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terça-feira, 6 de junho de 2017

PETER GRIMES – Teatro de São Carlos, Lisboa, Junho de 2017



De José António Miranda, mais um texto rigoroso e lúcido, como nos habituou: 

PETER GRIMES   (Benjamin Britten)

Ópera em três Actos, um Prólogo e um Epílogo   (Londres, Sadler’s Wells, 1945)

Libreto de Montagu Slater segundo o poema The Burrough, de George Crabbs

    Direcção musical: Graeme Jenkins
    Encenação: David Alden
    Cenografia: Paul Steinberg
    Roupas: Brigitte Reiffenstuel
    Luz: Adam Silverman
    Coreografia: Maxine Braham
    Responsável pela reposição: Ian Rutherford
    Peter Grimes: John Graham-Hall
    Ellen Orford: Emily Newton
    Balstrode : Jonathan Summers
    Auntie: Rebecca de Pont Davies
    Primeira Sobrinha: Bárbara Barradas
    Segunda Sobrinha: Mariana Castello-Branco
    Bob Boles: James Kryshak
    Swallow: Graeme Danby
    Mrs. Sedley: Maria Luísa de Freitas
    Reverendo Horace Adams: Carlos Guilherme
    Ned Keene: João Merino
    Hobson: Nuno Dias
    Orquestra Sinfónica Portuguesa
    Coro do Teatro Nacional de São Carlos   Dir: Giovanni Andreoli
    Produção: English National Opera ENO (Londres 2013)
    Co-produção: Vlaamse Opera (Gand/Antuérpia); Ópera de Oviedo; Deutsche Oper (Berlim).


A história de Peter Grimes é um exorcismo da opressão: mistura de ode ao carácter opressivo da insularidade britânica cruzado com a natureza também opressiva das pequenas comunidades em relação a tudo o que é diferente. O mar e o álcool são portanto os ingredientes maiores desta tragédia em que tudo se desenrola num contexto de marcada nostalgia cuja poesia intrínseca a música de Britten tão generosamente expõe.

A esta realidade factual David Alden sobrepõe inteligentemente um segundo nível de leitura, supostamente mais profundo. Nesse segundo nível as motivações do inconsciente e os mecanismos ocultos dos personagens e seus contextos são cruamente expostos no quadro conceptual de uma psicanálise de pacotilha.

Mas para o sucesso de uma proposta intelectualmente tão aliciante, aliás atributo frequente do trabalho deste encenador, seria necessário que o trabalho dramatúrgico se traduzisse na criação de um verdadeiro espaço teatral único, que é muito mais do que o simples efeito da manutenção de uma cenografia homogénea e coerente ao longo da obra.

E se é claro que aquela criação poderá ter sido a intenção do encenador, a evidência que nos foi dada é que esta solução cenográfica, que deveria servir para o aprofundamento da vivência dos conflitos e problemas que nos são apresentados no libreto, não resulta sob tal perspectiva.

É certo que estivemos a ver uma produção que nos chega pela mão de Ian Rutherford, e na qual portanto a participação directa do encenador não terá existido. Mas se esta circunstância pode ajudar a justificar alguns problemas menores, ela não chega para explicar o sucedido.


De facto, para a criação de um espaço teatral único seria necessário que tivesse sido conseguida a fusão dos dois níveis de leitura, o realista suportado nas palavras e nas notas da obra escrita, e o fantástico idealmente decorrente da análise desses elementos, pelas opções dramatúrgicas e plásticas da encenação.

Tal não sucedeu porém aqui, e o resultado deste exclusivo trabalho a nível da cenografia fez aparecer no final o conjunto como uma proposta esquizofrénica, em que alguns momentos de intenso realismo, como a cena terminal, contrastam violentamente com outros de perfeito delírio surrealista, sem que seja possível estabelecer entre ambos um nexo de associação ou de causalidade que de algum modo os unifique e lhes confira alguma coerência.

Sinais desta duplicidade são por exemplo os momentos histriónicos do coro, globalmente muito bem trabalhado na excelente coreografia de Maxine Braham, mas deixado a nível individual ao bom critério dos coralistas, disso resultando momentos contraditórios e mesmo ridículos, ou ainda a géstica marionetista das duas sobrinhas nas cenas de realismo, resquícios do seu comportamento nos momentos de desmando surreal.

