sábado, 16 de dezembro de 2017

TURANDOT, METropolitan Opera, Nova Iorque / New York, Novembro / November 2017

(review in English below)

A ópera Turandot de G. Puccini já foi várias vezes comentada neste espaço, pelo que me limitarei a uma breve apreciação do espectáculo em cena na Metropolitan Opera.



A velhinha encenação de Franco Zeffirelli, muito datada e vistosa, ainda desencadeia aplausos quando a cortina abre nos diferentes actos.




A direcção musical, excelente, foi desta vez de Carlo Rizzi e a orquestra e coro estiveram ao mais alto nível.



Já em relação aos cantores solistas, não se pode dizer o mesmo. O tenor letão Aleksandrs Antonenko foi o Calaf da noite. Tem uma voz excessivamente nasalada que torna o timbre algo estranho e a interpretação vocal não brilha. Começou mal mas foi melhorando ao longo da récita, nunca atingindo um nível de excelência. Em cena é sempre muito estático, o que não favorece a interpretação.



A veterana soprano sul-coreana radicada há muito nos EUA Hei-Kyung Hong foi a Liù, e cantou apenas nesta récita. Está longe do seu auge vocal mas, ainda assim, foi a melhor da noite, com uma interpretação muito credível. A voz é suave e mantém um timbre bonito, embora a cantora faça um ruído excessivo na inspiração quando canta. No final foi a mais aplaudida e agraciada com vários ramos de flores.



A soprano ucraniana Oksana Dyka foi uma Turandot elegante em palco, mas com uma voz de timbre excessivamente agudo, roçando sempre a estridência, embora bem audível sobre a orquestra. A encenação não lhe permite grandes movimentações cénicas interpretativas.




O baixo búlgaro Giorgi Kirof estreou-se neste teatro com o Timur. Tem uma voz respeitável, sobretudo no registo grave, mas nem sempre foi bem ouvido.




Alexei Lavrov (Ping), Tony Stevenson (Pang) e Eduardo Valdes (Pong) formaram um trio homogéneo e de bom nível na interpretação vocal e cénica (nesta encenação os únicos com espaço para o fazerem).



Ronald Naldi (Emperador Altoum) e Jeoncheol Cha (mandarim) estavam colocados no fundo do palco e, embora bem caracterizados, mal se ouviram nos seus pequenos papéis.






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TURANDOT, METropolitan Opera, New York, November 2017

G. Puccini's opera Turandot has been commented several times in this blog, so I will limit myself to a brief appreciation of the show on stage at the Metropolitan Opera.

Franco Zeffirelli's old-fashioned, very dated and eye-catching production, still unleashes applause when the curtain opens on different acts.

The musical direction, excellent, was this time by maestro Carlo Rizzi and the orchestra and choir were at the highest level.

As for solo singers, the same can not be said. Latvian tenor Aleksandrs Antonenko was the Calaf of the evening. The singer has an overly nasal voice that makes the timbre something strange and the vocal interpretation does not shine. He had a bad start but improved throughout the performance, never reaching a level of excellence. On stage he was always very static, which does not favor interpretation.

Veteran South Korean soprano long settled in the US Hei-Kyung Hong was Liù, and she sang only in this recital. She is far from her vocal peak but, nevertheless, she was the best of the night, with a very credible interpretation. The voice is soft and keeps a beautiful timbre, although the singer makes an excessive noise in the inspiration when she sings. In the end she was the most applauded and graced with several bouquets.

Ukrainian soprano Oksana Dyka was an elegant Turandot on stage, but with an overly loud upper range timbre, rubbing the strident, though always audible over the orchestra. The staging does not allow her great interpretive scenic movements.

Bulgarian bass Giorgi Kirof debuted in this theatre with Timur. He has a respectable voice, especially in the low register, but he was not always heard over the orchestra.

Alexei Lavrov (Ping), Tony Stevenson (Pang) and Eduardo Valdes (Pong) formed a homogeneous and good trio in vocal and scenic performance (in this staging the only ones with room to do so).

Ronald Naldi (Emperor Altoum) and Jeoncheol Cha (Mandarin) were placed at the bottom of the stage and, although well characterized, they were hardly heard in their small roles.


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sábado, 9 de dezembro de 2017

Cavalleria Rusticana / Pagliacci — ROH, 2.12.2017

(Review in English below)

As óperas Cavalleria Rusticana (Pietro Mascagni) e Pagliacci (Ruggero Leoncavallo) são inquestionáveis expoentes do verismo que marcaram o cenário lírico italiano no final do século XIX. A sua apresentação em conjunto fê-las ganhar dimensão e projeção no mundo lírico, não porque não tenham qualidade para serem apresentadas individualmente, mas pela sua reduzida dimensão e pelo contexto que as liga: ambas são histórias de amor, ciúme, ódio, crime e tragédia. Ambas tragédias populares que são a vida de todos.

