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sábado, 16 de junho de 2018

LA TRAVIATA – Teatro de São Carlos, Lisboa / Lisbon, Junho / June 2018




(review in English below)


A opera La Traviata de Verdi encerrou a temporada do Teatro de São Carlos em Lisboa. Felizmente que se abandonou a concretização da nova produção (ao que se soube a Violeta seria um travesti com SIDA!) e se recuperou a encenação de Pier Luigi Pizzi, clássica, digna e que cumpre perfeitamente. Foi talvez a melhor encenação da temporada.

Já muito foi escrito neste espaço sobre esta ópera pelo que farei apenas um pequeno apontamento sobre os cantores e o público.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

A soprano russa Ekaterina Bakanova foi uma Violeta de excelente qualidade, muito acima dos restantes cantores e do melhor que se tem ouvido em São Carlos nos últimos tempos. Voz bonita, potente, sempre bem colocada e coloratura eficaz. A cantora tem uma figura que ajuda muito no papel, é alta e magra, embora no último acto mais parecia que estava a morrer com uma peritonite do que com tuberculose pulmonar (mas a culpa não foi dela). Esteve sempre bem, mas no 2º acto foi fabulosa!

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

O Alfredo foi o jovem tenor português Luís Gomes. O timbre vocal não é bonito, a figura também não ajuda, mas conseguiu cumprir com dignidade este grande papel, que será um marco na sua carreira.

O barítono britânico Alan Opie não esteve bem. Foi irregular na emissão, parecia perder o controlo vocal com frequência, a voz foi excessivamente nasalada e, ocasionalmente, tinha muito “grão”.

Dos cantores secundários, destacaria a boa prestação de Carolina Figueiredo como Annina. Os restantes cumpriram sem deslumbrar,  João Merino como Marquês d’Obigny, João Oliveira como Dr. Grenvil e Joana Seara como Flora. Mário Redondo como Barão Douphol e João Cipriano como Gastone foram os mais apagados.

(fotografia do Teatro Nacional de São Carlos)

Uma nota final para o público, pelo menos no local onde estive. Para além das tosses contínuas, uma mulher sentada atrás de mim teve o telemóvel a vibrar durante grande parte do 2º Acto. Apesar de estar no silêncio, ouvia-se perfeitamente a vibração e ela nada fez, ou melhor, logo depois resolveu desembrulhar demoradamente um rebuçado, perturbando a audição de algumas das partes mais dramáticas da ópera. 
Tivemos ainda como surpresa adicional o maestro Michele Gamba a trautear a área Addio, del passato enquanto a Bakanova a cantava!
Não há paciência!!

***


LA TRAVIATA - Teatro de São Carlos, Lisbon, June 2018

Verdi's opera La Traviata closed the São Carlos Theater season in Lisbon. Fortunately, the new production announced was abandoned (in which Violeta was known to be a transvestite with AIDS!) and recovered the production by Pier Luigi Pizzi, classic, dignified and that perfectly fulfils the staging of the opera. It was perhaps the best staging of the season.

Much has already been written in this blog about this opera so I will only make a small note about the singers and the audience.

Russian soprano Ekaterina Bakanova was a Violet of excellent quality, far above the other singers and the best that has been heard in São Carlos in recent times. Beautiful powerful voice, always well tuned and effective coloratura. The singer has a figure who helps a lot in the role, she is tall and lean, although in the last act more seemed to be dying with a peritonitis than with pulmonary tuberculosis (but it was not her fault). She was always good, but in the 2nd act she was fabulous!

Alfredo was the young Portuguese tenor Luís Gomes. The vocal tone is not beautiful, the figure also does not help, but he managed to perform with dignity this big role, which will be a milestone in his career.

British baritone Alan Opie was not well. He was irregular in the vocal emission, seemed to lose vocal control frequently, the voice was excessively nasal and occasionally had much "grain".

Of the secondary singers, I would emphasize the good performance of Carolina Figueiredo as Annina. The rest performed without being dazzled, João Merino as Marquis d'Obigny, João Oliveira as Dr. Grenvil and Joana Seara as Flora. Mário Redondo as Baron Douphol and João Cipriano as Gastone were the most discreet.