Como acontece com frequência uma ideia brilhante acaba aqui por ser desbaratada na sua operacionalização devido à ausência de uma unidade conceptual estilística. Trata-se portanto de um problema que é intrínseco a esta proposta global de David Alden, sendo aliás recorrente no percurso profissional deste encenador.

Curiosamente a orquestra demonstrou idêntico comportamento esquizofrénico, desta vez não por culpa da direcção de Graeme Jenkins, muitíssimo empenhada, mas sim como claro resultado da sua impreparação para a tarefa expressiva, consequência da sua inexistência virtual enquanto agrupamento sinfónico.

Não há milagres, e todos sabemos que um conjunto de instrumentistas, mesmo recheado de óptimos executantes, não é sinónimo de uma orquestra. A música de Britten surgiu assim como um puzzle mal montado, em que as várias peças foram justapostas mas sem o cuidado necessário para que as junções se tornem invisíveis ao primeiro olhar: a ondulação do mar, omnipresente no tecido sonoro, esteve ausente.

Se este desempenho não foi problemático na sucessão da diversidade estilística da ópera, e se os momentos de tempestade ou furor puderam soar apesar de tudo aceitáveis, foi deplorável ver como os esforços do director nos momentos de mais intenso lirismo não conseguiram qualquer tradução a nível do som.

Em aparente contraste com este problema, o desempenho global no que respeita às vozes foi um dos pontos positivos do espectáculo.

O coro, quiçá como resultado colateral do trabalho coreográfico que lhe foi exigido, emergiu da rotina funcionária em que tem estado mergulhado e ofereceu-nos alguns momentos de grande qualidade. Quanto aos cantores, deve realçar-se a grande segurança e à vontade de Bárbara Barradas, muito melhor tecnicamente do que em prestações anteriores, e em vias de se tornar uma das principais intérpretes líricas nacionais.

Já no respeitante ao desempenho dramático não poderá dizer-se o mesmo: os gestos estiveram todos lá, mas tudo soou dramaticamente como um postiço, sem profundidade, revelando um trabalho de actores inexistente ou insuficiente.



Em todo o caso porém, e sobretudo por servir para nos revelar de uma forma menos convencional uma obra pouco conhecida entre nós, o espectáculo pode considerar-se como uma pedra positiva no percurso final do desolador jardim da temporada que agora termina.


JAM    06/06/2017

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OTELLO na English National Opera de Londres — Outubro de 2014

(Text in English below)


Confesso que a ideia de ver uma das minhas óperas favoritas cantada em inglês me faz confusão. Ainda assim, aproveitando uma estada em Londres e aguçado pela curiosidade — o wagner-fanatic já vira e comentara positivamente algumas récitas na ENO, nomeadamente uma Parsifal — aproveitei, numa decisão de última hora, para me estrear na English National Opera, palco em que as óperas são sempre apresentadas em inglês.

O Coliseu de Londres é uma sala claramente inferior à da Royal Opera House, não só no que respeita à dimensão, mas, sobretudo, à decoração, estando cheia de elementos romanos, por vezes de gosto mais discutível. Mas é bem imponente. Também o público-alvo parece ser bem diferente: é mais jovem e mais britânico. E notam-se outros pormenores diferenciadores: por exemplo, pode entrar-se a beber um vinho tinto adocicado ou uma cerveja.

Assisti ao Otello de Verdi: para mim uma das mais espectaculares óperas do maestro italiano e cujo libreto baseado na peça de Shakespeare tem interesse poético, dramático e clínico, tendo dado nome a uma perturbação mental — síndrome de Otelo ou delírio de ciúme.


Mas confesso que saí de lá muito surpreendido pela qualidade global tão elevada. A tradução para inglês esteve a cargo de Tom Philips e conseguiu não só manter o conteúdo muito fidedigno, como soube pôr a língua inglesa ao serviço da partitura de Verdi sem deturpar, de modo algum, as linhas melódicas do original italiano.


A encenação foi de David Alden num nova produção co-produzida com a Royal Swedish Opera e o Teatro Real de Madrid. Traz a acção para os anos 40 sem que, todavia, desvirtue demasiado o cenário pós-triunfo bélico do original. Mas nada acrescenta do ponto de vista interpretativo que justifique essa opção. De resto, nada acrescenta em termos cénicos e é até um pouco estática e amorfa. Limita-se a cumprir.

