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segunda-feira, 10 de junho de 2019

IOLANTA, METropolitan Opera, Nova Iorque / New York, Fevereiro / February 2019


(Fotografia / Photo: Marty Sohl, Metropolitan Opera)

(review in English below)

A ópera Iolanta de P.I. Tchaikovsky esteve mais uma vez em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque. Não conhecia a encenação de Mariusz Trelinsky. É muito agradável e espectacular. Há um cubo central, rotativo, onde fica o quarto da Iolanta, a princesa cega, decorado como um pavilhão de caça. Na única parede visível estão pregados vários chifres de veados. Ao centro a cama ou uma pequena mesa. À volta é uma floresta onde, logo no início, são projectadas imagens de veados a pastar, correr e a serem caçados. Toda a acção se passa dentro do quarto e na floresta circundante.



O maestro Henrik Nánási esteve muito bem, com grande atenção aos cantores e extraindo um belo som da magnífica orquestra da Metropolitan Opera. O coro também foi bom, apesar da curta intervenção.




Quanto aos cantores houve alguma heterogeneidade. Na protagonista a soprano búlgara Sonya Yoncheva foi magnífica. É outra cantora de topo mundial, com uma voz lindíssima e cristalina, agudos fantásticos e com uma excelente presença em palco.



O Conde Gottfried Vaudémont foi o tenor americano Matthew Polenzani que também esteve em grande forma, numa interpretação vocal marcante. É também detentor de um timbre muito bonito e foi sempre bem audível.



O barítono norte-americano Lucas Meacham fez um Robert de qualidade, sobretudo na primeira intervenção. Tem também uma voz potente e foi muito ovacionado neste que é talvez o grande teatro de ópera onde o público é mais generoso (e menos exigente) para os cantores.


Num plano inferior estiveram o barítono azeri Elchin Azizov no papel do médico Ibn-Hakia, o baixo bielorusso Alexander Roslavets como o rei René e Larissa Diadkova como Martha. Nas intervenções menores cantaram Harold Wilson (Bertrand), Mark Schowalter (Alméric), Megan Marino (Laura) e Ashley Emerson (Birgitta).





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IOLANTA, METropolitan Opera, New York, February 2019

The opera Iolanta by P.I. Tchaikovsky was once again on stage at the Metropolitan Opera in New York. I did not know the staging of Mariusz Trelinsky. It is very nice and spectacular. There is a central, rotating hub, where is the room of Iolanta, the blind princess, decorated as a hunting lodge. On the only visible wall are several horns of deer. To the center the bed or a small table. Around it is a forest where, early on, images of deer grazing, running and being hunted are projected. All the action takes place inside the room and in the surrounding forest.

Conductor Henrik Nánási was very good, with great attention to the singers and extracting a beautiful sound of the magnificent Orchestra of the Metropolitan Opera. The Choir was also good, despite the short intervention.

As for the singers there was some heterogeneity. In the main role Bulgarian soprano Sonya Yoncheva was magnificent. She is another world-class singer, with a beautiful and crystalline voice, fantastic top notes and with an excellent presence on stage.

Count Gottfried Vaudémont was the American tenor Matthew Polenzani who was also great in vocal interpretation. He also has a very beautiful timbre and has always been well audible.

American baritone Lucas Meacham was a quality Robert, especially in the first intervention. He also has a powerful voice and was very much applauded in what is perhaps, among the most important opera houses, the one where the public is more generous (and less demanding) to the singers.

On a lower plane were Azeri baritone Elchin Azizov in the role of the doctor Ibn-Hakia, Belarussian bass Alexander Roslavets as King René and Larissa Diadkova as Martha. In minor interventions sang Harold Wilson (Bertrand), Mark Schowalter (Alméric), Megan Marino (Laura) and Ashley Emerson (Birgitta).

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domingo, 15 de fevereiro de 2015

IOLANTA de P. I. Tchaikovsky e O CASTELO DO BARBA AZUL de B. Bartók


Assiste-se actualmente à estreia (!) da última ópera de Tchaikovsky no Metropolitan Opera de Nova Iorque. Trata-se da ópera Iolanta, op. 69, que foi composta e estreada em São Petersburgo em 1892 no Teatro Mariinsky. O libreto é do irmão mais novo do compositor — Modest Tchaikovsky — e baseia-se na peça dinamarquesa Kong Rénes Datter (A Filha do Rei René) de Henrik Hertz.