A final note about the public, at least where I've been. In addition to the continuous coughs, a woman sitting behind me had the cell phone vibrate during much of the 2nd Act. Despite being in the silence, the vibration was heard perfectly, and she did nothing, or rather, she soon resolved to slowly unwrap a candy, disturbing the hearing of some of the most dramatic parts of the opera. We also had as an additional surprise maestro Michele Gamba treading the area Addio, del passato while Bakanova was singing!
There is no more patience !!

***

domingo, 12 de março de 2017

TRISTAN UND ISOLDE – Centro Cultural de Belém, 09-01-2017


Assisti, no dia 9, à primeira das duas récitas do “Tristan und Isolde”, inseridas na temporada lírica de 2016/2017 do Teatro Nacional de São Carlos.
A récita teve lugar no Centro Cultural de Belém e repete no dia 12, pelas 15 horas.
As expectativas eram elevadas, por um conjunto de factores, que enuncio sem preocupação de hierarquização.
Em primeiro lugar, por se tratar de uma das mais importantes óperas de todos os tempos, cuja novidade musical e conceptual constituiu um verdadeiro marco que serve de fronteira delimitadora do que veio antes e do que veio depois.
Em segundo lugar, porquanto já não era ouvida no TNSC, em versão encenada, desde Janeiro de 1985 (em 2003 foi apresentada em versão de concerto, sob a batuta de Zoltán Peskó, segundo informação constante do programa de sala), o que é um lapso temporal anormalmente longo para uma obra seminal na história da arte lírica.
Em terceiro lugar, porque contava com a Isolde de Elisabete Matos, estrela maior do panorama lírico português e internacional.
Em quarto lugar, porque é uma das óperas do meu top 5.
Embora com menor grau de importância, também tinha alguma curiosidade em perceber como funcionaria uma ópera no CCB.



A encenação
Nesta produção, a encenação e cenografia estiveram a cargo de Charles Edwards, com figurinos de Susan Willmington e desenho de luz de Giuseppe Di Iorio.
Trata-se de uma nova produção do TNCS, em parceria com o CCB, como informa o programa de sala.
Embora toda a cenografia e figurinos tendam para uma dimensão abstracta, a encenação é bastante fiel à narrativa, não pretendendo apresentar uma visão alternativa e muito menos subversiva do significado primário do drama. Ao invés, toda ela assenta na oposição permanente entre a luz e a escuridão, entre o dia e a noite, que constitui um dos elementos centrais do discurso dos amantes, aqui corporizada em cenários onde as zonas brancas e as zonas pretas se encontravam estritamente delimitadas, embora confinantes.
Contraste que se prolongou nas indumentárias de Isolde e Tristan: ela sempre de negro e ele essencialmente de branco (excepto quando enverga o casaco da marinha). A quebrar essa dicotomia, apenas um lenço verde de Isolde, suponho que numa alusão às suas origens irlandesas.
No 1º acto vemos o interior do barco, num corte longitudinal. Isolde e Brangäne no lado esquerdo, numa zona toda ela branca, pontuada pela presença de inúmeras cadeiras encostadas às paredes e dispersas pelo espaço (o que me fez lembrar o cenário do Café Müller, de Pina Bausch). Na parede, uma escotilha permitindo ver o mar. No centro do espaço, um esquife em madeira tosca, transmitindo, penso, a ideia de um barco que conduz Isolde em direcção à sua morte. Separado por uma parede transversal com uma porta, o lado direito do barco, todo em preto, o escritório de Tristan, onde este, em mangas de camisa branca e numa postura algo titubeante, aguarda sentado à frente de uma secretária coberta de papéis soltos, simbolizando talvez a confusão e desordem em que os seus sentimentos se encontram.
Em cima da linha divisória entre as zonas branca e preta, o baú contendo os filtros, designadamente a poção da morte e a do amor. Poção esta que irá desencadear a tensão entre esses dois mundos e que permitirá o seu franqueamento pelos amantes.