A condução da orquestra esteve a cargo de Edward Gardner e cumpriu bem, sem que todavia tenha sido uma interpretação superlativa: faltou um pouco de tensão dramática.


Stuart Skelton foi um Otello de bom nível. Tem uma voz potente com agudos que saem fáceis e com uma projecção sem défices. Cenicamente é um pouco mais estático, mas cumpriu de forma convincente. Foi, pois, um Otello de muita qualidade.


Iago foi interpretado pelo barítono Jonathan Summers. Tem um timbre bonito e agradável e uma voz com uma técnica muito segura que soube usar para nos transmitir a maldade intrínseca desta personagem negra. Teve, igualmente, uma prestação cénica de nível elevado.


Leah Crocetto foi uma Desdemona vocalmente de nível muito elevado. Tem uma voz com uma potência rara que se fazia ouvir claramente sobre a orquestra e com agudos estratosféricos. Mas também uma subtileza que lhe permitiu brilhar no Salce, salce! (não me recordo do inglês...). Cenicamente, dada a sua evidente obesidade, foi estática e não jogava bem com o texto. Mas isso é um pormenor (passe o paradoxo de grandeza). Vocalmente foi óptima!

Os restantes personagens cumpriram bem com os seus papéis. Cassio foi Allan Clayton. Roderigo foi Peter van Hulle. Ludovico foi Barbaby Rea. Montano foi Charles Johnston. Emilia foi Pamela Helen Stephen.

Apesar de não ter a beleza da versão original italiana, foi uma récita de qualidade elevada e uma experiência interessante que futuramente deixa espaço à repetição.

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(Text in English)

I confess that the idea of seeing one of my favourite operas sung in English makes me confused. Still, enjoying a stay in London and sharpened by curiosity - wagner-fanatic had seen and positively commented some recitals in ENO, including Parsifal - I took in a last minute decision to debut in English National Opera on which operas are always staged in English.

The London Coliseum is a clearly inferior to the Royal Opera House hall, not only regarding size, but above all regarding decoration that is full of Roman elements sometimes being  more debatable. But it is quite imposing. Also the audience seems to be quite different: it is younger and more British. And notice to other differentiating details: for example, you can get in drinking a sweet red wine or beer.

I attended the Verdi's Otello: for me one of the most spectacular operas of Italian master and whose libretto based on Shakespeare's play is poetic, dramatic and of clinical interest had given name to a mental disorder - Othello syndrome or jealousy delusion.

But I confess that got out of there very surprised by such a high overall quality. The English translation was made by Tom Philips and managed to not only keeping content very trusted, but also putting English language in the service of Verdi's score without misrepresent in any way, the melodic lines of the Italian original.

The staging by David Alden in a new co-production produced with the Royal Swedish Opera and the Teatro Real in Madrid brings the action to 40 's without, however, distorts the post-war triumph ambience of the original. But adds nothing to the interpretive point of view to justify this option. Moreover, adds nothing in scenic terms and is even a bit static and amorphous. It merely comply.


Conducting the orchestra was Edward Gardner performing well, but shall not have been a superlative interpretation: missed a bit of dramatic tension.

Stuart Skelton was a good level Otello. He has a powerful voice with highs coming out easily and with a projection without deficits. Scenically was a bit static, but fulfilled convincingly. He was therefore an Otello of high quality.

Iago was interpreted by the baritone Jonathan Summers. He has a beautiful and pleasant tone and a voice with a very safe technique that knew how to use to broadcast on the intrinsic evil of this dark character. Had also a scenic performance of high level.

Leah Crocetto was vocally a very high level  Desdemona . She has a voice with a rare power that was clearly hear above the orchestra and stratospheric highs. But also a subtlety that allowed her to shine in Salce Salce! (I do not remember the English ...). Scenically, given her obvious obesity, was static and did not play well with the text. But that is a detail (passing a paradox of magnitude). Vocally was great!

The remaining characters complied well with their roles. Cassio was Allan Clayton. Roderigo was Peter van Hulle. Ludovico was Barbaby Rea. Montano was Charles Johnston. Emilia was Pamela Helen Stephen.