A ópera desenrola-se em 4 cenas de um único acto e trata de uma princesa que nasceu cega e que se vê privada não só desse sentido, mas de todo o conhecimento do que é a visão, uma vez que o seu pai deliberadamente lho esconde. Iolanta desconhece o que é ver, o que é a luz, as cores, ou tudo o que a visão pode representar. Para ela, os olhos servem para chorar e isso dá-lhe alívio às suas amarguras. Poderão ler uma sinopse aqui.

Trata-se de uma ópera sobre a descoberta dos sentidos e sobre o poder do amor de transformar e curar. E a música de Tchaikovsky é esplendorosa!


O elenco escolhido foi de altíssimo nível. Para começar, a orquestra foi dirigida pelo grande maestro russo Valéry Gergiev, um especialista neste reportório e que, em 2009, já tinha dirigido muitos destes cantores no Teatro Mariinsky nesta mesma ópera e com a mesma encenação. A orquestra esteve fabulosa, a explorar todas as sonoridades tchaikovskianas.


A estrela maior era, naturalmente, a soprano russa Ana Netrebko. Iolanta é uma personagem ambivalentemente frágil. Se, por um lado, é cega e dependente de terceiros, vivendo ignorantemente com isso e maravilhada pelo mundo das pessoas e da simplicidade das coisas (a ajuda que os outros lhe dão, o som de um riacho, etc.), por outro tem um forte desejo de superação, de procura e de justiça. Netrebko esteve, como habitualmente, a um nível estrelar, com uma voz límpida, cheia, plena de vida. E cenicamente representou ao mais alto nível a fragilidade de alguém que se vê privado de um dos órgãos dos sentidos que mais liberdade nos dá. Esteve magnífica no arioso Atchevo eta prezhde ne znala (Porque não soube disto antes?), bem como no dueto com Vaudémont Tvajo malchan’je nepan atna (Não compreendo o teu silêncio) onde revelou uma excelente ligação a Beczala. Está nas suas sete quintas neste reportório russo e o prazer que tem a cantá-lo é evidente.


Vaudémont foi o tenor polaco Piotr Beczala. A personagem representa um homem que se apaixona à primeira vista pela frágil Iolanta e que, nesse instante, percebe que dará a sua vida por ela, aceitando-a tal como é. Beczala é um dos melhores tenores da actualidade (senão mesmo o melhor!) e demonstrou-o uma vez mais. A sua interpretação foi de grande nível.



Aleksei Markov foi o Duque Robert. É uma personagem que estava prometida em casamento a Iolanta, mas que, não por conhecer o seu estado, está apaixonado por outra nobre e que, por isso, pretende romper o contrato. Markov apresentou-se a um nível elevadíssimo, apresentando uma voz de barítono cheia, com uma capacidade de projecção digna de nota e enorme expressividade. A sua ária Kto mozhet sravnit’sja s Matil’doj moej (Quem se pode comparar à minha Matilda?) foi fantástica.

O baixo ucraniano Ilya Bannik foi o Rei René. Tem um grave profundo, uma excelente projecção e expressividade vocal e cénica, transmitindo com intensidade as angústias e dúvidas da personagem. O barítono Elchin Azizov do Azerbaijão foi o médico mouro Ibn-Hakia. Exibiu-se em bom nível, embora não me tenha encantado. As restantes personagens foram interpretadas por um elenco equilibrado e sem falhas.


Deixei a encenação propositadamente para o final. A produção de Mariusz Trelinski é a que este já apresentara no Mariinsky. É interessante a forma como usa elementos de vídeo que se projectam em torno de uma caixa – pequeno ponto central da acção e do palco, envolto por um estranho mundo sombrio – que funciona como o quarto de Iolanta e que, com movimentos circulares, permite descobrir outras partes do palco de modo a representar as restantes cenas desta ópera de acto único. Acho que é uma encenação eficaz e que tem como elemento mais arrepiante a escuridão com que inunda a sala quando Vaudémont faz Iolanta descobrir que é cega. Não gostei apenas do facto de, na primeira cena, as cuidadoras de Iolanta adoptarem uma postura trocista. Mas, encenação por encenação, gostei mais daquela a que assisti no Teatro Real com Peter Sellars: mais simples, mais introspectiva, a trazer-nos a luz de outra forma.