Assisti à produção da Royal Opera House do passado dia 2 de Dezembro de 2017.


Trata-se de uma produção dirigida por Damiano Michieletto que a ROH estreou em 2015. E é muito interessante. Tudo se passa num cenário rural sobre um palco giratório.

Começando pela Cavalleria Rusticana, a taberna passa a ser uma padaria com um enorme letreiro a dizer “Panificio”. Mas a cena do vinho é passada no exterior da padaria, onde estão umas mesas e bancos corridos, pelo que em nada transtorna a acção. Começa com a população estática reunida em torno de Turiddu já morto, enquanto a sua mãe chega e o chora desesperada. Depois toda a acção decorre em analepse. E a sequência da acção desencadeia-se com dinamismo. Tem três pormenores que destacaria. A colocação de cartazes a anunciar “Pagliacci”, a igreja transformada numa procissão em que a Nossa Senhora aponta o dedo à excomungada Santuzza e, durante o Intermezzo, a oferta de um lenço e a troca de um beijo entre um padeiro e uma jovem que são o Sílvio e a Nedda de Pagliacci.


O palco rotativo mantém-se em Pagliacci. Usam-no para mostrar um camarim, a entrada de uma sala polivalente de um colectivo popular cujo interior é dotado de um palco. Tonio surge no camarim e apresenta-se como Prólogo. Depois a acção decorre de forma fluida de cena para cena. Interessantemente, no Intermezzo surge Santuzza a confessar-se a um padre, sendo, de seguida, recebida pela Mamma Lucia que a abraça e lhe acaricia o ventre que espera um filho de Turridu, numa forma interessante de, por um lado, a absolver, e de, por outro, dar continuidade a uma história terminada abruptamente. Termina com Tonio a dizer que a comédia acabou, enquanto se acendem projectores que iluminam o público, envolvendo-o na tragédia.


Tudo decorre representando um povo rude e agressivo, mas é isso que se espera de uma localidade rústica do sul de Itália ainda que transportada para os anos 60. Diria, pois, que são encenações interessantes e que proporcionam uma ligação entre ambas as óperas que enriquece a experiência do público e que em nada adultera os significados das histórias.

© Catherine Ashmore

A Cavalleria Rusticana apresentava, como um dos atrativos principais, a estreia de Elina Garanca como Santuzza. Esteve, de facto, em grande nível com uma voz extremamente adequada ao papel e que promete poder crescer mais. Foi óptima nas suas diversas cenas “Inneggiamo”, “Voi lo sapete, o Madre”, ou “Tu qui, Santuzza?”. Cenicamente representou uma Santuzza desiludida com o seu amor, sem futuro, rejeitada por todos e dilacerada por ter denunciado Turiddu a Alfio.

© Catherine Ashmore

Alfio foi o barítono Mark Doss que é dotado de uma voz com um enorme volume e um timbre muito interessante, tendo conseguido catapultar-se para uma excelente prestação. A mamma Lucia de Elena Zilio esteve igualmente bem, transmitindo ao público o desespero da mãe que perde o seu filho. A Lola de Martina Belli foi sedutora e provocante, ao que aliou uma boa prestação vocal.

© Catherine Ashmore

O maior destaque foi para o Turiddu de Bryan Hymel. É um tenor que muito aprecio pelas suas qualidades técnicas, beleza tímbrica e qualidade cénica. Diria que foi um Turiddu quase perfeito e a sua interpretação de “Mamma, quel vino è generoso” foi sublime não apenas pelos agudos fáceis, mas sobretudo pela emoção que o trio da voz e expressões emocional e corporal passaram para o público.

No Pagliacci, Bryan Hymel volta a ser o protagonista no papel de Canio. E voltou a brilhar, oferecendo um “Vesti la guibba” impressionante. 



O Tonio de Simon Keenlyside também foi perfeito: a voz é belíssima e dotada de uma expressão e lirismo assinaláveis. Também as suas qualidades como ator tornaram o seu Tonio muito convicente.

© Catherine Ashmore

Carmen Gianattasio foi também uma Nedda interessante: tem uma voz muito bonita e uma boa presença em palco, apontando-lhe a dicção como um defeito. O Beppe de Luís Gomes foi de muito boa qualidade, assim como o Sílvio de Andrzej Filonczyk que tem uma bonita voz de barítono e se mostrou um amante apaixonado.