Despite not having the beauty of the Italian original version, it was a recitation of high quality and interesting experience that leaves room for future repetition.

domingo, 16 de março de 2014

WERTHER de Jules Massenet — MET Live in HD, FCG, 15.03.2014

(Review in English below)

 (www.gulbenkian.pt)

A ópera em quatro actos Werther de Jules Massenet (1842-1912) foi composta em 1887. O libreto é de Édouard Blau, Paul Milliet e Georges Hartmann e baseia-se no romance homónimo do escritor alemão do período romântico Johann Wolfgang von Goethe.

(www.wikipedia.com)

A obra de Goethe é um dos expoentes máximos do romantismo alemão. O texto é riquíssimo na abordagem que faz da natureza humana intimista; da sua alegria e tristeza; da paixão, do amor e do ódio; da esperança, da fé, do querer e do desespero que, por vezes, resvala para a doença mental. É o ser humano nas suas dimensões mais interiores, na sua relação consigo e com o outro próximo e na procura da ausência de solidão.

(www.wikipedia.com)

É disso que trata a ópera de Massenet. Como ópera do período romântico, e não fossem os compositores franceses os que talvez mais bem tenham exploraram essa corrente, é daquelas que tem sempre os sentimentos à flor da pele e em que a música e o texto se fundem num turbilhão arrebatado de emoções.

A adaptação do texto é de uma qualidade exemplar, não só pela forma como relata a história, como pela própria beleza poética, uma vez que cada frase se adapta na perfeição ao canto e às melodias, permitindo explorar vários registos, do mais lírico ao mais dramático.

Poderão ler uma sinopse aqui.

(internet)

Inicialmente, no primeiro acto cria-se o cenário propício a uma paixão arrebatada. Werther sente em plenitude os esplendores da natureza, o que fica bem patente na ária “Je ne sais si je veille ou si je rêve enconre!” que termina com um “et toi, soleil, veins m’inonder de tes rayons!”. Entretanto, surge Charlotte por quem se apaixona instantaneamente. Ao declarar-lhe o seu amor, surge, de imediato, um presságio trágico (“Je donnerais ma vie pour garder à jamais ces yeux”). Imediatamente a seguir, o pai de Charlotte anuncia o regresso do seu prometido Albert. Charlotte, já esquecida do que prometera à sua mãe, cai em si e Werther percebe que não terá Charlotte: “A ce serment... restez fidèle! Moi... j’en mourrai! Charlotte! Un autre! Son époux!”. Termina o 1.º acto.

(internet)

No segundo acto, Werther surge desesperado. Charlotte e Albert casaram e, assim, todo o seu ser chora (“tout mon être en pleure!”). Albert sugere-lhe que procure a felicidade, por exemplo, na alegria de Sophie. Mas Werther continua apaixonado por Charlotte, embora, por momentos, se tente, junto de Albert, convencer do contrário. Ao sentir que mentiu, crê  dever afastar-se, mas não consegue (“Partir? Non! Je ne veux que me rapprocher d’elle”). É Charlotte quem o afasta: o dever não cede ao desejo. E ele parte até ao Natal entre questões sobre a morte e Deus (“Et si la force m’abandonne... Ah! C’est moi pour toujours qui me reposerai!” e “Père, que je connais pas, en qui pourtant j’ai foi, parle à mon coeur, appelle-moi! Appelle moi! Appelle-moi!”). Albert apercebe-se, num claro contraste com o final do primeiro acto, que Werther ainda ama Charlotte (“Il l’aime!”).

(internet)