No 2º acto, mantém-se a estrita demarcação entre as zonas branca e preta, embora agora sem a parede divisória. Aparentemente, os amantes já ultrapassaram uma das barreiras que os separavam, embora ainda subsista uma zona de fronteira, a da não consumação do amor, representada por uma faixa de luz branca e pura, engenhosamente desenhada pelo jogo de luzes.
Pela abertura redonda, que antes serviu de escotilha do barco, vemos agora o negrume da noite. Durante o dueto de amor, por passam Melot e o Rei Marke, ilustrando os avisos de Brangäne.
Aspecto que me pareceu menos bem conseguido foi a harpa irlandesa que Tristan indolentemente dedilha enquanto Brangäne adverte os amantes, que me pareceu não trazer nada de novo e não desempenhar qualquer função útil.
Um outro aspecto me suscitou, durante a récita, alguma perplexidade: o traçar de uma cruz na parede por Isolde, debaixo da qual os amantes se juntam durante a parte final do dueto. A evidente referência cristã pareceu-me algo deslocada na altura. Todavia, depois de ter reflectido um pouco sobre o assunto e na sequência da leitura do interessantíssimo texto de Yvette Centeno, constante do programa de sala, creio ter aí percebido a subtil referência às feridas de Tristan (a primeira, desferida por Morold, a segunda por Melot), que marcaram o primeiro encontro dos amantes e, a final, a morte deste e a sua separação em vida, e a ferida de Cristo na cruz, produzida pela lança de Longinus.



No terceiro acto, o cenário manteve a tónica da oposição entre o branco e o preto. Tristan, deitado no sofá onde os amantes haviam cantado o dueto de amor do acto precedente, agoniza envolto no manto verde de Isolde, manchado de sangue. Sofá que se encontra colocado em cima de uma superfície branca, como que a simbolizar a luz do dia que continua a cercar o herói ferido e caído. O restante palco é todo negro, pontuado apenas por uma cadeira ao fundo onde o pastor irá ficar sentado, vigiando o mar. À direita, um compartimento, em cuja parede negra se podem ler, traçadas a vermelho, como que com sangue, diversas palavras que ecoam ao longo de toda a ópera: liebe, licht, weise, ewig, tod, wahn, sehnen, Isolde, pein, Vater+Mutter. No seu interior, a porta que lhe dá acesso caída no chão, por cima de uma estátua de uma santa (Maria?), cujo significado me pareceu ambíguo. Representaria a transcendência e a pureza do amor? a consumação isenta de pecado? Ou, ao invés, a apologia de um amor integral, através da negação da mulher enquanto simples objecto de adoração, aqui representado por uma estátua caída e quebrada? Confesso que não consegui chegar a nenhuma conclusão.
No final, o encenador opta por um Liebestod que, mais do que a morte de Isolde, é o momento do encontro extra-terreno dos amantes, após a sua morte.

Em suma: uma encenação que, não sendo original nem pretendendo contribuir interpretativamente para uma nova visão da obra, serviu fielmente a música e a acção dramática, sem prescindir de alguns elementos interessantes a suscitar a reflexão do público.



A direcção musical
A Orquestra Sinfónica Portuguesa foi dirigida por Graeme Jenkins.
Num tempo bastante lento, a orquestra começou um pouco titubeante e com os naipes orquestrais algo desgarrados. Com o avançar da obra, porém, o desempenho orquestral foi subindo de nível, sendo de destacar a notável intervenção do corne inglês no início do 3º acto, que esteve perfeito.
Não posso dizer que tenha ficado muito impressionado com a prestação do maestro, que me pareceu rotineira e pouco inspirada. Para além de ter permitido alguns excessos dinâmicos nos metais, a submergir completamente as vozes dos cantores, o principal “pecado” que senti foi o pouco envolvimento emocional da orquestra, a pouca incandescência, a frequente quebra de tensão dramática.



Os cantores
Elisabete Matos é a grande cabeça-de-cartaz desta nova produção e creio que justificadamente. Creio que esta foi a melhor prestação que lhe ouvi, com envolvimento dramático muito bem conseguido, espelhando perfeitamente todo leque de emoções que atravessam a personagem. Não senti, da mesma forma que em ocasiões anteriores, problemas de vibrato demasiado largo. A voz esteve sempre focada, segura no registo mais grave e com assinalável facilidade no registo agudo, embora ocasionalmente com alguma estridência e dureza nos picos.



Embora cenicamente não tenha gostado muito da opção do liebestod (não da ideia, mas da concretização, em especial por estarem ambos sentados no sofá), Elisabete Matos esteve bastante bem, com controlo emocional forte e acentuando mais a componente de êxtase e de transfiguração do que a dimensão orgástica desse momento culminante de toda a ópera.