Mariusz Trelinski foi quem sugeriu a Peter Gelb a realização de uma jornada dupla, juntando a Iolanta a ópera em um acto O Castelo do Barba Azul do húngaro Béla Bartók. A razão é a forma como se tocam de alguma forma, não apenas por serem ambas histórias do imaginário fantástico. Judith está cega pelo amor que nutre por Barba Azul e obstinadamente procura que Barba Azul lhe revele os seus segredos e o seu verdadeiro eu, sabendo dos rumores que correm de que todas as suas anteriores esposas haviam sido mortas. Fá-lo, de alguma forma, de um modo masoquista, explorando e confrontando Barba Azul com as suas fragilidades de homem fúnebre, reservado e atormentado pelo passado. Mas Barba Azul, tal como René, esconde a Judith a verdade da situação em que vive e que a espera. Este é o paralelo. Mas a ópera de Bartók é um imenso drama psicológico ao nível dos melhores e mais elaborados thrillers. Poderão ler uma sinopse aqui.


O libreto baseia-se na peça La Barbe bleue de Charles Perrault e foi escrito entre 1908-10 pela mão de Béla Balázs que o dedicou em conjunto aos seus amigos Bartók e Kodály. Foi a Béla Bartók quem coube, para apresentação num concurso em 1911, escrever a música. Assim, nasceu esta ópera interessantíssima pela enorme densidade psicológica e dramática que encerra, acompanhada por uma música inspiradíssima e moderna.

A encenação é fabulosa e penso que se poderá considerar um exemplo do que é a utilização das novas tecnologias na ópera actual. Começa com o prólogo em que Bardo convoca a audiência a observar a cena que se vai desenrolar e nos questiona se fazemos parte ou não do que vamos ver. Fá-lo com vídeo em que se vêm imensos troncos de árvores numa floresta sombria e escura acompanhados pelo som horripilante do ranger dos troncos. Entretanto Bardo fala-nos com voz pesada através do sistema de amplificação do teatro. Está criado o cenário tenso e escuro que nos transporta para o sombrio castelo de Barba Azul e as suas 7 misteriosas portas. Surge Judith de vestido verde com Barba Azul de fraque. Chega num carro onde é entregue ao esposo no meio da floresta. Entram numa espécie de garagem e, rapidamente, se desenrola a acção.



As duas personagens entram depois num elevador panorâmico em que, de lado, surge uma projecção de vídeo de um corredor com várias portas. Depois é o desfilar de cenários: a câmara de tortura com a parede manchada de sangue, uma banheira onde Judith surge despida e descobre as jóias manchadas de sangue, etc.  




Tudo isto até à cena final em que há um corpo semienterrado que é o de Judith. Judith está horripilada com a sua própria imagem morta. As outras mulheres de Barba Azul dançam ao fundo e Judith antevê o seu fim. Barba Azul canta as virtudes das suas três mulheres (o amanhecer, o fulgor do sol do meio-dia, o entardecer, e a Judith o esplendor da luz da lua da meia-noite). Judith torna-se mais uma das mulheres eternas de Barba Azul. Fecha-se a sétima porta e cai o pano. Resultou tudo muito bem, num estilo muito cinematográfico e que nos conseguiu transmitir toda a tensão desta peça de uma forma que nos colou à cadeira e ao ecrã.


Para tal sensação não foi de menor relevo a interpretação excepcional de Valéry Gergiev aos comandos da competentíssima orquestra da Metropolitan Opera. Há uma mudança de paradigma musical clara entre a delicadeza exuberante de Tchaikovsky e a dureza da música escura da primeira metade do século XX de Bartók.


Além de Gergiev, a dupla de cantores esteve em destaque. A soprano alemã Nadja Michael (muito conhecida pelo seu papel de Salomé) foi uma Judith perfeita: voz completa, potente, expressiva e sofrida aliada a uma intensidade dramática e postura que conseguiu tornar a sua personagem muito credível. Aumentou a intensidade dramática ao longo de uma hora de uma forma angustiante à medida que percebia que o seu fim estava próximo, expondo a fragilidade dúbia da personagem. Formidável!


Também o baixo russo Mikhail Petrenko foi um Barba Azul  de excelência: voz escura e poderosa aliada a uma postura cénica contida, negra e misteriosa, condimentando bem a personagem.



