo do rio, arrastado pelas Filhas do Reno e não assassinado por Gutrune!). Nesta produção, no início, as três Nornas que antevêem o destino do mundo, preparam as bombas para a destruição final. Ao longo do espectáculo são invocados os regimes comunista (possivelmente maoista) com grande impacto na convocatória dos vassalos por Hagen e capitalista, encarnado pelos deuses, todos condenados à destruição.

A presença de um número elevadíssimo de figurantes foi uma ideia muito interessante mas que, em certos períodos, pelo ruído que faziam nas suas movimentações, perturbavam a concentração e a audição da belíssima música de Wagner. Contudo, teve momentos particularmente bem conseguidos nesta ópera, como na cena da caça ou na morte de Siegfried. Esta, no terceiro acto, foi um dos pontos mais altos do espectáculo, onde a interpretação musical da marcha fúnebre foi também uma muito boa intervenção da orquestra.


Tudo termina em destruição, como previsto pelas Nornas, com numerosos bombistas suicidas, mas a destruição do Walhall não teve qualquer espectacularidade, ao contrário do que tudo fazia prever. E, no momento final, aparece um par bem posto a dançar uma valsa. Para quê? Não trouxe qualquer mais valia ao espectáculo. Já vi encenações que terminam com o aparecimento de uma criancinha (símbolizando renovação do cíclo), o que também não gosto mas, neste caso, achei perfeitamente descabido.


Merece realce pela positiva a aparição e actuação em palco tanto dos corvos de Wotan (bailarinos vestidos totalmente de negro com movimentos rápidos e desajeitados, talvez em excesso para corvos) como dos cavalos de Brünnhilde e de Waltraute (outros com botas possantes, calças camufladas e máscaras anti-gás). Fantástica a eficaz concepção e actuação dos animais, que nunca tinha visto em encenações anteriores.

Fotografias do Teatro Nacional de São Carlos

Brünnhilde foi interpretada pelo soprano inglês Susan Bullock. Foi sólida, com uma voz poderosa e bonita, e a presença em palco foi também muito credível. Em esforço, no registo mais agudo, revelou alguma tendência para gritar, mas foi convincente e não mostrou cansaço vocal aparente, apesar do grande e difícil papel que lhe coube. Gostei, particularmente, da sua longa intervenção no 3º acto, após a morte de Siegfried “Starke Scheite schichtet mir dort...”

Stefan Vinke, tenor alemão, foi um excelente Siegfired. Possuidor de uma voz forte e bela em toda a sua extensão, cantou com energia e segurança e teve também uma prestação cénica de grande qualidade.

O baixo americano James Moellenhoff foi um Hagen maléfico, de voz potente e acertiva e Alberich, seu pai, foi interpretado pelo baixo barítono austríaco Johann Werner Prein, um dos melhores da tarde, tanto cénica como vocalmente. Michael Vier, barítono alemão, foi um Gunther mediano e o soprano português Sónia Alcobaça fez uma Gutrune muito aceitável. O mezzo soprano alemão Julia Oesch foi a pior da tarde, a sua Waltraute não se ouvia. As três Nornas estiveram aquém do desejável e foram, respectivamente, Katja Boost, Maria Luísa de Freitas e Sara Andersson. As Filhas do Reno cumpriram e foram Chelsey Schill (Woglinde), Ana Franco (Wellgunde) e Luisa Francesconi (Flosshilde).

Um óptimo espectáculo que encerrou um Anel marcante em São Carlos.

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