Não conhecia o tenor norte-americano Erin Caves, que foi uma excelente descoberta. O papel de Tristan é quase sobre-humano e exige não só uma excelente técnica vocal, como uma inteligente gestão do esforço e da voz. Exibiu um timbre sonoro, claro, límpido, com boa projecção vocal e assinalável potência. Não se poupou excessivamente no dueto de amor (notando-se até uma pequena falha da emissão na sua parte final), o que me causou alguma apreensão sobre como iria decorrer o 3º acto. Todavia, levou de vencida essa dura prova em bom nível, apenas se notando já um cansaço evidente da voz a partir do O diese Sonne!



O baixo islandês Kristinn Sigmundsson esteve excelente. A sua voz é profunda, cheia e ressonante, de sonoridade nobre; a sua figura gigantesca e imponente adequa-se perfeitamente ao papel do Rei Marke. No longo monólogo do 2º acto, em que surgiu como uma figura fragilizada, em robe de chambre e de pantufas, a sua voz soou marcada pelo azedume, pelo ressentimento, com inflexões irónicas. Não foi o Rei Marke magoado mas nobre e contido que por vezes se ouve noutras interpretações; essa vertente surgiu, sim, na sua intervenção do final do 3º acto, onde a dor se fez sentir, mas sem perda de gravidade.



O papel de Brangäne foi interpretado pela meio-soprano australiana Catherine Carby. A sua voz soou quente e texturada, fazendo um interessante contraste com Elisabete Matos. Sempre envolvida dramaticamente, cantando com dinamismo, teve o seu momento mais alto, na minha opinião, na primeira intervenção admonitória durante o dueto de amor (Einsam wachend in der Nacht), que soou etérea.



Luís Rodrigues foi um Kurwenal generoso e caloroso. Para mim, Luís Rodrigues é um cantor extremamente sólido e polivalente, sendo sempre garantia de alta qualidade artística. E mais uma vez o demonstrou. No 1º acto foi adequadamente “provocador” sem ser chocarreiro; no 3º acto foi lírico e desesperado, culminando no seu suicídio com a espada de Tristan. A voz foi sempre muito bem projectada e audível e a prestação cénica impecável.



Marco Alves dos Santos cantou adequadamente o antipático papel de Melot, o mesmo se podendo dizer das intervenções de João Terleira como pastor e João Oliveira como timoneiro.



Uma nota negativa para o grande auditório do CCB: estando eu no 1º balcão, senti de forma anormalmente alta um ruído de fundo permanente e intrusivo, suponho que do ar condicionado ou de sistema de arrefecimento dos projectores. Creio que é injustificável um tal nível de ruído.
Também me pareceu uma má opção a realização de um intervalo de uma hora entre o 2º e o 3º acto, por ser excessivamente longo, quebrando a unidade da obra e atirando o seu final para muito tarde, em especial num dia de semana.



Em suma, na minha opinião foi uma récita de qualidade artística bastante elevada e que valorizou a presente temporada do Teatro Nacional de São Carlos.

domingo, 7 de junho de 2015

THE RAKE'S PROGRESS - A Carreira do Libertino, Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2015


 Texto de José António Miranda, um colaborador regular deste espaço, que faz o contraponto ao texto anteriormente publicado pelo Fanático_Um e que, mais uma vez, muito agradecemos.

THE RAKE'S PROGRESS - A Carreira do Libertino, Ópera em três Actos (1951) de Igor Stravinsky. Libreto W.H. Auden e Chester Kalman, inspirado em A Carreira do Libertino, conjunto de oito pinturas e gravuras, de William Hogarth.
Direcção musical: Joana Carneiro. Encenação: Rui Horta. Cenografia: Rui Horta. Luz: Rui Horta. Roupas: Pepe Corzo.
Tom Rakewell: Tuomas Katajala
Anne Truelove: Ambur Braid
Nick Shadow: Luís Rodrigues
Baba, a turca: Maria Luísa de Freitas
Truelove, pai de Anne: Nuno Dias
Sellem, o leiloeiro: Carlos Guilherme
Mother Goose: Catia Moreso
Guardião do Hospício: João Oliveira
Orquestra Sinfónica Portuguesa
Coro do Teatro Nacional de São Carlos (Dir: Giovanni Andreoli)
Contínuo: Joana David (cravo)
Produção: TNSC  (2015)

Fotografia de Carmo Sousa / TNSC

Afinal parece que é ainda possível ver no São Carlos uma nova produção de autores nacionais perfeitamente aceitável, e de qualidade mesmo muito superior à de algumas produções importadas, e de má memória, com que fomos brindados nos últimos tempos.