Foi um Castelo do Barba Azul absolutamente genial e a que tiro o chapéu a Mariusz Trelinski e a Nadja Michael!

domingo, 13 de janeiro de 2013

ANNA NETREBKO, IOLANTA, Liceu Barcelona, Janeiro de 2013


(review in english below)

Iolanta é uma ópera em um acto de P.I. Tchaikovsky que conta a história de uma princesa cega, Iolanta, a quem todos escondem a existência da visão para lhe evitarem o desgosto da revelação. Um médico mouro, Ibn-Hakia diz que a consegue curar, mas apenas se ela tomar consciência da sua condição. O pai, o rei René, opõe-se. Um conde, Vaudemont, apaixona-se por ela, apercebe-se que é cega e diz-lho, para desespero o pai. O tratamento proposto pelo médico resulta e Iolanta começa a ver, para satisfação de todos.


 Apesar de a récita no Liceu de Barcelona ter sido em versão concerto, foi extraordinária e será daquelas que não esquecerei durante muito tempo. A razão?  Anna Netrebko!



 O Liceu ofereceu-nos um espectáculo com a Orquestra e Coro (reduzido) do Teatro Mariinski de São Petersburgo, sob a direcção do conceituado maestro russo Valery Gergiev, com um elenco totalmente russo. O maestro foi excelente, o Coro e a Orquestra também, apesar de pequeníssimos desacertos nos metais.



 Anna Netrebko cantou e maravilhou como Iolanta. Já aqui expressei muitas vezes a minha grande admiração por esta artista. Continuo a achar que canta cada vez melhor, tendo já atingido a excelência há anos. Mais uma vez foi fabulosa! A voz é magnífica em toda a sua grande extensão, luminosa, expressiva, sempre afinada e segura. E os agudos são de outro mundo! Encheu este grande teatro e todos os que assistiram a esta récita inesquecível. Mesmo em versão concerto, representou bem a princesa cega. Foi um privilégio raro poder assistir ao vivo a esta interpretação da Netrebko, quiçá o melhor soprano no activo.



 O rei René foi cantado pelo baixo Sergei Aleksashkin. Uma voz fantástica, bem audível, poderosa no registo mais grave, ao nível do que é a tradição de qualidade nos baixos russos.



 O tenor Sergei Skorokhodov interpretou o conde Vaudemont. Foi outro cantor muito bom, com um timbre algo metálico, mas bem audível em toda a extensão vocal.



 Nos papeis secundários, o baixo-barítono Edem Umerov (médico Ibn-Haki) e o barítono Alexaner Gergalov  (Robert) foram cantores de vozes fracas e desinteressantes.

As amigas de Iolanta Brigitta (Eleonora Vindau), Laura (Anna Kiknadze) e Marta (Natalia Yevstafieva) estiveram muito bem.








Uma récita memorável graças à Netrebko que levou ao delírio o público do Liceu!


Eu e várias dezenas de outros admiradores esperámos cerca de uma hora pela Netrebko na porta de saída dos cantores. Quando apareceu, saiu a correr, rodeada de seguranças, sem direito a autógrafos ou fotografias. Uma cena digna de um filme policial! Armado em paparazzi, isto foi o melhor que consegui.






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ANNA NETREBKO, IOLANTA, Liceu Barcelona, ​​January 2013

Iolanta is an opera in one act by PI Tchaikovsky that tells the story of a blind princess, Iolanta, whom everyone hides the existence of vision to avoid the heartbreak of the revelation. A oorish physician, Ibn-Hakia says can healher but only if she becomes aware of her condition. Her father, King René, opposes. A Count, Vaudémont, falls in love with her, realizes that she is blind and tells that to her, to the despair of her father. The treatment proposed by the doctor results and Iolanta begins to see, to everyone's satisfaction.

Although the performance at the Liceu has been in concert version, it was extraordinary and one of those that I will not forget for a long time.
The reason? Anna Netrebko!
 
Liceu offered us a performance with the Orchestra and Chorus (reduced) of  the Mariinsky Theatre of St. Petersburg, under the direction of renowned Russian conductor Valery Gergiev, with a cast entirely Russian. The conductor was excellent, the Choir and Orchestra as well, although a couple of minor mistakes in the metals.