O coro apresentou uma enorme qualidade em ambas as óperas, assim como a orquestra da ROH que foi dirigida por um Daniel Oren inspirado.


Dada a qualidade global e homogeneidade vocal pode afirmar-se que se assistiu a um grande espectáculo. 


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(Review in English)

The operas Cavalleria Rusticana (Pietro Mascagni) and Pagliacci (Ruggero Leoncavallo) are unquestionably exponents of verismo that marked the lyrical Italian scene in the late nineteenth century. Their presentation together made them gain a new dimension and projection in the lyrical world, not because they do not have quality to be presented individually, but because of their small size and the context that connects them: both are stories of love, jealousy, hatred, crime and tragedy. Both popular tragedies that are everyone's life.

I attended the production of the Royal Opera House on 2 December 2017.

It is a production directed by Damiano Michieletto that the ROH debuted in 2015. And it's very interesting. Everything happens in a rural setting on a rotating stage.

Starting at Cavalleria Rusticana, the tavern becomes a bakery with a huge sign saying "Panificio". But the wine scene is passed outside the bakery, where there are tables and benches running aside, so that nothing upsets the “normal” action. It begins with the static population gathered around Turiddu already dead, while his mother arrives and cries him desperately. Then all the action takes place in analepse. And the sequence of action unfolds with dynamism. It has three details that I would highlight. Placing signs announcing "Pagliacci", the church transformed into a procession in which Our Lady points the finger at the excommunicated Santuzza, and during the Intermezzo, offering a handkerchief and exchanging a kiss between a baker and a young woman who are Silvio and Nedda of Pagliacci.

The rotating stage remains in Pagliacci. They use it to show a dressing room, the entrance of a polyvalent hall of a popular collective whose interior is endowed with a stage. Tonio appears in the dressing room and is presented as Prologue. Then the action flows smoothly from scene to scene. Interestingly, in the Intermezzo Santuzza arises to confess to a priest, being then received by Mamma Lucia who embraces and caresses the belly that awaits a son of Turridu, in an interesting way of, on the one hand, to absolve, and, on the other hand, to give continuity to a story abruptly ended. It ends with Tonio saying that the comedy is over, while lighting projectors that illuminate the public, enveloping it in the tragedy.

It all happens to represent a rude and aggressive people, but this is what is expected of a rustic locality of the south of Italy although transported to the 60s. I would say, therefore, that they are interesting scenarios and that they provide a connection between both operas that enriches the experience of the public and that in no way adulterates the meanings of the stories.

Cavalleria Rusticana presented, as one of the main attractions, the debut of Elina Garanca as Santuzza. She was, in fact, on a high level with a voice that was extremely fit for the role and that promises to grow more. She was great in her various scenes "Inneggiamo", "Voi lo sapete, o Madre", or "Tu qui, Santuzza?". Cenically she represented a Santuzza disillusioned with her love, without a future, rejected by all and torn for having denounced Turiddu to Alfio.

Alfio was the baritone Mark Doss who is endowed with a voice with a huge volume and a very interesting timbre, having managed to catapult himself for an excellent performance. Elena Zilio's Lucia was equally well, conveying to the public the desperation of the mother who loses her son. The Lola performed by Martina Belli was seductive and provocative, to which allied a good vocal performance.

The biggest highlight was for Bryan Hymel's Turiddu. He is a tenor that I greatly appreciate for its technical qualities, voice beauty and scenic quality. I would say that he was a near perfect Turiddu and his interpretation of "Mamma, quel vino è generoso" was sublime not only by the easy highs, but especially by the thrill of the trio of voice and emotional and corporal expressions passed to the public.

In Pagliacci, Bryan Hymel returns to be the protagonist in the role of Canio. And he returned to shine, offering an impressive "Vesti la guibba".

Tonio by Simon Keenlyside was also perfect: the voice is beautiful and endowed with a remarkable expression and lyricism. Also his qualities as an actor have made his Tonio very convincing.

Carmen Gianattasio was also an interesting Nedda: she has a very beautiful voice and a good presence on stage, pointing to her diction as a defect. The Beppe by Luís Gomes was of very good quality, as was Sílvio by Andrzej Filonczyk, who has a beautiful baritone voice and was a passionate lover.

The choir presented a tremendous quality in both operas, as well as the ROH orchestra which was directed by an inspired Daniel Oren.