O facto de a equipa responsável por tal programação não estar já em actividade no teatro (em rodapé de uma das páginas iniciais, e num corpo minúsculo, a administração da OPART ""agradece a Paolo Pinamonti o contributo criativo para este espetáculo"), não impediu o espectáculo de encerrar do melhor modo a presente temporada

Aquele facto no entanto deixa-nos todavia mais apreensivos em relação ao próximo futuro do nosso teatro de ópera, provavelmente o único de uma capital europeia do qual ainda se desconhece totalmente a programação para a próxima temporada. Mas isso é outra conversa.

Quanto ao espectáculo em si serviria, se tal fosse necessário, para fazer a demonstração de que é possível conceber uma produção operática de qualidade sem grandes recursos.

                                 Fotografia de Carmo Sousa / TNSC

Através da utilização de uma cenografia singela mas plena de potencialidades expressivas (um estrado em cunha, truncado, permitindo múltiplas configurações e usos, uma mesa e duas cadeiras minimalistas e polivalentes, duas árvores, um tapete, algumas grades e pouco mais) o encenador Rui Horta consegue conduzir-nos com prazer pelos variados ambientes nos quais decorre a acção.

Para tal, e para além de algumas projecções de imagens no fundo do palco, indicativas de local ou de ambiente, usa inteligentemente dois recursos: a luz e a coreografia.
No respeitante ao primeiro, o desenho da iluminação, importa referir que marca um progresso notável em relação ao que é habitual ver neste palco. Percebe-se que o encenador quis usar este recurso como ferramenta expressiva, ao contrário do que estamos habituados a ver ali, onde a luz é frequentemente usada apenas para nos permitir ver (e muitas vezes mal) o que se passa em palco.

                                        Fotografia de Carmo Sousa / TNSC

Esta determinação de integrar a luz no leque de recursos expressivos disponíveis é tanto mais necessária quanto maior o minimalismo cenográfico adoptado.

De facto a opção minimalista comporta o risco de deixar as situações encenadas apenas em esboço, como apontamentos visuais sem profundidade nem consistência. E a luz é então um dos principais recursos ao dispor do encenador inteligente para ultrapassar este problema.

Percebe-se e louva-se portanto que Rui Horta tenha querido usá-la adequadamente, mas também se compreende que, não tendo ao seu dispor um verdadeiro técnico de iluminação e não o sendo ele próprio, o resultado não seja perfeito e revele ainda alguma imaturidade e inabilidade.

                                 Fotografia de Carmo Sousa / TNSC

Apesar dessa inabilidade, particularmente evidente no modo como foram feitas algumas transições entre quadros, e de alguns desacertos reveladores de deficiente concepção da funcionalidade expressiva, como na cena final do terceiro acto, pudemos presenciar alguns momentos de grande beleza plástica e densidade dramática.

Quanto à coreografia a situação é diversa. Rui Horta é acima de tudo um coreógrafo, e isso foi evidente em todos os momentos do espectáculo.

Com grande mestria conceptual e técnica o encenador faz evoluir no palco (e não só, pois o coro é colocado por momentos fora dele) todos os personagens, desde o protagonista principal até ao último elemento do coro, e mesmo os movimentos dos assistentes de palco na mudança e deslocação de adereços são coreografados.
Embora esta última opção possa parecer desadequada, ela introduz de facto no conjunto do espectáculo um carácter cerimonial que não é incompatível com o facto de este ser constituído pela exposição de um conjunto de quadros.

                                Fotografia de Carmo Sousa / TNSC

A ópera é de facto o retrato em cena de um conjunto de gravuras que serviram de inspiração para os seus autores. Imprimindo à exposição cénica dessas imagens alguma solenidade cerimonial, o encenador coloca-nos assim em sintonia com a natureza formal da partitura, um permanente piscar de olho ao classicismo, ao mesmo tempo assimilado e distorcido.