Anna Netrebko sang and wondered in the role of Iolanta. I already expressed here often my great admiration for this artist. I think she sings better and better, having already achieved excellence for years. Once again she was fabulous! The voice is magnificent in all its great length, bright, expressive, refined and always in control. And the top register is out of this world! She filled this great theater and all who attended this unforgettable performance. Even in concert version, she acted very well as the blind princess. It was a rare privilege to be able to watch live this interpretation of Netrebko, perhaps the best running soprano in the world.
King René was sung by bass Sergei Aleksashkin. A fantastic powerful voice, with a remarkable low register, within the traditional quality level of the Russian basses.

Tenor Sergei Skorokhodov sung count Vaudémont. He was another very good singer, sometimes with a metallic timbre, but well audible throughout his vocal range.

In secondary roles, bass-baritone Edem Umerov (physician Ibn-Haki) and baritone Alexaner Gergalov (Robert) were singers with weak and uninteresting voices. Iolanta's friends Brigitta (Eleonora Vindau), Laura (Anna Kiknadze) and Marta (Natalia Yevstafieva) were very good.
A memorable performance thanks to Netrebko, leading Liceu’s audience to delirium!

I and several dozen other admirers waited about an hour for Netrebko at the stage door. When she appeared, she ran out, surrounded by security guards, without any autographs or photographs. A scene worthy of a thriller! Playing a papparazi-like for the first time, this was these photos were the best I could get.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Iolanta e Pèrsephone, Teatro Real, Madrid, 28 de Janeiro de 2012


É com grande satisfação que apresento de um novo amigo, colega e fanático, um texto sobre um espectáculo em Madrid. Quem deveria fazer esta introdução era o wagner_fanatic mas, como anda por terras britânicas a saborear Mozart, cabe-me a mim agradecer ao camo_opera esta sua primeira excelente contribuição para o nosso blogue que, como sempre, publicamos na íntergra:


Assistimos à penúltima récita da sessão dupla (Iolanta de Piotr Ilych Tchaikovsky e Pèrsephone de Igor Stravinsky) que o Teatro Real de Madrid propunha numa nova produção conjunta com o Teatro Bolshoi.
A encenação esteve, para ambas as obras, a cargo de Peter Sellars.


A primeira a ser interpretada foi Iolanta de Tchaikovsky. É uma última ópera do compositor e é marcada por um texto belíssimo (sem se basear em autores russos, mas na obra Henrik Hertz “A Filha do Rei René”) e música como só Tchaikovsky sabe compor. E não podia ter sido melhor! Assistimos de facto a um espectáculo de elevadíssima qualidade.

A encenação de Peter Sellars foi brilhante. É daqueles casos em que o rejuvenescimento cénico se agradece.

Não só foi muito eficaz, como traduziu o texto e emoções na ópera contidas. De realce o magnífico jogo de luzes e cores (nomeadamente entre vermelho e branco quando Iolanta não distingue as cores e Vaudémont se apercebe da sua cegueira), a alternância de sombras e de luzes, bem como os contrastes que foi provocando com a mudança de painéis. Os pórticos simples e eficazes que permitiram a criação das 4 cenas sem qualquer mudança de cenário foi, igualmente, uma ideia excelente e muito bem conseguida.


O jovem maestro grego — Teodor Currentzis — com formação na Rússia fez-nos sentir Tchaikovsky. Talvez um pouco exuberante em demasia no gesto, apresentou-nos uma interpretação com brilho e plena de harmonia romântica. Destacamos a beleza do quarteto e ária de Iolanta na primeira cena e a mestria com que dirigiu o coro a capela da última cena, glorificando-se Deus pela recuperação da visão de Iolanta. Esse foi um momento em que quase sentimos a sua presença mística.

A soprano russa — Ekaterina Scherbachenko — foi magnífica. Com um timbre muito bonito, seguro e expressivo, encheu a sala do Teatro Real com a emoção inocente de uma Iolanta desconhecedora do mundo da luz e das cores que habitava. Esteve soberba no dueto mais famoso da ópera. Sem dúvida um nome a reter!

O tenor que encarna Vaudémont — Pavel Cernoch — esteve, igualmente em bom plano. Com uma voz agradável, captou a atenção do público com uma interpretação jovial, sem que, todavia, brilhasse ao nível de outros elementos do elenco.

O baixo que interpreta o Rei René — Dmitry Ulianov — foi fantástico. Tem uma voz de enorme potência e brilho constantes, encheu sempre a sala com a sua interpretação carregada do desejo da cura da filha e do sofrimento que a sua impotência perante a sua cegueira lhe causava.