O terceiro acto começa com a leitura das cartas de Werther. Lê-se nelas a melancolia e o desejo do jovem, aos quais Charlotte não consegue ficar indiferente (“Ces lettres! Ah! Je les relis sans cesse...”). Werther está deprimido e só (“Je vous écris de ma petite chambre: au ciel gris et lourd de Décembre, pèse sur moi comme un linceul, et je suis seul! Seul! Toujours seul!”), antevendo-se o desejo de suicídio. Mais tarde, Werther regressa ante uma Charlotte dividida entre o amor e o desejo e o dever conjugal de fidelidade. Mas a sua moral é rígida e não cede. Werther lê os versos de Ossian que espelham a sua alma: soa a ária “Pourquoi me réveiller” onde se diz “Ils ne trouveront plus que deuil et que misère!”. Nisto, perdido, declara-se de novo, enquanto Charlotte pede a Deus que a proteja, pois teme ceder à tentação. Werther beija-a e ela diz-lhe, num Ah! agónico, que ele não mais a verá (“Vous ne me verrez plus!”). O terceiro acto acaba com uma declaração fúnebre, desesperada e de morte, naqueles que são, provavelmente, os mais trágicos versos da ópera: “Prends le deuil, ô nature! Nature! Ton fils, ton bien aimé, ton amant va mourrir! Emportant avec lui l’éternelle torture, ma tombe peut s’ouvrir!”. Werther condena a sua própria natureza. Depois, é Albert quem manda Charlotte, não sem que tal soe a castigo, entregar as suas próprias armas ao mensageiro de Werther que lhas pedira. Esta, desesperada, entrega-as “Dieu! Tu ne voudras pas que j’arrive trop tard!”. Será, pois, Charlotte quem, de alguma forma, fica responsabilizada por entregar à morte o seu amado, morte essa que acontecerá com as armas do seu próprio marido.

(internet)

No quarto acto, na noite de Natal, Werther jaz no seu quarto, depois de ter dado um tiro em si próprio. Chega Charlotte, ofegante, à sua procura. É tarde. Werther vai morrer. Charlotte sente-se culpada e, com a mão de Werther na sua, acompanha a sua agonia, entre declarações de amor mútuo que se fundem num beijo quente antes do sopro de vida final do suicida. Lá fora, soam as vozes joviais das crianças e de Sophie (“Noel! Noel! Noel!”, “Dieu permet d’être heureux!”). Cai o pano.

(internet)

A nova produção de Werther para o MET esteve a cargo do encenador Richard Eyre. Esta ópera obriga a um cenário pequeno, intimista e doméstico, que se centre na relação dual Werther-Charlotte e em que tudo o mais surja apenas como contexto. Penso que o consegue.

No primeiro acto, Eyre começa por introduzir a cena da morte da mãe de Charlotte com recurso a projecções de vídeo (por exemplo, as árvores a encherem-se de corvos aquando do enterro) que contextualiza a acção. Depois segue-se a transição para o 2.º acto com um baile.

(internet)

Não é que nenhuma destas cenas estejam nas indicações cénicas, mas permitem usar o prelúdio e o interlúdio como momentos narrativos, que, no meu ver, acrescentam beleza e enriquecem a encenação. A direcção de actores, nestes dois actos, pareceu-me, todavia, por vezes, demasiado impulsiva, tudo muito em de repentes... O cenário é também um pouco amplo de mais e há uma ponte no centro do palco que não faz qualquer sentido: não estabelece ligação entre nada e está lá apenas por estar. Não desempenha qualquer função na acção. Mais valia ter lá uma fonte ("cette source limpide").

Onde Eyre consegue estar sublime é a partir do 3.º acto. A sala está extremamente bem montada e decorada (de acordo com o libreto, embora provavelmente demasiado sumptuosa para uma casa rural) e cria um ambiente doméstico e acolhedor. Mas é o 4.º acto que é arrebatador. Werther surge no seu quarto: uma caixa acolhe o seu quarto, encolhe o cenário e avança sobre o palco. No interlúdio, vê-se Werther desesperado com a ideia da morte. O suicídio está prestes a consumar-se e Werther, de arma na mão, hesita. Ao pegar numa carta, ganha coragem e dispara sobre o peito: cai no leito, a luz apaga-se e a parede surge tingida de sangue, num pormenor extremamente bem conseguido do ponto de vista cénico. Aliás, toda esta cena é carregada de um dramatismo trágico arrepiante. A encenação foi, pois, um dos grandes atractivos da tarde. Podemos, sobretudo no final, encontrar muitas semelhanças com a encenação de 2004 para a ROH/Ópera de Paris de Benoît Jacquot, encenação essa, que em minha opinião, nada deve à de Eyre. Aliás, gosto mais da do francês. Mas são ambas excelentes.