O movimento dos assistentes de palco pode assim ser lido como metáfora imagética dessa opção do compositor: os criados também dançam de algum modo neste teatro clássico da vida moderna.

Quanto aos restantes protagonistas, a exploração sistemática do espaço é feita com grande poder expressivo, atingindo-se mesmo por vezes momentos de grande beleza plástica e poética, como na sublime viagem de Anne ao encontro de Adónis na mesa transformada em gôndola sob o comando tranquilo de Truelove.

                                 Fotografia de Carmo Sousa / TNSC

Já no que se refere ao terceiro recurso fundamental num contexto de encenação como este, o trabalho com os actores, a situação não foi tão positiva.
Tudo se passa como se não tivesse sido feito com os cantores qualquer trabalho de definição do registo expressivo adequado ao contexto cénico desenhado. E portanto, como é normal, eles terão feito consciente ou inconscientemente a sua opção subjectiva.

Se no caso de Luís Rodrigues essa opção é coerente conferindo ao personagem de Shadow um peso e uma densidade dramática acima de todos os outros, de facto o conjunto mostra uma inconsistência global que impede genericamente o desenvolvimento de qualquer tipo de discurso organizado e coerente. Facto aliás consistente como o modo como foi feita a direcção musical, num estrebuchar alado de marcação de compassos, um estertor mecanicista que chegou ao extremo de se manter nos recitativos, sem qualquer subtileza expressiva ou profundidade narrativa.

Apesar destes problemas de unidade discursiva, de que a recepção do Epílogo pelo público foi um mero indicador, o espectáculo constituiu sem dúvida um marco francamente positivo na presente temporada do teatro lírico nacional.

José António Miranda     05/06/2015  

Escrito em português. Acordo ortográfico não, por favor.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

THE RAKE’S PROGRESS, Teatro de São Carlos, Maio 2015



(review in English below)

O Teatro de São Carlos encerrou a temporada operática com The Rake’s Progress de Igor Stravinsky, numa nova produção encenada por Rui Horta.

É uma ópera de que não gosto e, mais uma vez, não consegui tirar prazer como espectador. A encenação é bem conseguida, simples, vistosa (pelos figurinos) e bizarra como o libreto, tirando também partido do camarote real do teatro.

Joana Carneiro dirigiu com elevação a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro de São Carlos esteve sempre bem. Os solistas foram de qualidade. O tenor Tuomas Katajala foi um Tom Rakewell com presença cénica aceitável mas voz afinada e bem audível ao longo de toda a récita. O soprano Ambur Braid interpretou Anne Truelove com classe, embora pouco audível no registo mais baixo. Luís Rodrigues foi o melhor intérprete da récita, oferecendo-nos um Nick Shadow diabólico, vocalmente irrepreensível e sensacional. Maria Luísa de Freitas como Baba, apesar da caracterização ridícula,  teve uma óptima presença cénica, que fez esquecer algumas falhas na afinação. Também estiveram bem Nuno Dias como pai Truelove, Carlos Guilherme como Sellem, Cátia Moreso como Mother Goose e João Oliveira como guardião do hospício.

Mas, repito, é uma ópera de que não gosto e, mais uma vez, assim foi.

***


THE RAKE'S PROGRESS, Teatro São Carlos, Lisbon, May 2015

Teatro São Carlos ended the season with the opera The Rake's Progress by Igor Stravinsky in a new production directed by Rui Horta.

It's an opera that I do not like and, once again, I could not take pleasure as a spectator. The staging is simple, showy (the costumes) and bizarre as the libretto, also taking advantage of the royal theater box.

Joana Carneiro brought quality to the Portuguese Symphony Orchestra and the São Carlos Theatre Choir. The soloists were all good. Tenor Tuomas Katajala was a Tom Rakewell with good scenic and vocal presence, always revealing a finely tuned and well audible voice. Soprano Ambur Braid played Anne Truelove with class. Luís Rodrigues was the best performer of the performance, offering us a diabolical and vocally faultless Nick Shadow. Also well were Maria Luisa de Freitas as Baba (despite the ridiculous characterization), Nuno Dias as father Truelove, Carlos Guilherme as Sellem, Catia Moreso as Mother Goose and João Oliveira as the hospice guardian.

But, I repeat, it is an opera that do not like and once again, that was the case.


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