Given the overall quality and vocal homogeneity it can be affirmed that a great show was seen.

sábado, 2 de dezembro de 2017

THE EXTERMINATING ANGEL, METropolitan Opera, Nova Iorque /New York, Novembro / November 2017

(text in English below)

A nova opera de Thomas Adès, The Exterminating Angel, esteve pela primeira vez em cena na Metropolitan Opera de Nova Iorque numa produção de Tom Cairns.



A ópera é baseada num filme surrealista homónimo de Luis Buñuel (1962) em que um casal aristocrata convida um grupo de amigos para um jantar após assistirem a uma ópera e, por razões inexplicáveis, ficam psicologicamente aprisionados na sala, onde acontecem episódios insólitos em sucessão. À época o filme foi considerado uma crítica ao regime fascista de Franco em Espanha. A crítica actual, muito favorável, sugere que pode ser também uma metáfora à situação presente nos EUA.



Interpretações à parte, confesso que a ópera foi difícil para mim (para dizer o mínimo). Antes do início há 3 carneiros vivos no palco, que regressam mais tarde (já em figuras), um dos quais será morto e comido pelos participantes no jantar.



A direcção musical foi do próprio compositor, Thomas Adès e a música é globalmente difícil, embora com partes mais acessíveis.



Participam 15 solistas e, nesta produção, todos cantores de grande qualidade. Os anfitriões Edmundo de Nobile (tenor Joseph Kaiser) e a sua mulher Lucia de Nobile (soprano Amanda Echalaz) convidaram Leticia Maynar (Audrey Luna), soprano de registo muito agudo que é a cantora de ópera que os convidados ouviram e homenageiam. O barítono Rod Gilfry é Alberto Roc, o maestro, que vem com a mulher, a pianista Blanca (mezzo Christine Rice). Uma viúva jovem, Silvia de Ávila (soprano Sally Matthews) tem uma relação incestuosa com o irmão, Francisco de Ávila (contratenor Iestyn Davies). Um médico, Dr. Carlos Conde (baixo John Tomlinson) acompanha a doente terminal Leonora Palma (mezzo Alice Coote). Beatriz (soprano Sophie Bevan) e o noivo Eduardo (David Portillo) estão profundamente apaixonados um pelo outro e fazem um pacto de suicídio depois de passarem a primeira noite juntos dentro de um armário. Finalmente Raul Yebenes, um explorador (tenor Frédéric Antoun), o coronel Alvaro Gómez (barítono David Adam Moore) e o idoso Señor Russel (baixo Kevin Burdette) completam a lista de convidados, para além do criado Julio (baixo barítono Christian Van Horn).





Um espectáculo surreal que está visto.

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THE EXTERMINATING ANGEL, METropolitan Opera, New York, November 2017

Thomas Adès's new opera, The Exterminating Angel, was on stage for the first time at the Metropolitan Opera in New York on a Tom Cairns production.

The opera is based on a homonymous surrealist film by Luis Buñuel (1962) in which an aristocratic couple invites a group of friends to a dinner after attending an opera and, for unexplained reasons, are psychologically imprisoned in the room, where unusual episodes take place in succession. At the time the film was considered a critic to the fascist regime of Franco in Spain. The current, very favorable critique suggests that it can also be a metaphor for the present situation in the USA.

Interpretations aside, I confess that the opera was difficult for me (to say the least). Before the start there are 3 live sheep on stage, which return later (already in statues), one of which will be killed and eaten by dinner participants.

The musical direction was of the composer himself, Thomas Adès and the music is globally difficult, although with more accessible parts.

There are 15 soloists and, in this production, all singers of top quality. Hosts Edmundo de Nobile (tenor Joseph Kaiser) and his wife Lucia de Nobile (soprano Amanda Echalaz) invited Leticia Maynar (Audrey Luna), a very top register soprano who is the opera singer whom the guests listened to and honor. The baritone Rod Gilfry is Alberto Roc, the conductor, who comes with his wife, the pianist Blanca (mezzo Christine Rice). A young widow, Silvia de Ávila (soprano Sally Matthews) has an incestuous relationship with her brother, Francisco de Ávila (countertenor Iestyn Davies). A doctor, Dr. Carlos Conde (bass John Tomlinson) accompanies the terminally ill patient Leonora Palma (mezzo Alice Coote). Beatriz (soprano Sophie Bevan) and her fiancé Eduardo (David Portillo) are deeply in love with each other and make a suicide pact after spending the first night together in a closet. Finally Raul Yebenes, an explorer (tenor Frédéric Antoun), Colonel Alvaro Gomez (baritone David Adam Moore) and the elderly Mr. Russel (bass Kevin Burdette) complete the list of guests, in addition to the servant Julio (bass baritone Christian Van Horn).

A surreal opera that is seen.


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