(internet)

A direcção da Orquestra do MET esteve a cargo do maestro Alain Altinoglu. Esteve em excelente nível, com um bom tempo, a dar peso à orquestra quando necessário e a respeitar os cantores. A forma como explorou as diferentes colorações melódicas foi óptima. Interpretou muito bem Massenet!

Jonathan Summers (barítono) foi o pai de Charlotte. Gostei da sua postura, embora não especialmente da voz, mas cumpriu bem. Philip Cokorinos (baixo) e Tony Stevenson (tenor) fizeram o duo Johan e Schmidt: estiveram em bom plano vocal e cénico. O coro das crianças teve, igualmente, uma excelente performance.

(internet)

Lisette Oropesa (soprano) foi Sophie. A sua voz é jovem, fresca e melodiosa, com projecção fácil. A figura adequa-se ao papel de jovem irmã de Charlotte. Assumiu a postura naive que se espera e interpretou a personagem com muita qualidade cénica e vocal. Pena que o seu francês não sejam o mais perfeito, o que teria elevado a sua prestação a um patamar de excelência.

(internet)

David Bizic (barítono) foi Albert, marido de Charlotte. Gostei da sua postura cénica e da sua voz. Teve um bom desempenho, sem que, todavia, tenha deslumbrado.

(internet)

Sophie Koch (meio-soprano) foi Charlotte. É um dos papéis que marcam a sua carreira, pelo que lhe assentou na perfeição para a estreia, mais do que merecida, no palco americano. A sua voz é excelente e interpreta sublimemente a personagem Charlotte. Esteve em grande plano vocal no 3.º acto na leitura das cartas e a sua interpretação cénica foi muito convincente. Penso que será difícil, hoje em dia, encontrar melhor cantora/actriz para o papel!

(internet)

Deixo, propositadamente, para o fim, o tenor Jonas Kaufmann que interpretou Werther. Não compreendo os críticos que se deleitam a criticar o seu tom baritonal. Insistem nesta tecla, o que só poderei entender como inveja. É que as senhoras têm uma predileção especial por Kaufmann… O seu Werther foi a todos os níveis excepcional! Se no “Je ne sais si je veille”, ária de entrada de extrema dificuldade, não esteve perfeito, mas a partir daí foi imparável. Que dizer da forma como termina “Père, que je connais pas, en qui pourtant j’ai foi, parle à mon coeur, appelle-moi! Appelle moi!”? O terceiro appelle-moi foi incrivelmente bem interpretado. O seu “Pourquoi me reveiller” foi perfeito marcado por um longo aplauso. E o seu 4.º acto: foi inigualável. Cenicamente é um actor de excelência: gesto, postura, intensidade, mímica. Extremamente verosímil. Eyre comparou-o a Robert de Niro e Al Pacino (talvez exagere um bocadinho...). E o canto é perfeito. Ninguém nos dias de hoje, excepto Kaufmann, canta e interpreta daquela maneira. A forma como diz, tão melodiosamente, “et d’une douce larme, en son ombre tombée le mort”. A palavra larme dita por ele não me sai do ouvido. Enfim... Foi a interpretação da tarde e que privilégio temos nós todos de ser contemporâneos de Kaufmann! Não lhe tiro o chapéu apenas porque não uso…

Cena final: http://bcove.me/rkk5o7ed (vídeo dos 16 minutos finais de ontem que são disponibilizados, entre outros vídeos, no site do Met — www.metoperafamily.org. A não perder!)

Grande tarde de ópera!

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(Review in English)

Werther by Jules Massenet (1842-1912) is an opera in four acts composed in 1887. The libretto is by Édouard Blau, Paul Milliet and Georges Hartmann and is based on the homonymous novel by German writer of the romantic period Johann Wolfgang von Goethe.

Goethe's work is one of the foremost exponents of German Romanticism. The text is rich in intimate approach on human nature, with its joy and sorrow, passion, love and hatred, hope and faith, desire and despair that sometimes slips into mental illness. It is the human being in its most interior dimensions and their relationship with himself and with the other, and about the demand of the absence of loneliness.

That's what comes in Massenet's opera. As an opera of the Romantic period, and the French composers were those who best exploited this feeling, it is one that always has the extreme feelings reaching us and the music and text merge into a heady whirlwind of emotions.

The adaptation of the text is an exemplary quality, not only by the way tells the story, as the poetic beauty of its own, since each phrase fits perfectly into the corner and melodies, allowing to explore different registers, from the lyrical to more dramatic.