O famoso barítono Willard White foi um Ibn-Hakia muito bom. Com uma interpretação contida (como é esperado nesta personagem), a sua voz vestiu inteiramente a assertividade e emoção do texto, tendo sido agradabilíssimo de seguir.


O barítono Maxim Aniskin apresentou-se em grande nível no papel de Robert, duque de Borgõna. Tem uma belíssima voz e sabe colocá-la de um modo impecável. A destacar a ária em que exalta Matilde, a sua amada: perfeito!

O tenor Vasily Efimov foi igualmente muito bom a interpretar o escudeiro do Rei. Cumpriu com mestria o pequeno papel que lhe foi atribuído e destacou pela potência da voz no finale em que todo o elenco canta em conjunto.

O trio feminino de personagens — Marta (Ekaterina Semenchuk, contralto), Brigitta (Irina Churilova, soprano) e Laura (Lettia Singleton, mezzosoprano) — esteve em elevadíssimo nível, cumprindo com todas as solicitações dos seus registos com mestria e vozes límpidas e harmoniosas. Destacou (a realçar alguma) Ekaterina Semenchuk.

O Coro apresentou uma enorme qualidade. E foi divinal na cena à capela já referida.



Em suma, foi um espectáculo digno de uma casa que pretende afirmar-se como uma das referências internacionais do mundo da ópera. Tenho muita dificuldade (mas também não o desejo) em encontrar pontos negativos.


A segunda obra - Pèrsephone de Stravinsky - não é nem uma ópera, nem um oratório, nem um bailado. É, sim, um melodrama apresentado pela primeira vez em 1934 em Paris. Apresenta um texto de André Gide de elevada qualidade e a partir do qual se podem tirar diversas interpretações, nomeadamente, da origem da religião.

Encaixa com a ópera Iolanta, na medida em que partilha parte dos ensinamentos que se podem retirar do texto, apresentando diversos elementos de ligação com a primeira obra apresentada, o que permite justificar a sua encenação conjunta.

O encenador optou por utilizar os mesmos elementos cénicos, alternando os efeitos de luz e cores novamente com muita mestria. O bailado, com elementos simples, foi bonito, expressivo e representativo da história. Podemos dizer que foi muito eficaz e que serviu totalmente o texto e o propósito da obra.

De realçar a forma como conseguiu dar dimensão aos contrastes da escuridão das profundezas do Hades e da luz da vida ao cimo da Terra, na qual se pode ler uma metáfora de teor agrícola bem patente no facto de Persèphone ser a Deusa dos cultivos e Eumolpe, o Deus dos mortos: da terra (escuridão representada pelo Hades) brota a vida (luz existente na terra).


O maestro Vicente Alberola foi quem dirigiu esta obra. E fê-lo com qualidade, mostrando conhecimento do estilo musical de Stravinsky.

O tenor Paul Groves em Eumolpe foi magnífico. Num papel muito difícil pela construção melódica que Stravinsky pouco adaptou à língua francesa (desconsiderado que as suas palavras são, por regra, agudas) esteve muito seguro, apresentando um timbre em todos os momentos muito agradável, transmitindo toda a emoção da personagem. Muito bom!

A narradora Dominique Blanc foi auxiliada por amplificação digital (necessária?) e foi eficaz. Sem nada a apontar.

Os bailarinos do Amrita Performing Arts do Camboja (Sam Sathya em Persèphone; Chumvan em Déméter; Khon Chansithyka em Pluton; e Nam Narim em Mercure, Démophoon e Triptolème) tiveram um enorme destaque dado pela encenação e foram, com os elementos de dança simples, capazes de transmitir não só a história, como as suas emoções.

O Coro esteve, novamente, num nível muito elevado, destacando-se igualmente o Coro infantil muito bem orientado.

Em conclusão, apesar de não ser o nosso tipo musical preferido, nem a música de Stravinsky nesta obra atingir a qualidade de Le Sacre du Primtemps, é uma obra muito interessante com um excelente texto e que permite muitas reflexões. Valeu bem a pena conhecer!

Queremos deixar, ainda, uma pequena nota sobre a iniciativa do Teatro Real em realizar um comentário pré-concerto 30min antes de cada récita: é muito informativo e de elevada qualidade. Aliás, o senhor que fez este comentário (e creio que fará os outros) é um excelente comunicador.