You can read a synopsis here.

The new production of Werther for the MET was in charge of director Richard Eyre. This opera requires a small, intimate, domestic setting, which focuses on the dual relationship Werther and Charlotte in which everything else arises only as context. I think Eyre did it.

In the first act, Eyre begins by introducing the scene of death of the mother of Charlotte with the use of video projections (e.g., the trees fill with ravens at the funeral) that contextualizes the action. Then follows the transition to the 2nd act with a dance. Note that none of the scenes are in the scenic indications, but they allow you to use the prelude and interlude as narrative moments, which, in my view, add beauty and enrich the scenario. The direction of actors, in these two first acts, seemed to me, however, sometimes too impulsive, all very in bursts... There is a bridge that I can’t understand why it is there: it does not link anything. Where Eyre can be sublime is from the 3rd act till the end. The room is extremely well fitted and decorated (according to the libretto, a little bit too expensive, perhaps) and creates a domestic and welcoming environment. But is 4th act that is stunning. Werther appears in his room: a box welcomes his room and shrinks the scene. In the interlude, Werther sees himself in despair at the idea of death. Suicide is about to be consumed and Werther, gun in hand, hesitates. He then pick a letter, get courage and shoots himself on his chest: he falls in bed dying, the light turns off and the wall comes tinged with blood, a detail extremely well done in a scenic viewpoint. This whole scene is loaded from a creepy tragic drama. The staging was therefore one of the major attractions of the afternoon. I, especially towards the end, find many similarities with the 2004 scenario for ROH/Paris Opera by Benoît Jacquot, this scenario, which in my opinion, being as good as Eyre’s or even better. But they both are excellent.

The direction of the MET Orchestra was in charge of conductor Alain Altinoglu. He did an excellent level conducting, with good tempo, giving weight to the orchestra when needed and respecting singers. The way he explored the different melodic coloration was great. Massenet played very well!

Jonathan Summers (baritone) was the father of Charlotte. I like his attitude, though not especially his voice, but he went well. Phiilip Cokorinos (bass) and Tony Stevenson (tenor) were Johan and Schmidt duo: they were at a good vocal and scenic plane. The choir of children also had an excellent performance.

Lisette Oropesa (soprano) was Sophie. Her voice is young, fresh and melodious with easy projection. The figure fits the role of younger sister of Charlotte. She took the naive stance that is expected and played the character scenic and vocally with quality. It is a pity her French is not the most perfect, which would have elevated her performance to a standard of excellence.

David Bizic (baritone) was Albert, husband of Charlotte. I like his scenic attitude and his voice. He performed well, without, however, dazzling.

Sophie Koch (mezzo-soprano) was Charlotte. It is one of the roles that mark her career, so it sat perfectly for the well-deserved premiere at the American opera stage. Her voice is great and she sublimely plays the role of Charlotte. She was in great voice plan 3rd act, reading Werther’s letters and her scenic interpretation was very convincing. I think it will be difficult, nowadays, to find a better singer/actress for the role!

I leave purposely tenor Jonas Kaufmann to end. He played Werther. I do not understand the critics who are always delighted criticizing his baritonal tone. They insist on this topic, which I can only understand as envy. The ladies have a special fondness for Kaufmann... His Werther was exceptional at all levels! If the "Je ne sais si je veille" entrance aria (of extreme difficulty) was not perfect, he was unstoppable from there. What about the way he ends "Père, que je connais pas, en qui pourtant j’ai foi, parle à mon coeur, appelle-moi! Appelle moi!”? The third appelle-moi was incredibly well played. His "Pourquoi me reveiller" was perfect. And what about his 4th act? He has no parallel. Scenically he is an actor par excellence: gesture, posture, strength, mime. He is extremely true. Eyre compared him to Robert de Niro and Al Pacino (perhaps Eyre exaggerated a little, but...). And the way he sung is perfect. Nobody these days, except Kaufmann, sing and play that way. The way he says, so melodiously, et d’une douce larme, en son ombre tombée le mort. The word larme said the way he did it not get out of my ears. Anyway... It was the interpretation of the afternoon and we all have the privilege of being Kaufmann contemporaries!


Great afternoon of opera!